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sábado, 30 de julho de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: A Imortal – Luiz Gonzaga Dias



A Imortal

Luiz Gonzaga Dias

 

A esperança é o futuro... A hora que finda

É um anseio que morre ou se completa.

– Um velho sonho... Uma ilusão infinda,

Uma ambição que se mantém secreta.

 

Por mais velha, a esperança é sempre linda!

E nunca morre, embora atinja a meta,

Que se esperava... Vai vivendo ainda,

Enquanto há vida é sempre incompleta.

 

Não envelhece não! Se bem que nova,

Ela tem outro tom róseo matiz

Que esmaece ao se beirar da cova.

 

Mas a esperança continua forte...

Porque, este anelo humano – ser feliz,

Não finda com a vida: vence a morte!

 


 

(IMAGENS MUTILADAS)

Luiz Gonzaga Dias

* * *

sábado, 16 de julho de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Lembranças de Morrer - Álvares de Azevedo

 


Lembranças de Morrer

Álvares de Azevedo



Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai… de meus únicos amigos,
Pouco - bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo…
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua pratear-me a lousa!

 

Álvares Azevedo(Manuel Antônio Álvares de Azevedo), poeta, contista e ensaísta, nasceu em São Paulo, a 12 de setembro de 1831, e faleceu o Rio de Janeiro, RJ, em 25 de abril de 1852. Patrono da Cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras, por escolha de Coelho Neto.

* * *

 

segunda-feira, 20 de junho de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Amor e Vida - Raimundo Correia


 

Amor e Vida

Raimundo Correia

 

Esconde-me a alma, no íntimo, oprimida,
Este amor infeliz, como se fora
Um crime aos olhos dessa, que ela adora,
Dessa, que crendo-o, crera-se ofendida.

A crua e rija lâmina homicida
Do seu desdém vara-me o peito; embora,
Que o amor que cresce nele, e nele mora,
Só findará quando findar-me a vida!

Ó meu amor! como num mar profundo,
Achaste em mim teu álgido, teu fundo,
Teu derradeiro, teu feral abrigo!

E qual do rei de Tule a taça de ouro,
Ó meu sacro, ó meu único tesouro!
Ó meu amor! tu morrerás comigo!


                                                            (Sinfonias, 1883.)

 


Raimundo Correia
(R. da Mota de Azevedo C.), magistrado, professor, diplomata e poeta, fundador da cadeira 5 da ABL, nasceu em 13 de maio de 1859, a bordo do navio brasileiro São Luís, ancorado na baía de Mogúncia, MA, e faleceu em Paris, França, em 13 de setembro de 1911.

* * *

domingo, 29 de maio de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Amor Condusse Noi Ad Nada - Paulo Mendes Campos

 


 
Amor Condusse Noi Ad Nada

Paulo Mendes Campos


Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida

As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas

A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto a outro rosto desafia

A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.


(Paulo Mendes Campos)

 

Saiba mais: Paulo Mendes Campos – Wikipedia

Leia mais poemas de grandes poetas famosos sem erros


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segunda-feira, 2 de maio de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Albérico Souza -Advertindo



Advertindo

Albérico Souza

 

Não temas se rebrama e se encapela

O mar da vida, assustador, feroz;

As naus da vida não velejam sós,

Se sopram ventos e se vem procela.

 

No além o Chefe dos poderes vela,

E a tempestade lhe obedece a voz;

Pois Ele ordena que ela passe e após,

Que frui bonança, o coração revela.

 

Sê forte e luta contra a vil fraqueza,

não sejas nunca da amargura presa.

Não tenhas medo, oh não fiques triste!

 

Levanta os olhos, fita o céu grandioso,

Enxuga o pranto, faz-te jubiloso,

E não te esqueças: o teu Deus existe.

 

(A CHAVE DA FELICIDADE E A SAÚDE MENTAL- Marcelo J. Fayard - Capítulo 11 - Emoções e enfermidades.)



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quarta-feira, 13 de abril de 2022

ITABUNA CENTERNÁRIA UM SONETO: Guilherme de Almeida - Dor Oculta

 

Foto: Acervo/Prefeitura Municipal de Campinas SP

Dor Oculta

 

Quando uma nuvem nômade destila 

gotas, roçando a crista azul da serra,

umas brincam na relva; outras, tranquilas,

serenamente entranham-se na terra.

