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sábado, 13 de maio de 2023

Maio lusófono

Arnaldo Niskier

 


No mês de maio, os países lusófonos celebram o 'mês da língua portuguesa'. Essa homenagem ao idioma e à cultura de origem portuguesa é um reconhecimento à relevância da língua e dos traços culturais partilhados por aqueles países que têm com Portugal uma relação histórica?

Reiteradas vezes temos dito, na Academia Brasileira de Letras, que a nossa obrigação primeira é cuidar com desvelo da língua portuguesa. E isso, naturalmente, parte da educação oferecida aos jovens estudantes.

Em todos esses anos fiz um extraordinário esforço para entender o fenômeno da educação, procurando trabalhar pelo seu constante aperfeiçoamento. Como professor e homem público, sempre busquei separar o que era ensino do que representava educação. Sem confundir as responsabilidades de cada um.

Como professor de História e Filosofia da Educação da UERJ, como autor de mais de três mil artigos e 100 livros sobre educação publicados e como autor de dezenas de conferências em diversos estados brasileiros, posso afiançar que conheço muito bem quais são os melhores caminhos que devem ser percorridos pela nossa educação, para que seja devidamente aperfeiçoada e bem disseminados os saberes e letras da Língua Portuguesa.

A literatura aproxima mundos e sonhos diferentes. A arte define e revela quem somos, que mitos cultivamos, em que ideais estéticos nos espelhamos, quais sentimentos conjugamos.

Um texto mal escrito abala a imagem do profissional que o escreveu e, sem dúvida, desqualifica o trabalho. Infelizmente, o descaso com o nosso idioma é notório, como podemos notar nos estudos frequentes da Academia Brasileira de Letras.

O Português é anterior a Portugal. Trata-se da quinta língua mais falada no mundo, a terceira mais falada no Ocidente e a mais falada no Hemisfério Sul. Partilhada por nove países, essa língua é um traço cultural e identitário que os unifica em torno de uma mesma matriz linguística. Se olharmos para a Península Ibérica, no século sexto, o espanhol e o galego, ambos derivados do latim, se ouviam por aquelas bandas. Nas palavras de Fernando Venâncio, autor do livro 'Assim Nasceu uma Língua - edição portuguesa da 'Guerra & Paz' - 'a história do português é, em larga medida, a história das suas tentativas de afastamento do galego'. O que é válido para o passado, será válido para o presente e para o futuro: como esperar que a fala do Brasil (ou de Angola, ou de Moçambique) continue fiel ao português de Portugal?

É preocupante a falta de conhecimento de diversos profissionais de diferentes áreas em relação à Língua Portuguesa. Alegam essas pessoas que a simples troca de um z por um s não muda o valor de uma petição advocatícia, a receita de um médico ou, ainda, o relatório de um administrador. Puro engano: um texto mal escrito abala a imagem do profissional que o escreveu e, sem dúvida, desqualifica o trabalho. Infelizmente, o descaso com o nosso idioma é notório, como podemos notar nos estudos frequentes da Academia Brasileira de Letras.

Devemos ter cuidado com o que se fala e com o que se escreve, pois a nossa imagem está sempre sendo avaliada.

Chumbo Gordo, 10/05/2023

https://www.academia.org.br/artigos/maio-lusofono

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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sexta-feira, 28 de abril de 2023

Heloísa agora é imortal

Arnaldo Niskier

 


Na casa de Machado de Assis, em recente votação, ninguém estranhou a quantidade de votos obtidos pela escritora, crítica literária a ensaísta Heloísa Buarque de Hollanda: 34 votos, quase a totalidade dos imortais existentes.

Na vaga nº 30, que foi lindamente ocupada por Nélida Piñon, a primeira mulher a ser presidente da Academia (fui o seu Secretário-Geral), Heloísa é uma das principais formuladoras e compiladoras do pensamento feminista brasileiro. É a décima mulher imortal da ABL.

A votação, pela primeira vez, aconteceu utilizando urnas eletrônicas. Consagrou a autora da coletânea '26 Poetas Hoje' e premiou a professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro, instituição na qual fez o seu doutorado em literatura brasileira.

Conheci Heloísa por intermédio da minha madrinha Rachel de Queiroz. Elas eram muito amigas e, na casa de Rachel, no Leblon, tivemos a oportunidade de um encontro que ficou marcado para sempre.

Com a morte de Nélida Piñon, aos 85 anos de vida, abriu-se a vaga na qual Heloísa Buarque de Hollanda foi eleita. No dia da comemoração, em Copacabana, ela contou que era prima do cantor Chico Buarque. Com muito orgulho.

São suas palavras: 'a ABL é uma instituição muito poderosa, de muito respeito e prestígio. Está num momento de abertura, o que muito me encanta. Prometo trabalhar muito na instituição.'

Depois, lembrou suas relações com Nélida: 'Era muito sua amiga, frequentava bastante a sua casa. Vou procurar dar continuidade ao seu trabalho, de defesa da literatura e das mulheres.' Não deixou de citar o que hoje a ABL faz pela literatura, particularmente pelos jovens e os escritores das periferias. Daí ter lançado diversos autores dessas regiões.

O presidente Merval Pereira destacou aspectos da sua personalidade, a paixão pelo feminismo, onde pesquisou bastante.

Heloísa é formada em Letras Clássicas pela PUC/Rio e tem mestrado e doutorado em Literatura pela UFRJ. E tem pós-doutorado em Sociologia da Cultura na Universidade de Colúmbia (USA). Hoje, coordena o Laboratório de Tecnologias Sociais, no projeto Universidade das Quebradas. Um dos seus últimos livros é 'O feminismo como crítica da cultura', lançado em 1994. E lançou a coleção Pensamento Feminista, em 2020.

