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sábado, 11 de junho de 2022

“Senhor, por que pareceis dormir?”


 

Padre David Francisquini *

 

No último domingo, dia 5 de junho, 50 dias depois da Páscoa, a Santa Igreja celebrou a grande festa da descida do Espírito Santo sobre a Virgem Maria e os Apóstolos reunidos no Cenáculo. Trata-se de uma das datas mais importantes do calendário litúrgico, juntamente com a Páscoa e o Natal.

O termo “Pentecostes” vem do grego pentēkostḗ, que significa “quinquagésimo”, em referência aos 50 dias que se sucedem à Páscoa. No Antigo Testamento, o Pentecostes era celebrado apenas pelos judeus, no fim da última colheita do ano, como forma de agradecer a Deus pela comida. É também conhecida como celebração da Lei de Deus, em memória do dia em que Moisés recebeu as Tábuas com as Leis Sagradas.

Essa festividade aconteceu especificamente na primeira Páscoa depois de o povo de Israel sair da escravidão do Egito e receber os Dez Mandamentos enviados por Deus. Mas, no Antigo Testamento, o dia de Pentecostes é citado com outros nomes, tais como ‘Festa da Colheita ou Sega’ (Êxodo 23.16), ‘Festa das Semanas’ (Deuteronômio 34.22) e ‘Dia das Primícias dos Frutos’ (Números 28.26).

No Novo Testamento, a comemoração de Pentecostes é citada no livro dos Atos dos Apóstolos, no capítulo 2, quando narra o momento em que os apóstolos receberam os dons do Espírito Santo: “Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem” (Atos dos Apóstolos 2:1-4).

Os fiéis católicos sabem que a festa do divino Espírito Santo é comemorada com toda solenidade e se estende por oito dias. Tão importante é este tempo, que os domingos seguintes estão concatenados entre si e são chamados ‘domingos depois de Pentecostes’. A importância dessa solenidade se acentuou a partir do século IV, e conferiu à Igreja o valor do batismo e da crisma administrados aos catecúmenos na vigília de Pentecostes para aqueles que não os receberam no Sábado Santo.

Com o fato histórico descrito nos Atos dos Apóstolos, fica estabelecida a promulgação solene da verdadeira Igreja de Jesus Cristo, que se dá na difusão do evangelho e administração do Batismo. As línguas de fogo sobre os apóstolos indicam a difusão da verdadeira fé e da palavra de Cristo contidas nos evangelhos e nas epístolas: “ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). A Igreja, esposa de Jesus Cristo, se inicia pelo esplendor e grandeza desta ação no mundo no dia desta solenidade, onde se encontrava reunidos os discípulos do Senhor.

Com a descida retumbante do Divino Paraclito sobre os apóstolos, estes se tornaram instrumentos eficazes da graça para transmitir em toda a face da Terra a doutrina ensinada por seu Divino Mestre. Não é de estranhar que a vinda do Espírito Santo no Cenáculo deu-se com grande estrondo; com um vento impetuoso e a aparição de destacadas línguas de fogo sobre todos os que se encontravam no recinto sagrado, onde Jesus Cristo instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio católico. Todos ouviram em seus próprios idiomas, com enorme fascínio, o que os apóstolos falavam sobre as maravilhas de Deus.

São Luís Grignion de Montfort, no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, descreve a relação entre o grande acontecimento de Pentecostes e os pregoeiros do Reino de Maria. Fundamenta ele que a ação de Maria no Cenáculo sobre os apóstolos seria semelhante à graça que receberão aqueles que lutarão pela vitória indelével da Igreja em uma era inteiramente marial, pulverizando o processo revolucionário multissecular desencadeado há séculos com o declínio da Cristandade.

Este grande santo francês, que viveu no século XVIII, num momento em que o movimento revolucionário grassava fortemente em toda a França, não por acaso lançou, com um brado pungente, os seus justos e zelosos anseios de ver restabelecida a ordem universal de outros tempos, fazendo ecoar os anseios do salmista: “Levante-se Deus, e sejam dispersados os seus inimigos” (Sl. 67, 1-2); Erguei-vos, Senhor, por que pareceis dormir? Erguei-Vos.

Acalentava São Luís Grignion no mais profundo de sua alma, o ideal profético de instauração de uma civilização ainda mais aperfeiçoada do que a de outrora. Segundo os perenes ensinamentos daquela que é Mãe e Mestra da verdade, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana ensina, guia, governa, santifica e define as verdades de Fé com vistas à salvação eterna dos homens, em todos os séculos.

Ao se referir ao reino profetizado por ele, São Luís fala que nessa era marial as almas estarão embebidas do amor de Deus, e serão instrumentos do Espírito Santo para constituir uma era de fogo na qual a face da Terra será renovada pela ação da Santa Igreja. Convém ressaltar o relacionamento existente entre Maria e os apóstolos, unidos em oração no Cenáculo, pois Maria é o elo entre a Igreja e Deus, pois sendo Mãe de Jesus Cristo, tornou-se a Mãe da Igreja.

De fato, o Espírito Santo operou uma transformação naquelas almas, que passaram a difundir as verdades ensinadas por Nosso Senhor. Pela fé, não somente temos certeza na promessa divina de que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, mas confiamos que algo extraordinário ocorrerá nos tempos atuais, diante da crise na qual Ela se encontra.

De tal modo extraordinário, que é impensável instaurar o Reino de Maria sem a ocorrência de uma ação extraordinária do Espírito Santo sobre as almas. Como pela ação de Maria no Cenáculo foi possível a vinda do Espírito Santo, assim também será em nossos dias, para que os escolhidos sejam verdadeiros condutores para a difusão da verdadeira civilização em toda a face da terra, em que Cristo será o centro e o rei da sociedade temporal e espiritual.

*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/senhor-por-que-pareceis-dormir/

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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

MISSÃO DE ENSINAR, GUIAR E SANTIFICAR – Pe. David Francisquini


“Jesus Cristo entrega as chaves dos Céus a Pedro”, Perugino (1450-1523).

Padre David Francisquini*

 

Nada mais consentâneo com a condição sacerdotal do que fazer uso da autoridade divina das verdades reveladas para cumprir a missão de ensinar, guiar e santificar as almas neste vale de lágrimas.

Com efeito, a crise espiritual que assola o homem pós-moderno — qualificativo utilizado para causar expectativa de “bons fluidos” — é a fonte de tantos males. O ensinamento dos santos ao longo dos séculos consistiu em advertir e instruir os fiéis a propósito da falta de vida interior e de ocupação com tudo aquilo que norteia as almas, a fim de conduzi-las ao seu fim último, que é Deus.

A disposição dos evangelhos, abrindo e fechando o ano litúrgico, nos mostra a importância desses ensinamentos: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação” (Mt 26, 41), para o qual as pessoas devem se ater sempre, já que a insistência do inimigo infernal é contínua e implacável contra uma pessoa e mesmo povos inteiros.

Não é bem isto que vem acontecendo hoje, em todos os ambientes frequentados por nós? Não é verdade que com suas artimanhas envolventes os asseclas infernais dispersos pela Terra procuram levar-nos para o abismo, ora por meio de ideologias, ora por manobras políticas ou falsas religiosidades? Fica, portanto, a advertência: “Vigiai e orai”!

Eis as maravilhosas afirmações da Escritura, sustentáculo da nossa fé, a nos asseverar com as palavras de São Paulo: “Toda Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, repreender, corrigir, formar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, apto para toda boa obra” (II Tim. 3, 16-17).

