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terça-feira, 23 de junho de 2020

SIMPLICIDADE – Péricles Capanema

22 de junho de 2020

Péricles Capanema

oje passo ao lado do coronavírus, sem lhe virar as costas. Não subestimo a pandemia, pelo contrário; perdi amigos, de momento são dele vítimas, alguns com gravidade, gente que me é próxima, parentes; a vacina continua esperança, incógnita envolta nas brumas do futuro. O próximo vulnerado bem poderá ser eu, estou de cheio no grupo de risco, chances menores de escapar, chances maiores de ir a óbito ou de recuperação com sequelas. Como não se alarmar?

À vera desde semanas tenho reflexões sobre pontos da situação — política, moral, psicológica — criada pela pandemia; e quando as escrever, tentarei não divulgar meras repetições do que outros mais capacitados estão espalhando aqui e lá fora. Oferecer pratos requentados, mesmo nutritivos, nunca foi o mais atraente.

Preocupa-me ponto em especial, ainda hipótese chã, que poderia vir a ter relevância; até agora não li nenhuma alusão a ele. Fica para próximo artigo. Já advirto, conjeturas, uns poderão gostar, outros terão reservas. Paciência, ainda serão meras conjeturas, nada mais corriqueiro do que aceitá-las ou recusá-las. Por outro lado, despreocupa-me a possibilidade de levar chumbo, mesmo fogo amigo, de há muito virei boi do couro grosso.

O artigo de hoje, passando longe do vírus, repito, por surpreendente que possa parecer, surge da arrumação de gaveta bagunçada. Foi preciso jogar muita coisa fora, e a seguir ordenar com paciência, pelo menos minimamente, o que ficou. Na papelada encontrei esquecida preciosidade, pela foto e pelo texto: o cartão de Natal do Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, de 2013. Palavras de afeto e irresignação.

Dom Luiz é o Chefe da Casa Imperial do Brasil, todos sabem. O cartão comenta a foto da avó, a Princesa D. Maria Pia (foto acima), clicada aos 19 anos — ela nasceu em 1878. Natural, a figura saída da História evocou de plano a constatação, aquela moça poderia ter sido por longos anos a Imperatriz do Brasil. Como teria se desempenhado? Que marcas deixaria na sociedade e no governo? Na história do País?

Candura, esmero, elevação, foram impressões primeiras despertadas pela foto de uma quase menina vestida de branco, olhar penetrante, um leque pendente da mão direita. Fui invadido por outras impressões: seriedade, leveza, delicadeza, bom tom, simplicidade, qualidades que nobilitavam o ar aristocrático.

Borbotou incontenível o confronto. Explico-me. A vida pública do Brasil, não é de hoje, está empanzinada de cenas sórdidas, entulhada de gente desbotada (na mais benévola e parcial das qualificações), da qual boa parte a corrompe e avilta, estadeando arrogância, imoralidade e primarismo. Aí o senso patriótico gritou forte. Amargurou-me o contraste entre a chusma desordeira que observo entristecido e a figura serena de uma moça despretensiosa, a figura indicava, provavelmente com enorme capacidade de influir e formar pelo bom exemplo.

A simplicidade de D. Maria Pia, ar modesto e tão senhora, contrastava no meu espírito com o que vejo todos os dias, no mundo oficial e na vida privada: cabotinismo, pedantismo, deboche, petulância, grã-finismo. Em vez de tanto retrocesso e obscurantismo, poderíamos ter experimentado avanços civilizatórios, com grande benefício social, impossibilitados, dói a constatação, pela subserviência irrefletida a preconceitos deformantes.

Volto à Princesa. Não custa lembrar, a grande arte de governar está na exemplaridade; acessível a todos (e, sob outro ângulo, paradoxalmente, com grande impacto, a poucos; vale muito o que hoje em geral se denomina carisma). “Verba movent, exempla trahunt”, bons exemplos cintilam e arrastam. Maus exemplos afundam. Os “role models”, cujo estudo ocupa a tantos pesquisadores, têm enorme papel formativo, potencial para promover inclusão social e impedir dilacerações nacionais.

E então, de um lado, longe, lá no século XIX, esplendia na foto o conteúdo nobre expresso na postura fidalga, tudo bem preparado para vida pública altamente favorecedora do bem comum; de outro, junto a nós, pleno século XXI, entenebrecedor o fundo cavernoso manifestado nos esgares contrafeitos de um sem-número de figuras caricatas do Brasil contemporâneo, cada vez mais debilitado e manchado por nota de abjeção em sua vida pública. Pensei cá comigo, pobres de nós, merecemos esta (má) sorte? Terá Deus se esquecido de nós? Afastei o pensamento, o débito deve cair na nossa conta.

Adiante. O nome Maria Pia, familiar, em nada rescende ao postiço e rebuscado. A postura ereta e a mirada segura mostram afavelmente o que ela é. No texto enaltecedor de Dom Luiz (foto ao lado), elegante e simples, mareja a admiração pela avó, com quem conviveu, falecida 40 anos antes, em 1973. Evola das palavras a irresignação do neto, não aceita que vá se apagando injustamente a memória da avó, tão necessária à família e até à História. “Eu e meus irmãos tivemos o privilégio de estreito contato com Vovó. […] Em extensas caminhadas ou em longos serões, ela nos comunicava seu grande afeto, transmitindo a visão do mundo e os valores”. Educação pela palavra e pelo exemplo.