Como se vê, uma escritora altamente qualificada.

Chumbo Gordo, 26/04/2023

 

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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quinta-feira, 9 de março de 2023

O brilho de Proust

Arnaldo Niskier



Com a saúde fragilizada desde a infância por conta da asma, a vida de Proust é, sem dúvida, o testemunho do permanente esforço para adaptação à doença, para a resistência ao sofrimento. Chegou até a dizer que 'a ideia da morte o acompanhava com a mesma constância quanto a da própria identidade'?

Estive no pampa gaúcho, soprado pelos ventos de Gilberto Schwartsmann, diretor da Biblioteca Pública Estadual de Porto Alegre, um notável colecionador literário, autor do livro 'A Amante de Proust' e membro da Academia Nacional de Medicina, para dizer algumas palavras sobre esse incrível escritor que foi Marcel Proust (1871-1922). Na capital do Rio Grande do Sul, não pude deixar de me lembrar do meu saudoso colega acadêmico Moacyr Scliar, autor de mais de 80 livros, falecido em 2011.

A harmonia da ascendência comum, o judaísmo, explica muita coisa das nossas crenças espirituais e literárias. Membro há 35 anos da Academia Brasileira de Letras, da qual hoje sou vice-decano, sempre me interessei, particularmente, pela cultura francesa. Talvez por isso seja natural que tenha recebido a 'Légion d´Honneur' e a Ordem das Letras e das Artes do governo francês.

Educação e Judaísmo são atividades que sempre estiveram entrelaçadas, como se pode observar no livro 'Ensaios Judaicos', do professor Jaques Ribenboim, experiente membro da comunidade judaica do Recife, que assinala: 'Existe uma tradição de letras no povo de Israel. O livro mais lido do mundo (a Bíblia) foi escrito por seus descendentes.'

O escritor judeu produz uma escrita judaica, embora não trate especificamente de temas judaicos. Marcel Proust teve um brilho especial na história do romance francês do século XX, particularmente em virtude do sucesso de 'Em busca do tempo perdido', obra publicada em sete partes, de 1913 a 1927. Nela está a ideia de que a obra literária tem por objeto voltar a encontrar, além do escoamento estéril da vida cotidiana e mundana, o universo espelhado pelo espírito e considerado, sob o aspecto da eternidade, que é também o da arte.

Com a saúde fragilizada desde a infância por conta da asma, a vida de Proust é, sem dúvida, o testemunho do permanente esforço para adaptação à doença, para a resistência ao sofrimento. Chegou até a dizer que 'a ideia da morte o acompanhava com a mesma constância quanto a da própria identidade'.

George Cattaui (1896-1974), escritor francês de origem egício-judaica, que publicou vários ensaios e biografias, analisou que o prazer na dor e na atribulação deveria, em parte, ser creditado ao sangue judeu de Proust, que o levava a considerar com desprezo ''o mundo inumano do prazer', e a defender o princípio de que 'toda a criação tem que exigir ascese e sacrifícios'. Para ele, a arte traduzia um valor absoluto. E a própria obra literária mostra muito bem a relação que existiu entre o romancista e o mundo que procurou apresentar ao leitor. Já se disse que a doença está para o romance de Proust, como o dinheiro na estrutura da Comédie Humaine . Há estudiosos que afirmam que ele foi 'o Balzac do fim da alta burguesia', que teria escrito 'o epitáfio da aristocracia francesa'.

Chumbo Gordo, 27/02/2023

https://www.academia.org.br/artigos/o-brilho-de-proust

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

 

O fim da Cultura

Arnaldo Niskier


 

Como se fosse uma obrigação, todas as vezes que fui a São Paulo, nos últimos anos, visitei a Livraria Cultura, na Avenida Paulista. Era uma forma de me manter em dia com os lançamentos literários, o que é muito importante para um homem com o meu tipo de atividades profissionais. Agora isso poderá deixará de existir, em virtude do fechamento daquele famoso espaço. É de se lamentar que isso tenha ocorrido, pondo fim ao sonho da família Herz.

É muito triste ver as fotos das estantes esvaziadas no Conjunto Nacional, depois de decretação da falência da loja. Na sentença, o juiz afirmou que o grupo não conseguiu superar a sua crise econômica. Tem uma dívida declarada de 285 milhões de reais, entre aluguéis e prestações de contas, inclusive dívidas trabalhistas. Há diversas editoras com o registro de créditos enormes, como a Record, a Companhia das Letras, a Sextante, a Panini e a Intrínseca. São 76 editoras brasileiras como credoras somente no Rio de Janeiro. A empresa pode (e vai recorrer), mas sabe-se que é um processo demorado.

A administração da livraria apontou diversas causas principais para justificar esse fato profundamente lamentável: altos custos de produção, queda na demanda por livros, falta de interesse por leitura e a nossa profunda crise econômica desde 2014. É claro que estamos vivendo uma nova realidade pedagógica, com outros e revolucionários formatos de transmissão de conhecimento. Isso naturalmente teria que provocar consequências.

No Rio, praticamente ao mesmo tempo, fechou outra livraria tradicional em Ipanema: a Galileu Galilei. Não se tem como comemorar tais fatos, pois abalam o nosso arcabouço cultural. O triste, nisso tudo, é que não existe nenhuma reação por parte dos governos, de qualquer instância. Já existe, é certo, um novo Ministério da Cultura, mas ninguém soube de qualquer reação das novas autoridades a propósito do assunto. Um país com mais de 60 milhões de estudantes não pode sobreviver sem bibliotecas e livrarias compatíveis com o seu tamanho e as suas perspectivas de crescimento. Assistir a isso tudo de forma silenciosa é o que de pior pode acontecer. Está mais do que na hora de protestar contra esse tipo de descaso com o nosso futuro.

