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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

MISSÃO DE ENSINAR, GUIAR E SANTIFICAR – Pe. David Francisquini


“Jesus Cristo entrega as chaves dos Céus a Pedro”, Perugino (1450-1523).

Padre David Francisquini*

 

Nada mais consentâneo com a condição sacerdotal do que fazer uso da autoridade divina das verdades reveladas para cumprir a missão de ensinar, guiar e santificar as almas neste vale de lágrimas.

Com efeito, a crise espiritual que assola o homem pós-moderno — qualificativo utilizado para causar expectativa de “bons fluidos” — é a fonte de tantos males. O ensinamento dos santos ao longo dos séculos consistiu em advertir e instruir os fiéis a propósito da falta de vida interior e de ocupação com tudo aquilo que norteia as almas, a fim de conduzi-las ao seu fim último, que é Deus.

A disposição dos evangelhos, abrindo e fechando o ano litúrgico, nos mostra a importância desses ensinamentos: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação” (Mt 26, 41), para o qual as pessoas devem se ater sempre, já que a insistência do inimigo infernal é contínua e implacável contra uma pessoa e mesmo povos inteiros.

Não é bem isto que vem acontecendo hoje, em todos os ambientes frequentados por nós? Não é verdade que com suas artimanhas envolventes os asseclas infernais dispersos pela Terra procuram levar-nos para o abismo, ora por meio de ideologias, ora por manobras políticas ou falsas religiosidades? Fica, portanto, a advertência: “Vigiai e orai”!

Eis as maravilhosas afirmações da Escritura, sustentáculo da nossa fé, a nos asseverar com as palavras de São Paulo: “Toda Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, repreender, corrigir, formar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, apto para toda boa obra” (II Tim. 3, 16-17).

Ademais, é-nos imensamente vantajoso deixar-nos conduzir por Aquele que é o caminho, a verdade e a vida: “[…] andai enquanto tendes luz, para que não vos surpreendam as trevas; quem caminha nas trevas não sabe aonde vai. Enquanto tendes luz, crede na luz para que sejais filhos da luz” (Jo 12. 35-36).

Reflita, caro leitor(a), quão benfazejas são essas palavras nesses dias de tanta perplexidade diante das crises que nos assolam, a fim de estabelecermos as balizas do pensamento e o critério de nosso peregrinar pela terra. Podemos ver, tanto no evangelho de São Mateus, quanto no de São Lucas, a narração do último domingo do ano litúrgico, dos acontecimentos que se abateram sobre Jerusalém, como prefigura de todas as épocas de crise.

Pode-se constatar que, de crise em crise, a Igreja instituída por Cristo Nosso Senhor chegou aos tempos atuais. Foram muitas e clamorosas tentativas de subverter sua ordem e ensinamentos no decorrer das centúrias, mas a Santa Igreja preservou e ensinou seus filhos, ministrando-lhes os sacramentos e mostrando-lhes os caminhos da salvação eterna. 

No Ofício Divino, São Jerônimo comenta as palavras do evangelho, dizendo: “Quando virdes a abominação da desolação no lugar santo predita pelo profeta Daniel, quem ler entenda. ”Estas palavras se referem ao transtorno da fé que abalou os fundamentos do povo judeu, abolindo o sacrifício e a oblação, deixando o templo desolado por ter perdido a sua função.

Compreende-se, portanto, por que Pilatos colocou no Templo as estátuas de César e de Adriano. Segundo a Escritura, a abominação é chamada de ídolo, e a desolação é por ele ter sido posto no templo desolado e deserto.

Alguém ousaria contestar a semelhança com fatos do nosso cotidiano? Não é bem verdade que assistimos hoje à introdução de ídolos e a realização de cultos idolátricos no interior das nossas igrejas? 

A história recente nos traz à memória, por exemplo, o encontro interreligioso em Assis (1986), acontecimento-símbolo da mentalidade nova que revolucionou o conceito infalível da existência de uma só religião revelada, fora da qual não há salvação. É dogma de fé!

