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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

ORELHAS DO LIVRO “LAFAYETTE DE BORBOREMA UMA VIDA, UM IDEAL” – Helena Borborema

Lafayette de Borborema


            “Conheci Lafayette de Borborema e acompanhei parte  de sua trajetória em Itabuna.  Advogado, criminalista de renome, político, bom jornalista, bom cidadão.

            Simples, despido de ambição, vaidade, defendia o cliente com ardor e combatividade, não distinguindo o rico do pobre.

            Tinha em mira a causa e não o cliente e com os olhos fitos na deusa de olhos vendados, símbolo da sua profissão, traçou o rumo a seguir, marchando firme, intemerato, desprendido.

            Lafayette de Borborema não pertence tão somente à memória da família e dos amigos, pertence também à História de Itabuna como um dos membros ilustres que o tempo não pode apagar.

RAYMUNDO CRAVO

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            “Inteligente, vibrátil, assim o víamos, sumido entre pilhas que iam até o teto, do seu “Jornal de Itabuna”. De sua carteira, empoeirada,  lançava aquele olhar arguto, enquanto esboçava, num lado da face, um quase riso entre jovial e sarcástico, do jornalista que estraçalhava com fina ironia o adversário, em cruentas polêmicas dos anos idos. Lafayette de Borborema, o advogado tranquilo, agitava-se e agigantava-se na defesa ou no ataque, sem fugir da linha mestra do Direito, o que bem conhecia.

            E o tipo humano? Alma de criança nos longos bate-papos. Esqueceu-se dos ganhos fartos daquela época, deixou-nos, em sua modéstia respeitosa, prole digna e amada, caminhos a seguir,  sempre vivo em nossa lembrança.

OTTONI JOSÉ DA SILVA

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“LAFAYETTE DE BORBOREMA

            A primeira imagem que me aflora à memória, ao evocar, pela magia da remembrança, a figura humana sob todos os títulos respeitável, do meu amigo Lafayette de Borborema, é a do advogado, que na tribuna do Júri ou na defesa das causas cíveis, tinha uma conduta retilínea das mais louváveis, o que lhe dava uma autoridade moral das mais meritórias.

            Mas o que me atraía neste homem, de pequena estatura, mas de avantajado  porte moral,  era sua participação como advogado criminal, defendendo inocentes injustiçados ou condenando, com o cautério de sua dialética irrespondível, os celerados da pior espécie,  que ontem, como hoje, perturbam o funcionamento normal das sociedades.

            Na tribuna do Júri era um leão de juba eriçada, na defesa de princípios morais que serviram de norte a toda sua existência, esgrimindo com a perícia de um d’Artagnan e pondo fora de combate adversários da melhor estirpe, com a força destruidora de seus argumentos, tudo isso de maneira ética e estritamente profissional.

            Esta a lembrança imperecível que tenho do grande lidador, que se chamou em vida Lafayette de Borborema.

JOSÉ NUNES DE AQUINO

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 (Lafayette de Borborema: UMA VIDA, UM IDEAL)
Helena Borborema
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HELENA BORBOREMA -  Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município
(A autora)

Conhecida professora itabunense, filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra’.
(Cyro de Mattos)

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sábado, 17 de junho de 2017

CONTRACAPA DO LIVRO "LAFAYETTE DE BORBOREMA - UMA VIDA, UM IDEAL", DE HELENA BORBOREMA - Por Telmo Padilha

          
Contracapa do livro Lafayette de Borborema - uma vida, um ideal

No tempo de Lafayette de Borborema existiam em Itabuna uma biblioteca pública, um piano para concertos, um grêmio Literário, o teatro era feito em residências, os saraus varavam a noite. Quem conta isso é Helena Borborema. Seu livro é um belo inventário escrito com amor. A gente fica com uma inveja danada daquele tempo, quando as pessoas, ditas ignorantes, sabiam no entanto ser dignas e inteligentes. Não eram nem brutas nem desalmadas.

            Na vila não existiam carros, mas as ruas eram limpas e as fachadas das casas recebiam tinta nova todos os anos. Não se poluía o Cachoeira. Matava-se , é verdade, por ambição ou paixão, ignorância ou orgulho, mas a verminose e a subnutrição não imolavam crianças indefesas como agora. Cinco, em média, por dia. Quem não ganhava para comer não morria de fome. A caridade era um dever. O amor à terra um sentimento generalizado.

            Ao falar de seu pai com a modéstia que dele herdou, ressaltando-lhe as virtudes que justificariam o livro que sobre ele escreveu. Helena Borborema só não é ela mesma quando se detém na descrição de ambientes e paisagens: aí sua imaginação se solta, é minuciosa e pródiga, nada lhe escapa. É uma escritora. Mesmo descrevendo, seleciona, e selecionando, julga. Não reproduz apenas: traduz. E, traduzindo, participa-nos e participa da História.

            Um livro despretensioso o seu, inclusive pela avareza do número de páginas. A gente fica esperando que ela diga mais, e ela não diz. Mas diz o suficiente para que saibamos que Lafayette de Borborema era em sociedade o que era em família, e que a terra que escolheu para viver e morrer não era apenas uma terra de brutos e desalmados, porque os brutos a amavam como já não nos esforçamos por amar.

            Para os jovens, ou alguns velhos que não envelheceram completamente, este livro põe por terra o vaticínio ruibarboseano de que um dia o homem teria vergonha de ser honesto. Sob esse aspecto, “Lafayette de Borborema – um ideal, uma vida”, é um livro subversivo, porque nos prova o contrário. Isto é, que a virtude da honestidade é uma coisa que não morre e que produz mais alegrias do que comumente se admite.