Planalto em pauta, 17/02/2023

 

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

A perda de dona Cleo

Arnaldo Niskier



O falecimento da professora Cleonice Berardinelli, aos 106 anos de idade, foi uma perda muito sentida pela Academia Brasileira de Letras. Sobretudo porque ela representava uma atenção toda especial com a língua portuguesa, que prezava acima de tudo.

Dona Cleo, como era conhecida, lecionou na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Universidade de São Paulo. Nessas duas instituições notabilizou-se pelo domínio extraordinário da vida e da obra do escritor e poeta Fernando Pessoa. Lembro bem de um trabalho do acadêmico José Paulo Cavalcanti sobre Pessoa, examinado e muito elogiado por Dona Cleo. Certamente isso ajudou muito quando ele se candidatou à Casa de Machado de Assis.

Considerada uma das maiores especialistas do mundo em literatura portuguesa, Dona Cleo lecionou por mais de 50 aos na Faculdade Nacional de Filosofia, sendo autora de obras magistrais como 'Antologia de Teatro de Gil Vicente'(1971), 'Fernando Pessoa, Obras em Prosa' (1975 e 'Sonetos de Camões', de 1980, todas muito bem sucedidas.

Ela sucedeu na ABL outra grande figura da língua portuguesa , que foi o escritor mineiro Antônio Olinto, um dos diretores do tradicional 'Jornal de Letras'. Deve-se registrar que ela foi homenageada no cinema com o documentário 'O vento lá fora', em que apareceu ao lado da Cantora Maria Betânia, lendo sobre a obra de Fernando Pessoa.

Dona Cleo, no Rio, fez todos os cursos teóricos e se diplomou sob a orientação do maestro Oscar Lorenzo Fernandez, que foi seu professor de piano. Já aos 98 anos de idade ela recebeu o Prêmio Faz Diferença de 'O Globo' na categoria prosa. Como se pode perceber, a doutora Cleonice Berardinelli foi uma figura de múltiplas qualidades, daí a admiração por ela granjeada. Trabalhou com grandes mestres da nossa literatura, como Fidelino de Figueiredo, em São Paulo, e depois Thiers Martins Moreira, no Rio de Janeiro. Em todos esses mestres deixou impressões indeléveis. A cultura brasileira ficou muito a dever a ela.

Tribuna do Sertão, 07/02/2023

https://www.academia.org.br/artigos/perda-de-dona-cleo

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

À sombra dos escritos em flor

Arnaldo Niskier



Lidaram com o autor de 'Para o Lado de Swan' e a 'À sombra das moças em flor', mesmo sabendo da fama de que a sua obra era considerada 'difícil'?

Como instituição cultural de primeira grandeza, a Academia Brasileira de Letras não poderia deixar de lidar, em certos momentos, com a vida e a obra do renomado escritor francês Marcel Proust. Suas longas frases não assustaram escritores calejados como Alceu Amoroso Lima, José Lins do Rego e a minha estimada Rachel de Queiroz. Lidaram com o autor de 'Para o Lado de Swan' e a 'À sombra das moças em flor', mesmo sabendo da fama de que a sua obra era considerada 'difícil'.

Outros autores, como os amigos Rosa Freire d'Aguiar, minha colega da redação da revista 'Manchete', e Cláudio Aguiar ('O último romance de Proust') trataram do autor dos sete volumes de 'Em busca do tempo perdido' com a propriedade e a competência que deles se esperava. No caso deste último, pernambucano de boa cepa, ele cria, o que pode ser uma notável obra de ficção, um livro em que um contrabandista de obras de arte inglês envia a Olinda três auxiliares com a missão de roubar os manuscritos do que seria o seu último livro. A trama, situada em 1972, segue um caminho cheio de alternâncias ou reviravoltas.

A atual exposição da obra de Proust, revivendo o que aconteceu na Biblioteca Nacional da França, com a apresentação ação de 'Marcel Proust: La Fabrique de l'oeuvre' exibe um mergulho na produção da sua obra-prima, com pinturas, roupas de época e documentos descobertos recentemente. É o que acontece também na Biblioteca Pública de Porto Alegre, com a mostra de documentos, manuscritos e rascunhos do escritor francês.

Além do universo estético do seu tempo, Proust foi um dedicado usuário da pintura e da música, o que valoriza enormemente a sua extraordinária obra. Assim ele passa o tempo todo perguntando se vai ou não começar o seu livro. Quando o leitor se dá conta disso, a leitura já chegou ao fim.

Num primeiro momento, Proust produz sequências de textos isolados. Só organiza a narrativa num segundo momento. E assim ele desenvolve o seu trabalho, como se vê nas suas impressionantes memórias, com as características proustianas de supressões, deslocamentos e corta-cola da sua obra genial. A exposição de Porto Alegre expressa isso de forma bastante competente, como quis o seu curador Gilberto Schwartsman.

Site Chumbo Gordo, 01/02/2023

 https://www.academia.org.br/artigos/sombra-dos-escritos-em-flor

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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domingo, 25 de dezembro de 2022

Os sonhos de Nélida

Arnaldo Niskier



Foi uma amizade de muitos anos. É grande, pois, a dor sentida pela perda da escritora Nélida Piñon, que faleceu em Portugal, aos 85 anos de vida.

Tive o privilégio de ser o seu vice-presidente, na ABL, em 1997. Quantas ideias criativas e generosas, na primeira gestão de uma mulher à frente da Casa de Machado de Assis. Lembro que as bem sucedidas visitas guiadas nasceram da sua imaginação. E muitas outras profícuas iniciativas.

