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domingo, 17 de abril de 2022

SANTA PÁSCOA! TENDE CONFIANÇA, POIS “O RESTO VOLTARÁ!”

 


Padre David Francisquini *

 

Depois da crucifixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, para redimir o pecado dos homens e reabrir as portas do Céu, toda a Terra foi coberta por densas trevas, a tristeza e a desolação contagiaram os povos, liquidando com tudo o que restava de ordem. É o que poderíamos esperar depois da ignominiosa morte do Homem-Deus.

Do Santo Sepulcro ressurge a primeira claridade de esperança. As almas fiéis que o rodeavam para prestar as últimas homenagens a Nosso Senhor, pressentiam que algo de maravilhoso estava para acontecer. Junto àquela tumba, que aparentemente havia selado a derrota do Divino Redentor, eles presenciaram a glória triunfadora de Sua ressurreição.

Com efeito, como diz São Paulo, se Ele não tivesse ressuscitado, a nossa fé seria vã. Os anjos cantaram “glória a Deus nas alturas”. As trevas se dissiparam. A natureza inteira se rejubilou com a luz emanada daquele Corpo glorioso. Jesus Cristo realmente ressuscitou como triunfador da morte e do pecado. Tendo cumprido a vontade de Deus Pai, reabriu as portas dos céus aos justos.

Apesar de a notícia do enorme prodígio ter corrido como um raio, muitos discípulos ainda andavam tristes com a morte de Cristo — após ter sido entregue à soldadesca romana pelos magistrados e sacerdotes judeus —, pois a alegria da Sua ressurreição não havia ainda inundado os seus corações.

Tinham uma fé incompleta e não conheciam verdadeiramente quem era Jesus. Uns achavam que fosse um profeta com grande poder, que restauraria o reino temporal de Israel. Outros, confusos e perplexos, prestavam atenção nos acontecimentos sem entender o que se passava.

Foi necessário que Cristo morresse e ressuscitasse dos mortos para manifestar que Ele era Deus. Sendo já o terceiro dia de sua morte na Cruz, não havia mais razão para que não se conhecesse tudo o que havia se passado em Jerusalém com o Filho de Deus desde a traição do infame Judas Iscariotes.

Quando as santas mulheres chegaram pela manhã de domingo, não encontraram mais o corpo de Jesus na sepultura. Seguiu-se o anúncio do anjo de que Ele não se encontrava mais lá, mas havia ressuscitado dentre os mortos. O que parecia uma derrota, foi a confirmação na fé dos discípulos — a vitória de Cristo sobre seus inimigos —, e todos creram n’Ele depois de manifestar assim a Sua divindade.

É uma prefigura da paixão que nestes dias de trevas sofre a Santa Igreja, corpo místico de Cristo, contra a qual todos os agentes infernais conspiram e desferem golpes, mas Ela segue com vida plena nos fiéis que depositam suas certezas em Jesus Cristo vencedor e triunfador.

Poucos são os que realmente amam a Santa Igreja e estão dispostos a tudo suportar e resistir em sua honrosa defesa, bem como de tomar a iniciativa da luta a fim de que Ela seja restaurada de modo ainda mais excelente do que foi outrora, sempre segundo a lei e a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas aqueles que têm verdadeira devoção a Nossa Senhora recebem d’Ela o inestimável dom da fé, da pureza, e da bravura para lutar. Deus lhes dará a vitória.

Se correspondermos a esse dom, estaremos juntos daquelas almas privilegiadas que viram, testemunharam e registraram para os pósteros aquele momento, talvez o maior acontecimento da História: Jesus Cristo saindo vitorioso de seu sepulcro. Assim como Nossa Senhora nos deu o exemplo de nunca duvidar, Ela nos ensina e alenta a nunca desanimar nas vias da confiança.

Devemos, portanto, confiar contra todas as aparências em sentido contrário, de que junto d’Ela haveremos de encontrar forças e adquirir a certeza de que o bem não está sepultado para sempre, mas que residuum revertetur — o resto voltará, segundo Isaías. Dos escombros e das cinzas da civilização atual surgirá o Reino de Maria, com o fulgor de Cristo no momento de Sua ressurreição.

Espero que todos os fiéis e leitores tenham uma Santa e feliz Páscoa, na alegria de saber e confiar, com uma confiança sem limites, na promessa de que as portas do inferno jamais prevalecerão contra a Igreja.

