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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

XIX BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO - Bienal News 3ª Edição


Já baixou o nosso APP? Disponível em todos sistemas operacionais e gratuito, nele você fica por dentro de todas as informações da XIX Bienal do Livro e mais: pode montar uma agenda personalizada com as suas atrações favoritas para não perder nada! Baixe e garanta o seu ingresso no maior evento literário do país! Te esperamos, Venha, Viva, Conte!
 Considerada a Bienal mais acessível de toda a história, pela primeira vez, o evento oferece visitas guiadas para Pessoas com Deficiência Visual explorarem o Pavilhão Infantil. 
Acompanhados por dois guias, crianças e adultos terão a oportunidade de conhecer o espaço por meio de audiodescrição e experiência sensorial. Na toca de leitura, disponibilizaremos livros em braile.

As visitas acontecerão nos dias 30 e 31 de agosto e 01, 04, 05, 06, 07 e 08 de setembro, às 9h, durante a semana, e às 10h, nos finais de semana, e são limitadas a 20 pessoas.

A inscrição pode ser realizada no site e o ponto de encontro será no balcão de informações do Pavilhão das Artes. Sujeito à lotação. Os dias 02 e 03/09 estão reservados para 40 crianças com deficiência visual do Instituto Benjamin Constant, que serão contempladas com convite para visitar a Bienal.

Pela primeira vez, todas as sessões da programação oficial terão tradução em libras.


O Pavilhão das Artes, maior galeria de arte urbana da América Latina, ganhou um toque especial com obras de mais dois artistas renomados: KUBO e Maurício de Sousa.
Carlos Kubo, artista plástico filho de pais japoneses, país homenageado desta edição, deixa sua marca no espaço com duas esculturas e um painel da série “1000 Tsurus by Carlos Kubo”. Já o cartunista e escritor Maurício de Sousa colore o espaço com um painel de quadrinhos dos personagens da Turma da Mônica, em parceria com a muralista Simone Siss. Celebrando 60 anos de carreira, Mauricio assina a obra na abertura do evento, dia 30, às 9h

Grande homenageada desta edição da Bienal por seus 50 anos de carreira, Ana Maria Machado visitou a Escola Municipal Domingos Bebiano, em Inhaúma, e interagiu com cerca de 100 alunos, de 6 a 12 anos. No encontro, a autora conversou com as crianças sobre a importância da leitura e sua ilustre trajetória e promoveu uma contação de história do livro “Jabuti Sabido e Macaco Metido”. Durante a leitura, o ator Patrick Dadalto deu pitadas de humor com brincadeiras sobre a narrativa. A ação aconteceu no último dia 16.
Já no dia 13 de agosto, a influenciadora e escritora Nathália Arcuri esteve na Escola Municipal Epitácio Pessoa, no Andaraí. 
Conhecida por suas dicas de educação financeira no canal “Me Poupe”, que virou livro, Nathália falou para cerca de 120 estudantes adolescentes, que compartilharam seus planos para os próximos anos e ouviram dicas preciosas para um futuro próspero.

“Atire a primeira pedra” quem ainda não viu um totem ou galhardete da Bienal transcendendo o Riocentro? Fazendo jus ao fato de estar entre os quatro maiores eventos do Rio de Janeiro, a Bienal tomou conta da cidade. São 800 galhardetes e 16 totens espalhados por diversos bairros. Espalhe ainda mais essa ideia!

Reforçando a missão do evento – incentivar o hábito da leitura para mudar o país – firmamos parceria com o MetrôRio, empresa do grupo Invepar, para promover a ação “Embarque na Leitura”. No dia 27 de agosto, os clientes que embarcaram nas estações terminais Pavuna, Botafogo e Jardim Oceânico encontraram livros sobre os assentos. Ao todo, mil obras, de diferentes gêneros literários, foram “achadas” pelos passageiros. Algumas personalidades como Gilberto Gil participaram da ação e doaram livros com dedicatórias.
Já no BRT, visando garantir a comodidade e agilidade no transporte, a iniciativa é diferente: vamos disponibilizar uma linha extra especialmente criada para atender o público do evento durante os finais de semana. A Linha 99 – Jardim Oceânico x Terminal Recreio (Via Bienal) Expresso irá operar nos dias 31 de agosto e 1, 7 e 8 de setembro, de 9h30 às 22h45, e os visitantes deverão desembarcar na estação OLOF PALME.



E-mail enviado por: GL EVENTS CENTRO DE CONVENCOES S.A - 05.495.076 0001-59
AV. SALVADOR ALLENDE, 6555 - BAIRRO DA TIJUCA, RIO DE JANEIRO, RJ, 22783127 BR 


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segunda-feira, 22 de abril de 2019

OUVIR HISTÓRIAS – Ana Maria Machado


Ora, direis, ouvir histórias... mas é o que proponho neste mês que celebra o livro infantil. Internacionalmente, pelo aniversário de Andersen dia 2. No Brasil, porque Monteiro Lobato nasceu a 18 de abril.

Narrativas falsas criam fake news, espalhando mentiras como se fossem reais. Mas o que vale é o contrário: a ficção que finge ser mentira para revelar a verdade.

Há poucos dias, um deputado leitor disse que a prioridade do MEC vinha sendo lutar contra moinhos de vento. Outro viu que o ministro estava no bico do corvo.

Os bons livros lidos desde cedo abrem o pensamento para julgar melhor. Sejam originais ou recontos de clássicos. Sobretudo se chegam pelas mãos de adultos capazes de orientar uma leitura crítica e fecunda. Referências para toda a vida. Ajudam a se mover entre mentirosos como Alexandre, o Barão de Munchausen ou Pinóquio, sabendo em cada caso do que se deve rir ou ter pena. E aquilo que não dá para engolir, como faz o menino que anuncia que o rei está nu, e espertalhões querem enganar todo o reino.

O convívio com a leitura de ficção deixa marcas. Indaga “Para que essa boca tão grande?” Mostra que um dia mudará a resposta do espelho à pergunta de quem é a mais bela de todas. Ensina que há um limite além do qual a carruagem suntuosa volta a ser abóbora cercada de ratos. E que quem finge ser Robin Hood pode apenas estar deslumbrado com as riquezas da caverna de Ali Babá.