Tem-se, então, um pecado contra a fé, com uma agravante: a introdução de ídolos pagãos, algo abominável diante de Deus, escândalo para incontáveis almas, transtorno da ordem natural e divina que proclama o culto do verdadeiro Deus. Tais acontecimentos, que significam um largo passo rumo à panreligião, constituem uma ameaça cada vez maior para inúmeros fiéis.

Essas considerações devem nos fazer temer as consequências da vida desregrada de nossos dias, que abrange todos os campos da ação humana. Em todos eles os critérios divinos são sistematicamente rejeitados.

Meditemos, por exemplo, nesta advertência de Nosso Senhor, referindo-se aos tempos do anticristo ou prefiguras dele que agem contra Deus, promovendo a desolação em toda a terra: “Quando virdes estabelecida no lugar santo a abominação da desolação” (Mt. 24, 15).

Ao ler comentários feitos pelos Padres da Igreja, podemos adiantar-nos em outras considerações que se aplicam bem aos dias atuais, como a introdução da Pachamama no templo de Deus. São Luís Grignion de Montfort já predissera profeticamente: “Vossa divina fé é transgredida, vosso evangelho desprezado; abandonada vossa religião; torrentes de iniquidade inundam toda a terra, e arrastam até os vossos servos; a terra toda está desolada; a impiedade está sobre um trono; vosso santuário é profanado, e a abominação entrou até no lugar santo.

Aqueles que buscam viver segundo a sã Doutrina de Nosso Senhor não devem descer às coisas mais baixas pelo desejo mundano. “O que está no campo, não volte atrás para tomar o seu manto”, isto é, não volte às preocupações antigas, tornando a conviver no meio dos pecados passados, que manchavam seu corpo e perdiam sua alma.

Daí a importância da verdadeira fé, da boa orientação católica e da aquisição do senso do discernimento a fim de conhecer o momento de fugir da abominação e se proteger dos perigos de condenação eterna — “Então os habitantes da Judéia fujam para os montes” (Mt 24, 16).

Cumpre salientar que ouvimos com frequência interpretações protestantes de textos bíblicos atribuindo aos fatos trágicos, mas naturais, ou ainda da inter-relação humana, como sinais da segunda vinda do Messias, muito embora se trate de algo que sempre aconteceu na história do mundo. Estas são interpretações subjetivas.

Na realidade, quando Cristo diz que haverá sinais no sol, na lua, nas estrelas e que as virtudes dos céus serão abaladas, a interpretação mais lógica e prudente está em aplicar essas predições à própria Igreja, com o efeito benéfico de não nos expormos ao debique dos inimigos a propósito de considerações sobre calamidades tantas vezes ocorridas no mundo.

Afinal, a Igreja se assemelha ao sol, à lua e às estrelas. Seu brilho poderá fenecer um tanto, em decorrência da violência inaudita de seus perseguidores e do apodrecimento moral no campo religioso e civil, mas as portas do inferno não prevalecerão contra Ela.

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

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terça-feira, 3 de novembro de 2020

NECESSIDADE DOS RECURSOS DA IGREJA PARA NOSSA "ÚLTIMA VIAGEM" - Plinio Maria Solimeo

3 de novembro de 2020


Plinio Maria Solimeo


Em filosofia há um conhecido axioma que diz “Todo homem é mortal. Ora, Sócrates é homem, logo Sócrates é mortal”.

         Não há certeza mais evidente e mais insofismável do que a de que todos morreremos um dia. Isso leva a considerar que, para os que temos fé, nossas últimas horas neste mundo poderão decidir nossa eterna salvação ou eterna perdição.

         Daí a necessidade de nos prepararmos bem para esta nossa última grande viagem para a eternidade, com os benefícios que a Santa Igreja põe à nossa disposição para esse momento.

Assim, quando o gongo já soou para nós e estamos no leito de morte, além de nos confessarmos e recebermos a Sagrada Comunhão, podemos ainda nos valer de um outro sacramento que a misericórdia de Deus instituiu para essa hora suprema, a Extrema Unção ou Unção dos Enfermos. Esse sacramento produz na alma, e mesmo no corpo do enfermo, admiráveis efeitos, como o de abrir mais facilmente as portas do paraíso.