TELMO PADILHA
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HELENA BORBOREMA -  Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)


Conhecida professora itabunense, filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra’.  (Cyro de Mattos)

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terça-feira, 13 de junho de 2017

LAFAYETTE DE BORBOREMA UMA VIDA, UM IDEAL - Helena Borborema

Prefácio  do livro Lafayette de Borborema UMA VIDA, UM IDEAL, de Helena Borborema


          Não foi somente em ordem cronológica o primeiro advogado de Itabuna. Na galeria dos valores profissionais de seu tempo, Lafayette de Borborema – pela inteligência arguta e criativa, pela lhaneza de trato, pela probidade pessoal, pela cultura pragmaticamente aliada a uma sutil e surpreendente perspicácia, a uma luminosa e sensível intuição dos fatos jurídicos – situava-se como dos mais brilhantes, dos mais eminentes, dos mais destacados.

            Distinguido com o calor humano da sua dileta amizade pessoal, pude conhecer também a outra face, a outra dimensão da sua vida privada, perceptivelmente estruturada com os valores cristãos da simplicidade, da humildade e, até mesmo, de um quase estoico despojamento de vida interior. Valores evangélicos, sem dúvida, que, aos olhos de Deus, não só configuram a personalidade divinizada dos santos, mas forjam também, modelam a figura plenamente humanizada do verdadeiro homem. Do homem autêntico, crístico, vertical, ético. Homens, que no plano dinâmico da experiência existencial, apesar das amplas limitações imanentes à sua própria condição humana, afirmam-se, projetam-se, atingem o cimo luminoso da emérita dignidade – a grandeza transverberante da suprema plenitude do ser. Do ser contingente, finito, maravilhosamente criado, por um incontido transbordamento de amor, à imagem e semelhança do Criador Infinito.

            Esse o Lafayette da minha visão pessoal, da minha lembrança indelével. O que sabendo viver com alegria pôde, por isso mesmo, morrer com a serenidade cordeira de um justo.

            Salvador, 28 de março de 1984.


                                         Bartolomeu Brandão

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quinta-feira, 4 de maio de 2017

A VILA (III) – Helena Borborema


Ainda do Dr. Lafayette de Borborema é o seguinte relato:

          “Estava eu um dia fazendo a refeição com o juiz preparador na pensão, quando entrou na sala, montado em uma bonita besta, um dos valentões da terra; após nos cumprimentar, pediu, sem desmontar, um conhaque, e mais um e mais outro, e a seguir esporeou o animal que saiu, depois de derrubar mesas e cadeiras.”

          "De outra feita, uma noite, da nossa casa ouvi gritos de socorro de alguém que apanhava no então beco onde está  o  prédio da Maçonaria; indignado, saí e fui até a esquina; tudo escuro; os gritos de socorro continuavam e ouvi movimentos violentos de luta; não reconheci ninguém mas protestei fortemente, e quando assim o fiz, ouvi a detonação de dois tiros e os passos de pessoas que, correndo, se afastavam do local. Foram dois açougueiros que, à força, queriam fazer o fiscal do Município engolir uma bola de estriquinina, porque havia matado naquele dia o cachorro de um deles com o mesmo veneno. Com a minha intervenção o fiscal não chegou a engolir a “bola”, mas recebeu dois tiros.”

          “Era motivo de festa pública qualquer melhoramento que aqui se fizesse, até uma pinguela armada sobre um ribeirão ou riacho. E quando se fez a mudança de uns pranchões sobre o ribeirão que cortava a Rua Miguel Calmon, houve uma dessas festas à qual compareci como convidado. Após os discursos de estilo, foram todos à casa que lhe ficava perto, para servir-se de um copo de cerveja. Cerveja ao natural, pois, naqueles tempos, não havia gelo por aqui. Quando a cerveja estava nos copos sobre a mesa, um dos festeiros meteu um cacete em cima dos copos e das garrafas, espatifando tudo.  Foi caco de vidro por todos os lados; e como isso fizesse parte da festa, houve tiros para o ar e nova cerveja foi servida.“

          “Mas muita coisa pitoresca havia; uma delas foi uma festa que se realizou em casa de uma família, onde eram servidos às pessoas presentes doces e xícaras de chá em bandejas; eis que surge um cavalheiro trazendo uma bandeja com alguns copos de cerveja e oferece às senhoras presentes, dizendo muito gentil a cada uma que agradecia: - A senhora pode servir-se, essa bebida é muito diurética”.



          “Uma ocasião, em dia de eleição aparatosa (feita a bico de pena, em casa dos chefes) fui à pensão um pouco mais cedo para almoçar. Lá chegando, vi uma grande mesa posta, toalha muito alva e, no centro, dois bonitos perus bem assados; fiquei satisfeito; e quando procurava sentar-me no lugar de costume, apareceu o meu hoteleiro muito amável e foi logo dizendo: ‘O doutor vai hoje me desculpar, vai passar mal; essa mesa o coronel mandou preparar para os nossos eleitores’. E conduziu-me para um canto da sala, onde me deu para almoçar uma lata de sardinhas no azeite doce e um prato de farofa. O homem era meu adversário político.”

Ainda desses primeiros tempos de Itabuna, ele contaria:

          “O Correio, cuja primeira mala foi recebida em meio do caminho com muita música e grande manifestação popular, era uma vez por semana. As malas vinham às quintas feiras e aqui chegavam do Banco da Vitória à tarde; quando era ouvido o chocalho da madrinha da tropa que as conduzia, os interessados iam para a agência postal; abertos os sacos, o encarregado da distribuição passava a chamar os destinatários um a um.”