Leitores de histórias sabem que há tesouros a descobrir num texto, mais camadas do que as exigidas pela simples reação imediata de um clique. Já encontraram Alice sem rumo, sem saber para onde ir, mas capaz de enfrentar uma Rainha de Copas que insistia em mandar cortar cabeças a torto e a direito, dando primeiro a sentença e só depois levando a julgamento. Entre os contemporâneos, deliciam-se com Ruth Rocha, seu “Reizinho mandão” e seu “Rei que não sabia de nada” — para não falar em sua “História de rabos presos”.

Nada como boas histórias para expor fábulas, mitos e lendas.

O Globo, 15/04/2019

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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013.

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

APRENDENDO A JOGAR NO INÍCIO DO GOVERNO - Ana Maria Machado


Chegamos à metade dos tais cem dias de lua de mel do governo. Teve de tudo : Davos, caso Queiroz/Flávio, cirurgia, Brumadinho, pacote penal, circo no Senado, incêndio no CT do Flamengo, laranjal no PSL desmentido, fritura. E o país, como na canção: vivendo e aprendendo a jogar.

Estamos todos aprendizes. Eles, a governar. Nós, a sermos governados por algo diferente. Com a perspectiva de um Estado menor. Um ministério com menos sindicalistas e mais militares. Situando-nos em outro mapa. Alguns, a desconfiar que talvez exista um caminho liberal, diverso do ideal socialista da esquerda e do autoritarismo da direita. Talvez, abandonar rótulos e ofensas da história recente e reconhecer que andamos chamando o centro de direita, que FH é diferente de Bolsonaro, Tony Blair não era Thatcher, Clinton não era Trump, Macron não é Le Pen. E, a partir daí examinar o que estamos vivendo.

Por um lado, há recuos sensatos. Declarações atabalhoadas dão espaço a teleprompter e porta-voz. Já o Twitter…

Nas relações exteriores, a realidade mostra os riscos de bravatas. A ambiguidade em relação à intervenção militar na Venezuela periga ter consequências nefastas. Restrições árabes às exportações brasileiras ensinam a ir devagar com o andor a caminho de Jerusalém.

Por aqui, Brumadinho e os efeitos do temporal no Rio provam que cuidado com meio ambiente é coisa séria, vai muito além de retórica ou indústria de multa. Também a tragédia no Ninho do Urubu reforça o dever e a responsabilidade de prevenção, manutenção, fiscalização.

Num governo com reduzida base de apoio no Congresso, as redes sociais entram em campo. Senadores fotografam e postam seus votos — que o STF, cumprindo a lei derretida, determinara que fossem secretos. Dão uma surra nos velhos caciques. Algo diferente de ganhar no grito e na manobra.

O Globo, 18/02/2019

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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013.

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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

TRANSPARÊNCIA E GENTILEZA - Ana Maria Machado


Viver numa democracia pressupõe respeitar as urnas, os limites institucionais, o jogo de pesos e contrapesos entre os poderes. A alternância no governo, que agora teremos, configura uma troca de papéis e exige uma oposição que fiscalize e proponha alternativas, mas que saiba conviver com o desejo expresso da maioria. Hora de deixar para trás o “nós contra eles”. Mesmo se, como disse Ciro Gomes em relação ao PT, agora “eu sou o eles”. Ou, como se brincou por aí, tanto pediram #elenão que acabaram ganhando um Helenão. Ficaram cicatrizes. Por isso, o diálogo requer delicadeza.

Esse quadro acentua a importância de se expressar, opinar, perguntar, ouvir, analisar, corrigir, sugerir. Tentar entender. Abandonar melindres e a retórica de que a democracia corre risco se houver discordância. Admitir fatos. Reconhecer que a corrupção não foi invenção de juízes antipetistas. Que a nova matriz econômica de Dilma foi um desastre na ponta do lápis, não na má vontade da mídia. Que a ONU nunca recomendou o registro da candidatura de Lula e que nosso Judiciário não desrespeitou essa pretensa determinação — foi só a opinião avulsa de dois peritos de um comitê.

Hora de baixar a fervura. Ir além das redes sociais. Nisso, a relação do governo com a mídia é fundamental. Convém ser transparente. Não se pode barrar jornalistas em coletiva, nem usar verba de publicidade para chantagem. Para evitar curto-circuito em prejuízo do país, seria bom que o futuro governo seguisse o exemplo recente de Sergio Moro. Se todo mundo quer saber (e tem esse direito), o melhor é organizar uma entrevista coletiva, em vez de chutar a primeira frase que vem à cabeça de alguém acossado por microfones e celulares, entre jornalistas se acotovelando. Que se destine um espaço para esse encontro. Que cada um pergunte livremente e espere sua vez. Que o entrevistado responda com civilidade, desenvolva seu raciocínio, pese suas palavras.

Pode não alimentar a fogueira, mas é mais útil a todos. Precisamos disso.

O Globo, 26/11/2018



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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 20


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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

AGORA É CINZA - Ana Maria Machado


Com a eleição de Jair Bolsonaro, chega ao fim a campanha eleitoral mais exacerbada de nossa história, numa disputa de rejeições. Uns festejam a vitória e tripudiam, certos de que são os bons. Outros, derrotados, buscam bodes expiatórios e juram revanche. A poeira precisa assentar, pelo futuro de todos.

Talvez um bom começo de reflexão nos faça constatar que, em meio a tanta gente que votou diferente de nós, muitos (talvez a maioria) queriam o bem do país e tempos melhores. A polarização pode não ter deixado que se percebesse, mas muita gente não votou assim ou assado porque era comunista ou fascista, corrupto, vendido, racista ou homofóbico — em suma, não votou em um candidato porque ele era horrível mas votou apesar de ele representar horrores. Ou seja, escolheu apenas para impedir o outro de chegar lá, mesmo tendo de tapar o nariz para as características daquele cujo nome confirmava na urna. Sem qualquer entusiasmo por sua opção, muitos só queriam deter o que lhes parecia assustador. Votaram por pavor.

Há alguns anos, na campanha que levou um operário à Presidência, aprendeu-se que a esperança vencia o medo. Desta vez, se constatou que o medo se misturou à raiva e venceu a esperança, de roldão. Um medo fabricado por estratégias de demonizar a divergência. Palavras de ordem repetidas sem pensar, negando a realidade, impediram o exame dos fatos e a reflexão sobre eles. Não se discutiu programa nem se vislumbrou qualquer exame de consciência ou autocrítica. Ao longo do caminho, ficaram nomes respeitáveis, expelidos como inúteis em tempos de moralidade duvidosa, mentira e autoritarismo. Tempos de ouvidos tapados ao diálogo.

