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quarta-feira, 13 de julho de 2022

ERA SÓ SAUDADE DE EUNICE – Ariston Caldas


Era só Saudade de Eunice

Gostaria que a moça se chamasse Eunice, nome perfeitamente assentado.

            Ela passava pelo meio da rua em pleno trânsito de pessoas e lançou para ele um olhar discreto, mas como quem repara; sentiu que a moça ia apressada, por isso não entendeu por que o olhar dela pareceu-lhe transmitir alguma mensagem, como a perguntar, “tudo bem, Miraldo?”. Apesar da rapidez, pôde notar-lhe os traços do rosto, a boca de lábios finos, o cabelo de índio. Como seria o nome da moça? Mesmo que fosse coisa estranha, para ele seria Eunice, certamente o mais adequado. Quase impossível chamar-se Shirley ou Ingrid – índio não tem nome de gringo. – E se a moça tivesse um sinalzinho preto entre um seio e outro, tudo ficaria justificado, indubitavelmente. Melhor ainda se ela tivesse uma obturação de ouro na parte superior dentária, lado direito, igual a de Eunice que fora sua vizinha na Praça Independência onde ele se criou.

            Tinha claras lembranças de Eunice, bonita, cabelo de índio, um sinalzinho preto embutido entre um seio e outro, descoberto por ele na praia durante um banho de mar. Chegou a apaixonar-se por Eunice, de repente, e o negócio só não foi para a frente por causa da diferença de idades, ela com vinte, ele com menos de quinze. “Besteira”, pensava agora, lamentando a perda.

            Pensou em outros nomes para a moça que passara por ele no meio da rua regurgitando de gente apressada mas nenhum assentava bem como Eunice, adequado para o tipo de cima a baixo. Teve vontade de segui-la rua a fora mas a esse tempo ela havia se perdido entre o burburinho de pessoas apressadas desviando-se umas das outras. Uma confusão. Voltou algumas jardas, numa tentativa; nem adiantou, a moça havia sumido definitivamente. Sabia, sem dúvida, não tratar-se de Eunice, o tempo entre uma e outra já era longo, mais de doze anos. Eunice, hoje, estará amadurecida, mesmo que não tenha cabelo branco, coisa pouco provável para gente índia, com a pele enrugando, os seios caindo, os olhos frios, criando uma ruma de meninos, muito trabalho e outras consumições que ele as sabia.

            A moça que vira no meio da rua agitada, seria igual a Eunice moderna no tempo em que morava na Praça Independência,  bonita, saudável, cabelo liso parecendo seda. Será que a moça do meio da rua terá um sinalzinho preto? Havia outros detalhes que justificavam a parecença das duas, com o olhar atravessando despretensioso, colo amplo, de tonalidade morena uniforme como se fora veludo; o jeito do cabelo exótico partido ao meio, a derramar-se em brilho pelo rosto, às vezes escondendo os olhos que no momento cruzaram-se rapidamente para ele, cara a cara, como a perscrutar-lhe curiosos.  Um susto! Notara até os pés da moça medidos numas sandálias vermelhas semelhantes às que Eunice gostava nos dias de sol, nas tardes de domingo pelo jardim no meio da praça Independência. Tudo lhe esquentara o juízo, mais ainda depois que ele deu de olho no sinalzinho cravado entre um seio e outro. Certo é que banzou por Eunice e só perdeu a esperança depois que ela meteu-se com um sujeito sarará que vendia utensílios de alumínio pelas portas.

            Andou algum tempo lembrando da moça de cabelo liso parecida com Eunice que morou na praça Independência, que desentendeu-se com ele por causa da diferença de idades. Quantos anos teria o sujeito que vendia alumínio pelas portas? Vermelho, espadaúdo, braços robustos recobertos de cabelos cor de cobre. Sentia a presença do sujeito na praça pelo estrídulo da buzina. Tipo esquisito, desassentado para Eunice da cor de índio, cabelo brilhando, sinalzinho preto entre um peito e outro. Será que o sujeito visgou-se a ela por causa do sinal? – indagava-se, a momentos, à toa.

            Fazia calor, estava pingando de suor; entrou numa lanchonete e pediu um sorvete duplo, de coco, enquanto lembrava de Eunice, da moça de olhar atravessando, no meio da rua, gente que só formiga. Meditou, finalmente, que nunca mais voltaria a vê-la, a não ser através da imagem de Eunice fincada de corpo inteiro em seu miolo, desde o tempo da praça Independência; na janela, no jardim, na lanchonete onde tomava sorvete, tudo isso antes de embaraçar-se com o sujeito sarará que vendia utensílios de alumínio pelas portas, tocando uma buzina insuportável.

 


(LINHAS INTERCALADAS)

Ariston Caldas

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sexta-feira, 24 de junho de 2022

PARECIA COM A PRINCESA ISABEL – Ariston Caldas

 

 


           Na sala de entrada da casa de Adelaide havia, pendurado na parede, um quadro com a fotografia de uma moça bonita, de vestido branco com peitilho de renda e uma coroa na cabeça; no peito, uma cinta azul atravessada, com letras douradas, mas, de longe, Leni não conseguia decifrá-las; o reflexo do sol sobre o vidro atrapalhava a vista. “Só pode ser uma rainha ou uma princesa”. Lembrou da princesa Isabel, a dos escravos, desenhada num livro de história que dera no curso primário; lembrava bem do rosto de Isabel impresso no livro. Quando pudesse perguntaria a Adelaide quem era a moça do quadro. Perguntou e soube, não era nenhuma alteza, mas a própria Adelaide quando tinha dezoito anos de idade e foi rainha da beleza em sua terra natal.

            “Como a senhora era bonita!”, disse Leni. Adelaide fez um risinho disfarçado num canto da boca, sentindo o “era” de Leni como um agravo, uma afirmativa que sua beleza desaparecera. É, minha filha, veja o que a vida faz com a gente”, disse Adelaide com fala abafada.

            Leni sentiu que lhe havia magoado e tentou remendar o que dissera: “a senhora continua bonita, nem parece ser mãe de três meninos já crescidos”. Adelaide não deu nenhum crédito à reparação e continuou afirmando que estava envelhecida; falou das manchas escuras pelo rosto, dos fios de cabelo branco aparecendo, dos seios sem a robustez daquele tempo do concurso de beleza; “hoje estou um caco sem valia, cheia de pano preto, magra e sem ânimo para este mundo”, acrescentou Adelaide. A essa altura da conversa, a cidade natal emergia em seu pensamento iluminada e festiva; viu a casa onde morava, o quarto, o espelho quadrado onde se olhava vestida no modelo para a coroação no palanque da praça pública; a mãe lhe retocando a pintura do rosto, ajeitando detalhes o vestido branco de organdi com peitilho rendado, passando uma flanela pelos sapatos brancos de camurça; o pai entrando e saindo agoniado; “vamos minha gente, está na hora”, as amigas ajudando. Depois, o palanque no meio da praça regurgitando de gente, uma multidão; a filarmônica tocando, os discursos, os aplausos durante a coroação dela e das princesas; mais tarde, o baile chique no clube social especialmente decorado para o evento; os homens doidos de olho nela, as mulheres morrendo de inveja; muita bebida, ramalhetes de rosas sobre a mesa preparada para ela, os familiares e as duas princesas; “parecia um trono”. Agora sonhava ser miss Bahia, Brasil e, quem sabe, Universo.