          “Era um sábado de Aleluia, um certo chefe de bandidos fez um judas e, nas costas, colocou um papelão com o nome da autoridade policial; como o referido policial tivesse uma cicatriz no pescoço, o chefe do bando colocou uma casca de mandioca para imitá-la. O Judas suspenso num pau, foi posto em frente do Quartel e crivado de balas, em vez de queimado, sob grande algazarra em ostensiva provocação.”

          “Contaram-me que um facínora foi à fazenda de um compadre para assassiná-lo. Como o compadre tivesse viajado, eliminou outro homem seu desconhecido, ‘para não perder a viagem’, segundo confessou à autoridade policial.”



          Apesar das violências, o progresso era inevitável. Se havia bandidos, havia também os homens de bem, que cada vez mais iam engrossando as fileiras daqueles que batalhavam pela grandeza de Itabuna no comércio, nas oficinas, na lavoura, nas atividades liberais. E no meio desses obreiros estava o moço Lafayette, iluminado pelo seu ideal de servir  à causa da Justiça e se integrando nos interesses da terra.

          “Em 1908 foi realizada a primeira reunião para a fundação da Associação Comercial de Itabuna, então com o nome de ‘União Comercial de Itabuna’. A primeira Diretoria foi empossada em solenidade presidida pelo Bacharel Lafayette de Borborema”.

          “Em 1909 organiza Lafayette de Borborema, juntamente com o farmacêutico Artur Nilo de Santana, o médico João Batista Soares Lopes, José Joaquim da Silva e Antonio Matos, um grêmio literário  e uma rudimentar tipografia sob a direção do Guarda-Livros Diocleciano Grota”.

          Chega 1910. Itabuna deixa de ser vila e torna-se Cidade. Vem a estrada de ferro, que rasga grande trecho ligando a nova cidade a Ilhéus, ruas são calçadas, é inaugurada a iluminação a acetileno. É uma evolução dinâmica, não só no campo econômico como, também, intelectual e espiritual.

          Com o tempo, importantes acontecimentos vão se sucedendo na jovem cidade e aquele advogado, sempre fiel à advocacia, sempre independente no seu modo de pensar e de agir, atravessa os anos.

          Em 1919, entre outros acontecimentos, é criado o Monte Pio dos Artistas e Lafayette de Borborema elabora os seus estatutos.

          Em 1920 ele funda o “JORNAL DE ITABUNA”, do qual é diretor e redator. Através desse jornal ele fez política e se bateu pelos interesses da terra. Esse jornal funcionou até 1938, quando foi destruído por um incêndio numa casa vizinha.


(Lafayette de Borborema – UMA VIDA, UM IDEAL)

Helena Borborema

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quinta-feira, 23 de março de 2017

A VILA – Helena Borborema (Parte II)

A Vila  (Parte II)



          Recém-chegado, o advogado Lafayette de Borborema logo iniciou suas atividades profissionais. Contaria ele muitos anos depois:


          “Devido ao ambiente hostil que a política lhe criara, o Dr. Unapetinga deixara o cargo de Juiz e fora embora da Vila poucos meses depois da minha chegada, deixando o campo forense para mim e o provisionado Laudelino Lorens. O meio era revolto; não recuei, disposto a advogar e, junto a Firmino Alves e seus amigos enfrentar as lutas também trabalhar em benefício do meio social."

          “O meu primeiro trabalho como advogado foi o preparo dos papéis de habilitação para um casamento civil pelo qual recebi trinta e cinco mil reis; o segundo foi uma defesa no Júri, por trezentos mil reis."

          “A primeira reunião do júri, cujos processos haviam sido feitos pela Justiça de Ilhéus, foi um marcante acontecimento social. Tive que funcionar como Promotor ad-hoc no mais importante dos processos, cujos acusados eram protegidos da situação contrária a Firmino Alves, interessada que se achava na absolvição dos acusados. Quando estava fazendo a acusação, entregaram-me um bilhete; parei e fiz a leitura do mesmo; estava assinado. Era uma ameaça; avisava-me que o partido tinha interesse na absolvição dos ‘meninos’, por isso que, se  eu quisesse ficar aqui, tinha que não apelar da absolvição dos mesmos. Guardei-o e continuei a acusação."

          “Depois da defesa, num intervalo para descanso, falaram-me pessoalmente sobre a conveniência de não apelar era uma ameaça velada. Fiz de conta que não compreendia."

          “Voltei à tribuna para replicar, o que fiz com mais ardor e firmeza. Terminado o julgamento os acusados foram absolvidos. Era o segundo ou terceiro julgamento e a acusação desta vez não podia mais apelar."

          “De outra feita, em casa, fui procurado por um senhor, contra que era advogado em uma causa cível, para prevenir-me daria mal se recorresse da sentença, que lhe havia sido favorável.Mandei-o sentar-se calmamente respondi-lhe que já havia apelado. Depois de um pequeno silencio, retirou-se.”

          “Vi que havia muita maldade e injustiça e precisava defender os injustiçados não pela justiça togada, e sim pelos ambiciosos, pelos espoliadores que tomavam as plantações dos pequenos lavradores, os quais eram abatidos com tiros de repetição nas emboscadas.”

          “Recebi ameaças, mas nunca recuei e nunca transigi. Também nada sofri pessoalmente. Sempre respeitando e sempre respeitado.”

          “Pouco a pouco, Itabuna foi entrando na ordem; passou à categoria de Comarca. A lei passou a imperar; foram chegando outros advogados, juízes foram se sucedendo, o movimento forense crescendo, acompanhando o desenvolvimento e o progresso do Município.”

          “Fui testemunha de tudo, porque como advogado tinha que conhecer os fatos na polícia, no foro e de vista.


