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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

CARÊNCIA DE AFETO - Zuenir Ventura


Só espero que não se repita mais o que aconteceu este ano, quando, por causa da pandemia, não pude abraçar meu netos Alice e Eric nos seus aniversários. Beijar, então, nem pensar. Até o parabéns teve que ser cantado com máscara. É fácil imaginar o que foi para um beijoqueiro que, como diz minha mulher, beija até cachorro na rua.

Realmente, afeto para mim se confunde com afago, se traduz em gesto, é tátil. Quando recebo um telefonema ou e-mail de uma amiga ou amigo, a sensação de falta, ou seja, a saudade aumenta. Entendo o que Gilberto Gil disse uma vez — que só sentia saudade das pessoas quando as encontrava. Aliás, vocês se lembram do resultado da pesquisa que Ancelmo publicou? Mais de 80% responderam que o abraço dos parentes e amigos era do que mais sentiam falta. O que talvez vocês não saibam (eu não sabia) é que existe a “síndrome da cabana”, um estresse que pode acometer as pessoas que estão voltando ao trabalho, ao “normal”, depois, por exemplo, de sete meses confinados em casa.

O fenômeno foi descrito pela primeira vez em 1900 nos EUA, referindo-se aos caçadores que no inverno ficavam muito tempo trancados em suas cabanas e que em seguida retomavam o convívio social. Não é uma boa notícia para todos nós que passamos sete meses isolados e sonhando em retornar à velha rotina. Será que vamos sentir falta do confinamento? Acho que não. Embora pessoal e diretamente não tenhamos sido atingidos pela pandemia, é impossível não ser afetado pelo desfile mórbido que aumenta a cada dia. No momento em que escrevo são mais de 150 mil pessoas, que serão mais quando vocês estiverem lendo.

Acaba de sair o livro “A bailarina da morte”, de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, sobre a gripe espanhola, que, entre 1918-19, matou mais do que a Primeira Guerra, cerca de 50 milhões de pessoas no mundo, e, só no Brasil, entre 35 mil e 50 mil. É de imprescindível leitura não só porque é um admirável trabalho de pesquisa sobre o que aconteceu naquele período tão mal estudado como porque mostra que o país teve um século para aprender e aprendeu pouco.

 O Globo, 21/10/2020

 https://www.academia.org.br/artigos/carencia-de-afeto

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

UM IDOSO NA FILA - Zuenir Ventura


Quando a gente percebe que entrou na ‘terceira idade’ Por ZUENIR VENTURA

  
          “O senhor aqui é idoso”, gritava a senhora para o guarda, no meio da confusão, apontando com o dedo o tal “senhor”. Como ninguém protestasse, o policial abriu caminho para que o velhinho, aprovado no exame de vista, enfim passasse à frente de todo mundo para buscar a sua carteira de motorista. O “idoso” que a dama solidária queria proteger do empurra-empurra não era outro senão eu.

            Até hoje não me refiz do choque. Sim, eu, que já tinha me acostumado a vários e traumáticos ritos de passagem para a maturidade: dos 40, quando, em crise, se entra pela primeira vez nos enta; dos 50 , quando, deprimido, se sente que jamais vai se fazer outros 50  (a gente acha que pode chegar aos 80, mas aos 100?); e dos 60, quando um eufemismo diz que a gente entrou na “terceira idade”. Nunca passou pela minha cabeça que houvesse uma outra passagem aos 65 anos. E, muito menos, nunca achei que viesse a ser chamado, tão cedo, de “idoso”, ainda mais numa fila para carteira de motorista.

            Na hora, tive vontade de pedir a tal senhora que falasse mais baixo. Na verdade, tive vontade de dizer: “Idoso é o senhor seu pai.” O que mais irritava era a ausência total de hesitação ou dúvida. Como é que tinha tanta certeza? Que ousadia! Quem lhe garantia que eu tinha 65 anos, se nem pediu para ver minha identidade? E o guarda, por que não criou um caso, exigindo prova e documentos? será que era tão evidente assim?

            Como, além de idoso, eu era um recém-operado, acabei aceitando ser colocado pela porta adentro. Mas confesso que furei a fila sonhando com a massa gritando, revoltada: “Esse coroa tá furando a fila! Ele não é idoso! Manda ele lá pro fim!” Mas que nada, nem um pio.

            O silêncio de aprovação aumentava o sentimento de que eu era ao mesmo tempo privilegiado e vítima - do tempo. Lembrei-me da manhã em que acordei fazendo 60 anos: “Eu não mereço”, disse a mim mesmo. Há poucos dias, ao revelar minha idade, uma jovem universitária reagira assim: “Mas ninguém lhe dá isso”. Respondi que, em matéria de idade, o triste é que ninguém precisa dar para você ter. De qualquer maneira, era um gentil consolo da linda jovem. Ali na fila nem isso, nenhuma alma caridosa para me dar um pouco menos.

            A mocinha da mesa de informações apontou para os balcões 15 e 16, onde havia um cartaz avisando: “gestantes, deficientes físicos e pessoas idosas.” Hesitei um pouco e ela, já impaciente, perguntou: “O senhor não tem mais de 65 anos? Não é idoso?”

            “Não, sou gestante”, tive vontade de responder, mas percebi que não carregava nenhum sinal aparente de que tinha amamentado ou estava prestes a amamentar alguém. Saí resmungando: “não tenho mais, tenho só 65 anos.”

“CRÔNICAS DE UM FIM DE SÉCULO”. 1999 ZUENIR VENTURA. EDITORA OBJETIVA, RIO DE JANEIRO.


  (Reader’s Digest SELEÇÕES. Abril de 2000)

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sexta-feira, 28 de junho de 2019

INTELIGÊNCIA FESTIVA EM ARAXÁ - Zuenir Ventura


Reunir em cinco dias mais de cem autores brasileiros e alguns estrangeiros para debater ideias é arriscado neste momento em que as divergências de opinião costumam se transformar em ódio, as diferenças, em hostilidade e bate-boca.

