Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador Carlos Pereira Filho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carlos Pereira Filho. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de agosto de 2022

A LUTA CONTINUAVA – Carlos Pereira Filho


            

               Nesse tempo, Henrique Alves negociava na “Loja Sempre-Viva”, na estrada do Banco da Vitória. Já se falava que ele além de corajoso, era homem duro; quando não gostava das coisas opunha o seu veto “à moda inglesa”.

            A “Gazeta de Ilhéus” publicou como escândalo o bárbaro assassinato de José Grande. Assassinado, castrado, cortada a língua, retalhado aos pedaços e queimado numa estufa. O jornal bradava pedindo providências, clamando justiça, sem todavia anunciar o nome do mandante do crime. Dizia em letras grandes ”O mandante deste bárbaro crime, deste miserável assassinato, é demasiadamente conhecido, reside à beira da estrada, é protegido da situação dominante. A polícia precisa punir esse monstro, que mata, que castra, que tripudia sobre o corpo de sua vítima vencida, morta”.

            Quinze dias depois da notícia, depois do alarma, apareceu, em Ilhéus, no jornal, acompanhando José Grande, em pessoa, vivo e fagueiro, Henrique Alves. Apresentou ao redator Laudelino Pimentel o José Grande, que fora assassinado, castrado... E explicou o equívoco. José Grande estava foragido no Estreito d’Água, morando lá. Tinha estado evidentemente em sua fazenda, preso, roçando um pasto, para pagar uma dívida. À noite fugiu, desapareceu e se não fosse “ter morrido” tão barbaramente, o teria deixado onde se encontrava no “Estreito d’Água”...

            Em Tabocas, a luta continuava forte, apaixonada, desassistida do Poder Público ilheense. Firmino Alves publicou um protesto enérgico no “Jornal de Notícias”, de Salvador, no qual alegava que, em 1879, quando Tabocas possuía somente oito casas, seu pai pedira uma escola a Domingos Lopes e este nomeara o Professor Joaquim Marcelino que foi o primeiro mestre do povoado. Agora solicitava escolas e nem resposta. Os dominadores de Ilhéus só queriam impostos e humilhação ao povo.

            A resposta a esse atrevimento não se fez esperar. A residência de Firmino Alves e dos seus amigos Paulino Vieira Nascimento, Teófano Correia e Lúcio Pereira de Santa Rosa foram atacadas a tiros de revólver, tendo uma bala quebrado um vidro da janela da casa de Firmino Alves, considerada um palacete, naquele tempo.

            Também os índios davam investidas, no interior. De Macuco, Cândido Pinto informava que os índios flecharam uma moça de nome Zenosinda, em cima dos rins, quando lavava roupa no rio, e que estava mal.

          E dias depois chegava ao distrito a notícia do assassinato de Cândido Pinto apontado como um dos matadores de João Carlos Hohlenverger, de Ilhéus. Estava Cândido Pinto sentado depois do jantar na porta com uns amigos que foram à festa do batizado do seu filho, naquele dia tranquilamente conversando, quando inesperadamente recebeu um tiro, fechou os olhos e morreu.

            Outros dois novos acontecimentos se registraram em Tabocas, em contraste com os dias agitados. A chegada de Augusto Juvenal para a agência dos correios, arranjada por Firmino Alves, através dos amigos de Salvador, e a visita de Bento Berilo de Oliveira, que examinava as possibilidades da construção da estrada de ferro, da qual era concessionário.

            Rezam as crônicas que Bento Berilo se espantou de ver tanta gente armada numa terra de trabalho e de progresso, que naquele tempo possuía um comércio superior ao da cidade ilheense, registando mais de cento e cinquenta casas comerciais e seiscentas e cinquenta de morada, com uma população calculada em cinco mil pessoas. Uma localidade que se projetava a passos acelerados, rumo a um futuro promissor, com a produção de cem mil sacos de cacau.

 


(TERRAS DE ITABUNA – Cap. IX)

Carlos Pereira Filho

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

 

UMA FIGURA DE AVENTUREIRO – Carlos Pereira Filho

 


            A notícia correu de boca em boca. O tenente que foi preso, no Posto Indígena, regressou com os soldados, desarmados e humilhados. As armas ficaram em poder dos comunistas, dizia o tenente, que são muitos e se acham entrincheirados.

          Todo mundo rumou para o quartel para ver a cara avacalhada do tenente Salatiel e os seus soldados, mas o quartel estava impedido com sentinelas de armas na mão. Um murmúrio se espalhava no seio da multidão, através de comentários de todos os feitios e para todos os sabores.

            Na farmácia do Tourinho, sentado num banco, Henrique Félix contava ao farmacêutico e a Carlos Sousa o que acabava de saber: que tinha chegado uma força do Governo para seguir rumo o Posto Indígena. Havia desembarcado no cais de Ilhéus e no dia imediato se transportaria para o campo de operação. Também narrou, pedindo reservas, mais uma das do doutor Coriolano Antunes. A família do fazendeiro, que ele mandara prender como comunista, mulher e sete filhos menores havia procurado o Dr. Coriolano. A mulher se ajoelhara aos seus pés e pediu pelo amor de Deus que mandasse soltar o seu marido. Confessou eu há dias ela e os filhos não comiam nem dormiam. Tivesse paciência, fosse bom, providenciasse a liberdade do marido. Ele não havia praticado nenhum mal, nunca foi comunista, nem sabia que diabo significava comunismo.

            O Dr. Coriolano, fumando um charuto barato, com uma cara achinesada e um cabelo de pastinha caído na testa, disse à mulher, fingindo sentimento, “que não podia fazer coisa alguma, a situação estava negra, em estado de guerra, com garantias constitucionais suspensas. Tinha pedido à polícia que não maltratasse o preso, seu vizinho, seu compadre, que prezava tanto. Não havia outro jeito senão aguardar com paciência o tempo passar. E depois, com aquele movimento do Posto Indígena, as coisas pioravam, falavam até em fuzilamento.”

            Novo berreiro da mulher, dos filhos. Novo apelo. Pelo amor de Deus, salvasse o marido, daria tudo pelo sua salvação, até a roça que era o pão daquelas crianças. Ao ouvir a palavra “da roça”, o Dr. Coriolano estremeceu. A caça estava chegando para o alvo mansamente, sem suspeitar de nada.

            E quando a comadre, depois de despedir-se ia saindo, com lágrimas nos olhos, o dr. Coriolano chamou-a e disse: - Vá à cadeia, tome aqui esta carta, comunique ao seu marido que tem de vender a fazenda senão ele será condenado como comunista e fuzilado.

