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sexta-feira, 19 de julho de 2019

SÍNODO DA AMAZÔNIA OU CONCÍLIO VATICANO III? – Marcos Luiz Garcia


16 de julho de 2019
Marcos Luiz Garcia

            Para todos nós católicos, o panorama na Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana se enegrece cada dia mais.

            A ofensiva esquerdista que está sendo preparada através do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia prenuncia uma verdadeira revolução, não só a respeito do modo de se considerar a Igreja, mas com reflexos apocalípticos para toda a ordem mundial.

            Há pouco foi publicado o documento Instrumentum laboris, que define a pauta desse Sínodo. É verdadeiramente assustador! Mais apropriadamente, poderia chamar-se Documento Preparatório para o Concílio Vaticano III, pois o Sínodo Pan-Amazônico está para o Concílio Vaticano II como este está para o Concílio de Trento.

            Em outras palavras, a verdadeira explosão de modificações pastorais e doutrinárias que o Concílio Vaticano II provocou na Igreja se repetirá com o lançamento da Igreja Amazônica, mas num âmbito muitíssimo mais grave e radical. A tal hermenêutica da continuidade, já impossível, pura e simplesmente se evapora.

            Para ajudar a compreender melhor o que estou dizendo cumpre retroceder ao Pontificado antimodernista de São Pio X, que pautou sua vida em combater o modernismo, heresia que, segundo ele, continha em si todas as heresias.

            Após São Pio X começou um afrouxamento no combate ao modernismo, que depois deu lugar à ascensão paulatina de uma doutrina que é o próprio modernismo revestido de hipócritas aparências, o chamado progressismo.

            Ao mesmo tempo, um amolecimento sentimental gerado na alma dos católicos subtraiu-lhes a combatividade e inoculou um espírito entreguista, concessivo e meloso, o qual foi se acentuando até o Concílio Vaticano II.

            Suficientemente amolecidos os católicos, foi possível lançar as “novidades” do Vaticano II e, depois, a crescente desfiguração do espírito e da mentalidade católicas. A Teologia da Libertação ganhou impulso e a esquerda católica robusteceu-se muito.

Uma parte dos fieis se escandalizou com o progressismo e o recusou. A estes foi oferecido, em lugar da espiritualidade tradicional católica, um carismatismo oriundo dos protestantes pentecostais americanos.

            Essa mudança na Igreja escandalizou muitos católicos de fé fraca, que por falta de convicções profundas preferiram abandoná-la em troca de religiões protestantes.

            Nada foi feito de relevante pelos Pastores para trazer de volta as ovelhas, porque a postura ecumênica da esquerda católica ensina que não há gravidade em se mudar de religião. Por isso, desde o Concílio Vaticano II até hoje, vemos o rebanho católico brasileiro diminuir de 97% para pouco mais de 50%, sob a indiferença de grande parte dos Pastores. Existe até a proibição de fazer “proselitismo”, ou seja, apostolado para recuperá-los.

            Concomitantemente a isso, uma imensa parte do Clero foi se desfigurando cada vez mais, perdendo sua sacralidade, respeitabilidade e santidade, e se mostrando cada vez mais amigo dos antigos lobos dizimadores do rebanho.

            Notícias de escândalos morais dos mais pesados cometidos por um enorme número de clérigos enchem os jornais de numerosos países, deixando ainda mais perplexas as ovelhas.


            Com profunda tristeza, vemos o atual Pontificado impregnado de coisas inusitadas, de contínuas atitudes francamente perplexitantes, e frequentemente emitindo declarações contrárias à doutrina tradicional, semeando nas almas uma dúvida generalizada sobre o que é propriamente a Igreja Católica, quais são seus princípios verdadeiros e imutáveis, e impondo as perguntas: O que está certo? O que está errado?

            E é justamente em meio a esse caos religioso que é convocado um Sínodo que vai lançar praticamente uma nova igreja, totalmente adaptada à vida tribal dos índios, mas que será uma nova fase a ser aplicada, conforme anunciam seus responsáveis, para a Igreja no mundo inteiro. É o anúncio de uma revolução profunda, que destruirá totalmente a ideia verdadeira da Igreja na maioria dos católicos, lançando-os numa crise de Fé jamais vista.