Ademais, é-nos imensamente vantajoso deixar-nos conduzir por Aquele que é o caminho, a verdade e a vida: “[…] andai enquanto tendes luz, para que não vos surpreendam as trevas; quem caminha nas trevas não sabe aonde vai. Enquanto tendes luz, crede na luz para que sejais filhos da luz” (Jo 12. 35-36).

Reflita, caro leitor(a), quão benfazejas são essas palavras nesses dias de tanta perplexidade diante das crises que nos assolam, a fim de estabelecermos as balizas do pensamento e o critério de nosso peregrinar pela terra. Podemos ver, tanto no evangelho de São Mateus, quanto no de São Lucas, a narração do último domingo do ano litúrgico, dos acontecimentos que se abateram sobre Jerusalém, como prefigura de todas as épocas de crise.

Pode-se constatar que, de crise em crise, a Igreja instituída por Cristo Nosso Senhor chegou aos tempos atuais. Foram muitas e clamorosas tentativas de subverter sua ordem e ensinamentos no decorrer das centúrias, mas a Santa Igreja preservou e ensinou seus filhos, ministrando-lhes os sacramentos e mostrando-lhes os caminhos da salvação eterna. 

No Ofício Divino, São Jerônimo comenta as palavras do evangelho, dizendo: “Quando virdes a abominação da desolação no lugar santo predita pelo profeta Daniel, quem ler entenda. ”Estas palavras se referem ao transtorno da fé que abalou os fundamentos do povo judeu, abolindo o sacrifício e a oblação, deixando o templo desolado por ter perdido a sua função.

Compreende-se, portanto, por que Pilatos colocou no Templo as estátuas de César e de Adriano. Segundo a Escritura, a abominação é chamada de ídolo, e a desolação é por ele ter sido posto no templo desolado e deserto.

Alguém ousaria contestar a semelhança com fatos do nosso cotidiano? Não é bem verdade que assistimos hoje à introdução de ídolos e a realização de cultos idolátricos no interior das nossas igrejas? 

A história recente nos traz à memória, por exemplo, o encontro interreligioso em Assis (1986), acontecimento-símbolo da mentalidade nova que revolucionou o conceito infalível da existência de uma só religião revelada, fora da qual não há salvação. É dogma de fé!

Tem-se, então, um pecado contra a fé, com uma agravante: a introdução de ídolos pagãos, algo abominável diante de Deus, escândalo para incontáveis almas, transtorno da ordem natural e divina que proclama o culto do verdadeiro Deus. Tais acontecimentos, que significam um largo passo rumo à panreligião, constituem uma ameaça cada vez maior para inúmeros fiéis.

Essas considerações devem nos fazer temer as consequências da vida desregrada de nossos dias, que abrange todos os campos da ação humana. Em todos eles os critérios divinos são sistematicamente rejeitados.

Meditemos, por exemplo, nesta advertência de Nosso Senhor, referindo-se aos tempos do anticristo ou prefiguras dele que agem contra Deus, promovendo a desolação em toda a terra: “Quando virdes estabelecida no lugar santo a abominação da desolação” (Mt. 24, 15).

Ao ler comentários feitos pelos Padres da Igreja, podemos adiantar-nos em outras considerações que se aplicam bem aos dias atuais, como a introdução da Pachamama no templo de Deus. São Luís Grignion de Montfort já predissera profeticamente: “Vossa divina fé é transgredida, vosso evangelho desprezado; abandonada vossa religião; torrentes de iniquidade inundam toda a terra, e arrastam até os vossos servos; a terra toda está desolada; a impiedade está sobre um trono; vosso santuário é profanado, e a abominação entrou até no lugar santo.

Aqueles que buscam viver segundo a sã Doutrina de Nosso Senhor não devem descer às coisas mais baixas pelo desejo mundano. “O que está no campo, não volte atrás para tomar o seu manto”, isto é, não volte às preocupações antigas, tornando a conviver no meio dos pecados passados, que manchavam seu corpo e perdiam sua alma.

Daí a importância da verdadeira fé, da boa orientação católica e da aquisição do senso do discernimento a fim de conhecer o momento de fugir da abominação e se proteger dos perigos de condenação eterna — “Então os habitantes da Judéia fujam para os montes” (Mt 24, 16).

Cumpre salientar que ouvimos com frequência interpretações protestantes de textos bíblicos atribuindo aos fatos trágicos, mas naturais, ou ainda da inter-relação humana, como sinais da segunda vinda do Messias, muito embora se trate de algo que sempre aconteceu na história do mundo. Estas são interpretações subjetivas.

Na realidade, quando Cristo diz que haverá sinais no sol, na lua, nas estrelas e que as virtudes dos céus serão abaladas, a interpretação mais lógica e prudente está em aplicar essas predições à própria Igreja, com o efeito benéfico de não nos expormos ao debique dos inimigos a propósito de considerações sobre calamidades tantas vezes ocorridas no mundo.

Afinal, a Igreja se assemelha ao sol, à lua e às estrelas. Seu brilho poderá fenecer um tanto, em decorrência da violência inaudita de seus perseguidores e do apodrecimento moral no campo religioso e civil, mas as portas do inferno não prevalecerão contra Ela.

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

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quinta-feira, 18 de novembro de 2021

COMO ENFRENTAR AS CRISES – Pe. David Francisquini


Pe. David Francisquini *

Quão ricos e tocantes se nos afiguram os ensinamentos do Nosso divino Redentor em forma de modelares parábolas. Bons tempos em que todos os brasileiros as conheciam das narrações feitas dos púlpitos das igrejas. Era a parábola do bom samaritano, a do semeador, a do joio e do trigo, a do grão de mostarda, a da rede lançada ao mar…

Em todas elas, com bonita narrativa sobre alguma ocorrência do dia a dia ao alcance de seus discípulos, o Homem-Deus transmitia seus ensinamentos sobre o Reino dos Céus. Referimo-nos à do grão de mostarda, considerado no Evangelho como a menor das sementes, mas do qual Jesus Cristo extraiu grande lição moral. Assim, a Boa Nova com suas parábolas desvendou a verdade que ganhou o mundo e dominou toda a Terra.

Ao aludir à beleza da narração, referi-me à do trigo e do joio, encontrada no capítulo 13 do livro de São Mateus. O inimigo lançou a semente má, do joio, sobre a semeadura do trigo, e eles cresceram juntos, indistintamente, causando confusão ao agricultor. Sabiamente, o dono da plantação instruiu seus serviçais a esperarem até a colheita para fazer a separação, atar em feixes o joio, levá-lo ao fogo e destinar ao celeiro a parte boa, o trigo.

Na vida de todos os dias, quantas vezes nos deparamos com situações semelhantes, em que não sabemos no quê, ou em quem confiar, já que as palavras, as obras e os exemplos induzidos podem facilmente nos levar a fazer escolhas erradas, sobretudo quando influenciados pela má propaganda que tudo relativiza, estabelecendo meias verdades, tornando confusos os critérios de alternativa entre o bem e o mal, entre a justiça e o erro.

Assim, ao longo dos séculos, foram surgindo inúmeros heresiarcas revestidos de pele de cordeiro, com seus engodos maquiavélicos, extraviando do rebanho santo um número incontável de almas, ora disfarçando a falsa doutrina que pregavam, ora desviando as consciências do seu reto pensar e agir, ora levando multidões ao descaminho com ensinamentos diferentes daqueles que sempre ensinou a Santa Igreja. Por isso mesmo, uma grande denúncia foi registrada em documento pontifício, a Encíclica Pascendi, do Papa São Pio X.