Agora, resta aos derrotados fazer oposição responsável, sem querer afundar o país, mas respeitando os limites institucionais, a Lava-Jato, a Ficha Limpa, os números e cuidando da qualidade da democracia tão esgarçada, enquanto se enfrentam os problemas imediatos, que são tantos.

Tempo de rescaldo, que agora é cinza. Com mais de 50 tons.

O Globo, 29/10/2018

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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013.

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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

AQUILO DEU NISTO - Ana Maria Machado



Em uma conjuntura eleitoral em que a retórica irresponsável insinua fraudes e ameaças de golpe, e se soma a mentiras em cascata, repete-se a pergunta: como chegamos a este ponto?

É que as coisas têm consequências concretas. É claro que escolhas levianas causam efeitos desastrosos. A falta da reforma política impede a renovação. O Congresso votou absurdo atrás de absurdo. O STF desencavou firula após firula para não deixar mudar nem punir poderosos. Inevitavelmente, de erro em erro, aquilo lá atrás deu nisto aqui.

Veja-se o incêndio do Museu Nacional. Não se trata de apontar culpados e crucificar o reitor ou propor a privatização das universidades, como os melindres distorceram as análises frias. Mas é impossível não atentar para prioridades equivocadas quando, como calculou a BBC, toda a verba aplicada este ano no museu daria para cobrir os gastos de 15 minutos do Congresso Nacional — ainda que ninguém esteja propondo seu fechamento. Alguma coisa está errada nisso. Que tal comparar? Que percentual coube a todos os nossos museus, em relação ao que o BNDES deu a Joesley Batista? Como não perceber que tantas carências fundamentais têm a ver com a desastrosa “nova matriz econômica” de Dilma e Mantega?

A corrupção pesa, sem dó: só o que o ex-diretor da Petrobras Pedro Barusco devolveu, como parte do acordo de delação premiada, daria para cobrir os gastos de 640 anos do museu, baseado no que recebeu em 2017.

E o atentado a Bolsonaro? Somou-se a tiros no ônibus de Lula, pedradas, truculência com manifestantes. Como se alimentou essa exacerbação das discordâncias, em nível tão hostil e raivoso? A escalada verbal corrói a política. Qualquer eleito precisa ser capaz de negociar com os perdedores, de modo a poder governar. Não é possível que cada aceno ao entendimento seja demonizado. Ou cada ideia divergente na busca de saídas gere xingamento e fúria.

Um clima desses tem consequências nefastas. Nele todos irão perder, mesmo os aparentes vencedores.

O Globo, 01/10/2018

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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013.

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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

INCRÍVEIS CRÉDULOS - Ana Maria Machado


Incríveis crédulos 

Incrédulos, assistimos a coisas incríveis. Candidatos que se gabam de não entender nada do que é necessário para governar, ou negam a existência de déficit. Ou se vangloriam de crer que é possível gastar sem limite e que o dinheiro público (seu, meu, nosso) não acaba nem falta nunca. Como quem acha que cartão de crédito é só uma forma de adiamento sem fim e sem consequências, mesmo que a dívida cresça qual bola de neve. Para eles, não basta ver para crer. Despreparados, preferem ignorar, na atual crise, o papel desempenhado pela perda de credibilidade e de confiança no país.
Audiências enormes seguem programas na televisão, convencidas de que é verdade o que “testemunhas” contam sobre curas milagrosas. Há ainda os que fecham os olhos aos efeitos trágicos sofridos por quem arrisca a vida acreditando em promessas mirabolantes de juventude eterna e bumbum duro, feitas por espertalhões.
E a toda hora vemos que, sem pensar nas consequências que sofrem e sofrerão, há eleitores que continuam a crer em juras mentirosas de políticos que se apregoam salvadores, a acenar com obviedades que parecem bem intencionadas mas não explicam qual o plano, projeto ou programa que será capaz de realizá-las.
Ao separar fé e fato, religião e política, a democracia busca manter Estado e igrejas em campos diferentes. Mas o Brasil deseduca: dá isenção fiscal para religiões, e transforma em ótimo negócio a proliferação de igrejas e seitas. Pomos vigários e vigaristas no mesmo saco. Estimulamos crendices e sectarismo (palavra da mesma raiz que seita), ótimos para eleger quem vai governar só para si e os seus, com ou sem ajuda da Márcia em reunião discriminatória no palácio do governo. Ou com aparelhamento de órgãos públicos. Ou apadrinhamentos de todo tipo.
Acredite se quiser. Mas as palavras revelam. Podem nos fazer pensar. E escolher melhor. Afinal, são da mesma raiz: crer , crente , crédulo, crendice, incrível, crédito, credibilidade, credencial.
O Globo, 06/08/2018


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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013.

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domingo, 5 de agosto de 2018

JAVALIS SELVAGENS E HOMENS COMUNS - Ana Maria Machado


Dá para imaginar o que é isso? Ficar dias e dias na escuridão total, encolhido entre o declive de um chão de pedra e a proximidade de teto e paredes de rocha, cercado de água, sem saber se é dia ou noite. De início, dividindo com mais 12 pessoas a parca ração de uma merendazinha. Depois, sem ter o que comer. E sem saber se alguém lá fora tem noção do que se passa.

De repente, brota da água uma luz. Uma voz estranha diz algo num idioma que ninguém entende. Quase ninguém. Ainda bem que há um imigrante no grupo. Bendito imigrante, a confirmar que alguém diferente sempre tem algo a dar. É o único capaz de compreender e responder ao que o dono da voz diz em inglês. Assim o jovem time de futebol dos Javalis Selvagens sabe que era alvo de buscas, havia sido encontrado, e alguém lhes acenava com comida, remédios e o fiapo de esperança de uma operação complicadíssima para tentar salvar o grupo ilhado na escuridão das profundezas de uma caverna.

