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domingo, 17 de abril de 2022

SANTA PÁSCOA! TENDE CONFIANÇA, POIS “O RESTO VOLTARÁ!”

 


Padre David Francisquini *

 

Depois da crucifixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, para redimir o pecado dos homens e reabrir as portas do Céu, toda a Terra foi coberta por densas trevas, a tristeza e a desolação contagiaram os povos, liquidando com tudo o que restava de ordem. É o que poderíamos esperar depois da ignominiosa morte do Homem-Deus.

Do Santo Sepulcro ressurge a primeira claridade de esperança. As almas fiéis que o rodeavam para prestar as últimas homenagens a Nosso Senhor, pressentiam que algo de maravilhoso estava para acontecer. Junto àquela tumba, que aparentemente havia selado a derrota do Divino Redentor, eles presenciaram a glória triunfadora de Sua ressurreição.

Com efeito, como diz São Paulo, se Ele não tivesse ressuscitado, a nossa fé seria vã. Os anjos cantaram “glória a Deus nas alturas”. As trevas se dissiparam. A natureza inteira se rejubilou com a luz emanada daquele Corpo glorioso. Jesus Cristo realmente ressuscitou como triunfador da morte e do pecado. Tendo cumprido a vontade de Deus Pai, reabriu as portas dos céus aos justos.

Apesar de a notícia do enorme prodígio ter corrido como um raio, muitos discípulos ainda andavam tristes com a morte de Cristo — após ter sido entregue à soldadesca romana pelos magistrados e sacerdotes judeus —, pois a alegria da Sua ressurreição não havia ainda inundado os seus corações.

Tinham uma fé incompleta e não conheciam verdadeiramente quem era Jesus. Uns achavam que fosse um profeta com grande poder, que restauraria o reino temporal de Israel. Outros, confusos e perplexos, prestavam atenção nos acontecimentos sem entender o que se passava.

Foi necessário que Cristo morresse e ressuscitasse dos mortos para manifestar que Ele era Deus. Sendo já o terceiro dia de sua morte na Cruz, não havia mais razão para que não se conhecesse tudo o que havia se passado em Jerusalém com o Filho de Deus desde a traição do infame Judas Iscariotes.

Quando as santas mulheres chegaram pela manhã de domingo, não encontraram mais o corpo de Jesus na sepultura. Seguiu-se o anúncio do anjo de que Ele não se encontrava mais lá, mas havia ressuscitado dentre os mortos. O que parecia uma derrota, foi a confirmação na fé dos discípulos — a vitória de Cristo sobre seus inimigos —, e todos creram n’Ele depois de manifestar assim a Sua divindade.

É uma prefigura da paixão que nestes dias de trevas sofre a Santa Igreja, corpo místico de Cristo, contra a qual todos os agentes infernais conspiram e desferem golpes, mas Ela segue com vida plena nos fiéis que depositam suas certezas em Jesus Cristo vencedor e triunfador.

Poucos são os que realmente amam a Santa Igreja e estão dispostos a tudo suportar e resistir em sua honrosa defesa, bem como de tomar a iniciativa da luta a fim de que Ela seja restaurada de modo ainda mais excelente do que foi outrora, sempre segundo a lei e a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas aqueles que têm verdadeira devoção a Nossa Senhora recebem d’Ela o inestimável dom da fé, da pureza, e da bravura para lutar. Deus lhes dará a vitória.

Se correspondermos a esse dom, estaremos juntos daquelas almas privilegiadas que viram, testemunharam e registraram para os pósteros aquele momento, talvez o maior acontecimento da História: Jesus Cristo saindo vitorioso de seu sepulcro. Assim como Nossa Senhora nos deu o exemplo de nunca duvidar, Ela nos ensina e alenta a nunca desanimar nas vias da confiança.

Devemos, portanto, confiar contra todas as aparências em sentido contrário, de que junto d’Ela haveremos de encontrar forças e adquirir a certeza de que o bem não está sepultado para sempre, mas que residuum revertetur — o resto voltará, segundo Isaías. Dos escombros e das cinzas da civilização atual surgirá o Reino de Maria, com o fulgor de Cristo no momento de Sua ressurreição.

Espero que todos os fiéis e leitores tenham uma Santa e feliz Páscoa, na alegria de saber e confiar, com uma confiança sem limites, na promessa de que as portas do inferno jamais prevalecerão contra a Igreja.

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

 https://www.abim.inf.br/santa-pascoa-tende-confianca-pois-o-resto-voltara/

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domingo, 10 de abril de 2022

“QUE UTILIDADE HÁ NO MEU SANGUE?”



Padre David Francisquini*

Todo homem deve lutar constantemente para sobreviver, mas não deve fazê-lo apenas no campo natural, ou seja, para prover às suas necessidades puramente materiais. Os evangelhos no-lo ensinam com as célebres palavras de Cristo: “Considerai os lírios, como crescem; não fiam, nem tecem. Contudo, digo-vos: nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles. Se Deus, portanto, veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã se lança ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé! Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber; e não andeis com vãs preocupações. Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas essas coisas. Mas vosso Pai bem sabe que precisais de tudo isso.” (Lc 12-27, 30).

A luta de Jesus Cristo Nosso Senhor se dá no campo puramente espiritual. Sua morte na cruz foi para nos franquear o reino dos céus e, através dos sacramentos da Santa Igreja, nos conceder forças no combate contra os principais inimigos da nossa salvação, que são o demônio, o mundo e a carne.

Portanto, ao contemplarmos a cruz erguida no Monte Calvário, devemos considerá-la como a chave que nos abriu as portas do Céu. Foi por isso que Cristo disse a Pilatos: “O meu reino não é deste mundo, se assim fosse os meus ministros fariam de tudo para eu não ser entregue aos judeus. Pois bem, meu reino não é daqui” (João 18, 36).

Indagou Pilatos: “Então tu és rei? — Sim, Eu sou rei, para isto nasci, para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. E todo aquele que é da verdade, ouve a minha voz”. Com efeito, Jesus Cristo está na cruz como um rei, por isso havia dito: “Quando for elevado atrairei a mim todas as criaturas. Como Moisés elevou a serpente no deserto, assim o filho do Homem será elevado” (João 18, 37).

É na cruz que Cristo, humilhado, chagado, agonizante, começou a reinar sobre esta Terra, comparável a um grande campo devastado. Foi aqui que Ele edificou a sua Igreja, através da qual perpetuaria os benefícios da sua Redenção.


O saudoso Dr. Plinio Corrêa de Oliveira assim descreveu Nosso Senhor na cruz: “Vossa nudez é um manto real. Vossa coroa de espinhos é um diadema sem preço. Vossas chagas são vossa púrpura. Ó Cristo Rei, como é verdadeiro considerar-vos na cruz como um rei. Mas como é certo que nenhum símbolo exprime a intensidade dessa realeza quanto a realidade histórica de vossa nudez, de vossa miséria, de vossa aparente derrota!”

Por sua vez, Santo Afonso afirma: “Não vejo outro trono a não ser esse lenho de opróbrios; não vejo outra púrpura a não ser vossa carne ensanguentada e dilacerada; não vejo outra coroa além desse feixe de espinhos que tanto vos atormenta. Ah, sim, tudo vos proclama rei não de honra, mas de amor; essa cruz, esse sangue, esses cravos e essa coroa são incontestavelmente insígnias de amor.”

E prossegue: “Assim Jesus na sua cruz não procura tanto a nossa compaixão quanto o nosso afeto. E, se pede compaixão, pede-a unicamente para que ela nos induza a amá-Lo. Ele merece já por sua bondade todo o nosso amor, mas agora procura ser amado ao menos por compaixão.”

Esta última consideração, de caráter metafísico, deve nortear o homem em todos os momentos de sua existência, na qual se digladiam o bem e o mal, a verdade e o erro.

A alma fiel, ainda que em torno dela grassem apenas tragédia e desolação, destaca-se pelo bom ânimo, inspirado na fé e na promessa do glorioso e incontestável triunfo final da Santa Igreja. Esta é uma promessa, uma garantia d’Aquele mesmo que A instituiu e declarou que as portas do inferno não prevalecerão contra Ela. É a inabalável certeza, da qual deve se impregnar a alma católica em todos os dias de sua vida, não importando se aziagos ou felizes.

Estas reflexões têm maior efeito nesta altura do ano litúrgico, quando a Igreja de Cristo se reveste das solenidades da Paixão para recordar o episódio doloroso em que nosso Divino Salvador verteu até a última gota de seu Preciosíssimo Sangue a fim de romper os grilhões da escravidão do demônio, remir os nossos pecados e nos abrir o caminho da salvação.