Em sua denúncia, o santo Pontífice alertava o mundo católico para a atuação do inimigo oculto no próprio seio da Santa Igreja. Clérigos e leigos que pregavam, sem embasamento sério, uma reforma que procurava desfazer de tudo o que havia de mais santo, não poupando sequer a pessoa divina do Fundador, a Ele mesmo se referindo como um simples homem. Assim, a perniciosa trama do progressismo, que naquele tempo se denominava modernismo, foi classificada pelo Papa como a pior de todas as heresias.

Já 1846, em La Salette, Nossa Senhora, entre lágrimas, revelara a duas crianças que essa seria a pior crise de todos os tempos. Mais recentemente, esses revolucionários conspiradores, através de movimentos culturais, infiltraram-se nos meios universitários e intelectuais, a fim de colocar em prática os ensinamentos de Antonio Gramsci, o comunista finório que visou conquistar as mentes.

É doloroso afirmar, mas quem em nossos dias não viu e não vê que nos meios católicos a cizânia penetrou de modo surpreendente, fazendo uma devastação dos valores perenes do Santo Evangelho em favor do comunismo internacional? Já não é de hoje que sistematicamente a infiltração do esquerdismo nos meios católicos vem ocupando lugar de destaque na direção dos rumos da Igreja.

Ela, que há dois milênios combatia primorosamente as heresias utilizando aquilo que lhe é próprio, ou seja, a pregação e os ensinamentos emanados da apologética de grandes santos teólogos, cuja pena nos legou valiosíssimos tratados teológicos de grande profundidade e perfeita clareza de raciocínio. Santo Agostinho, figura de excelência entre esses luminares, pregava o uso da razão, da argumentação fundamentada na boa doutrina.

Entretanto, é difícil explicar a ação do mistério da iniquidade que hoje assola a sociedade como um todo. Chega-se a um ponto em que o pecado alcança grande vulto e assume uma perversidade sem medidas, visando atingir todos os homens sem exceção, a fim de corrompê-los em todas as manifestações de sua personalidade, tanto individuais quanto sociais, políticas, e mesmo religiosas.

Com efeito, vivemos um trágico momento, amargamos uma situação da mais completa escuridão intelectual e espiritual, resultante de um processo iniciado há séculos, quando se tramou a marcha paulatina do desfazimento da sociedade moldada nos ensinamentos do Evangelho, cujos vestígios hoje apenas se vislumbram.

Essa conspiração do mal exige reação enérgica e eficaz das forças vivas da sociedade que ainda teimam em subsistir, denunciando em todas as ocasiões oportunas os planos dos inimigos da fé católica. Invoquemos, pois, Nossa Senhora Aparecida, para que venha em nosso auxílio com a coorte de Anjos de quem é igualmente Rainha.

Façamos a nossa parte, que na verdade não passará muito do tamanho de um grão de mostarda, mas que posto na terra e regado pela Mãe de Deus poderá se transformar num carvalho.

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/como-enfrentar-as-crises/

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sexta-feira, 18 de junho de 2021

INÚTIL SERÁ LEVANTAR DE MADRUGADA – Pe. David Francisquini



Padre David Francisquini *

A virtude da fé é a regra da vida, e a conduta virtuosa o espelho da alma de quem crê em Jesus Cristo e se conforma com os seus ensinamentos. Com efeito, aqueles que amam e temem a Deus constituem exemplo para todos, de modo especial para os inocentes, luz reflexa de integridade moral.

A vida delas apresenta-se fácil aos olhos dos adultos, pois possuem uma espécie de bússola que as guia diante de exemplos que as encantam. Nosso Senhor serviu-se delas como exemplo para alcançarmos o reino dos céus, tornando-nos como crianças.

Enquanto os incrédulos e orgulhosos do mundo as ofendem, os pequeninos em Cristo edificam-nas e honram-nas, por isso mesmo Nosso Senhor disse aos que as escandalizam que melhor lhes fora pendurar a mó de um moinho ao pescoço e se atirarem nas profundezas do mar.

O Filho de Deus usa a linguagem corrente da época para nos ensinar esta verdade, pois a prática de amarrar a mó ao pescoço era própria para castigar os grandes criminosos, sobretudo pelos pecados de escândalo.

As crianças devem ser alvo de carinho, afeto e predileção, uma vez que seus anjos contemplam a face de Deus Pai que está nos céus.

Seria grosseiro não se comover por isso, pois o próprio Jesus disse: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o reino de Céu”.

É para os que não se deixam comover que Nosso Senhor adverte severamente com a figura da mó ao pescoço, anatematizando os escandalosos que desviam as crianças do bom caminho, da luz da verdade e da ciência, do brilho da fé e do esplendor da virtude.

Quem mais escandaliza em nossos dias? Impossível responder sem entrar no campo político-social. Ao propor o ensino da ideologia de gênero, por exemplo, a esquerda procede em relação às crianças de modo escandaloso, ensinando o amor livre, a pedofilia, e tudo o que decorre disso.

Fazer o mal moral à criança é operar contra o próprio Jesus Cristo: “Quem recebe uma criança, a Mim recebe”. Na verdade, a esquerda anela por uma sociedade sem Deus, sem virtude, sem regras nem disciplina. Uma sociedade assim moldada resvalará infalivelmente para o caos e a anarquia.

Se o futuro de uma nação tiver suas raízes na família, no seio da qual as crianças sejam bem educadas, podemos esperar o que há de melhor para a sociedade. Caso contrário, ela resvalará para a própria destruição.

Com os meios de comunicação atuais, torna-se impossível não ver isso acontecendo na Venezuela, na Argentina, bem como em todos os países dominados pelos regimes da esquerda, onde, ao lado da pobreza moral e espiritual, haverá sempre carência e miséria material.

Ao falar do homem sábio e prudente que edifica a sua casa, Nosso Senhor ensina: “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e não as pratica, será semelhante ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa e ela caiu e foi grande a sua ruína” (Mt 7, 26-27).

A ruína de que fala Nosso Senhor não se restringe à matéria, mas toca nos aspectos transcendentes, pois uma sociedade que nega Jesus Cristo e seus ensinamentos tem como meta a ruína moral, espiritual, econômica e social.

Em próximo artigo pretendo dar continuidade a este tema, tão importante para guardarmos a fé e fazermos da virtude a regra de nossas vidas. Caso contrário, ser-nos-á inútil levantar de madrugada…

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* Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/inutil-sera-levantar-de-madrugada/

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sexta-feira, 2 de abril de 2021

"TENHO SEDE!" - Pe. David Francisquini,

 

“Tenho Sede!”

 Pe. David Francisquini *




Rica em lições e significados, a Semana Santa nos oferece inúmeros exemplos de vida e resolução que tocam nas nuvens do mistério. Um deles é a narração, pelas páginas dos evangelhos, da sede devoradora que consumia Nosso Senhor Jesus Cristo durante a paixão. Que lições tal sede nos dá?

O Divino Mestre de fato sofreu sede física pelos sofrimentos atrozes a que foi submetido, pela quantidade de sangue que derramou, e pela consequente febre que O abrasava. Essa sede simbolizava outra, que superabundava no seu espírito: a sede de redimir os homens. Para saciá-la, em vez de água, seus verdugos Lhe deram vinagre e fel.

Foi por meio de uma verdadeira guerra que Jesus Cristo conquistou o seu reino, que não era deste mundo, mas que se travou aqui na Terra para que fosse completo. Ele se tornou homem, padeceu e morreu na Cruz para nos salvar, além de nos deixar a Igreja, seu Corpo Místico.