Autora consagrada de 'A República dos Sonhos', Nélida escreveu mais de 20 livros, todos com bela repercussão inclusive internacional. Doou ao seu amado Instituto Cervantes mais de 7 mil livros e documentos. Hoje, enriquece um belíssimo acervo que fica no bairro de Botafogo.

Ela foi uma intransigente defensora dos direitos humanos, especialmente das mulheres e dos negros. Escreveu sistematicamente sobre isso.

E amou seus cachorrinhos, o primeiro dos quais foi o famoso pinscher Gravetinho Piñon e, depois, vieram a pinscher Susy e a chihuahua Pilara Piñon, com os quais, inclusive, viajou para diversos países. Sua cultura era um poderoso misto de galego e português.

Fomos amigos por mais de 30 anos. Ela era formada em jornalismo pela PUC-Rio, com obras espalhadas por cerca de 30 países. Carioca, teve também um grande apreço pela sua descendência espanhola. Costumava se pintar antes de se apresentar e vestir sua melhor roupa. Era um ritual que sempre respeitava, com toda solenidade. Foi uma escritora de vários estilos, como demonstrou no seu clássico 'Vozes do deserto'. Sua paixão pela literatura veio desde cedo. E, assim, ganhou o Prêmio Príncipe de Astúrias, além de dois Prêmios Jabuti.

Pode-se registrar na sua rica biografia uma amizade relevante com famosos escritores como Gabriel Garcia Marques e Mário Vargas Llosa, com os quais costumava sempre se corresponder. Dizia que 'os livros nasceram pra viajar'. E ela ia com eles, espalhando suas ideias pelo mundo.

A perda de Nélida Piñon não é sentida apenas pela ABL, mas pelo país de um modo geral, pois ela foi uma figura muito querida. Sempre demonstrou solidariedade com os que sofrem, especialmente em nosso país.

Site Chumbo Gordo, 23/12/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/os-sonhos-de-nelida

 

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999

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segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O dia em que apertei a mão da rainha Elizabeth II

 


Arnaldo Niskier

Soberana veio ao Brasil em 1968

Uma das alegrias que tive como secretário de Ciência e Tecnologia da antiga Guanabara foi ter apertado a mão da rainha Elizabeth II, na sua única visita ao Brasil, em 1968. Ela foi recebida no Museu de Arte Moderna, num simpaticíssimo almoço. Esperei pela soberana do Reino Unido ao lado do colunista Ibrahim Sued, com quem treinei o clássico 'Nice to meet you'. Ela nos cumprimentou na entrada do restaurante, sempre sorridente. Da recepção fazia parte o governador Negrão de Lima, que, como embaixador, tinha todo o traquejo diplomático exigido para aquelas ocasiões.

Acompanhada do príncipe Philip, a rainha Elizabeth II tinha uma agenda lotada, em que se incluíam uma visita ao presidente Costa e Silva e a presença em locais históricos, como o Monumento do Ipiranga, em São Paulo, e o Mercado Modelo, em Salvador. Não deixou de afirmar que 'os nossos dois povos estão voltados aos conceitos básicos de justiça, liberdade e tolerância'.

Em São Paulo, presidiu a cerimônia de inauguração do Museu de Arte de São Paulo (Masp). No Rio, esteve no Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Aterro, e prestigiou a Igreja Anglicana, em Botafogo. Visitou o Morro Dona Marta, fez um passeio de Rolls-Royce pela cidade e compareceu ao Maracanã para assistir ao amistoso Rio-São Paulo, em que afirmou se sentir muito feliz por cumprimentar o nosso craque Pelé. No dia seguinte, partiu para a Argentina.

O novo rei inglês é conhecido pelo seu amor ao meio ambiente. Afirma-se que não é seu propósito ficar muito tempo no posto, mas isso ainda é uma dúvida. A imagem do rei Charles III substituirá a imagem da sua mãe nos selos reais e nas notas do Banco da Inglaterra. As palavras dentro dos passaportes britânicos serão atualizadas para 'sua majestade' no masculino (em inglês, a expressão tem gênero e será mudada de 'her majesty' para 'his majesty'). E o trecho do Hino Nacional que diz 'Deus salve a rainha' será mudado para 'Deus salve o rei'.

O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que Elizabeth II manteve a unidade da nação britânica por mais de 70 anos, superando os limites até da célebre rainha Vitória. A nova primeira-ministra do Reino Unido, Liz Truss, disse que ela foi a rocha sobre a qual a nação foi erguida.Apesar das crises internas da família real, Elizabeth II resistiu até os 96 anos. Em 8 de setembro de 2022, a rainha morreu no Castelo de Balmoral, na Escócia, numa residência de férias. Na data da morte, o comunicado feito por meio das redes sociais do Palácio de Buckingham diz: 'A rainha morreu em paz'. Preservou com brilho a confiança na monarquia. É claro que deixará saudades.

O Globo, 15/09/2022

https://www.academia.org.br/artigos/o-dia-em-que-apertei-mao-da-rainha-elizabeth-ii

 

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999

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quarta-feira, 27 de abril de 2022

GIL E A LUZ DO LUAR NA ABL - Arnaldo Niskier


Com belíssimas imagens poéticas, o acadêmico e poeta Antonio Carlos Secchin saudou a chegada do cantor e compositor Gilberto Gil à Academia Brasileira de Letras, em noite das mais concorridas. Recebeu o colar da nova imortal Fernanda Montenegro.

Secchin dedicou parte do seu discurso à esposa de Gil, Flora, grande inspiradora da sua consagrada carreira, onde pontuam mais de 600 músicas que enriquecem o cancioneiro popular brasileiro, entre as quais o famoso 'Aquele abraço'. Garantiu que a presença de Gil será iluminada por uma permanente luz do luar.