Pois o VIII Fliaraxá, uma invenção de Afonso Borges, colocou em prática essa ousadia entre os dias 19 e 23 passados de tal maneira que o resultado levou uma senhora que assistia a uma das 30 mesas de debate a comentar, incrédula: “Acho que não estamos no Brasil”. Ela se referia ao clima de respeito entre os palestrantes e de confraternização entre os que foram assistir.

Como todas as atividades estavam concentradas num só local — o Grande Hotel Termas — autores e leitores se encontravam nos elevadores, no café da manhã, no almoço, no parque, ou seja, podiam fazer o que cada vez mais é mediado por uma tecnologia — a internet, o telefone, a TV. Ali havia o contato real, a conversa, o olho no olho. Os autores saíram de lá conhecendo melhor os seus leitores, e vice-versa.

A estridência obscurantista foi substituída pelas vozes da razão e da tolerância. Em Araxá, foram elas que se fizeram ouvir não só nas discussões sobre praticamente todos os aspectos da literatura como sobre temas não literários: democracia, condição feminina, desigualdade social. Nesse capítulo, ressalte-se a participação do sociólogo Sérgio Abranches e da historiadora Heloisa Starling. Carismática, divertida, bem-humorada, ela é a prova de que o saber não precisa ser enfadonho. Sem dúvida, foi a mais animada e luminosa presença.

O homenageado do VIII Fliaraxá foi Valter Hugo Mãe, excelente escritor, simpático, um humor irresistível, onde vai, arrasta uma multidão. Um fenômeno.

Há muitos destaques que ficam aqui de fora por falta de espaço, mas acho que vale a pena registrar o momento que minha neta Alice chamaria de o “mais fofo”: foi quando o homenageado abriu a camisa e mostrou no braço a tatuagem da palavra “amigo”, escrita com a caligrafia de Ignácio de Loyola Brandão, que subiu ao palco para um demorado abraço. E o autor de “Zero” beijou a tatuagem. A plateia delirou.

O Globo, 26/06/2019


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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, Zuenir Ventura foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.


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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

XÔ, BAIXO ASTRAL - Zuenir Ventura


Virou rotina. O ex-governador Sérgio Cabral foi condenado anteontem a mais 14 anos e cinco meses de prisão pela Justiça Federal, acusado pela Lava-Jato de desviar mais de R$ 200 milhões. A pena chega agora a 198 anos e seis meses. Ele está preso desde 2016.

Enquanto isso, o seu ex-vice, Luiz Fernando Pezão, também detido, é acusado pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, de receber mais de R$ 25 milhões em espécie no período de 2007 a 2015, “valor absolutamente incompatível com o patrimônio declarado pelo emedebista à Receita”, segundo ela (em valores atualizados, os R$ 25 milhões equivalem a cerca de R$ 39 milhões). Se a gente lembrar que Garotinho e Rosinha também já estiveram presos e ainda não estão totalmente livres das grades, pode-se perguntar que outro estado ostenta em seu currículo esse ineditismo: quatro de seus governadores passaram pela cadeia.

Essas foram algumas das más notícias do ano no Rio. Foram tantas — na política, na economia e na segurança pública — que a volta da árvore de Natal da Lagoa, depois de dois anos de ausência, se transformou num animado e festivo evento.

A inauguração no sábado da “maior árvore flutuante de Natal do mundo”, como foi anunciada, atraiu 200 mil pessoas de vários bairros da cidade, que começaram a chegar com quatro horas de antecedência. A partir das 17h, vários shows musicais aconteceram no palco montado no Parque do Cantagalo. O ponto culminante foi às 21h, quando se acenderam 900 mil lâmpadas de LED formando oito decorações diferentes.

Durante o mês, um variado programa, que inclui atrações como a Orquestra Sinfônica da Petrobras, deve tornar o final deste ano mais alegre do que foi até aqui. Não só música vai animar quem for apreciar a árvore. Passeios noturnos de pedalinho, com até uma hora de duração, serão oferecidos gratuitamente nos fins de semana. Para as crianças, haverá uma casinha onde Papai Noel irá recebê-las aos domingos.

Enfim, a Árvore da Lagoa parece que está pretendendo ser um acontecimento redentor, uma espécie de “xô, baixo astral”.

O Globo, 05/12/2018
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Zuenir ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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terça-feira, 4 de setembro de 2018

A DIFÍCIL ESCOLHA - Zuenir Ventura


A difícil escolha 

Fizeram para mim a pergunta do momento: “Você já sabe em quem vai votar pra presidente?”. Respondi que não, eu e a torcida do Flamengo, exagerando um pouco. Portanto, não fiquei surpreso quando a pesquisa do Ibope revelou que 38% dos eleitores estão indecisos, vão votar em branco ou anular o voto. E que há 20 anos isso não acontecia nesta altura da disputa.

O diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, especialista em cenários eleitorais, acredita que a eleição de agora será marcada por “recorde de rejeição aos políticos, por eleitores mais exigentes e por fake news para todos os lados”.

Pode-se alegar, porém, que já foi pior — o eleitor brasileiro, por pelo menos duas vezes, preferiu depositar na urna o nome de animais em lugar de pessoas. Em 1959, o rinoceronte Cacareco recebeu cem mil votos na eleição para a Câmara dos Vereadores de São Paulo, chegando a ser notícia de primeira página do “New York Times”. Em 1988, o fenômeno do candidato animal voltou a surgir, e um protesto agitou o Rio. Macaco Tião, um chimpanzé do Zoológico que atirava fezes nos visitantes, foi lançado candidato à prefeitura pelo Partido Bananista Brasileiro (PBB), uma brincadeira dos redatores do “Planeta Diário” e da “Casseta Popular”.

