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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

ARTIGO DO VICE-PRESIDENTE HAMILTON MOURÃO NO JORNAL ESTADÃO


Uma aula de história, de verdade, de brasilidade, que encerra definitivamente a questão sobre os outros interesses escusos sobre a nossa Amazônia.
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“No contexto de uma campanha internacional movida contra o Brasil, ressurgiu a antiga pretensão de relativizar, ou mesmo neutralizar, a soberania brasileira sobre a parte da Região Amazônica que nos cabe, a nossa Amazônia.

Acusações de maus-tratos a indígenas, uso indevido do solo, desflorestamento descontrolado e inação governamental perante queimadas sazonais compõem o leque da infâmia despejada sobre o País, a que se juntou a nota diplomática do governo francês ofensiva ao presidente da República e aos brasileiros.

O Brasil não mente. E tampouco seu presidente, seu governo e suas instituições.

Em primeiro lugar, porque o Brasil tem a seu lado a História, sobre a qual, em consideração à memória nacional, nos devemos debruçar.

A Amazônia que nos pertence foi conquistada no tempo em que só a ação intimorata garantia direitos. Depois da expulsão dos franceses de São Luís (1615) e da fundação do forte do Presépio, a futura Belém (1616), corsários ingleses e holandeses foram combatidos e expulsos da foz do Rio Amazonas.

A União Ibérica (1580-1640) ofereceu oportunidade para que bandeirantes e exploradores rompessem as Tordesilhas, um desenvolvimento histórico que tem na primeira navegação da foz à nascente do Amazonas (1637), façanha cometida por Pedro Teixeira, seu marco definitivo.

Foram fortalezas que prefiguraram a ocupação e a delimitação da Amazônia brasileira. Foi a catequese que aglutinou os indígenas sob a proteção da cruz, favorecendo a miscigenação que fomentou o povoamento da região. A fundação do forte de São José do Rio Negro, na confluência do Rio Negro com o Solimões (1663), reuniu em seu entorno índios barés, baniuas e passés, dando origem à povoação que viria a se transformar na cidade de Manaus.

Após a Independência, em nossa primeira legislatura, quando a pretensão estrangeira de impor um monopólio de navegação no Amazonas ousou atribuir aos brasileiros a pecha de ignorantes, coube ao Senado devolvê-la, lembrando que cabia aos brasileiros a primazia dos descobrimentos sobre a região, conforme atestado pelo próprio Humbolt.

E no início do século 20, enquanto a Europa se dilacerava nos campos de batalha da 1.ª Guerra Mundial, um dos nossos maiores soldados, Cândido Mariano da Silva Rondon, completava sua campanha sertanista (1915-1919) em Mato Grosso levantando cartograficamente os vales do Araguaia e as cabeceiras do Xingu; descobrindo minas de sulfeto de ferro, ouro, diamantes, manganês, gipsita, ferro e mica; e o mais importante, fazendo amigas as nações nhambiquara, barbados, quepi-quepi-uats, pauatês, tacuatés, ipoti-uats, urumis, ariquemes e urupás, que ao final da ciclópica empreitada apontavam para as armas dos exploradores e diziam: “Enombô, paranã! Dorokói pendehê” (“joguem no rio, a guerra acabou”).

Epopeia consumada, mas por concluir, na qual o Brasil jamais prescindiu da cooperação das nações condôminas desse patrimônio reunidas no Pacto Amazônico, que comemorou, no ano passado, 40 anos de sua assinatura, o qual, pela sua finalidade e sua clareza de propósitos, dispensa protagonismos de última hora movidos por interesses inconfessáveis. Se existisse algum protagonismo nacional na Amazônia sul-americana compartilhada por nove países, algo que o Brasil nunca avocou, ele seria, pelos números, pela presença e pela História, brasileiro.

Se a História dá razão ao Brasil em qualquer debate sobre a Amazônia, cabe colocar, em segundo lugar, que ele tem a seu favor os fatos.

Não há país que combine legislação ambiental, produtividade agropecuária, segurança alimentar e preservação dos biomas com mais eficiência, eficácia e efetividade do que o Brasil. Não bastassem todos os dados legais e científicos, sobejamente conhecidos, que comprovam essa assertiva, tomem-se não as palavras, mas os atos do governo brasileiro no sentido de combater queimadas e apurar crimes de toda natureza praticados na Região Amazônica, o que desqualifica as desproporcionais acusações e agressões desferidas contra o País por causa do meio ambiente.

E se não bastassem a História e os fatos, cabe apontar o que se revela nas declarações oficiais, nas confidências mal escondidas, nas entrelinhas dos comunicados e no ecorradicalismo incensado pela imprensa: a velha ambição disfarçada por filantropia de fachada.

É inacreditável que, num momento em que guerras comerciais e protecionismos turvam o horizonte mundial, e são publicamente condenados em todas as instâncias internacionais responsáveis, líderes de países europeus venham, individualmente ou em conjunto, tomar iniciativas contra o livre-comércio, procurando sabotar acordos históricos como o firmado entre a União Europeia e o Mercosul e entre este e os países da Associação Europeia de Livre-Comércio (Efta) – Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein.

Como é inacreditável que pessoas que até há pouco tempo ocupavam cargos públicos se esqueçam de uma das linhas mestras da diplomacia do Brasil, a de preservar a liberdade de interpretar a realidade do País e de encontrar soluções brasileiras para os problemas brasileiros, conforme colocadas pelo chanceler Horácio Lafer em 1959.

Nada disso prevalecerá. O Brasil não tem tempo a perder. Com trabalho, coragem e determinação ele encontrará o seu destino de grandeza: ser a mais pujante e próspera democracia liberal do Hemisfério Sul.

E por qualquer perspectiva, da preservação ao desenvolvimento, da defesa à segurança, da História ao Direito, a nossa Amazônia continuará a ser brasileira.

E nada exprime melhor isso do que a canção do internacionalmente reconhecido Centro de Instrução de Guerra na Selva: À Amazônia inconquistável o nosso preito, / A nossa vida por tua integridade/ A nossa luta pela força do direito/ Com o direito da força por validade.”