          Mesmo sendo uma vila, havia prosperidade e vida social em Itabuna. Reuniões eram feitas em casas de famílias, onde não faltavam recitativos, modinhas e danças da época, como valsas, polcas e quadrilhas, principalmente na residência de Firmino Alves, que trouxera um piano de Salvador, o qual, do Banco da Vitória até sua casa, foi conduzido com enorme dificuldade a pau e corda.

          A alimentação era farta: muito peixe e pitus do rio Cachoeira, muita caça das matas próximas, enormes requeijões vindos do sertão, boa manteiga, queijos e enlatados vindos de Salvador, em geral importados do estrangeiro.

          Havia também reuniões literárias bem animadas, com discursos. A vida não era monótona. Com elementos da terra criou-se um grupo de teatro para cujos espetáculos a plateia trazia de casa as cadeiras. Criou-se um grêmio literário e recreativo, com uma pequena biblioteca. Foram também criadas duas filarmônicas, a Minerva e a Lira; ambas se digladiavam. Cada uma tinha seus adeptos.

          Mas, apesar desses progressos, a vida da população continuava a correr perigo; quem saía à noite estava arriscado a ter os passos embargados por um indivíduo escondido sob um pala, que riscava o fósforo para ver se era a pessoa a quem procurava para matar.

(Lafayette de Borborema : UMA VIDA, UM IDEAL)
Helena Borborema

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HELENA BORBOREMA - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)

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sábado, 25 de fevereiro de 2017

A VILA - Helena Borborema

A Vila - Parte 1


            Era uma tarde de princípios de março de 1907, quando os cavaleiros apearam num largo descampado, no coração da vila, às margens do rio Cachoeira. Bem em frente um sobrado senhorial se erguia, cheio de imponência e simplicidade ao mesmo tempo, como simples e cheio de dignidade era o seu proprietário, Coronel Firmino Alves. Nesse sobrado, residência da família Alves, hospedou-se por alguns dias o Dr. Lafayette, passando depois para uma casa de hospedagem na Rua da Areia, mandada construir pelo próprio coronel e destinada aos hóspedes distintos, geralmente homens de letras que para aqui  vinham a seu convite. As refeições eram feitas na pensão do seu Osório.

             No dia da chegada, juntou-se ao cansaço da viagem uma situação tormentosa: a longa caminhada a cavalo tinha produzido no novato viajante, na parte do corpo em contato com a sela, uma enorme esfoladura e, como naquela mesma noite o sobrado encheu-se de gente, os amigos, familiares e correligionários do Coronel que lhe vinham trazer as boas-vindas, o advogado – o primeiro que chegava à Vila – era apresentado a todos. As apresentações se davam amiúde, e assim cada vez que se levantava e se sentava a roupa grudava e desgrudava da esfoladura provocando-lhe verdadeiro suplicio.

            Assim chegou o Dr. Lafayette de Borborema à nova Vila de Itabuna, trazendo, como capital a sua mocidade, seu idealismo e vontade de trabalhar.

            Na véspera da chegada tinha havido um conflito (na hoje Avenida do Cinquentenário) com mortos e feridos.



             Realmente, a terra não era de forma alguma pacata. Ao contrário, o perigo espiava em cada beco. Cada árvore podia ser uma tocaia. A média era de um crime de morte por dia; atiravam de emboscada, atiravam a esmo  para experimentar a arma, cujo alvo era qualquer pessoa   que no momento passasse ou estivesse ao alcance da mira. Eram os jagunços, os clavinoteiros apaniguados de seus patrões. Rara era a pessoa que não trazia consigo uma arma.

             Na vila, como no interior, além dos jagunços, havia os inspetores de quarteirão, exibindo tanto uns quanto outros suas armas brancas e de fogo, curtas ou compridas, um facão à cintura, uma repetição ou clavinote e uma pala sobre os ombros. Havia sido instalado o Termo da Vila de Itabuna, porém nenhuma garantia havia para o cidadão.

             Mas apesar dessa turbulência, a vila fazia sentir que as suas raízes estavam fincadas em solo ubérrimo, onde o progresso não tardaria a brotar com a mesmo pujança e vigor dos frutos de ouro. As ruas não eram niveladas nem as casas tinham alinhamento, mas o comércio já era desenvolvido. Pelas ruas lamacentas, tropas conduziam mercadorias e cacau. Chovia com muita frequência e à noite caía sempre muita neblina. Não havia luz elétrica e as ruas eram muito escuras. A mata ficava próxima e à tardinha, quando a brisa soprava, espalhava-se pela vila o cheiro do cacau secando ou fermentando nas roças por perto.

             A pequena população ordeira que na vila mourejava parecia ter uma têmpera de aço. Nem jagunços nem violências, nem insegurança abatiam o ânimo daqueles titãs. Parecia que o  perigo era um desafio à sua audácia; cada vez mais eles se apegavam à terra e o que é mais interessante – a amavam.

            Do solo fértil brotava a riqueza. Os grãos escuros e amargosos do cacau eram ouro, era a fortuna que crescia e dava “status”, era o poder.

            Aos poucos a vida social de Itabuna foi se estruturando; gente trabalhadora, ordeira, ia se estabelecendo nas mais diversas atividades. Eram artífices, trabalhadores braçais, profissionais liberais, comerciantes, agricultores que chegavam e iam se integrando. Todos com vontade de trabalhar, progredir e fazer a grandeza da terra. Esse grupo cresceria e com ele a vila de Itabuna.


(Lafayette de Borborema : UMA VIDA, UM IDEAL)
Helena Borborema

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HELENA BORBOREMA - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)
“Filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra" (Cyro de Mattos).