Recorda Dom Luiz: “Buscou ela identificar-se com o Brasil. Aqui esteve em 1922, por ocasião do centenário da Independência, acompanhada do filho mais velho, meu pai D. Pedro Henrique […]. Sua presença foi muito solicitada então, chegando a participar do lançamento da pedra fundamental do Cristo do Corcovado, monumento cuja edificação teve origem em um pedido da Princesa Isabel”.

Deixo, por fim, ainda algumas palavras de dom Luiz: “D. Maria Pia teve a honra de avistar-se pessoalmente com o Papa São Pio X, e conservou do encontro, com profunda veneração, uma foto dedicada do Pontífice, hoje em minhas mãos”. Bonita atitude filial de dois católicos, o neto e a avó, merece registro. Com esteio em ensinamentos de São Pio X, Dom Luiz, muito oportunamente, termina a saudação de Natal reiterando sua fidelidade à civilização cristã, que deseja ver fulgurando no Brasil.

Por que o título simples deste artigo, só com a palavra simplicidade? Reconheço, pode parecer estranho, pois haveria multidão de títulos a escolher. Fiquei com simplicidade, chamou-me a atenção na foto, mas teve ainda razão mais ampla, o conceito expressa a união harmônica de virtudes. Evoco o ensinamento do Doutor Angélico. Na Suma escreveu São Tomás de Aquino: “Em sentido contrário, Agostinho [santo] afirma: ‘Deus é verdadeira e sumamente simples’. […] Para nós, os compostos são melhores do que os simples, porque a perfeição da bondade da criatura não se encontra em um único simples, mas em muitos; ao passo que a perfeição da bondade divina se encontra em um único simples, como se verá (q. 4, a.2).”

Faz falta enorme para o progresso social (para o de cada um de nós também) o tipo de personalidade da qual D. Maria Pia foi grande exemplo. Dom Luiz tem razão: a avó não deve ser esquecida.




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terça-feira, 2 de julho de 2019

A CONVERSA DESFIADA - Péricles Capanema


2 de julho de 2019

Péricles Capanema

Provocada pelo clima de Brasília, despenca sobre nós, sem fim, a saraivada do escarcéu, desgoverno, desorientação, boçalidade e baixaria. Debaixo do granizo, difícil perceber o impulso decisivo de toda boa ação política, o agudo senso do bem comum.

Em outra comparação, a vida pública brasileira já de há décadas vem rolando em precipícios dos quais não se vê o fundo. A previsão de Ulisses Guimarães tem se verificado doloridamente, foi mais ou menos assim: “Está achando ruim essa composição do Congresso? Então espera a próxima, vai ser pior”. Imaginem, a atual já apavora, a pífia consolação é que a próxima virá pior. Toda profissão depende da qualidade de seus membros. Com tais atores, a peça não vai ter sucesso. Mas não vou jogar tudo no cangote dos políticos no Planalto Central. Fomos nós, os eleitores, que os mandamos para lá.

Não pretendo prescrever panaceias para tal situação. Faço outra coisa, da remedama necessária, tiro do estoque e ponho na vitrine só um vidrinho, cujo recheio tanto serve para a vida pública quanto para a particular. Assim, não abandono inteiramente a matéria, mas trago à baila modesta contribuição para a solução do problema, útil igualmente para a vida de todos os dias de qualquer brasileiro.

Passo a desfiar o assunto. Em política, quem sabe conversar, já tem meio caminho andado. E dou o primeiro passo com frase conhecida, política é conversa, o resto é conversa fiada, da lavra, parece, de Otávio Mangabeira. Política e tanta coisa mais é conversa, o resto é conversa fiada. Número enorme de atividades humanas descansa na conversa.

O começo é ouvir. A língua faz muita gente surda. Nada escuta, tomada pelo gosto da parolagem compulsiva e oca; quem muito fala, muito erra e muito enfada. Ouvir supõe interesse, paciência, compreensão. Benevolência. As duas primeiras estacas, interesse e paciência, seguram o andar superior, a compreensão, entender até o fundo e em todos os matizes o que está dizendo ou está querendo expor o outro. Se queres ser bom juiz, ouve o que cada um diz.

Qualquer um, qualquer outro, até os mais simples. O interesse no pequeno é estrada para entender o grande. “Aperfeiçoa-te na arte de escutar, só quem ouviu o rio pode ouvir o mar”, advertência de Altino Caixeta de Castro, o Leão de Formosa, bom poeta do Triângulo Mineiro. Nelson Rodrigues marcou o Brasil e até hoje não foi esquecido (morreu em 1980) em especial porque entre outras qualidades sabia escutar: “Posso não ter outras virtudes, e realmente não as tenho. Mas sei escutar. Direi, com a maior e mais deslavada imodéstia, que sou um maravilhoso ouvinte. O homem precisa ouvir mais do que ver. Qualquer conversa me fascina […]. E, se duas pessoas se falam, a minha vontade é parar e ficar escutando. Uma simples frase, ainda que pouco inteligente, tem a sua melodia irresistível”.