         O sacramento da Unção dos Enfermos foi deduzido das palavras do evangelho de São Marcos: “E, tendo partido [os Doze Apóstolos], pregavam aos povos que fizessem penitência, e expeliam muitos demônios, e ungiam com óleo muitos enfermos e os curavam” (6, 12-13).

         Contudo, é na epístola de São Tiago que vem descrito mais explicitamente esse sacramento: “Está alguém entre vós enfermo? Chame os presbíteros da Igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o doente; o Senhor o levantará e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados” (5, 14-15).



         Desse modo o apóstolo só deu a conhecer um rito estabelecido pelo próprio Redentor e prescreveu seu uso, como diz o Concílio de Trento, citado pelo Catecismo da Igreja Católica[i]“Esta santa unção dos enfermos foi instituída por Cristo nosso Senhor como sacramento do Novo Testamento, verdadeira e propriamente dito, insinuado por São Marcos (120 – Cf. Mc 6, 13.), mas recomendado aos fiéis e promulgado por São Tiago, apóstolo e irmão do Senhor”.

Das palavras de São Tiago vem a seguinte definição do Sacramento dos Enfermos: “Unção de óleo, acompanhada de súplica, feita sobre os doentes, pelos presbíteros, a fim de lhes procurar a saúde da alma — pela remissão dos pecados, quando necessária — e, querendo Deus, a saúde corporal”.

Sobre esse sacramento diz a Constituição sobre a Unção dos Enfermos promulgada por Paulo VI em 1973, citado pelo mesmo Catecismo: “O sacramento da Unção dos Enfermos é conferido aos que se encontram enfermos com a vida em perigo, ungindo-os na fronte e nas mãos com óleo de oliveira ou, segundo as circunstâncias, com outro óleo de origem vegetal, devidamente benzido, proferindo uma só vez, as palavras: ‘Por esta santa unção e pela sua infinita misericórdia o Senhor venha em teu auxílio com a graça do Espírito Santo, para que, liberto dos teus pecados, Ele te salve e, na sua bondade, alivie os teus sofrimentos”.

Segundo o ritual antigo, a pessoa podia receber só uma vez o sacramento durante uma mesma doença. Isso foi modificado por Paulo VI, pelo que, no decurso da mesma doença, este sacramento pode ser repetido se o mal se agrava. Ele pode ser também recebido “antes duma operação cirúrgica importante, e por pessoas de idade, cuja fragilidade se acentua”. O que amplia muito o âmbito dos que podem receber o sacramento.


Últimos momentos de Sto. Afonso Maria de Ligório


Sobre os benefícios sem nome ligados à Unção dos Enfermos, o Concílio de Trento definiu que: “A realidade causada pelo Sacramento é a graça do Espírito Santo, cuja unção: a) apaga os pecados a serem perdoados, se ainda os há; b) apaga também os remanescentes dos pecados; c) alivia e fortifica a alma do doente, nele excitando grande confiança na misericórdia divina. Por ela sustentado, o enfermo suporta melhor os incômodos e trabalhos da doença; resiste mais facilmente às tentações do demônio que lhe arma insídias ao calcanhar (Gen 3,15); d) por vezes, quando convém à salvação da alma, recobra a saúde do corpo”[ii].

De acordo com os teólogos medievais, a Unção dos Enfermos apagaria também as penas temporais merecidas pelo pecado. O que prepararia a alma que o recebesse para ir diretamente para o Céu. Mas a Igreja ainda não se pronunciou a respeito.

         Como com a morte não se brinca — e muito menos com a salvação eterna —, dizem os teólogos que é muito conveniente que o enfermo receba a absolvição de seus pecados pela confissão, apenas iniciada a gravidade, mesmo se não existir perigo próximo de morte. Diz o eminente teólogo Pe. Royo Marin, O.P., “Com isso se dissiparia em grande escala esse estúpido e anticristão pretexto — que a tantas almas terá custado sua salvação eterna — de que se vai assustar o enfermo se se fala de confissão. Este é um dos maiores crimes que se pode cometer, dos que clamam vingança ao Céu, e não ficarão sem castigo nesta vida ou na outra”.[iii]

É por isso que se deve ministrar esse sacramento condicionalmente mesmo a quem está aparentemente (mas não certamente) morto. Pois a morte aparente prolonga-se até meia hora depois do último suspiro nos casos de doença prolongada ou de velhice, e por duas horas mais ou menos após a morte aparente nos de morte súbita ou violenta. O que levava a que, nos tempos em que ainda havia fé no povo, tão logo ocorresse um acidente, a ir-se imediatamente chamar um sacerdote para atender o sinistrado. E com isso quantas almas se salvavam!