            Caso esse plano tenha sucesso, os católicos que aderirem a ele mudarão de religião e o imenso rebanho de Nosso Senhor Jesus Cristo se reduzirá a uma minoria. Minoria essa que, provavelmente, terá muito que sofrer. Mas será sustentada pela promessa de Nosso Senhor de que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, e vencerá com Ele no Triunfo do Imaculado Coração de Maria prometido por Nossa Senhora em Fátima.

Comentários

José Antonio Rocha
17 de julho de 2019

Não tenhamos medo. Tenhamos fé. Os escravos de satanás, os novos Judas, não vencerão. Deus é mais forte que todo o mal. Jesus Cristo venceu o mundo, a morte e o pecado. O coração imaculado da Virgem Maria triunfará. Amém.
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Julio Ricardo Bonilla
17 de julho de 2019

Artigo excelente. Principalmente para deixar clara a responsabilidade da Hierarquia Católica em permitir e propiciar que este estado de coisas tão alarmante seja alcançado na Igreja em geral e neste Sínodo da Amazônia em particular.
Não é só a responsabilidade da nefasta Teologia da Libertação ressuscitada em nossos dias, mas mostra bem como a culpa vem por causa do modernismo anterior ao Vaticano II, por causa deste, e nos dias seguintes, com aquele progressismo autodemoledor que chega até o documento Instumento laboris, forjado por Francisco.
Não há o menor exagero na gravidade da situação que o autor comenta, e tampouco em afirmar que esse drama da Igreja já está atingindo fronteiras apocalípticas. Nunca antes, nos 20 séculos de existência, foram as calamidades tão assustadoras que hoje vemos todos os dias.
Parabéns para o autor do artigo.


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"EU ME CONSUMO DE ZELO PELO SENHOR DEUS DOS EXÉRCITOS”


17 de julho de 2019
Contava-se antigamente que, para ouvir de certo homem suspeito se ele tinha ou não praticado um furto, levaram-no diante de uma imagem do Profeta Elias. Desejava-se verificar se continuaria negando o crime. O suspeito disse que não acreditava em Deus e aceitou o desafio. Posto diante da imagem, ficou tão amedrontado que confessou ser ele o ladrão. Alegou depois que não conseguia mentir diante daquela fisionomia increpadora do Profeta.
Desse Santo Profeta do Altíssimo, os livros registram numerosas alegorias ou alcunhas. Eis algumas: Espada do Senhor Deus dos Exércitos; raio exterminador dos ímpios; trovão e ímpeto de fogo; força avassaladora; vingador dos crimes; justiceiro da honra de Deus; pavor dos maus; glória dos bons; martelo dos tiranos; precursor e prefigura de Cristo; defensor das Leis divinas; extirpador dos idólatras; primeiro devoto da Santíssima Virgem; pai e chefe dos carmelitas (pater et dux carmelitarum).
Segundo muitos de seus fiéis, o Profeta era invocado como “Elias-o-trovão”, porque comandava os trovões, os raios e a chuva. Na cidade russa de Novgorod havia duas igrejas: uma consagrada a “Elias-o-úmido”, outra a “Elias-o-seco”. Os devotos rezavam a uma ou outra invocação conforme as necessidades da agricultura — quando se precisava de chuva ou de estiagem para as plantações. Narra-se que em uma das Cruzadas Santo Elias apareceu no céu com um gládio em chamas, pondo em fuga os maometanos.
Por tudo isso, podemos sustentar que Elias não foi um homem incerto, morno, indefinido, indeciso, genérico, e muito menos um centrista… Mas algum acomodado a quem coubessem qualificativos como esses objetaria que Elias era puro ódio. Por um lado isso é verdade, pois odiava o mal. Mas por outro lado se consumia de amor a Deus, abrasava-se de zelo pela sua honra. Conforme registra a Sagrada Escritura, é dele a afirmação: Zelo zelatus sum pro Domino Deo exercituum (“Eu me consumo de zelo pelo Senhor Deus dos exércitos” – 1 Reis, 19,10).
Muito de acordo com um antigo adágio espanhol, “quem ama, odeia; e quem odeia, combate”podemos dizer que o ódio de Elias contra os inimigos de Deus crescia em decorrência de seu amor a Deus. Também podemos afirmar que Elias foi o escolhido por Deus para seu vingador contra os ímpios prevaricadores, que em seu tempo (quase 1.000 anos antes de Cristo) afrontavam as Leis divinas.
Podemos então indagar: Se o Profeta Elias vivesse em nossos dias de tanta prevaricação moral e afronta à verdadeira Religião, qual seria a atitude “eliática”? Como ele se comportaria?
Leia, estimado leitor, a matéria de capa da edição da revista Catolicismo deste mês, e certamente encontrará os elementos para a resposta. Depois, se desejar, envie-nos seus comentários.
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Para se efetuar uma assinatura da revista Catolicismo, envie um e-mail pedindo informações para: catolicismo@terra.com.br