            A mulher foi e encontrou o marido sentado, junto a outros presos. Narrou-lhe todo o episódio e a solução que ela e ele tinham de tomar para se livrarem daquela triste situação. O marido acabrunhado concordou. O irmão havia-lhe aconselhado a mesma coisa. Somente, agora, estava compreendendo a razão da sua detenção. Vendeu a roça miseravelmente barata ao próprio dr. Coriolano, que ainda ficou com uma parte do dinheiro, para mandar o delegado rasgar o processo e que jamais entregou ao delegado.

            Esses são os bons, concluiu Henrique Félix. Esse doutor foi o cidadão mais ladrão que apareceu nestas terras. E ainda tem defeitos piores, gosta das mulheres dos outros, adianta-se com as mocinhas e fala mal de todo o mundo, ataca a honestidade de toda a gente.

            Tourinho, que até então se conservava calado, pigarreou e falou: - Esse sujeito, quando chegou nesta terra, era um morto a fome, recebia consultas de vinte cruzeiros e ainda exigia comissão nas receitas.

            Mas, reatando o fio dos acontecimentos, no dia seguinte chegou a tropa do governo. Centenas de soldados, passaram para Itapé, rumo ao Posto Paraguaçu. O ataque foi cerrado e violento. O Posto foi cercado por todos os lados e atrocidades se cometeram de toda sorte. Mortos e feridos a granel. Os chefes do movimento fugiram para Minas Gerais e a paz voltou a reinar no município.

            Dos tristes noticiários espalhados pela imprensa do País, com os devidos exageros, as responsabilidades caíram nas costas do interventor federal Juraci Magalhães e dos governantes seus auxiliares.

             O dr. Coriolano ganhou a batalha, alargou os seus domínios no Posto Paraguaçu e “comprou” a fazenda de cacau, do compadre que mandou meter na cadeia como comunista.

            E ainda ficou com o gadinho dos comunistas corridos do Colônia, seus vizinhos de fazenda.

 

(TERRAS DE ITABUNA – Cap. XXV)

Carlos Pereira Filho

* * *

domingo, 31 de julho de 2022

RECORDAÇÕES DE UMA TERRA MARAVILHOSA - Carlos Pereira Filho



            Carlos Sousa, durante muitos anos, viveu em Itabuna. Teve roça de cacau, fazenda de pecuária, indústrias, e um grande número de amigos. Desfrutou das melhores condições sociais, políticas e econômicas. Não foi feliz, fracassou no comércio, na lavoura, na pecuária. Fracassou, onde todos prosperavam. Faliu, onde todos enriqueceram. Perdeu o nome, ele que poderia ser considerado um homem de bem e onde um simples trabalhador rural conseguia, em pouco tempo, o pomposo título de “coronel do cacau”, título de riqueza e consideração.

            Afastou-se de Itabuna, sem uma queixa, sem mágoa, sem ressentimento. Não havia amealhado o ouro, mas havia vivido numa terra maravilhosa, na convivência de seres humanos, dotados de qualidades, de inteligência, de capacidade de trabalho, um gênio empreendedor.

            Jamais poderia esquecer-se de Oscar Marinho, das suas palestras macias, sutis, maliciosas, da sua objetividade e daquela expressão que usava, quando confessava que tinha dois corações, um do lado direito, que funcionava para os negócios, outro do lado esquerdo, que funcionava para a vida do seu corpo. Carlos Sousa só possuía o coração do lado esquerdo.

            E de outros velhos companheiros, como Zacarias de Sousa Freire, de Ápio Lopes, Nicodemos Barreto, Artur Nilo de Santana, Astério Rebouças, Alfeu Suzart de Carvalho, Martinho Conceição, lutadores do progresso itabunense. Isto para não falar mais do Tourinho da farmácia, das suas palestras, das suas má-criações.

            Nunca ouviu Tourinho falar bem de um companheiro. Dos santos, ele só se referia bem a São José; ao resto não dava a menor atenção. Num tempo em que todo mundo respeitava os “responsos” do Moura Teixeira, para curar moléstias e picadas de serpentes, Tourinho mangava abertamente desses “milagres”.

            Gente ordinária, Carlos Sousa havia também conhecido, em Itabuna, mas preferia esquecê-la, como aquele pecuarista do “Pau Vermelho”.

            Que homem estúpido, malcriado, cheio de si, como se ele no invés do dinheiro, valesse alguma coisa. Também essa gente servia para contraste. Se não fosse um cidadão miserável como esse, como poderia avaliar a bondade de um cidadão, como foi Astério Rebouças?

            Tudo isso pertencia ao passado. Agora, em outra terra, Carlos Sousa tratava de uma vida, exercia outras atividades. O mundo não mudava. Sempre foi assim. No particular, Moura Teixeira talvez estivesse com a razão, quando afirmava que, neste vale de lágrimas, a vida é passageira, é uma provação.

            Em Itabuna ele, Carlos Sousa, passara uma parte da sua vida. Certamente o espírito que vivia no seu corpo era aquele que lhe havia revelado, numa sessão, “D. Ceci”, o espírito de um insatisfeito. Um espírito  que lutava para possuir uma fortuna imensa, para acumular riqueza enorme. Tanto que se metia em dezenas de negócios, com uma ânsia desesperadora de enriquecer. Não se contentava com o pouco, queria muito, dominar o muito, e por isso mesmo caíra como pássaro sem asas. Antes assim. Pior seria que seu espírito fosse atormentado pela ganância furiosa e a sovinice miserável que dominavam aquele médico, Dr. Coriolano Antunes. Que monstruosidade, que sofrimento! O homem  só queria ganhar e não gastar. Era de uma miserabilidade incompreensível. E como sofria a sua mulher! Coitada, não tinha direito a nada, nem a se vestir, nem a comer, nem a se divertir e, ainda, era obrigada a suportar a falta de respeito do marido, com as amas, as visitas, que frequentavam a sua casa. Parecia a Carlos Sousa que a provação do Dr. Coriolano se revestia de uma pena mais severa, mais dura. Quantos corpos, quantas vidas, não necessitaria o espírito do Dr. Coriolano para purificar-se até ao ponto de estender a mão para dar uma esmola?

            Enfim Carlos Sousa não queria pensar muito nestas coisas, com medo de perder o juízo. Estava pobre e fora de Itabuna.