Sentir as ocasiões dos silêncios, modular a ênfase, o timbre da voz, ter maestria nas pausas são tão ou mais eloquentes que a o impacto da palavra. Fala o olhar, o gesto fala, a atitude fala, pode valer mil palavras o sorriso. O bocejo ou um gesto brusco tantas vezes cortam mais que refutações veementes. A presença, enfim. Existem presenças estimuladoras, presenças sabotadoras, presenças opacas. Dizia-se do príncipe de Metternich que a conversa dele fazia os interlocutores se sentirem mais inteligentes.

Deixei o miolo para o fim. O anterior ajudava a realçar o principal, o conteúdo. Como enriquecê-lo? Alguns recursos, observação, explicitação das impressões, leituras, bem como, sob outro aspecto, nas ocasiões adequadas, formação sistemática e estudos. Tudo isso enobrecido pelo caráter. Aí a pessoa tem muita coisa a dizer e é útil a todos a disposição de comunicá-la.

Desfio o assunto um pouco mais. A vida política tem aspecto pouco comentado, a exemplaridade. O rei, sob tantos aspectos o mais importante político de uma nação, é naturalmente modelo para o povo, objeto de sua atenção, aprendizado e entretenimento. Basta ver a atenção que provoca a rainha Elisabeth II. O político, a seu modo e proporção, é um pequeno rei. Tem também o dever da exemplaridade. E saber conversar bem o ajudaria a cumprir tal missão.



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quarta-feira, 18 de julho de 2018

O FIM DO RECREIO - Zuenir Ventura


O fim do recreio


É hoje e amanhã só. Uma pena, porque mesmo sem contar com a seleção do Brasil na fase final, a Copa acabou servindo como distração desse nosso cotidiano tão cheio de más notícias. Segundo meu instituto de pesquisa, ficamos frustrados, tristes, um pouco irritados, mas não deprimidos. De repente, todos viramos croatas ou croativics e passamos a torcer com a maior intimidade por jogadores com essa rima insólita: Modric, Rakitic, Mandzukic, Perisic, Strinic, sem saber de seus gestos e atitudes nazifascisas.

Na quarta-feira, assisti a parte do jogo com a Inglaterra num consultório médico, onde todos torciam pela Croácia. Na saída, a mesma coisa: ao passar por bares e restaurantes, comemorava-se a vitória dos ics como se fosse a de Tite. Na minha rua, a surpresa foi ainda maior: também os porteiros tinham virado croativics desde criancinhas.

No dia seguinte, o fenômeno já estava num samba-gozação. Eis alguns versos: “Se não tem vaga no SUS/ Nem remédio na farmácia/ Fala com a Márcia/ Bursite, otite, nefrite/ É tanto ite/ Parece até o time da Croácia. Será que era falácia/ Tamanha audácia?/ Foi o prefeito que disse/ Fala com a Márcia”.

A partir de segunda-feira, cairemos na real e voltaremos ao país “perplexo” de que falava Cármen Lúcia em artigo aqui ontem sobre a insegurança jurídica: “A Justiça não tem lado, preferências, protegidos nem adversários”, precisou advertir a presidente do STF para o que deveria ser óbvio. “As partes conflitam, não os juízes”, teve que explicar.

De nossa parte, já tivemos no Rio a demonstração de que preferência se compra com cargos, quando mais da metade da Câmara Municipal recusou o pedido de impeachment de Crivella, dando-lhe o sinal verde para agir acima da lei. Agora, o irmão já sabe: catarata, hemorroida, otite, qualquer coisa, não entre em fila, fala com a Márcia.

Aqui, como se sabe, é a terra do vale-tudo, onde até quem está na cadeia continua roubando, conforme concluiu o procurador da República Felipe Bogado, da recente Operação Ressonância. Segundo ele, as fraudes na área da saúde fluminense investigadas pela força-tarefa da Lava-Jato na Operação Fatura Exposta prosseguiram mesmo após a prisão de Sérgio Côrtes, ex-secretário e homem de confiança do ex-governador Sérgio Cabral.

Como daqui a pouco é que vai começar de fato a campanha eleitoral, quando mais podres costumam vir à tona, muita água ainda vai passar por debaixo dessa ponte — água suja, evidentemente.

Vamos sentir saudades da hora do recreio que a Copa nos proporcionou.

O Globo, 14/07/2018

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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quarta-feira, 28 de junho de 2017

APELO AO BOM SENSO - Fernando Henrique Cardoso


Apelo ao bom senso 



As dificuldades políticas pelas quais passamos têm claros efeitos sobre a conjuntura econômica e vêm se agravando a cada dia. Precisamos resolvê-las respeitando dois pontos fundamentais: a Constituição e o bem-estar do povo.

Mormente agora, com 14 milhões de desempregados no país, urge restabelecer a confiança entre os brasileiros para que o crescimento econômico seja retomado.

A confiança e a legalidade devem ser nossos marcos. A sociedade desconfia do Estado, e o povo descrê do poder e dos poderosos. Estes tiveram a confiabilidade destruída porque a Operação Lava Jato e outros processos desnudaram os laços entre corrupção e vitórias eleitorais, bem como mostraram o enriquecimento pessoal de políticos.

Não se deve nem se pode passar uma borracha nos fatos para apagá-los da memória das pessoas e livrar os responsáveis por eles da devida penalização.