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

UM RETRATO - Helena Borborema

Um Retrato


          Itabuna evolui. Lafayette de Borborema, passo a passo, acompanha o seu progresso. A vida econômica é pujante, mas a violência continua; há outra forma de agressão, não à pessoa humana, mais ao seu patrimônio: o caxixe.

          Lafayette de Borborema, na tribuna do Júri, ou nas caladas da noite, debruçado sobre a sua mesa de trabalho, caneta na mão, defende, acusa, pede justiça. O ideal que o fez aportar nesta terra de Itabuna aqui o manteve. Jamais se acovardou diante das ameaças dos prepotentes, jamais transigiu. Com uma grande banca de advocacia, nunca se deixou cegar pela ambição. A riqueza, a usura do dinheiro não faziam parte de sua vida. Aquele cacau, que era o desvario de muitos, nunca o fascinou. Nunca se aproveitou da angústia e do desespero de um constituinte para dele tirar proveito, tomando-lhe algum bem. A sua riqueza eram as  qualidades morais, com que sempre pautou a vida e a profissão. O seu ideal era ser fiel à sua vocação de advogado. Viveu num meio violento, condenou destemidamente bandidos no banco dos réus, enfrentou “chefões” políticos. Em toda a sua vida nunca usou uma arma, porque a sua grande arma  era a força moral com que sempre se impôs e se fez respeitado.

          Inteligente e preparado, mas modesto nas suas atitudes, gostava mais de ouvir do que de falar, dando simplicidade à sua conversação. Muito calmo, discreto, cortez, era incapaz de ofender deliberadamente a qualquer pessoa,  por mais humilde que fosse. Na tribuna do Júri, mesmo acusando fortemente, procurava  não ofender, embora, quando preciso soubesse ser mordaz e satírico. Era impressionante a paixão que tinha por uma causa difícil; quanto mais embaraçada a questão, mais ele a abraçava. Os honorários pouco o interessavam, valia a vitória na contenda. A assistência gratuita ele dava com o mesmo interesse, esforço e dedicação de uma causa remunerada. Poder ajudar  a um constituinte pobre, salvar-lhe a “burara”, a casinha ou o pequeno pecúlio, valia-lhe mais  do que qualquer remuneração monetária. Quando ele completou 50 anos de formatura, numa festa em sua homenagem, o Bel. Bartolomeu Brandão pronunciou um discurso onde há um trecho que diz:

            “Na luta pela justiça, pelo reconhecimento dos direitos individuais postergados, a advocacia, que não é apenas o eco profundo dos dolorosos dramas humanos, a advocacia se realiza, sobretudo, como uma força poderosa em defesa da esperança, da vida e da descendência dos que sofrem”. Essa advocacia Lafayette de Borborema a realizou até o fim de sua vida.

            Espírito independente, nunca bajulou políticos nem nunca pleiteou cargos, os que ocupou foram por eleição ou a convite. O “Jornal de Itabuna”, que fundou em 1920 foi uma das armas com que se bateu. Lutava com lealdade, sem paixão e sem ódio, a bem dos interesses da terra e da sociedade. Durante os 58 anos que aqui viveu, a despeito das lutas no campo político e profissional que enfrentou, jamais teve um inimigo pessoal. Durante 60 anos amou e se dedicou à advocacia com o mesmo entusiasmo e idealismo de recém-formado. A vida laboriosa talvez fosse o segredo da saúde física que desfrutou até à velhice e da jovialidade de espírito que lhe dava a alegria e disposição com que enfrentava cada dia.

          Aqui constituiu família. Casado com dona Odília de Borborema, teve seis filhos, dos quais uma menina faleceu aos seis meses de idade e duas outras logo após o nascimento. Sobreviveram-lhe três, dos quais um,  Péricles de Borborema (advogado) faleceu três anos e meio após ele.

          Não era católico praticante, mas um homem de grande fé religiosa. Temente a Deus, procurava sempre fazer o bem e, na educação dos filhos se fazia questão do aspecto religioso, muito lhes incutiu também o amor à terra.

          Não tinha amor a dinheiro. Dinheiro para ele representava apenas alimentação farta, abundante em casa e bons colégios para os filhos, no que não media sacrifícios em pagar, ainda, para eles, cursos de piano, de pintura e o que mais quisessem. E só. Mas aos livros e à papelada dele dedicava um amor que chegava às raias da adoração. No seu escritório, sobre mesas e cadeiras, os papeis subiam em pilhas incríveis e ai de quem mexesse em um deles! Também tinha de tudo, porque tudo guardava – jornais, boletins de propaganda, almanaques, cartas, recibos,  convites que iam se juntando e se multiplicando em pilhas através dos anos. Quem entrasse em seu escritório tinha por certo a impressão de um caos, mas para ele aquilo era a ordem perfeita, sabia o lugar certo de cada pedaço de papel. Quando se rasgava um papel com algum a coisa escrita a ele, dava a impressão de que se estava cometendo um crime.

          Sempre procurando se atualizar dentro da profissão, comprava os livros de Direito que lia e estudava até altas horas da noite, sem tédio, com a disposição de um jovem estudante.

          Sentia-se que ele amava aqueles livros; a gente podia perceber o carinho com que os olhava, o cuidado que tinha em não rasgar ou machucar uma página, mirava cada um como se  fosse um objeto de veneração.