A morte do Imperador Dom Pedro I


Monsenhor Penido dá um exemplo para mostrar a eficácia desse sacramento: “Suponhamos um pecador inveterado, surpreendido por mal súbito. Perdeu a fala, e não mais pode confessar-se. Mas intimamente teme o inferno, quer reconciliar-se com Deus e sua Igreja, que tanto desprezou. Receba os santos óleos, e todos os pecados ser-lhe-ão perdoados sem tardança”, abrindo-lhe as portas do Paraíso!

         Sabemos, por experiência, quanto despedaça o coração propor a um enfermo mui estremecido que receba os últimos Sacramentos. Mas porventura não lhe proporíamos um tratamento penoso, por exemplo uma operação dolorosíssima, no afã de tudo tentar para lhe salvar o corpo? E para a alma, nada faríamos? Isso seria aterradora prova de materialismo prático, argumenta Mons. Penido.

         Afirmam portanto os teólogos que não se deve esperar que o doente chegue à derradeira extremidade, quando o enfermo já perdeu muito de sua lucidez, para chamar o sacerdote. Pois os santos óleos não são o Sacramento dos cadáveres, nem apenas dos agonizantes, mas o Sacramento dos enfermos, instituído para o reconforto espiritual e corporal dos doentes.

Mas não param aí os benefícios da Santa Madre Igreja em favor dos que nos precedem acompanhados do sinal da fé. Qualquer sacerdote que assista o enfermo pode conferir-lhe também uma benção papal com indulgência plenária. Diz o Pe. Royo Marin que, “Se [o agonizante]conseguir lucrar plenamente esta indulgência plenária, a alma ficaria totalmente isenta das penas do purgatório”. Quer dizer, irá diretamente para o Céu. Contudo, diz ele, “Para sua validade [dessa bênção] se requer que o enfermo pronuncie com a boca, ou ao menos com o coração, o santo nome de Jesus, que aceite com resignação, em expiação de seus pecados, as dores da enfermidade e a própria morte se Deus determinou enviá-la naquela ocasião”.

 Por que, hoje em dia, se priva nossos caros doentes de todos esses celestes benefícios, negando-lhes o acesso aos últimos sacramentos? Pode-se ser mais cruel?

         Para concluir, citamos um efeito colateral da Unção dos Enfermos, que é a cura do corpo. Pois, no ritual desse sacramento, não ocorre uma só vez a palavra “morte”. Mas pede-se a Deus que “expulsai todas as dores do espírito e do corpo, e misericordiosamente restitui-lhe a saúde da alma e do corpo, a fim de que, restabelecido por obra de vossa misericórdia, ele possa voltar a suas atividades de outrora”.

         Como é rica e magnífica a doutrina católica, e como está voltada amorosamente para o amparo e a direção de seus filhos para levá-los com segurança à pátria celeste!


[i]Catecismo da Igreja Católica,

http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p2s2cap1_1420-1532_po.html

[ii] In Mons. Dr. M. Teixeira-Leite Penido, Iniciação Teológica – Volume II,

O MISTÉRIO DOS SACRAMENTOS, Editora Vozes Limitada, Petrópolis, 1961, Capítulo V, O Sacramento dos Enfermos, pp. 391 e ss.

[iii] A Extrema Unção ou “Unção dos Enfermos”, Pe. Royo Marin, O.P., Teologia de la Salvacion, Biblioteca de Autores Cristianos, Madri, 1959, pp. 252 e ss.

https://www.abim.inf.br/necessidade-dos-recursos-da-igreja-para-nossa-ultima-viagem/

 

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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

ATITUDES EM FACE DA MORTE - Plinio Maria Solimeo


24 de janeiro de 2020
Plinio Maria Solimeo


            Nosso mundo hedonista e gozador da vida de nada tem maior temor do que da morte. Só o pensar nela aterroriza-o, estraga todos seus prazeres. Entretanto, dela ninguém escapa.