            Lembrava de Almir, quase seu noivo, enciumado pelos cantos, retraído, nervoso, mastigando chiclete olhando-a assoberbada de gentilezas por todo lado, ela e as duas princesas; do outro, o pai, a mãe e o paraninfo da candidatura dela, dono de uma padaria. Almir achava que aquele lugar deveria ser para ele, mas nem exigia coisa nenhuma, mesmo pretendendo noivar. Ciumava, passava olhando com raiva, mordia os beiços, mastigava chiclete. Adelaide nem imaginava que mais tarde, menos de dez anos, estaria casada com Bertino, guarda municipal e agora, já com três filhos crescidos, sentia-se velha e os outros também achavam isso, como Leni: “Como a senhora era bonita!”. Sentiu-se magoada, mais velha ainda; os peitos murchos, o cabelo embranquecendo, as rugas, as manchas escuras pelo rosto, varizes nas pernas. Lembrava do salão iluminado, da banda de música tocando, os discursos, uma coroa dourada sobre a cabeça cheia de cachos bem-feitos, uma faixa bonita atravessada, “Rainha da Cidade”; Almir a um canto, emproado, cheio de ciúme, mastigando chiclete.

            Adelaide recebera o café em pó que pedira emprestado a Leni e voltou para casa do outro lado da rua empoeirada, entre sombras remotas sumindo; “a mais bonita da cidade”. Afastou o cabelo espalhado pelos ombros e lembrou novamente da velhice, dos seios que não tinham mais a robustez daquele tempo quando fora coroada rainha.

            Aumentou os passos ao lembrar que havia deixado no fogo uma chaleira com água para coar café; “já deve ter secado”.

            Leni, do passeio da casa dela, olhava Adelaide pelas costas, envelhecida, diferente da que via na foto parecida com a princesa Isabel.

 

Ariston Caldas

LINHAS INTERCALADAS

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sexta-feira, 3 de junho de 2022

QUANDO ETELVINA FUGIU - Ariston Caldas


Quando Etelvina fugiu

 

            Quando Caboclo raptou a namorada, a cidadezinha ficou apinhada de cochichos, pelos becos, pelas esquinas, por cima dos passeios. Notei a diferença lá em casa.

            Minha mãe falava meio abafado com minha tia, pelos cantos. Primeiro, na porta da cozinha. Ao pressentirem minha presença, elas calavam a boca; depois, prosseguiam no mesmo, de cochichada. Eu, sonsando, entendia somente as palavras soltas e frases curtas que não faziam nenhum sentido – “Etelvina”, “seis horas”, “o defeito dele é ser pobre”. Num momento fiquei de olho dura para minha mãe. “Saia daqui, menino abelhudo”, exclamou minha tia, arregalando os olhos para mim. Só vim saber da encrenca no outro dia, por conversinha de rua.

            O sujeito havia roubado Etelvina. Eu o conhecia de perto, ele jogando futebol; tinha as pernas finas e cabeludas como de macaco. No dia seguinte à ocorrência do rapto, os dois casaram na presença do padre, do delegado de polícia, do pai dela, do Juiz de Paz e de dois praças.

            Caboclo tinha muitos predicados contra si, entre outros, ser jogador de futebol, negócio de malandro, naquele tempo; tocador de violão – ainda pior -, e dono de uma padaria mixuruca que os trocistas chamavam de pinoia; produzia cem pãezinhos por dia. Daí as embirrações dos familiares da moça. Mas, como paixão é coisa perigosa, o romance resultou no rapto da moça que teria ocorrido de canoa, à boquinha da noite. Ela, portando uma valise com alguns pertences pessoais, saltou com ele no outro lado do rio e foi confinada na fazenda de uma família  íntima.

            A instantes, os boatos ganharam as ruas; o disse-me-disse enramou-se por toda parte. Já tarde da noite, a irmã mais velha de Etelvina apareceu chorosa lá por casa, enxugando os olhos com um lenço bordado. Soluçando – ninguém sabe se de verdade ou de mentira, ela conversava sôfrega com minha mãe, com minha tia, as três sentadas em torno da mesa preta e comprida da sala de jantar.

            A cidade mudou de repente. As ruas, normalmente silenciosas e escuras como breu quando a noite caía, regurgitavam assim de gente; os quatro soldados do destacamento local saíram perfilados para as ruas. Fuzis a tiracolo, cartucheiras atravessadas pelos peitos, rostos erguidos, enfatuados. Num bar iluminado a carbureto, pessoas se juntavam murmurando entre si, umas soltando risadinhas espremidas; outras, pensativas, fingindo-se preocupadas. Um sujeito estonteado que costumava mijar pelos passeios dos outros, gritava vez em quando: “Você viu? Tomou no xibiu!”. Enquanto pulava, batia palmas e mexia a bunda. Seu Guilardo, dono de uma farmácia, alisava o cavanhaque ruivo e dizia, enfático: “Vocês tão vendo? Sinal dos tempos! Quem diria, uma menina daquela idade... coitada, agora foi pro brejo”. Pessoas ao redor ouviam admiradas, as ponderações de seu Guilardo, aprovando-o perfeitamente. Segundo seu Ribeiro, agente dos Correios e homem dos mais sérios do lugar, ele próprio vira o pai de Etelvina escorado na janela, azeitando uma arma de fogo, ruminando como boi acuado. “Aquele moleque vai ver com quantos paus se faz uma cangalha!” – rosnava.

            Como eu disse, Etelvina e Caboclo casaram policiados. Ele, em manga de camisa, sem gravata; ela, sem véu, sem grinalda. Depois do ato deixaram a cidade, certamente fugindo dos lenga-lengas que permaneceram nem sei quanto tempo. Não sei, também, o quanto duraram as hostilidades entre as duas famílias. O pai de Etelvina estribava: “Não quero vê-la nem morta!”

 

(LINHAS INTERCALADAS)

Ariston Caldas

 

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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia,  em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico ‘Terra Nossa’, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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terça-feira, 5 de abril de 2022

PARECIA COM EDILEUZA – Ariston Caldas

  


         No meio do forró, Zildo descobriu uma moça dançando, parecida com Edileusa; ombros estreitos, cabelos cacheados cor de bronze, quadril de bom tamanho. Ele não entendia por que Edileusa desistira da festa, no dia, quase na hora, sem mais nem menos. Ficou frustrado. Onde o amor retratado por ela até a véspera? Indignado, refletia o fato, debruçado no alpendre da varanda, sentindo o vento quase gelando, sacudindo a folhagem em redor; uma fogueira formando labaredas vaporosas, soltando faíscas; olhava um oitizeiro cheio de frutos amarelos, igual ao que conhecera no quintal de sua infância; os acordes da sanfona o lembravam de coisas obscuras quando nem imaginava conhecer Edileusa.

            “Por que ela desistiu assim tão de repente?” Indagava-se cheio de raiva, de decepção. Dançaria com a moça de cabelo caído pelos ombros, afastaria a frustração que o envolvia; depois, se a moça o simpatizasse, ficaria sua amiga ou até namorada; via-se, a momentos, com a moça parecida junto à fogueira, assando milho verde no braseiro, amenizando o frio, soltando fogos de um lado para outro. Olhava novamente para ela atracada pelo meio por um sujeito de botinas amarelas, boina vermelha lenço quadriculado no pescoço, idoso, braços fortes e cabeludos. “Vou dançar com ela”.

            Esqueceria o que Edileusa lhe fizera, até dos bons momentos, depois que a conhecera na Rodoviária, desembarcando de um ônibus com placa de Maceió. Esqueceria a decepção, os beijos fingidos, os apertos corpo a corpo. “É doida por mim”, chegou a pensar. Agora, olhava do alpendre da varanda a fogueira crepitando, soltando faíscas pelo vento. Dançaria com a moça parecida; quem sabe podia até ser o início de uma amizade boa, sincera?

            Onde andaria Edileusa àquelas horas? A moça parecida gingava, mexia-se agarrada com o sujeito os braços cabeludos; a noite havia passado do meio, esfriava, e a fogueira em frente ia baixando as labaredas, as faíscas escasseavam, o braseiro diminuía sob a cinza acumulando-se. As mulheres que passaram o dia preparando iguarias na cozinha, estariam cansadas e apareciam vez em quando na porta, dando olhadelas para a sala de dança, sanfoneiro de chapéu embarbelado, blusa vermelha floreada, calça de mescla desbotada. Edileusa estaria dormindo ou forrozando por aí a fora?