            Consolava-se, é verdade, com as revelações espiritualistas, mas, no fundo, tinha a certeza de que tudo isso era consequência da luta materialista e capitalista. Luta cruel da concorrência, na qual um empobrecia, outro enriquecia. Um acumulava, outro se esvaziava. Homens e nações se empenhavam nessa batalha tremenda de amontoar riquezas e, quando um homem, ou uma nação conseguia amealhar, outro homem e outra nação sofriam as consequências e eram levados à miséria. Os resultados se positivavam em desequilíbrios sociais que levavam à fome, às revoluções e à guerra, de quando em quando.

            Falava-se num mundo melhor que a Rússia estava criando. Não acreditava muito nesse mundo povoado pelos homens secularmente defeituosos.

            Os homens, como as feras, como as serpentes, possuíam qualidades que o nascimento dava e somente a cova tirava. Quantos homens, antes e depois de Cristo, tinham imaginado um mundo mais justo e mais tolerante, no qual a infância não sofresse e a velhice não permanecesse abandonada?

            A cobiça humana sepultava os sentimentos bons. Muitas vezes ele sonhava que a humanidade era um pantanal sem fim, no qual brotava, , de longe em longe, a flor da virtude representada num lírio, alvo, como a luz da manhã, que entrava pela janela do seu quarto na casa que morava â beira do oceano, no bairro proletário do Malhado, na cidade de Ilhéus. Pensava nestas coisas e se contentava. Afinal de contas a felicidade não estava na riqueza como não estava na pobreza. Encontrava-se na paz do espírito. Não havia nas suas mãos dinheiro que desse para comprar o que desejava de luxo ou capricho; existia, todavia, espaço para o seu espírito elevar-se, pairar no reino das coisas belas e maravilhosas, que somente a inteligência pode construir, para lenitivo e paz da consciência.

 

(TERRAS DE ITABUNA – Cap. XXIX)

Carlos Pereira Filho

terça-feira, 13 de julho de 2021

ELEVAÇÃO A CIDADE – Carlos Pereira Filho


Elevação a cidade

 

          Comércio, lavoura, desdobravam-se numa progressão vertiginosa, fazendo convergir para o município as atividades produtoras da vizinhança pois já naquele tempo, a cidade itabunense se esboçava como o centro do movimento da região cacaueira.

          Uma festa extraordinária se realizou com a elevação de Itabuna à categoria de cidade. Deixou de ser Tabocas para ser vila de Itabuna e passava de vila para cidade pela Lei número 807, de 28 de julho de 1910, graças à iniciativa dos senadores Arlindo Leone, Batista de Oliveira e da assinatura do Governador João Ferreira de Araújo Pinho.

          Rezam as crônicas que a sessão do conselho municipal para instalação se efetuou no dia 21 de agosto de 1910, com a presença dos conselheiros Tertuliano Guedes de Pinho, Antonio Gonçalves Brandão, Adolfo Maron e Américo Primitivo dos Santos. Falaram muitos oradores, depois que o presidente do conselho leu a lei e deu por instalada a cidade. Discursaram José Veríssimo da Silva Júnior, Filadelfo Almeida, Artur Nilo de Santana e dr. João Batista Soares Lopes.

          Mais de uma dezena de senhoras assistiu ao ato solene da instalação. Na rua, o povo vibrava, bebia e gritava, tendo um cidadão, de apelido “Cambucá”, cantando o Hino Nacional e dançando quadrilha à frente das filarmônicas. As filarmônicas tocaram seus dobrados e andaram em tréguas, em homenagem à grande data municipal.

          Os jornais “Correio de Itabuna”,  “A Brasa”, “O Itabuna” comemoraram o feito com artigos de fundo.

          “A Brasa”, de Genolino Amado, aproveitou a oportunidade para dizer que “aquela obra não era dos trânsfugas, dos traidores, dos hereges, dos ingratos. Aquela obra pertencia aos homens esclarecidos, que pensavam no bem público, na grandeza da terra, na independência de Itabuna”.

          O pior sucedeu lá para os lados das “Bananeiras”, rio acima. Um protegido da situação provocou um barulho e matou um empregado do Coronel Henrique Félix. Matou-o estupidamente com um tiro na cabeça e deu um viva a Itabuna.

          Dentro da vida acidentada, de intranquilidade pública, da falta de meios de comunicações, dentro de todas essas dificuldades, o município desenvolveu-se, levado, ajudado pelos seus trabalhadores, que eram os proprietários das suas terras plantadas de cacau.

          Não há na história do Estado o exemplo de um povo mais afeiçoado ao progresso. Para o itabunense não existia o perigo das doenças, dos homicídios, dos assaltos, das feras, das serpentes. Para ele só havia um objetivo: o trabalho criador da riqueza, as matas que derrubava e plantava cacau, os terrenos que coivarava e semeava o cereal, a execução, enfim, de um plano elaborado, riscado na consciência de cada cidadão que transformava a floresta infernal do cacau no paraíso das suas ambições. Assim é que o itabunense fez a riqueza da sua terra, a grandeza do seu município, lutando, desbravando, resistindo e insistindo até a vitória final. Quantos deles não morreram nessa imensa empreitada, quantos deles não sucumbiram nessa tarefa ciclópica de criar e organizar um dos mais importantes núcleos de produção e de renda do País?

          Firmino Alves estava pensando justamente no heroísmo da sua terra e do seu povo, quando recebeu de Ilhéus uma carta de Rodolfo de Melo Vieira, na qual avisava que havia chegado uma leva de sergipanos, e que, no dia seguinte a embarcaria para Itabuna. Rodolfo de Melo Vieira, comerciante conceituado no município ilheuense, era o agente consignatário de Firmino Alves na importação que fazia de sergipanos. Acabou de ler a carta e sorriu. Diante de si passavam muitos cavaleiros, montados em bons e tratados cavalos esquipando rio abaixo e rio acima, em comemoração àquele dia festivo.

          Olhou e sorriu. Entre os cavaleiros estavam Ramiro, João e Antonio, sergipanos que tinham chegado com os sacos às costas em 1904, para Tabocas. Para entrarem nas matas ele os havia suprido de carne, farinha, feijão, um machado, e um facão.

          Estavam agora afazendados, possuíam cavalos, corriam para baixo e para cima, com pose de coronéis fazendeiros, diferentes daquelas pálidas criaturas que saltaram dos barcos, amarelos e enjoados, com olhares humildes e interrogativos, em busca de trabalho e de pão, numa terra desconhecida.