A repercussão foi tanta que, no dia do seu lançamento, Tião foi transferido para uma jaula isolada. Calcula-se que recebeu 400 mil votos, ficando em terceiro lugar entre os 12 candidatos e figurando no “Guinness Book” como “o chimpanzé mais votado do mundo”.

A atual campanha, além de não ter a mesma graça, apresenta a peculiaridade da polarização extremada entre militantes de esquerda X direita. E como originalidade, o fato de que o primeiro colocado nas intenções de votos está preso, enquadrado na Lei da Ficha Limpa, que impede condenados em segundo grau de concorrer nas eleições. Por ironia, a lei foi promulgada por ele quando presidente.

Por tudo isso, não tem sido fácil para o eleitor se decidir.

Espera-se que a partir de depois de amanhã, com a propaganda no rádio e na TV, haja mais animação.

O Globo, 29/08/2018


Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32, eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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domingo, 12 de agosto de 2018

SE ELAS NÃO SABEM... - Zuenir Ventura


Se elas não sabem... 



...imagine nós, homens. Falo por mim, que consulto a minha sobre qualquer coisa importante. A atual indecisão das mulheres em relação às eleições é recorde, e essa inapetência eleitoral explica muito do estado de (des) ânimo geral. Afinal, elas são 52,5% do eleitorado, ou seja, a maioria que determina o resultado final. O problema é que, segundo pesquisa do Datafolha, 80% das eleitoras ainda não escolheram um nome em quem votar: 54% estão em dúvida, e 26% se declararam a favor do voto em branco ou nulo.

Não se trata de idiossincrasia feminina, não é uma questão de gênero. Há motivos específicos de discordância, como a dissonância entre as preocupações. A saúde, por exemplo, que para elas deve ser prioridade de governo, não aparece entre os principais temas de que os candidatos prometem cuidar.

Além disso, quem não está se sentindo confuso, desconfiado, insatisfeito e descrente com o quadro atual? Quando me perguntam “o que você acha que vai acontecer?”, respondo: “se souber, me fala que também não sei”. Será que o eleitor petista entendeu a última jogada de Lula, desistindo junto ao STF do recurso em que pedia sua liberdade? Alguém é capaz de descobrir qual é a ideologia do centrão? Aliás, o que é mesmo esse ajuntamento de interesses fisiológicos? E qual é a da bela Manuela D’Ávila, sendo tratada mais como miss do que como vice, na verdade, vice de vice, isto é, de Haddad, que, segundo o próprio Lula, tem “cara de tucano”? E o general do Bolsonaro, hein, à extrema-direita do capitão?

A novidade é que, acreditando que a indefinição das mulheres não é irreversível, os candidatos desenvolveram oportuna (ou oportunista) estratégia para atraí-las, oferecendo-lhes o cargo de vice, mesmo sem considerar se elas têm ou tiveram participação nas lutas femininas.

De qualquer maneira, segundo especialistas, o quadro tende a se alterar com a propaganda no rádio e na TV, e com o acirramento da campanha na reta final. Eles acham que as mulheres serão decisivas. Eu também.

                                                                         O Globo, 08/08/2018

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O MÊS DA MÁ FAMA - Zuenir Ventura



O mês da má fama

Tomara que o agosto que começa hoje não confirme a má fama que acumulou ao longo da História, ao servir de cenário de acontecimentos nefastos como alguns dos que têm reforçado a crença supersticiosa. No primeiro dia do mês em 1914, estourou a Primeira Guerra Mundial. No segundo, em 1934, Adolf Hitler tornou-se Führer da Alemanha. No dia 24 em 1954, Getúlio Vargas suicidou-se. A 22 de 1976, Juscelino Kubitschek morreu num acidente de automóvel.

Espera-se que não haja nada parecido, e que o mês não se resuma a essa inédita corrida por um vice, um cargo que, na terra governada por quem foi um deles, devia ser cobiçado, não tão rejeitado.

Agosto 2018, na verdade, será decisivo para as eleições: no próximo fim de semana, termina o prazo para as convenções partidárias; no dia 15, os candidatos terão que se inscrever; no dia 16, começarão os comícios, passeatas e a propaganda na internet; no último dia do mês, é a vez do horário gratuito no rádio e na TV.

A julgar pelo que foi dito no Festival Lula Livre, realizado sábado no Rio, o clima deve esquentar, porque o PT não vai desistir de seu candidato e promete radicalizar. A presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann, teria anunciado: “Nós hoje estamos apenas fazendo um ensaio porque no dia 15 de agosto faremos o registro da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva”. E como dificilmente ele se livrará da Lei da Ficha Limpa, o PT adotaria o arrojado “plano c”: boicote às eleições. A medida, ela informou, ainda não está sendo discutida oficialmente, mas “caminha para isso, se ele for impedido”.

Nesse caso, além de não disputar a Presidência, o partido não lançaria candidatos ao Senado ou à Câmara, e se dedicaria a denunciar ao mundo o que considera mais uma “rachadura na democracia do país”.

Assim, Lula abandonaria o jogo e levaria consigo o partido, acrescentando mais confusão a um já confuso processo em que uma sopa de siglas disputa a preferência de um eleitor cada vez mais desnorteado.

O Globo, 01/08/2018

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL. Foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.


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quarta-feira, 18 de julho de 2018

O FIM DO RECREIO - Zuenir Ventura


O fim do recreio


É hoje e amanhã só. Uma pena, porque mesmo sem contar com a seleção do Brasil na fase final, a Copa acabou servindo como distração desse nosso cotidiano tão cheio de más notícias. Segundo meu instituto de pesquisa, ficamos frustrados, tristes, um pouco irritados, mas não deprimidos. De repente, todos viramos croatas ou croativics e passamos a torcer com a maior intimidade por jogadores com essa rima insólita: Modric, Rakitic, Mandzukic, Perisic, Strinic, sem saber de seus gestos e atitudes nazifascisas.

