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quarta-feira, 17 de julho de 2019

ITABUNA CENTENÁRIA SORRINDO: SÃO JORGE – Nelson Gallo


           Aconteceu há muito tempo. Montado no seu cavalo de estimação, o homem trotava pela estrada de Itajuípe para Itabuna quando encontrou um amigo andando a pé em sentido inverso. Cumprimentaram-se, depois o homem que seguia a pé indagou do outro para onde se jogava.

             - Vou à Ilhéus.

             - E ainda espera chegar hoje?

             - Com esse cavalinho não preciso nem que São Jorge me ajude prá chegar antes das sete da noite - respondeu o cavaleiro.

            Cumprimentaram-se e cada qual seguiu o seu caminho. Menos de cem metros depois o cavalo caiu, jogando o cavaleiro no chão. O homem levantou-se, sacudiu a roupa e, esfregou a perna contundida, depois se ajoelhou na estrada e rezou:

            Meu São Jorge, eu só tava pilheriando. Será que vosmincê é assim tão mardoso que se zanga com quarqué pilherinha boba que a gente faz?

            Montou novamente e, durante o resto da viagem, a todos que lhe perguntavam para onde ia ele respondia:

            Pra Ilhéus, se São Jorge quiser...


(O SORRISO DO CACAU)
Nelson Gallo

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quinta-feira, 29 de junho de 2017

TACÃO DE FERRO - Nelson Gallo

Tacão de ferro


            O título eu o tomei emprestado duma novela de Jack London, mas serve perfeitamente para ilustrar o caso que passamos a narrar.

            Ao sul de Ilhéus, vasta região era governada por mão de ferro. O senhor das terras, da liberdade e até da vida – é o que dizem - de muitos habitantes do lugar, era quem decretava as leis. Certa vez, a fim de se certificar se existiam ladrões na localidade, ordenou que ninguém fechasse portas nem janelas das suas residências e casas comerciais, pelo período de oito dias. Respeitado como era, todos obedeceram. E, felizmente, ninguém foi roubado.

            Um dia, o todo poderoso fazendeiro seguia pela estrada,  montado num bonito cavalo, quando encontrou um trabalhador ocupado em consertar a cerca.

            - Belarmino, você fuma? – gritou o fazendeiro.

            - Patrão, eu fumava – respondeu o interpelado, jogando fora o cigarro – Mais se o patrão não qué, se o patrão não gosta, eu dêxo o viço...

            - Me dê lume – ordenou o fazendeiro.

            Com mãos trêmulas, o trabalhador entregou-lhe a caixa de fósforos, o coronel acendeu o seu próprio cigarro e guardou a caixa no bolso. Em seguida levou a mão ao bolso trazeiro das calças e o pobre e atemorizado trabalhador, julgando que o homem fosse retirar dali um revólver e atirá-lo, ajoelhou-se implorando clemência. Todavia, o temido coronel apenas retirou a carteira recheada de dinheiro, escolheu uma cédula de cinco cruzeiros e atirou aos pés do trabalhador:

            - Toma, idiota, para comprar outra caixa de fósforos.


(O SORRISO DO CACAU)

Nelson Gallo

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terça-feira, 9 de maio de 2017

ITABUNA CENTENÁRIA: CURTAS E BOAS – São José

“São” José


Em Itabuna, estava sendo julgado um velho, acusado de haver assassinado o namorado de uma das suas netas.

As provas e testemunhas não lhe eram favoráveis, até quando um advogado, amigo do advogado da defesa, olhando detidamente para o velho notou-lhe semelhança com a imagem de São José, padroeiro da cidade.

E, por coincidência, o danado do velho era carpinteiro e se chamava... José.

Embora não funcionasse no caso e estivesse ali apenas por curiosidade profissional, chamou a atenção do colega para todos esses detalhes.

Então, na tréplica, o advogado invocou o padroeiro da cidade, pateticamente mostrou a estranha coincidência de seu constituinte se chamar José e ser carpinteiro, e deixou o resto por conta do sentimentalismo dos jurados.

O velho foi absolvido por unanimidade e até carregado nos ombros do povo. Um mais exaltado gritou: Viva São José!...

Mas, outro velho ali presente, vizinho do acusado, murmurou:

- Quem não te conhecer que te compre... “seu” José...