(Recebi via WhatsApp)


A mais alta das árvores gigantes da Amazônia está dentro de uma unidade de conservação estadual de uso sustentável, a Floresta Estadual do Parú (PA)Divulgação/Jhonathan dos Santos

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sábado, 27 de abril de 2019

VIDA LONGA AO LIVRO – Vitor Tavares*


O Dia Mundial do Livro, é a ocasião perfeita para fazermos uma reflexão sobre a sua importância, sobre os desafios do setor, e também para celebrarmos as conquistas.

Antes de qualquer coisa, precisamos ter claro que o livro é um objeto de democratização e cidadania. Por isso, é fundamental que a leitura seja encarada com seriedade e responsabilidade.

O livro e a leitura se tornam fortes e permanentes em um ambiente economicamente saudável, de segurança jurídica e de liberdade de pensamento. Por isso, devemos aproveitar o momento para rever modelos, pensar em alternativas e fortalecer toda cadeia produtiva e criativa do livro.

Todos os setores da economia vivem um momento de transformação. Neste cenário, a atualização de modelos de negócios, em especial do livro, é urgente. O fato é que os diversos produtos da indústria criativa disputam o tempo das pessoas. Na última edição da pesquisa Retratos da Leitura (2016), o hábito da leitura fica em 10º lugar quando o assunto é o que gosta de fazer no tempo livre, atrás de assistir TV, ouvir música, acessar a Internet, entre outros.

O livro é, em sua essência, um objeto de várias possibilidades, ele pode chegar ao leitor em diversos formatos: no tradicional formato impresso, já tão querido e aceito pelos leitores; no formato digital, que facilita a portabilidade, ou em audiolivro, que permite o acesso ao conteúdo do livro durante outras atividades. As possibilidades estão aí, mas é necessário entender o desejo do leitor e oferecer o livro da forma esperada.

O momento é instigante: ao passo que devemos superar obstáculos, o terreno é fértil para criar novas oportunidades. Rever modelos tradicionais que temos praticado há muito tempo, repensar a consignação, ampliar os canais de distribuição, incentivar a criação de novos pontos de vendas e atualizar a experiência de compra nas livrarias é tarefa fundamental agora.

A situação pela qual o setor livreiro passa me faz lembrar uma antiga campanha das padarias de São Paulo: "Pão se compra na padaria". Claro que o comportamento do consumidor não é estabelecido por uma simples frase, acontece que juntamente com a frase quebraram-se vários paradigmas. A padaria passou a ser um local de convivência, com mais possibilidades e mais atenta às necessidades de seus clientes. Todo o varejo, em seus diversos segmentos tem buscado uma fórmula parecida, na qual o ponto de venda não fique restrito à venda do produto, mas se torne um ponto de contato com as pessoas, com atendimento ágil e qualificado, transformando-se em um amplificador de vendas. Para isso, é importante que o relacionamento entre loja e público se dê de forma rápida e sem ruídos. Na experiência da loja, seja ela virtual ou presencial é que o cliente se tornará sua melhor propaganda ou seu pesadelo.

Temos uma grande missão: tornar o mercado forte e exigir do poder público a priorização da educação e a formação de leitores para quem sabe, no futuro, possamos ter um país que ofereça oportunidades para todos, repleto de profissionais preparados para o seu desenvolvimento.

Que o livro, instrumento para transformação de pessoas, nos inspire a transformar o mercado.

*VITOR TAVARES é o presidente da Câmara Brasileira do Livro

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terça-feira, 23 de abril de 2019

NOTRE-DAME DE PARIS – Divaldo Franco


#ArtigoDivaldoFranco – Professor, médium e conferencista

No momento em que escrevo este artiguete, arde em devoradoras chamas a incomparável Catedral de Notre-Dame de Paris, um dos mais grandiosos símbolos da capital francesa.

Não posso negar a dor íntima que experimento ao ver a destruição de um dos mais notáveis templos góticos da humanidade.

Visitei-a mais de quinze vezes, em todas ocasiões em que estive em Paris. Exercia sobre mim um fascínio indescritível, evocando o período das Cruzadas como o da Revolução de 1789.

No seu interior estiveram reis e a ralé, potentados e miseráveis, bárbaros e santos, imperadores e o povo em súplica, rogando as bênçãos de Nossa Senhora, em períodos de guerra, de peste, no passado, e de júbilo.

Napoleão Bonaparte, no dia 2 de dezembro de 1804, ali fez-se coroar imperador dos franceses, enquanto, anos antes, ela fora palco do materialismo em famoso discurso que expulsava Deus do país...

Começou a ser construída em 1163 e é um dos monumentos históricos mais extraordinários do engenho humano, na pequena Île de la Cité, dedicada à Mãe de Jesus.

Tudo nela era especial, desde suas imensas colunas, suas torres, teto, vitrais, subsolo onde eram guardados tesouros de valor incalculável, repositório de histórias vivas da cultura francesa.

Recordo-me do incêndio do Museu Histórico do Rio de Janeiro, que destruiu documentos insubstituíveis e a memória de acontecimentos únicos do nosso país.

Penso, nestes dias de ódio e de primarismo, acompanhando na França os casacos amarelos, vândalos destruidores da pior espécie, assim como os anarquistas de todo o mundo e da nossa Pátria que não perdem oportunidade de destruir tudo, em alucinada volúpia de prazeres patológicos, inclusive matando seres humanos.

Se ambos incêndios foram por negligência humana, igualmente considerada criminosa, estarrece-nos mais, porém, se foram com o objetivo de instalar na Terra o pavor e no último caso anular "o Cristianismo que comanda o ocidente há dois mil anos e deve ser aniquilado a qualquer preço”, muito pior para a nossa paradoxal civilização.

Estamos numa encruzilhada sociocultural das mais complexas.
De um lado, predominam as paixões mais asselvajadas que se possa imaginar ao lado de especial tecnologia de ponta e de ciência avançada, sem ética nem moral, nem paz ou alegria de viver. E do outro, as perspectivas de mudança de comportamento, voltando-se aos valores da dignidade, da família e da humanidade.