Na quarta-feira, assisti a parte do jogo com a Inglaterra num consultório médico, onde todos torciam pela Croácia. Na saída, a mesma coisa: ao passar por bares e restaurantes, comemorava-se a vitória dos ics como se fosse a de Tite. Na minha rua, a surpresa foi ainda maior: também os porteiros tinham virado croativics desde criancinhas.

No dia seguinte, o fenômeno já estava num samba-gozação. Eis alguns versos: “Se não tem vaga no SUS/ Nem remédio na farmácia/ Fala com a Márcia/ Bursite, otite, nefrite/ É tanto ite/ Parece até o time da Croácia. Será que era falácia/ Tamanha audácia?/ Foi o prefeito que disse/ Fala com a Márcia”.

A partir de segunda-feira, cairemos na real e voltaremos ao país “perplexo” de que falava Cármen Lúcia em artigo aqui ontem sobre a insegurança jurídica: “A Justiça não tem lado, preferências, protegidos nem adversários”, precisou advertir a presidente do STF para o que deveria ser óbvio. “As partes conflitam, não os juízes”, teve que explicar.

De nossa parte, já tivemos no Rio a demonstração de que preferência se compra com cargos, quando mais da metade da Câmara Municipal recusou o pedido de impeachment de Crivella, dando-lhe o sinal verde para agir acima da lei. Agora, o irmão já sabe: catarata, hemorroida, otite, qualquer coisa, não entre em fila, fala com a Márcia.

Aqui, como se sabe, é a terra do vale-tudo, onde até quem está na cadeia continua roubando, conforme concluiu o procurador da República Felipe Bogado, da recente Operação Ressonância. Segundo ele, as fraudes na área da saúde fluminense investigadas pela força-tarefa da Lava-Jato na Operação Fatura Exposta prosseguiram mesmo após a prisão de Sérgio Côrtes, ex-secretário e homem de confiança do ex-governador Sérgio Cabral.

Como daqui a pouco é que vai começar de fato a campanha eleitoral, quando mais podres costumam vir à tona, muita água ainda vai passar por debaixo dessa ponte — água suja, evidentemente.

Vamos sentir saudades da hora do recreio que a Copa nos proporcionou.

O Globo, 14/07/2018

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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sexta-feira, 6 de julho de 2018

O ‘GOOOOOOOL’ E O ORGASMO - Zuenir Ventura


O ‘goooooool’ e o orgasmo 

Durante a transmissão do jogo Brasil x México, um amigo de esquerda pedia, como se estivesse se dirigindo aos colegas mexicanos: “Já que vocês ganharam a eleição, deixem agora a gente ganhar o jogo”. Ainda estava 0 x 0, e ele se referia à histórica vitória, na véspera, do candidato esquerdista Andrés Manuel López Obrador (AMLO, como é chamado), o primeiro a chegar ao poder em seu país, contrariando a onda conservadora que varreu a América Latina.

A seleção mexicana, porém, não “deixou ganhar”, conforme foi solicitado por meu amigo; aliás, não facilitou nada; ao contrário, vendeu caro sua derrota por 2 x 0, resistindo bravamente à superioridade adversária. Ao time do Brasil, sim, se deve atribuir todos os méritos, pois realizou uma excelente partida, talvez a melhor desta Copa, com destaque para Neymar em seu mais bem-sucedido desempenho, redimindo-se de seus tombos, queixas e encenações, e sendo aclamado como o melhor em campo.

Em contrapartida, o vexame foi dado pelo técnico do México na entrevista coletiva depois do jogo. Em vez de se desculpar pelo pisão desleal que um de seus jogadores deu em Neymar caído, fora do campo, o tal Osório deu uma declaração machista como há muito não se via: “Futebol é esporte de homens”. Não é verdade, é um esporte também de mulheres. Marta é uma craque melhor do que muitos dos jogadores da seleção do México. E homem não pode ser caracterizado como o animal que pisa o outro deitado.

Para os que reclamavam da suposta falta de interesse do povo para com a Copa do Mundo, o desmentido veio no noticiário televisivo da noite: em quase todas as capitais, a animação popular — a vibração, os cantos, os pulos — tinha sido de um dia de carnaval, não de uma segunda-feira que nem feriado era. As ruas ficaram vazias, o comércio fechou as portas e as pessoas se concentraram em vários locais para ver o jogo e torcer como se estivessem num estádio. Um astral bem diferente daquele que um leitor descreveu em recente carta ao jornal: “...estamos tristes, não nos orgulhamos de nada, pelo contrário, tudo nos envergonha e entristece”.

Como futebol é cultura, aí vai uma original descoberta. O linguista e membro da Academia Brasileira de Letras Domício Proença Filho tem uma teoria que explica o sucesso de Galvão Bueno pela evocação erótica de sua narração, que nos momentos culminantes reproduz, segundo o professor, o ritmo crescente que leva ao orgasmo: “olhogol, olhogol, olhogol, olhogol, olhogol, gooooooooooooool”.

O Globo, 04/07/2018


Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL. Foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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terça-feira, 5 de junho de 2018

ACADÊMICO ZUENIR VENTURA ABRE NA ABL CICLO DE CONFERÊNCIAS DE JUNHO, INTITULADO ‘CULTURA EM PROCESSO’


A Academia Brasileira de Letras abre seu ciclo de conferências do mês de junho de 2018, intitulado A cultura em processo, sob coordenação do Acadêmico e professor Domício Proença Filho, com palestra do Acadêmico, jornalista e escritor Zuenir Ventura. O tema escolhido foi Cultura e adversidade. O evento está programado para quinta-feira, dia 7 de junho, às17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.

Serão fornecidos certificados de frequência.

A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado, Primeira-Secretária da ABL, é a Coordenadora-Geral dos ciclos de conferências de 2018.