Comentário

17 de julho de 2019
Só digo uma coisa: Santo Elias iria ter muito trabalho…



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quinta-feira, 18 de julho de 2019

1º Ciclo | O lugar de Machado de Assis na literatura brasileira

O VISITANTE – Helena Borborema


         
 Tarde abafada aquela. Sentada num banco meio frouxo à porta da casa, Bastiana buscava na sombra que se espalhava no terreiro um pouco de ar. De quando em quando, sacodia de um ombro a outro, à guisa de abanador, um pedaço de pano , resto de uma blusa velha, para enxotar os mosquitos e amenizar o calor. Também de quando em quando enchia a mão de grãos de milho tirados do bojo da saia e atiçava-os às galinhas que, ciscando e cacarejando, juntavam-se com suas ninhadas ao seu redor; mas, seus olhos cansados estavam atentos à estrada adiante , buscando avistar alguém. Quantos anos tinha dona Bastiana, essa preta velha, nem ela mesmo sabia ao certo. Pelos seus cálculos, tomando por base o ano da abolição do cativeiro, estava na casa dos oitenta, mas ninguém dizia. Lúcida, forte, ainda tinha bastante energia para cuidar da casa e se fazer obedecida pelos três netos órfãos que acabara de criar, herança de sua filha única há muito largada do marido que sumiu no mundo, e há anos já falecida. Agora eram todos três adultos. Quando o marido morreu há dez anos, dona Bastiana ficara com aquela fazenda com casa de tijolos e telhas, à porta dá qual se abanava àquela hora da tarde, cercada de suas criações. Os netos, rapazes trabalhadores, e que estavam à frente dos trabalhos na roça, tinham ido a Itabuna conversar com o advogado; voltariam naquela mesma tarde; que notícias trariam? Ansiosa, buscou mais uma vez com os olhos a estrada, enquanto o coração se apertava numa angústia enorme.

            Naquele instante, sozinha com seus pensamentos, dona Basti, como era também chamada, passou a relembrar os tempos idos. Quando chegou com o marido para aquelas terras, há sessenta anos, tudo aquilo era mato. Nenhum vizinho havia por perto. Os dois deram duro, trabalharam muito, soaram no cabo do machado e da enxada, até as mãos se abrirem em calos e depois se transformarem em grossas lixas. A roça prosperou. Não era grande, mas o cacau que produzia dava o suficiente para a família viver sem preocupações com o futuro. Depois veio o progresso no Município e a vida melhorou nas suas terras; onde havia apenas uma trilha como caminho, passava agora uma estrada de rodagem. Quantas vezes já não acordou assustada com o ronco dos caminhões, passando perto, na estrada! Quem diria! Chegou a murmurar alto dona Bastiana. Além de caminhões carregados de cacau, até uma marinete passava diariamente fazendo a linha Itabuna-Palestina.

            Aquela fazenda era o seu mundo. Pouco sabia do que se passava fora dele. Ali, tudo lhe contava uma história ou falava ao seu coração, como o frondoso sapotizeiro que o marido plantou para ela ao lado da casa; a jaqueira perto da barcaça tinha tantos anos quanto o seu neto caçula; foi plantada no dia em que ele nasceu. Quantas e quantas vezes tinha olhado aquelas serras lá longe, aquele por de sol. Quantas vezes tinha palmilhado aquele chão ao longo de sessenta anos, no seu-dia-a-dia de labutas. E a velha casa cujas paredes eram testemunhas dos seus risos nos dias de alegria e de suas lágrimas nos dias tristes, como na morte da filha e, por último, seu marido. Ali estava a sua vida e ali queria findar os seus dias.