 

 (TERRAS DE ITABUNA Capítulo XII)

Carlos Pereira Filho

* * *

segunda-feira, 8 de junho de 2020

ANOS AGITADOS – Carlos Pereira Filho


   
      Entre 1920 e 1930 o município havia crescido muito. O seu povo trabalhava a passos acelerados. O comércio se firmava como um dos mais importantes da região e a produção cacaueira se aproximava de duzentos mil sacos.

            Uma enchente muito grande do Cachoeira ameaçou invadir a cidade, tendo causado sérios estragos nos armazéns dos compradores de cacau, na Rua da Jaqueira, o que muita gente tomou como castigo contra os especuladores.

            Nesse períodos a política itabunenses esteve muito agitada. As lutas entre Gileno Amado e Henrique Alves assumiram, muitas vezes, proporções alarmantes. As paixões cresceram muito, a tensão entre os partidos se extremou demasiadamente.

            Houve choques de jagunçada, mortes de lado a lado. Boatos de toda espécie. Intrigalhada a mais terrível. Nomes como o de Antônio Pereira figuravam nos cartazes da valentia. Carlos Cotó, Manuel dos Brejos, Eduviges Cauassu, comandavam os acontecimentos por detrás das pontas das ruas e nos distritos distantes. A Rua da Palha tomou fama. Macuco e Ferradas não ficavam atrás. Se Henrique Alves era forte em Ferradas, Gileno Amado fortíssimo em Macuco. Palestina, ponto mais extremado, agasalhava a reserva dos cabras valentes, que ali estacionavam de prontidão, com Quintino Marques na zona divisora, entre a terra do cacau e o sertão de Conquista.

            Entre esses anos passaram pela intendência de Itabuna, José Kruschewsky, Laudelino Lorens, em substituição a Gileno Amado, Henrique Alves dos Reis e Benjamim de Andrade, que saiu com a revolução de 1930.

            Dois episódios dominaram a opinião pública no período agitado desses dez anos. O ataque ao Tiro de Guerra, repelido pelos atiradores comandados pelo Sargento “Massaroca”, um preto valente do Exército Nacional, e o cancelamento da agência do Banco do Brasil, recém-criada, com a devolução  do material já transportado e do seu gerente, que ali se encontrava para a instalação da respectiva agência, façanha de um político.

            A grita foi geral e infrutífera. O chefe político, deputado federal, possuía força e voltou o material da agência, cancelando a sua fixação. Tudo isso porque, naquela época, o representante do Banco do Brasil, no comércio local, tinha interesse de manter o dinheiro do Banco em sua mão, com o qual comprava cacau e especulava na região, tanto valia, naqueles anos, a força dos poderosos, possuidores dos meios econômicos e políticos, contra os direitos da coletividade.

            Até mesmo a influência de Francisco Fontes da Silva Lima, tradicional defensor dos interesses comerciais de Itabuna, de coisa alguma serviu. E olhe lá que Francisco Fontes, “seu Fontes” como ainda é conhecido, pesava na balança, era respeitado e considerado desde quando, em 1908 ele e outros companheiros haviam constituído uma sociedade para defender o comércio, contra os impostos de consumo do Estado e dos abusos de um coletor.

            Não se falava mais da influência de Firmino Alves. O velho chefe itabunenses estava como que aposentado. Ficara até pobre. Já cumprira a sua missão. Descobriu e povoou o município e o perdeu para outros donos, outros chefes.

            Assim é tudo na vida; provisoriamente de um proprietário, depois de outro, sucessivamente, correndo gerações. No particular, Tourinho tinha razão, quando criticava a ambição de alguns lavradores. Costumava perguntar a Oscar Marinho e a Zezinho Kruschewsky para que tanta luta, tanta usura? Amanhã morreriam e as fazendas iriam pertencer a outros, até a um estranho. E citava o exemplo de um sírio ladrão como só ele que ficara milionário, emprestava dinheiro a juros de judeu, acionava, executava, tomava as fazendas, comprava todas as joias que podia. Vivia com a mulher e filhos, somente para a família, dentro da fortaleza de seu egoísmo, da sua ambição desmedida. De uma hora para a outra morreu. E anos depois a viúva, ainda aproveitável, se casou com um moço mais jovem, simpático e risonho. E foi aquela desgraça. Jogou na roleta o dinheiro acumulado pelo sírio sovina e, depois, abandonou a mulher, pobre e doente, atrás de uma mulher vagabunda.

 (TERRAS DE ITABUNA Capítulo XXI)
Carlos Pereira Filho
* * *

sábado, 29 de fevereiro de 2020

A REVOLUÇÃO DE ITABUNA – Carlos Pereira filho


            Esta falada revolução de Itabuna, explicava Carlos Sousa ao seu companheiro de palestra, o Tourinho da farmácia, tinha interpretações diversas, mas a interessante é a que contava Adolfo Lima, que foi secretário da Prefeitura. Esse Adolfo Lima, ponderou o farmacêutico, é cidadão inteligente e preparado. Viveu por aqui decentemente, metido nessas políticas e saiu limpo, sem roubar e sem matar, para viver em Ilhéus.

            A história da revolução, repetiu Carlos Sousa, é ótima. O prefeito Antônio Gonçalves Brandão começou a manobrar safadamente para fazer um candidato ao seu gosto e por isso rompeu com o partido que sustentava a candidatura de José Kruschewsky. Do lado de Brandão formaram Paulino Vieira, Afonso Ligouri, Astério Rebouças, Filadelfo Almeida. Firmino Alves e Henrique Alves ficaram na moita, soprando a fogueira para queimarem Zezinho Kruschewsky e Gileno Amado.

            Em Salvador, as coisas não andavam boas, nem poderiam andar, com a política fervendo, entre o Governador Moniz e Arlindo Leone, de quem o deputado itabunenses era correligionário e amigo. Um dia, Antônio Moniz chamou ao palácio Gileno Amado e disse-lhe: “Pelo que vejo você está sozinho, em Itabuna”. Gileno ouviu, queimou de raiva e saiu do palácio. Efetivamente, estava sozinho, ou quase sozinho, com a traição do prefeito e dos amigos. No passeio do palácio, ao sair, encontrou o sargento Belarmino, um caboclo grosso e simpático, cara de homem de coragem.

            Chamou Belarmino e disse-lhe: - Belarmino, você tem coragem para cumprir uma missão arriscada?

            - Tenho até para morrer, é questão do senhor determinar.

            - Então, ouça, Belarmino: pegue o seu fuzil, embarque no vapor que sai hoje, para Ilhéus. Em Ilhéus tome o trem, vá a Itabuna e entregue esta carta ao prefeito, vivo ou morto.