Meu Jesus, contemplando-Vos, pendente na cruz, com os braços estendidos, com os vossos olhos abarcando a Terra inteira, não podemos ver outra coisa senão um verdadeiro Rei que estende o seu reino sobre este mundo. Desse trono divinal, ensanguentado, coberto de dores e de opróbrios, abri a porta do Céu, redimi o gênero humano e conquistai os corações que Vos contemplam na cruz, manifestando o vosso infinito amor.

Arrancai das trevas densas os corações! Desbaratai a impiedade, a dureza dos corações! Purificai as mentes e a vida transviada de tantas almas! Reinai com o vosso Preciosíssimo Sangue e a vossa Cruz! Se os carrascos repartiram as vossas vestes, lançando sorte sobre a vossa túnica, ó meu Jesus, reparti em nossas almas a vossa divina graça e despojai dos nossos corações todo afeto mundano e pecaminoso.

Reinai no mundo e em nossos corações, ó preciosas chagas de Jesus crucificado, nosso consolo e nossa vida!

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/que-utilidade-ha-no-meu-sangue-2/

 

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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

MISSÃO DE ENSINAR, GUIAR E SANTIFICAR – Pe. David Francisquini


“Jesus Cristo entrega as chaves dos Céus a Pedro”, Perugino (1450-1523).

Padre David Francisquini*

 

Nada mais consentâneo com a condição sacerdotal do que fazer uso da autoridade divina das verdades reveladas para cumprir a missão de ensinar, guiar e santificar as almas neste vale de lágrimas.

Com efeito, a crise espiritual que assola o homem pós-moderno — qualificativo utilizado para causar expectativa de “bons fluidos” — é a fonte de tantos males. O ensinamento dos santos ao longo dos séculos consistiu em advertir e instruir os fiéis a propósito da falta de vida interior e de ocupação com tudo aquilo que norteia as almas, a fim de conduzi-las ao seu fim último, que é Deus.

A disposição dos evangelhos, abrindo e fechando o ano litúrgico, nos mostra a importância desses ensinamentos: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação” (Mt 26, 41), para o qual as pessoas devem se ater sempre, já que a insistência do inimigo infernal é contínua e implacável contra uma pessoa e mesmo povos inteiros.

Não é bem isto que vem acontecendo hoje, em todos os ambientes frequentados por nós? Não é verdade que com suas artimanhas envolventes os asseclas infernais dispersos pela Terra procuram levar-nos para o abismo, ora por meio de ideologias, ora por manobras políticas ou falsas religiosidades? Fica, portanto, a advertência: “Vigiai e orai”!

Eis as maravilhosas afirmações da Escritura, sustentáculo da nossa fé, a nos asseverar com as palavras de São Paulo: “Toda Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, repreender, corrigir, formar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, apto para toda boa obra” (II Tim. 3, 16-17).

Ademais, é-nos imensamente vantajoso deixar-nos conduzir por Aquele que é o caminho, a verdade e a vida: “[…] andai enquanto tendes luz, para que não vos surpreendam as trevas; quem caminha nas trevas não sabe aonde vai. Enquanto tendes luz, crede na luz para que sejais filhos da luz” (Jo 12. 35-36).

Reflita, caro leitor(a), quão benfazejas são essas palavras nesses dias de tanta perplexidade diante das crises que nos assolam, a fim de estabelecermos as balizas do pensamento e o critério de nosso peregrinar pela terra. Podemos ver, tanto no evangelho de São Mateus, quanto no de São Lucas, a narração do último domingo do ano litúrgico, dos acontecimentos que se abateram sobre Jerusalém, como prefigura de todas as épocas de crise.

Pode-se constatar que, de crise em crise, a Igreja instituída por Cristo Nosso Senhor chegou aos tempos atuais. Foram muitas e clamorosas tentativas de subverter sua ordem e ensinamentos no decorrer das centúrias, mas a Santa Igreja preservou e ensinou seus filhos, ministrando-lhes os sacramentos e mostrando-lhes os caminhos da salvação eterna. 

No Ofício Divino, São Jerônimo comenta as palavras do evangelho, dizendo: “Quando virdes a abominação da desolação no lugar santo predita pelo profeta Daniel, quem ler entenda. ”Estas palavras se referem ao transtorno da fé que abalou os fundamentos do povo judeu, abolindo o sacrifício e a oblação, deixando o templo desolado por ter perdido a sua função.

Compreende-se, portanto, por que Pilatos colocou no Templo as estátuas de César e de Adriano. Segundo a Escritura, a abominação é chamada de ídolo, e a desolação é por ele ter sido posto no templo desolado e deserto.

Alguém ousaria contestar a semelhança com fatos do nosso cotidiano? Não é bem verdade que assistimos hoje à introdução de ídolos e a realização de cultos idolátricos no interior das nossas igrejas? 

A história recente nos traz à memória, por exemplo, o encontro interreligioso em Assis (1986), acontecimento-símbolo da mentalidade nova que revolucionou o conceito infalível da existência de uma só religião revelada, fora da qual não há salvação. É dogma de fé!

Tem-se, então, um pecado contra a fé, com uma agravante: a introdução de ídolos pagãos, algo abominável diante de Deus, escândalo para incontáveis almas, transtorno da ordem natural e divina que proclama o culto do verdadeiro Deus. Tais acontecimentos, que significam um largo passo rumo à panreligião, constituem uma ameaça cada vez maior para inúmeros fiéis.

Essas considerações devem nos fazer temer as consequências da vida desregrada de nossos dias, que abrange todos os campos da ação humana. Em todos eles os critérios divinos são sistematicamente rejeitados.

Meditemos, por exemplo, nesta advertência de Nosso Senhor, referindo-se aos tempos do anticristo ou prefiguras dele que agem contra Deus, promovendo a desolação em toda a terra: “Quando virdes estabelecida no lugar santo a abominação da desolação” (Mt. 24, 15).

Ao ler comentários feitos pelos Padres da Igreja, podemos adiantar-nos em outras considerações que se aplicam bem aos dias atuais, como a introdução da Pachamama no templo de Deus. São Luís Grignion de Montfort já predissera profeticamente: “Vossa divina fé é transgredida, vosso evangelho desprezado; abandonada vossa religião; torrentes de iniquidade inundam toda a terra, e arrastam até os vossos servos; a terra toda está desolada; a impiedade está sobre um trono; vosso santuário é profanado, e a abominação entrou até no lugar santo.

Aqueles que buscam viver segundo a sã Doutrina de Nosso Senhor não devem descer às coisas mais baixas pelo desejo mundano. “O que está no campo, não volte atrás para tomar o seu manto”, isto é, não volte às preocupações antigas, tornando a conviver no meio dos pecados passados, que manchavam seu corpo e perdiam sua alma.

Daí a importância da verdadeira fé, da boa orientação católica e da aquisição do senso do discernimento a fim de conhecer o momento de fugir da abominação e se proteger dos perigos de condenação eterna — “Então os habitantes da Judéia fujam para os montes” (Mt 24, 16).

Cumpre salientar que ouvimos com frequência interpretações protestantes de textos bíblicos atribuindo aos fatos trágicos, mas naturais, ou ainda da inter-relação humana, como sinais da segunda vinda do Messias, muito embora se trate de algo que sempre aconteceu na história do mundo. Estas são interpretações subjetivas.

Na realidade, quando Cristo diz que haverá sinais no sol, na lua, nas estrelas e que as virtudes dos céus serão abaladas, a interpretação mais lógica e prudente está em aplicar essas predições à própria Igreja, com o efeito benéfico de não nos expormos ao debique dos inimigos a propósito de considerações sobre calamidades tantas vezes ocorridas no mundo.

Afinal, a Igreja se assemelha ao sol, à lua e às estrelas. Seu brilho poderá fenecer um tanto, em decorrência da violência inaudita de seus perseguidores e do apodrecimento moral no campo religioso e civil, mas as portas do inferno não prevalecerão contra Ela.

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

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sexta-feira, 18 de junho de 2021

INÚTIL SERÁ LEVANTAR DE MADRUGADA – Pe. David Francisquini



Padre David Francisquini *

A virtude da fé é a regra da vida, e a conduta virtuosa o espelho da alma de quem crê em Jesus Cristo e se conforma com os seus ensinamentos. Com efeito, aqueles que amam e temem a Deus constituem exemplo para todos, de modo especial para os inocentes, luz reflexa de integridade moral.

A vida delas apresenta-se fácil aos olhos dos adultos, pois possuem uma espécie de bússola que as guia diante de exemplos que as encantam. Nosso Senhor serviu-se delas como exemplo para alcançarmos o reino dos céus, tornando-nos como crianças.

Enquanto os incrédulos e orgulhosos do mundo as ofendem, os pequeninos em Cristo edificam-nas e honram-nas, por isso mesmo Nosso Senhor disse aos que as escandalizam que melhor lhes fora pendurar a mó de um moinho ao pescoço e se atirarem nas profundezas do mar.