            Este é o tema que Peter Kwasniewski — escritor católico, autor, palestrante, editor, publicista e compositor — desenvolve em seu interessante artigo publicado no Life Site News sob o sugestivo título: Monges católicos revelam como se preparam para a morte em um mosteiro.

Kwasniewski [foto ao lado] começa falando com muita propriedade de uma das pragas de nosso tempo, a tão propalada eutanásia: “Uma prática antes considerada abominável — na verdade, simplesmente uma forma de assassinato a sangue frio daqueles que são mais vulneráveis ​​e mais merecedores de nossa atenção e carinho amorosos — está sendo promovida como a melhor maneira de ‘tirar alguém de sua miséria’, assim como um cavalo manco ou um animal de estimação frágil é ‘abatido’ pelo veterinário […]. Em vez de enfrentarmos a morte como sendo uma passagem purificadora para a vida eterna, tentamos mercantilizá-la como uma forma final de paliativo”.

         Ele concorda que o medo da morte é natural, pois o próprio Filho de Deus o teve. Entretanto, escondê-la ou ignorá-la não adianta, além de ir contra o que diz a Sagrada Escritura: “Pensa nos teus novíssimos e não pecarás eternamente” (Ecl. 7, 40). Sabemos que os “novíssimos” são as últimas coisas que irremediavelmente nos acontecerão: a morte, à qual sucederão o juízo particular e — conforme nós tivermos vivido — o inferno ou o paraíso para sempre.

         Mesmo quando é irremediável encarar a morte, procura-se tirar dela todo o aspecto religioso. A eutanásia, por exemplo, é baseada em considerações puramente materialistas e ateias. A explicação para isso no-la dá o ilustre escritor: “Sem Deus, a morte não pode ter sentido; sem Cristo, a morte não pode ter benefício; sem o Espírito Santo, a morte não pode ser encarada com amor e esperança. Torna-se o grande absurdo, e não a passagem da vida mortal para a imortal”.


        Kwasniewski passa então a falar de um livro que foi publicado há pouco nos Estados Unidos, escrito pelo jornalista francês Nicolas Diat e intitulado Hora de morrer: monges no limiar da vida eterna [capa ao lado], no qual o autor relata sua experiência nas visitas que fez a oito mosteiros na França com o objetivo de conversar com os monges sobre seus pontos de vista sobre a morte, como eles se preparam para ela e como os afeta verem seus irmãos de hábito passar desta vida para a eterna.

         Entre os monges entrevistados, Dom David, da Abadia de En-Calcat, considerou que o homem construiu um mundo tão tecnológico, que esse mesmo mundo agora o humilha e o faz sentir vergonha, numa espécie de complexo de inferioridade. Aduziu que para a antropologia clássicao homem era o rei e o cume do reino animal, mas que nos últimos 50 anos ele se tornou insignificante num mundo dominado por ídolos tecnológicos. Afirma o jornalista: “Dom David diz que a nossa tecnologia médica se desenvolveu a tal ponto, que prolonga a nossa agonia e nos deixa em frangalhos. Podemos acabar vendo a nós mesmos e uns aos outros de uma maneira despersonalizada, como se fôssemos máquinas com partes funcionais ou não funcionais, em vez de ver a imagem de Deus, que é infinitamente mais preciosa que a própria vida corporal e qualquer tecnologia que possamos reunir”. Comenta Diat: “Os leitores podem se surpreender ao saber (embora seja lógico) que os mosteiros enfrentam os mesmos desafios que os leigos enfrentam no mundo: cuidados com o fim da vida, remédios para dor, quando levar alguém do hospital para casa a fim de morrer em sua própria cama” etc.

         Como a morte é o momento mais importante de nossa vida porque sela o nosso destino eterno, ela o é sobretudo na vida de um monge. Assim, o enfermeiro da conhecida Abadia de Solesmes disse que aprendeu a “desacelerar” para prestar atenção nos detalhes no cuidado dos doentes: “Existe o risco de mercantilização do doente. Devo rezar para manter acordada a força do meu desejo de servir. [O irmão doente] é Cristo. Quando chegarmos diante de Deus, seremos responsáveis ​​por nossa caridade para com os mais fracos. Preciso saber como ‘perder meu tempo’ com os doentes. Na vida, dar livremente é essencial. Cristo disse que o homem que perde a vida a ganha”.