Muitos aplausos interromperam o discurso do grande cantor quando ele criticou o atual tratamento discriminatório dado pelo governo federal à cultura brasileira. Ficou claro o inconformismo também da plateia. 'Há uma guerra em prol da desrazão e do conflito ideológico nas redes sociais de internet, e a questão merece a atenção dos nossos educadores e homens públicos. A ABL tem muito a contribuir nesse debate civilizatório. E eu gostaria aqui, efetivamente, de colaborar para o debate, em prol da justiça e da cultura', disse o novo imortal.

Em artigo no GLOBO, Merval Pereira escreveu a respeito do general Lyra Tavares, antecessor de Murilo Melo Filho na cadeira 20 da Casa de Machado de Assis: 'Gil falou a seu respeito com elegância e generosidade, apesar de ter sido vítima da repressão militar que tomou conta do país, a partir de 1964.' O novo acadêmico falou do comportamento sempre afável e solidário, no convívio com os imortais, num gesto de grandeza moral. Lyra Tavares era irmão mais velho de João Lyra Filho, que foi reitor da Uerj e era também notável escritor.

Gil recordou sua participação no movimento chamado de 'Tropicália' e disse da sua profunda tristeza quando perdeu o filho Pedro Gil, morto num acidente de automóvel, em 1989.

Primeiro representante de música popular do Brasil, filho de professora primária Claudine e do médico José Gil Moreira. Gilberto chegou à ABL de forma consagradora, substituindo o jornalista potiguar Murilo Melo Filho, que me coube saudar na chegada à ABL. Foi muito aplaudido, numa cerimônia marcada para sempre pelo número de convidados e a diversidade da sua composição.

O Globo, 19/04/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/gil-e-luz-do-luar-na-abl

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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segunda-feira, 30 de agosto de 2021

CRIANÇA DIZ CADA UMA! - Arnaldo Niskier


Num país de memória curta, temos o dever de reavivar o nosso patrimônio cultural, não deixando que as nossas raízes históricas esmoreçam. Nesse contexto, trazer à tona a trajetória de personalidades de grande sucesso tem um significado extremamente relevante.

Tive o privilégio do convívio com um dos maiores dramaturgos da segunda metade do século 20. Meu compadre Pedro Bloch (1914-2004), padrinho do meu filho Celso, foi também um nome de grande importância na medicina, como um dos melhores foniatras do seu tempo.

Atualmente, muito se preconiza quanto à humanização da saúde. O legado de Pedro Bloch não pode figurar fora desses ensinamentos. Além de ele próprio ouvir os pacientes miúdos, recolhendo matéria-prima para seus estudos e textos, dava voz à meninada, reproduzindo suas histórias. Assim, amplificou o contato revelador que ele anotava através dessa peculiar percepção do mundo.

Não foram poucas as vezes que eu o ouvi declarar o quanto gostava de ser reconhecido como 'o homem que conta historinhas de criança': 'O mundo infantil é cheio de mistério e poesia, suspense e humor [. . . ] Seria de desejar que todos os pais guardassem as frases mais expressivas dos filhos, como verdadeiros tesouros. Mas o que ocorre, normalmente, é que se conserva um flagrante fotográfico inexpressivo ou uma botinha, um boneco, uma mecha de cabelo. Quase nunca percebem que o que a criança diz, em suas diferentes fases, são pedacinhos de alma dessa criança', afirmava com sabedoria.

Bloch manteve uma seção humorística, contando historinhas de criança, nas revistas Manchete e Pais & Filhos, que depois transformou em livros, com os seus anedotários infantis. Fundador da Federação Brasileira de Otorrinolaringologia (precursora da Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia), atendia, principalmente, crianças, de onde tirou inspiração para os seus mais de cem livros, a maioria infanto-juvenis. Fundou o Grêmio Científico e Literário e colaborou para diversos jornais e revistas escolares.

Foi extremamente inovador, para a época, a noção da criança como um ser único e portador de relativa autonomia. Delineava-se, com imensa e efetiva contribuição do trabalho de Bloch, o esboço de uma nova definição de criança que se percebeu no Brasil, especialmente a partir do final da década de 1960.

Destaca-se, na fala desse grande médico, jornalista, dramaturgo e escritor, uma linha de pensamento que percebe e considera a criança não apenas como receptora de estímulos culturais disponibilizados pelos adultos, mas também como produtora autônoma de significados.

No teatro, seu grande sucesso foi 'As Mãos de Eurídice', que estreou em 13 de maio de 1950, com Rodolfo Mayer no papel do homem que retorna à sua antiga casa, depois de perder o dinheiro e a amante. O monólogo teve sucesso imediato e logo passou a ser apresentado pelos teatros do Brasil e do mundo. Encenada mais de 60 mil vezes em cerca de 45 países, a peça fez de Bloch o dramaturgo brasileiro mais traduzido e representado no exterior.

O Estado de S. Paulo, 29/08/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/crianca-diz-cada-uma

 

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O INESQUECÍVEL IRMÃO ODILON - Arnaldo Niskier


Tive na vida irmãos (três) maravilhosos, o Sylvio, o Odilon e o Júlio. Todos mais velhos, que nasceram ainda na Polônia, mas cedo vieram para o Brasil, ajudando os meus pais nas tarefas de educação dos irmãos mais moços, o Arnaldo e a Rachel. Não os decepcionei, fazendo do estudo a razão de ser da minha vida.

O último dos três irmãos, já na idade de 94 anos, faleceu vítima da Covid-19. Senti muito a sua falta e, apesar de todas as restrições sanitárias, compareci à cerimônia de inauguração da sua sepultura, no Cemitério Israelita de Vilar dos Teles. Foi muito feliz a frase cunhada pelas suas três filhas: 'Por onde andou, soou o diálogo, a arte e a cultura.' Síntese admirável do que foi a sua vida, como profissional do Direito e como exemplar funcionário do Banco do Brasil.