A cultura em processo terá mais três conferências no mês de junho, sempre às quintas-feiras, no mesmo horário e local, com os seguintes palestrantes e temas, respectivamente: dia 14, professor Muniz Sodré, Inteligência artificial e cultura; 21, Acadêmico eleito Joaquim Falcão, Aspectos da cultura brasileira contemporânea; e 28, Acadêmico Domício Proença Filho, Língua, cultura e identidade nacional.

O CONFERENCISTA

Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32, eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, Zuenir Ventura é bacharel e licenciado em Letras Neolatinas, jornalista, ex-professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Escola Superior de Desenho Industrial, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Colunista do jornal O Globo, ingressou no jornalismo como arquivista, em 1956. Nos anos 1960/61 conquistou bolsa de estudos para o Centro de Formação dos Jornalistas de Paris. De 1963 a 1969, exerceu diversos cargos em vários veículos: foi editor internacional do Correio da Manhã, diretor de Redação da revista Fatos & Fotos, chefe de Reportagem da revista O Cruzeiro, editor-chefe da sucursal-Rio da revista Visão-Rio.

No fim de 1969, realizou, para a Editora Abril, uma série de 12 reportagens sobre “Os anos 60 – a década que mudou tudo”, posteriormente publicada em livro. Em 1971, voltou para a revista Visão, permanecendo como chefe de Redação da sucursal-Rio até 1977, quando se transferiu para a revista Veja, exercendo o mesmo cargo. Em 1981, transferiu-se para a revista IstoÉ, como diretor da sucursal. Em 1985, foi convidado a reformular a revista Domingo, do Jornal do Brasil, onde ocupou depois outras funções de chefia.

Zuenir Ventura lançou, em 1988, o livro 1968 - o ano que não terminou, cujas 48 edições já venderam mais de 400 mil exemplares. O livro serviu também de inspiração para a minissérie “Os anos rebeldes”, produzida pela TV Globo. O capítulo “Um herói solitário” inspirou o filme O homem que disse não, que o cineasta Olivier Horn realizou para a televisão francesa.

Publicou no Jornal do Brasil, em 1989, a série de reportagens “O Acre de Chico Mendes”, que lhe valeu o Prêmio Esso de Jornalismo e o Prêmio Vladimir Herzog. Em 1994, lançou Cidade partida, um livro-reportagem sobre a violência no Rio de Janeiro, traduzido na Itália, com o qual ganhou o Prêmio Jabuti de Reportagem. Em fins de 1998, publicou O Rio de J. Carlos e Inveja – Mal Secreto, que foi lançado depois em Portugal e na Itália. Já vendeu cerca de 150 mil exemplares. Em 2003, lançou Chico Mendes – Crime e Castigo. Seus livros seguintes foram Crônicas de um fim de século e 70/80 Cultura em trânsito – da repressão à abertura, com Heloísa Buarque e Elio Gaspari. Seu livro mais recente é o romance Sagrada Família.

Em 2008, Zuenir Ventura recebeu da ONU um troféu especial por ter sido um dos cinco jornalistas que “mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no país nos últimos 30 anos”. Em 2010, foi eleito “O jornalista do ano” pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros.
Ao comentar sua série de reportagens sobre Chico Mendes e a Amazônia, The New York Review of Books classificou o autor como “um dos maiores jornalistas do Brasil”. A revista inglesa The Economist definiu-o como “um dos jornalistas que melhor observam o Brasil”.

28/05/2018


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sábado, 28 de abril de 2018

COM O BRASIL EM CANNES por Zuenir Ventura


Cacá Diegues está voltando em breve a Cannes com seu “Grande circo místico”, 54 anos depois de participar do XVIII Festival de Cinema — ele, com “Ganga Zumba”; Glauber Rocha, com “Deus e o diabo na Terra do Sol”; e Nelson Pereira dos Santos, com “Vidas secas”. Eu estava lá nesse ano em que os três funcionaram como uma espécie de compensação pela vergonha do golpe militar de 1964. Pelo menos duas surpresas aguardavam Nelson. A primeira foi logo após a exibição de “Deus e o diabo”. Sem saber que cineastas como Fritz Lang e Luis Buñuel haviam adorado seu filme, Glauber estava muito nervoso, a ponto de ter um súbito desarranjo intestinal. “Não estou aguentando”, disse pra mim a seu lado, “pede ao Nelson pra me substituir na coletiva”. E voltou correndo para o hotel. Assim foi que o amigo teve que responder a jornalistas do mundo todo perguntas como esta “Quem é Deus e quem é o diabo? Será Antonio das Mortes (o matador do filme) a representação da ditadura?” quis saber um alemão. Nelson teve de explicar também que Dadá era a mulher de Corisco, não tinha nada a ver com dadaísmo, o movimento artístico.

A outra surpresa deu mais trabalho a Nelson, que chegou a ser acusado de assassinato de animais. É que uma condessa italiana ficou furiosa com a cena em que a cadela Baleia encena a sua morte graças a soníferos. “Só mesmo um povo subdesenvolvido para fazer filme em que se mata animal”, ela vociferou. A notícia da “morte” viralizou, como se diria hoje, e criou uma certa má vontade contra o filme. Foi preciso que o produtor e fotógrafo Luiz Carlos Barreto conseguisse da Air France a oferta de uma passagem de primeira classe para Baleia, que desembarcou como celebridade. Ainda assim, a tal condessa não se conformou e espalhou que, como os “vira-latas são todos iguais”, os brasileiros teriam arranjado uma cachorra qualquer para substituir a grande intérprete que, por não falar francês, não podia garantir aos repórteres presentes no aeroporto: “C’est moi-même”.

Não seria esse o único mal-entendido. À noite, na sessão de gala, Cacá atrasou-se e quando começou a subir a escadaria do Palácio do Festival, Glauber, lá em cima, começou a gritar: “Cacá, ô, Cacá, anda logo”. Uma gargalhada explodiu. “Foi a maior vergonha da minha vida”, disse depois o diretor de “Ganga Zumba”. É que Cacá em francês quer dizer “cocô”. “Sozinho, não dava para fingir que não era comigo”. Glauber continuava gritando: “Cacá, ô, Cacá”, e a turma do sereno repetindo: “Cacá, ô, Cacá”, ou seja, “cocô, ô, cocô”.