Na pena de Plinio Corrêa de Oliveira, a Igreja “em suas instituições, em sua doutrina, em suas leis, em sua unidade, em sua universalidade, em sua insuperável catolicidade, é um verdadeiro espelho no qual se reflete nosso Divino Salvador. Mais ainda, Ela é o próprio Corpo Místico de Cristo”.

Enquanto tal, a Igreja forjou e plasmou a civilização cristã, passando a reinar nos corações e na sociedade. Em sua agonia mortal no Horto das Oliveiras, Nosso Senhor anteviu o que se passa hoje com a perda da fé, a descristianização da sociedade, a perfídia dos corações, dentro e fora da Santa Igreja. E sofreu por tudo isso!

O que nos diria nas atuais circunstâncias? — Quae utilitas in sanguine meo? (Qual a utilidade do meu sangue?). Ele nos olharia com infinita compaixão, constatando a perda de milhões de almas todos os dias, vendo a impiedade grassar em todos os rincões da Terra.

Veria também a indiferença e a frieza daqueles que poderiam ser chamados de pupila de seus olhos e delícias do seu coração, os preferidos do seu divino amor e predileção. Qual a utilidade do meu sangue se a borrasca e a escuridão continuam a cobrir toda a Terra? Não se vê uma nesga de luz.

Que utilidade é esta de seu sangue? Durante a Crucifixão, até as pedras se fenderam, os sepulcros se abriram como que proclamando que Ele era rei dos vivos e dos mortos. Sua ardente sede de almas, representada pela sede física, simbolizava o zelo divino em purificar a Terra.

Para Santo Agostinho, Aquele que parecia homem sofreu tudo isso, e todos os que estavam escondidos de Deus, sofreram. Assim se cumpriram as Escrituras: “E na minha sede me deram a beber vinagre” (Sl 68, 22). “Tenho sede”, como se dissesse: Isso precisa ser feito. Os judeus eram o vinagre, resultado da degeneração do vinho dos patriarcas e profetas.

Antes de expirar, Jesus pôs aos olhos de todos o cumprimento da Lei, o que foi predito, o complemento de toda sua obra salvadora, servindo-se de exemplo para os seus discípulos e seguidores: “Tudo está consumado”, o sacrifício estava completo, a honra de Deus havia sido expiada e as portas do céu abertas.

Jesus Cristo perseverou até o fim, e sofreu sua Crucifixão, Paixão e Morte vencendo o mundo, o demônio e a carne. A vitória da Cruz luminosa e resplandecente passou a reinar em todas as instituições, sobretudo a familiar, como elemento saudável e vivificador da sociedade cristã.

Sua sede incomensurável foi a de sofrer por nós e de conceder novamente aos homens aquilo que os nossos primeiros pais perderam, ou seja, a beleza, a pureza de nossos corações, a graça divina para estarmos constantemente em comunicação com o nosso Criador. E como seus filhos regenerados pelo Deus encarnado, sermos agradáveis a toda Trindade Santíssima.

Pelas chagas de Jesus Cristo fomos todos curados. As suas feridas, espinhos e açoites se tornaram fonte inexaurível para nossas reflexões, além de um tesouro também inesgotável para haurirmos forças e zelo para trabalhar pela glória de Deus e a salvação das almas.

Resta-nos recorrer à Mãe de todas as mães nos momentos de aflição, à Mãe Dolorosa que acompanhou seu divino Filho em todos os passos da Paixão, e pedirmos a Ela a graça de ter sempre diante dos nossos olhos o Redentor sofredor e chagado, como Ela O contemplava na Paixão.

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/tenho-sede/

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quinta-feira, 11 de março de 2021

AI DE VÓS, HIPÓCRITAS! – Pe. David Francisquini

 



Pe. David Francisquini*

 

Tantas — e não menos contraditórias — são as afirmações veiculadas pela grande mídia, assim como as medidas levadas a efeito por muitas autoridades públicas, que parecem esconder algo do grande público que, já quase exausto, não vem suportando mais o confinamento a que foi submetido, em razão das próprias divergências sobre a sua eficácia ou não.

Diante do alarmismo em torno do vírus chinês e da multiplicação de lokdowns, constata-se que os números relativos à pobreza têm aumentado de maneira acentuada, dada a desestabilização na economia das nações. Abyssus abyssum invocat, isto é, um abismo atrai outro abismo, proclama um Salmo. Não se pode fazer o mal para que dele provenha um bem.

No caso dos confinamentos não há nada de mensurável e de científico sobre a sua eficácia. O mesmo não se pode afirmar sobre a evidência de a pessoa não ter o que comer, pois o levará à ruína e à morte por inanição, a menos que haja um projeto, um propósito de fazer o mundo atual se resvalar para o abismo com a desgraça alheia.

Há pior, sobretudo para os responsáveis do rebanho do Senhor, como um sacerdote. Além de fechar as igrejas, de os fiéis não poderem assistir missas e frequentar os sacramentos, pois os defensores do confinamento afirmam que o papel da Igreja em sua missão salvífica não é essencial. O que se depreende que Deus fica em plano inferior nos aspectos humanos.

Até mesmo o impedimento do sacerdote de assistir aos enfermos nos hospitais… A isto podem ser aplicadas as sábias palavras do Divino Mestre que ensinou: “Eu digo a vós, meus amigos: Não tenhais medo dos que matam o corpo e depois nada mais podem fazer. Mas eu mostrarei a quem vós deveis temer: temam Àquele que, depois de matar o corpo, tem poder para lançar no inferno” (Lc 12 1-8).

Quanto à assistência religiosa, a saúde do corpo depende, muitas vezes, da saúde da alma, da administração dos sacramentos, da oração, das boas obras que ajudarão o bem do corpo. Separar a saúde do corpo da alma se transforma numa questão gravíssima que terá consequências desastrosas na vida civil. Santo Antônio de Lisboa em seus sermões sobre doenças e epidemias afirma terem elas sua origem no pecado e nas desordens morais.

Medidas drásticas nas atuais circunstâncias se justificariam apenas no caso de lançar mão de medidas estratégicas para enfrentar calamidades extremas como, por exemplo, da necessidade de descanso dos funcionários da saúde, a fim de se reorganizarem e recobrarem forças para mais bem continuar o trabalho. Mesmo isto seria temerário e exige muita cautela.

A imposição de confinamento às pessoas sem previsão do fim da pandemia, privando-as de ganharem o pão de cada dia, criará uma situação de pobreza tal que afetará até mesmo a vida religiosa em níveis surpreendentes, catastróficos até, sem encontrar o perseguido benefício de algum dado comprobatório de vidas salvas, de crescimento na fé, da moralização nos costumes em razão de tais decisões.

Referi acima a um projeto de fazer o mundo se resvalar para o abismo. Com efeito, diante das medidas tomadas aqui, lá e acolá a propósito da epidemia só podemos concluir, com certeza, no aumento do desemprego, da pobreza e da fome ante a visão do desmantelamento das economias, trazendo o espectro de uma catástrofe global sem precedentes na história, um miserabilismo orquestrado.

No cenário brasileiro, temos já uma situação bastante preocupante. Recentemente, um decreto em vigor no município de Araraquara gerou resultados que nos dão ideia do tipo de calamidade que nos aguarda. Enquanto isto, noticiam-se as intenções de vários governadores, nomeadamente dos Estados da Bahia, Santa Catarina e Paraná, a exemplo do governo de Brasília, que avançam com firme propósito de decretar o confinamento.