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

 https://www.abim.inf.br/santa-pascoa-tende-confianca-pois-o-resto-voltara/

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domingo, 10 de abril de 2022

“QUE UTILIDADE HÁ NO MEU SANGUE?”



Padre David Francisquini*

Todo homem deve lutar constantemente para sobreviver, mas não deve fazê-lo apenas no campo natural, ou seja, para prover às suas necessidades puramente materiais. Os evangelhos no-lo ensinam com as célebres palavras de Cristo: “Considerai os lírios, como crescem; não fiam, nem tecem. Contudo, digo-vos: nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles. Se Deus, portanto, veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã se lança ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé! Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber; e não andeis com vãs preocupações. Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas essas coisas. Mas vosso Pai bem sabe que precisais de tudo isso.” (Lc 12-27, 30).

A luta de Jesus Cristo Nosso Senhor se dá no campo puramente espiritual. Sua morte na cruz foi para nos franquear o reino dos céus e, através dos sacramentos da Santa Igreja, nos conceder forças no combate contra os principais inimigos da nossa salvação, que são o demônio, o mundo e a carne.

Portanto, ao contemplarmos a cruz erguida no Monte Calvário, devemos considerá-la como a chave que nos abriu as portas do Céu. Foi por isso que Cristo disse a Pilatos: “O meu reino não é deste mundo, se assim fosse os meus ministros fariam de tudo para eu não ser entregue aos judeus. Pois bem, meu reino não é daqui” (João 18, 36).

Indagou Pilatos: “Então tu és rei? — Sim, Eu sou rei, para isto nasci, para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. E todo aquele que é da verdade, ouve a minha voz”. Com efeito, Jesus Cristo está na cruz como um rei, por isso havia dito: “Quando for elevado atrairei a mim todas as criaturas. Como Moisés elevou a serpente no deserto, assim o filho do Homem será elevado” (João 18, 37).

É na cruz que Cristo, humilhado, chagado, agonizante, começou a reinar sobre esta Terra, comparável a um grande campo devastado. Foi aqui que Ele edificou a sua Igreja, através da qual perpetuaria os benefícios da sua Redenção.


O saudoso Dr. Plinio Corrêa de Oliveira assim descreveu Nosso Senhor na cruz: “Vossa nudez é um manto real. Vossa coroa de espinhos é um diadema sem preço. Vossas chagas são vossa púrpura. Ó Cristo Rei, como é verdadeiro considerar-vos na cruz como um rei. Mas como é certo que nenhum símbolo exprime a intensidade dessa realeza quanto a realidade histórica de vossa nudez, de vossa miséria, de vossa aparente derrota!”

Por sua vez, Santo Afonso afirma: “Não vejo outro trono a não ser esse lenho de opróbrios; não vejo outra púrpura a não ser vossa carne ensanguentada e dilacerada; não vejo outra coroa além desse feixe de espinhos que tanto vos atormenta. Ah, sim, tudo vos proclama rei não de honra, mas de amor; essa cruz, esse sangue, esses cravos e essa coroa são incontestavelmente insígnias de amor.”

E prossegue: “Assim Jesus na sua cruz não procura tanto a nossa compaixão quanto o nosso afeto. E, se pede compaixão, pede-a unicamente para que ela nos induza a amá-Lo. Ele merece já por sua bondade todo o nosso amor, mas agora procura ser amado ao menos por compaixão.”

Esta última consideração, de caráter metafísico, deve nortear o homem em todos os momentos de sua existência, na qual se digladiam o bem e o mal, a verdade e o erro.

A alma fiel, ainda que em torno dela grassem apenas tragédia e desolação, destaca-se pelo bom ânimo, inspirado na fé e na promessa do glorioso e incontestável triunfo final da Santa Igreja. Esta é uma promessa, uma garantia d’Aquele mesmo que A instituiu e declarou que as portas do inferno não prevalecerão contra Ela. É a inabalável certeza, da qual deve se impregnar a alma católica em todos os dias de sua vida, não importando se aziagos ou felizes.

Estas reflexões têm maior efeito nesta altura do ano litúrgico, quando a Igreja de Cristo se reveste das solenidades da Paixão para recordar o episódio doloroso em que nosso Divino Salvador verteu até a última gota de seu Preciosíssimo Sangue a fim de romper os grilhões da escravidão do demônio, remir os nossos pecados e nos abrir o caminho da salvação.