            Frustração. Teria que dançar com a moça que passava agarrada com o homem de boina vermelha. Será que ela conhece Edileusa? Provavelmente não; nunca estivera  em Maceió onde Edileusa morou. Só se fosse um conhecimento recente, mas a moça  nem conhecia a cidade onde Edileusa morava atualmente; de onde seria a moça? Perguntaria isso a ela logo que começasse a dançar.

            “A senhora conhece Edileusa?” Não, senhor, diria a moça afastando o corpo, desviando os olhos para o chão. Seria pessoa de pouca conversa, mesmo assim faria a ela outras perguntas, mas a moça continuaria calada ou encurtando papo. “A senhora gosta mais de Carnaval ou São João?” Por que ia trata-la de senhora? Seria você. E se ela não aceitasse assim? “Não tenho nenhuma intimidade com o senhor”.

            A música parou, a moça afastou-se do sujeito que lhe agradeceu cortesmente enxugando a testa com um lenço branco; ela sentou-se, depois, num banco de madeira, comprido, onde duas mulheres grisalhas, mastigavam milho verde assado. “Será agora, na próxima parte”, pensou assim como se tivesse esquecido de Edileusa, da insensatez dela deixando-o tonto, decepcionado.

            Olhava para a fogueira em brasa, para as faíscas subindo, piscando como pirilampos. Sentiu vontade de esquentar as mãos; nem as doses de licor de jenipapo haviam-lhe afastado a decepção; a cabeça rodava, a figura de Edileusa no meio, fria, disfarçada; “não vou mais à festa, fica para outra vez”, lembrava com indignação. Na parte seguinte dançaria com a moça. Encaminhou-se para ela, “vamos dançar comigo?”

            A moça disse não, já havia-se comprometido com o sujeito os braços cabeludos que ia chegando para ela, sorridente, de mão estendida. Zildo voltou cabisbaixo para a varanda, encostou-se no alpendre, sentindo raiva do mundo.

            A fogueira se apagando, levantando fumaça. Decepção, tristeza, Edileusa sem juízo.

            Arrasado, ficou olhando, confuso, a manhã surgindo por trás  de umas colinas neblinadas.

 

(LINHAS INTERCALADAS)

Ariston Caldas

 

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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia,  em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico ‘Terra Nossa’, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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sexta-feira, 11 de março de 2022

QUANDO A TARDE VEM CAINDO – Ariston Caldas


 Ele mesmo se divertia: “Osório, não te metes com mulher novinha!” Parecia intuição, um aviso do que estava por acontecer. Conhecera Beatriz como caixa de uma loja de vender bombons, menina quase ingênua, de sobrancelhas fechadas, sorriso leve, cabelo cheio feito em cachos, olhos apertados; uma fitinha do Senhor do Bomfim atada no pulso da mão direita. Ele, conversador, alegre, com a experiência de 55 anos.

            Intimidade crescendo, a começar por não receber os trocos; depois, os alisamentos, a espera na saída do trabalho, ao meio-dia e à noitinha; ele a segurava por um braço ou punha-lhe uma mão ao ombro, rua afora até o ponto do ônibus. Beatriz nem conhecera o pai que teria sido um sujeito ciumento mas responsável, segundo as estórias da mãe dela, mulher ranzinza mas que nem sabia do chamego entre a filha e Osório; assuntava somente o dinheiro dela rendendo, vestidos bonitos, sapatos, sutiãs, calcinhas. “Graças a Deus o emprego tá dando certo”.

          “Não tenho nem um perfume”. Osório comprava, dos bons. Por que se embeiçara assim com Beatriz? Era uma menininha novinha, direita, mas novinha demais para ele com quarenta e tantos a mais. Tentava um beijo na boca, ela virava o rosto, como a proteger-se. “Não”. Abria a bolsinha dela, futucava; uma vez viu o nome de um sujeito, escrito num pedaço de papel: Sílvio. “Namorado”, não, “amiguinho”. Passou a ciumar de Beatriz.

            “Eu queria que você fosse meu pai”. Gostava do apoio dele, dos afagos, alisando seu cabelo em cachos, apertando-a contra o peito. Vinham as brincadeiras dela, “par ou ímpar?”. Desenhava carinhas de bonecos, bichinhos; ele assistia, empolgado com o mundo.

            Beatriz conheceu a casa onde ele morava; ajeitava os móveis, lavava os pratos arrumava a cama, o guarda-roupas; gostaria que Beatriz fosse a dona de tudo. Se tivesse condição compraria uma casa boa para ela, faria uma poupança e um seguro que lhe garantisse o futuro; tinha somente uma aposentadoria razoável, uma pequena reserva num banco. Não tirava Beatriz da cabeça, lembrava da juventude, disputado. Ela só lhe deixava beijá-la no rosto, bem do lado; na boca, não; “Tanto faz aqui como ali”, ele pensava. Beatriz o encarava nesses momentos, desentendida, lhe fitando os olhos, como quem procurava adivinhar as intenções.

            “Queria que você fosse meu pai”. Depois de Beatriz, Osório sentia-se jovem, tomava cerveja, comia acarajé, participara de peladas no meio da praia. Beijo, só no rosto, bem de lado. Avançou uma vez. “Você beijou minha boca?” Ele pediu desculpa. “Foi casual”. Ela limpou os lábios com os dedos, ficou olhando para o chão, calada, sentindo; Osório ficou feliz, experimentara o gosto da boca de Beatriz, estranho e bom; a momento a preocupação sumiu e ela voltou às brincadeiras, fazendo “dedo mindinho”, jogando “três-marias” no pátio da casa dele. “Uma menina tola”, pensava, satisfeito, perdido num mundo de sonhos, como se estivesse num castelo colorido, cheio de juventude; Beatriz fazia um biquinho, atravessava os olhos, ajeitava o cabelo, lhe apalpava o rosto, de supetão: “Perdeu”.

            Ele passou a amar a vida com mais entusiasmo, com mais fulgor, sentir com mais beleza as estações do ano, mesmo dormindo só, sem carinho, sem Beatriz que morava numa casa humilde de um bairro distante; menina de seus sonhos, uma rosa cheia de viço. Ele sentia tudo com clareza, lembrava da juventude, preferido, disputado por este mundo a fora. E um dia Beatriz apareceu de sobrancelhas fechadas, sorriso leve, olhos apertados; doze anos despontados cheios de frescor. Ele pensava definir a situação: “quero me casar com você”.

            Beatriz nem pensava nisso; gostava dele, até o amava, mas como se fosse uma filha, uma amiga sincera. E a definição veio dela: “Quero me casar com Sílvio”. Quem era Sílvio? Lembrou do pedacinho de papel. Beatriz queria seu consentimento. Ele sentiu tontura, um suor frio porejar pelo rosto. E disse que sim, com amargura.

            Enxovou Beatriz dos pés à cabeça, foi o padrinho do casamento; bebeu champanha, comeu iguarias e fez um discurso. Era tarde da noite quando voltou para casa, à toa, mais solitário do que nunca. Saiu pela beira do cais, olhando a escuridão, ouvindo o barulho das ondas em baixo trovejando pelas rochas em redor. Chegou em casa ainda meio tonto, deitou-se e adormeceu sentindo-se num altar iluminado e florido, beijando a boca de Beatriz como se ele fosse Sílvio.

 

(LINHAS INTERCALADAS)

Ariston Caldas

 

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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia, em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico ‘Terra Nossa’, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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quinta-feira, 27 de maio de 2021

TINHA O NÚMERO NA MEMÓRIA – Ariston Caldas

 


          Um telefonema.

          Fechou a revista e a sobrepôs à carteira, dirigindo-se depois para o aparelho, calmo, cantarolando uma cantiga do seu tempo de menino.

          “Alô”. Era Laura. “Quem?”