Enquanto isso, torna-se público que bilhões em verbas da União foram transferidos aos governos estaduais para tratar as vítimas do coronavírus, mas foram desviados para outras finalidades. A despeito disto, esses governantes reclamam por mais recursos do governo central, além de acusar politicamente o Presidente pela omissão e por todas as coisas ruins que têm sucedido no País.

Afinal, uma população inteira — emocionalmente descontrolada — apavorada mesmo diante da peste chinesa, ademais faminta, em consequência do “estratégico” confinamento, não terá a faculdade de refletir, e estará pronta a acolher a sugestão para acusar qualquer pessoa, a respeito do que quer que seja, e estará disposta a se submeter a qualquer coisa, por um pedaço de pão, ainda que bolorento.

Para fazer o mal, nunca faltam os oportunistas de plantão que não hesitam em jogar o Brasil na mais profunda miséria, no rastro da Venezuela e, mais recentemente, da Argentina, e sobre a desgraça imposta à população colher algum ramo de louro para se autoproclamarem salvadores da pátria… A História está recheada de personagens deste naipe. Este parece ser o jogo sórdido daqueles que apostam no ‘quanto maior a tragédia, melhor para nós’.

Mas eles, por sua índole revolucionária, tropeçarão em seus próprios calcanhares em decorrência de seu orgulho, ensimesmados no desafio a Deus, edificando para eles um mundo vergonhoso, sobre o qual sonham em estabelecer um paraíso às avessas, como um desesperado grito de revolta de non serviam (não servirei).

Triste conduta daqueles que buscam celebridade em prejuízo de seus semelhantes! Isso se chama hipocrisia. Estejamos certos, o Senhor virá conhecer a obra dos filhos dos homens e seus empedernidos propósitos. Que Nossa Senhora Aparecida, Mãe, Advogada, Rainha, Imaculada e Auxiliadora dos Cristãos, salve o Brasil dessas iniquidades!

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Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

 

https://www.abim.inf.br/ai-de-vos-hipocritas/

 

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domingo, 3 de maio de 2020

BISPOS OU SACERDOTES PODEM PROIBIR A COMUNHÃO NA BOCA? QUAL É A LEGISLAÇÃO DA IGREJA A RESPEITO?


3 de Maio de 2020
Concílio de Trento – Anônimo, séc. XVI. Museu do Louvre, Paris.

Padre David Francisquini
 Fonte: Revista Catolicismo, Nº 832, Abril/2020

Pergunta — Devido à ameaça de epidemia do coronavírus, o bispo da minha diocese impôs que a Sagrada Comunhão seja distribuída exclusivamente na mão dos fiéis, e não mais na boca. Chama-me a atenção que, no mesmo comunicado, proíbe-se o costumeiro aperto de mão na saudação da paz. Se o contato com a mão transmite o vírus, seria lógico proibir também a comunhão na mão, porque o padre poderia estar contaminado, não é? Essa contradição me leva a suspeitar que alguns bispos estejam querendo aproveitar a crise sanitária para tentar acabar com a distribuição da comunhão na boca, que é o modo tradicional. Há muitos anos sou “mal visto” por vários sacerdotes, por não receber a comunhão na mão, e tenho sido interpelado algumas vezes para “fazer como os demais”. Esses padres alegam que na Igreja primitiva se comungava desse jeito, e que o fato de não se permitir aos fiéis tocar na hóstia, como se fazia antes, estabelecia uma distinção excessiva entre os leigos e o clero, dando a entender que os padres eram virtuosos e os fiéis eram pecadores. Gostaria de saber se isso é verdade, e qual é a legislação da Igreja sobre a distribuição da comunhão.
Resposta — O Concílio de Trento declarou que o costume de o sacerdote celebrante comungar de suas próprias mãos, e depois distribuir a hóstia aos fiéis, é uma tradição apostólica (sess. 13, c. 8). São Basílio (330-379) informou que só era permitido receber a comunhão das próprias mãos em tempos de perseguição ou no caso dos monges do deserto — ou seja, quando não havia nem sacerdote nem diácono para dar a comunhão (Carta 93). Com a paz de Constantino essa exceção acabou, pois foi permitido à Igreja sair das catacumbas. Provavelmente isso era desrespeitado em alguns lugares e cometiam-se abusos, porque no ano 650 o Concílio de Rouen definiu: “Não coloques a Eucaristia nas mãos de um leigo ou de uma leiga, mas unicamente na sua boca”.
De fato, à medida que a Igreja foi tomando consciência de quão augusto é o tesouro que Nosso Senhor lhe deixou com o Sacramento da Eucaristia — seu Corpo e Sangue realmente presentes nas espécies consagradas do pão e do vinho —, Ela foi aos poucos aperfeiçoando seu modo de celebrar a Missa, a assiduidade e o modo de distribuir a Sagrada Comunhão, assim como de conservar e transportar o Santíssimo Sacramento. Basta citar, por exemplo, que os primeiros cristãos celebravam a Missa no mesmo local da refeição fraterna que tomavam em comum (ágape), e logo depois de terem comido. Ainda no século V, São Paulino de Nola testemunha a existência desse tipo de reuniões à mesa, não inteiramente separadas da celebração; e foi somente no segundo milênio que se tornou mais rígida a regra do jejum eucarístico prévio à recepção da Sagrada Comunhão.

Certeza da presença de Jesus na hóstia santa
Concomitantemente foi se impondo o costume de dar a comunhão na boca, pela certeza de que o Corpo de Nosso Senhor estava tão presente numa pequena fração quanto numa hóstia inteira, como belamente escreveu Santo Tomás de Aquino no hino Lauda Sion“Quando a hóstia é dividida, não vaciles, mas recorda que o Senhor encontra-se todo debaixo do fragmento, tanto quanto na hóstia inteira”. Ora, durante a distribuição da Sagrada Comunhão é frequente separarem-se da hóstia pequenos fragmentos, e é por isso que o coroinha deve sempre colocar a patena sob o queixo do comungante, a fim de recolher os fragmentos que eventualmente se desprendem da hóstia. Voltando ao altar, o sacerdote limpa a patena, derramando esses minúsculos fragmentos dentro do cálice a ser purificado mediante as abluções.
Essa consciência crescente da presença miraculosa de Jesus na hóstia, e da necessidade de recebê-Lo com a reverência devida, levou também a Igreja a impor aos fiéis recebê-Lo de joelhos, em sinal de adoração. É um sinal exterior para prestar-Lhe homenagem e saudá-Lo com o nosso corpo, num gesto de humildade. A recepção na boca é também um sinal de infância espiritual, pois da mesma forma que as crianças abrem a boca para receber o alimento, abrimos a boca para receber da mão do sacerdote o nosso alimento espiritual. E o sacerdote celebra a Missa “in persona Christi”, ou seja, ao celebrar, assume a própria pessoa de Cristo. Esses gestos de humilhação se fazem, portanto, diante do próprio Deus; e longe de rebaixar, engrandecem quem os pratica, porque são atos de adoração e de reverência a Deus.
Cumprir com santo zelo os deveres religiosos
O inexplicável é que, depois do Concílio 
Vaticano II, a comunhão na mão e outros 
modos de proceder protestante tenham 
começado a se infiltrar na Igreja 
Católica.