Nas sombras das incertezas, cabe-nos a todos nós e a cada um em particular a conduta nobre e o desenvolvimento da cultura da paz e do amor.

Seja Notre-Dame de Paris o último espetáculo truanesco destes dias desafiadores, que devem ceder lugar aos deveres de elevação moral do ser humano.

*Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, de 18 de abril de 2019

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quinta-feira, 25 de maio de 2017

DE CERTEZAS E INCERTEZAS- por Rosiska Darcy de Oliveira

De certezas e incertezas

O esgoto transbordante com que o povo brasileiro convive desde o começo da Lava-Jato não para de jorrar. Por pior que seja a sensação cotidiana de desgosto e nojo, a gravação do presidente Temer, apanhado em conversas estarrecedoras com o empresário Joesley Batista, e a desfaçatez de Aécio Neves, pedindo propina do mesmo empresário e oferecendo em troca diretorias da Vale, dão a dimensão do profilático trabalho de purga que a operação Lava-Jato vem fazendo. Na semana passada, foi a vez de Lula e Dilma serem desmascarados pelos marqueteiros que inventaram suas máscaras.

Não fosse o nível rasteiro do que está em jogo — roubalheiras e mentiras —, a morte política de personagens centrais dos últimos governos lembraria o desfecho das tragédias. Aqui é só o enredo de um folhetim político-policial com bandidos em todos os partidos, atirando uns nos outros, mas trabalhando todos, cúmplices, para sabotar a Lava-Jato. O que desde logo desmente as acusações de parcialidade que lhe imputavam as vozes raivosas do PT.

Vira-se uma página da história contemporânea que, melancólica, termina com o sistema político caindo de podre. Que futuro ainda é possível para um país massacrado por crise econômica e acefalia política?

Temer escolheu não renunciar. Mais cedo ou mais tarde, será destituído pelo TSE ou em um processo de impeachment. Seu governo tornou-se inviável e agoniza. A base parlamentar se esfacela. Ele nega as acusações. Não convence. Se se agarrar à cadeira presidencial, provocará uma crescente exacerbação da população que já lhe perdeu o respeito. Mexerá em vespeiro.

Em meio às incertezas, algumas certezas. A Constituição deve ter a primeira e última palavra, e a sua defesa caberá sempre ao Supremo Tribunal Federal. O funcionamento das instituições democráticas deve ser garantido impedindo que pescadores de águas turvas se insinuem como salvadores da pátria. Seria uma trágica ironia da história se todo esse esforço de moralização da vida pública desembocasse na ascensão de demagogos e corruptos.

No horizonte, acumulam-se interrogações e riscos. Na hipótese de eleições indiretas para substituir Temer, como previsto na Constituição, o presidente da Câmara ou, na ausência dele, o do Senado, ambos comprometidos na Lava-Jato, teriam legitimidade moral para assumir interinamente a Presidência e comandar o processo de eleição do novo presidente? Não seria mais indicado que a ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, de indiscutível honorabilidade, assumisse essas funções?


A honorabilidade deve se tornar uma exigência incontornável para ocupar cargos de comando do país. Uma vida pública sem máculas seria, no caso de eleições indiretas, o requisito primeiro para a escolha de um candidato ou candidata tanto quanto possível consensual. O espírito da Lei da Ficha Limpa deveria ser rigorosamente invocado na legitimação de candidatos a todo e qualquer cargo público, sobretudo a chefia do Poder Executivo.

Em situações normais, eleições diretas seriam o caminho mais apropriado para refundar o país. Porque é disto que se trata, refundar o Brasil. Mas não estamos vivendo tempos normais. O país foi saqueado. A Lava-Jato ainda não chegou ao fim de seu trabalho de erradicação da corrupção. A prova é que, como agora, descobrimos, pasmos, que crimes continuam sendo cometidos por políticos que não se arrependem, reincidem, têm uma fé cega na impunidade.

O que está em jogo é um embate decisivo entre o sucesso da Lava-Jato com a punição dos culpados e o risco de volta ao poder daqueles que, por palavras e atos, minaram a democracia até quase destruí-la. O tempo da Justiça pode não coincidir com o da política.

Duzentos e oito milhões de habitantes, vivendo em um gigantesco território, donos de bens naturais inestimáveis como a Amazônia e bacias hidrográficas de dar inveja a um mundo assombrado pela carência de água e de ar puro, com capacidade empresarial para construir a Petrobras e reconstruí-la depois de um assalto demolidor. Assim é o Brasil. Um povo que ganha honestamente a sua vida, uma cultura mestiça, que dá lições de diversidade a quem não suporta um vizinho estrangeiro.

Não somos um país de corruptos, somos um país em que, durante décadas, os governantes se venderam e nos venderam a umas poucas gigantescas empresas que, na sombra, governavam, pervertiam o Estado e a política, cresciam como parasitas, sugando os recursos públicos. A essa devastação, sobrevivemos. O Brasil é maior do que a crise, essa é a maior certeza.

O Globo, 20/05/2017




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Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL, eleita em 11 de abril de 2013, Rosiska Darcy de Oliveira é escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo, falecido em 23 de dezembro de 2012.

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

VOCÊ ESTÁ BEM, REINALDO AZEVEDO?

7 de fevereiro de 2017 
Por Lucas Berlanza, publicado pelo Instituto Liberal


Nos anos que imediatamente antecederam meu ingresso à faculdade, bem como no seu começo, sempre estive a favor do colunista da VEJA, Reinaldo Azevedo, autor de O País dos Petralhas, diante dos ataques constantes que o via receber na universidade. Achava – e continuo achando – que ele era um articulista talentoso, capaz de irritar profundamente as esquerdas radicais por ser uma das poucas vozes a questionar sem dó suas articulações políticas.

Reinaldo se portou como guerreiro em seus textos, combatendo as artimanhas do petismo com desenvoltura e até, nalguns momentos, certa poesia. Estava certo de ser esse o único motivo para merecer o escárnio e a zombaria com que era tratado. Eram de sua autoria algumas das melhores sentenças e definições irônicas do entulho lulista. Não que concordasse com ele o tempo todo, e é natural sempre haver alguma discordância entre duas pessoas que se dispõem a verdadeiramente pensar; mas eu o admirava como colunista.