No dia da cerimônia, o rabino pediu que a gente dirigisse algumas palavras aos presentes. Não podia recusar. Aproveitei para lembrar de uma das visitas feitas ao Estado de Israel, quando conheci a minha tia-avó, Mime Reisel, que tinha a cara da Golda Meir. Ela me disse uma frase inesquecível: 'Você, da nova geração, deve sempre se lembrar de que a nossa família descende diretamente do rei Davi.' Existe honra maior? E um compromisso comportamental, do qual não podemos dissociar.

Foi o que falei, no subúrbio carioca, recordando de onde viemos. E ao mesmo tempo prometendo ações que estejam sempre coerentes com essa formação. É a hora em que não importam a riqueza nem os bens materiais.

Odilon foi um líder sindical de proeminência. Graças aos seus contatos no jornalismo, especialmente na recém-lançada 'Ultima Hora', pude arranjar uma vaga de repórter no jornal de Samuel Wainer, valendo-me dos seus conhecimentos. Passei a ser repórter-esportivo, fazendo a crônica dos jogos de domingo, dentro e fora do Maracanã. Assim fiz carreira, mas nunca esqueci de agradecer ao mano querido pela providencial apresentação. E retribuí como pude, depois apresentando o doce Odilon ao João Pinheiro Neto, meu amigo da Manchete, quando foi designado ministro do Trabalho pelo presidente João Goulart. Assim ele chegou ao topo da carreira de advogado do Banco do Brasil, graças à nossa interferência. Só se faz isso por quem verdadeiramente merece.

Jornal Dois Estados, 05/08/2021

 https://www.academia.org.br/artigos/o-inesquecivel-irmao-odilon

 

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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domingo, 25 de julho de 2021

UM VELHO NA ATIVA - Arnaldo Niskier


Até que idade se pode permanecer na ativa? O certo é que não existe uma resposta precisa para essa pergunta. Veja-se o caso do escritor e pensador francês Edgard Morin. Ele está completando 100 anos e segue escrevendo, dando ao mundo o resultado de uma experiência que parece não ter fim.

Nelson Motta, em  “O Globo”, defende a tese de que o tempo não se mede pelo calendário, mas pela intensidade. E dá muitos e bons exemplos, como Marcos e Paulo Sérgio Valle, irmãos da minha professora Patrícia. A sua inspiração parece infinita.

Falar em termos pessoais nem sempre é o melhor caminho. Mas não posso deixar de revelar que me sinto inteiraço aos 86 anos de idade. Fruto talvez de um passado bem vivido de atleta. Recebi um elogio recente do médico Paulo Niemeyer Filho: “Você tem ossos muito bem constituídos.”  E assim ele pôde operar, com sua competência internacional, a minha lombar que ameaçava dar mais trabalho do que deveria.

Hoje, apear da idade, estou na plenitude das minhas atividades profissionais. Sou presidente do Conselho de Administração do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) do Rio de Janeiro, oferecendo oportunidades de emprego a milhares de jovens estagiários e aprendizes. Faço lives e dirijo e apresento o programa “Identidade Brasil”, no Canal Futura de televisão, com uma audiência espetacular. Integro os quadros da Academia Brasileira de Letras, figurando hoje como o seu vice-decano (só perco para o amigo José Sarney).

E estou colaborando com o fraternal amigo Carlos Alberto Serpa de Oliveira para criar a Academia Brasileira de Cultura, que em breve estará funcionando na plenitude. A idade só ajuda a ter mais experiência.

Utilizando as virtualidades do tempo, escrevo livros e artigos semanais para diversos periódicos. O tema é sempre educação, como tenho feito de forma ininterrupta. E não deixo de dar uma relevante contribuição ao Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio de Bens e Serviços, obediente à liderança dos notáveis Ernani Galvêas e Bernardo Cabral. Velho? Nem pensar…

Jornal Dois Estados, 22/07/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/um-velho-na-ativa

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999. 

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terça-feira, 17 de março de 2020

UMA OUTRA CLARICE GLORIOSA - Arnaldo Niskier



Na cultura brasileira, Clarice Lispector é um nome glorioso.  A escritora ucraniana estaria fazendo agora 100 anos de vida.  Será muito lembrada.  Mas há outra Clarice que se destaca na nossa cultura popular: Clarice Niskier, minha sobrinha, que comemora 40 anos de carreira, com um feito notável que foi a apresentação de “A alma amoral” por anos seguidos de sucesso.

A filha do meu querido irmão Odilon agora volta aos palcos, para brilhar na peça inspirada na obra poético-musical de Zeca Baleiro, com 50 músicas e fragmentos de obras de Sérgio Buarque de Holanda, Ferreira Gullar, Eduardo Galeano, Hélio Pelegrino e Osvald de Andrade.  No seu texto, que lembra também o sucesso do escritor israelense Yuval Harari, Clarice, de forma inspiradora, criou um roteiro teatral de suas memórias político-sociais.

No teatro Petra Gold (Sala Marília Pêra), no Leblon, o público entenderá as razões do amor de Clarice pelo Brasil e as suas ponderadas razões para abraçá-lo.  Ela não apenas escreve muito bem, como interpreta de maneira maravilhosa, como aconteceu durante os 14 anos de apresentação de “A alma imoral”, uma adaptação do livro de mesmo nome do rabino Nilton Bonder, sob a competente direção de Amir Haddad.  A nova peça tem o sugestivo título de “A esperança na caixa de chicletes Ping-Pong”.