          Não acreditou; havia tanto tempo, anos a fio. “Não está acreditando! Sou eu mesma”.

          Por quê? Dez anos não são dez dias; nem saudade existia mais, somente algumas lembranças a esmo, soltas, sem nenhuma emoção. Até mesmo aquela raiva forte havia sumido pelo vento. Mas agora voltava a voz de Laura, autêntica, doce, quase cantante a momentos; o retorno de alguns flagrantes, o perfume que ela gostava depois do banho. “Alô, é Laura”.

          Conhecera outras Lauras, mais de duas; a que lhe telefonava, porém, fora a única, dona da vida dele, dos afazeres, de seu destino. “Volto amanhã, estou na Conselheiro Rui Barbosa, 146”.

          Pensou perguntar alguma coisa a Laura; “o quê?” Não havia nenhum assunto, nem velho nem novo, nem interesse que o houvesse não; tudo agora era outra coisa, outro mundo entre os dois. Guardou o endereço na memória, particularmente o número; pensou anotá-lo, mas confiou na memória. Lembrou do tempo de colegial quando decorava de ponta a ponta qualquer lição, com facilidade; era elogiado, assim, pela professora, por muitos colegas, invejado por outros.

          Praticamente não tinha nada agora para dizer a Laura; passado obscuro, ausência, distância. Recordou, porém, como sombra, ela encostada numa amendoeira do quintal, arrochada pelo vizinho, sujeito que ninguém o diria capaz. Até isso não passava de imagem apagada pelo tempo, uma caricatura, mesmo como causa da separação. Ia ver Laura, assim, sem nenhum constrangimento. No outro dia ela estaria voltando para a Argentina. Gostaria de vê-la.

          Encaminhou-se para a Conselheiro Rui Barbosa; rua comprida, cheia de edifícios altos, magazines de luxo, agências bancárias, lanchonetes, bancas de revistas, trânsito intenso de veículos. Avistou o prédio de número 126; “está perto”. Olhava pelo lado dos números pares; mais alguns edifícios e chegaria ao 146. Chegou.

          Era uma casa grande, em ruínas, antiga, cupim pelos postigos das janelas fechadas, dois edifícios ladeando-a; olhou para as cornijas estragadas, cheias de manchas escuras; para as soleiras de mármore sujas nas portas e janelas arqueadas como de igreja colonial. Seria ali. Laura. Não anotara o número, mas o tinha gravado na memória, claro, como o fazia com as lições no tempo do colégio; tanto que até agora as guardava na cachola, como o descobrimento do Brasil, como os nomes dos navegadores, das naus, o atracamento em Porto Seguro. “Vou bater na porta”. O fez, desconfiado, com medo de ser considerado doido; a casa antiga, suja, fechada, roída pelo cupim. Bateu algumas vezes, olhava para trás; “este sujeito é maluco”. Laura. Nem sombra de ninguém.

          Atravessou para o outro lado da rua, perguntaria numa banca de revistas em frente; “não, senhor, ali não mora ninguém”.

          Levantou a cabeça e ficou mirando um edifício à esquerda da casa velha, número 144. Quantos andares? Contou até o meio. Oito. Janelas envernizadas, vidros em cores, limpos. Junto ao edifício a casa parecia-lhe mais atarracada. “O senhor tem certeza?” O homem das revistas falou: em torno de três anos, nunca morou ninguém ali. Será que havia confundido casa com edifício? O 146 seria número de casa ou de apartamento? Acreditava na memória; “nunca falhou, desde o tempo do colégio”.

          Depois de ir e voltar, atravessar pra lá e pra cá, teve a ideia de informar-se numa lanchonete. “Não mora ninguém”.

          Lembrou que meninos de rua sabem das coisas, mas não havia nem um menino de rua no local. Mas tinha certeza sobre o número; ora, perfeitamente. Mas havia somente uma casa velha fechada, cheia de cupim. Sobre o número, nem tinha dúvida, era aquele, o sentia fresco na cabeça, através da fala sutil de Laura pelo telefone sem ruído. Impressão, nenhuma. Certo que estava esquecido dela, da fala, mas reconheceu tudo de repente, rememorou até a cena em baixo da amendoeira. No momento do telefonema estava tranquilo lendo uma revista; guardou perfeitamente o timbre da voz de Laura lhe dizendo o número.

          Por que no local havia uma casa velha, desabitada, cheia de cupim pelos postigos? “Não mora ninguém”. Insistir novamente sobre o inusitado assunto, seria inútil. No dia seguinte Laura estaria voltando para a Argentina. Não havia uma pessoa que pudesse ajudá-lo. Mesmo assim andou perambulando o resto da tarde, e à noite voltou para o escritório; antes de sair de lá o telefone tocou. Ligação errada.

          A custo conseguiu dormir. Sonhou com Laura, ele anotando num pedaço de papel o número 146. Amanheceu com a cabeça zonza lembrando da casa velha ruída pelo cupim, onde não morava ninguém, onde Laura nunca teria se hospedado. “Teria sido o espírito dela zanzando por aqui?” Pensou, em última análise.

 


LINHAS INTERCALADAS

Ariston Caldas


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quinta-feira, 6 de maio de 2021

MORENINHA – Ariston Caldas


          Moreninha perdeu a mãe logo cedo. Ela foi o último sobrevivente de uma ninhada de doze pintos saídos das cascas numa manhã chuvosa de um mês de junho; distinguiu-se dos irmãos pela cor pedrês, pintada como guiné. Os outros, cor de telha, foram morrendo um a um, como castigo. Dona Lídia, proprietária da ninhada, ia enterrando os bichinhos embaixo de uma mangueira no fundo do quintal. Ela saía resmungando, os sobrinhos atrás, curiosos, achando tudo muito importante.

          Moreninha cresceu rápido e em pouco tempo aprendeu a bater as asas pelo terreiro, ciscar ao pé de cercas e sumir pelos becos, pelos quintais da vizinhança. Em casa de dona Lídia ela descarou que só vendo, não fazia a menor cerimônia, perambulava pelas mesas, sobre o fogão, por cima do armário de tela verde; subia para o caritó onde dona Lídia guardava temperos e coisas miúdas.

          A orfandade precoce de Moreninha rendeu-lhe algumas vantagens, como bicar milho nas mãos dos meninos, perambular pelo quarto de dona Lídia e aninhar-se pelas camas onde deixava marcas indeléveis. Para dona Lídia, Moreninha era o vivente mais importante do terreiro. “Entende tudo que a gente fala”, dizia. Dava conta das origens da galinha – pai, mãe e até de parentes mais distantes, afirmando que um avô da galinha foi um galo valente, de penacho cor de ouro e de boas esporas.

          Quando lhe gritavam pelo nome, Moreninha levantava a cabeça, posuda, superior, abaixava-se manhosa e arrastava uma asa. Dona Lídia enchia-se de contentamentos e pedantismo.

          Depois que Moreninha enxeriu-se com um galo metido a porreta, do quintal vizinho, deu para sumir do terreiro. Era um galo de canto rouco e curto; quando ele avistava a galinha, entortava o pescoço, arriava uma asa e punha-se a fazer cabriolas, metido a besta. Eufrosina, dona do galo, ufanava-se da cria e falava, toda exaltada: “É um macho de verdade!”. Esfregava as mãos acotovelada na janela da cozinha, expondo orgulho, apreciando o galo disparado atrás de Moreninha, saltando garranchos, dando piados escandalosos; logo na primeira tentativa o galo alcançava seu objetivo. Dona Lídia, quando via a cena, ficava acabrunhada; uma vez panhou uma vassoura de cabe comprido e fincou o pé atrás do galo que se meteu assustado embaixo do assoalho da varanda. Foi nesse esconderijo que ele conhecera Moreninha, numa tarde chuvosa que lhe impedira ciscar pelo terreiro ou deitar-se à sombra da romãzeira, pelas barrocas poeirentas do quintal.