O Filho de Deus usa a linguagem corrente da época para nos ensinar esta verdade, pois a prática de amarrar a mó ao pescoço era própria para castigar os grandes criminosos, sobretudo pelos pecados de escândalo.

As crianças devem ser alvo de carinho, afeto e predileção, uma vez que seus anjos contemplam a face de Deus Pai que está nos céus.

Seria grosseiro não se comover por isso, pois o próprio Jesus disse: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o reino de Céu”.

É para os que não se deixam comover que Nosso Senhor adverte severamente com a figura da mó ao pescoço, anatematizando os escandalosos que desviam as crianças do bom caminho, da luz da verdade e da ciência, do brilho da fé e do esplendor da virtude.

Quem mais escandaliza em nossos dias? Impossível responder sem entrar no campo político-social. Ao propor o ensino da ideologia de gênero, por exemplo, a esquerda procede em relação às crianças de modo escandaloso, ensinando o amor livre, a pedofilia, e tudo o que decorre disso.

Fazer o mal moral à criança é operar contra o próprio Jesus Cristo: “Quem recebe uma criança, a Mim recebe”. Na verdade, a esquerda anela por uma sociedade sem Deus, sem virtude, sem regras nem disciplina. Uma sociedade assim moldada resvalará infalivelmente para o caos e a anarquia.

Se o futuro de uma nação tiver suas raízes na família, no seio da qual as crianças sejam bem educadas, podemos esperar o que há de melhor para a sociedade. Caso contrário, ela resvalará para a própria destruição.

Com os meios de comunicação atuais, torna-se impossível não ver isso acontecendo na Venezuela, na Argentina, bem como em todos os países dominados pelos regimes da esquerda, onde, ao lado da pobreza moral e espiritual, haverá sempre carência e miséria material.

Ao falar do homem sábio e prudente que edifica a sua casa, Nosso Senhor ensina: “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e não as pratica, será semelhante ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa e ela caiu e foi grande a sua ruína” (Mt 7, 26-27).

A ruína de que fala Nosso Senhor não se restringe à matéria, mas toca nos aspectos transcendentes, pois uma sociedade que nega Jesus Cristo e seus ensinamentos tem como meta a ruína moral, espiritual, econômica e social.

Em próximo artigo pretendo dar continuidade a este tema, tão importante para guardarmos a fé e fazermos da virtude a regra de nossas vidas. Caso contrário, ser-nos-á inútil levantar de madrugada…

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* Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/inutil-sera-levantar-de-madrugada/

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sexta-feira, 21 de maio de 2021

AS BEM-AVENTURANÇAS E A GLÓRIA CELESTE – Plinio Maria Solimeo



“As bem-aventuranças” (1436-1443), Fra Angelico, afresco do convento de San Marco, em Florença.

Plinio Maria Solimeo

Diz São Mateus em seu Evangelho que Nosso Senhor Jesus Cristo “percorria toda a Galileia […] grandes multidões seguiam-no da Galileia e da Decápole, e de Jerusalém e da Judeia”. O Divino Salvador, “vendo a multidão, subiu ao monte, e quando se sentou, aproximaram-se dele os discípulos. E, abrindo a boca, Ele os ensinava dizendo, bem-aventurados…” (4, 23-25; 5, 1 e ss.), iniciando assim o que ficou conhecido como o famoso Sermão da Montanha.

São Lucas põe esse episódio logo depois de Nosso Senhor ter escolhido seus 12 discípulos e, descendo do monte em que estavam, curou muitos doentes e expulsou vários demônios. Em seguida, “levantando os olhos sobre os discípulos, Ele dizia: bem-aventurados…”.

Esse evangelista cita apenas quatro das oito bem-aventuranças mencionadas por São Mateus. Sobre isso comenta a revista Permanência: “[São] Lucas narra que o sermão do Senhor foi feito às turbas. Por isso enumera as bem-aventuranças conforme a capacidade delas, que só conheciam a felicidade voluptuosa, temporal e terrena”. As quatro citadas por ele são: “Bem-aventurados os pobres, porque vosso é o reino de Deus; Bem-aventurados os que agora padeceis fome, porque sereis fartos; Bem-aventurados os que agora chorais, porque rireis; Bem-aventurados sereis quando vos odiarem os homens, vos excomungarem, e vos maldisserem e proscreverem vosso nome como mau, por amor do Filho do Homem. Alegrai-vos naquele dia e regozijai-vos, pois grande será a vossa recompensa no Céu”.

Entretanto, vamos comentar as oito bem-aventuranças citadas por São Mateus, porque elas englobam também as acima.

Sobre as bem-aventuranças ou a felicidade que elas supõem, afirma o erudito diácono e teólogo Douglas Mcmanaman, do Catholic Education Resource Center:

“O filósofo grego Aristóteles apontou que a felicidade genuína (eudaemonia) é completa e suficiente em si mesma. Isto é, não é precária e depende de fatores externos como o clima ou o mercado de ações. Assim, a verdadeira felicidade perdura. Mas a felicidade não era possível para todos, segundo Aristóteles, e aquela sobre a qual ele fala é a felicidade natural, o resultado da estabilidade emocional proporcionada pelas virtudes e a alegria da contemplação natural das coisas mais elevadas. Mas Jesus é Deus em carne, e Deus se fez homem para que o homem pudesse ‘se tornar’ Deus, por assim dizer, isto é, para que ele pudesse ser elevado pela graça divina, que é uma participação na vida sobrenatural de Deus; é entrando na Pessoa de Cristo que entramos em sua alegria”.

O saudoso arcebispo de São Paulo D. Duarte Leopoldo e Silva, comentando em sua célebre Concordância dos Santos Evangelhos essa passagem de São Mateus, diz:

“O Sermão da Montanha é chamado o epítome, ou resumo do Cristianismo, o símbolo do Evangelho, o texto da Nova Lei. Ele é para a Igreja o que são as tábuas do Sinai para a Sinagoga. É a lei do amor sucedendo à lei do temor. O Deus feito homem a promulga sobre uma montanha verdejante, cercado de seus discípulos e de grande multidão de povo. A palavra de Deus escapa-lhe dos lábios fluente e acessível ainda aos mais ignorantes. Ela diz toda a verdade que os homens devem saber, ensina tudo o que é preciso fazer para a salvação, anima, fortifica, dirige e eleva. Ocupa-se dos pequeninos e dos pobres, tem consolações e esperanças ainda para os mais abandonados. É profunda, e ao mesmo tempo simples e suave. É o mais belo e mais tocante ensinamento que ainda ouviram os homens. Enfim, para assinalar um lugar no reino do Céu com a autoridade com que o faz Jesus neste belíssimo discurso, é preciso ter descido do Céu, é preciso ser Deus”.

As oito bem-aventuranças que constam nesse apóstolo e evangelista no início do Sermão da Montanha, segundo o Catecismo da Igreja Católica, “nos ensinam o fim último, ao qual Deus nos chama: O Reino de Deus, a visão de Deus, a participação na natureza divina, a vida eterna, a filiação divina e o repouso em Deus”. E o Catecismo chamado de São Pio X acrescenta: “Jesus Cristo propôs-nos as Bem-aventuranças para nos fazer detestar as máximas do mundo, e para nos convidar a amar e praticar as máximas do seu Evangelho”.

Passamos a apresentar essas bem-aventuranças, segundo os comentários de vários teólogos e estudiosos do assunto.

 

Primeira bem-aventurança: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. (Versículo 3)

Em sua edição da Bíblia, o Pe. Matos Soares comenta que a expressão “pobres de espírito” traduzir-se-ia melhor como “pobres pelo espírito”, pois para ele “são os pobres voluntários e os que têm o coração desapegado das riquezas, E, segundo o sentido da Sagrada Escritura no Antigo Testamento, os humildes, os que confiam unicamente em Deus”.

Ao que D. Duarte Leopoldo acrescenta: “Pobres de espírito não são os tolos, os idiotas, os ignorantes etc., como erradamente entendem alguns. São os humildes, os que não têm apego aos bens da Terra, os que voluntariamente renunciaram a ele para mais de perto seguirem a Jesus Cristo. Assim, pois, um pobre mal satisfeito com a sua sorte, dominado pela ambição e pelo orgulho, é um rico de espírito; não é para ele o reino do Céu. Do mesmo modo, no seio da abundância e na prosperidade, pode um rico ser pobre de espírito pelo nenhum apego aos bens da fortuna, pelo espírito de caridade e submissão à vontade de Deus. O santo homem Jó é um dos mais belos exemplos desta verdade”. Porém, “não basta produzir frutos; é preciso produzi-los na paciência. A paciência é a vida de provação, não é o sentimento de uma hora, mas a perseverança na força, nascida de um princípio permanente e sobrenatural: é um ato repetido até o fim da vida, é a virtude em estado de hábito”.

O Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã, conhecido como Catecismo de São Pio X, diz a respeito da primeira bem-aventurança: “Os pobres de espírito, segundo o Evangelho, são aqueles que têm o coração desapegado das riquezas; fazem bom uso delas, se as possuem; não as procuram com solicitude, se não as têm; e sofrem com resignação a perda delas, se lhes são tiradas”.

Pelo que afirma o teólogo e diácono Mcmanaman: “Essa é a primeira e mais fundamental condição para pertencer a Cristo e, portanto, a primeira condição para entrar na alegria do Reino de Deus. Aqueles que são pobres em termos de riqueza material estão profundamente cientes de sua carência. Da mesma forma, aqueles que são pobres de espírito estão cientes de sua carência espiritual, isto é, estão cientes de sua necessidade absoluta de Deus; assim, eles se abrem para Ele. O resultado desse simples ato de abertura é o presente do reino dos céus”.

Por sua vez, a respeito dessa primeira bem-aventurança, diz o célebre jesuíta Cornélio a Lápide: “A fim de que o espírito, ocupado tão somente com os bens temporais, não ponha menos cuidado em possuir os bens eternos, o cristão deve ter tanta confiança na divina Providência, diz São Gregório, que, ainda quando não se possa procurar o necessário para a vida, deve estar bem convencido de que o necessário nunca lhe haverá de faltar”.

 

Segunda bem-aventurança: Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a Terra. (Versículo 4)

O diácono Mcmanaman comenta a respeito desta segunda bem-aventurança: “Um espírito manso é um espírito gentil. Os pobres de espírito que choram a miséria dos outros porque realmente conhecem essa miséria e são movidos a compartilhá-la, são gentis para com os que sofrem. Os mansos não se ofendem rapidamente com os outros; são muito pacientes com eles porque sabem que Deus sempre foi paciente com eles. Os mansos são controlados, controlam suas emoções, em particular a paixão da ira. Mansidão, entretanto, não significa a supressão da ira. Lembre-se de que Jesus ficou zangado com os cambistas no templo e os expulsou. A ira que é governada pela razão e é uma resposta à verdadeira injustiça, não é pecaminosa, mas virtuosa; a decisão deliberada de manter a ira viva em um espírito de falta de perdão, entretanto, é pecaminosa”.

Pelo que o grande pregador francês do século XVII, Bossuet — citado pelo Pe. Royo Marin, O.P. em sua Teologia da Perfeição Cristã —,completa: “Podemos dizer, se observamos o que se passa dentro de nós, que nossas paixões são todas redutíveis de amor, que engloba e suscita todas as outras. O ódio por algum objeto não surge a não ser por causa do amor que temos por alguma outra coisa. Eu odeio a doença porque amo a saúde. […] Aversão e tristeza são um amor que afasta alguém de um mal que o privaria de seu bem. […] A ira é um amor que se irrita ao ver que alguém o quer privar de seu bem, e se levanta para defendê-lo. Em uma palavra, reprimi o amor, e não haverá paixões; suscite o amor, e todas as outras paixões nascerão”.

Acrescenta o Pe. Royo Marin na obra citada: “Quando nos deixamos levar por um impulso desordenado, sentimos imediatamente a dor do remorso. Se, pelo contrário, resistimos a esse impulso, experimentamos uma sensação de satisfação do dever cumprido. Isso é uma prova convincente do fato de que somos agentes livres com relação ao impulso das paixões, e que seu controle e governo está em nossas mãos. […] Não há dúvida de que há graves dificuldades e obstáculos no começo, mas gradualmente a pessoa pode obter perfeito controle de si mesmo. […] Primeiro, é necessário estar firmemente convencido da necessidade de combater as paixões desordenadas por causa da grande perturbação que causa em nós. As paixões perturbam nosso espírito, impedem a reflexão, tornam impossível formular um juízo sereno e balanceado, enfraquecem a vontade, exaltam a imaginação, provocam uma mudança nos órgãos corporais, e ameaçam destruir a paz de espírito e a tranquilidade de consciência. […] Do ponto de vista psicológico, não há dúvida de que o melhor remédio contra as paixões desordenadas é a firme e decidida vontade de vencê-las. Mas uma vontade puramente teórica ou desejo platônico não é suficiente; tem que haver uma decisão enérgica e determinada, que se traduz em ação pelo uso dos meios necessários de obter a vitória, e especialmente se é o caso de combater uma paixão que está profundamente enraizada por um longo período de mau uso”.

Nesse sentido, adverte Cornélio a Lapide: “Cuidai de que não desapareça jamais a mansidão de vosso coração, diz Santo Agostinho: De corde lenitas non recedat (Medit.).Não vos vingueis por vossa própria conta, mas dai lugar a que passe a cólera, diz São Paulo” (Rm 12, 19). Deixai passar a ira, isto é, guardai silêncio, cedei àquele que se enfurece, sede dóceis, sofrei com paciência a injúria, não digais nada até que a calma tenha modificado vosso coração para que caiba nele a doçura e a caridade. Jesus Cristo, diz Santo Agostinho, pronunciou estas palavras: ‘Aprendei de Mim’, não a fazer um mundo, não a criar as coisas visíveis e invisíveis, não a criar outras maravilhas aqui na Terra, nem a ressuscitar os mortos; mas, sim, aprendei de Mim como ser manso e humilde de coração. A mansidão e a humildade são irmãs, como a ira é irmã do orgulho. O homem não pode ser manso se não é humilde e se o sopro das paixões não se acalma em seu coração. O mar está tranquilo somente quando os ventos cessam”.

Porque, como diz D. Duarte Leopoldo: “Os mansos — isto é, os que não murmuram nem se irritam, os que evitam a discórdia, os que sabem perdoar com generosidade as ofensas alheias, aqueles, enfim, que suportam o peso da vida conformados com a vontade de Deus — possuirão a Terra, isto é, a Terra dos vivos, o Céu. Todavia, mesmo neste mundo, a paciência é uma arma poderosa para vencer ainda as maiores resistências”.

 

Terceira bem-aventurança: Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados. (Versículo 5)

O Catecismo de São Pio X diz desta bem-aventurança: “Os que choram e todavia são chamados bem-aventurados, são aqueles que sofrem com resignação as tribulações, e que se afligem pelos pecados cometidos, pelos males e pelos escândalos que se veem no mundo, pela ausência do céu, e pelo perigo de perder a fé”.

A esse respeito, comenta o diácono Douglas: “Parece um tanto paradoxal que o enlutado possa ser chamado de ‘feliz’ [bem-aventurado], mas essa bem-aventurança se refere a um tipo especial de luto. Se amamos a Deus, amaremos todos os que pertencem a Deus, e todo ser humano, sem exceção, vem de Deus e é amado por Deus com um amor incompreensível. E assim, quanto mais entramos no coração de Deus, mais descobrimos nosso próximo ali, e então somos movidos a voltar à Terra, por assim dizer, e vamos procurá-lo, porque sabemos que lá iremos encontrar o Deus que começamos a amar: descobrimos nosso próximo em Deus e redescobrimos Deus em nosso próximo. Porque os amamos como ‘um outro eu’, o sofrimento deles também se torna nosso. Choramos por eles, pois é tão difícil permanecer indiferente ao sofrimento dos outros depois que descobrimos e entramos no coração de Deus. São os pecados do homem, a fria indiferença dos outros para com Deus e o próximo que nos enchem de tristeza. Esta, porém, é uma tristeza abençoada, uma tristeza que não é incompatível com a alegria, mas existe com ela, pois é a alegria de ter sido convidado para a tristeza de Cristo, que é uma tristeza cheia de alegria”.

Ao que acrescenta Cornélio a Lapide: “A compaixão e uma terna amizade são um bem que está em contrapeso ao mal causado pela dor. Aquele que se compadece proporciona ao coração lastimado um alívio proporcionado a seus sofrimentos: toma a metade das aflições que pesam sobre o desgraçado; e este, fortificado, sofre com mais facilidade e resignação aquelas provas a que está sujeito. Uma carga dividida faz-se menos pesada. […] Quem está enfermo que eu não esteja enfermo com ele? — pergunta aquele grande Apóstolo aos Coríntios: ‘Quis infirmatur, et ego non infirmor?’ (2 Cor 2, 29). Se um membro padece, todos os membros se compadecem: ‘Si quid patitur unum membrum, compatiuntur omnia membra’(1 Cor 12, 26).Sede todos, diz São Pedro, de um mesmo coração, compassivos, amorosos para com todos os irmãos, misericordiosos, modestos, humildes, não pagando mal com mal, nem maldição com maldição, antes, pelo contrário, bens ou bênçãos, porque a isto sois chamados, a fim de que possuais a herança da bênção celestial (cf. 1 Pd 3, 8-9)”.