            Agora, quando pouco tempo lhe resta, depois de anos e anos de trabalho e penúrias, surge essa questão que vem lhe amargurar a vida. E se perder na Justiça? O que será dela e dos netos? Estarão todos na miséria. Foi num dia assim, calorento, nesse mesmo lugar, que tudo começou. Era uma tarde de sábado e os netos tinham ido fazer feira em Palestina, distante dali poucas léguas. Ela estava a dar comida a suas criações, como costumava, quando um moço sorridente e de boa aparência apeou à sua porta. Quem era, não sabia, mas o diálogo foi amável:

            - Boa tarde, minha tia.

            - Boa tarde. Vá se chegando pra frente.

            - Como vai vosmecê nesse conforto?       

            - Conforto num banco véio, duro como esse, meu filho? Quem sou eu para merecê conforto.

            - Não diga isso!

            Enquanto tomava assento num tamborete que lhe foi oferecido, continuou o recém-chegado:
  
            - Vosmecê está até parecendo a mãe de Ganga Zumba sentada num trono.

            - Ganga o quê?

            - Ganga Zumba. Sabe quem foi ele? Um negro valente, tio de Zumbi.

           - Hum!

            - Pois é. Vosmecê tá parecendo uma rainha daqueles tempos de Palmares.

            - Minha mãe falava muito em Zumbi. Quando menina, ouvi as histórias dele.

            À sombra do terreiro, o sorridente visitante enxugou o suor do rosto com um lenço de cambraia puxado do bolso do paletó.

            - E a fazenda, como vai?

            - Mais ou menos. Com a “mela” perdemos um bocado de cacau, mas é tudo como Deus quer. E eu estou aqui conversando sem nem conhecer vosmecê. Se tá procurando meus netos, estão todos três fazendo feira em Palestina.

            - Só vim fazer uma visitinha a vosmecê. Tenho fazenda aqui perto, isto é, a minha sogra, mas como eu agora estou à frente dos negócios depois da morte do velho, ando sempre aqui.

            - Vosmecê é genro de dona Marocas? Conheci sua mulher pequenininha. Seu sogro era um homem de bem. Foi um bom vizinho.

            - Como ia dizendo, passei por aqui para lhe fazer uma visitinha e lhe oferecer uma pechincha, um rádio que resolvi vender. Enquanto falava, ia retirando de um saco de couro pendurado no cabeçote da sela o objeto da venda.

            - Para que eu quero rádio, meu filho! Na minha idade só penso em morrer.

            - Vosmecê ainda vai comer muita farinha e ouvir muitas notícias com esse rádio, minha tia. Olhe aqui. Novo, bom. Só quero me desfazer dele para substituir por outro ao gosto de minha mulher. Ela quer um grande, pra botar na sala.

            - Só se o José se interessar, porque o dele andou aí dando uns defeitos, meio arruinado.

            - Pois então! A Senhora fica com este, mostra ao José, depois resolve.

            - Não, seu moço! Só com ele. Eu não me meto nesses negócios.

            - Ora, minha tia. Que mal há em vosmecê ficar com o rádio para mostrar a seu neto? rádio grande, bom.

            Enquanto falava, foi retirando de uma pequena pasta que trazia à mão um bloco de papel e a caneta.

            - Está aqui o seu rádio. A senhora precisa ouvir as notícias que se passam por aí, ouvir música sertaneja. Uma beleza!

            - Eu por mim não quero. Só se meus netos quiserem.

            - Então! Depois eu passo aqui, um dia desses, para saber a resposta. Sou seu vizinho, a minha fazenda, isto é, de minha sogra, é logo ali adiante.

            - E se meu neto não quiser?

            - Não tem importância. Levo o rádio de volta. Agora, tia, basta a senhora assinar nesta folha de papel. E só um sinal de que recebeu. É só a assinatura.

            - Não tô comprando, né?

            - É que a gente é da vida e da morte. Isto é só pra saber que vosmecê recebeu.

            - Eu mal esgarrancho meu nome. Nunca tive escola. Só aprendi assinar pra não fazer feio no dia do casamento, na hora de assinar no livro. Taí!

            - Pronto, tia. Que letra bonita! Já vou chegando, antes que a tarde caia.

            Depois de mais alguns minutos de conversa fiada, sempre sobre a fazenda de dona Bastiana, o visitante se despediu.

            Deus o acompanhe, meu filho.

            - Vosmecê vai gostar do rádio. Até à vista!