Ilhado até certo ponto. Homem algum é uma ilha, garantira um poeta nesse mesmo idioma inglês há quatro séculos. O mesmo John Donne que escrevera outras palavras que desde então têm lembrado a fraternidade, solidariedade e igualdade entre todos os seres humanos: “A morte de cada homem me diminui, pois sou parte da humanidade. Portanto, nunca procure saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

Dando provas de que essa noção ainda não se perdeu e continua viva na espécie humana, no exterior da caverna as pessoas faziam o que estavam a seu alcance: se mobilizavam, rezavam, montavam a lógica racional de uma incrível operação de resgate. Especialistas de outros países viajaram para a Tailândia e se associaram aos esforços locais, disciplinados e objetivos, sem perguntar o que ganhariam com isso ou de que etnia ou nacionalidade eram os prisioneiros da caverna. Técnicos anônimos e milionários conhecidos ofereceram o que podiam. E depois de semanas o planeta festejou o final feliz que parecia impossível naquela tragédia anunciada. Homens comuns a consagrar a humanidade comum de vítimas e heróis — incluindo o mergulhador que perdeu a própria vida na luta para salvar as dos outros. Vitória possível a partir do profundo sentimento da condição humana compartilhada. Todos homens comuns.

Impossível não contrastar essa consciência de destino comum com a pretensão de se distinguir do comum dos mortais, exibida com acinte e desenvoltura em uma operação de resgate montada do outro lado do mundo, num plantão judiciário de domingo, simultâneo às últimas horas do esforço coletivo heroico na Tailândia.

Mas talvez não devesse ser surpresa. O objetivo era soltar Lula, alguém que não é visto como homem comum. Aliás, já ele mesmo atestara que entende não haver essa natureza comum entre todos nós. Desde que, há tempos, consagrou a doutrina de dois pesos e duas medidas quando afirmou de outro ex-presidente: “O Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”, apesar de antes já ter se referido ao político maranhense com pesados insultos e ofensas.

Mais recentemente, o condenado em segunda instância, agora alvo da tentativa de libertação no domingo, fizera questão de frisar: “Eu não sou um ser humano, sou uma ideia”. Ideias não são encarceráveis. Todos sabemos (ou podemos imaginar com boa dose de realismo) que, mais cedo ou mais tarde, Lula será solto por algum indulto — como José Dirceu, condenado a mais de 30 anos, está solto. Não ficará preso muito tempo — como Cabral e Cunha, por exemplo, têm mais chance de ficar. A ideia que Lula encarna é mais poderosa que a destes, reveste-se do charme de uma narrativa de Cinderela ou Robin Hood, e tem mais seguidores escancarados. Embora também seja poderosíssima, a ideia encarnada por outros, de encher os bolsos quando ninguém está olhando, não se presta a defesas públicas, apoio de intelectuais, simpatia no exterior. Explicitada, choca pelo cinismo, não é temperada e resgatada pelo mito.

Por isso, no fundo dessa caverna curitibana em cujas paredes se projetam sombras míticas, dá para acusar o clarão vindo da realidade exterior. A culpa é da luz. Sem ela, não se veria o mal nem haveria sombras. Talvez até essa acusação possa colar. Ao menos em alguns setores, por algum tempo.

De qualquer modo, mesmo que não se possa enganar a todos durante todo o tempo, somos reféns da irresponsabilidade dos Três Poderes que aprisionam o país. Não há como fugir da máxima de Millôr Fernandes: o resultado é o que resultar. Para ele despencamos.

Ou dá para ter esperança de que brote das águas a cabeça de alguém comum, trazendo uma luz e falando uma língua que a maioria de nós não vai entender, mas que aceitaremos como um caminho para o resgate? Feito de racionalidade e disciplina.

Nesse caso, ainda precisaríamos fazer como os Javalis Selvagens : treinar o fôlego, aprender a nadar e mergulhar no desconhecido. Seremos capazes?

Haja coração, como nos repetiram à exaustão nos últimos dias.

O Globo, 21/07/2018

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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013.

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ABL: ‘Luzia-Homem’, o mito mulher de Domingos Olympio, é o tema da palestra na ABL da antropóloga Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti



A Academia Brasileira de Letras dá continuidade ao seu ciclo de conferências do mês de agosto de 2018, intitulado Cadeira 41, com palestra da antropóloga, professora e pesquisadora Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti. A coordenação será da Acadêmica e escritora Ana Maria Machado. O tema escolhido foi Luzia-Homem de Domingos Olympio: a criação de um mito mulher.

Serão fornecidos certificados de frequência.

A Acadêmica Ana Maria Machado é, também, a Coordenadora-Geral dos ciclos de conferências de 2018.

De acordo com a palestrante, Luzia Homem, de Domingos Olympio (1903), tem por pano de fundo a histórica tragédia da seca que assolou o Ceará entre 1877 e 1879, quando legiões de retirantes do ressequido sertão encontraram algum abrigo temporário na cidade de Sobral. Entre eles, a “taciturna e forte” Luzia, que compõe, nas palavras de Lúcia Miguel Pereira, um “dos tipos mais complexos e misteriosos de nossa ficção”.

“A palestra ressalta o engenhoso uso narrativo dos causos e do linguajar populares e explora a dimensão mítica do romance. A força ativa dos vulneráveis personagens femininos acentua a dramática abordagem do assédio sexual cujo desfecho fatal faz de Luzia, para sempre, um símbolo da sexualidade livre em processo de descoberta. Luzia Homem é um romance mitológico sobre a condição feminina”, afirma a conferencista. 

Cadeira 41 terá mais três palestras, às quintas-feiras, no mesmo local e horário, com os seguintes dias, conferencistas e temas, respectivamente: dia 16, Acadêmico Antonio Carlos Secchin, Drummond: poesia e aporia; 23, Luís Camargo, Cem anos de “Urupês”, de Monteiro Lobato: o primeiro best-seller nacional; e 30, Hugo de Almeida, Osman Lins, 40 anos depois, mais atual.

A CONFERENCISTA

Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti é antropóloga, pesquisadora do CNPq e professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) onde atua na Pós-Graduação de Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais.

Pesquisadora dos rituais e de seu simbolismo, os interesses de Maria Laura transitam entre estudos da religião e da cultura popular. Autora de O Mundo Invisível: sistema ritual, cosmologia e noção da pessoa no espiritismo, de 1983; Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile; 2006; e Carnaval, ritual e arte, 2016. Tem, também, diversos artigos publicados sobre o Bumbá de Parintins, Amazonas.