No século VI, na Igreja de Roma, a santa hóstia já era depositada diretamente na boca dos fiéis, segundo o testemunho de São Gregório Magno ao contar um milagre de Santo Agapito (Diálogos, livro 3°). E foi na Idade Média que se generalizou a recepção de joelhos, como afirma São Columbano, monge irlandês que cristianizou os escoceses.
A partir da Idade Média, os fiéis tiraram grande proveito espiritual desses gestos de reverência diante das espécies eucarísticas. Basta pensar na instituição da festa de Corpus Christi pelo Papa Urbano IV, em 1264. O primeiro grande fruto desse aperfeiçoamento no trato da Eucaristia foi o aumento da fé na Presença Real de Nosso Senhor no pão e no vinho consagrados, que se transformam no Corpo e no Sangue do Salvador. O segundo grande fruto foi o aumento da piedade, sendo reconhecido que a perfeição da virtude da religião produz nas almas um afeto filial para com Deus e uma terna devoção às Pessoas divinas, aos santos, à Igreja, às Sagradas Escrituras, etc., levando-as a cumprir com santo zelo os deveres religiosos.
Infiltração de costumes protestantes na Igreja
Esse movimento de fervor foi crescendo na Igreja Católica ao longo dos séculos e marcadamente a partir do século XVI em oposição às heresias de Lutero e seus sequazes.
Todas as seitas protestantes negam a transubstanciação, ou seja, negam que o pão e o vinho tornam-se o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor, perdendo sua substância e ficando deles somente os acidentes. Algumas seitas dizem que a presença de Cristo é apenas espiritual, enquanto outras sustentam que, durante a cerimônia, seu Corpo e Sangue se unem à matéria das espécies, mas a substância do pão e do vinho permanece íntegra. Negam também o caráter de sacrifício da Santa Missa; e como consequência, negam o sacerdócio como uma ordem sagrada para realizar o sacrifício in persona Christi. Daí a equiparação dos fiéis aos pastores, que são meros pregadores.
O resultado da disseminação dessas heresias foi a transformação do altar numa mesa, colocada na frente ou no meio dos participantes, e o fazerem uma fila para ir pegar eles mesmos com a mão o pão e o vinho diretamente sobre a mesa. Na óptica herética deles, tudo isso se explica porque o culto é principalmente uma pregação; e a “comunhão” é simplesmente partilhar um pão e vinho não transubstanciados onde haveria uma vaga presença espiritual de Cristo.
O inexplicável é que, depois do Concílio Vaticano II, muito desse modo de proceder protestante tenha começado a se infiltrar na Igreja Católica.
O documento crucial para o abandono da maneira tradicional de receber a Comunhão foi a Instrução Memoriale Domini, publicada pela Sagrada Congregação para o Culto divino em 29 de maio de 1969. Ela explicava que um número reduzido de bispos havia pedido a admissão da comunhão na mão; mas, tendo sido interrogados todos os bispos do mundo pelo Papa Paulo VI, apenas um quarto deles aprovaram essa novidade.
A Instrução acrescentava que, em consequência do que se disse acima, “o Santo Padre decidiu não mudar a forma existente de administrar a Sagrada Comunhão aos fiéis”. Porém aduzia duas linhas adiante: “Onde um uso contrário, o de colocar a Sagrada Comunhão nas mãos prevalece”(?!)as Conferências episcopais devem avaliar “qualquer circunstância especial que possa existir”, e “devem tomar quaisquer decisões” para “regular as situações” (ou seja, regularizar os abusos!).
O caráter insincero da Instrução ficou claro numa nota anexa, na qual se dizia que “o rito da comunhão nas mãos deve ser introduzido com discernimento”, “gradualmente”, “começando com grupos mais instruídos e mais bem preparados” por meio de “uma adequada catequese” que “prepare o caminho”.
Como se tratava apenas de um indulto, as Conferências episcopais deviam aprovar uma resolução por maioria de 2/3, fazendo um pedido à Santa Sé. A imensa maioria acabou introduzindo essa forma de distribuição, de maneira que se tornou o costume prevalente na Igreja latina nos cinco continentes.
A formulação mais recente da legalização dessa anomalia é contida na Instrução Geral do Missal Romano de 2002: “Não é permitido que os próprios fiéis tomem, por si mesmos, o pão consagrado nem o cálice sagrado, e menos ainda que o passem entre si, de mão em mão. Os fiéis comungam de joelhos ou de pé, segundo a determinação da Conferência Episcopal. Quando comungam de pé, recomenda-se que, antes de receberem o Sacramento, façam a devida reverência, estabelecida pelas mesmas normas”. E mais adiante: “Se a Comunhão for distribuída unicamente sob a espécie do pão, o sacerdote levanta um pouco a hóstia e, mostrando-a a cada um dos comungantes, diz: O Corpo de Cristo ou Corpus Christi. O comungante responde: Amém, e recebe o Sacramento na boca; ou, onde for permitido, na mão, conforme preferir”.
A liberdade de escolha foi reiterada pela Congregação para o Culto divino em sua Instrução Redemptionis Sacramentum, de 2004, a qual diz, de maneira assaz enviesada: “Ainda que todo fiel tenha sempre direito a escolher se deseja receber a sagrada Comunhão na boca, se o que vai comungar quer receber na mão o Sacramento, nos lugares onde Conferência de Bispos o haja permitido, com a confirmação da Sé apostólica, deve-se administrar-lhe a sagrada hóstia”.
Argumentação contra a comunhão na mão

Dom Athanasius Schneider,bispo auxiliar de Astana (Cazaquistão)

Dois bispos se têm destacado nos esforços para eliminar o abuso da comunhão na mão, argumentando que um “indulto” foi transformado em regra geral; e os que respeitam a regra litúrgica passaram a ser tratados como indultados. Dom Juan Rodolfo Laise, recentemente falecido, proibiu a comunhão na mão em sua diocese de San Luis (Argentina); e Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Astana (Cazaquistão), escreveu dois livros sobre o assunto e promoveu uma resolução de sua Conferência episcopal, proibindo a comunhão na mão em toda a região.
No livro Corpus Christi, a comunhão na mão no coração da crise da Igreja, Dom Schneider declara que em nossos dias essa prática é “a mais profunda laceração do Corpo Místico da Igreja de Cristo”, porque acarreta quatro consequências, cada qual mais grave que a outra:
● Minimiza os gestos de adoração visível;
● Nas crianças e nos adolescentes que não conheceram o modo tradicional de recepção, cria a ideia de que a Eucaristia é um alimento comum e apenas um símbolo;
● Permite perdas importantes de parcelas de hóstias, que caem por terra e são profanadas involuntariamente;
● Favorece o roubo de hóstias para atos sacrílegos.
Além do que foi exposto acima, pode-se ainda acrescentar algo a mais: é que essa prática leva os fiéis à indiferença e à perda da fé, pois aquelas mesmas mãos que depositaram o dinheiro na coleta vão tocar a hóstia consagrada. Aos poucos, isso induz a pessoa a colocar o dinheiro e a hóstia no mesmo nível, relativizando o valor infinito da Sagrada Eucaristia.
Devemos ressaltar que Nosso Senhor Jesus Cristo, realmente presente e em pessoa, é a vítima dessas quatro atitudes deploráveis.
Em resposta àqueles que dizem que a obrigação de receber a comunhão na boca violaria seus direitos de “cristão adulto”, Dom Athanasius contesta:
“Esses supostos direitos violam os direitos de Cristo, o único Santo, o Rei dos Reis: Ele tem o direito de receber a excelência das honras divinas, mesmo na pequena e santa hóstia. Todas as razões em favor da prática da comunhão em pé e na mão perdem toda consistência diante da gravidade da situação evidente de minimização do respeito e da sacralidade, diante do descuido pelas parcelas eucarísticas que caem por terra e diante do fenômeno crescente do roubo de hóstias consagradas.
“Acima de tudo, qualquer argumento em favor da manutenção da prática da comunhão na mão perde todo fundamento em consideração da diminuição (para não dizer desaparecimento) da integridade da fé católica na Presença Real e na transubstanciação. Tal prática moderna, que jamais existiu na Igreja sob essa forma exterior concreta, acaba incontestavelmente por enfraquecer a plenitude da fé católica na Eucaristia”.
A lição da aparição do Anjo aos pastorinhos de Fátima