          Moreninha dava-se pouco à mistura com outras galinhas da redondeza, dengosa, cacarejando miúdo, cheia de outras manias; preferia os carinhos de dona Lídia, a atenção dos meninos da casa. Ostentava um pimpão suntuoso, cor de cinza prateado; tinha uma crista vistosa, sangue vivo, de peito saliente, pisava de supetão, metida a besta. Quando espantava, emitia piados estridentes com o se o mundo estivesse acabando, assustando todo o terreiro. Às vezes dava uma de valente, mas nem sempre garantia as pompas, tanto que se acovardava quando avistava uma galinha preta de pés cinzentos e esparrachados que aparecia vez em quando pelo quintal de dona Lídia. Era uma galinha mixuruca, parecendo ter parentesco com urubu; andada de quintal em quintal perambulando à toa, escorraçada, vilipendiada pelos meninos e até por outras galinhas. O galo de Moreninha era discreto para a galinha preta, nunca avançava. Peito a peito, Moreninha caiu na besteira de enfrentá-la um dia, trocaram bicadas, esporadas e, com menos de cinco minutos, Moreninha deu no pé. Ficou com a crista sangrando, um olho inchado. Depois da façanha, a galinha preta teve que correr também, mas das vassouradas de dona Lídia que ainda tentou, furiosa, alcançá-la antes do portão do fundo do quintal.

          Seu Veloso, cunhado de dona Lídia, nem tomava conhecimento de Moreninha, muito menos desses acontecimentos. Certa vez ele quase estrangulava a cria de dona Lídia; a galinha fazia estrepolias sobre a mesa de jantar e derrubou um jarro que se espatifou pelo chão. Seu Veloso, num ímpeto, pegou uma bandeja de aço e mandou brasa na galinha; perdeu a pontaria e Moreninha escapuliu pela porta do lado. Dona Lídia nem soube dessa ocorrência. “Ora essa, galinha só é importante na panela”, dizia seu Veloso. Dona Lídia ouvia, olhava de banda, dava um muxoxo e retirava-se com a cara enfarruscada.

          Por causa de um pontapé que nem atingiu Moreninha, dona Lídia atirou uma panela de água quente em Serapião, moleque que vivia perambulando pelas portas. Apesar da agilidade dele, a ducha atingiu-lhe parte do rosto. Serapião saiu disparado, cheio de agonia, apertando-se e gritando, “sinhá puta!”. Dona Lídia, desapontada, bateu a porta e sumiu casa à dentro.

          No aniversário de Moreninha, dona Lídia fez um bolo confeitado, com uma fita entrelaçada numa velinha; ao redor do bolo ela espalhou caroços de milho e pétalas de rosas. Fez uma roupa para Moreninha, em forma de túnica e um chapéu azul embarbelado; uns sapatos de lã e uma calcinha encobrindo o oveiro para evitar sujeira pela mesa, pelos móveis, como a galinha fazia pela sala e outros lugares. Os meninos em torno da mesa cantaram os parabéns, batendo palmas.

          Quando Moreninha conheceu o galo de Eufrozina, era ainda bem nova, mas já ciscava pelas cercas, catando pedrinhas; dona Lídia nem imaginara, na época, as manhas futuras da galinha, considerando-a muito novinha, longe da experiência de uma galinha adulta. Dona Lídia parecia admitir que galinha tem juízo.

          No dia do aniversário os convidados eram levados por dona Lídia até Moreninha empoleirada numa cadeira entre dois jarros com flores, sob os cuidados da empregada, como se a galinha fosse gente. “Esta é Moreninha. Bonita, não é?”, dizia dona Lídia. Numa dessas apresentações, uma moça ao lado falou, com ar de riso: “gordinha, boa de panela”. Dona Lídia chegou a tomar choque, fechou a cara e deu as costas para a visita imprudente.

          Depois que Moreninha meteu-se com o galo da vizinha, dona Lídia pressentiu-lhe mudança nos hábitos. Ora, dizer que Moreninha desprezou a casa é exagero, mas deixou isso em segundo plano. Manhã cedinho dava no pé e em alguns momentos ninguém era capaz de saber seu paradeiro. Era na paquera o dia inteiro, junto à cerca, o galo do outro lado, chegando, arrastando uma asa pelo chão, soltando vez em quando canto rouco; depois ele enfiava-se por qualquer abertura e fincava pé nos tampos de Moreninha disparada, soltando piados, escandalosa, pouco adiante ela abaixava-se, descarada, tremendo de fingimento, o galo concluía tudo aí. Quando se levantava, Moreninha arrepiava-se, sacudia-se e voltava a ciscar despreocupada; o galo, fagueiro, soltava o canto rouco, entortava uma asa, cabriolando para um lado, para outro. A cena repetia-se muitas vezes durante o dia.

          “Cadê Moreninha!”, era a fala de dona Lídia andando na cozinha, nos quartos, pela varanda do quintal. Perguntava aos vizinhos, aos meninos; a galinha, na dela, malandra, satisfeita com a nova vida, exibindo-se com pimpão e tudo, cacarejando por baixo do assoalho da varanda, de olho no galho espichando o pescoço, arrastando uma asa, posudo.

          Em pouco empo Moreninha começou a pôr. Dona Lídia juntou dezesseis ovos. No início da postura dona Lídia andou encabulada, sem aceitar o que acontecia com Moreninha. “Perdeu o jeito de virgem”, pensava. Para ela, Moreninha tornara-se igual às outras galinhas. “Abaixa-se, sem vergonha, à toa para o galo vagabundo”, dizia para si mesma. Achava, porém, que o galo da vizinha era bonito e que o canto rouco era coisa da idade, “ainda um frangote”.

          Dona Lídia não havia casado, “se eu fosse bonita como Moreninha, teria sido fácil arrumar um marido”, pensava. Lembrava de alguns namorados antigos, “malandros que não queriam nada”. Certamente as pernas finas e o cabelo ralo contribuíram para o desencanto. “Moreninha tem as pernas finas, nem por isso falta pretendente para ela”, pensava lembrando o galo de Eufrosina.

          De um dia para outro Moreninha deu para cacarejar meio rouca, eriçando as pernas. Estava choca. Dona Lídia fez um ninho com penas e retalhos de pano a um canto de um quartinho do fundo. Três semanas depois nasceu uma pintaiada de dar gosto. Nos primeiros momentos, quando os pintos saíam das cascas, eram pescoçudos, pelados, os olhos inchados. Depois foram mudando, nasceram penas bonitas, os piados enchiam a casa. Ninguém os diria filhos do galo de Eufrosina castanho-escuro brilhante. Os pintos eram amarelos como laranja madura.

          Ninguém na casa de dona Lídia esqueceu de Moreninha. Era como se fosse pessoa da família. Quando desaparecia do quintal, dona Lídia abria a boca no mundo, “Moreninha, Moreninha!”. Os sobrinhos dela saíam buscando a galinha pelos becos, por todos os cantos, pelos quintais da vizinhança.

          Naquele tempo as pragas vinham dizimando os terreiros; Moreninha foi uma das vítimas. Acometida de uma doença, deu para perder as forças, para gogar, passando depois a ter desmaios, com piados sufocantes. Foi piorando e em poucos dias morreu. Dona Lídia tentara, antes, umas doses de sulfato de sódio em colherinhas, nem adiantou. Moreninha foi enterrada embaixo da mangueira, junto a seus irmãos.