D. Duarte Leopoldo observa: “Bem-aventurados os que choram os seus pecados e os dos seus irmãos. Santas lágrimas que tanta consolação merece no Céu. Também as lágrimas que, todos os dias e com tanta abundância, caem dos olhos dos pobres, dos aflitos, dos doentes e abandonados têm bem-aventurança. ‘Lázaro só teve males na vida’, diz Abraão ao mau rico, ‘agora ele é consolado’”.

Falando sobre a razão pela qual devemos chorar e sofrer por nossos pecados, diz o Pe. Royo Marin: “Cada pecado, mesmo que pareça insignificante, é uma desordem, e por isso mesmo é uma deformidade e feiúra da alma, uma vez que a beleza da alma consiste no esplendor da ordem. Consequentemente, qualquer coisa que por sua natureza tenda a destruir o pecado ou apagar sua marca na alma deve, por isso mesmo, embelezá-la. Por essa razão o sofrimento purifica e embeleza a alma. […] É impossível medir o poder redentor do sofrimento oferecido à justiça divina com uma fé viva e um ardente amor através das Chagas de Cristo”.

 

Quarta bem-aventurança: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão saciados. (Versículo 6)

Comenta o Pe. Royo Marin: “A palavra justiça é frequentemente usada na Escritura como sinônimo de santidade; mas como uma virtude especial é um hábito sobrenatural que inclina a vontade constantemente e perpetuamente a render a cada qual o que lhe é estritamente devido. […] Sua importância tanto na vida social quanto pessoal é evidente. Ela põe as coisas em sua reta ordem, e desse modo prepara o caminho para a verdadeira paz, que Santo Agostinho define como a tranquilidade da ordem, e a Escritura como obra da justiça”.

D. Duarte explica que “fome e sede de justiça é a necessidade que sente toda alma boa e reta, todo coração bem formado, de fazer a vontade de Deus, essa vontade de que Jesus fazia o seu alimento. O meu alimento é fazer a vontade daquele que Me enviou. Bem-aventurados os que devoram com prazer o pão que Jesus lhes apresenta, e bebem com delícia a água que Ele ofereceu à Samaritana”.

O diácono Mcmanaman observa: “Os indiferentes não sofrem pelas feridas dos outros. […] Muitos, na verdade, se deleitam secretamente com os infortúnios dos outros, razão pela qual as más notícias se espalham rapidamente. Muitos simplesmente não se irritam com as injustiças ao seu redor e, embora eles sejam muito apaixonados por seus objetivos, essas ambições geralmente têm pouco a ver com tornar este mundo mais justo, e mais a ver com sua própria realização individual. Aqueles que entraram em Cristo sofrerão muita fome e sede, porque há muita injustiça ao nosso redor. Quanto mais intenso for o seu amor, mais intensa será a sua fome e sede; bem-aventurado se você vive com este tipo de fome e sede, porque isso significa que você entrou na fome e sede de Cristo”.

 

Quinta bem-aventurança: Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia. (Versículo 7)

Comenta o saudoso Arcebispo de São Paulo, “Os misericordiosos, isto é, os que perdoam, os que se compadecem das misérias do próximo, os que choram com os que choram, os que curam as feridas do corpo e da alma daqueles que sofrem; enfim, os justos, bons e dedicados, no último dia Nosso Senhor será também misericordioso para com eles”.

“Um dos modos de se ser misericordioso é praticando a tão esquecida virtude da afabilidade”, como diz o Pe. Royo Marin: “Há numerosos atos ou manifestações da virtude da afabilidade, e todos eles derivam da amizade por nossos próximos. Benignidade, polidez, simples louvor, indulgência, sincera gratidão, hospitalidade, paciência, mansidão, refinamento de palavras e atos etc. Essa preciosa virtude é de extrema importância, não somente na associação com amigos, vizinhos e estranhos, mas de um modo especial dentro do círculo da própria família, onde é muitas vezes negligenciada”.

A isso acrescenta o diácono teólogo: “Cristo revelou Deus como misericórdia absoluta. Ele veio para morrer por nós e cancelar a dívida do pecado, que não pudemos pagar. A palavra latina para misericórdia é ‘misericordia’ (miser, cor, dia). A palavra significa o coração (cor) de Deus, tocando nossa miséria (de avarento). Deus entra em nossa miséria tornando-se homem na Pessoa de Cristo. Ele o faz para injetar o conforto de sua presença nas profundezas de nossas trevas para que, quando a vida se torna escura para nós, não tenhamos que sofrer sozinhos. Quando somos tocados por sua misericórdia, também nos tornamos misericordiosos; segui-lo é nos tornarmos canal da sua misericórdia”.

Comentando a virtude da concórdia, afirma Cornélio a Lapide: “Em três coisas compraz-se o meu coração, diz o Eclesiástico, as quais são da aprovação de Deus e dos homens: a concórdia entre os irmãos e parentes, o amor dos próximos, e um marido e mulher bem unidos entre si (Pr 25, 1-2). A concórdia entre irmãos é a paz, diz São Agostinho; a concórdia entre irmãos é a vontade de Deus, a alegria de Jesus Cristo, a perfeição da santidade, a regra de justiça, o fundo da doutrina, a zeladora dos costumes, e em todas as coisas um a disciplina digna de louvor: ‘Pax concordia fratrum, concordia fratrum voluntas Dei est, juncunditas Christi, perfectio sanctitatis, justitiae regula, matéria doctrinae, morum custodia, atque in rebus omnibus laudabilis disciplina (Sentent.)’. Ali onde há a concórdia, ali está Jesus Cristo, ali está Deus, ali está toda a Santa Trindade, formando, de certo modo, naqueles que vivem bem unidos, uma trindade na unidade, isto é, a união dos espíritos, dos corações e das ações”.

 

Sexta bem-aventurança: Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus. (Versículo 8)

Eis o comentário que faz John P. Van Kasteren em The Catholic Encyclopedia sobre essa bem-aventurança: “De acordo com a terminologia bíblica, ‘pureza de coração’ (versículo 8) não pode ser encontrada exclusivamente na castidade interior, nem mesmo, como muitos estudiosos propõem, em uma pureza de consciência geral, em oposição à pureza levítica ou legal, exigida pelos Escribas e fariseus. Pelo menos o lugar apropriado para tal bênção não parece ser entre a misericórdia (versículo 7) e a pacificação (versículo 9), nem depois da virtude aparentemente mais abrangente da fome e sede de justiça. Mas frequentemente no Antigo e no Novo Testamento (Gn 20: 5; Jó 33: 3, Sl 23: 4 (24: 4) e 72: 1 (73: 1); 1 Tm 1: 5; 2 Tm 2:22) o ‘coração puro’ é a boa intenção simples e sincera, o ‘olho são’ de São Mateus (6:22). E, portanto, oposto às consequências não confessadas dos fariseus (Mt 6: 1-6, 16-18; 7: 15; 23: 5-7, 14) Este ‘olho são’ ou ‘coração puro’ é mais do que necessário nas obras de misericórdia (versículo 7) e zelo (versículo 9) em favor do próximo. E é lógico que a bênção, prometida a esta contínua busca pela glória de Deus, deve consistir na ‘visão’ sobrenatural do próprio Deus, o último objetivo e fim do reino celestial em sua conclusão”.

A esse respeito, comenta o citado diácono Douglas que “O que é puro não se mistura. Por exemplo, falamos de xarope de bordo puro que não é misturado com qualquer outra coisa. Ser puro de coração é ter um amor indiviso por Deus, um coração não misturado com qualquer outro amor competitivo. Algumas pessoas amam a criação mais do que o Criador; eles amam as coisas; eles adoram coisas, riquezas, os prazeres da Terra, a glorificação do eu etc. Eles podem amar a Deus, mas seu amor está misturado com um amor desordenado de si mesmo”.

Por sua vez, observa D. Duarte: “Os corações puros, desprendidos dos sentimentos carnais e sensuais que mancham o corpo e a alma; os corações abertos a tudo o que é nobre, santo, justo, amável e virtuoso, a tudo o que é louvável nos bons costumes, como diz São Paulo. Esses corações verão a Deus neste mundo, através das sombras da fé, e no Céu O contemplarão face a face. Pelo contrário, a impureza de coração é o maior obstáculo, e quase sempre o único, que encontram as verdades da Religião”.

 

Sétima bem-aventurança: Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. (Versículo 9)

Sobre esta bem-aventurança, diz o citado diácono: “A palavra latina para paz é ‘pax’, que significa unidade. Conforme profetizou Ezequiel, o Senhor reunirá seu povo de todas as nações; pois o amor une, o ódio divide. Um pacificador é aquele que se esforça para unir, para manter uma harmonia genuína entre as pessoas. Um pacificador não é um ‘pacifista’; antes, ele está disposto a ‘fazer’ a paz, a trabalhar por ela, até mesmo a lutar por ela. Um agressor injusto, que pode incluir uma nação inteira, tem a intenção de destruir a paz; portanto, um verdadeiro pacificador está até disposto a pegar em armas e lutar, talvez morrer pelo pax da nação, como fizeram nossos veteranos de guerra. Portanto, não há exigência de que alguém se torne um pacifista se for um cristão”.