A Justiça ganha preeminência: há de ser feita sem vinganças, mas também sem leniência com os interesses políticos. Que se coíbam os excessos quando os houver, vindos de quem venham –de funcionários, de políticos, de promotores ou de juízes. Mas não se tolha a Justiça.

Disse reiteradas vezes que o governo de Michel Temer (PMDB) atravessaria uma pinguela, como o de Itamar Franco (1992-1994).

Colaborei ativamente com o governo Itamar, apoiei o atual. Ambos com pouco tempo para resolver grandes questões pendentes de natureza diferente: num caso, o desafio central era a inflação; agora é a retomada do crescimento, que necessita das reformas congressuais.

Nunca neguei os avanços obtidos pela administração Temer no Congresso Nacional ao aprovar algumas delas, nem deixo de gabar seus méritos nos avanços em setores econômicos. Não me posiciono, portanto, ao lado dos que atacam o atual governo para desgastá-lo.

Não obstante, o apoio da sociedade e o consentimento popular ao governo se diluem em função das questões morais justa ou injustamente levantadas nas investigações e difundidas pela mídia convencional e social.

É certo que a crítica ao governo envolve todo tipo de interesse. Nela se juntam a propensão ao escândalo por parte da mídia, a pós-verdade das redes de internet, os interesses corporativos fortíssimos contra as reformas e a sanha purificadora de alguns setores do Ministério Público.

Com isso, o dia a dia do governo se tornou difícil. Os governantes dedicam um esforço enorme para apagar incêndios e ainda precisam assegurar a maioria congressual, nem sempre conseguida, para aprovar as medidas necessárias à retomada do crescimento.

Em síntese: o horizonte político está toldado, e o governo, ainda que se mantenha, terá enorme dificuldade para fazer o necessário em benefício do povo.

Coloca-se a questão agônica do que fazer.

Diferentemente de outras crises que vivemos, nesta não existe um "lado de lá" pronto para assumir o governo federal, com um programa apoiado por grupos de poder na sociedade.

Mais ainda, como o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) declarou que as eleições de 2014 não mostraram "abusos de poder econômico" (!) [em julgamento encerrado no dia 9 de junho, não há como questionar legalmente o mando presidencial e fazer a sucessão por eleições indiretas.

Ainda que a decisão tivesse sido a oposta, com que legitimidade alguém governaria tendo seu poder emanado de um Congresso que também está em causa?

É certo que o STF (Supremo Tribunal Federal) pode decidir contra o acórdão do TSE, coisa pouco provável. Em qualquer caso, permaneceria a dúvida sobre a legitimidade, não a legalidade, do sucessor.

Resta no arsenal jurídico e constitucional a eventual demanda do procurador-geral da República pedindo a suspensão do mandato presidencial por até seis meses [a iniciativa precisa ser aprovada por dois terços dos deputados] para que se julgue se houve crime de improbidade ou de obstrução de Justiça.

Seriam meses caóticos até chegar-se à absolvição [pelos ministros do STF] –caso em que a volta de um presidente alquebrado pouco poderia fazer para dirigir o país- ou a novas eleições. Só que estas se dariam no quadro partidário atual, com muitas lideranças judicialmente questionadas.

Nem assim, portanto, as incertezas diminuiriam –nem tampouco a descrença popular.

O imbróglio é grande.

Neste quadro, o presidente Michel Temer tem a responsabilidade e talvez a possibilidade de oferecer ao país um caminho mais venturoso, antes que o atual centro político esteja exaurido, deixando as forças que apoiam as reformas esmagadas entre dois extremos, à esquerda e à direita.

Bloqueados os meios constitucionais para a mudança de governo e aumentando a descrença popular, só o presidente tem legitimidade para reduzir o próprio mandato, propondo, por si ou por seus líderes, uma proposta de emenda à Constituição que abra espaço para as modificações em causa.

Qualquer tentativa de emenda para interromper um mandato externa à decisão presidencial soará como um golpe.

Não há como fazer eleições diretas respeitando a Constituição Federal; forçá-las teria enorme custo para a democracia.

Por outro lado, as eleições "Diretas-Já" não resolvem as demais questões institucionais, tais como a necessária alteração dos prazos para desincompatibilização [de cargos públicos e eletivos por parte de possíveis postulantes], eventuais candidaturas avulsas, aprovar a cláusula de barreira e a proibição de alianças entre partidos nas eleições proporcionais. Sem falar no debate sobre quem paga os custos da democracia.

Se o ímpeto de reforma política for grande, por que não envolver nela uma alteração do mandato presidencial para cinco anos sem reeleição? E, talvez, discutir a oportunidade de antecipar também as eleições congressuais. Assim se poderia criar um novo clima político no país.

Apelo, portanto, ao presidente para que medite sobre a oportunidade de um gesto dessa grandeza, com o qual ganhará a anuência da sociedade para conduzir a reforma política e presidir as novas eleições.

Quanto tempo se requer para aprovar uma proposta de emenda à Constituição e redefinir as regras político-partidárias? De seis a nove meses, quem sabe?

Abrir-se-ia assim uma vereda de esperança e ainda seria possível que a história reconhecesse os méritos do autor de uma proposta política de trégua nacional, sem conchavos, e se evitasse uma derrocada imerecida.