          Em casa de dona Lídia, depois da morte de Moreninha, a tristeza alastrou-se por muito tempo. Toda noite ela desfiava um rosário inteiro orando pela “alma” da galinha; enquanto rezava, as lágrimas lhe escorriam lentas pelo rosto enrugado; amanhecia de cara fechada, arredia às pessoas. Constantemente sonhava com Moreninha empoleirada, passeando pelos móveis, cacarejando à toa; da janela da cozinha via o galo de Eufrosina ciscando no pé da cerca, entortando o pescoço, fincando pé atrás de Moreninha, todo metido a importante. Num desses sonhos de dona Lídia, Moreninha aparecia aureolada por uma luz azulada emitindo raios fulgurantes. “Ela está no reino dos céus!”, pensava postando as mãos. Lembrava que Moreninha não era virgem, mas bem-comportada e mãe de dezesseis filhos. “Deus sabe disso, certamente lhe deu bom lugar na vida eterna”. Concluía seus pensamentos vislumbrando a galinha de corpo inteiro, tudo lhe passando como fita de cinema; lembrava do aniversário de Moreninha, de suas correrias pelas camas, por outros móveis; se pudesse teria matado a galinha preta que deixou Moreninha com um olho inchado, a crista sangrando, “a infeliz parecia um urubu”. Mas vingou-se do moleque Serapião, lhe borrifando a cara com uma ducha de água quente.

 

(LINHAS INTERCALADAS)

Ariston Caldas

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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia, em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico Terra Nossa, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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terça-feira, 5 de janeiro de 2021

UM CARPINTEIRO ORDINÁRIO – Ariston Caldas

 


         Meu pai dizia que Pedro Longuinho era um carpinteiro ordinário. Acrescentando:

            - Nunca aprendeu a arte.

            Pedro era primo terceiro de minha mãe – esmirrado, ombros estreitos e cabelo escorrido caindo sobre a testa. Sua fala era quase um resmungo. Ele não tinha filho e residia com a mulher numa casa abarracada em uma rua que ia dar na beira do rio, onde havia uma ponte de madeira.

            Os transportes para a cidade eram escassos e ruins e ele havia acertado fazer umas cancelas numa fazenda distante três léguas. Como meu pai tinha bom conhecimento com proprietários de caminhões, Pedro apadrinhou-se dele para conseguir um lugar no primeiro carro que aparecesse.

            - Graças a Deus estarei na fazenda bem antes do meio-dia. – Ele falou para a mulher que ajeitava uns bilros numa almofada feita de chitão.

            - Homem, o carro é seu? Então não fique aí fazendo planos à toa. – Advertiu-lhe ela.

            Antes de ter uma confirmação do meu pai, ele começou no domingo à tarde a arrumar as coisas num bocapio enorme. Chovia e o rio vinha enchendo rápido. Os moradores falavam que “já subiu mais de um metro”. Isso preocupava Pedro que tinha plano de viajar no dia seguinte bem cedinho.

            - É, a ponte é muito alta. Para o rio chegar até o lastro dela precisa de um mundo de água, e a chuva não está tão grossa assim – comentou para a mulher sentada ao lado da almofada de chitão, enquanto arrumava coisas num bocapio – serrote, martelo, enxó, esquadro, compasso; calça velha, uma camisa de brim, um pedaço de fumo de corda e o que ia lembrando. Não queria deixar nada para a última hora.

            Quando o dia amanheceu, ele pulou da cama, coou café, cozinhou aipim e deu milho às galinhas no terreiro do quintal; vestiu uma roupa limpa, calçou os borzeguins amarelos, fez algumas recomendações à mulher e saiu rua a fora, com o bocapio, em direção à cabeceira da ponte onde costumavam esperar transporte. Por algum tempo ficou de pé, teso, bocapio ao lado, certo de que o caminhão arranjado por meu pai não iria demorar. Mais de uma hora depois ele cansou e resolveu sentar-se numa pedra grande que havia perto da cabeceira da ponte, onde ficou chupando roletes de cana, olhando para o rio que parecia baixar.

            - Inda bem que a chuva passou e o rio está secando, resmungou para si mesmo. O caminhão só apareceu próximo das dez horas, quando Pedro já se encontrava aporrinhado. Junto a ele o carro parou. O motorista, sujeito sarará e barrigudo, de bigode cheio, desceu da cabine e perguntou-lhe:

            - Pedro Longuinho é o senhor?

            - Pois não! – respondeu ele, saliente.

            - ... É. Mestre Chico me falou para levá-lo até uma fazenda. Mas olhe a situação. Houve um imprevisto... – disse o motorista apontando para a carroceria do caminhão cheia de vacas leiteiras, e para a cabine onde iam duas mulheres com uns meninos ao colo. Pedro, sustentando o bocapio pesado como chumbo, ficou entalado e quando o carro sumiu na curva depois da ponte, ele resmungou, com raiva. “Diabo os leve!” – jogando para um lado o resto dos roletes espetados em taliscas de bambu.

 

(LINHAS INTERCALADAS)

Ariston Caldas

 

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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia, em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico ‘Terra Nossa’, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal de Itabuna.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2020

UMA BONECA LOURA - Ariston Caldas

Uma boneca loura

(Ariston Caldas)

 

            Era véspera de Natal, chegou em frente a uma vitrine e fascinou-se com uma boneca loura em exposição, de olhos verdes, vestido azul celeste, sapatinhos prateados. Se tivesse dinheiro, a compraria para Verinha, a filha mais nova. “Para presente?”, perguntaria a balconista. “Sim, quero o papel mais bonito que você tiver”, responderia ele, entusiasmado, como se estivesse vendo a caixa com a boneca, num papel bonito, cruzada com uma fitinha vermelha, um adesivo em forma de coração. Chegou a sentir a emoção da menina recebendo o presente.

            Enquanto vislumbrava essas coisas, não tirava os olhos da boneca que parecia gente viva, cabelo dourado cheios de reflexos, uma etiqueta com o preço – 40 Reais. Uma dinheirama para ele. Se fosse trapaceiro e estivesse sozinho, a rua deserta, sem nenhuma pessoa passando, poderia, num lance rápido, apanhar a boneca, saindo depois rua afora, a boneca em baixo do braço, a polícia atrás, pessoas gritando: “Ladrão, ladrão!”. Sentiu um calafrio, mudou de pensamento, mas continuou de olho duro para a boneca de cabelo louro em cachos. Em todo caso, havia conseguido o medicamento para a filha, há três dias queimando de febre. Apalpou a caixa do remédio num bolso traseiro da calça. “Doutor Renato é um sujeito humanitário”, pensou. Na mesma vitrine havia um macaquinho peludo, cor-de-chocolate, de olhos miúdos, bem mais barato que a boneca de sapatinhos prateados.

            Que adiantava o preço menor do macaco se ele se encontrava sem um centavo? Além disso, a filha teria preferência indiscutível pela boneca de olhos verdes, nem tinha dúvidas. Assim, se tivesse que apanhar escondido, seria a boneca.

            Olhou para trás, quase assustado, dois soldados de polícia passavam emparelhados, sisudos, calados, lembrou novamente de Verinha ardendo em febre, o remédio no bolso da calça. Saiu apressado. A momento esquecera a boneca, os dois soldados.

            Pela frente, a avenida extensa, iluminada, cheia de vitrinas enfeitadas, árvores de Natal artificiais entremeadas de lâmpadas multicolores, gente passando com sacolas, com pacotes bem-feitos, atados com fitas, certamente levando muitas bonecas louras, macaquinhos marrons mais baratos, de olhos redondos. “Trouxe meu presente?”. Tinha certeza de que Verinha lhe perguntaria assim, quando ele chegasse, sentada num banquinho de madeira, ao lado da cama, embrulhada numa coberta de tacos. “Quando eu ia comprar uma boneca, um grupo de ladrões roubou meu dinheiro”, ele responderia assim, constrangido por mentir e por não haver levado um presente para a filha. Olharia para ela que não iria entender a explicação, tornando-se mais triste, a carinha aureolada pela coberta de tacos. Agora, muita gente passando apressada, buzinas de carros, sinos badalando e a noite cheia de estrelas. A boneca loura continuaria na vitrine? Ou já teria sido vendida? Se não, estaria exposta, de olhos verdes, sapatos prateados. Não tinha nem um tostão, só uma caixa de remédio num bolso da calça. Lembrava do doutor Renato: “Um comprimido pela manhã e outro á noite”. Dois soldados de polícia passando sisudos, um macaquinho peludo bem mais barato, pessoas gritando: “Ladrão, ladrão!”.