De uns tempos para cá, porém, a partir do momento em que Lula e Dilma se reduziram aos trapos que merecem ser, comecei a pensar que Reinaldo estava um tanto esquisito em sua eleição de prioridades. Quando teceu suas primeiras críticas a Sérgio Moro e aos procuradores da Lava Jato, observei aquilo com cautela e respeito. Não endosso qualquer discurso, afinal de contas, que santifique pessoas e as torne automaticamente impolutas, por maiores sejam os seus méritos; Moro e os procuradores podiam e podem, de fato, estar equivocados em alguns aspectos. Por que não criticá-los, se este fosse o caso?

O prosseguimento das publicações de Reinaldo, porém, mudou bastante a minha percepção. Percebi que, na contramão de muitos articulistas e colunistas, diante de todos os nossos problemas, ele elegeu as figuras por trás da Operação Lava Jato como alvos prediletos de seus vitupérios, como que numa verdadeira perseguição inveterada. Chovem acusações de que seja tucano, e me sinto bastante desconfortável em fazer ilações sobre sua ética profissional, mas é impossível não vir à cabeça a triste dúvida se, no momento em que quase todos os partidos, e não apenas o PT, ficam com a água no pescoço nas delações avaliadas, a recorrência dessas publicações se tornou tão intensa.

Quando quase todos estavam torcendo para Carmen Lúcia homologar as delações da Odebrecht, Reinaldo deu um chilique na Jovem Pan, taxando-a de aventureira; sobre Donald Trump, ele engole todas as deformações que a imprensa de esquerda fabricou a respeito; numa das últimas de sua lavra, escrachou Moro por ter comentado à imprensa, em nota protocolar, depois de questionado insistentemente, que Fachin é um jurista eficiente e de elevada qualidade. Isso, para ele, foi ir “além das sandálias”. Moro estaria muito vaidoso. Ninguém compreende a lei, apenas ele, Reinaldo, e os especialistas que consulta. Sua forma de criticar quem mereceria um pouco mais de consideração e alardear certezas jurídicas, particularmente na rádio, quase como, com o perdão da expressão, uma franga tendo um ataque histérico, só o tornou ainda mais antipático aos meus olhos.

Agora, comentando o governo Temer, Reinaldo, que se diz liberal, acredita quase em que não é relevante a palhaçada de aumentar o número dos ministérios, abrigando uma desembargadora no Ministério de Direitos Humanos – como se lei já não houvesse – e Moreira Franco, oportunamente premiado com um foro privilegiado, na Secretaria Geral da presidência, alçada a Ministério. Une-se àqueles que me decepcionam ao emular os petistas e fechar os olhos para os eventuais malfeitos de tucanos ou peemedebistas.

Tudo isso, a meu ver, é um erro grosseiro de posicionamento, mas ainda pode ser visto como bastante subjetivo; o mesmo não se pode dizer de bobagens como a que segue, em que, comentando a reeleição de Rodrigo Maia para a Câmara – que, justiça seja feita, Reinaldo afirmou ter sido ilegal -, o colunista disse: “é certo que eu e Maia pertencemos a um mesmo universo mental em matéria de política: somos liberais – o que se chamaria na Europa de ‘conservadores’ e, nos EUA, de ‘direita’. Infelizmente, no Brasil, rematadas bestas reivindicam essa condição e só criam embaraços à agenda liberalizante, com seus direitos fascistoides e regressivos”.

O que Reinaldo diz é de tal maneira uma enormidade de bobagens que fica difícil definir por onde começo. Em primeiro lugar, é discutível se o que é chamado de “liberal” no Brasil é chamado de “conservador” na Europa e de “direita” nos EUA; esse é o tipo de frase que não diz coisa alguma, porque esses termos têm um uso tão elástico entre nossos pobres tupiniquins, quiçá no resto do mundo. Contudo, se é para nos preocuparmos com o que se diz por aí ou como as coisas são chamadas, aquilo que a imprensa mundial faz, e Reinaldo aqui, sub-repticiamente, também, é chamar qualquer coisa que esteja “à direita” de tipos como Rodrigo Maia de “extrema direita” ou “fascista”.

A “direita saudável”, para Reinaldo Azevedo, é Rodrigo Maia, do partido Democratas do Rio – cujo pai fez, há pouquíssimo tempo, campanha em nome da legenda no estado clamando por um “governo público” e contra as privatizações. Rodrigo Maia que foi eleito em entusiástico apoio tanto do governo quanto de forças à esquerda que desejam manter engavetadas coisas como a CPI da UNE. Rodrigo Maia que é uma figura tão “liberal” que se ornou de pedantismo quando disse que quem manda na Câmara é ele, quando o relatório da Comissão que julgou o pacote de 10 medidas chegou à casa legislativa, como se fosse uma espécie de ente superior e o povo que assinou (certo ou errado) o tal pacote não fosse o mesmo a pagar seu salário.

Quer dizer que qualquer um que esteja à direita de figuras fisiológicas como Rodrigo Maia – fisiológicas e sem qualquer carisma, diga-se de passagem –, com quem o próprio Reinaldo se compara, é um fascista? Então quer dizer que Rodrigo Maia é a referência de liderança saudável da direita para Reinaldo Azevedo, e ambos, na cabeça do colunista, são a mesma coisa que, digamos, os Republicanos dos Estados Unidos e os conservadores britânicos. Rodrigo Maia seria uma Margaret Thatcher ou um Ronald Reagan. É isso?

Reinaldo Azevedo, você está bem?

Comentário do blog: Também tenho notado, como milhares de leitores meus, mudanças estranhas no comportamento e nas ideias de Reinaldo Azevedo, que foi meu colega de VEJA e por quem sempre tive admiração e respeito. Sobre o tema “liberalismo” e “conservadorismo” em si, só posso recomendar, a todos interessados no assunto e também ao próprio Reinaldo, meus dois cursos, “A Trajetória das Ideias Liberais” e “Civilização em Declínio: salvando o liberalismo dos ‘liberais’“, em que aprofundo tais questões de forma a elucidar tantas confusões frequentes por aí.