Folha de São Paulo, 26/06/2017

Fernando Henrique Cardoso - Sexto ocupante da Cadeira nº 36 da ABL, eleito em 27 de junho de 2013, na sucessão de João de Scantimburgo e recebido em 10 de setembro de 2013 pelo Acadêmico Celso Lafer




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quinta-feira, 25 de maio de 2017

A HORA DA GRANDEZA


SABE-SE QUE UMA CRISE atingiu sua gravidade máxima quando, nas discussões que ocorrem de norte a sul do país, as duas palavras mais pronunciadas são “renúncia” e “impeachment”. Em todas as rodas de deputados, senadores, empresários, juristas e jornalistas, fala-se na possibilidade de uma ou outra saída – e assim tem sido desde que o jornal O Globo revelou o conteúdo da delação do empresário Joesley Batista, dono da JBS. Numa conversa gravada, Temer dá a impressão de aprovar a compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, preso há sete meses. Em outra conversa, Temer inicia uma negociação com seu interlocutor, que resultou mais tarde no pagamento de 500 000 reais em dinheiro vivo.

            A crise deflagrada pela denúncia se desdobra em duas esferas. No plano jurídico, a situação é clara: o presidente Michel Temer é inocente até que se prove o contrário – e, para que o contrário seja provado, é preciso que se percorra, com rigor e serenidade, o caminho previsto nas leis e nos códigos. Desde quinta-feira, assim que saiu a autorização para a abertura de um inquérito, Temer está formalmente sob investigação da Lava-Jato. Tem direito a ampla defesa.

            As névoas estão no plano político. Com uma suspeita séria, o presidente fragilizou-se. É nesse contexto, emoldurado por um estado de perplexidade nacional, que aparecem as palavras “renúncia” e “impeachment”. Discute-se se alguma das duas alternativas poderia oferecer uma saída para o caos em que o país foi jogado por suas altas esferas. A que o presidente Michel Temer está buscando não é nenhuma delas: é permanecer no Palácio do Planalto.

            Na mesma quinta-feira, Temer fez um pronunciamento de menos de cinco minutos no qual foi categórico: “Não renunciarei. Sei o que fiz e sei da correção dos meus atos”, disse, com tom de voz peremptório, olhar um tanto abatido e dedo em riste. A renúncia é um ato pessoal e intransferível, mas não se materializa inteiramente por moto próprio: decorre, sobretudo, da pressão e do peso das circunstâncias. O impeachment, a outra opção aventada, dispensa explicações. Os brasileiros são o povo mais versado no assunto no planeta e, portanto, conhecem bem suas dores e seus dramas.

            Seja qual for a saída encontrada, nesta hora grave é preciso grandeza – e não apenas do presidente. Grandeza dos homens públicos que ocupam os postos centrais do poder nacional. Grandeza para que, em busca de uma solução para o delicado momento que o país vive, sejam capazes de pôr os interesses do Brasil acima dos interesses pessoais, de modo que o país possa seguir em frente, superar as dificuldades, romper as amarras da recessão, aprovar as reformas estruturais, cumprir a caminhada rumo à modernidade, libertar-se da mediocridade econômica e – enfim – dar ao povo brasileiro a oportunidade de construir uma vida justa e digna.

            Para que esse sonho, ao mesmo tempo grande e singelo, possa se realizar, os homens públicos devem pensar mais no país do que em seu próprio destino. Os fatos mostram  que, hoje em dia, talvez não haja pregação mais inútil do que pedir gestos de desprendimento aos políticos brasileiros, eles que têm dado provas tão contundentes de desprezo à ética e à decência. Mas o Brasil precisa perseverar, precisa de serenidade para encontrar a saída que pareça menos traumática e mais correta. Os milhões, os múltiplos milhões de brasileiros que lutam honestamente por uma vida decente não merecem ser punidos pela incompetência política e pela mesquinharia dos poderosos.


Carta ao Leitor

Revista VEJA, edição 2531 – 24 de maio de 2017

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sexta-feira, 31 de março de 2017

A LISTA FECHADA DO CONGRESSO BRASILEIRO – Eduardo Affonso

(Como vai funcionar o voto em lista fechada na prática)



"- Garçom, me veja o cardápio, por favor.

- Nós não trabalhamos mais com cardápio, senhor.

- Vocês usam uma tabuleta, você me fala os pratos?

- Não, senhor, trabalhamos agora com lista fechada.

- Como assim, "lista fechada"?

- O senhor escolhe o restaurante (no caso, escolheu o nosso), e o nosso gerente escolhe o que o senhor vai comer.

- E o que é que eu ganho com isso?

- O senhor não precisa perder tempo escolhendo.

- Mas como vou saber o que vou comer?

- O senhor come o que o gerente achar que o senhor deve comer.

- Mas baseado em quê, se ele não sabe do que eu gosto.

- Baseado nos critérios dele.

- Que são...

- Ele pode querer que sejam os pratos mais caros. Ou os que usam ingredientes que estão com prazo de validade perto de vencer. Ou os que já estão prontos. Ou os que dão menos trabalho. Isso não cabe ao senhor decidir.

- Então eu me sento e...

- Senta, come o que o gerente quiser, e paga a conta.

- E se eu não gostar do prato?

- Nós não trabalhamos com essa possibilidade, senhor. Gostando ou não, vai pagar a conta do mesmo jeito.

- Bem, acho que vou então para outro restaurante...

- Todos agora trabalham assim, senhor.