Por via das dúvidas, Cacá deve ser agora o primeiro a subir as escadarias do Palácio, junto e misturado com o público

O Globo, 25/04/2018

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.


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quarta-feira, 11 de abril de 2018

CENAS DE UM DIA NA CORTE - Zuenir Ventura


Cenas de um dia na Corte

Foram quase 11 horas com apenas alguns intervalos, bem mais do que a peça de Ariane Mnouchkine “Rei do Camboja”, de oito horas, a que assisti em 1985 em Paris e que era o meu recorde de espectador. Só que o espetáculo do STF teve mais suspense, pois não se sabia o que iria acontecer com o protagonista.

O número exótico foi apresentado por Gilmar Mendes, vindo especialmente de Lisboa, para onde voltou após votar. Deu um show de interpretação com sua retórica teatral de caras e bocas. Exaltou-se, responsabilizou os petistas pela atual intolerância e jogou pedras na Geni, que é a imprensa hoje.

Disse que nunca viu uma “mídia opressiva” como a de agora. Acusou o “Jornal Nacional” de “neopunitivismo” por querer “provar minha incoerência” , deu um esbarrão no GLOBO e fez pior com a “Folha de S.Paulo”, chamando-a de “mídia chantagista. Queixou-se também dos que querem lhe dar lição sobre o sistema penitenciário. “É injusto ou indigno para comigo. Eu fui a Bangu e Pedrinhas, conheço esse sistema”. Ah, sim, e também votou, como esperado, a favor da concessão do habeas corpus.

O melhor momento foi proporcionado por Luís Roberto Barroso. Com um discurso claro, objetivo e convincente, ele deixou sem graça os que defendem o tal trânsito em julgado, ao exibir exemplos de condenados que, de recurso em recurso, passaram dez, 20 anos livres. Como “impactos devastadoramente negativos” de uma decisão proibindo a prisão após condenação em segunda instância, ele citou a impunidade de quem tem bons advogados e o descrédito do sistema penal. “Condenou-se a advocacia criminal ao papel de interpor recurso incabível atrás de recurso incabível para impedir a conclusão do processo e gerar artificialmente prescrições”.

Rosa Weber foi a quinta a votar, cercada da maior expectativa. Era aguardada como fiel da balança. Por cerca de uma hora fez uma apresentação técnica, hermética, coerente, sem concessões, de sua justificativa. Ela se baseou no “princípio da colegialidade”, que faz “as vozes da individualidade cederem em favor de uma voz institucional”.

Por fim, é triste lamentar o comportamento de Marco Aurélio (ajudado por Levandowski), que, inconformado com a derrota, foi deselegante e descortês com Cármen Lúcia e Rosa Weber, interrompendo-as enquanto falavam, lançando farpas e distribuindo ressentimentos e queixumes.

Marco Aurélio perdeu uma boa oportunidade de se mostrar um cavalheiro com duas das mais brilhantes e serenas representantes do empoderamento feminino na Justiça.

O Globo, 07/04/2018

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, Zuenir Ventura foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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terça-feira, 3 de abril de 2018

‘TEMPOS ANORMAIS’- Zuenir Ventura


‘Tempos anormais’

Vocês vão entender o título no final. Volto ao tema diante da repercussão da última coluna, que tratava da sessão do STF que julgou o pedido de habeas corpus do ex-presidente Lula. Por causa principalmente de um termo muito usado pelos ministros — “teratológico” —, poucas vezes recebi tantas mensagens, inclusive de colegas, a começar por minha diretora, que se referiu criticamente “ao uso vaidoso e pretensioso de nosso idioma”.

De Brasília, a também jornalista Patricia Pinheiro mandou uma divertida crônica que termina assim: “muito obrigada por me fazer saber o que é teratológico e por me lembrar que temos dicionário em casa!”. Gerson Camarotti, que estava no plenário da Corte cobrindo a sessão, conta que perguntou para todos os companheiros o que era teratologia.

“Só fiquei mais tranquilo depois de perceber que eles também desconheciam aquela palavra da moda no Supremo. Você esclareceu a minha dúvida”. Então, digamos, foi uma retribuição a quem várias vezes por semana, no “Em pauta”, da GloboNews, esclarece as minhas dúvidas políticas.
Houve quem me gozasse: “Vai dizer que na Academia vocês também não usam termos difíceis?” Como outras instituições, temos os nossos códigos e usamos, sim, mas internamente, entre os pares, não em sessões televisionadas. A propósito, o poeta e acadêmico Geraldo Carneiro comentou que os juízes — “com exceção do Barroso e às vezes da Cármen Lúcia — têm a mania teratológica de falar difícil”.

Inclemente, ele lembrou os personagens que Molière chamou de “preciosas ridículas”. “Jamais usam o gerúndio, ao contrário de Camões, Vieira, Eça, Machado etc. Têm horror à fala das ruas, assim como têm horror ao cidadão comum”.

Dos inúmeros comentários recebidos, o mais surpreendente foi um, por sinal bem-humorado, transmitido através do WhatsApp de meu amigo Roberto D’Avila, porque o remetente não tinha meu endereço. Adivinhem de quem? Do ministro Luís Roberto Barroso, confessando ter apreendido o sentido de “mal secreto” lendo meu livro sobre a inveja com esse título. Ele usou a expressão contra o seu desafeto no famoso bate-boca da véspera (ainda bem que não citou o autor. Já imaginaram eu metido nessa briga como que tomando o partido contra um dos lados?. E que lado! Tremo só de pensar).