            E foi caminhando, ideias difusas chegando e sumindo, arrodeado de sombras, badaladas de sinos anunciando a missa do galo. Aumentou os passos, chegou em casa, bateu na porta assustado. “Como está Verinha? Eu trouxe o remédio”, falou para a mulher, voz meio embargada. “Parece que a febre baixou um pouco. Ela tomou um chá e agora está dormindo”, disse-lhe a mulher ajeitando a popa do cabelo, entrando para o quarto onde a menina se encontrava com febre.


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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia, em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico Terra Nossa, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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terça-feira, 29 de setembro de 2020

QUARESMA – Ariston Caldas

 


         Na quaresma, quando eu era menino, duas figuras esquisitas apavoravam meu juízo: o lobisomem e a Mula-de-padre. Minha mãe cobria os espelhos com panos escuros, a máquina de costura, as vidraças, os quadros pelas paredes e as imagens dos santos. Era uma manifestação de fé e pesar pelo sofrimento de Jesus, da Virgem Santíssima.

            As estórias fantásticas repetiam-se de boca em boca, as pessoas religiosas impunham penitências rigorosas; não se podia cantar na Semana Santa, a não ser rezando, e quem pronunciasse um nome indecente seria logo repelido.

            Minha cabeça ficava povoada de vultos estranhos e sombrios, pressentindo a todo instante a imagem do lobisomem que se assemelhava a um cachorro gigante e negro, alumiando, olhos vermelhos e incandescentes, os dentes enormes e pontiagudos capazes de devorar qualquer vivente. A mula-de-padre era sem cabeça e só aparecia depois da meia noite, portando chocalhos estridentes; tinha as patas enormes com os peadores atados por correntes pegando fogo. Afirmavam que o estranho animal originava-se de padres pecadores que não respeitavam a abstinência sexual. Eu achava tudo isso confuso e uma vez tentei uma explicação de meu pai que resmungou: “tudo é mentira”. Apesar dessa afirmativa, continuei a temer a mula e o lobisomem.

            Quando anoitecia, as famílias recolhiam-se para meditações, o lugar ficava silencioso como se fosse um cemitério. Não existia iluminação elétrica e as residências eram clareadas por candeeiros que fumaçavam as paredes e o nariz das pessoas. Minha mãe, quando falava qualquer coisa, o fazia em sussurros e qualquer ruído pela rua me deixava temeroso. Vinham as imagens do lobisomem, da mula-de-padre; meus irmãos se entreolhavam.

            O vento pelo telhado era como um presságio e lembravam as cenas da Paixão contadas por minha mãe. “Hoje começou o sofrimento de Jesus, preso e açoitado, crucificado e morto”. Ela falava de Pilatos, Herodes, Madalena e dois ladrões, um bom e outro mau, também crucificados ao lado de Jesus. 

            Em minhas ponderações, essas figuras citadas pareciam com pessoas de minha rua; Herodes seria semelhante a seu Edésio, coletor do estado, que residia na esquina, numa casa bonita; Pilatos parecia com o filho do doutor Márcio Coelho, que gostava de camisas coloridas, rapaz vistoso e sisudo; Madalena era toda Abgail que morava parede-meia à nossa casa, moça de cabelo vermelho, caracolado, namorada de um tal Ranulfo, ponta esquerda do Ipiranga local. Assim eu ia configurando os personagens do Novo Testamento com pessoas minhas conhecidas.

            Meu pai contava estórias da quaresma de seu tempo de menino, mencionando penitências absurdas de pessoas que se cortavam com cacos de vidro açoitados na ponta de um cordão; os penitentes terminavam as obrigações retalhados, o sangue escorrendo pelo corpo. Quando chegava a Sexta-feira Santa, eu me encontrava com a cabeça confusa diante de tantas informações terríveis. Minha esperança consistia no Sábado de Aleluia quando me libertava de tanta assombração, como da mula e do lobisomem.

            Eu voltava a brincar com os meninos da vizinhança, despreocupado, ouvindo música alegre, vendo gente andando sem medo pela rua; à noite assistia a queima do sujeito que traiu Jesus, no meio da praça apinhada de pessoas. Em minhas ideias, Judas parecia com um tonto maltrapilho que perambulava pedindo coisas pelas portas, correndo atrás dos meninos que o atormentavam; era apelidado de Papo-de-Rola. O Sábado de Aleluia clareava minha cabeça.

            Acabava a Semana Santa e com ela sumiam as figuras que assombravam meu juízo. Pela manhã, o coletor-Herodes passava metido numa roupa de linho branco, gravata preta, sapatos de duas cores; o filho do doutor Márcio Coelho aparecia na varanda exibindo uma camisa estampada de azul, com pose de Pilatos; Abigail surgia à janela, ajeitando o cabelo caracolado e vermelho, lembrando-me Madalena; os dois ladrões haviam-se separado – o bom, voando para o céu e o outro permanecia na cruz, sozinho. O local da crucificação aparecia em meu juízo parecendo o quintal da minha casa, - um pé de pitanga, um abacateiro, hortaliças e o canteiro onde minha mãe plantava rosas e girassóis.

 

(LINHAS INTERCALADAS – 2ª EDIÇÃO)

Ariston Caldas

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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

ROSA DAQUELA ESQUINA – Ariston Caldas

 


          Quem é Rosa? “Rosa daquela esquina”. Ninguém sabia se era prenome, apelido ou nome verdadeiro. Todos sabiam, porém, que Rosa era um raio de gente, como dizia dona Merentina.

            Descalça pela rua, beiços untados de batom, short subindo pelas virilhas, gola despencada, andança pelas casas dos outros; doze anos e nas horas vagas namorava pelos becos, pela beira do rio. “Se dona Merentina souber, vai me engolir viva”. Pensava, às vezes, se esticando com Arnaldinho, o filho, 16 anos, meio-lerdo só de aparência; o que era mesmo, um sonso de verdade. Em pouco tempo um leva-e-traz soprou nos ouvidos de dona Merentina. O primeiro impacto dela seria quebrar a cara de rosa, “molequinha que nem se olha”. Dizia, ameaçando levar o fato ao conhecimento do marido, comerciante de conceito no lugar. 

            Ciente do fuxico, Rosa nem ficou com medo e chegou a amiudar as andanças pela rua de Arnaldinho. “Te parto a cara, tipinha!”. Rosa ficou de olho duro, risinho frio, cínica, espevitada, “vá merda, sinhá bruxa!”, respondeu já em disparada, cheia de deboche. E quando o pai dela soubesse da encrenca! Iria chiar na palmatória, puxada pelos cabelos. Bonifácio não era sopa. Pedreiro aformigado, mãos calosas pelo cabo da colher, cinzentas pela cal, pelo cimento. Se Rosa tivesse mãe, a vida seria menos dura, mesmo perdendo parte das vadiagens. Sozinha, cozinhava para Bonifácio, cosicava, enchia o pote, engomava, limpara os sapatos dele nos dias de culto evangélico, a fora outras lidanças, varrendo, lavando, comprando coisas pelas bodegas. Antes dos agarros com Arnaldinho, fazia muito piseiro pela casa da mãe dele, sumia corredor adentro, ia para a cozinha onde ficava fuxicando com uma empregada, cuidando da vida de todo mundo. Mas era dona de um predicado importante: bonita para ninguém dizer o contrário, de cara, de corpo, de pele. Isso deveria render-lhe a tolerância das pessoas, até de dona Merentina antes da encrenca com o filho. Pena que as mazelas fossem tantas, a começar pelo desleixo consigo mesma, descalça, roupa despencando, cabelo embaraçado com uma flor perdida no meio. Uma doidinha, como diziam pessoas da vizinhança. Verdade que, se Rosa não portasse tanta maluquice, nem ia chegar para os admiradores.