          Amante das grandes caminhadas, quando ia a Salvador a negócio ou a passeio, que ele chamava de “recordação e saudade”, evitava muitas vezes tomar transporte, pelo prazer de andar a pé. Subia e descia ladeiras, já na casa dos setenta anos, com a disposição de um adolescente. Visitava a sua velha Salvador, revendo as ruas onde morou, onde passou a sua infância e adolescência, revendo igrejas, o cemitério onde jaziam os parentes falecidos, as praias da Boa Viagem onde, menino, veraneava com a família, - tudo ele revia porque tudo fora guardado no coração. Mas esses passeios só valiam se fossem feitos a pé!

          Não bebia, não fumava, nunca jogou. Mas tinha um passatempo que bem se coadunava com o seu temperamento calmo e ao qual se dedicou desde jovem: colecionar selos, tendo organizado bonitos e bem cuidados álbuns.

          Passaram 58 anos desde aquela tarde de março de 1907, quando aqui chegou aquele jovem de 24 anos incompletos, cheio de idealismo e coragem para lutar.
  
          Não buscou a riqueza dos cacauais de frutos dourados, à cuja sombra muitas lágrimas foram vertidas e muito sangue derramado.

          Não buscou a vaidade do poder, aquele poder que avilta quem o possui e atrai os bajuladores.

          Buscou apenas um ideal, e esse ideal ele encontrou, a ele se prendeu, por ele lutou e deu uma vida.

          Realizou-se no exercício da profissão e em poder servir à terra que adotou e amou, tendo participado de todos os movimentos ligados aos interesses de Itabuna.

          Foi Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Itabuna, tendo feito, pelas colunas do seu jornal, várias campanhas em favor desse hospital nos seus primeiros anos de existência. Membro da Irmandade da Santa Casa, tendo feito parte da sua diretoria. Delegado de Polícia. Presidente da Ordem dos Advogados, Subseção de Itabuna. Consultor Jurídico da Prefeitura Municipal. Secretário da 1ª Comissão pró-construção da nova Igreja Matriz de São José. Por ocasião das suas bodas de ouro de formatura, foi homenageado pelo Lions Club de Itabuna, através do seu presidente, o Juiz Dr. Lafayette Veloso, que o fez sócio honorário.

          Pioneiro no setor de sua atividade, quando fez  50 anos de formatura, Itabuna prestou-lhe grandes homenagens; dentre as muitas que recebeu há uma também muito bonita e significativa, vinda de Salvador. Foi um pergaminho assinado por todos os juízes que passaram pela Comarca de Itabuna, com os dizeres que bem retratam o advogado que ele foi:

                                         “ Lafayette de Borborema,
          Ao comemorares teus cinquenta anos de formatura dedicados ao Direito, nessa laboriosa Comarca de Itabuna, onde foste o Pioneiro na Advocacia, modelo de perseverança, exemplo na conduta, jamais a ambição cegando teus olhos sempre voltados para a JUSTIÇA e a VERDADE, nós, teus colegas, Magistrados que por aí passamos, guardando nitidamente a impressão de seres um verdadeiro APÓSTOLO DA ADVOCACIA, enviamos com esta Mensagem a nossa adesão às manifestações deste dia.

          Cidade do Salvador, Bahia, 11 de dezembro de 1955.
Ass.:
          Clóvis Leone
          José Desouza Dantas
          Cleóbulo Cardoso Gomes
          Agenor Velosso Dantas
          Dan Moreira Lobão
          Alfredo Luiz Vieira Lima
          Moreira Caldas
          Altino Serbêto de Barros
          Barros Pôrto
          Geminiano Conceição.”
  
          Aquela promessa feita à família, em Salvador, de que retornaria dentro de um ano, caso não suportasse as vicissitudes e perigos da Vila, estava agora muito no passado. A terra de tantas violências era, também, de alegrias compensadoras e de muito calor humano. E a terra o fascinou. Aqui ele fincou raízes, cresceu, frutificou e permaneceu, participando das alegrias, tristezas, sonhos e realizações da terra que viu nascer, crescer e que tanto amou.
      
          Quando, na noite de 25 de junho de 1965, aos 82 anos de idade, Lafayette de Borborema fechou os olhos à luz do mundo, foi com a mesma serenidade com que sempre viveu. Morreu com a consciência tranquila de quem só praticou o bem. Respeitado, acatado por todos, amado estremecidamente pelos seus, deixou aos filhos um nome honrado e o exemplo de suas grandes virtudes.

          A sua vida podia ser resumida nas palavras do Advogado Bartolomeu Brandão quando, num discurso, a ele se referiu:

          “Lafayette de Borborema foi um trabalhador da grandeza de Itabuna, porque Itabuna não se fez apenas pela contribuição material dos construtores da sua economia. Fez-se, também, pelo concurso, pelo trabalho de outros obreiros, de outros valores humanos. Valores que, na fase informe da sua organização, aqui surgiram com a maravilhosa mensagem da cultura, da ordem, da beleza, da harmonia. E Lafayette de Borborema foi um desses valores”.


(Lafayette de Borborema -  UMA VIDA, UM IDEAL)
Helena Borborema

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HELENA BORBOREMA -  Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)

Conhecida professora itabunense, filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra’.  (Cyro de Mattos)

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

VIAGEM PARA A VILA DE ITABUNA – Helena Borborema

Viagem para a vila de Itabuna


            O pequeno barco já deixara o porto de Salvador e singrava bamboleando em busca do porto de Ilhéus. A bordo o coronel Firmino, impávido aos balanços, sereno como um velho lobo do mar, charuto na boca, circulava pelo pequeno barco com a naturalidade de um veterano naquelas viagens. Um viajante comercial, que ia representar as suas mercadorias nas casas comerciais de Ilhéus, uns poucos sergipanos em demanda do Sul da Bahia, a pequena tripulação meio rude, meio pressurosa e, estirado numa espreguiçadeira no estreito tombadilho, sentindo as agruras de uma viagem marítima que enfrentava pela primeira vez, olhar perdido no horizonte, coração apertado,  o jovem advogado buscava o encontro com o seu novo e definitivo destino. Que surpresas o aguardariam naquela terra?