Sua atenção voltou-se, ainda, para a história da antropologia e das ciências sociais. Pesquisou a obra de Oracy Nogueira, sociólogo precursor do estudo das relações raciais e do estigma na sociedade brasileira, e os estudos de folclore, compreendidos como uma vertente formadora das ciências sociais. O livro de Maria Laura Reconhecimentos: antropologia, folclore e cultura popular foi premiado, em 2013, pela Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais.

Antes de seu ingresso na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a conferencista trabalhou no então Instituto Nacional de Folclore, da Fundação Nacional de Arte. Permanece ligada a essa instituição por intermédio da Associação de Amigos do Museu de Folclore Edison Carneiro, da qual é, atualmente, diretora presidente.

Editora da revista Sociologia & AntropologiaMaria Laura publicou o livro de contos Todo dia amanhece no Arpoador, em 2012; e o infantil A viagem de Luiza, em 2017.

A palestrante é bisneta por parte de pai de Domingos Olympio Braga Cavalcanti, cujo romance Luzia Homem é o tema de sua palestra neste ciclo: Luzia Homem de Domingos Olympio: a criação de um mito mulher.
03/08/2018


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domingo, 29 de julho de 2018

ABL: Acadêmico e professor Evanildo Bechara fala na ABL sobre Antenor Nascentes na abertura do ciclo de conferências ‘Cadeira 41’


A Academia Brasileira de Letras abre seu ciclo de conferências do mês de agosto de 2018, intitulado Cadeira 41, com palestra do Acadêmico, professor, filólogo e lexicólogo Evanildo Bechara. A coordenação será da Acadêmica e escritora Ana Maria Machado. O tema escolhido foi Antenor Nascentes, um tardio na cadeira 41.

Serão fornecidos certificados de frequência.

A Acadêmica Ana Maria Machado é, também, a Coordenadora-Geral dos ciclos de conferências de 2018.
Acadêmica Ana Maria Machado convida para o ciclo "Cadeira 41"

A intitulação Cadeira 41 remonta aos tempos de fundação da ABL, em 20 de julho de 1897. Criada nos mesmos moldes da Academia Francesa, o máximo de Acadêmicos era de 40, o que continua até os dias de hoje. Este ciclo, no entanto, pretende apresentar cinco nomes que poderiam ocupar, em suas épocas, uma dessas cadeiras e, que, por razões diferentes e individuais, não se tornaram membro da Academia: Antenor Nascentes, Domingos Olympio, Carlos Drummond de Andrade, Monteiro Lobato e Osman Lins.

Antenor de Veras Nascentes (1886/1972) foi um filólogo, etimólogo e lexicógrafo de grande importância para o estudo da língua portuguesa. É considerado um dos mais destacados estudiosos nessa área do Brasil século XX. Ocupou, como fundador, a Cadeira nº 3 da Academia Brasileira de Filologia.

Entre a enorme lista de importantes obras produzidas ao longo de sua vida, destaca-se seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de 1932, que o fez famoso no meio dos estudiosos deste idioma não apenas no Brasil, mas também em Portugal.

Destacam-se, ainda, seu Vocabulário Ortográfico, de 1941, que influenciou o Vocabulário Ortográfico da história da Academia Brasileira de Letras (ABL), cuja primeira edição foi publicada logo depois; e seu Dicionário Etimológico de Nomes Próprios, que viria a servir de base para o Vocabulário Onomástico da Língua Portuguesa da ABL, lançado apenas em 1999.

Foi, também, autor do primeiro Dicionário de Português da Academia Brasileira de Letras, de 1967, e suas ideias e proposições acerca da ortografia da língua portuguesa influenciaram as bases da ortografia portuguesa atual. Foi autor ainda de A saudade portuguesa na toponímia brasileira, entre muitas outras obras. Em 1962, foi-lhe outorgado o Prêmio Machado de Assis, concedido pela ABL.

Cadeira 41 terá mais quatro palestras, às quintas-feiras, no mesmo local e horário, com os seguintes dias, conferencistas e temas, respectivamente: dia 9, Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, “Luzia-Homem” de Domingos Olympio: a criação de um mito mulher; 16, Acadêmico Antonio Carlos Secchin, Drummond: poesia e aporia; 23, Luís Camargo, Cem anos de “Urupês”, de Monteiro Lobato: o primeiro best-seller nacional; e 30, Hugo de Almeida, Osman Lins, 40 anos depois, mais atual.


O CONFERENCISTA

Quinto ocupante da Cadeira 33 da ABL, eleito em 11 de dezembro de 2000, na sucessão de Afrânio Coutinho, Evanildo Bechara é Professor Titular de Filologia Românica da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, de Língua Portuguesa da Universidade Federal Fluminense e professor Emérito da UERJ e da UFF, além de ter sido professor visitante da Universidade de Coimbra e da Universidade de Colônia. Faz parte da Comissão Científica da Société Linguistique Romane, com sede em Strasbourg, e pertence à Academia Brasileira de Filologia e à Associação de Romanistas.

Diretor da revista Confluência, do Instituto de Língua Portuguesa do Liceu Literário Português, Bechara publicou, pela mesma instituição, obra coletiva intitulada Na ponta da língua. Integram a publicação artigos de Silvio Elia, Gladstone Chaves de Melo, Antônio Geraldo da Cunha, Maximiano de Carvalho e Silva, Antonio Basílio Rodrigues, entre outros. Diretor da Revista Littera, preparou, junto com Segismundo Spina, a 1ª edição da Antologia de Os Lusíadas, publicada pela Grifo. A 2ª edição, melhorada, foi publicada pela Editora da Universidade de São Paulo.

Responsável por um dos capítulos no livro coletivo Trivium e Quadrivium, em que escreve sobre a História da Gramática na Idade Média, Bechara é autor, entre outros livros, da Moderna gramática portuguesa, Lições de português pela análise sintática, Gramática escolar da Língua Portuguesa, Língua e Linguagem, A nova ortografia, e Novo dicionário de dúvidas da língua portuguesa.