O Anjo apareceu-nos pela 
terceira vez, trazendo na 
mão um cálice e sobre ele 
uma Hóstia, da qual 
caíam dentro do cálice 
algumas gotas de Sangue. 
[Foto: Frederico Viotti]

Como recurso de contraste salutar, convém lembrar a terceira aparição do anjo aos três pastorinhos de Fátima. De um lado ela nos mostra a reverência que se deve ter em relação à Sagrada Eucaristia; e de outro, o quanto Nosso Senhor é ofendido pelos sacrilégios. Eis o relato da Irmã Lúcia:
“O Anjo apareceu-nos pela terceira vez, trazendo na mão um cálice e sobre ele uma Hóstia, da qual caíam dentro do cálice algumas gotas de Sangue. Deixando o cálice e a Hóstia suspensos no ar, prostrou-se em terra e repetiu três vezes a oração: ‘Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da Terra, em reparação pelos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores’.
“Depois, levantando-se, tomou de novo nas mãos o cálice e a Hóstia e deu-me a Hóstia a mim; e o que continha o cálice, deu-o a beber à Jacinta e ao Francisco, dizendo ao mesmo tempo: ‘Tomai e bebei o Corpo e Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus’.
“De novo se prostrou em terra e repetiu conosco mais três vezes a mesma oração: ‘ Santíssima Trindade… etc’. E desapareceu”.
Peçamos a Nossa Senhora de Fátima que obtenha o quanto antes de seu divino Filho ser fechada na Igreja, que é o seu Corpo Místico, essa chaga da comunhão na mão, sintoma de tanta indiferença e causa de incontáveis ultrajes.

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domingo, 22 de dezembro de 2019

“EIS AQUI A ESCRAVA DO SENHOR!” – Pe. David Francisquini

Publicado em 22 de dezembro de 2019

Pe. David Francisquini *

“Faça-se em mim segundo a tua palavra”… E o Filho de Deus se fez homem. Também poucas palavras bastam para Jesus Cristo descer ao altar como sacramento e vítima, e imolar-se por nós. Enquanto Deus tira do nada todas as coisas, para fazer-se homem quis depender do consentimento da Virgem Maria: — “Como se fará isto se não conheço varão?”

Disse-lhe o Anjo: — “A virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra, portanto o santo que há nascer de ti será chamado Filho do Altíssimo”. No consentimento da Santíssima Virgem, o Filho de Deus se encerrou em seu ventre e “habitou entre nós, e vimos a sua glória, glória como de unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”, (Jo 1, 14).

João descreve a geração eterna do Filho — que quer dizer Verbo —, gerado antes de todas as coisas, proclamando a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo que se torna homem. Com duas naturezas unidas numa só pessoa, que é a pessoa do Verbo, Ele veio a este mundo sem deixar de ser Deus e toma a forma de servo para remir a humanidade pecadora.

No Natal comemoramos o homem-Deus que se tornou criança, singela, encantadora, cintilante de luz divina, pequeno para conduzir os pequenos, e grande, imenso, para atear o fogo do divino amor nos corações dos homens. Não há língua capaz de descrever a sublimidade da noite de Natal, que se tornou noite de luz, noite em que Maria e José contemplaram o Menino-Deus reclinado em um presépio.

Noite em que a Terra se liga ao Céu, a natureza toda se reluz de uma alegria sem par, noite em que os Anjos cantam o mais belo hino ao Deus-Menino que enche de luz os corações dos homens. Quem Vos fez nascer num pobre estábulo, reclinado numa manjedoura? Vós que estais acima dos Céus, acima dos astros e de todo o firmamento? Quem Vos arrancou do seio do Eterno Pai para se reclinar numa gruta fria, sendo o Senhor do universo?

Entre os Serafins e Querubins, entre os esplendores e belezas do Céu, Vós vos reclinais agora em um presépio? Para quê, Senhor? Vós que num só movimento determinais as funções dos astros e de todo firmamento, Vos reclinais, pobre e indefeso, diante de uma Mãe que Vos contempla? Vós que concedeis alimento aos homens e aos animais, necessitais de um pouco de leite para Vos manter sobre a Terra.

Por ora gemeis e chorais, ó pequena criança, mas o vosso pranto é como uma melodia que se ergue da Terra ao Céu; precisando de amparo, sobe às alturas como um incenso de suave odor, como uma oração sublime, pois saída dos lábios divinos. Quem Vos contempla no presépio não deixa de se enternecer diante de tão encantadora e divina presença.

Quem analisa o vosso olhar celeste que penetra no fundo das almas e vê o recôndito dos corações, ajoelha-se em profunda adoração, percebe a solução de todos os problemas! Vós sois o Senhor do universo, Aquele que existe antes de todas as coisas, nada havendo de criado que não fosse feito por Vós, dignai-Vos a nos contemplar nesta noite em que nascestes.

Vosso olhar, pleno de ternura e bondade, possui uma movimentação de tal modo harmoniosa, que o universo não pode explicar sua grandeza e melodia. Aquele que os Céus e a Terra não podem conter está reclinado num presépio pobre e humilde.

Os Natais de outrora, meu Senhor Jesus, eram revestidos de doçura e beleza sem par, mas eis que nos encontramos no Século XXI depois do primeiro Natal, e tudo o que nos rodeia é tristeza e apreensão pelo que se passa com a vossa Esposa santíssima, o vosso Corpo Místico, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

A cristandade foi envolta pelas trevas e erros, desilusões e desamparos por parte daqueles que, em vez de ser o sal que salga, a luz que ilumina e o fermento que fermenta, se transformaram em elemento de autodemolição, de apodrecimento, de desunião. Há, contudo, uma esperança que não morre, há uma certeza que não desmorona, há uma vida que não se desfaz, pois o vosso presépio é um marco de certeza, de esperança, de vida, de virtude que continua sob as cinzas.

O fogo de vosso amor é mais forte que a morte, a vossa vida é mais invencível do que todos os infernos, porque Vós tendes palavras de vida eterna, Vós sois o Rei do universo. Nessa perspectiva, ó Senhor, que ora contemplamos na manjedoura — ali encontramos José e Maria, os pressurosos pastores, e os reis cheios de esplendores e grandezas —, Vós vindes para reinar. Reinai, Senhor Jesus, nos corações dos homens!

São súplicas que Vos dirigimos. O Natal para os homens é o anúncio de uma grande nova, pois Cristo se fez carne por nós. O Anjo disse aos pastores para não temerem, pois anunciava uma boa-nova que seria de grande alegria para todo o povo. Disse ele, nasceu hoje um Salvador, que é o Cristo Senhor. Eis o sinal: “Encontrareis o menino envolto em panos e deitado numa manjedoura”. Ao mesmo tempo uma multidão da milícia celeste se uniu ao Anjo a louvar a Deus: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc II, 8 e sg.).

Envoltos nesta luz, comemoremos o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ)


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terça-feira, 19 de novembro de 2019

CARTA ABERTA AO EXCELENTÍSSIMO SR. PRESIDENTE DA CÂMARA - Padre David Franscisquini


19 de novembro de 2019
Reproduzimos a seguir uma carta aberta que o Pe. David Franscisquini — sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria, em Cardoso Moreira (RJ) — enviou ao Dep. Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados.