            - Vivo ou morto, eu ou o prefeito? – indagou espantado, o sargento.

            - Um ou outro, Belarmino, como preferir, o caso é que entregue a carta.

            Ordens dadas, ordens cumpridas. Belarmino apanhou o fuzil, encheu a capanga de balas, despediu-se da amante que morava numa casa da Rua da Misericórdia, beijou-a e abraçou-a, arranjou umas fitas milagrosas do Senhor do Bonfim e embarcou no “baiano” para Ilhéus, na terceira classe, cheia de sergipanos enjoados. Uma viagem desgraçada, vento sul contra, mar pela frente, prenúncio de maior temporal. O comandante do navio Jequitinhonha, um homem vermelho de nome Correia, quanto mais o navio jogava, mais ele bebia.

          No dia seguinte saltou em Ilhéus, e foi descansar no quartel para viajar no dia imediato, no trem das sete horas. De vez em quando apalpava o dinheiro que o deputado lhe dera, cem mil-réis e pensava na tal ordem – “ou vivo ou morto”. Era o diabo, mas cumpriria a ordem, “ou vivo ou morto”. Teve uma ideia. Foi à estação e comunicou para Itabuna, pelo telefone, que no outro trem, estaria lá com uma força.

            Realmente, no dia marcado às 11 horas saltou do trem na estação de Itabuna com o fuzil na mão, e a passo militar. A estação estava deserta. Um ou outro curioso, um ou outro espião. Aproximou-se de um soldado que deparou na rua e ordenou que o acompanhasse e disse alto para ser ouvido: “a tropa vem aí”.

            Com o companheiro, marchou para a casa do Prefeito Brandão. Lembrou-se da recomendação: “vivo ou morto”; apalpou a carta, o dinheiro, sacudiu a capanga para ouvir o tinir das balas, umas contra as outras, e enfiou pela porta da residência do Prefeito, apartando os homens de cara feia que encontrava no caminho. Perfilou-se diante do prefeito, entregou a carta e disse marcial: “Dê-me, as ordens”. Pode retirar-se! Exclamou o prefeito. E Belarmino, militarmente, saiu, como havia entrado.

            Perto da Rua do Lopes, observou que um grupo marchava em sua direção e, incontinenti, atirou contra o grupo que correu, tendo um jagunço perdido o chapéu arrancado por uma bala. Ao mesmo tempo os “cauassus”, que guardavam a residência de José Kruschewsky, começaram a atirar também e estabeleceu-se um tiroteio do diabo. Um sujeito passou correndo e gritou: “A tropa da polícia tomou a cidade, está chegando por todos os lados”.

            Paulino Vieira, Henrique Félix correram, fugiram ou se esconderam. Belarmino soube da notícia, marchou para o esconderijo dos jagunços foragidos de Paulino Vieira e nas pastagens ao lado apanhou todo o armamento jogado fora na carreira da fuga. Estava terminada a revolução.

            Foi ao telégrafo e passou o seguinte despacho: “Deputado Gileno Amado estou vivo, movimento dominado. Mande as ordens”.

(TERRAS DE ITABUNA – CAPÍTULO XVI)
Carlos Pereira Filho

* * *



sábado, 27 de julho de 2019

TERRAS DE ITABUNA: ITABUNA MODERNA – Carlos Pereira Filho


Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original

Itabuna Moderna

            Itabuna moderna é a que vemos, rodeada de prestígio econômico, social e político, sendo sede de uma Secretaria de Governo, ocupada, justamente, por um dos seus velhos obreiros, o Dr. Gileno Amado, que ainda brilha como astro de primeira grandeza.

            É a cidade, eixo da região do cacau e da pecuária. Centraliza o maior movimento das terras do Sul e do Sudoeste baiano. É como se fosse o coração da terra do cacau e do gado. Em comércio, em cacau e pecuária, seu avanço, como ressaltamos, se demonstrou espetacular. Uma síntese rápida mostra o que escrevemos, quando registramos que algumas dezenas de aviões cruzam os céus e pousam no seu campo; os seus transportes terrestres conduzem mais de 900 mil pessoas por ano; as suas 180 escolas de cursos elementares e superiores, com 15 mil alunos; as suas rendas municipais chegam a 80 milhões de cruzeiros; a sua população alcança 100 mil; a sua justiça togada é considerada e respeitada; o seu serviço bancário eficiente; e o seu serviço de assistência social hospitalar um dos melhores do País. Ao lado de tudo isso, de fortunas que produzem trezentos mil sacos de cacau, criam trezentas mil cabeças de gado e mais de cento e cinquenta mil de outras espécies; o progresso marcha a passo acelerado, com indústrias que aparecem, e os prédios que surgem em quantidade e o aspecto, não mais de uma cidade do interior, e sim de uma pequena metrópole que se ergue e na cúpula desta movimentação a evolução da cultura, da socialização, do sentido de bem-estar, da tranquilidade pública.

            Seu capitalismo perdeu, em grande parte, a fórmula ortodoxa e se inclina para ajustar-se à realidade do século que vive. O trabalhador não tem o que deveria possuir de assistência, de conforto, de amparo financeiro que dê para uma existência compatível com a dignidade do ser humano. Mas não é também um pária, um marginal, um ente desprezível, um animal de trabalho. Uma nova mentalidade se espalha, e tende a dominar, amoldando, convencendo o espírito do fazendeiro que beneficia as suas instalações, as residências dos trabalhadores e paga o salário mínimo. Melhor não se apresenta este problema pela falta de orientação, de uma política mais objetiva, mas socializante dos governantes nacionais, responsáveis pelo nível de vida do povo, nas cidades e nos campos. Não conhecemos por este País, onde temos palmilhado, maior avanço e mais rápido no atendimento das reivindicações dos assalariados , se compararmos o trabalhador do presente com o do início do século, ou mesmo anterior ao ciclo da primeira guerra.

            Quão diferente é esta Itabuna de hoje, de Tabocas do passado ou daquele povoado que surgiu com Militão Francisco de Oliveira, Firmino Alves, Maximiano Oliveira, e outros, à margem do Cachoeira, no lugar Marimbeta.

            Itabuna moderna é o mais acentuado espetáculo de crescimento, de desenvolvimento, de organização na região do cacau. Cidade encantadora, com o seu casario em destaque, na linha de construções novíssimas, com o seu comércio em prosperidade, com as suas luzes à noite coloridas em anúncios luminosos, com as suas morenas, as mais belas, por certo, das terras do cacau e os seus clubes sociais que orgulham uma civilização.