- Mas quem decidiu isso?

- O Sindicato dos Donos dos Restaurantes.

- Pois então eu não vou mais comer fora. Vou comer em casa.

- Não tem problema, senhor. Posso trazer a conta?

- Que conta? Não vou comer nada...

- A do Fundo Suprapartidário dos Restaurantes. Comendo aqui ou em casa, o senhor tem que financiar os restaurantes.

- Por que é que eu tenho que financiar vocês?

- Porque se não financiar por bem, nós vamos conseguir o financiamento de outra forma, que é assaltando o senhor - um método também conhecido como Caixa Registradora Dois. O senhor pagar diretamente é muito mais civilizado, não acha?

- E quem me garante que eu pagando vocês não vão me assaltar do mesmo jeito?

- Ninguém, senhor. Ah, não aceitamos cartão. E os 10% são obrigatórios...”


Essa é uma das propostas da Reforma Política dos seus nobres representantes no congresso... A Lista Fechada.


Eduardo Affonso

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quinta-feira, 30 de março de 2017

UM ABISMO ATRAI OUTRO ABISMO - Marcos Luiz Garcia

30-03-2017
Um abismo atrai outro abismo!



Está na Bíblia: um abismo atrai outro abismo. Os jornais noticiaram que os políticos estão deixando de usar gravata para se aproximarem mais do povo.

Não concordo com essa impostação, pois assim logo eles estarão de bermudas, shorts e tênis, pois é o que está dominando.

Precisamos de gente que puxe o povo para cima, e não que se una a ele para descer mais baixo.
O vocabulário está liquidado, as boas maneiras morreram, o bom gosto desapareceu, até a boa aparência sumiu!

Desse jeito vamos para fundo do abismo da História, como aqueles que abandonaram a civilização e voltaram para o primitivismo.

O “desgravatamento” é mais uma atitude que só serve para tonificar os lados ruins da sociedade, e não para retirá-la do abismo em que está. Sem mudar esse e outros comportamentos, sem que as pessoas se elevem e se considerem melhor, não haverá absolutamente regeneração do Brasil.

Não é de hoje que esse preconceito contra a civilização vem se manifestando sem que, nesse e em outros casos semelhantes, sejam chamados de preconceito.

Tudo o que procura elevar-se é preconceituoso e tudo o que puxa para baixo é politicamente correto.

Negar isso é negar a evidência. O pior cego é o que não quer ver.


          ( * ) Marcos Luiz Garcia é escritor, conferencista e colaborador da ABIM

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 Fonte: Agência Boa Imprensa – (ABIM)

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SOBRE AS MANIFESTAÇÕES DE 26/03/2017

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
A manifestação de hoje foi um fiasco


Havia milhares de pessoas.
Apenas não havia um milhão.

E juntar milhares de pessoas para se manifestar contra a corrupção, pela ética, pela justiça, pela moralidade na gestão da coisa pública, será um fracasso?
Penso que não.

Fiasco seria um milhão de pessoas defendendo a impunidade, o desvio de verbas, a violação à Constituição.

Fiasco seria ter ido tangido feito gado pelos sindicatos, em ato organizado com dinheiro tirado do trabalhador.

Fiasco seria tumultuar a vida das pessoas num dia útil, faltar às aulas, ao trabalho, usar máscara, soltar rojão.

Ninguém estava lá por privilégios.
Ninguém estava lá por se sentir acima da lei.

Talvez a manifestação de hoje tenha sido um fiasco para quem achava que tirar Dilma do poder era um fim em si mesmo.
(Era o começo. Ainda há muito o que drenar naquele abcesso).

Um fiasco para quem se contenta com Cunha e Cabral na prisão.

Um fiasco para quem acha que o Brasil não tem jeito.

É, pra esses foi um fiasco.



Eduardo Affonso

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quarta-feira, 29 de março de 2017

“CIRO DEVIA SE PREOCUPAR COM SUA SAÚDE MENTAL”, DIZ JOÃO DORIA

28 de março de 2017

Ciro Gomes (PDT-CE) “devia se preocupar é com o estado dele, primeiro o pessoal, de saúde mental, depois o Ceará, que é o Estado que ele representa”, disse nesta segunda-feira (27) o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB).

O prefeito tucano rebatia críticas feitas pelo pedetista a ele, em entrevista publicada pela Folha no mesmo dia.

Para Ciro, o “farsante” Doria força uma imagem errada de “antipolítico”, já que, ao chefiar a Embratur no governo Sarney, “saiu debaixo de muitas irregularidades no Tribunal de Contas da União e foi violentamente criticado por uma propaganda do turismo brasileiro com bundas de mulher na praia, estimulando claramente o turismo sexual”.

Doria evocou um episódio visto como machista da campanha presidencial de Ciro em 2002 –quando Ciro disse que sua então esposa, a atriz Patricia Pillar, tinha um dos papéis mais importantes na disputa: “Dormir comigo”.

“O ex-governador [do Ceará] não é exatamente a pessoa mais indicada para falar das questões das mulheres, né? Ele tratou a esposa como tratou, não é exatamente uma pessoa que tem perfil e autoridade pra falar sobre isso.”

“E os temas da Embratur são temas do passado, não houve esse tipo de situação”, afirmou na sequência.