Já John P. Van Kasteren afirma: “Os ‘pacíficos’ (versículo 9) são aqueles que não apenas vivem em paz com os outros, mas também fazem o possível para preservar a paz e a amizade entre a humanidade e entre Deus e o homem, e para restaurá-la quando for perturbada. É por causa desta obra piedosa, ‘uma imitação do amor de Deus pelo homem’, como São Gregório de Nissa o denomina, que eles serão chamados de filhos de Deus, ‘filhos de vosso Pai que está nos céus’ (Mt 5 : 45)”.

Por outro lado, diz D. Duarte: “Os pacíficos, os que odeiam as discussões, dissensões e demandas injustas; os que buscam, de preferência, tudo o que une e aproxima os corações; os que têm, por assim dizer, o culto dos direitos alheios. Filhos da paz, eles preferem ceder o seu direito, para não defendê-lo com quebra da caridade”.

 

Oitava bem-aventurança: Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. (Versículo 10)

Escreve a revista Permanência: “A oitava bem-aventurança é uma confirmação e manifestação de todas as precedentes. Pois, quem está firmado na pobreza do espírito e na mansidão e nas demais bem-aventuranças, não se afasta, por isso mesmo, desses bens por nenhuma perseguição. Por outro, a oitava bem-aventurança concerne, de certo modo, às sete precedentes”.

“Esta bem-aventurança final — diz o diácono MCManaman — implica claramente que existe uma diferença real entre alegria e prazer; pois não há prazer em ser perseguido, mas encontramos uma alegria secreta nos próprios recessos da alma, pois nos demos conta de que recebemos o dom de ser atraído para o próprio coração do silêncio dele. Cristo é alegria, e é sendo perseguido por causa dele que realmente O conhecemos. O silêncio de Cristo é mais alegre do que as maiores alegrias que a Terra tem para oferecer, e é isso que a perseguição por causa de Cristo faz por nós, nos tira do barulho do mundo e nos leva ao descanso profundo de seu outro silêncio mundano . Jesus pode dar bem-aventurança àqueles que sofrem por pertencerem a ele, porque ele não é um mero homem; ele é totalmente Deus e totalmente homem, e como Deus escolheu juntar-se à natureza humana para injetar no sofrimento humano a própria alegria de sua vida sobrenatural, que é tão diferente de qualquer outra alegria que de fato nos deixa em silêncio. Nós descansamos nele; pois encontramos tudo o que o coração humano procura, mas não pode encontrar fora dele”.

Ao que afirma Van Kasteren: “Assim, por uma inclusão não incomum na poesia bíblica, a última bênção remonta à primeira e à segunda. Os piedosos, cujos sentimentos e desejos, cujas obras e sofrimentos são apresentados diante de nós, serão abençoados e felizes por sua participação no reino messiânico, aqui e no além. E visto nos versos intermediários parecem expressar, em imagens parciais da única bem-aventurança sem fim, a mesma posse da salvação messiânica. As oito condições exigidas constituem a lei fundamental do reino, a própria essência e medula da perfeição cristã. Por sua profundidade e amplitude de pensamento, e sua influência prática na vida cristã, a passagem pode ser colocada no mesmo nível do Decálogo no Antigo, e do Pai Nosso no Novo Testamento, e superou ambos em sua beleza poética de estrutura”.

Concluímos com D. Duarte Leopoldo: “A justiça é a causa de Deus. Os perseguidos combatem por Ele, e Ele se encarrega de os recompensar como merecem, e ainda mais do que merecem”.

https://www.abim.inf.br/as-bem-aventurancas-e-a-gloria-celeste/

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terça-feira, 6 de abril de 2021

CENTURIÕES ROMANOS NO NOVO TESTAMENTO - Plinio Maria Solimeo

6 de abril de 2021


Centuriões representados na Coluna de Trajano em Roma

Plinio Maria Solimeo

Excetuando-se obviamente nosso Divino Salvador, sua Mãe Santíssima, os Apóstolos e as Santas Mulheres, dentre as figuras mais atraentes do Novo Testamento estão alguns centuriões romanos que aparecem nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos. Embora geralmente fossem pagãos, seguindo a Lei Natural que Deus colocou na alma de todos os homens, muitos deles praticavam a caridade e as boas obras, o que os predispunha a receber a verdadeira fé.

O exército do Império Romano dividia-se em várias unidades. Sua grossa maioria, como é compreensível, compunha-se dos simples soldados, ou “legionários”. Logo acima destes vinham os chamados “decanos”, que tinham sob seu comando 10 legionários (ou uma decúria). O “centurião”, por sua vez, era um oficial que comandava 10 decanos (100 homens, ou uma centúria). Acima dele estava o “tribuno”, que tinha a seu cargo quatro ou cinco centuriões, ou seja, de 400 a 500 homens, ou uma “coorte”. Vinha acima o “legado”, que comandava 10 tribunos, ou seja, cerca de cinco mil homens. Esses legados prestavam obediência ao primeiro escalão político, o dos cônsules, na época republicana, e o dos comandantes gerais na época Imperial. Estes, por sua vez, comandavam toda uma Legião.

O posto de centurião equivaleria hoje ao de um capitão de exército na hierarquia militar. Geralmente eram escolhidos entre os da tropa, tendo em vista sua coragem e confiabilidade, após 15 a 20 anos de serviço. Entretanto, alguns poderiam ser nomeados diretamente pelo Senado ou pelo Imperador.

Além de comandar seus homens, cabia ao centurião garantir a ordem local das províncias, e mesmo organizar o recolhimento dos impostos.

Os centuriões citados no Novo Testamento, em geral o são de forma positiva, por seu respeito aos judeus e imparcialidade de julgamento.

O primeiro de que nos ocupamos é um centurião de Cafarnaum, mencionado nos Evangelhos de São Mateus (8, 5-13) e de São Lucas (7, 2-10).

Embora seu nome não tenha passado para a História, por seus traços fornecidos pelos evangelistas vemos tratar-se de um oficial muito coerente, responsável, e de tal maneira aberto para com o povo dominado, que tinha vários amigos entre eles, e construiu mesmo sua sinagoga. Sobretudo era compassivo e acessível para com seus servos e subordinados, como veremos.

Quando um deles, a quem estimava especialmente, ficou muito doente com perigo de vida, esse centurião — que ouvira falar de Nosso Senhor Jesus Cristo e de seus milagres — mandou alguns de seus amigos judeus para procurá-Lo e pedir a cura do servo.

São Mateus e São Lucas narram esse episódio com pequenas diferenças, mas coincidindo no essencial, que foi quando o Divino Salvador, atendendo ao pedido do militar, prontificou-se a ir curar seu servo, que este lhe mandou dizer: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado. Pois eu também sou um subordinado e tenho soldados às minhas ordens. Eu digo a um: Vai, e ele vai; a outro: Vem, e ele vem; e a meu servo: Faze isto, e ele o faz… Ouvindo isto, cheio de admiração, disse Jesus aos presentes: Em verdade vos digo: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel”. Assim, esse centurião deu provas de uma crença do poder curativo do Messias, que dificilmente encontrava paralelo, mesmo entre os judeus daquele tempo.


O que levou Nosso Senhor a elogiar a atitude desse oficial romano, que apesar de provir do mundo pagão estava tão aberto a segui-Lo, como explica São Lucas: “Ouvindo isto, Jesus maravilhou-se dele e, virando-se para a multidão que O seguia, disse: ‘Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé’”.

Comenta esse episódio o ilustre arcebispo de São Paulo, D. Duarte Leopoldo e Silva, em sua atualíssima Concordância dos Santos Evangelhos:

“Admirável a humildade, a confiança deste soldado, cujas obras de caridade lhe mereceram a graça da fé. A Igreja reteve as suas palavras, e sempre que um fiel se apresenta para receber em seu coração a Jesus sacramentado, Ela o faz repetir o mesmo ato de humildade e confiança: ‘Senhor, não sou digno de entrardes em minha morada; mas dizei uma só palavra, e minha alma ficará sã’”.

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Outro centurião de que fala o Evangelho teve a desdita de ser o responsável pela execução de Cristo Jesus. Pagão, julgando ser o réu que ele tinha que sentenciar apenas mais um dos criminosos comuns confiados à sua guarda, preocupava-se somente em que tudo corresse segundo os procedimentos normais. Por isso supõe-se que, acostumado à crueza sanguinária de seu ofício, aparentemente não teria tido nenhuma emoção diante de tantos e cruéis tormentos infligidos àquele Sentenciado.