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Prezado Senhor Rodrigo Maia,

          Permita-me fazer algumas apreciações e, ao mesmo tempo, demonstrar minha indignação pela maneira como vem sendo conduzida a política brasileira, de modo particular pelas duas casas legislativas, cuja Câmara dos Deputados é presidida pelo senhor.

          Como sacerdote no interior do Estado do Rio de Janeiro, no meu contato direto com os paroquianos posso afirmar que as ponderações que farei são compartilhadas por grande parte deles que anelam todo o bem que se possa fazer por esse Brasil, nascido sob o signo da Cruz.

          De um fato, estou seguro, a maioria absoluta da população brasileira está desagradada e desaprova a maneira de os nossos deputados e senadores conduzirem o processo de recuperação moral e institucional do País desde a eleição do presidente Jair Bolsonaro.

          Pelo que tenho ouvido, a postura do Parlamento tem decepcionado e muito o público brasileiro, que percebe a má vontade de seus representantes em votar projetos originários do poder executivo, ora desfigurando-os, ora desidratando-os, ora postergando as suas votações.

          Desapontamento esse que não atinge apenas questões econômicas, mas sobretudo àquilo que diz respeito à ordem moral e familiar. Sendo a família a “célula mater” da sociedade, com ela esfacelada não haverá ordenação harmônica, estável e duradoura possível na vida social.

          Para o magistério tradicional da Igreja não se pode violar o direito fundamental do ordenamento familiar, pois sem ele os desígnios mais altos do bem-estar e a própria sobrevivência da sociedade estariam comprometidos. E a essência familiar é constituída por um homem e uma mulher, e isso foi determinado por Deus ao criá-los, dizendo: crescei e multiplicai-vos e enchei toda Terra.

         Foi uma vitória quase miraculosa o povo brasileiro ter tirado do poder a esquerda que há décadas vinha meticulosamente destruindo os valores morais de nossa sociedade, não só pelo péssimo exemplo que davam, mas também por leis cada vez mais permissivas, tornando-a frágil, degradada e sem qualquer perspectiva de futuro.

          Nos últimos anos do PT, tais desvios já vinham se conformando em perseguição religiosa àqueles que por dever de consciência religiosa reagissem contra a introdução de leis sobre homofobia, identidade de gênero, aborto, equiparação do casamento monogâmico entre um homem e uma mulher com as uniões de pessoas do mesmo sexo e adoção de crianças pelos mesmos.

          Nesse contexto, foi criado um ambiente favorável ao vício, à delinquência e à corrupção generalizada, que em contrapartida inibia a virtude, a honra e a dignidade da grande maioria dos brasileiros. Com efeito, tudo caminhava para o descalabro e para o caos. Infelizmente, o câncer que carcomia a ordem não foi totalmente extirpado.

         Suas metástases ainda seguem fazendo estragos não pequenos nas duas Casas Legislativas, frustrando assim os mais nobres anseios da sociedade. É dever dos governantes exercerem seu poder dentro dos parâmetros da justiça à procura do bem-estar social. Isto, Sr. Deputado, é um princípio universal e tem demonstrado que, quando bem cumprido, traz desenvolvimento, paz e progresso moral e material para as nações.

          Caso tal princípio não seja observado, ocorrerá exatamente o contrário, só trará desgraças, atrasos e até convulsões sociais, como afirma Santo Agostinho em sua obra “A Cidade de Deus”, quando as nações violam a Lei de Deus, não existindo céu nem inferno para as mesmas, o prêmio ou castigo será conquistado nesse mundo, como podemos constatar hoje na Venezuela!

          Exemplos patéticos foram as ditaduras comunistas e nazistas do século passado, e que ainda perduram neste tão conturbado início deste milênio. Esperamos bem que nessa fase da vida pública brasileira, nossos políticos — muitos deles imbuídos de ideologias ateias e comunistas — não continuem nos conduzindo por essas vias tenebrosas. Estaremos atentos e dispostos a cumprir nosso dever diante do Criador a fim de evitar tal desgraça para nossa Pátria. Disso Vossa Excelência pode estar seguro, pois o povo brasileiro já deu provas concretas de sua determinação e coragem.

          Com efeito, os valores morais e civilizatórios advindos do Cristianismo são as bases de uma sociedade sadia. Basta conhecer um pouco da história da civilização ocidental para perceber o quanto a Igreja Católica contribuiu para tirar as nações europeias do verdadeiro caos advindo com a queda do Império Romano em meados do século V.

          Ao longo dos séculos, os ensinamentos cristãos foram pouco a pouco transformando os costumes e as leis pagãs, substituindo-as pelos sábios ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Inúmeros frutos atestam a transformação em todos os ramos e atuação do homem, tanto no campo intelectual, quanto no espiritual, assim como na arte, nos costumes, nas leis, na política, na vida familiar, que ninguém pode negar ou subestimar o valor histórico da ação benfazeja da Igreja em todos os setores da vida do homem.

          Ninguém tem o direito de destruir esta grande conquista da humanidade, que foi a cristianização dos costumes e das leis, pois retornaríamos ipso facto à barbárie. E o bom senso popular proclama que é exatamente esse o desejo da esquerda para o Brasil, pelo papel de relevância que o nosso País vem ocupando no concerto hodierno das nações. Ao observar as discussões que ora vêm ocorrendo no Senado e na Câmara, pode-se concluir que — infelizmente — nada de relevante vem sendo feito para a construção de nosso futuro, pelo contrário, o boicote é total.

         Volto a afirmar que o fundamento da sociedade é a família. Ela só será bem constituída se for nos moldes cristãos, ou seja, monogâmica e indissolúvel, que é direito dos pais formarem seus filhos dentro da moralidade. Tudo o que fugir disso é inaceitável e fatalmente, cedo ou tarde, nos conduzirá à ruína.

          Atualmente são tantos os fatores de degradação que podem colaborar para abalar a família, que é dever imperioso dos legisladores zelarem pela sua fundamental proteção e defesa. Tenham certeza de que não é fazendo concessões aos erros modernos que poderão salvá-la, na verdade, isso só a enfraquecerá mais.

         No preâmbulo de nossa Constituição está dito que mesma foi promulgada sob a proteção de Deus. Sendo assim, as leis devem ser conformes com a Sua santa vontade. Caso contrário não proporcionarão a harmonia, a paz e o progresso almejado por todos.

         Apenas para constar, mais uma observação. A mídia, pelo menos a grande imprensa escrita ou televisiva está cada vez mais desacreditada, porque tem corroborado no sentido de destruir os valores da civilização cristã em nossa sociedade. Felizmente a população ordeira e laboriosa tem tido opções no acesso à informação idôneas e de qualidade, sem o cunho político esquerdista e marxista que domina nas TVs abertas, por meio das redes sociais, e isso foi uma conquista. O Brasil espera que os nossos legisladores não queiram votar leis que possam cercear a liberdade de expressão e o acesso à informação idônea e de qualidade.

         Nascido sob o signo da Cruz, o primeiro ato oficial do Brasil foi a celebração da Santa Missa. Nascido cristão, assim deveremos nos manter numa nação soberana, imponente e varonil. Pedimos a Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, que vele pelo povo brasileiro, e ilumine os nossos governantes a fim de que façam uma administração dentro dos valores morais e cristãos, assegurando para esta grande nação e a este povo ordeiro, laborioso e pacífico um futuro de paz, harmonia e autêntico progresso.


Padre David Franscisquini
Cardoso Moreira, 16 de novembro de 2019


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