Barroso se disse “triste” com o episódio, acrescentando, que “ainda assim o humor ajuda”. E terminou com um exemplo para ajudar na definição do polêmico adjetivo: “teratológicos são os nossos tempos. Completamente anormais”.

Quanto a isso, não há dúvida.

O Globo, 28/03/2018

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

AINDA CONY, INESGOTÁVEL - Zuenir Ventura

Ainda Cony, inesgotável


Carlos Heitor Cony morreu deixando de propósito a imagem de que era pessimista, cético, cínico e, como revelou no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, anarquista. Gozador, deve estar se divertindo por ter conseguido que acreditassem nisso. Mas será que esse Cony correspondia ao real, de carne e osso? Pelo menos seu amigo Otto Maria Carpeaux achava que não. Há mais de 40 anos, o grande crítico advertia: “Cony esconde atrás da máscara de um cinismo feroz seu sentimentalismo inato”.

Bastaria lembrar o que o cronista expressou publicamente sobre Mila. Um trechinho: “Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas vezes juntos, a patinha dela em cima de meu ombro”. É difícil imaginar um cínico capaz de se enternecer e chorar de saudade a perda de uma cadelinha.

A mesma contradição se encontra nesse anarquista obediente aos rituais. Foi ele quem revelou: “Estudei em seminário não por um sentido místico, mas porque a liturgia me atraía”. Quer dizer: o que o fascinava nos dez anos de internato não era a fé, mas os ritos da religião.

Dois mecanismos foram importantes na formação de Cony. O primeiro, de compensação. Aos 5 anos, quando começou a articular palavras, ele misturava letras, o que o levou a se refugiar na escrita. Escrevendo, não trocava, por exemplo, o “g” pelo “d” em “fogão” como fazia ao falar, provocando bullying dos colegas.

O segundo mecanismo foi o de defesa — “um modo de não se deslumbrar” — e de proteção contra o niilismo e o desespero. Caminhando sempre entre paradoxos, ele às vezes se mostrava tão cético que parecia não acreditar nem no ceticismo.

Em 1958, Luiz Garcia e eu éramos editores do suplemento literário da “Tribuna da Imprensa” de Carlos Lacerda, quando apareceu na redação um desconhecido com um envelope: “São os originais de meu livro. Não sei se vale uma resenha”. Era Cony, com o “Ventre”. Valia, e como.

Já estava nesse romance de estreia com imagens fortes e uma inesperada contundência de linguagem um pouco da dissonância que iria marcar sua vida e obra — uma espécie de espírito de contradição que gostava de contestar expectativas óbvias e de não se permitir estacionar numa posição ideológica.
Chegou a ser flagrado na esquerda, na direita e no centro, mas não por muito tempo.

Uma vez ele escreveu que, vizinhos de bairro, só nos encontrávamos nos aeroportos ou fora do Brasil. Num desses encontros a caminho de alguma palestra, perguntei que máscara ele ia usar na sua fala. Como não aceitava provocação nem de brincadeira, retrucou: “Eu uso a máscara do pessimismo e você, a do otimismo. Cada um se defende como pode da tentação contrária”.

À sua maneira, ele concordava enfim com o diagnóstico de Carpeaux.

O Globo, 10/01/2018

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL. Foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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sábado, 30 de dezembro de 2017

A FALTA QUE FAZ O HUMOR - Zuenir Ventura

A falta que faz o humor


Vivo dizendo que não sou nostálgico, que, como Paulinho da Viola, “meu tempo é hoje”, que o importante é curtir o momento, carpe diem, essas coisas. Mas tenho recaídas, como a do último fim de semana, com a morte de Luiz Carlos Maciel, que me encheu de pesar e de recordações da época em que ele foi, como grande pensador, o guru de uma geração. Eram os anos de chumbo, tempos difíceis — de censura, prisões, tortura e morte — e curiosamente de grande efervescência artística, a ponto de alguns acharem até hoje que a repressão estimulava a criatividade, quando na verdade era apesar, não por causa dela, que se criava tanto.

Maciel foi responsável por divulgar a contracultura daqui e do exterior na sua coluna Underground, que assinava no “Pasquim”, um fenômeno jornalístico que contava com Tarso de Castro, Sérgio Cabral pai, Ziraldo, Millôr, Jaguar, Francis, Ivan Lessa, Sérgio Augusto para dar dor de cabeça à ditadura. Não a derrubou, mas ridicularizou-a com a sua principal arma, o riso, deixando a lição de que, no entanto, é preciso cantar e não perder a graça. 

Até então, pasquim significava panfleto, qualquer publicação sem qualificação e importância. Com humor e irreverência, o novo jornal subverteu forma e conteúdo, linguagem e conceito do que existia no mercado da informação. A ironia, a sátira, a paródia, o disfarce e o deboche foram usados contra a hipocrisia e o cinismo do poder dominante. Esse jornaleco de nome e cara fora de uso descolonizou um modelo de imprensa que era a transposição mimética do ideal francês ou americano.

A falta de seriedade, a conduta gaiata, anárquica, desorientaram os censores, cujos mecanismos foram apanhados de surpresa por um inesperado veículo alternativo sem declarada intenção política, mas que respondia a uma demanda reprimida. Com uma ousada tiragem inicial de 20 mil exemplares, em poucos meses vendia incríveis 200 mil e passava a influenciar costumes e a lançar modismos.

Se o tropicalismo, outro sucesso da época, pretendia ser uma alegoria do Brasil, o “Pasquim” foi uma paródia. Aquele jogava com o absurdo; este, com o ridículo. Se a ditadura era carrancuda, sempre de cara amarrada, uma das maneiras de se opor era fazendo rir dela. Existia, por exemplo, uma “esquerda festiva” apostando na alegria e capaz de assumir piadas politicamente incorretas como essa de autogozação em plena Guerra Fria: “o capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O comunismo é o contrário”.

Daqueles anos de sufoco político, de que há tanto a rejeitar, ficou pelo menos uma lição para estes nossos tempos irascíveis e sem graça: é possível resistir sem perder o humor.