 

E a gente fala da gotinha que erra

de folha em folha e, trêmula, cintila,

mas nem se lembra da que o solo encerra,

da que ficou no coração da argila!

 

Quanta gente que zomba do desgosto

mudo, de angústia que não molha o rosto

e que não tomba, em gotas, pelo chão,

 

Havia de chorar , se adivinhasse

que há lágrimas que correm pela face

e outras que rolam pelo coração.

 

.......


GUILHERME DE ALMEIDA

Terceiro ocupante da Cadeira 15, eleito em 6 de março de 1930, na sucessão de Amadeu Amaral e recebido pelo Acadêmico Olegário Mariano em 21 de junho de 1930. Recebeu o Acadêmico Cassiano Ricardo

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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Saudade - Ciro Vieira da Cunha




 

SAUDADE

 

Saudade! o teu olhar longo e macio

Derramando doçura em meu olhar...

Um bocado de sol sentindo frio,

Uma estrela vestida de luar...

 

Saudade! um pobre beijo fugidio

Que tanto quis e não cheguei a dar...

A mansidão inédita de um rio

Na volúpia satânica do mar...

 

Saudade! o nosso amor... o teu afago...

O meu carinho... o teu olhar tão lindo...

Um pedaço de céu dentro de um lago...

 

Saudade! um lenço branco me acenando...

Uma vontade de chorar sorrindo,

Uma vontade de sorrir chorando!...

 

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CIRO VIEIRA DA CUNHA

Nasceu na capital de São Paulo, em 1º de junho de 1897.  Publicou: Pontos de química fisiológica, em colaboração com Alberto Moreira (1918); Contra o alcoolismo no Brasil (1922); O dialeto brasileiro, tese para a cátedra de Português da Escola Normal Pedro II (Vitória, 1933); Espera inútil (1933); Oração de paraninfo (1937); Alguma poesia (1942); Sinfonia das ruas de Vitória (versos, em parceria,1943); Chuva de rosas (1947); No tempo de Paula Nei (Prêmio Carlos Laet da Academia Brasileira de Letras,1950); O cadete 308 (1956); No tempo de José do Patrocínio (1960); Memórias de um médico da roça (1956); Arte de colar (1970); Guia de civismo (em colaboração com Terezinha Saraiva,1972). Foi autor do hino da cidade de Vitória. Teve trabalhos inseridos em várias antologias. Faleceu no Rio de Janeiro, em 26 de junho de 1976.

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terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Noite de Insônia - Emílio de Menezes


 

Noite de Insônia

Emílio de Menezes

 

 

Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,

Onde este grande amor floriu, sincero e justo,

E unimos, ambos nós, o peito contra o peito,

Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;

 

Este leito que aí está revolto assim, desfeito,

 Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto,

Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito,

Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!...

 

Louco e só! Desvairado! – A noite vai sem termo

E, estendendo, lá fora, as sombras augurais

Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.

 

E mal julgas talvez, quando, acaso, te vais,

Quanto me punge e corta o coração enfermo,

Este horrível temor de que não voltes mais!...

 

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EMÍLIO DE MENEZES, o mais famoso poeta satírico brasileiro depois de Gregório de Mattos. Foi também lírico primoroso. Nasceu em Curitiba em 04/07/1867 e faleceu no Rio de Janeiro em 05/06/1918, sem haver tomado posse na Academia Brasileira de Letras, para a qual fora eleito na vaga de Salvador de Mendonça (cadeira nº20, depois ocupada por Humberto de Campos). As peripécias da vida boêmia de Emílio, as suas piadas chistosas, as suas tiradas repentistas, o grupo de amigo com os quais convivia, foram recordados no livro de Raimundo de Menezes – Emílio de Menezes, o último boêmio (1945), já em 3ª edição. Publicou o poeta os seguintes livros de versos: Símbolos, Poemas da Morte, Versos Antigos, e Dies Irae (1909), Últimas Rimas (1917) e Mortalinas ou Os Deuses em Ceroulas (1924). Este último volumes encerra os seus famosos sonetos satíricos.

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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: AS POMBAS – Raimundo Correia



As Pombas

Raimundo Correia

 

Vai-se a primeira pomba despertada,

Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas

De pombas vão-se dos pombais, apenas

Raia sanguínea e fresca a madrugada.

 

E à tarde, quando a rígida nortada

Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,

Ruflando as asas, sacudindo as penas,

Voltam todas em bando e em revoada.