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Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

ITABUNA VIVE IMERSA NUM ETERNO VELÓRIO – Braulino Santana

Itabuna vive imersa num eterno velório


          O cortejo dos desesperados, uma leva de gatos pingados e mulambentos, calçados de sandália de dedo de feira, arrasta-se conduzindo o defunto ladeira acima. Repousa no caixão, olhos cerrados e boca em agonia, mais um garoto de 16 anos, apunhalado a facadas na periferia de Itabuna. O velório, numa noite longa, é interrompido vez ou outra por um choro em desconforto. A sensação de abandono sufoca o ambiente, e flagra a ausência de qualquer autoridade pública – um delegado, o prefeito, um promotor, um vereador, nada nem ninguém que ouça aquela história e não a deixe esvair-se em vão.
          Aquela história termina em melancolia, como a de centenas de outras e codifica a falência completa de organização social mínima. É o décimo sexto rapaz assassinado, em menos de dois meses, na cidade que ostenta a macabra cifra de mais violenta da Bahia – a Nigéria do Boko Haram é aqui. Um dilúvio ou uma bola de fogo vinda de um céu com aquelas nuvens de fumaça enegrecida de campos de concentração resolveriam a inação da classe média da outrora ‘capital do cacau’: Itabuna precisa morrer de uma certa forma (na verdade, já está morta, pois lidera o macabro ranking no Brasil com o maior índice de assassinato de jovens em cidades com mais de 200 mil habitantes – a Bahia ocupa o posto de segundo estado no país nesse ranking) para que as suas cinzas modelem um novo começo, novas consciências – a frieza de conviver com índices de violência atormentadores e se fechar num silêncio cúmplice é atitude de gente-defunta. A violência se intensifica e se cronifica por incidir sobre as classes mais desassistidas e periféricas, entregues à própria sorte.
          A bola de fogo poderia começar abatendo certeira, rápida e lancinante as ideias ensinadas nos Departamentos de Direito e de Filosofia da UESC. Aliás, o governo do Estado deveria interditar a UESC – ou lacrar aquilo ali, emulando o fechamento da tampa do caixão de dezenas de jovens que morrem a faca, a bala, a marteladas. Como é possível uma cidade estampar números obscenos de violência e uma faculdade de Direito – lugar onde a noção de Justiça deve ser ensinada e aprendida – sair impune? Para que serve investir tanto dinheiro público em um ambiente narcisista e simbolicamente violento ele mesmo? Quando vociferam por aqueles corredores a demagógica manutenção do “estado de direito”, “estado de direito” é traduzido aqui como a manutenção dos privilégios da classe média calculista no poder ali.
          Se uma universidade não consegue apresentar estudos e alternativas de políticas que combatam aberrações como a violência, ela é defunta por si mesma, e já passou da hora de ser enterrada junto com o banho de sangue com o qual lava as mãos e as enxuga com seus currículos duvidosos. Desconfia-se, portanto, de que onde há violência ou miséria, isso é ensinado e aprendido por gerações, e desconfia-se de que a própria universidade eduque para a morte, já que ela não consegue ensinar a conviver pacificamente ou a estabelecer discussões políticas mínimas que combatam os problemas que suas comunidades pagam para ela ajudar a resolver.
          Sequências de ocupantes daquela reitoria (a atual reitora aparece vestida de vermelho na internet e maquiada na imprensa pedindo ao DNIT, socorro!, uma lombada em frente à UESC) disputam a gestão da universidade sem ser capaz de escrever uma linha sequer sobre os graves problemas da região. Não atuam como intelectuais. Estão ali para ostentar seus carros, maquiagens, perfumes caros, e não apresentam estratégias para refletir sobre o que quer que seja. A reitoria da UESC deveria promover a criação de um núcleo permanente de estudos e pesquisas sobre a violência na região. Estimular e obrigar sociólogos, pesquisadores do direito, pedagogos, economistas, filósofos, cientistas políticos a responder para a sociedade por que ganham salários públicos e se escondem em suas casas de praia, no conforto de suas vidas vazias, deixando a sociedade assolada por problemas sociais inadmissíveis, como a ausência de saneamento e a incidência de violência há décadas.
          Há décadas Itabuna vive imersa em esgotos (o canal do São Caetano e o do bairro Santo Antônio são dois exemplos horripilantes) como se fossem bocas com todos os dentes podres. Carnes são vendidas a poucos metros de fezes naquelas feiras livres – se as autoridades públicas abandonam as populações a comprar víveres ao lado de fezes, isso estimula e justifica a violência numa outra ponta, já que homens e mulheres vão devolver uns para os outros o que receberam. Os investimentos públicos que conseguem escapar da gatunagem do superfaturamento e da corrupção se concentram nos bairros do centro e da classe média. A reforma da Avenida do Cinquentenário – rua central – e o calçamento de bairros como o Jardim Vitória (onde mora boa parte da gente rica) é prova da valorização dos lugares dos endinheirados.
          No ano de 2834, quando essa história for contada como ela de fato ocorreu, Itabuna será lembrada como a cidade do esgoto e dos assassinatos abertos contra pretos pobres da periferia. E suas memórias serão reconstruídas a partir das histórias de diplomados funcionais em direito, economia, pedagogia e filosofia da UESC, reconhecida, então, como a universidade que promovia a morte ou, no mínimo, deixava a morte acontecer.



Braulino Pereira de Santana, doutor em Linguística pela UFBA 


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DE SANTOS DUMONT A EIKE BATISTA – Por Kleber Galvêas

De Santos Dumont a Eike Batista

          Poucos anos após inventar uma maneira de dirigir balões, fazendo-os retornar ao ponto de partida, Santos Dumont decolou com o seu Demoiselle (“senhorita”), o primeiro avião a sair do chão sem um empurrão. O dos Irmãos Wright foi empurrado do chão para cima: através de uma catapulta; pelo interesse do exército americano; financiado por empresários e incentivado pela propaganda nacionalista cabotina.