          Três dias durou a viagem. A alimentação a bordo constava de café com bolacha, servido em canecas, feijão, arroz e alguma carne. O barco às vezes esquentava tanto que era preciso se chegar bem perto à amurada para receber no rosto a brisa do mar, mas para isso era preciso firmeza nas pernas e muito equilíbrio para não escorregar no vai-e-vem do balanço. O ruído das máquinas lá em baixo, o calor, a má acomodação só despertavam uma vontade: chegar!

          Na tarde do terceiro dia um ar mais animado se estampou nos rostos dos passageiros. Estavam passando ao largo da “pedra de Ilhéus” e os coqueirais e contornos de morros já se delineavam ao longe. Logo mais entravam na barra e umas horas mais desembarcavam em terra firme. A tarde começava a cair. O coronel Firmino e o jovem Lafayette hospedaram-se por aquela noite em casa do coronel Eustáquio Bastos, no Pontal. No dia seguinte prosseguiriam viagem de canoa até o Banco da Vitória e, de lá, para Itabuna, iriam a cavalo. Seriam dois dias de viagem podendo até durar mais a depender da maré e das montarias que se tinha de arranjar. Pela manhã bem cedo deixaram o Pontal embarcando numa grande canoa. Esta começou a deslizar silenciosa e monótona, ora beirando o manguezal, ora enfrentando as águas mais profundas do rio Fundão, que subiam ou desciam conforme a maré. Nessa viagem já os acompanhava um homem de confiança, para cuidar das bagagens e providenciar as montarias. No Banco mais um pernoite. No dia seguinte, pela manhã, os viajantes prosseguiram montados até a vila de Itabuna. A longa viagem no lombo de um burro, para quem nunca tinha montado em toda a sua vida, era penosa. O grupo agora era composto de mais outro homem. Na frente ia o “camarada” mostrando o caminho, abrindo passagem,  decepando ramos baixos ou entrelaçados com o afiado facão. Por último outro “camarada” conduzia  a besta com as bagagens. Depois de horas de viagem no meio de uma vegetação rasteira bordada de flores silvestres, ora arbustivas, atravessaram um pedaço de mata para mais adiante surgir uma visão inédita para o moço Lafayette: cacau! Estavam entrando numa das grandes fazendas do coronel Henrique, passagem obrigatória para quem demandava aquele itinerário. Ali estava a riqueza sonhada por muitos. As árvores dos frutos de ouro se estendiam incontáveis. Nos seus troncos e galhos, frutos verdes e amarelados se amontoavam num prenúncio de safra propícia. Era um mundo de sombra e silêncio. Na grande quietude só se ouvia, a pedaços, o murmúrio do Cachoeira, que corria perto, ou a estridência de alguma cigarra. No mais, o farfalhar das folhas secas que estalavam sob as patas das cavalgaduras. De vez em quando um alerta:

             - Abaixa a cabeça, coroné!

            Era mais um galho de cacaueiro ameaçador para o viajante distraído ou desavisado. De repente, lá pelas tantas, os cavaleiros estacam de supetão os seus animais. O que estaria acontecendo? Que tiroteio era aquele? Cautelosos, avançam mais alguns metros e, com surpresa e aliviados vêm que é uma explosão de alegria dos cabras da fazenda saudando, à maneira deles,  a chegada do coronel Henrique vindo de Ilhéus. A saudação era feita ainda a caminho já perto da entrada da fazenda. Um verdadeiro séquito armado e a cavalo, viera recebê-lo numa explosão de tiros de saudação.

            Um cheiro novo e desconhecido para o moço advogado enchia agora todo o ar, cheiro de cacau fermentado, cheiro de terra molhada, de mato, de mistérios.


(LAFAYETTE DE BORBOREMA - UMA VIDA, UM IDEAL)

 Helena Borborema

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HELENA BORBOREMA - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)
“Filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra" (Cyro de Mattos).

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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

UMA VIDA, UM IDEAL – Por Helena Borborema (I)

Uma Vida, um Ideal


          Naquele 1º de maio de 1883, a Rua dos Capitães, em Salvador, acordara, como de costume, embalada pela voz cantante das negras vendedoras de mingau, cuscuz e acaçá, que de saias rodadas, turbantes muito alvos e enormes tabuleiros, passavam mercando suas guloseimas pelos passeios dos velhos e sonolentos sobrados. No mais, era a quietude gostosa da provinciana cidade no seu amanhecer. Mas, num dos sobrados da rua, havia um contentamento rodo particular entre seus moradores: acabara de nascer, para o casal Dr. Emygdio de Borborema (médico e Oficial da Marinha) e dona Adelaide de Borborema, o seu primeiro filho, que recebera meses mais tarde, na pia batismal, o nome de Lafayette.

          Com poucos meses, foi o garoto batizado na velha igreja da Sé, tendo como padrinhos seus tios paternos, dona Emerlina de Borborema, e o Dr. Colatino de Borborema (médico) e, como madrinha de carrego, sua avó dona Carolina de Borborema. Foram também seus tios o Dr. Augusto de Borborema, Juiz de Direito e mais tarde Desembargador em Belém do Pará, e o Capitão Tranquilino de Borborema, que tomara parte ativa na guerra do Paraguai.