(O SORRISO DO CACAU) 

Nelson Gallo

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sábado, 1 de abril de 2017

ITABUNA CENTENÁRIA SORRINDO: EM ISRAEL

Em Israel 



          Após visitar diversos países, um turista brasileiro chegou a Israel. Não dispondo de muito dinheiro e também resolvido a não pagar uma moeda a mais pelo que tivesse de comprar ou utilizar, discutiu preços no hotel, nas lojas, restaurantes e até com motoristas de praça.

          Mas, acabou chegando à conclusão de que os preços das utilidades eram os mesmos em toda parte. Ao primeiro negociante judeu disposto a ouvi-lo ele manifestou a sua admiração, declarando que ouvira em seu país tanta coisa sobre o desejo dos comerciantes judeus de tirar até  a camisa do último cristão, que se prevenira ao chegar ali a Israel.

          - No começo – esclareceu o outro – aqui realmente existiam uns judeus assim, mas foram embora.

          - Para onde eles foram? – indagou o brasileiro.

         O homem não se lembrava, mas perguntou à filha, uma bonita morena de olhos negros que o ajudava no balcão.

          - Raquel, minha filha, sabe para onde foram Jacó, David, Levi, Salomão...

          - Sei, pai – respondeu a moça – foram para Ilhéus, Itabuna, Coaraci...


(O SORRISO DO CACAU)
Nelson Gallo
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"Nélson Gallo, escritor baiano que, a cerca de três anos lançou âncoras em Ilhéus, onde consegue equilibrar-se entre a publicação de um livro e outro, e o emprego que exerce na administração do aeroporto, apaixonou-se pelo humor regional. Com base nesse entusiasmo, lançou-se à tarefa de reunir em livro, uma coletânea de casos, fatos e anedotas da zona do cacau. Gastou quase um ano nesse trabalho, mas seu esforço não foi em vão: Jorge Amado, que leu o livro e o prefacia, considera-o excelente em seu gênero.

Não nos cabe dizer se existe  ou não um “humor Grapiúna”. A conclusão ficará com o leitor, depois de ler estas anedotas. De qualquer forma, é fácil de notar o empenho de Nelson Gallo no sentido de “localizar” um humor regional que traduza o espírito de nossa gente tão simples e apta às criações súbitas, tão ardente e apaixonada, tão rica de contraste e de humanidade.
         
          Numa zona ainda em transição, que não chegou a sedimentar-se, esse esforço assume uma importância maior. Na verdade, não é fácil reunir dezenas de piadas numa região que apenas amanhece para o Brasil, sem ferir o amor próprio e a sensibilidade de nossa gente. Nelson Gallo foi ainda mais além: conseguiu selecionar casos, fatos e anedotas de que não está ausente certa dimensão universal.

          Ao mesmo tempo em que, em nome de Nelson Gallo, agradecemos a todas as pessoas que com ele colaboraram para a execução deste trabalho, fornecendo-lhe elementos e abrindo-lhe as fontes do humor  regional, formulamos idêntico agradecimento ao Dr. Adélcio Benício dos Santos, grande amigo da cultura, que nos permitiu a realização de mais este empreendimento editorial. A ele, os sinceros agradecimentos.

EDITORES"

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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

ITABUNA CENTENÁRIA SORRINDO... - Terceira vez

Terceira vez...

Casal mais feliz do que aquele não existia em toda a zona do cacau. E um dia, quando perguntaram ao velho fazendeiro o motivo de tanta compreensão, o homem explicou:

- No dia do nosso casamento, logo após a cerimônia no padre e no juiz, voltamos para a fazenda montados, eu numa mula e a mulher num cavalo. Após algum tempo de viagem a mula deitou-se no chão quase me derrubando.

- Primeira vez! - gritei.

Depois, com toda paciência procurei levantar o animal. 
Viajamos mais um bocado; depois a danada da mula se jogou no chão outra vez. Na queda, sujei a roupa e esfolei o braço e uma perna.

- Segunda vez! – gritei novamente.

Afaguei a mula, dei-lhe palmadinhas amigáveis no lombo, montei e seguimos viagem. Já perto da fazenda a mula se jogou no chão. Calmamente, olhei fixamente para minha mulher depois tirei o revólver da cintura e descarreguei seis tiros no animal, que não se levantou nunca mais.

Então a mulher botou a boca no mundo, disse que eu era perverso, ruim e tudo o mais. Quando terminou de xingar, gritar e chorar eu me limitei a dizer:

- Primeira vez! E – concluiu o fazendeiro – posso jurar que nestes trinta anos de casados não houve sequer uma segunda vez...


Extraído do livro O SORRISO DO CACAU DE Nelson Gallo

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