            Onde se encontram, para onde foram os seus pioneiros, como Olinto Leone, Henrique Alves, Firmino Alves, Tertuliano Guedes de Pinho, Tourinho da Farmácia, Dr. Ápio Lopes, Dr. Soares Lopes, Mares de Sousa, e Carlos Sousa?

            Passaram, morreram. O tempo os acabou, o tempo os desterrou, o tempo os esqueceu. Somente o tempo não venceu Itabuna. Ao contrário, tem dado a Itabuna a grandeza, a imponência, a fama. Parece que é uma filha dileta dele, que cria com carinho, com orgulho, com zelo, como Dona Senhora constrói, pedra a pedra, a Catedral de Itabuna.

            Ao contemplarmos os cinquenta anos de existência de Itabuna cidade, ao analisarmos o que fez o seu povo, o que construíram os seus administradores, pensamos nas responsabilidades que pesam sob os seus novos dirigentes.

            Encontraram eles uma terra cultivada, produtora, enriquecida, transformada em cidade importante, em eixo rodoviário, tudo isto feito num espaço de cinquenta anos, data passada da sua elevação a cidade, data em que Itabuna começou a sentir os efeitos dos seus bons destinos, com a autonomia conquistada.

            Tudo indica que continuarão a grande obra, tudo afirma que seguirão o curso desse grande rio que se avoluma em civilização, em progresso e prosperidade.

            Ai daquele que tentar destruir, sequer impedir a marcha favorável dos acontecimentos que vêm sendo impulsionados pela seiva fecunda de uma terra abençoada e impelida pelo sangue fervente dos seus obreiros.



(TERRAS DE ITABUNA Cap. XXX)
Carlos Pereira Filho
 ......

"TERRAS DE ITABUNA"

          Li com avidez e sumo interesse as noventa e nove folhas datilografadas, onde o jornalista Carlos Pereira Filho retrata em belo colorido, a imagem vida deste Município. Trabalho de fôlego, escorreito quanto ao vernáculo e feliz na escolha de pessoas e fatos que de modo mais estreito e direto formaram o amálgama de nossa vida, como elementos substanciosos à sua estática e dinâmica.

            O Objetivo a que se propõem o ilustre escritor, nessa colaboração valiosa as nossas letras e valiosíssima para as comemorações de nossos 50 hinário, é fielmente colimado em “Terras de Itabuna”. É interessante constatar se o que enriquece de ouro a nossa história, que a nossa formação socioeconômica “tem a coerência e a vitalidade da linha seguida pelos construtores de nossa pátria, sempre em luta por um Brasil melhor”.

            Em Cada linha das belas páginas desse magistral trabalho de real história, amenizada pela ficção, vê-se, com garbo, a grandiosa silhueta da alma itabunense, nos versos de Olavo Bilac lembrados pelo autor:

“Cada passada tua era um caminho aberto
Cada pouso mudado, uma nova conquista
Teu pé, como de um deus, fecundava o deserto”.

            Personalidade definida Desde o primeiro pulsar de sua vida bandeirante, o povo de Itabuna cresceu bastante, sabe o que quer e sabe para onde vai; ama demasiadamente a terra que tratava com suor de seu rosto, e, por isso, suores e lutas formaram sempre o dínamo de seu grandioso progresso, admirável não é estrutura da nacionalidade brasileira.

          “Terras de Itabuna” enche-nos De orgulho e deve ser lido com o mesmo carinho que devotamos ao glorioso passado, o mesmo interesse que dispensamos ao porvir.

            Em 2. III . 1960.

                                                               Pe. NESTOR PASSOS
                                                        Diretor da Secretaria de                                                                    Educação e Cultura de Itabuna


* * *

quinta-feira, 20 de junho de 2019

EVOLUÇÃO DE ITABUNA – Carlos Pereira Filho



              Muitas vezes Carlos Sousa conversava na farmácia com o Dr. Nilo de Santana, sobre o desenvolvimento extraordinário do município.

            Sem ajuda oficial, perturbado pela ação da política, pelos choques de ambições, que resultavam em assassinatos, assim mesmo crescia, se multiplicava em riquezas, se desdobrava em frente de trabalho. Principalmente depois das ligações rodoviárias o movimento se agigantava, o comércio aumentava, as pequenas indústrias se fixavam, os estabelecimentos de crédito cresciam, os lavradores possuíam uma mentalidade mais evoluída e tinham consciência do que se chamava solidariedade de classe.

            Mais de dez mil casas enchiam a cidade e a população não passava de noventa e seis mil habitantes, no município.

            Nas matas tudo estava povoado e cultivado. Ele, Carlos Sousa, na sua profissão havia percorrido a área do município. Conhecia a zona pecuária do Salgado e do Colônia, até a Fartura. Conhecia a zona do cacau de Jussari de Buerarema de Mutuns, de Ribeirão da Lama, do Boqueirão. Não existia nessa superfície territorial de 2731 quilômetros quadrados um palmo de terra ruim, inaproveitável. Onde acabava o cacau principiava o gado. A mentalidade de todo o cidadão era produzir e enriquecer.

            Havia o sentido de crescer e evoluir. Os “coronéis” ricos mandavam os filhos para as academias se ilustrarem. Não queriam que os filhos ficassem ignorantes como eles, que mal assinavam o nome. Nesse passo o município iria longe, muito longe, em civilização, em riqueza, em independência econômica. O cacau dava para tudo, pagava tudo, cobria as despesas e ainda sobrava algum dinheiro. O delegado Reinaldo Sepúlveda estava fazendo uma campanha muito grande contra o banditismo. Rolava a história do crime de Antônio Capenga, ligada à história do crime de José Luís, da Avenida Itabuna, na cidade de Ilhéus.

            Antônio Capenga tinha empreitado a eliminação de Garangau, seu filho de criação, que, por sua vez, empreitara um crime monstruoso, a mando de um fazendeiro de cacau, para se apoderar da propriedade de José Luiz, seu vizinho.

            Contava a imprensa que os contratados para o crime foram eliminados para não ficar uma pista.

            Um deles tomou uma sopa envenenada e morreu. Outro tomou um tiro e caiu fulminado. O último, Garangau, quando dormia tranquilo havia sido enforcado pelo pai de criação. E, por sua vez, o pai de criação, Antônio Capenga, desapareceu abatido a tiros e machadadas.

            A polícia estava atordoada.O doutor Reinaldo Sepúlveda junto ao regional de ilhéus, doutor Almir Brandão pinto, se esforçavam para descobrir o mistério que envolve tantas mortes, porém debalde.