Meu Jesus, contemplando-Vos, pendente na cruz, com os braços estendidos, com os vossos olhos abarcando a Terra inteira, não podemos ver outra coisa senão um verdadeiro Rei que estende o seu reino sobre este mundo. Desse trono divinal, ensanguentado, coberto de dores e de opróbrios, abri a porta do Céu, redimi o gênero humano e conquistai os corações que Vos contemplam na cruz, manifestando o vosso infinito amor.

Arrancai das trevas densas os corações! Desbaratai a impiedade, a dureza dos corações! Purificai as mentes e a vida transviada de tantas almas! Reinai com o vosso Preciosíssimo Sangue e a vossa Cruz! Se os carrascos repartiram as vossas vestes, lançando sorte sobre a vossa túnica, ó meu Jesus, reparti em nossas almas a vossa divina graça e despojai dos nossos corações todo afeto mundano e pecaminoso.

Reinai no mundo e em nossos corações, ó preciosas chagas de Jesus crucificado, nosso consolo e nossa vida!

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/que-utilidade-ha-no-meu-sangue-2/

 

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sexta-feira, 2 de abril de 2021

BOM JESUS, O REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES


Plinio Corrêa de Oliveira

 

Aos pés desta imagem do Bom Jesus — ou seja, do Cristo Flagelado — poder-se-ia colocar o seguinte dístico: “As minhas cogitações não são as vossas cogitações, nem as vossas vias são as minhas vias” (Isaías 55, 8). É o que Jesus bem poderia dizer aos que O flagelavam, mas também a todos que não têm amor a Deus a ponto de desejar sofrer por Ele.

Nota-se na fisionomia de Jesus uma persistência, uma firmeza de propósito dentro da dor, e uma deliberação como a de quem diz que me matem, irei até o fim do meu caminho, porque este é o rumo que escolhi: Haja o que houver, irei até o fim do meu caminho; ainda que sozinho, ainda que abandonado, ainda.

Quando eu passo diante desta imagem, rezo a jaculatória: “Ó Bom Jesus, vítima pelos nossos pecados, tende piedade de nós!”. Ele sofreu a fim de obter para nós a contrição, o arrependimento de nossos pecados. Qualquer um que recorra a Ele é acolhido com bondade, misericórdia, naturalidade. Até Judas Iscariotes, arrependendo-se e pedindo perdão, seria acolhido misericordiosamente com esse olhar do Bom Jesus.

Consideram-se as dores de Nosso Senhor e as lágrimas de Nossa Senhora como um tesouro da Semana Santa. Mas essa consideração, essa atmosfera de Semana Santa, deve manter-se sempre, e não apenas por uma semana. Devemos considerar sempre os padecimentos não só físicos, mas também os padecimentos de alma de Jesus e de Sua Mãe Santíssima.

Esta imagem atroz e sublime, com esse olhar ímpar, apresenta bem os padecimentos do corpo, entretanto mais ainda os da alma. Poderia ser chamado “Santo Cristo do Grande Poder”, ou “Cristo Rei”, ou ainda “Rex Regum et Dominus Dominantium” — Jesus Cristo, Rei dos Reis e Senhor dos Senhores!

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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 22 de dezembro de 1983. Esta transcrição não passou pela revisão do autor. [Fotos PRC].

 

https://www.abim.inf.br/bom-jesus-o-rei-dos-reis-e-senhor-dos-senhores/

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quinta-feira, 9 de abril de 2020

A COMPLETA INFÂMIA EM CONTRASTE COM A SUMA PERFEIÇÃO


9 de abril de 2020

Plinio Corrêa de Oliveira

Neste célebre quadro, Giotto* pintou Judas no ato de oscular Nosso Senhor Jesus Cristo. Era o ósculo da traição, no momento em que Nosso Senhor, pouco antes de ser preso e levado para ser julgado e crucificado, acabava de dizer aquelas tremendas palavras: “Judas, com um beijo trais o Filho do Homem!” (Lc 22, 48).

Com toda a sua sublimidade, Nosso Senhor olha para Judas e o analisa até o fundo da alma. Nesse olhar Ele recusa categoricamente a ação infame de Judas; mas, apesar da recusa à infâmia, olha como quem ainda procura algum resto de boas qualidades em Judas. Procura comovê-lo, numa tentativa de ainda obter sua conversão. É um contraste prodigioso!