Não estranho o sucesso de Clarice.  Tenho por ela enorme admiração, desde os tempos em que, bem jovem ainda, começou a carreira  jornalística como repórter e fotógrafa do “Jornal do Brasil”.  Ali já revelava o seu agudo interesse pelas notícias e suas consequências  na vida brasileira.  Ela confessa que o seu novo trabalho nasceu há aproximadamente 20 anos, quando ouviu o “Samba do approach”, apresentado pela irmã Joice, que havia escolhido a música para uma audição de canto: “As letras do Zeca refletem o meu pensamento.  É uma coisa bem-humorada e profunda.”

Assim, aborda temas ligados à solidão, medo e amor, por exemplo.  Ela critica a  atualidade, em que há ódio dos dois lados: “Gosto muito de falar na língua portuguesa, tem tudo a ver com a minha identidade.”

Clarice Niskier não quer ter razão em tudo: “Quero apenas que o público me compreenda.  Como artista, tenho o dever de compreender o outro, para depois, se for o caso, poder discordar.”  Por isso mesmo, condena a ideologização da cultura, no momento degradante em que vive o país.  Quanto à peça, não há dúvida, repetirá o êxito dos trabalhos anteriores da nossa Clarice.

Tribuna de Petrópolis, 11/03/2020


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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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terça-feira, 3 de março de 2020

A OUSADIA DE QUESTIONAR - Arnaldo Niskier


Sempre defendemos a ideia de que o Brasil merece um Prêmio Nobel, seja em que categoria for.  Israel, por exemplo, que só tem 0,2% da população mundial, está hoje com 22% de todos os Prêmios Nobel, além de ter recebido 38% de todos os Oscars de cinema, na categoria de diretor.  É certo que esses resultados são grandemente movidos pelo fato de o pequeno país de 8 milhões de habitantes ser uma espécie de locomotiva quando o tema é tecnologia.

Isso é resultado menos de um discutível poderio genético, mas muito mais do que chamamos de ambiência cultural, como escreveu com muita propriedade o pranteado escritor Amos Oz.  Ao longo de séculos de existência, os judeus transmitiram às novas gerações conteúdos de indiscutível valor, como os que se encontram na Bíblia de que são cultores.

Além do mais, aprenderam a valorizar o questionamento como método de inovação.  Inculcam nos jovens valores de sua elogiada civilização.  Os alunos sempre foram estimulados a questionar, caracterização que passou a ser a de um bom aluno, o que deve acontecer desde cedo, na escola e no lar.  O foco nunca se desviou de uma educação de qualidade.

A propensão a discutir sobrevive, com o encorajamento do estímulo à curiosidade, que se utiliza de modo conveniente do humor na proporção adequada.  Talvez se possa afirmar que o cineasta Woody Allen seja uma expressão viva do que aqui afirmamos, com os seus filmes de tanto sucesso.

Um aspecto essencial nessa realidade é o papel exercido pelas mulheres, na sociedade hebraica.  Poucas culturas terão dado tanto relevo às mulheres, abrindo espaço para a necessária igualdade.  Em termos culturais não existe a deletéria diferença que marca outras sociedades modernas.

Na busca incessante pela inovação, homens e mulheres dão-se as mãos, como é o ideal que aconteça sempre.  É natural que o povo do livro, assim marcado graças à ênfase dada à Bíblia, tenha obsessão pelas palavras, com opiniões democraticamente diferenciadas.  Se é da discussão que nasce a luz, talvez nenhum outro povo tenha valorizado tanto essa característica.

Em discussão recente, quando o tema era o Holocausto, quando foi referida a contribuição judaica ao desenvolvimento científico e tecnológico, sobretudo nos países vítimas mais diretas da bestialidade nazista, levantou-se a tese do enorme prejuízo causado pela morte indiscriminada de cérebros nos campos de extermínio da Europa.  Já imaginaram se isso não tivesse ocorrido, como o mundo teria se beneficiado?

Tribuna do Sertão, 02/03/2020


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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

CONTEÚDOS INADEQUADOS - Arnaldo Niskier


Onde estiver, agora, o escritor Carlos Heitor Cony deve estar sorrindo com as trapalhadas cometidas pelo governo de Rondônia, ao mandar recolher 43 livros, a maioria do autor de “O ato e o fato”.  A determinação, depois revogada, incluída obras de Franz Kafka, Euclides da Cunha, Ferreira Gullar e Rubem Fonseca, entre outros.

Parece incrível que essas coisas ainda aconteçam em nosso país.  Consequência, é claro, do clima que se armou no atual governo.  A desculpa é de que as obras vetadas contêm “conteúdos inadequados” quando se referem a leitores como crianças e adolescentes, embora haja incongruência como o veto a “Macunaíma”, de Mário de Andrade, obra normalmente muito solicitada  em exames vestibulares.

A violência da Secretaria de Educação de Rondônia atingiu também o escritor Rubem Alves, morto em 2014, que se especializou em escrever sobre educação.  De onde terá saído tamanha barbaridade?

A acusação oficial de que há muita doutrinação nas escolas brasileiras não justifica a censura aos nossos livros didáticos e paradidáticos.  Para serem distribuídos, foram  antes objeto de uma seleção por parte dos programas oficiais, que certamente não primam pela coerência.

A essa decisão absurda devemos somar o que houve recentemente, quando livros foram atirados pela janela de outra Secretaria de Educação, sob a alegação de que estariam “ultrapassados”.  Custa a crer que exista entre nós tamanho desperdício.

Também é relevante pensar nas pessoas que promovem esse tipo de censura.  Quem são elas? Estudaram até que nível, para achar que livros como “Memórias Póstumas de Braz Cubas”, de Machado de Assis, “Mar de História”, de Aurélio Buarque de Holanda, e “os Sertões da Luta”, de Euclides da Cunha, são extremamente perigosos e devem por isso ser proibidos.  Parece  piada de mau-gosto.