            O cavaleiro deu de rédea e partiu sorridente, com uma folha de papel assinada em branco metida no bolso. Continuando a enxugar o suor da testa com o lenço de cambraia, pegou a estrada e seguiu para casa contente da vida.

            Dona Bastiana deu um longo suspiro. Os olhos se embaçaram de lágrimas. Agora aquela cobrança na Justiça de um dinheiro que ela nunca tomou emprestado, nunca viu. Quantia tão grande que a obrigaria a vender a roça para pagar.

            Como iria viver se perdesse a sua roça, a casa onde nasceram a filha e os netos e onde desejava morrer? O seu mundo  estava ameaçado e longe dele não aguentaria, assim falava o seu coração.

            Que notícias lhe trariam os netos? Estavam lutando na justiça para desfazer o “caxixi” miserável, armado pelo moço sorridente. Lutavam para salvar a fazenda. Conseguiriam? O advogado dava esperanças.

            Dona Basti olhou mais uma vez a estrada, buscando ansiosa a chegada dos netos, enquanto enxugava com a manga da blusa as lágrimas grossas e quentes que lhe desciam pelo rosto cansado.


(TERRAS DO SUL)
Helena Borborema

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HELENA BORBOREMA - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município.

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quarta-feira, 17 de julho de 2019

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Guilherme de Almeida - Soneto


Soneto 
  
Hoje – voltas-me o rosto se a teu lado passo; 
E eu baixo os meus olhos se te avisto;
E assim fazemos, como se com isto
Pudéssemos varrer nosso passado.

Passo, esquecido de ter de te olhar, coitado!
Vais – coitada! esquecida de que existo,
Como se nunca tu me houvesses visto,
Como se eu sempre não te houvesse amado!

Se acaso sem querer nos entrevemos,
Se, quando passo, teu olhar me alcança,
Se os meus olhos te alcançam quando vais ...

Ah! só Deus sabe e só nós dois sabemos!
Resta-nos sempre a pálida lembrança
Daqueles tempos que não voltam mais!


(GUILHERME DE ALMEIDA)
Messidor, XXVII

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GUILHERME DE ALMEIDA

            Poeta da moderna geração, nascido em Campinas em  24/7/1890, membro da Academia Brasileira de Letras (Cadeira 
nº 15). Publicou diversos livros de poesias, dentre os quais: Nós (1929), Livro das horas (1929), Messidor (1919), Livro das horas de Soror Dolores (1920), Era uma vez (1922), A frauta que eu perdi (1924), Natalika (1924), Poesias escolhidas (1931), Você (1931).

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ITABUNA CENTENÁRIA SORRINDO: SÃO JORGE – Nelson Gallo


           Aconteceu há muito tempo. Montado no seu cavalo de estimação, o homem trotava pela estrada de Itajuípe para Itabuna quando encontrou um amigo andando a pé em sentido inverso. Cumprimentaram-se, depois o homem que seguia a pé indagou do outro para onde se jogava.

             - Vou à Ilhéus.

             - E ainda espera chegar hoje?

             - Com esse cavalinho não preciso nem que São Jorge me ajude prá chegar antes das sete da noite - respondeu o cavaleiro.

            Cumprimentaram-se e cada qual seguiu o seu caminho. Menos de cem metros depois o cavalo caiu, jogando o cavaleiro no chão. O homem levantou-se, sacudiu a roupa e, esfregou a perna contundida, depois se ajoelhou na estrada e rezou:

            Meu São Jorge, eu só tava pilheriando. Será que vosmincê é assim tão mardoso que se zanga com quarqué pilherinha boba que a gente faz?

            Montou novamente e, durante o resto da viagem, a todos que lhe perguntavam para onde ia ele respondia:

            Pra Ilhéus, se São Jorge quiser...


(O SORRISO DO CACAU)
Nelson Gallo

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terça-feira, 16 de julho de 2019

NOITE DE CHUVA – Ariston Caldas


  
        
Escorou-se à janela na esperança que o tempo melhorasse. Era uma noite feia, sem estrelas, entremeada por uma chuva fina, incessante, empoçando as ruas, dificultando o trânsito das pessoas; tudo deserto, as biqueiras num trós-trós, às vezes cadenciado, outras sem ritmo, assustando; lâmpadas opacas entre os chuviscos, por trás das vidraças, penduradas pelos postes, ornamentando a torre de uma igrejinha no centro da praça principal. “Parecendo início de Semana Santa”, pensou, chateado, acendendo um cigarro; ajustou pelo corpo uma capa preta, ajeitou o chapéu, decidindo enfrentar o temporal miúdo e incessante que o impacientava. Saiu cauteloso, desviando-se das poças; a capa preta, de oleado, emitia um brilho semelhante à pele de sanguessuga, ante os reflexos das lâmpadas mortiças, entre a penumbra orvalhada pela garoa que ele parecia infinita.