            Mas, como! Arnaldinho, agora, nos tampos dela, mesmo enfrentando as durezas da mãe que não dormia no ponto, pedante, crespa, quase violenta.

            Dona Merentina suspirou de alívio quando soube que Rosa andava de chamego com Zacarias, escurinho auxiliar do pai dela que, ciente do acontecimento, deu uns bolos de palmatória nela e dispensou o moleque do trabalho. De pronto, Arnaldinho fazia a renovação, para raiva e desgosto de sua mãe. Zacarias ficou triste, Rosa não saía de seu juízo, bonita, esperta, “um raio de gente”, agora, com a barriga crescendo, um filho de outro no bucho. Ciente do acontecido, dona Merentina assustou-se, entrou em choque. Recuperada, passou a idealizar coisas absurdas, como forçá-la a tomar uma droga para abortar; pediria a um médico um abortivo seguro e ameaçaria Rosa: “se não tomar, mando te matar!”. Voltava a lembrar de Bonifácio, temia providências dele levando o caso para Seu Borges, delegado de polícia, sujeito sisudo e justiceiro. De qualquer modo, Arnaldinho era caso perdido, havia traído os preceitos da família, misturando-se com quem não presta. Nem teria condição de preparar-se para o vestibular.

            Ciente do fato, o pai de Rosa ficou assustado, com medo, frustrado, sentindo-se inferior à família de Arnaldinho. Fez cálculos, acrescentou, deduziu e resolveu ir-se embora do lugar, carregando a filha. Dona Merentina viu a mudança, passou pelo outro lado da rua como quem não repara. Bonifácio, na carroceria de um caminhão com utensílios velhos e trouxas. Rosa, na cabine, cabelo voando, boca cheia de batom. “Um alívio”. Lembrou que pedira ajuda aos santos, com fé, agora era atendida. Compraria flores e velas, enfeitaria o altar da igrejinha, mandaria celebrar uma missa de ação de graças. Testemunhou o carro saindo até quando sumiu de vista, levando Rosa para as profundas. Não precisaria mais aporrinhar o marido, “homem frouxo, sem decisão”. Por que Arnaldinho não apareceu para o almoço?

            Numa curva da estrada, ele deu com uma mão e subiu para a cabine, sentando-se ao lado de Rosa.

            Dona Merentina não soube, até hoje, se a fuga dele foi tramada pelos três ou se Arnaldinho pegou a ponga, de cara dura. Certo é que ela ficou alucinada, falando aos conhecidos íntimos que estava sentindo vontade de se matar.

 

(LINHAS INTERCALADAS – 2ª EDIÇÃO)

Ariston Caldas


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sábado, 27 de junho de 2020

PESADELO – Ariston Caldas

 
          Cecílio estava quase decidido, abandonaria Mildes; para isso ele fez indagações, comparativos, hipóteses; mediu os prós e os contras e não encontrou outra saída. Certeza sobre alguma coisa grave, nenhuma, mas uma dúvida renitente cavava seu juízo, dando-lhe quase a certeza, a justificativa para sua desconfiança. Sobre o quê? Perguntava-se às vezes. Ora, de verdade, só a indiferença de Mildes para com ele, notadamente naqueles momentos; ela embuchava, cobria-se cabeça e tudo, inventava lorotas, dizia-se cansada, isso e aquilo; nem conversava mais na hora de dormir, como fazia antes. Quando tudo começou assim, Cecílio deu até seus descontos, “coisas de mulher”, pensou. As cenas foram-se repetindo e um dia ele desconfiou. Doença, não era, Mildes continuava forte e rosada, bonita e disposta o dia inteiro. Em algumas oportunidades ele tentava fazer mão boba. “Me deixe, homem”, ela repelia. Vinham os resmungos e ele perdia as estribeiras; sem outro jeito ele calava a boca e ficava de olho duro para o telhado, articulando pensamentos.

            Antes de outras providências, iria para a casa da mãe dele, depois cuidaria da separação judicial. Em casa da mãe teria que arrumar uma empregada pala lavar pratos, e outros afazeres miúdos. Dona Elza estava idosa, cansada, cheia de mazelas.

            Enquanto tudo isso passava por sua cabeça, Mildes respirava encolhida a um canto da cama, virada para a parede; o rosto dele queimava, o miolo se alvoroçava, os nervos rebentando; o telhado parecia-lhe opressivo, as paredes manchadas lembravam-lhe um quarto de bordel e Mildes se assemelhava a uma prostituta; até o perfume exalando do corpo dela lembrava isso; ele sentia o cheiro subindo, ativo, ordinário, diferente do bom perfume que ela usava sempre. Por uma greta da janela ele sentia a noite clara, lembrou que era lua cheia.

            Recordou do casamento com Mildes, ela toda de branco, grinalda; a igreja do bairro iluminada a gosto, os convidados, os amigos, o coral. Mildes havia mudado muito, e agora, com aquela mania, virou uma peste. Quando aproximava-se a hora de dormir, parecia-lhe um suplício. “Que devo fazer?” Arriscava uma futucada de leve, cheio de acanhamento. “Chegue pra lá”, era a reação dela. Andava, virava, ele enchia-se de resmungos, ficava bruto, pronunciava-se aos berros. Mildes espreguiçava-se, virava para a parede, e o que seria bom ficava para outra vez.

            A partir da constância desse episódios, ele passou a maldar coisas, chegando à certeza de que estava sendo traído. Como passaria sem Mildes? Chegavam-lhe ideias absurdas, como a de praticar um crime. Mataria qualquer sujeito. Depois afastava essa possibilidade. A separação seria bem melhor, mesmo sabendo difícil suportá-la. Várias noites nessa angústia, o juízo embaralhado entre hipóteses absurdas. Lembrava de um punhal antigo que pertencera a um avô de Mildes, guardado como relíquia. Vez por outra ele via o punhal numa gaveta do guarda-roupas, prateado, inoxidável, numa bainha de couro bordada a fogo. Numa dessas noites ele levantou-se cheio de perturbações lembrando do punhal; Mildes, de sono solto, respirava tranquila, um seio descoberto e branco entre a turvação do quarto, os olhos fechados às vezes vibrando levemente, a boca ainda com a pintura de depois do banho. Sem resistir ao quadro, Cecílio passou a farejar os cabelos dela derramados pelas bordas do travesseiro; o fez receoso temendo que Mildes se assustasse. Depois, saiu devagar, macio, em direção ao guarda-roupas; apanhou o punhal na gaveta e lembrou do avô de Mildes que teria sido um sujeito com bigode de pontas viradas, sisudo, cabelo anelado partido ao meio. Ela continuava dormindo, respirando tranquila, um peito branco de fora, os cabelos espalhados pelo travesseiro, exalando perfume ordinário. “Tá ficando doido, homem, me solta!” Ela exclamou assim num balbucio estridente e confuso, dando uma cotovelada no peito dele que acordou de supetão, todo embaralhado. “Você viu onde deixei minha carteira de cigarro?” Disse ele ainda atordoado, e afastou-se zonzando, conseguindo dormir novamente.

            Voltou a sonhar, agora trocando tiros com um sujeito cabeludo parecido com um tal Miranda, dono de uma academia de ginástica, que morava em frente e gostava de andar numa moto vermelha. No sonho o sujeito empunhava um revólver e tinha à cintura um punhal igualzinho ao que pertencera ao avô de Mildes.

            Cecílio passou a noite assim entre pesadelos medonhos. No dia seguinte teria que resolver sua vida, encostaria Mildes à parede, decidindo tudo. Não fez isso no dia seguinte nem mais nunca. Ninguém sabe como ele conseguiu normalizar a situação. O casal reside na mesma rua, em frente à casa onde morou o dono da academia.

           
(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição, 2004)
Ariston Caldas

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