O Globo, 13/12/2017

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

ENEM, ALICE E MANDELA - Zuenir Ventura

Enem, Alice e Mandela  


A prova de redação é considerada o bicho-papão pela maioria dos inscritos no Enem (uma candidata classificou de “um horror”). O motivo é que não se aprende a escrever de um dia para o outro, é preciso treinamento e leitura. Ler talvez seja o melhor exercício para se escrever bem. Mas como fazer isso se as crianças e os jovens não estão mais lendo livros, preferem o iPad e também videogames e jogos no celular? Baseado numa experiência que acompanhei de perto, acho que a solução reside no lar e na escola.

Desde muito cedo, meus dois netos — Alice, de 8 anos, e Eric, de 5 — foram acostumados a dormir embalados por histórias que a mãe lê para eles. Com o tempo, o costume de ouvir transformou-se para ela no hábito de ler e, pelo jeito, o irmão vai pelo mesmo caminho, sem abandonarem o tablet. Alice lê um livro atrás do outro. Quando lhe perguntei quantos havia lido este ano, não sabia, perdera a conta.

E não é só. Além de leitora, está se tornando também “escritora”, pois teve a sorte de encontrar a professora Claudia, cuja pedagogia é fazer da leitura um prazer, não um dever. Conclusão: Alice tem pressa em terminar de escrever um livro com uma tia para se candidatar à Academia Brasileira de Letras. Para isso, conta com Marcos Vilaça, ele mesmo, o grande acadêmico a quem chama de “meu admirador”. Além do voto, ela acha que ele alimentará sua fantasia conseguindo uma brecha no regimento interno para lhe garantir o ingresso, apesar da idade.

Um recente episódio ocorrido no seu colégio me remeteu a uma das maiores emoções de minha vida profissional. Em 1994, participando de um seminário na Cidade do Cabo, minha mulher e eu tivemos o privilégio não só de conhecer Nelson Mandela como de visitar na Ilha Robben a prisão onde ele passou 18 dos 27 anos em que esteve encarcerado em condições aviltantes. A cela, de onde saía apenas para o trabalho forçado numa pedreira, tinha quatro metros quadrados. Ao ser libertado em 1990, em consequência de uma forte pressão internacional, não quis vingança nem demonstrou rancor. Militou pela reconciliação do país, o que lhe valeu, em 93, o Prêmio Nobel da Paz.

Pois bem, vocês podem imaginar o que senti quando soube que Alice e um colega deram uma aula para a turma sobre ninguém menos que o líder sul-africano que acabou com o apartheid e, ao morrer, com 95 anos, foi considerado talvez o maior estadista de um século que deu Churchill, Roosevelt e De Gaulle. Em outra ocasião, Alice falou sobre “O gato e o escuro”, de Mia Couto, e agora, para ministrar a próxima aula, está devorando “Malala, a menina que queria ir para a escola”, de Adriana Carranca.

Do que é capaz uma grande mestra.
O Globo, 08/11/2017


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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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quarta-feira, 14 de junho de 2017

MAIS DE MIL BEIJOS - Zuenir Ventura


Mais de mil beijos 


Felizmente, não acompanhei a encenação do Tribunal Superior Eleitoral para absolver a chapa Dilma-Temer. Foi um dos espetáculos mais caros e dispensáveis promovidos pela Justiça brasileira. Dispensável e custoso porque já se anunciava por antecipação o resultado e, portanto, não era preciso pronunciar tantas palavras inúteis e jogar fora tanto dinheiro nosso: durante os quatro dias de apresentações foram gastos mais de R$ 20 milhões, já que, de acordo com a ONG Contas Abertas, o TSE — também conhecido como Tribunal Superior de Egos — custa aos cofres públicos inacreditáveis R$ 5,4 milhões por dia ou R$ 2 bilhões por ano.

Eu estava em outro país, onde pessoas se dedicam a preparar um futuro diferente. Com mais quatro escritores — Nélida Piñon, Verissimo, Lya Luft e Loyola Brandão — participamos do projeto Combinando Palavras, da 17ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, uma iniciativa que envolve na leitura 5.500 estudantes da rede pública estadual. Durante meses e sob a orientação e o estímulo de dedicadas professoras, esses jovens mergulharam na obra dos cinco, interpretando-as e produzindo textos a partir do que leram: crônicas, poemas, além de desenhos e caricaturas. 

Depois, lotando completamente um teatro, 1.100 deles se encontraram cada dia com um escritor (como Lya não pôde viajar, participou por videoconferência). Pelo que me contaram Nélida e Verissimo, eles sentiram o que senti: a certeza de que nem tudo está perdido. Ao contrário. A experiência que vivemos ali desmente os estereótipos negativos — que a juventude não gosta de ler, que só quer saber de internet, que jovens só se juntam para fazer bagunça. Isso existe, claro, mas, como ensinou a professora Adriana Silva, presidente da Fundação do Livro e Leitura de RP, “não podemos transformar fatos ruins em realidade eterna”.

Durante umas duas horas, a conduta civilizada desses adolescentes do ensino médio serviu de contraponto às desagradáveis cenas ocorridas no TSE. Atentos, interessados, com intervenções pertinentes, eles demonstraram pelas perguntas que haviam assimilado criticamente o que tinham lido. E mais: os representantes das várias escolas que subiram ao palco para nos homenagear nos comoveram. No meu dia, fiquei tão emocionado que, sem conseguir palavras, recorri a um gesto, dizendo que gostaria de agradecer dando um beijo em cada um/a da plateia. A ideia foi recebida com entusiasmo e, assim, devo ir para o Livro dos Recordes: distribuí mais de mil beijos e posei para outras tantas selfies numa só manhã. Mesmo para um beijoqueiro como eu, foi um feito inédito.

O Globo, 14/06/2017

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL. Foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinell

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