          Santos Dumont atuava com recursos próprios. Romântico, voltou para o Brasil. Os Irmãos Wright, com espirito weberiano, apoio da mídia, do governo e de empresários, criaram uma empresa. Seus descendentes fabricam peças para aeronaves nos EUA.

          Transcorrido um século, brasileiros continuam desacreditados por parte expressiva da mídia, pelo espírito provinciano, comum entre nós (“Fazer sucesso no Brasil é ofensa pessoal” — Tom Jobin) e principalmente pelo governo que nos descapitaliza tomando o nosso dinheiro, com taxas e impostos abusivos. Não adianta nossa criatividade e espirito empreendedor se não há capital, e os juros sufocam.

          O empresário nacional, mesmo o pequeno, tem que ter manha de camelô: “um olho na esquina, outro no freguês”, ou melhor, um olho no governo e o outro na empresa. Tamanha a burocracia, diversidade e instabilidade legal vigentes.  Em alguns casos, agentes do governo induzem o incauto a saltar obstáculos legais (propinas), como a única maneira de continuar trabalhando.

          A cultura antecede a política que prevalece sobre ela, porque promulga as leis. Culturas diferentes propiciam diferentes políticas e leis próprias.

          Dizem os historiadores que a instituição da propina no Brasil remonta ao tempo das Capitanias Hereditárias. A coisa aqui se fez tão antiga, universal, volumosa e descarada, que acabou se tornando um monstro perigoso para todo mundo, visto por outros países como expressão da deslealdade comercial.

          Uma empresa, ao se expandir, se torna responsável por mais bocas dependentes do salário. O empresário que conhece a cultura local encara a ação paralela (propina) como vital, e, assim, contrata consultores e cria um departamento específico para agir com competência, consoante o ambiente.

          Embora tenha uma boa formação, ele se torna condescendente com o crime quando avalia o interesse pessoal, o da sua empresa e a responsabilidade para com terceiros. Então filosofa: se a Cultura concebe a Política, e os políticos fazem as Leis que nos convidam a transgredir, não há risco. Não será abandonado, com tantas informações, em barco furado, no meio de um oceano de denúncias.
Aconteceu!

          Daí o interesse pelas oportunas palavras do empresário Eike Batista ao embarcar para ser preso no Brasil: havendo culpa, pagar pelos erros cometidos, apoiar a Operação Lava Jato e apostar que, daqui para frente, a relação empresa-governo será diferente, transparente. Subliminarmente ele justificou as delações e indicou que, como a Operação Lava Jato alcança os políticos, a participação das empresas na nefasta rede de corrupção será esclarecida.

          Empresas criam riquezas. Mesmo a elite chinesa, que ontem “xingava” a Rússia de “revisionista”, percebeu que, sem formar uma classe empresarial, não conseguiria sustentar o seu povo e se manter no poder. O gigante chinês, deitado em berço esplêndido, compreendeu e cresceu.

          Acorda Brasil! Punição aos criminosos, vida longa e saudável para nossas empresas! 


Kleber Galvêas, pintor. Tel. (27) 3244 7115 www.galveas.com fevereiro, 2017.

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O CANTO DOS CEGOS - Arnaldo Niskier


O canto dos cegos

Desde que assumi a presidência do CIEE/Rio, preocupo-me com as atividades dos indivíduos portadores de deficiências físicas. No Brasil, segundo dados do Censo, existem 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual severa, das quais 506 mil são irremediavelmente cegas. Ocorreu-me, então, propor ao professor Carlos Alberto Serpa, presidente da Fundação Cesgranrio, a criação de um organismo, em parceria com o CIEE, para dar vida ao Coral Sidney Marzullo, em homenagem a quem se dedicou, na União dos Cegos, a um longo trabalho voltado para os deficientes visuais.

Com muita alegria — e muito trabalho — foi possível fazer a primeira apresentação do Coral Sidney Marzullo, no Espaço Tom Jobim, situado no Jardim Botânico, sob a regência do maestro Eder Paolozzi, também diretor artístico e regente da Orquestra Sinfônica Cesgranrio, que se apresentou na mesma noite de estreia. De início, foram separadas 20 vagas (das quais foram aproveitadas 15, na sessão inaugural). Era de se ver o entusiasmo da preparadora vocal Luiza Lima, adaptando os métodos tradicionais às necessidades específicas das pessoas com deficiência visual. Estamos oferecendo as letras das músicas em braille, para facilitar o aprendizado das canções sugeridas, as primeiras das quais partiram da nossa iniciativa: “O trenzinho do caipira”, música de Villa-Lobos e letra do poeta recém-falecido Ferreira Gullar, nosso colega da Academia Brasileira de Letras, e “ABC do sertão”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Logo vai se incorporar ao repertório o clássico “Cidade Maravilhosa”.

Deve ser assinalado que a noite de estreia foi um sucesso completo. Estamos providenciando novas letras em braille e uma programação para 2017, a fim de ampliar a experiência desse primeiro grupo e incorporar mais outros elementos ao coral. O ideal é dobrar o número de integrantes.

É importante frisar o compromisso do CIEE com os deficientes físicos. Fizemos um convênio com a Embratel e contratamos um grande número deles para realizar trabalhos efetivos, mesmo reconhecidas as suas limitações. Outra experiência vitoriosa é a realizada com a Unicarioca (Construindo com a Diversidade). Depois de uma palestra efetuada no Instituto Benjamin Constant, Deivison Luiz Dias Barrreto, de 26 anos, é um case de sucesso. Foi contratado pela Unicarioca e hoje ocupa o cargo de operador de telemarketing da instituição. São suas palavras: “Aprendi que, mesmo com a deficiência, é possível crescer e se desenvolver no mercado de trabalho igual a qualquer pessoa. Fazendo parte do projeto, consegui uma vaga no mercado de trabalho, tornei-me mais responsável e independente, além de poder passar para outras pessoas o exemplo de que é possível, basta não desistir.”