Judas é baixo, vil, ganancioso, materialista; com seus lábios grossos e indefinidos, que vão se abrindo para o beijo da infâmia, ele procura com o​ olhar turvo sorrir para mentir. Tem-se a impressão (desculpem-me o prosaísmo) de sentir até o seu mau hálito, na hora do beijo da traição. Eles se olham, e nisso se nota o supremo contraste entre a completa infâmia e a suma perfeição.

A alma do católico verdadeiramente sério vive desse contraste: a tendência contínua para ver o mais sublime, juntamente com a compreensão de que no fundo de qualquer coisa censurável está palpitando a infâmia, pronta para saltar e tomar conta do ambiente. Ver o mundo através de contrastes assim é agir com seriedade.
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* Afresco pintado pelo célebre artista italiano da época medieval, Giotto di Bondone (1267-1337), na Capela degli Scrovegni, Pádua (Itália), entre 1302 e 1306.
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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 20 de setembro de 1979. Esta transcrição não passou pela revisão do autor. Fonte: Revista Catolicismo, Nº 832, Abril/2020.


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quarta-feira, 8 de abril de 2020

MENSAGEM DO CARDEAL BURKE PARA A SEMANA MAIS SANTA DO ANO


7 de abril de 2020

Caros amigos,

Desde o início de meu ministério como bispo de uma diocese, parecia que todos os anos, à medida que as celebrações do Natal e da Páscoa se aproximavam, havia um evento profundamente triste na diocese ou uma crise difícil de enfrentar pelo bem da diocese. Assim, enquanto eu antecipava com alegria as celebrações dos grandes mistérios de nossa salvação, algo acontecia que, do ponto de vista humano, colocava uma nuvem negra sobre as celebrações e questionava a alegria que elas inspiravam. Certa vez, quando comentei com um irmão bispo sobre essa experiência terrivelmente angustiante, ele simplesmente respondeu: “É Satanás, tentando roubar sua alegria”.

Faz sentido que Satanás, a quem Nosso Senhor descreve como um “homicida desde o principio, […] mentiroso e o pai da mentira” (Jo 8, 44), queira esconder de nossos olhos as grandes realidades da Encarnação e da Redenção, queira distrair-nos dos ritos litúrgicos através dos quais não apenas celebramos essas verdades, mas também recebemos as graças imensuráveis ​​e incessantes que elas conquistaram para nós. Satanás quer nos convencer de que a perda de um ente querido e a morte, a tristeza e o medo que naturalmente as acompanham mostram que Cristo é falso, falsificam a sua Encarnação redentora e mostram nossa fé e a alegria que ela naturalmente inspira como mentirosas.

Quem é falso é Satanás. Ele é o mentiroso. Cristo, Deus Filho, de fato tornou-se homem, sofreu a mais cruel Paixão e Morte a fim de redimir nossa natureza humana, restaurar-nos a verdadeira vida, a vida divina que supera os piores sofrimentos e até a própria morte, e conduzir-nos com certeza e segurança para o nosso verdadeiro destino: a vida eterna com Ele.

São Paulo, diante de tantas provações profundamente desencorajadoras ao longo de seu ministério apostólico, culminando com seu martírio em Roma, escreveu aos cristãos de Colossos: “Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Col 1, 24). Para ele, como deveria ser também para nós, sofrer com Cristo pela Igreja, pelo amor de Deus e ao próximo, é a fonte inatacável e infalível de nossa alegria. É a mais alta expressão de nossa comunhão com Cristo, Deus Filho Encarnado, compartilhando com Ele o mistério do amor divino de Deus — Pai, Filho e Espírito Santo. A vida de Cristo, a graça do Espírito Santo derramada do Coração de Cristo para habitar em nossos corações, inspira e fortalece-nos a abraçar a perda de alguém e a morte com o seu amor que os conquista e os transforma em ganho eterno e vida sem fim. Nossa alegria, então, não é um prazer ou emoção superficial, mas o fruto do amor que é ‘forte como a morte’, que “as torrentes não poderiam extinguir […] nem os rios o poderiam submergir” (Ct 8, 6-7).