[…]

Doria negou que sua fortuna tenha sido construída com ajuda do partido. “Se tivesse tido algum problema, não seria depois de nove meses de intensa campanha que isso teria surgido. Então não procede.”

E emendou: “Lamento também que o ex-ministro Ciro Gomes, com seu habitual destempero e seu tradicional desequilíbrio, queira fazer colocações desse tipo”.

Acabei de publicar um texto com a fala do vereador do Partido Novo, Felipe Camazzoto, afirmando que a típica postura tucana de fazer “oposição” pusilânime à extrema-esquerda, seus “primos radicais”, já era, é coisa do passado, e que os socialistas terão de se acostumar com isso.

João Doria mostra que estou certo, e que até no PSDB há ventos de mudança! É verdade que muitos dizem que Doria tem mais o perfil do Novo do que do PSDB, e o fato de ele receber tanto “fogo amigo” de seu próprio partido comprova isso. Os tucanos não toleram muito essa postura de “bateu, levou”, pois sua vocação é mesmo apanhar com elegância, oferecer a outra face e convidar para um chá das cinco aquele que pretende destruí-los, em nome da “diplomacia”.

Mas FHC já deu. Agora precisamos de uma nova postura, de quem tenha coragem de enfrentar com determinação esses safados que pretendem arruinar de vez com nossa democracia. Enquanto o ex-presidente nega até mesmo o que disse, alegando que chamou Lula e Ciro Gomes de “mau caráter” na hora do nervosismo, mas que após reflexão calma não pensa nada disso, Doria coloca o dedo na ferida e mostra como essa gente deve ser tratada.

É assim que se faz, Doria! Eu ainda acho que o prefeito de São Paulo pode adotar o novo apelido de Ciro que anda circulando por aí. Apresentei uma justificativa bem lógica para tanto em minha página do Facebook:

Apesar da pinta de coronel nordestino, acho que Ciro Gomes tem algo de italiano em sua origem. E, como todos sabem, em italiano o “c” muitas vezes tem som de “t”. Por exemplo: Cielo se fala “tielo”. Por conta disso, e apenas disso, resolvi que a partir de hoje só chamarei o candidato de extrema-esquerda de Tiro Gomes. Não há ligação alguma com o episódio em que o linguarudo destemperado afirmou que receberia o juiz Sergio Moro “na bala”, que fique bem claro.

Os fãs de Tiro Gomes (sim, há maluco para tudo nesse mundo) andam revoltados com meus ataques, e na falta de argumentos puxam o velho “debate” que travei com o homem há 9 anos. Fui “humilhado”, dizem, e nunca superei a vergonha (talvez por isso eu mesmo tenha postado o vídeo). É pura “dor de cotovelo”, portanto. Estão certos, claro! Meus ataques não têm absolutamente nada a ver com o fato de que um sujeito arrogante, despreparado, oportunista e destemperado pretende ser o próximo presidente do Brasil, para afundar de vez com o país, terminar o serviço começado por seus comparsas Lula e Dilma. Imagina só!

Estou aqui elogiando Doria e criticando Ciro por “revanche egoica”, pura vaidade. Quem me conhece sabe que sou mais vaidoso até do que aquele lá, que passou a defender o indefensável só para atacar a “direita xucra”…

Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.



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quarta-feira, 15 de março de 2017

A LISTA ESCONDE - Merval Pereira

A lista esconde


Proibida a doação eleitoral por empresas pelo Supremo Tribunal Federal, e inviabilizada pelos escândalos que estão sendo revelados desde o mensalão e que agora, no petrolão, ganharam detalhes perversos de utilização dos mecanismos institucionais da democracia para lavar o dinheiro das propinas oriundas de verba pública, a política ficou sem meios de se financiar. E fazer campanha eleitoral custa caro em qualquer lugar do mundo.

Somente os candidatos a deputado federal nas últimas eleições declararam doações no valor total do Fundo Partidário para todos os partidos, o que significa que faltaria dinheiro para financiar os demais candidatos a todos os cargos eletivos, inclusive presidente da República.

É essa constatação que está levando à conclusão de que somente uma escolha com lista fechada de candidatos, financiada por verba pública, pode viabilizar a eleição de 2018 que, sem isso, ficaria à mercê do dinheiro ilegal, venha de onde vier.

O sistema de lista fechada, no qual os candidatos são elencados pelos partidos, mas os eleitores votam apenas na legenda partidária, era o sonho do PT na época do pós-mensalão, e, com maior razão ainda, nos dias de hoje. Um detalhe sintomático aparece nas propostas em estudo: a garantia das “candidaturas natas” aos atuais detentores de mandato legislativo em todos os níveis, privilégio que foi suspenso pelo Supremo Tribunal Federal em 2002 para garantir a isonomia aos candidatos.

Hoje, quando a maioria dos atuais parlamentares está envolvida por delações de corrupção de empreiteiras, ter a garantia de concorrer a uma vaga acobertado pela sigla partidária vale ouro para os parlamentares, com trocadilho.

Essa proposta de lista fechada, no entanto, já foi derrotada dentro do próprio Congresso, quando ela parecia mais favorável ao PT do que aos demais partidos. O ambiente político mudou, e a solidariedade entre os acusados, sem diferenciação partidária, faz com que a proposta tenha boa chance de ser aprovada.