Sinceramente, achamos que isso tudo é resultado de um descontrole oficial, a partir de posicionamentos dúbios do próprio Ministério da Educação.  O seu programa do livro didático parece uma nau sem rumo, embora se reconheça a sua indiscutível importância.  Não se trata de falta de recursos financeiros, mas sim da ausência de uma orientação segura.

A Academia Brasileira de Letras protestou contra esse gesto deplorável.  Considerou um desrespeito à Constituição de 1988: “É um despautério  imaginar, em pleno século XXI, a retomada de índice de livros proibidos.”

Tribuna do Sertão , 17/02/2020



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Arnaldo Niskier Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

AS LIÇÕES DE HARARI - Arnaldo Niskier


Para uma plateia entusiasmada de duas mil pessoas, o historiador israelense Yuval Noah Harari falou durante quase duas horas, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, arrancando demorados aplausos. Abordou suas experiências acadêmicas com o trato dos algoritmos modernos, passou pela educação (citando o exemplo da China) e chegou à importância da meditação, segundo ele uma ferramenta que serve para observar a mente de forma direta, um instrumento precioso para enfrentarmos as mudanças contínuas da humanidade.”

“A meditação nunca entrou em conflito com a pesquisa científica. Não se deve confundir a mente com o cérebro, pois são coisas muito distintas. O cérebro é uma rede material feita de neurônios, sinapses e substâncias bioquímicas. Já a mente é um fluxo de experiências subjetivas, como a dor, o prazer, a raiva e o amor. A clareza do autoconhecimento é essencial para o controle efetivo da própria vida, numa era em que a maioria das decisões sobre nós será tomada por algoritmos” – disse o cientista, autor do livro “21 lições para o século 21”. O evento carioca foi promovido pelo Projeto Ler, com o apoio, entre outras instituições, das Secretarias de Estado e Municipal de Educação do Rio de Janeiro, além do SESC.

Harari ganhou notoriedade internacional ao trazer à tona reflexões mais aprofundadas sobre os problemas enfrentados pelas quebras de paradigmas da contemporaneidade. Voltando dois milhões de anos no tempo, o historiador sabra explicou que, no início, o ser humano se agrupava em torno de pouquíssimas pessoas, evoluindo, em seguida, para tribos e aldeias, onde todos se conheciam, só chegando ao surgimento das primeiras nações há cerca de cinco mil anos. Neste sentido, o conceito de “nacionalismo” se tornou necessário. Alertou sobre a relevância de debatermos as características da cidadania globalizada, balanceando os interesses nacionais com as regras globais. Só assim seremos capazes de impedir as forças destrutivas que ameaçam o planeta. No final, afirmou que não se pode adivinhar como será o ano de 2050: “Só tenho uma certeza: 50 pessoas juntas valem mais do que 500 separadas”. Fez, ainda, um alerta à plateia atenta: “Devemos compreender a nossa mente antes que os algoritmos assumam a tarefa por nós.” Tem toda razão.

Tribuna do Sertão,18/11/2019


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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

FAÇA AMOR NÃO FAÇA GUERRA - Arnaldo Niskier


Maurício Sherman foi um amigo querido. Produtor, ator e diretor de rádio, TV e teatro, teve uma vida profissional de muitos e retumbantes êxitos. Trabalhou praticamente em todas as televisões do Rio de Janeiro e deixou em todas elas profundas marcas de competência. Na Manchete, lançou Xuxa e Angélica, dando vida ao Clube da Criança. Na Globo foi responsável pelo sucesso de “Faça humor não faça guerra”, “Zorra Total”, a direção de “Chico Anísio Show” e alguns pitacos bem sucedidos nos espetáculos de Renato Aragão. É preciso dizer mais?

Do nosso bom convívio, nasceram sucessos marcantes, como os musicais “Evita” e “Carmen”, que levaram milhares de pessoas ao Teatro João Caetano. A direção segura desses espetáculos, garantida por Sherman, era uma tranquilidade para os seus produtores. Em todas as cenas, protagonizadas por artistas como Cláudia e Marília Pêra, sentia-se a mão genial do grande diretor.

Maurício Sherman, depois de uma experiência em rádio, entregou-se de corpo e alma ao teatro e à televisão. Foi pioneiro também no teatro israelita desde os primórdios vividos na sua amada Niterói.

Faleceu aos 88 anos de idade quando ainda se poderia esperar muito do seu indiscutível talento. Como disse o Boni, “ele é a própria história da televisão brasileira”. No caso da TV Globo, foi o criador do “Fantástico” (sucesso de 30 anos) e do bem sucedido “Vídeo Show”, sempre com geniais pitadas de bom-humor. Difícil é ter quem a ele se compare.

Na TV Manchete, cheguei a acompanhar de perto o seu trabalho. Os shows por ele criados tinham “cheiro de Broadway”, sua fascinação. Por isso aproveitava os seus raros momentos de folga para viajar aos Estados Unidos, em busca de qualidade em seu trabalho. E trazia sempre boas ideias.

Foi dele a sugestão de criar o “Debate em Manchete”, aos domingos à noite, por mim apresentado durante quase 10 anos. Rigoroso em tudo o que fazia, exigiu cenários maravilhosos (elaborados por Arlindo Rodrigues) e uma iluminação especial. Isso garantiu um bom IBOPE ao programa.

A genialidade de Maurício Sherman fará falta à televisão brasileira. Mas ficará entre nós, além do exemplo de um bom amigo, uma soma apreciável de programas que ele conduziu com incrível maestria.

O Globo, 03/11/2019


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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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