          Iniciado nas primeiras letras foi o menino Lafayette cursar o Colégio São Salvador, que tinha como Diretor o Dr. Adolfo Frederico Tourinho e onde fez todo o primário, concluindo-o com distinção de novembro de 1894. Terminada essa primeira fase de seus estudos e feito os Preparatórios, ingressou na Faculdade de Direito da Bahia, onde colou grau de Bacharel em Direito no dia 11 de dezembro de 1905.

          O amor pela carreira que abraçara era uma constante em sua vida, tendo logo se iniciado na prática da advocacia, preparando-se, ao mesmo tempo, para o cargo de Promotor do Estado do Paraná, para o qual tinha recebido um convite. Mas o destino tem as suas teias como as de um imenso aranhol.

          Uma noite, em visita à casa de uma família amiga, foi o jovem recém-formado apresentado a um moço que tinha uma farmácia num arraial chamado TABOCAS, no Município de Ilhéus. Descreveu-lhe o recém-apresentado o que era o arraial: uma casa aqui, outra acolá. Terra de barulho e muito tiro, de jagunços que matavam, invadiam fazendas, incendiavam propriedades. E onde praticamente não havia Lei.


          Passaram-se meses. A descrição daquela terra sem lei, violenta, calara no espírito do jovem advogado.


          Um dia soube que o arraial de Tabocas desmembrado do Município de Ilhéus, havia passado a Vila e Termo com o nome de ITABUNA, (setembro de 1906), e que o Juiz Preparador havia deixado o cargo logo depois de empossado. O seu idealismo mostrava-lhe que aquela era a terra onde havia de trabalhar. A sua arma não seria o trabuco, mas a pena, pois no papel estava a grande arma e no Direito a grande força. Foi então ao governador do Estado pedir a sua nomeação para aquela vaga. Respondeu-lhe S. Excia. Que, dada a violência da política naquela vila, ele era muito jovem para ocupar o cargo.

          Quis ainda o destino que o jovem Lafayette se encontrasse pouco depois com um colega de turma, a quem falou de sua frustração de não poder trabalhar na vila de Itabuna.

          - Por isso não, disse-lhe o amigo. Está aqui, na capital, o mais importante chefe político da Vila, a quem posso lhe apresentar, pois uma filha dele é casada com um parente meu.

          Tudo combinado. A esperança renasce. Não demorou e as apresentações foram feitas.

          O encontro se deu num Cartório de Salvador.

          - Dr. Lafayette, este senhor aqui é um importante político no Sul, Coronel FIRMINO ALVES, um dos fundadores de Tabocas.

          - Muito prazer, Coronel. Gostei muito de ser apresentado ao senhor, pois soube que foi instalado o Termo de Itabuna e eu pretendia advogar por lá.

          - Doutor, o senhor é muito moço. Mas estamos precisando de advogado naquelas bandas. Se quiser ir para lá, estou ao seu dispor no que possa ser útil.

          - E o que tem de bom por lá, Coronel?

          - Só o rio Cachoeira, para se tomar banho. – E sorriu -, o convite está feito. Se quiser, poderemos ir juntos na próxima semana, quando embarco para lá. Sabe, o transporte é muito difícil, se perdermos a próxima barcaça só daqui a um mês passará um vapor. Aqui está o meu endereço em Salvador, onde pode me procurar caso resolva mesmo ir.

          O jovem Doutor não dormiu direito aquela noite. Iria conhecer de perto a tão decantada terra de violências e política acirrada.

          Urgia uma resposta definitiva, pois o Coronel Firmino estava prestes a voltar. Mas a opinião da família pesava. Enfim, tratava-se do Sul do Estado, onde a comunicação não era fácil, vapor só de mês em mês e a fama era a pior possível.

          Com determinação, o jovem Lafayette logrou a compreensão da família com uma promessa: retornar a Salvador, dentro de um ano, caso não se desse bem.

          Era a primeira vez que ia deixar a sua querida Bahia, a sua família e também a primeira vez que se metia em tamanha aventura. Tinha 24 anos incompletos.

          No segundo encontro com o Coronel Firmino Alves, ficou tudo acertado, dia da viagem, meios de transporte e hospedagem.

          O que motivava o jovem advogado nestas terras do Sul?

          Desejo de riqueza? Não. Nunca pensou nisso. O dinheiro nunca cegou os seus olhos.

          Ambição política? Também não. Caráter por demais íntegro, espírito reto para se imiscuir nas artimanhas da política de então.

          Mas a vila de Itabuna não era uma aventura às cegas. Temperamento tranquilo, ponderado, o jovem Lafayette veio consciente da seriedade do passo que ia dar, dos perigos que ia enfrentar, dos riscos que corria numa terra onde cada “pé de pau” podia representar a morte, onde as “repetições” eram arrastadas ostensivamente pelas ruas enlameadas, onde facções políticas se digladiavam e onde a vida de um homem valia tanto quanto a vida de um passarinho. Era o domínio da prepotência, da força do poderoso contra o fraco.

          Ao tomar a decisão de embarcar, estava trocando o conforto da família pela simplória pensão se seu Osório. A tranquilidade da sua Bahia pelos sobressaltos dos tiroteios e assassinatos da vila.

          Só quem faz da sua profissão um ideal, só quem é capaz de enfrentar a violência física tendo como arma unicamente a força moral, só quem é capaz de lutar contra os prepotentes em defesa dos fracos com a fé inabalável na Justiça pode ter coragem de enfrentar com destemor situações tão adversas. Só o idealismo de quem acredita na força da justiça e faz do Direito o apanágio de sua vida.


(LAFAYETTE DE BORBOREMA - UMA VIDA, UM IDEAL)
Helena Borborema

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HELENA BORBOREMA - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)
“Filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra’” (Cyro de Mattos).


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