Entretanto, algo inesperado ocorreu. Quando Jesus expirava — segundo narram São Mateus (27, 54), São Lucas (23, 47) e São Marcos (15, 39) —, obteve que esse centurião tivesse uma brusca mudança de opinião: Pois “O centurião que estava em frente dele [Jesus], vendo de que maneira Ele expirava, disse: ‘Verdadeiramente este homem era Filho de Deus’”. E abriu assim seu coração para a graça divina. O mesmo diziam os aterrorizados soldados à vista dos portentos ocorridos.

D. Duarte Leopoldo comenta também esse episódio:

“Os prodígios que rodearam a morte de Jesus, atemorizaram os soldados, dispondo-os a reconhecer a intervenção de um poder superior. A paciência, a mansidão do moribundo, a majestade dos últimos momentos, falavam ao coração, e estes homens que, mais do que os judeus, ignoravam o que faziam crucificando o Autor da vida, proclamavam sua divindade. Assim, a primeira reparação do deicídio se faz no mesmo lugar do crime, e dos seus próprios algozes recebe Jesus a primeira homenagem dos homens ao vencedor do Inferno. Digna vingança de um Deus: dar a vida aos que lhe deram a morte”.

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Contudo, o mais emblemático de todos os centuriões citados no Novo Testamento é Cornélio, residente em Cesareia, capital da Judéia, que por suas orações e boas obras mereceu a graça de receber o batismo com todos os de sua casa.

É o evangelista São Lucas quem no-lo apresenta, com todo o charme de suas descrições, no capítulo 10 dos Atos dos Apóstolos.

Pertencente à “coorte Itálica”, Cornélio era um homem “piedoso e temente a Deus com toda sua casa, fazia muitas esmolas ao povo e orava a Deus continuamente”. É curiosa essa afirmação, pois certamente tanto ele quanto os seus eram ainda pagãos, tendo sido batizados por São Pedro só mais tarde. O que mostra que, com as luzes da Lei Natural, também se pode chegar ao conhecimento de Deus.

Narra São Lucas que, num determinado dia, o centurião teve uma visão de um Anjo, que lhe disse: “Cornélio […] tuas orações e esmolas foram lembradas diante de Deus”. Pois chegara assim, para ele, o tempo de conhecer a verdadeira fé. Por isso devia mandar alguns homens de sua confiança à casa de Simão, o curtidor, na cidade de Jope, onde estava outro Simão, chamado Pedro, que deveria instruí-lo na religião de Jesus Cristo.


“Êxtase de São Pedro”. Obra de Domenico Fetti (1619), 
atualmente no Museu de História da Arte em Viena.

Nesse ínterim, em Jope, o futuro chefe da Igreja rezava no alto de um terraço, quando sentiu fome. Enquanto lhe preparavam algo para comer, teve um êxtase [quadro ao lado]: “Ele viu o céu aberto, e de lá descia alguma coisa como um grande pano, sustentado pelas quatro pontas, baixando sobre a terra. Nele havia todo o gênero de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu. Uma voz lhe disse: Levanta-te, Pedro, mata e come”. O Príncipe dos Apóstolos, muito caracteristicamente, respondeu: “De maneira nenhuma, Senhor, pois jamais comi qualquer coisa que fosse manchada. Disse o Senhor: Não chames de impuro o que Deus purificou”. Isso ocorreu três vezes, depois do que o pano foi recolhido ao céu.

O Apóstolo ficou pensando no que isso queria dizer, quando lhe informaram que alguns homens o procuravam. Ele os atendeu, e estes lhe explicaram o motivo da visita. “Pedro convidou-os a entrar, e hospedou-os. No dia seguinte partiu com eles, acompanhado de alguns irmãos de Jope”.

Cornélio, entretanto, sabendo que a entrevista com Pedro deveria ter uma consequência transcendental, convidara para ela todos seus parentes e amigos íntimos. Quando o enviado de Deus chegou, o centurião prosternou-se a seus pés “e adorou-o”. O apóstolo o fez levantar-se, dizendo “Levanta-te, pois eu também sou homem”. Cornélio então lhe contou a visão que tivera, e lhe disse: “Agora, pois, todos nós estamos em presença de Deus, prontos a escutar o que te foi ordenado pelo Senhor”.

À vista de tudo isso, Pedro compreendeu então o sentido mais profundo da visão que tivera: “Agora reconheço deveras que não há em Deus acepção de pessoas, mas que em toda nação aquele que teme a Deus e pratica a justiça lhe é aceito”. E transmitiu a doutrina do Evangelho aos ávidos presentes.

Foi então que algo surpreendente ocorreu: enquanto ele falava, “desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a prática, e os fiéis da circuncisão que tinham vindo com Pedro, maravilhavam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse sobre os gentios, porque os ouviam falar em várias línguas e glorificar a Deus”.

O que levou o primeiro Papa a dizer: “Poderá, acaso, alguém negar a água do batismo a estes, que receberam o Espírito Santo como nós?”. E mandou batizá-los. Essas foram as primícias da universalidade da Igreja.

É preciso uma explicação para se compreender a importância transcendental da conversão desse centurião romano. No-la dá o Frei Mateus Hoepers, O.F.M., em sua obra Novo Testamento:

“A história da conversão de Cornélio tem uma importância especial no corpo dos Atos dos Apóstolos. O problema mais grave da Igreja primitiva eram a impureza dos incircuncisos para os judeus, e ainda todas as prescrições de pureza levítica que tornavam impossível a convivência com os pagãos. A instrução, que o supremo chefe da Igreja recebe do céu e do Espírito Santo, foi decisiva para a missão entre os gentios. No Concílio dos apóstolos, Pedro se refere ao episódio de Cornélio (15, 7 e ss) para a solução definitiva da questão. Só removidos estes obstáculos, Paulo podia dedicar-se à sua grande missão. Por isso São Lucas deu um destaque particular a essa história pelo agrupamento literário dos quatro cenários e quatro cenas”.

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         Os Atos falam de vários outros centuriões anônimos que participaram mais ou menos ativamente da prisão e encarceramento do Apóstolo São Paulo. Contudo, nada fizeram de mais notável, razão pela qual deve ser mencionado apenas de passagem o centurião Júlio, responsável pelo transporte de São Paulo a Roma. Embora ele tivesse ignorado os conselhos do Apóstolo, que teriam impedido o trágico naufrágio de sua nave; e depois, para salvá-lo, não permitiu que seus soldados matassem os prisioneiros que estavam a bordo, dando-lhes a oportunidade de nadar para a praia. Com isso o Apóstolo dos Gentios pôde chegar são e salvo a Roma.

https://www.abim.inf.br/centurioes-romanos-no-novo-testamento/

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terça-feira, 16 de março de 2021

A MAIS EXCELENTE DAS VIRTUDES – Plinio Maria Solimeo

 A mais Excelente das Virtudes – Parte I

13 de março de 2021


Plinio Maria Solimeo

 

Uma expressão muito em voga antigamente, quando se via alguém maltratar outra pessoa ou mesmo um animal, era: “Que falta de caridade!”.

Na maioria das vezes, ao fazer esse comentário, muito pouca gente pensava na virtude da Caridade (com maiúscula), isto é numa das três Virtudes Teologais, assim chamadas porque têm como origem, motivo e objeto imediato o próprio Deus. As outras duas são a Fé e a Esperança. Essas virtudes são os três elementos essenciais da vida cristã e, por isso, São Paulo exorta os Tessalonicenses: “Tomemos por couraça a fé e a caridade, e por capacete a esperança da salvação” (Ts 5, 8).

A mais excelente das virtudes          

A caridade é assim definida: “A virtude teologal pela qual nós amamos a Deus sobre todas as coisas e o nosso próximo como a nós mesmos por amor de Deus”.

Ela é o “um mandamento novo” que Jesus apresentou aos Apóstolos: “Eis meu mandamento: Amai-vos uns aos outros, como eu vos tenho amado” (Jo 15, 12). “Como o Pai me amou, eu assim vos tenho amado. Permanecei em meu amor” (Jo 15, 9).

Amando-se uns aos outros, Seus discípulos imitam o amor que recebem de Jesus.

Com o fogo que lhe é próprio, o Apóstolo dos Gentios fala aos Coríntios sobre a excelência da virtude da Caridade: “Se eu falar as línguas de homens e de anjos, mas não tiver caridade, sou como bronze que soa ou címbalo que retine. E se possuir o dom de profecia, e conhecer todos os mistérios e toda a ciência, e alcançar tanta fé que chegue a transportar montanhas, mas não tiver caridade, nada sou. E se repartir toda minha fortuna, e entregar meu corpo ao fogo, mas não tiver caridade, isso nada me aproveita […]. Agora permanecem estas três coisas: fé, esperança e caridade. Porém, a mais excelente delas é a caridade” (1Cr 13, 1-4, 13).