27/07/2018


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terça-feira, 29 de maio de 2018

DESALENTADOS E MULTIRRACIAIS - Ana Maria Machado


Artigo em jornal, na página de opinião, tem compromisso com fatos, notícias e acontecimentos. Ao menos, para refletir e analisá-los. É diferente de literatura. Nessa, a primazia absoluta é da linguagem, na exploração de suas possibilidades, para revelar seu poder latente na busca de sentido de se estar no mundo. Ou o encantamento e os impasses da dor diante dele. Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior, já ensinou: “Não faças versos sobre acontecimentos./ Não há criação nem morte perante a poesia.”

É nas palavras que a poesia vai buscar sua força e poder. Sugere ainda o poeta: “Chega mais perto e contempla as palavras./ Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra.”

Mas jornal se faz com fatos. E eles se distribuem por todos os assuntos do mundo e do nosso tempo. Vão das dificuldades geradas pelo preço de combustíveis e protestos dos caminhoneiros à festa do casamento real em Windsor. Da revelação de novas frentes de corrupção no INSS ou na merenda escolar à escalada irrefreável da violência — da Rocinha à Cidade Universitária, da execução de Marielle Franco ao bebê baleado no colo da mãe. Fatos que parecem isolados se arrumam em constelações que lhes dão novos significados. Passam da pré-campanha eleitoral e das idas e vindas de recursos e embargos nos tribunais à divulgação dos mais recentes dados numéricos. Volta e meia, nesse processo, exigem palavras novas.

E elas surgem. Às vezes, em modismos artificiais, “lacrando” agora e destinados a durar pouco. Outras, na rica e original criação popular de potência duradoura. Os meios acadêmicos volta e meia trazem ou tentam impor artificialismos como “empoderamento” — criticado por tantos ouvidos sensíveis e já acusado de ser um “embutido” vocabular ou perversão linguística.

Estes últimos dias nos brindaram com duas contribuições interessantes nesse terreno de reapropriação léxica. Novas faces secretas reveladas sob a face neutra de que falava o poeta, de vocábulos “sós e mudos/ em estado de dicionário.”

Uma delas veio de um órgão que costumamos associar a números e não às letras. Rapidamente ganhou colunas de analistas e relatórios de economistas. Mas já o poeta ensinara que “sob a pele das palavras há cifras e códigos”. O IBGE amplifica o sentido de “desalentados” e mostra que, em quatro anos, subiu quase 200% o número de brasileiros que desistiram de procurar emprego porque chegaram à conclusão de que não vão mesmo encontrar nada. Dentro do estarrecedor descalabro nacional — com seu jovem e crescente contingente nem-nem, que nem estuda nem trabalha —, ganha visibilidade e nome uma imensa parcela de nossa população. É urgente buscarmos saídas racionais, num debate adulto, que não escamoteie os dados e fatos da realidade, nem fique tentando disfarçá-la com retórica oportunista e vazia, cuja única serventia talvez seja adiar soluções necessárias e perpetuar benefícios ou privilégios de quem tem poder.

Outra boa palavra surgida agora, a fazer pensar, brotou na cobertura do casamento na família real britânica. A noiva não se contenta em ser classificada como afrodescendente ou negra, como aconteceu com Barack Obama ao assumir a Presidência americana há alguns anos — sempre a inutilmente tentar lembrar que sua mãe era branca e seu pai, africano. Mezzo a mezzo... A nova duquesa de Sussex, intensamente ciente de cada indício simbólico nos mínimos detalhes da cerimônia, faz questão de se identificar como “birracial”, assumindo a mistura afro-caucasiana. No Brasil, talvez “multirracial” seja uma palavra mais verdadeira para nos descrever, ao incorporar indígenas — sem mistificação, como ainda Drummond aconselhava a recebermos as ordens da vida.

Já abandonamos o rico termo “favela” por “comunidade”, palavra que acentua laços importantes e força coletiva, mas traz perdas conceituais, ao relegar ao esquecimento uma série de conquistas culturais e um tecido histórico substancial, em prol de terminologia mais abstrata, mais ligada a uma classificação de capilaridade social americana. Já estamos fazendo campanhas para substituir a palavra “escravo” por “escravizado”, como se o número maior de sílabas e o aspecto de particípio passado, ao se afastar do substantivo concreto, mudasse o horror, o sofrimento e a vergonha do sistema escravocrata que nos fez como país e a que foram submetidos povos inteiros no correr da História. E assim seguimos, mesmo desalentados e multirraciais, a patrulhar palavras, discutindo o supérfluo e acessório, e deixando de encarar o essencial.

Pode parecer uma bobagem, mas acho que, se conseguirmos nos pensar como birraciais e multirraciais, estaremos mais próximos de ver quem somos e entender o imenso valor que tem essa identidade, os caminhos que ela pode nos abrir em meio às dobras do racismo persistente. Mais uma vez, com Drummond, podemos constatar que há calma e frescura na superfície intacta das palavras. “Com seu poder de palavra/ e seu poder de silêncio”.

O Globo, 26/05/2018

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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013.

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domingo, 11 de março de 2018

ESCRITOR E PROFESSOR DEONÍSIO DA SILVA FAZ NA ABL A SEGUNDA PALESTRA DO CICLO ‘GUIMARÃES ROSA’, ESCRITOR E DIPLOMATA SOB COORDENAÇÃO DO ACADÊMICO CARLOS NEJAR


A Academia Brasileira de Letras dá continuidade ao seu ciclo de conferências do mês de março de 2018, intitulado Guimarães Rosa, escritor e diplomata, com palestra do escritor e professor Deonísio da Silva. O tema escolhido foi O julgamento de Zé Bebelo e a Lava Jato. O Acadêmico Carlos Nejar coordena o ciclo.  O evento está programado para terça-feira, dia 13 de março de 2018, às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca

A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado, Primeira-Secretária da ABL, é a Coordenadora-Geral dos ciclos de conferências de 2018.

Serão fornecidos certificados de frequência.

O ciclo terá mais duas palestras, às terças-feiras, no mesmo local e horário, com os seguintes dias, conferencistas e temas, respectivamente: dia 20, Acadêmico João Almino, Guimarães Rosa, do sertão às fronteiras; e 27, Benito Ribeiro, Rios e Riobaldos.

“O propósito desta breve intervenção, adiantou Deonísio da Silva, é apontar um caminho porventura insólito para outra leitura do trecho do julgamento do personagem Bebelo, episódio marcante de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa”.