        Por sua vez, comenta o Irmão Teofano, da Abadia de Sept-Fons [foto]“Nunca estou tão consciente da presença de Deus como no momento da morte de meus irmãos. Há uma pausa, um antes e depois. Estamos no ponto da mais perfeita intersecção entre Deus e os vivos”.

            Dom Olivier, monge da Abadia de Cîteaux, fala filosoficamente sobre a preparação diária para a morte: “A morte mais difícil é a pequena morte diária, quando estamos perfeitamente saudáveis. Na vida, passamos de uma morte para outra; elas nos preparam para o fim último. Poucas mortes do ego se tornam grandes e permitem uma boa morte”.

            Diat comenta que na abadia de Mondayes e conta a história de um velho soldado da Segunda Guerra Mundial que se tornou monge ali. Quando ele estava muito doente no hospital, o abade de seu mosteiro foi ministrar-lhe os últimos ritos a fim de prepará-lo para a morte. Quando terminou a cerimônia, o Superior inusitadamente abriu uma garrafa de champanhe, e ambos beberam um brinde à morte. Dois dias depois, o veterano soldado e monge, trazido de volta ao seu mosteiro, entregava em paz sua alma a Deus. Conclui Diat: “Uma comunidade completa se compõe de vivos e mortos”.

         Um monge da Abadia de Fontgombault, mosteiro beneditino de observância totalmente tradicional, afirmou o que se pode aplicar a todo mundo, e não só aos religiosos: “Quanto mais forte a vida sobrenatural, maior a familiaridade com a vida após a morte, e mais simples a morte”. “A tradição católica enfatizou há muito esse mesmo ponto: se desejamos ter uma morte santa, devemos construir os hábitos em nossas vidas que entrarão em jogo em nossa hora de maior necessidade. A morte, nesse sentido, não passa de um momento final de um processo que a antecede e se prepara por muito tempo. Aqueles que acham ‘injusto’ que o destino eterno de uma pessoa dependa unicamente do estado da alma no momento da morte, não estão pensando corretamente: não veem a verdade de que ‘como um homem vive, ele morre’”.

         Também monge de Fontgombault, Dom Pateau, afirma que “a tecnologia nos domina até os momentos finais”“Deus deve nos forçar a aproveitar esse tempo: Ele diz: ‘Basta’, quando o homem moderno responderia prontamente: ‘Não tenho tempo’. Estaríamos prontos para perder o ponto alto desta vida. O homem se tornou escravo. Do mesmo modo, ele não tem mais tempo para si e para Deus. A falta é cruel. Ele não tem tempo para morrer porque não tem tempo para viver. Por sua parte, o monge concorda em perder todo o seu tempo para Deus. A vida monástica é feliz; a morte monástica também é”.

         O autor conclui considerando como a morte é vista pelos cartuxos, os mais austeros e inacessíveis de todos os religiosos. Um deles lhe diz: “Passo metade da minha vida pensando na vida eterna. Ela é o pano de fundo constante que reveste toda a minha existência […]. Devemos amar esta porta que nos permitirá conhecer o Pai”. Depois acrescenta: “Não é a porta que eu estou esperando, mas o que está do outro lado dela. Não estou esperando pela morte, mas pela Vida”.

            Diat comenta que se diz correntemente dos cartuxos que eles “fazem santos”, “mas não promovem suas causas”, porque todos devem tender à santidade. E narra o caso de um irmão leigo cartuxo que em meados do século XVII começou a praticar muitos milagres em sua sepultura, ameaçando tornar o mosteiro um lugar de peregrinação, com todos os inconvenientes inerentes a isso. O prior então, para cortar o mal pela raiz, dirigiu-se ao falecido monge e lhe disse: “Em nome da santa obediência, eu vos proíbo de fazer milagres”. A partir de então os fenômenos extraordinários cessaram.

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