Ele descreve ainda, de modo admirável, as características da caridade: “A caridade é paciente, a caridade é benigna; ela não é invejosa, a caridade não é jactanciosa, não se ensoberbece, não é descortês, não é interesseira, não se irrita, não guarda rancor; não se alegra com a injustiça, mas compraz-se na verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo tolera” (1Cr 13, 4-7).

Do mesmo modo, São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, em sua primeira Epístola, fala de um dos frutos da caridade: “Antes de tudo, mantende entre vós uma ardente caridade, porque a caridade cobre a multidão dos pecados” (1 Pe 4,8).

Caridade e amor sensível a Deus

A caridade, como virtude teologal, nos preceitua a amar a Deus acima de todas as coisas porque Ele é Deus, e a amar a nós mesmos e ao próximo por amor de Deus: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 5).

É evidente que amar não significa amá-Lo com um máximo de intensidade, pois isso não é algo que esteja no nosso controle, pois depende da graça. Menos ainda significa a necessidade de sentir um amor a Deus mais sensível que o amor às criaturas. Pois estas, por mais imperfeitas que sejam, são visíveis a nós, e por isso apelam mais à nossa sensibilidade do que Deus, que é invisível: “Quem não ama o seu irmão a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”. (1 Jo 4, 20). 

Segundo alguns exegetas, a expressão acima (“de todo o teu coração” etc.), foi escolhida pelo escritor sacro para elevar a caridade acima do baixo materialismo dos saduceus e do ritualismo formal dos fariseus da época.

Perde-se a caridade pelo pecado

Ao mesmo tempo, “amar a Deus acima de tudo” implica santidade de vida. É verdade que o homem é frágil, inconstante, ferido, obscurecido pelas paixões. Ele peca, e todos os seus pecados são falta de amor a Deus, mesmo quando ele não passa a odiar, em rebelião direta contra Ele com ódio de inimizade. Mas o pecado mortal nos faz perder a caridade e assim, a graça santificante.

Isto não ocorre com as outras duas virtudes teologais, a fé e a esperança, que podem subsistir mesmo depois de pecarmos e levar-nos ao arrependimento e à confissão. Este sacramento, recebido com as devidas disposições, nos permite readquirir a preciosa virtude da caridade.

Caridade e amor natural ao próximo

A própria razão nos diz que devemos amar nossos próximos, visto que são filhos de Deus, nossos irmãos, membros da mesma família humana, que têm a mesma natureza, dignidade, destino e necessidades que nós.

Mas esse amor natural ao próximo não é caridade, pois, conforme São Tomás, “caridade é amor; mas nem todo amor é caridade”.

A virtude da caridade é sempre sobrenatural, pois sempre tem a Deus como fim.

Por exemplo, quando uma pessoa assiste a um necessitado por causa das palavras de Cristo “o que fizerdes a um destes pequeninos, a mim o fazeis” (Mt 10,42; 25,40), está praticando um ato sobrenatural de caridade. Mas se o mesmo ato foi praticado por mera pena do pobre, e não pelo amor de Deus, o ato será de amor natural.

[Amanhã publicaremos a parte II deste artigo]

 

https://www.abim.inf.br/a-mais-excelente-das-virtudes-parte-i/

 

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A mais excelente das virtudes–PARTE II

14 de março de 2021



O Bom Samaritano. Xilogravura segundo desenho do pintor alemão Julius Schnorr von Carolsfeld (1794 – 1872).

Plinio Maria Solimeo

 

A obrigação de praticar atos de caridade em relação ao próximo é preceituada pela Revelação. Há vários textos da Sagrada Escritura que no-lo obriga, como as palavras do próprio Cristo: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” e “faça aos outros o que quer que lhe façam”.

Da caridade deflui a misericórdia, que nos inclina a ter compaixão das misérias de nosso próximo, considerando-as em certa medida como nossas. Isso de tal modo que, o que lhe causa tristeza, do mesmo modo nos entristece. A misericórdia é assim a virtude por excelência entre todas aquelas que se referem ao nosso próximo. O próprio Deus manifesta misericórdia em um grau extremo tendo compaixão de nós.

Caridade e misericórdia

Daí a necessidade que temos de praticar as obras de misericórdia, que são as que visam o bem espiritual ou corporal do nosso próximo. Elas se dividem em espirituais e corporais.

A maior parte das pessoas se empenham em praticar as obras de misericórdia corporais, levadas por mero sentimentalismo ou por uma pena genuína, mas puramente humana, que sente pelos necessitados. Entretanto, descuidam das obras espirituais, das quais muitas vezes o próximo está mais necessitado delas do que das primeiras.

O Catecismo de São Pio X nos indica quais são elas:

Obras de misericórdia espirituais

dar bom conselho;

ensinar os ignorantes;

corrigir os que erram;

consolar os aflitos;

perdoar as injúrias;

sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo

rogar a Deus por vivos e defuntos.

As sete obras de misericórdia corporais são as que cuidam das necessidades físicas de nosso próximo:

dar de comer a quem tem fome;

dar de beber a quem tem sede;

vestir os nus;

dar pousada aos peregrinos;

assistir aos enfermos;

visitar os presos;

enterrar os mortos.

O óbolo da viúva e o Bom Samaritano


A esmola feita pelo amor de Deus é uma obra tão boa e tão meritória, que atrai o olhar de Deus, como visto na cena do óbolo da viúva 
[quadro ao lado] em São Lucas, (21, 1 a 4): “Os demais deitaram, para as oferendas de Deus, daquilo que lhes sobrava, ao passo que esta, da sua indigência, deitou tudo o que tinha para seu sustento”.

Entretanto, o mais belo exemplo de obra de misericórdia corporal é dado pelo próprio Divino Mestre na parábola do Bom Samaritano [quadro no topo], o quadro mais belo e mais perfeito do amor ao próximo.

Sobre ela diz o ilustre arcebispo de São Paulo D. Duarte Leopoldo e Silva em sua sempre atual Concordância dos Santos Evangelhos:

“O samaritano vê um homem prostrado em terra, mortalmente ferido. Para ter o amor do próximo, para praticar esta virtude, é preciso primeiro ver, e não desviar os olhos da miséria que se nos apresenta. Não basta: é preciso ainda saber ver, deter-se um instante no caminho, considerar e compreender os males alheios, e não fazer como o sacerdote e o levita, que viram e passaram. Depois, é preciso ter dó, mover-se à compaixão, aproximar-se, pelo coração, daqueles que sofrem, não limitar-se a uma compaixão estéril, mas imitar o Samaritano, dar como ele, em favor do próximo, tempo, dinheiro, trabalho, a sua própria pessoa, em uma palavra, dedicar-se”.

Inveja: pecado grave contra a caridade

Sendo que a caridade consiste em amar a Deus sobre todas as coisas, o pecado que é diametralmente oposto a ela é o ódio a Deus. Esse ódio, quando chega ao seu auge, leva a pessoa a adorar o próprio Satanás. É o maior pecado que um homem pode cometer. O ódio evidentemente tem graus, que vão se manifestando num ódio sucessivo à Igreja, à Religião, e até aos bons. Quando é dirigido a estes, é um grande pecado que resulta de uma profunda desordem interna.

Mas, na ordem prática, o pior pecado contra o próximo é a inveja, que também é diretamente oposta à caridade cristã. Diz a respeito o grande moralista espanhol, Pe. Antonio Royo Marin O.P.:

“A inveja é oposta à alegria espiritual (que pode existir ao mesmo tempo com a tristeza, porque não gozamos ainda da perfeita posse de Deus, como teremos na visão beatífica) é ocasionada pelo bem do nosso próximo. É um horrível pecado que entristece a alma por causa do bem visto em outrem, não porque esse bem particular nos ameaça, mas porque é visto como algo que diminui nossa própria glória e excelência. De si, é um pecado mortal contra a caridade, que nos ordena regozijar-nos com o bem de nosso próximo […]. Da inveja, como um vício capital, procedem o ódio, a murmuração, difamação, prazer nas adversidades do próximo, e tristeza por sua prosperidade”.

Resumindo, diz o Pe. Royo Marin:

“Devemos amar primeiro Deus, que é a fonte de toda felicidade; depois, nossa própria alma, que participa diretamente da infinita felicidade; em terceiro lugar, nosso próximo, tanto homens quanto anjos, que são companheiros de nossa felicidade; e por último, nossos corpos, sobre os quais redunda a glória da alma, e mesmo coisas irracionais tanto quanto elas possam estar relacionadas com o amor e a glória de Deus. A caridade é a virtude ‘par excellence’ que abraça o Céu e a Terra”.

 

https://www.abim.inf.br/a-mais-excelente-das-virtudes-parte-i-2/

 

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