            Chegaram a prender fazendeiros como Porfirio Ribeiro e tentaram um processo contra Otoniel Lima, mas não conseguiram coisa alguma.

            Esse Otoniel Lima era um homem forte, de uma natureza brava como as selvas do cacau. Nada o abalava, nem o demovia. Não tinha medo de coisa alguma, nem de polícia, nem de ameaças, nem de outro homem. Carlos Sousa gostava dele, pela lealdade e linha de conduta.

            Quando gostava, não via culpa nem crime nos amigos. Quando não gostava, era capaz de mandar matar, ou de matar pessoalmente.

            Que lhe importava que dissessem ser o autor de tantas mortes se não provavam coisa alguma?

            E não provaram nada, o processo rolou, foi para o tribunal e este mandou arquivá-lo e dele saiu inocente o acusado.

            Nessa época, a guerra europeia continuava acesa EO povo esqueceu os crimes cometidos. As forças aliadas se preparavam para o desembarque nas costas da França invadida e dominada.

            Quando o País entrou em guerra, os itabunenses se levantaram com o Brasil. Então, quando os navios foram torpedeados, os populares se revoltaram e prenderam os súditos do Eixo, invadindo e depredando a residência de dois alemães construtores, nazistas de primeira água.

            Até Emílio Niela, brasileiro nascido em Jequié, estava ameaçado de ser preso. A firma inglesa na qual era empregado havia muitos anos, aproveitou a oportunidade e o denunciou como italiano, porque assim se livraria do funcionário sem indenização.

            Niela provou que era brasileiro dos mais legítimos e continuou a desfrutar a sua liberdade, levando os exploradores ingleses a pagarem a sua indenização.

            Também esses ingleses eram conhecidos como os mais ferrenhos exploradores da lavoura cacaueira. Verdadeiros especuladores, que agiam no município como sugadores da economia. O chefe era um inglês, que morava nem Londres, e vivia dos lucros dos colonos brasileiros. Nunca havia plantado um pé de cacau e colhia sessenta mil arrobas, nas fazendas tomadas aos cultivadores de cacau. Para isso, atraía o lavrador como freguês, financiava-o, tratava-o bem, e quando surgia uma crise, executava a dívida e arrematava a propriedade em leilão público.

            Uns ladrões amparados pela lei e pelas libras inglesas. Só mesmo um país sem governo concordava com semelhantes espoliações em massa.

            Niela nunca mais poupou os ingleses imperialistas, que a guerra teve a virtude de enfraquecer economicamente e politicamente. Tanto assim que as cartas de Londres anunciavam que o chefe da firma havia perdido tudo com a conflagração. Não fossem as fazendas de cacau, estaria ele reduzido à miséria. O que possuía na Inglaterra a guerra devorou, destruiu, liquidou, como os inúmeros lavradores que caíram nas garras da sua firma.


(TERRAS DE ITABUNA – CAPÍTULO XXVII)
Carlos Pereira Filho  

* * *    

segunda-feira, 27 de maio de 2019

A IGREJINHA DE SANTO ANTÔNIO - Carlos Pereira Filho


            Tabocas foi aumentando, com o tempo. Cada dia que se passava crescia a sua população e as suas roças de cacau ampliavam-se. Os plantadores de cacau se embrenhavam para as matas no rastro dos bons terrenos, para os lados da Boa Lembrança, Preguiças, Virotes, Mutuns, Outeiro da Palha, Ribeirão de Areia, Boqueirão, Ribeirão da Lama, Jacaré, até Macuco. Os moradores locais começaram a dizer que Tabocas necessitada de uma igreja, porque terra sem Deus não andava para a frente. E citavam fatos, que comprovavam a influência do “capeta” solto nas ruas do povoado.

            Reuniram-se os maios graduados da localidade. Falaram sobre religião, discutiram sobre a construção da igreja. Firmino Alves, que era chefe, iniciou o trabalho de uma igreja grande, que não concluiu, mas Joaquim Batista de Oliveira edificou a capelinha de Santo Antônio, na qual o visitador, cônego Moisés Gonçalves do Couto rezava missa, batizava o povo e pregava os seus sermões, ensinando ao povo o temor de Deus e o amor ao próximo.

            Todavia, se o povo se tornava devoto, se as plantações cresciam, e as áreas do cacau se alargavam, se os fazendeiros melhoravam de sorte, a tranquilidade pública piorava, passava por graves agitações. Raro era o dia em que não se matava um cidadão. Raro era o dia em que não se registrava uma arrelia.

            Num dia de abril, Tabocas foi, de surpresa, atacada por um grupo de clavinoteiros procedentes de Conquista e de Belmonte. Morreram dois indivíduos e quatro ficaram feridos. Mas o povo não correu, o povo lutou, até os clavinoteiros recuarem. Naquele tempo o povo não corria, nem mesmo havia para onde correr, desde quando as matas se apresentavam ainda mais terríveis, com o domínio dos bandidos.

            As providências pedidas para a Capital davam melhor ideia doa que se passava em Tabocas: “Manuel Bomfim Neto, indivíduo sem profissão decente, à frente a força pública Tabocas cometendo depredações toda ordem, comércio fechado, população horrorizada. Homens ordeiros trabalhadores e até fazendeiros barbaramente espancados, no tronco. Minha residência, negócio, fazendas, sofrendo grandes prejuízos, com vida arriscada. Peçam Governo providências. Tabocas em paz antes chegada destacamento pedido para desabafo paixões Manuel Bonfim criminoso morte é quem dirige polícia”. E terminava: “Tabocas não precisa soldados, quais devem retirar-se bem da ordem progresso lugar”.

            Dias depois, um outro despacho explicava: “Os abaixo assinados, negociantes Tabocas, protestam contra a revoltante calúnia publicada jornal dia 19 em que diz que a força pública tem cometido absurdos. Ela é garantia ordem pública. O sargento comandante procede corretamente. Pedimos conservação destacamento em bem da ordem pública”.

            As cenas de sangue, entretanto, prosseguiam ao ponto de os cronistas registrarem que o distrito “continuava a ser palco de arbitrariedades das autoridades policiais, de saques de estabelecimentos comerciais, de assassínios, espancamentos, prisões, indo e vindo os jagunços à vontade por toda a parte, sob a proteção dos mandões da terra”.

            E, aliviando o alarma sobre tais desmandos, os mesmos cronistas escreviam: “Esta é um fenômeno familiar das paragens recentemente exploradas, que pela abundância das suas riquezas naturais atraem forasteiros de todas as condições sociais”. Assim, aconteceu no Acre, no Amazonas, nas zonas diamantíferas das Lavras, do Salobro e no rio das Garças”.