De acordo com o conferencista, “o julgamento do personagem Zé Bebelo será lido de forma a trazer a luz diáfana da literatura para o ato de julgar. Todos os que leram a obra de Guimarães Rosa sabem o desfecho do julgamento do personagem que, derrotado, com as mãos amarradas atrás, faz a própria defesa em meio a jagunços divididos entre matar e perdoar. Mas, autorizado por Joca Ramiro, o chefe máximo dos jagunços, que preside o julgamento, solicita que, para falar, lhe sejam desatadas as mãos e que as acusações sejam feitas de outro modo: “Rompo embargos! Porque acusação tem de ser em sensatas palavras – não é com afrontas e insultos”.”

E conclui sua breve explicação: “A referência à operação designada por “Lava Jato” pela Polícia Federal pareceu oportuna pela presença de figuras referenciais de qualquer julgamento: o réu, a acusação, a defesa, o juiz – e por estar ubíqua e diuturnamente em todos os lares, por todos os meios”.

O CONFERENCISTA

Escritor e professor universitário, Deonísio da Silva é doutor em Letras pela USP, autor de nove romances, vinte livros de narrativas curtas e seis livros de ensaios.

De seus romances, Avante, soldados: para trás (publicado também em Portugal, Cuba, Itália etc.) recebeu o Prêmio Internacional Casa de las Américas, e Teresa D´Ávila foi levado ao teatro e premiado pela Biblioteca Nacional. O mais recente é Lotte & Zweig, ambientado nos anos 40, tendo como personagem solar o escritor judeu-austríaco Stefan Zweig. (Já publicado também na Itália).

Professor aposentado da UFSCar, Deonísio da Silva foi vice-reitor da Universidade Estácio de Sá, da qual continua como Professor Titular Visitante e Diretor do Instituto da Palavra, organismo que fundou ao transferir-se para o Rio, em 2003.

Vice-presidente da Academia Brasileira de Filologia, Deonísio da Silva assina colunas semanais de Língua Portuguesa na mídia impressa há mais de vinte anos, de que é exemplo a de Etimologia na revista Caras, mantendo, desde 2011, o programa “Sem Papas na Língua”, na rádio Bandnews Fluminense, na companhia do jornalista Ricardo Boechat, cujo conteúdo é baseado num de seus livros mais vendidos, intitulado De onde vêm as palavras.

07/03/2018


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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O PODER DO EXEMPLO - Ana Maria Machado


O poder do exemplo


Com frequência, a crítica reunia sob um rótulo geral os autores de livros infantojuvenis que estrearam nos anos 1970, ganhando notoriedade, prêmios e milhões de leitores. Éramos chamados de “filhos de Lobato”. Alguns anos depois, o escritor Ricardo Azevedo propôs uma correção, para “irmãos de Lobato”. O que importava nessa distinção não era a origem ou data de nascimento, e sim uma experiência poderosa que caracterizava o grupo: a de termos vivido nossos anos de formação num Brasil que se industrializava e urbanizava rapidamente mas ainda tinha muito fortes raízes rurais — um pé na roça. Conhecíamos milharal e galinheiro, leite bebido no curral e casa de farinha, cheiro de capim-gordura e rangido de porteira.

Podíamos morar em cidade e ir à escola, mas nas férias ou em visita aos parentes do interior, brincávamos no quintal com os primos e outras crianças que moravam lá. Nesse encontro, aprendíamos e nos ensinávamos mutuamente. Desde subir em árvores ou andar a cavalo a brincar de bandido e mocinho como nos filmes. Nas refeições, por exemplo, a criançada urbana via a habilidade com que tantos dos companheiros eram exímios na arte da “fazer capitão”: jogar farinha em cima do feijão com arroz, misturar tudo com a mão dentro do prato fundo, formar uns bolinhos e levar direto à boca, sem garfo ou colher. Por outro lado, eles se admiravam de ver a garotada da cidade usando talheres e se exercitavam em manejar com naturalidade aqueles utensílios. Nesses modelos recíprocos, nos aproximávamos tanto quanto nas brincadeiras, e nos irmanávamos, apesar das diferenças copiadas dos nossos pais.

O ser humano aprende de diversas maneiras. Talvez nenhuma seja tão poderosa quanto o exemplo, a imitação do que vemos funcionar a nosso redor. Sobretudo, quando vem de pessoas que admiramos, por quem temos afeto, com quem queremos nos parecer. O que popularmente se passou a chamar de “ídolos”, pessoas que exercem um papel modelar e influenciam muita gente. Sempre digo isso, a respeito de campanhas de estímulo à leitura. Nada é tão eficiente para promover o gosto pelos livros em uma criança quanto ter por perto adultos lendo e comentando suas leituras.

Por isso, a gravidade do desacato à lei aumenta quando praticada por quem é alvo da admiração coletiva. O ídolo, assim, vira um modelo pernicioso. Um mau exemplo. Não foi outra a razão para o repúdio ao erro de marketing que ficou conhecido como “a lei de Gerson” e que até hoje persegue a imagem do ex-jogador que aconselhava “levar vantagem em tudo”.

Esse efeito é que distingue o castigo a um reles espertalhão da condenação de uma esperteza nada reles, quando praticada por um político admirado, uma celebridade esportiva ou artística, um juiz respeitado, um empresário de sucesso. Se os delitos e erros das estrelas pretendem contar com a imunidade pelo fato de não serem praticados por “um homem comum”, e assim garantir a impunidade dos malfeitores, não dá para esquecer que esse processo é ainda mais grave que o próprio delito, pois corrói de forma nefasta o tecido social. Culpado tem de pagar pelo que fez, na forma da lei e garantido o direito de defesa. Caso contrário, vira o “liberou geral” que constatamos nestes tempos de violência desenfreada e roubalheira sem limites.

Se dá para escapar sem pagar, todos se acham no direito de fazer o que bem entendem: assaltar, agredir, saquear, caluniar, atacar paciente dentro de ambulância, revender material hospitalar descartável após usado, sair dando tiro a torto e a direito, apropriar-se de verba de escolas, roubar carga, receptar produtos roubados, comprar de quem não dá nota fiscal… Todos entendem que devem ser exceção à lei — dos carros oficiais que desrespeitam o código de trânsito aos magistrados que driblam limites legais de tetos de vencimentos, passando por fiscais que cobram propina. Se nada acontece com os bacanas, nada deterá os outros. E todos viram bandidos , como a tevê tem mostrado, em cenas impressionantes de arrastões, assaltos e espancamentos. Um pesadelo espantoso. Só que real.