            Enquanto caminhava, lembrou com desgosto da vida militar, onde passou cerca de um ano, contrariado, obedecendo ordens de superiores hierárquicos, cumprindo tarefas insuportáveis; lembrou das fardas mal lavadas , cheirando a sujo, dos alojamentos abafados, das camas enfileiradas parecendo de enfermaria; da ordem-unida, da física, manhã cedinho, quando  camaradas cheirando a suor escanchavam em seus ombros; da petulância e do pedantismo de alguns graduados aos gritos, orgulhosos até às batatas das pernas. Via-se às voltas com o cabo Evaristo, baixinho de pernas tortas, bruto, enfarruscado: “Você aí, seu cara de sergipano!”

            O tenente Costa, de cavanhaque louro e óculos com aros finos dourados, bigode com pontas viradas, montado num cavalo esquipador, desfilando nas folgas pela avenida beira-mar. Em compensação, quando deixou a farda, era dono de uma carteira de primeira categoria. No dia do licenciamento, mesmo sem dinheiro, passou a noite badernando pela rua, em companhia de alguns companheiros também licenciados.

            A chuva trazia-lhe essas recordações súbitas. Tentou esquecê-las dando um muxoxo. Veio-lhe à memória a morte do tio Eusébio com uma úlcera no estômago. Parecia ver o cenário em seu redor, a sala humilde onde se dera o passamento, a chegada do tio numa rede enforquilhada conduzidas por dois homens com as camisas atadas a cintura, suados; dia chuvoso, à tardinha, o tio soltou o último suspiro. Ao redor da cama, a mulher e dois filhos, ela chorando, calada, vez em quando enxugando o rosto com um lenço branco, encardido; os dois meninos, assustados, sem afastarem os olhos do pai espichado, feições fundas, barba crescida. Fora, caía uma chuva fina, incessante, com rajadas de vento frio. No dia seguinte, acompanhou o enterro e assistiu, de olho duro, descerem o tio dentro de um caixão preto sustentado por cordas, para o fundo de um buraco; um negro musculoso e careca enchia uma pá de terra e ia entulhando a cova, barulho fofo ruía no fundo a cada batida do barro sobre o caixão; pessoas presentes falavam coisas que se repetem nessas ocasiões, “Deus lhe abra as portas do céu”. “Coitado, finalmente descansou”. Parecia ver, naquele instante, o pequeno grupo de pessoas cabisbaixas saindo pela porta da frente do cemitério onde o tio ficaram para sempre.

            De súbito, levou um escorrego, mas não caiu. A lembrança do enterro afastou-se, a chuva fina insistia. As goteiras pingavam, as lâmpadas pelos postes de madeira, embaciadas, a capa preta de oleado esfriava. O dia seguinte seria domingo, dia de descanso; iria, como de costume, arrumar o quarto, ajeitar as roupas, separar as que iam para a lavadeira; lustrar os sapatos, assistir a algum programa de televisão, aguardar outra segunda-feira chata, entre as mesmas caras, repetindo contas, arrumando coisas no escritório cheio de livros, computadores, o gerente no compartimento ao lado, de óculos brancos, gravata, bem penteado.

            Lembrou do salário pequeno, dos preços das coisas aumentando a cada dia. Olhou para o céu sem estrelas, nem nos confins dos horizontes turvos, sem paisagem. Uma amendoeira próxima atinou-lhe que estava chegando à casa de Juanice, moça que conhecera havia pouco tempo. Desabotoou a capa de oleado, escorreu por ela as mãos frias, espanando os chuviscos impregnados na superfície. Arrancou a ponta de cigarro dentre os beiços e atirou-a numa poça d'água próxima a um poste da rede elétrica; tirou o chapéu. Subiu para o passeio, três passos e bateu com veemência à porta da namorada: “Sou eu, Juanice!”.


(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição 2004)
Ariston Caldas

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