É claro que Deivison não é um caso isolado na Unicarioca, pois as oportunidades estão abertas a outros deficientes, desde que movidos pela mesma e inquebrantável força de vontade. Nesse aspecto, vivemos novos tempos.

O Globo, 17/01/2017



Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho

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domingo, 29 de janeiro de 2017

UMA BREVE RETROSPECTIVA, por Jairo Xavier


Uma breve retrospectiva

Em 1964 o país estava mergulhado na baderna, caos político, social e econômico. A Rússia avançava do oriente para o leste europeu implantando a ditadura do proletariado, em seu monstruoso império da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O objetivo era transformar o mundo todo em uma ditadura comunista.

O Brasil, país continental, era estratégico para a expansão comunista. 
Os ativistas foram financiados aqui pelo ouro de Moscou.

Houve então várias tentativas de golpes comunistas, de Prestes a Marighela. 

O que houve em 1964 foi na verdade, uma contra revolução, que impediu que uma ditadura sanguinária comunista fosse aqui implantada.

Toda ditadura é ruim, mas as de esquerda, foram as piores, as mais duradouras, mais castradoras das artes, tecnologias e cultos religiosos.

Quer exemplos? 

A Rússia com Stalin, A Iugoslávia com o marechal Tito, a do Kmer vermelho, com Poul Pout, a de Cuba com Fidel, a da China com Mao Tsé, a do Vietname com Ho Chi Min, a da Coréia do Norte, com a dinastia das três gerações de malucos, vigentes até hoje é que arrasou o país... São tantas e com tantos assassinatos e prisões arbitrárias... Que a nossa pode ser chamada de "ditabranda".

Veja só, dados oficiais, reconhecidos até pela esquerda. Em 21 anos de regime militar no Brasil, morreram ou desapareceram  oficialmente 634 pessoas. Isto desaparecia em uma semana na URSS nas garras de Stalin e seus Gulags. 

Além do mais, onde é, e em que tempo ou lugar, houve, como no Brasil, uma "ditadura" que de 4 em 4 anos mudava o "ditador" e elegia-se outro, por um colégio composto por militares e civis alinhados. Uma oligarquia, é bem verdade, mas não uma ditadura. Não se fechou as câmaras de deputados, nem de senadores. Os estados continuaram com governadores civis, biônicos, bem verdade, mas civis...

Cassados e ou perseguidos, foram aqueles que pregavam abertamente a luta armada ou a incitavam, aqueles que assaltavam bancos, quartéis. Aqueles que sequestravam e até matavam em ações terroristas. Aqueles que entrincheirados em guerrilhas nas matas, estavam armados até os dentes. 

Ninguém foi fuzilado em praça pública e nem condenado a pena de morte por nenhum tribunal ou pior em plebiscito popular, sem direito a defesa e sumariamente fuzilado no "paredon" como em Cuba. . Houve tortura? Houve, até hoje há. Em todo subterrâneo existe perversos covardes, que se aproveitam de uma vantagem, para maltratar os outros. 

O regime contra revolucionário militar de 1964, entregaram aos cuidados de um dos maiores jurista que o Brasil já teve, um dos maiores especialista em direito constitucional, o Prof. Doutor Hélio Bicudo, por sinal um dos fundadores do PT, que revisasse e elaborasse o texto da nova constituição e a apresentasse a um conselho de juristas civis, e assim foi feito. A constituição foi respeitada, bem como o estado de direito. O ato institucional número 5, o AI 5, só foi instituído por um curtíssimo tempo, em 1977, no governo Geisel, que determinava em seu texto, prender sem mandado judicial, casos que implicasse questões de segurança nacional. Isto para impedir atos terroristas. Logo foi revogado. 

Vladimir Herzog? Foi uma lamentável morte de inocente, reconhecida até pelos militares. Quer tenha sido por suicídio ou por assassinato perpetrado por perversos. Infelizmente não existe guerra limpa. Em toda guerra sempre morreu e morrerão inocentes. O importante é proteger o máximo possível, inocentes. A esquerda o transformou em um mártir, ocultando os milhões de inocentes que foram exterminados sob as ditaduras de esquerda. 

Enfim, é muito cômodo para os pseudos intelectuais de esquerda, como Chico Buarque, Jorge Amado, Óscar Niemayer e tantos outros, se dizerem de esquerda e perseguidos pela ditadura, e com passaporte visado, saindo espontaneamente por aeroportos, por livre e espontânea vontade, irem "exilarem-se" no eixo Paris - Londres - New York, nos melhores cafés, Pubs e Resorts, respectivamente, do berço do capitalismo e de lá ficarem compondo suas músicas de protestos sociais, livros subversivos e projetos arquitetônicos mirabolantes e ganhando rios de dinheiro, vendendo onde? Isto mesmo, no Brasil e no mundo capitalista!

Por que não foram pra Cuba? URSS, China? Iugoslávia?

Simples, porque lá teriam que trabalhar duro e não teriam liberdade de expressão, pelo menos não para falar contra o mundo comunista. Seriam logo mandados para a Sibéria! 

Prova disto? Cite-me uma, só uma, música de Chico Buarque que tenha feito sucesso após o regime militar brasileiro. Nenhuma sabe por quê? Protestar contra a ditadura dava IBOPE e dinheiro.

Conheço de cor e salteado toda a retórica falsa da esquerda.
Morei na Residência do universitário carente da UFBA, lá eu era conhecido como "Destroier" de intelectuais de esquerda. Nos embates políticos sociais que travávamos, eu os vencia, não com a arte da argumentação, réplica e tréplica. Mas com evidências científicas históricas, fatos dos horrores do comunismo, e não com as falácias de que sempre ver valeram os esquerdistas. 

Conheço esta laia, convivi na residência com muitos destes que hoje estão no poder, se locupletando, e que mesmo naquela época, ao encontrarem uma "boquinha" exclamavam com um largo sorriso de jacaré: "A burguesia tem seus encantos, companheiro”. Canalhas! 

Eram uma cambada de maconheiros e cheiradores de pó e cachaceiros em sua maioria. Outra marca de quem tem tendência à esquerda, o abuso de drogas entorpecentes. Reparou como o Brasil enveredou pelos caminhos da droga e da violência desde que a esquerda está no poder? 