Ela traz em si uma contradição fundamental, a de fortalecer as direções partidárias no mesmo momento em que os partidos políticos brasileiros estão desmoralizados às vistas da Nação. Na primeira tentativa, foi relevante para que não fosse aprovada ressaltar que os eleitores não escolheriam seus candidatos diretamente, mas votando em uma lista previamente preparada pelos partidos.

Hoje, essa especificidade é justamente o que faz a proposta ser palatável a uma maioria parlamentar que quer se esconder do eleitor. A reação à proposta pode vir apenas das manifestações populares, mas na situação atual os senhores parlamentares já não se assustam com a voz rouca das ruas, mas com a possibilidade de cair na lista do Janot.

Não que, em isso acontecendo, temam ser condenados pela Justiça e impedidos de disputar as eleições, sabem que não haverá tempo para tal. Mas temem ser rejeitados pelos eleitores caso tenham que fazer campanhas individuais. No bolo partidário, têm mais chance de passar no teste eleitoral.

Outro foco

O depoimento de Emilio Odebrecht ao juiz Sérgio Moro pode ter sido um alívio para os lulistas, e uma frustração para os anti-Lula, mas nenhuma das partes tem razões para tal.

Emílio era testemunha de defesa de seu filho Marcelo, e foi em tal condição, e não na de delator, que falou a Moro.
Tentou minimizar a atuação do filho como grande corruptor dos políticos e mesmo como o idealizador do tal Departamento de Ações Estrturadas, onde eram contabilizadas as corrupções da empreiteira.

Disse que desde o tempo de seu pai Norberto o Caixa 2 político existia, o que deve ser verdade. Mas na sua delação premiada, ele revelou os detalhes que diferenciam as ações atuais das anteriores.

Não falou de Lula agora por que não lhe foi perguntado. E não lhe foi perguntado por que Moro já tem informações de sobra sobre o tema.

Depende
      
Nem todo Caixa 2 é crime, lembra um advogado amigo. E dá dois exemplos: no tempo da ditadura militar, financiar o PMDB na oposição era perigoso. O empresário que se dispusesse a tal, e eram poucos, não queriam seus nomes revelados com receio de represálias políticas e econômicos.

Outro caso: a burocracia exige tamanha papelada para registrar qualquer doação, por menor que seja, que às vezes é melhor doar informalmente do que preencher os formulários. 
Isso, é claro, justifica o Caixa 2 de pequenas quantias, até, digamos, R$ 10 mil reais.

O Globo, 15/03/2017


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Merval Pereira - Oitavo ocupante da cadeira nº 31 da ABL, eleito em 2 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, falecido em 27 de fevereiro de 2011, foi recebido em 23 de setembro de 2011, pelo Acadêmico Eduardo Portella.

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sábado, 4 de março de 2017

A POLITIZAÇÃO DO CINEMA É A MORTE DA ARTE

27 de fevereiro de 2017
Quando o artista troca sua expressão artística pelo proselitismo ideológico a arte morre, sai de cena, desaparece.
Em vários aspectos, o próprio conceito de arte é o oposto da propaganda política.

Arte – ao menos o que merece tal rótulo – normalmente fala fundo às nossas emoções, de forma atemporal, justamente porque lida com as angústias e paixões humanas, enraizadas em nossa natureza. Substituir isso pela mensagem conjuntural e efêmera da política é cometer um ato de assassinato contra a verdadeira arte.

Infelizmente, temos visto cada vez mais “artistas” se deixando levar por essa onda proselitista, usando sua “arte” apenas para divulgar mensagens políticas e partidárias. É um espetáculo lamentável. E o Oscar, claro, é a apoteose desse fenômeno tosco.

A pressão politicamente correta dentro de Hollywood tem sido fatal para um julgamento artístico isento, que deveria analisar apenas os critérios efetivamente artísticos, não seu teor político. Paradoxalmente, os que mais saem prejudicados com essa postura acovardada são as próprias “minorias” que esses grupos dizem defender.

Alexandre Borges explica  melhor essa visão, usando como base um excelente texto de Paulo Cruz:

Sou do tempo que o assunto do Oscar era cinema. Triste momento da politização de tudo.

O maior estrago causado por essa geração de atores ideologicamente radicais, mimados, alienados e afetados de Hollywood foi o “Oscars So White”, movimento cotista para o prêmio que fez tanto barulho ano passado (lembre aqui http://bit.ly/2lY3khD). Perto disso, a gafe histórica de errar no nome do vencedor do Oscar de Melhor Filme não é nada.

Neste ano, os dois vencedores do Oscar de Melhor Ator e Atriz Coadjuvantes são negros: Mahershala Ali, o eterno Remy Danton de House of Cards, e Viola Davis. Mahershala Ali é também o primeiro ator muçulmano a ganhar este prêmio, o que faz dele um combo de minorias.

Mahershala Ali e Viola Davis são dois bons atores, mas como saber agora se o prêmio foi por mérito ou ação afirmativa?
Como ter certeza de que não houve qualquer influência política na escolha? É uma dúvida que mancha a credibilidade do Oscar e cobre a vitória de ambos com uma nuvem de suspeição.

Como disse o grande Paulo Cruz, “ser livre é também ser preterido, e cobrar reparação perene é voltar à escravidão”.
Nada a acrescentar.

Rodrigo Constantino


RODRIGO CONSTANTINO
Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.



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