Ó, pátria amada, por onde andarás?/ Teus filhos já não aguentam mais…” O refrão da Beija-Flor é um pedido de socorro. Denuncia a corrupção das ratazanas, a violência armada que manda na cidade, a conivência das autoridades com a bandidagem. Enfim, o abandono que todos vivemos, fora da lei.
Lei é para ser respeitada, condenação é para ser cumprida. A procuradora-geral Raquel Dodge frisou que só assim se afasta a sensação de impunidade e se restabelece a confiança nas instituições. E a presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, sublinhou que o descumprimento da lei é mau exemplo que contamina e compromete.

Já ensinavam nossos avós: o exemplo vem de cima. E quando esse é um mau exemplo, instalam-se a falta de limites, o descontrole geral e a falência do Estado que se refletem diariamente na violência urbana e na sensação de que estamos nas mãos de bandidos em todos os níveis. Intocáveis até quando?

Ana Maria Machado é escritora.
O Globo, 17/02/2018

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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013.

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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

NEM TÃO SIMPLES - Ana Maria Machado

Nem tão simples

"Simples assim. Entendeu ou quer que eu desenhe?”

A toda hora estamos esbarrando em variantes dessa atitude arrogante, seja em comentários na internet ou em palpites que surgem em conversas ao vivo, com a pretensão de calar o outro. Por vezes, vem revestida de um tom teórico peremptório, cheio de ecos intelectuais, a insinuar que qualquer discordância é estúpida. Nem por isso deixa de ser uma forma de ofensa, a chamar o outro de burro.

No entanto, o que a história do pensamento nos mostra é bem diferente. Sempre foi um trajeto calcado em dúvidas e hesitações, por mais que o processo da busca do conhecimento se faça com certa teimosia e algumas raras certezas muito bem focadas — de que Galileo é um bom exemplo. Mas a honestidade que marca a ânsia de saber convive com a admissão das inseguranças que abrem portas, desde o axioma socrático do “só sei que nada sei”, passando pela dúvida metódica cartesiana, até os princípios da complexidade que Edgar Morin aponta ao sublinhar as incertezas que caracterizam nosso tempo.

Neste momento em que os eleitores brasileiros sentem a necessidade de analisar a nossa atual crise com algum exame que vá além da superfície imediata, pode valer a pena lembrar que nada é “simples assim”. Não dá para resumir num mero desenho. Mas convém admitir que grande parte do retrocesso que aí está a nos assombrar é fruto de uma complexa conivência da nossa sociedade. A tal omissão dos bons que permite a expansão do crime e da injustiça. Às vezes por comodismo, às vezes por simplismo, às vezes por recusa a admitir o próprio engano. E como fomos enganados...

Votando em Lula, Dilma, Aécio, Cabral, Cunha ou Renan, e tantos outros, fomos engambelados por belas palavras, fartas promessas e bom mocismo. Como se tudo fosse simples assim. Só que não é. Convém não esquecer. É preciso admitir que fomos traídos. Transformar o arrependimento em alguma sabedoria. Aprender com os erros, para não repeti-los. Ao menos, tentando escolher melhor o futuro Congresso.

Não que a sociedade tenha ficado apática e de braços cruzados. Movimentos sociais se organizaram e reivindicaram. Manifestos e abaixo-assinados se espalharam pela internet. Conseguiram gerar fatos concretos e positivos, como a Lei da Ficha Limpa. Ou sugerir as Dez Medidas contra a Corrupção.

Mas agora se assiste a um retrocesso que tem como objetivo atrapalhar toda e qualquer melhoria nessa área. E em outras.

O fato de não se fazer uma reforma eleitoral tem muito a ver com isso. Continua havendo uma proliferação de partidos que seria cômica se não fosse trágica — mas que é muito eficiente em atrapalhar a governabilidade e estimular esse abominável balcão de negócios no Congresso. Os exemplos se multiplicam.

A análise racional mostra que é indispensável para as futuras gerações que se faça já a reforma da Previdência, cujo desequilíbrio paralisa investimentos em saúde, educação, saneamento. No entanto, aí estão os políticos barganhando e impedindo que ela se faça, mesmo reduzida, desvirtuada e insuficiente.

Em outro âmbito, a recusa em fazer a reforma eleitoral (tanto no Legislativo quanto no Judiciário) prorroga a existência desordenada de partidos e ameaça recuos na Lei da Ficha Limpa ou na determinação do STF de que a pena comece a ser cumprida após decisão em segunda instância. E continuamos sujeitos a esse Congresso tecido de políticos corruptos, incapaz de dar um mínimo passinho à frente que faça avançar alguns milímetros.

A isenção fiscal para igrejas resulta em bancadas religiosas retrógradas que esgrimem argumentos autoritários para impor à nação atitudes e comportamentos medievais. A degradação pública e o opróbrio são amplamente utilizados nos linchamentos morais a que assistimos a todo momento. Já chegamos ao ponto de literalmente queimar bruxas — ainda que por enquanto nos limitando ao simbolismo de bonecos que as representem, como se viu no caso da filósofa Judith Butler. Mas nem sempre é só simbólico: a dona de casa Fabiane Maria de Jesus foi linchada até a morte no Guarujá a partir de uma falsa acusação, na internet, de sequestrar crianças para magia negra. Uniu-se a reles mentira com a sanha de condenar sem apurar. Males atuais.

Tudo isso desvia da justiça necessária. Vemos todo dia as tentativas de retrocesso que impedem a punição de culpados de corrupção, na Lava-Jato ou fora dela. Vale tudo, a começar pela manutenção do foro privilegiado para milhares de políticos — e agora se fala em estendê-lo a ex-presidentes.

O discurso para a aparente justificativa é sedutor: alardeia a garantia de direitos dos investigados e acusados (que têm mesmo de ser garantidos). Mas esquece a garantia do direito da sociedade, de não ver perpetuada a impunidade de criminosos por meio de manobras e chicanas.

Esses diversos fios se tecem em tramas e tramoias. Pelo menos, fiquemos atentos para perceber a complexidade do mecanismo. Há que abrir os olhos para votar melhor no futuro. Nada se resume a um “simples assim”.

O Globo, 09/12/2017


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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013.

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