Conheço muito bem a alma humana e seus mecanismos psicológicos e Psico sociais, sem querer ser arrogante e nem dono da verdade, me parece que nasci há dez mil anos atrás, como diria o "maluco beleza" que também era de esquerda e cheirador de pó.

"E para aquele que provar que estou mentindo, eu tiro meu chapéu".


Jairo Xavier Filho, Membro da Academia Grapiúna de Letras- AGRAL, ocupante da cadeira nº20 que tem como patrono Gileno Amado.

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A FILA ANDA – Ivan Martins


Saber disso ajuda a prestar atenção na pessoa ao nosso lado. Quem gosta cuida, diz o clichê. Mais do que nunca, ele está certo.

IVAN MARTINS
26/10/2016

(Para celebrar minha última semana de folga, trouxe uma coluna de maio de 2012, da qual eu gosto muito. Acho que captura um fenômeno social - o uso da expressão "a fila anda" - e se vale dele para discutir de maneira saudável os nossos exageros sentimentais. Por que tanto sofrimento quando as relações acabam? Será que ao menos parte disso não é socialmente aprendido e poderia ser evitado? Com mais um ano começando, cheio de rupturas e descobertas, essas considerações me pareceram apropriadas. Fiz alterações para melhorar o texto original e enfatizar a ideia principal. Boa leitura - e, novamente, bom 2015. Na quarta-feira que vem retorno com uma coluna inédita)  

Quem me apresentou à expressão foi Fábio Júnior, o cantor. Ele tinha acabado um casamento relâmpago e sua explicação chegou aos jornais com franqueza desconcertante: “A fila andou”. Por alguns segundos eu não entendi, depois fiquei chocado: como alguém diz uma grosseria dessas?

Desde então, a expressão se banalizou. Toda mundo fala e todo mundo escreve. Só nos últimos dias, deparei com “a fila anda” na capa de uma revista e numa propaganda de perfume. A metáfora pegou e parece que vai ficar no nosso vocabulário e no nosso comportamento: as filas andam mesmo, de forma cada vez mais rápida.

Antes de continuar, uma confissão: tenho dificuldade com esse tipo de andamento. Para mim a fila anda devagarzinho, quando anda. Às vezes, fica parada por muitos anos, e acho ótimo. Dá tempo de conversar, relaxar, ser feliz.

Apesar disso, reconheço virtudes na ideia de que a fila anda.

RECOMENDADO PARA VOCÊ

A primeira é lembrar a mim, a você e a todo mundo que os tempos do abuso sentimental acabaram. Se você não tratar as pessoas direito, elas irão embora. Todos têm opções e contam com o amparo das leis e dos costumes para procurar o melhor para si mesmo. A oferta afetiva é enorme. Em toda parte, há gente disponível e atraente, de todos os tipos e de todas as idades. Saber que a fila anda ajuda a prestar atenção na pessoa ao nosso lado. Quem gosta cuida, diz o clichê. Mais do que nunca ele está certo.

Outra coisa positiva na expressão “a fila anda” é que ela nos põe de frente com um aspecto inevitável da realidade: a transitoriedade de boa parte das relações. A depender da nossa idade ou do meio em que a gente vive, a fila vai andar mesmo, o tempo todo, goste-se ou não. Faz parte. Quando a gente é adolescente, acha que o primeiro amor vai durar a vida toda. Não dura. O mesmo acontece na juventude. A gente se apaixona, se desapaixona, dispensa, é dispensado, sofre, faz sofrer. A fila anda da mesma forma que a vida anda – até que algo importante a faça parar. O que há de errado nisso? Nada.

Mas há, na nossa cultura sentimental de brasileiros, um componente masoquista que não combina com a simplicidade da fila que anda. Temos a expectativa equivocada de que todas as emoções serão eternas. Quando as coisas acabam, nos despedaçamos. Em vez de olhar para frente e tentar recomeçar, nos achamos no direito de empacar, insistir, implorar, perseguir. Temos a vocação do melodrama. A dor inevitável das rupturas é multiplicada pela sensação social de injustiça. Ao sofrer, nos colocamos na posição de vítimas desamparadas do outro - e há um prazer medonho em sentir-se assim.

Tem gente que acha esses sentimentos naturais. Eu acho que são aprendidos. Acho que ensinamos para as nossas crianças, dentro de casa, através das nossas falas e comportamentos, que amor é para sempre e que o fim de um relacionamento equivale ao fim do mundo. As músicas dizem isso, as novelas sugerem isso. Há uma indústria cultural gigantesca que se alimenta da dor da separação e da sensação de abandono.
Esse contexto ajuda a explicar por que a dor legítima e inevitável das rupturas frequentemente vira depressão e violência. Existe incentivo social para que isso aconteça.

Outro dia, presenciei um rapaz de 26 anos consolando um amigo da idade dele, que falava em se matar por ter sido deixado pela namorada. Onde ele aprendeu esse tipo de comportamento?

As pessoas no Brasil não falam em se matar quando são reprovadas no vestibular ou quando são demitidas de um emprego bacana, como acontece no Japão. Mas muitas acham natural matar ou se matar depois de um pé na bunda.
Eu me pergunto o que é pior e não chego a conclusão nenhuma. As duas atitudes me parecem péssimas, e ambas são claramente aprendidas em sociedade. Não há nelas nada de inato ou espontâneo.

Quando se leva em conta isso tudo, já não acho tão ruim dizer que a fila anda. A expressão pode denotar frieza e desrespeito pelos outros. Pode ser sinônimo de uma atitude egoísta e utilitária. Mas pode, também, sinalizar uma percepção saudável e corajosa das relações humanas. A fila anda, a gente avança, lá na frente descobre coisas melhores. Sempre de cabeça erguida. Melhor do que ficar choramingando por aí, com pena de si mesmo.




IVAN MARTINS
Colunista de ÉPOCA 
Autor do livro Alguém especial, escreve em epoca.com.br às quartas-feiras

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