 

Também os corações onde abotoam,

Os sonhos, um por um, céleres voam,

Como voam as pombas dos pombais;

 

No azul da adolescência as asas soltam,

Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,

E eles aos corações não voltam mais!

 

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Raimundo da Mota Azevedo Correia, o mais célebre dos parnasianos brasileiros, foi autor de famosos sonetos e de famosas poesias que podem ser consideradas das melhores da língua. Nasceu a bordo de um navio surto num porto do Maranhão em 13/05/1860 e faleceu em Paris em 13/09/1911. Na vida civil foi professor de Direito, magistrado e diplomata. Publicou: “Primeiros Sonhos” (1879), “Sinfonias” (1882), “Versos e Versões” (1886), “Aleluias” (1890). Em 1898 coligiu suas principais produções poéticas num volume a que deu o título “Poesias”; 2ª Edição1906; 3ª Edição 1910; 4ª Edição 1922. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira nº 5, que tem por patrono Bernardo Guimarães e onde teve por sucessores Osvaldo Cruz e Aloísio de Castro. Suas “Poesias Completas”, a cargo de Múcio Leão, foram editadas em dois volumes em São Paulo em 1948.

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quarta-feira, 17 de novembro de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Mario Faustino - Soneto II

 


SONETO II


Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler

À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.

Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um dormente e lasso

Contra meu ser arfante:
necessito de um ser sendo a meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.


(Mario Faustino)

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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: À Dinamene – Luís de Camões

 


À Dinamene

Luís de Camões

 

Alma minha gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida descontente,

Repousa lá no Céu eternamente

E viva eu cá na Terra sempre triste.

 

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

Memória desta vida se consente,

Não te esqueças daquele amor ardente

Que já nos olhos meus tão puro viste.

 

E, se vires que pode merecer-te

Alguma coisa a dor que me ficou

Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

 

Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tão cedo de cá me leve a ver-te

Quão cedo de meus olhos te levou.

 




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Luís Vaz de Camões – o príncipe dos poetas portugueses e um dos maiores do mundo, nasceu em 1524 e faleceu, aos 56 anos, em 1580. Seu poema épico Os Lusíadas é justamente considerado uma das obras-primas do espírito humano e por isso o colocam ao lado de Homero e Vergílio. Disse o filósofo alemão Schlegel que Camões, sozinho, vale por uma literatura. Estudou em Coimbra. Frequentou a corte de D. João III, onde passou a cortejar a dama do Paço Dona Catarina de Athaide (a Natércia de seus versos). Esses amores o levaram à desgraça, à prisão e ao desterro, donde retornou com Os Lusíadas, aparecidos em julho de 1572. Lutou na África e na Índia. Escreveu também peças de teatro e poesias líricas, tão célebres quanto o seu poema épico. Seus sonetos são dos mais notáveis que se escreveram e bastariam eles para o consagrarem como um dos gênios da humanidade.

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segunda-feira, 19 de julho de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Luiz Gonzaga Dias - Um Eterno Tema


 

UM ETERNO TEMA

Luiz Gonzaga Dias


 

Sob um caramanchão, Arlequim e Pierrot,

Falavam sobre o beijo, o mais antigo tema.

Pierrot dizia então que o verdadeiro amor,

É o que deixa no beijo uma emoção suprema.

 

Arlequim contestava: - Eu não possuo de cor,

O número de amantes que beijei... Meu lema,

É que a linda mulher, e eu sou conhecedor,

É feita para o beijo... O resto é vão dilema!

 

Beijar a mesma boca... Escuta o que eu te digo,

É comum, é vulgar, não ter variação,

Termina aborrecendo. Não se dá comigo!

 

- O beijo que é sincero, o beijo verdadeiro,

Disse o triste Pierrot findando a discussão,

Tem sempre a sensação de que foi o primeiro!

 

 

(IMAGENS MUTILADAS)

Luiz Gonzaga Dias

 

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“Um momento de arte e descanso, não faz mal ao corpo ou ao espírito exausto.

            Se o leitor não acha que ler poesia é perder tempo, leia um pouco estes versos.

            Ao contrário, desculpe, e passe adiante.

            De qualquer modo, queira aceitar os agradecimentos do autor.

 São Felix, Estado da Bahia, Julho de 1962.