            Tabocas não podia fugir à regra. No seio fecundo das suas ubérrimas terras, o sangue dos heróis anônimos sacrificados pelo ideal do trabalho tinha de ser o resgate da opulência, que hoje resplandece nos cacauais e na riqueza do seu povo progressista.

           
(Capítulo VI do livro TERRAS de ITABUNA)
 Carlos Pereira Filho.


* * *

quarta-feira, 14 de março de 2018

POVO DINÂMICO – Carlos Pereira Filho


Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
Povo dinâmico


            Descrevemos em vários capítulos episódios passados em Itabuna até a época atual. Do período ditatorial até os nossos dias democráticos passaram pela prefeitura Armando da Silva Freire, 1945, José Dezousa Dantas, 1945, Lauro Azevedo, 1946, Armando da Silva Freire, 1946, Ubaldino Brandão, 1948, Miguel Fernandes Moreira, 1958, Francisco Ferreira da Silva, 1955, José de Almeida Alcântara, 1959. Armando da Silva Freire e Francisco Ferreira da Silva foram, por duas vezes, chefes do Executivo municipal.

            Ao olharmos para o passado, e antes de tentarmos focalizar o presente, temos a impressão de que fizemos uma longa viagem.

            Se um rei salmista tivesse aparecido para ordenar a criação de uma cidade e o seu centro de produção, aos pulos, como concitou as montanhas para adorarem ao  Criador, o milagre não se teria operado tão rapidamente como aconteceu na história da construção de Itabuna.

            Os séculos formam a história da civilização de muitos, povos, no decorrer de anos a fio e de um trabalho paciente, constante, através de sucessivas gerações.

O município organizou-se rápido, como a ordem da Palavra de Deus, na criação do mundo que habitamos, segundo a narração Bíblica.

            Ainda vivem pessoas que conheceram, conviveram com os seus primeiros fundadores e que, ainda, alcançaram os velhos trechos da vila e da cidade fundada em 1910. Manuel Fogueira, Jorge Maron Filho, Gileno Amado, Francisco Fontes e muitos outros guardam ainda na memória os fatos mais destacados da construção de Itabuna.

            Há deles que trabalharam nas ruas, calçando-as, há deles que derrubaram matas e fizeram plantações de cacau, há deles que coivararam as matas para semear o capim das pastagens, há deles que tomaram parte no domínio político.

            O fato importante na formação do município é ter sido produto de puro sangue brasileiro. O mesmo ardor que se agarrou ao desbravador das matas ilheenses apoderou-se dos que cultivaram as matas Itabunenses. Sendo que na terra Itabunense o estrangeiro não orientou, não incentivou, nem civilizou. O trabalho, a cultura da terra,  a expansão, o método, a disciplina, o exemplo, da dedicação, de abnegação, decorreram, fluíram dos brasileiros oriundos de todos os Estados,  destacadamente dos sergipanos.

            Se tivesse havido, na formação de Itabuna, um plano previamente organizado, com ensino técnico sobre lavoura, com divisões de áreas para cacau, cereais, pastagens, por certo o plano não atingiria, neste regime, a meta que alcançou o trabalho feito pelos destemidos desbravadores da terra. Ela, se olhada do alto, se reduzida a um postal, se apresentaria como um verdadeiro jardim armado de leiras gigantescas que se poderiam apontar com os dedos e dizer: “Aqui está a área do cacau, ali a dos cereais, acolá a das pastagens e, ainda, à margem do rio o comércio, seu centro de abastecimento”. No conjunto há tal harmonia, um cuidado de aplicação de energias de distribuição de trabalho que denuncia e revela a capacidade de orientação econômica de um povo.

            Não há um palmo de terra desocupada, sem dono, sem uma finalidade. Economistas que se houvessem reunido para criar alguma coisa dinâmica com as suas doutrinas de produção e riqueza, talvez não tivessem realizado uma obra tão admirável como a levada a efeito pelos Itabunenses, em todos os setores.
            Contemplada a obra em detalhes, por algum exigente sociólogo, naturalmente apresentará algumas falhas o que não é de estranhar ou censurar, dada a marcha acelerada da sua edificação, e a simplicidade dos seus operários.

            Mas como obra de conjunto não vemos falhas que perturbem o ritmo da sua grandeza. Nela não falta o aspecto social, o político, o econômico. Nela se vê, se percebe, se sente a força da evolução, do progresso, da prosperidade, o sentido da marcha para o bem-estar público, que é o sentido altamente característico de uma civilização em posição cultural apreciável.

            As suas escolas, os seus hospitais, as suas associações, os seus estabelecimentos bancários, os seus jornais, a possante estrutura do seu mundo econômico e financeiro, a linha de orientação construtivas dos seus governantes, expressam o retrato fiel de um povo integrado e consciente, politizado e certo do programa que cumpre, no objetivo de melhores dias e de um futuro grandioso.

            E o que significa, no seu povo, essa ânsia de progresso, de desenvolvimento, de consciência econômica social? Significa que o povo Itabunense guarda, conserva, cultiva em todas as formas de evolução, de adaptação, de lutas, os sentimentos dos seus antepassados, mantém com dignidade o nome legado por eles, e olha o futuro.

            Um simples olhar de observação, uma análise superficial evidencia o arrebatamento dos Itabunenses na marcha para o progresso. Eles não esperam pelos governos, eles não apelam para os vizinhos, eles não se queixam das suas mágoas. Eles trabalham, produzem, avançam. Cobrem as etapas das suas iniciativas, com uma facilidade inverossímil, com o dinamismo de um povo sacudido por uma determinação revolucionária.

            Poderíamos dizer que os Itabunenses escreveram, em curto prazo, a maior página de progresso e prosperidade da terra cacaueira.

            Preferimos, todavia, afirmar que escreveram a mais bela e encantadora página do livro da história da economia regional.

            Tivéssemos tomado uma canoa e percorrido durante anos e meses o longo curso de um rio, ao chegarmos à sua foz, ao darmos num mar aberto, poderíamos exclamar: assim aconteceu à terra Itabunense, de Firmino Alves até aos nossos dias. Em 1860, em 1901, em 1910, o município representava esse rio que navegamos. Em 1959, data do cinquentenário de sua fundação de cidade, é o município esse mar imenso que divisamos oceano de atividade humana e de civilização.


(TERRAS DE ITABUNA Capítulo XXVIII)
Carlos Pereira Filho

* * *