Luiz Gonzaga Dias”


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quinta-feira, 15 de julho de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Cigarra /Dualismo – Luiz Gonzaga Dias


                                             Cigarra

Luiz Gonzaga Dias

 

Para cantar nasceste! Alma inquieta,

Sempre vibrando em gozos e torturas.

Tua canção – lirismo de poeta,

Tem sons de tédio e brados de amargura!

 

Em pleno campo a tua voz afeta,

Algo de brando e muito de ternura.

Contudo dentro em nós, mágoa secreta,

Desperta ao teu cantar cheio de agrura.

 

Ah! Cigarra boêmia peregrina!

Ao poeta comparo a tua sina,

Quando te encontro assim preludiando...

 

Fado tão belo e igual não pode haver,

Pois teu destino é de cantar morrer,

E o do poeta é de morrer cantando!

 

........................

 


                                               Dualismo

Luiz Gonzaga Dias

 

Entre a cigarra boêmia e vagabunda,

E a previdente e prática formiga,

Eu admiro a primeira e da segunda

Imito a vida cheia de fadiga.

 

Sou a cigarra cujo canto inunda

De regozijo a criatura amiga;

E sou também formiga na fecunda

Luta insana a que a vida nos obriga.

 

Vibrar pelas campinas! Ser cigarra!

Prados cheios de luz, manhã festiva,

Liberdade... Prazer que ninguém narra!

 

A luta mata o sonho... A vida obriga,

À lida pelo pão. Alma cativa

Eu retorno tristonho a ser formiga.


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sábado, 3 de julho de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Luiz Gonzaga Dias – Serenata

 


Serenata

Luiz Gonzaga Dias

 

Na paz da noite, aos pálidos lampejos,

Da luz é o meu astro um boêmio em farra,

Que põe notas de angústia nos solfejos,

E madrigais nas cordas da guitarra.

 

Em vibração de mágoas e desejos,

Corta o silêncio como cimitarra...

Cantando como uma ave ou a cigarra,

Beijo da lua os luminosos beijos.

 

Tangendo a lira em repetidos trenos,

Canto ao luar em devaneios plenos.

Minha canção apaixonada e mansa.

 

É que a lua foi sempre a minha amiga

Inspiradora e namorada antiga,

Desde os tempos longínquos de criança!

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“Um momento de arte e descanso, não faz mal ao corpo ou ao espírito exausto.

            Se o leitor não acha que ler poesia é perder tempo, leia um pouco estes versos.

            Ao contrário, desculpe, e passe adiante.

            De qualquer modo, queira aceitar os agradecimentos do autor.

 São Felix, Estado da Bahia, Julho de 1962.

Luiz Gonzaga Dias”

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sábado, 26 de junho de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: A Canção Acabou - Luiz Gonzaga Dias

 



                           A Canção Acabou

 

A canção acabou! Porém, a melodia

Anda bailando, ainda flutua no ar,

Como a nave que naufragou um dia,

Cujos destroços vogam pelo mar.

 

A canção terminou! Resta a harmonia,

Como saudade terna a soluçar,

Nas dobras da ilusão, o que tangia,

Os acordes finais do verbo amar.

 

Assemelhou-se a um dueto interrompido,

Cujas notas ficaram em resumo,

De quando em vez ressoando em meu ouvido.

 

Para que repeti-la? Esquece pois...

Já se extinguiu como um pouco de fumo.

 - A canção acabou para nós dois!


 

(IMAGENS MUTILADAS)

Luiz Gonzaga Dias

 


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Em lugar de Prefácio

 

          Como um derivativo à luta diária, neste século agitado, nesta época de progresso vertiginoso, aqui estão alguns versos reunidos neste volume, poesias na sua maior parte, dispersas nas publicações brasileiras.

            Sentencia o Evangelho, que nem só de pão vive o homem, sendo, portanto, estes versos, assim como um oásis, no deserto febril da civilização, da política, da atividade multifária dos seres, na era do avião a jato, dos inventos nucleares e do perene choque de interesse dos homens.

            Um momento de arte e descanso, não faz mal ao corpo ou ao espírito exausto.

            Se o leitor não acha que ler poesia é perder tempo, leia um pouco estes versos.

            Ao contrário, desculpe, e passe adiante.

            De qualquer modo, queira aceitar os agradecimentos do autor.

 

                                                                                  São Felix, Estado da Bahia, Julho de 1962.

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