Nossa alegria não tira o aguilhão agudo da perda e da morte, mas, com confiança e coragem, as enfrenta como parte do combate ao longo da vida do amor que somos chamados a travar durante esta vida — afinal, pela graça de Deus, somos verdadeiros soldados de Cristo (2 Tm 2, 3) — na certeza da vitória da vida eterna. Assim, no fim de sua vida, São Paulo poderia escrever a seu filho espiritual e companheiro no pastoreio do rebanho, São Timóteo: “Quanto a mim, estou a ponto de ser imolado e o instante da minha libertação se aproxima. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia, e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a sua aparição” (2 Tm 4, 6-8 ).

Amamos Nosso Senhor, amamos a Encarnação redentora pela qual Ele está vivo por nós na Igreja, e, portanto, estamos felizes por lutar o bom combate com Ele, em continuar a corrida, não importando as provações que enfrentamos, e em manter a fé quando o Pai da Mentira nos tenta a duvidar de Cristo e até a negá-Lo.

Talvez Satanás nunca tenha tido uma ferramenta melhor do que o coronavírus para roubar nossa alegria de celebrar os dias mais sagrados do ano, os dias em que Cristo ganhou para nós a vida eterna. Como ele gostaria de extirpar a santidade da única semana do ano que é conhecida simplesmente como Semana Santa! A atual crise sanitária internacional causada pelo coronavírus (COVID-19) continua sua trágica colheita de mortes, gerando profunda tristeza e medo no coração humano. Certamente, Satanás está usando o sofrimento que assolou tantos lares, bairros, cidades e nações a fim de nos fazer duvidar de Nosso Senhor e da Fé, da Esperança e da Caridade, que são seus grandes presentes para nós em nossa vida diária. O efeito da intenção assassina de Satanás e de suas mentiras aumenta quando estamos mais distantes do Senhor, quando consideramos sua vida dentro de nós como assegurada, quando até O abandonamos ao buscar prazeres, interesses ou sucessos mundanos.

Na própria Igreja, temos sido testemunhas da omissão em ensinar, sobretudo, a Cristo como Senhor. Quantos hoje sofrem profundamente de um medo inútil porque esqueceram ou até rejeitaram o Reinado do Coração de Jesus em seus corações e lares. Lembrem-se das palavras de Nosso Senhor a Jairo, que procurou a ajuda de sua filha moribunda: “Não temas; crê somente” (Mc 5, 36). Quantos hoje estão sem esperança, porque acham que a vitória sobre o mal do coronavírus (COVID-19) depende totalmente de nós, porque se esqueceram de que, embora devamos fazer tudo o que podemos humanamente para combater um grande mal, somente Deus pode abençoar nossos esforços e nos dar a vitória sobre as privações de todo tipo e a morte. É tão triste ler documentos — mesmo documentos da Igreja — que pretendem tratar das dificuldades mais importantes que enfrentamos e não encontrar neles nenhum reconhecimento do Senhorio de Cristo, da verdade que dependemos completamente de Deus para nosso ser, por tudo o que somos e tudo o que temos, e que, portanto, a oração e o culto divino constituem o nosso primeiro e mais importante meio de combater qualquer mal.

Alguns dias atrás, um jovem católico me disse, como se fosse uma evidência, que este ano ele não celebraria a Páscoa por causa do coronavírus. Se as alegrias da celebração da Páscoa fossem simplesmente uma questão de sentir-se bem, entenderia o sentimento dele. Mas a alegria da Páscoa está enraizada na verdade eterna, na vitória de Cristo sobre o que claramente se parecia com a Sua aniquilação, a vitória conquistada em sua natureza humana para obter a mesma vitória em nossa natureza humana, quaisquer que sejam as dificuldades que possamos estar sofrendo. Se crermos em Cristo, se confiarmos em suas promessas, devemos celebrar com alegria sua grande obra da Redenção. Celebrar os mistérios de Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo não é uma falta de respeito ao sofrimento de tantos hoje, mas reconhecer que Cristo está conosco para superar nossos sofrimentos com seu amor. Nossa celebração é um farol de esperança para aqueles cujas vidas são severamente provadas e os convida a depositar sua confiança em Nosso Senhor.

Sim, a Semana Santa deste ano é muito diferente para nós. O sofrimento associado ao coronavírus levou a uma situação em que muitos católicos, durante a Semana Santa, não terão acesso aos Sacramentos da Penitência e à Sagrada Eucaristia, que são os nossos extraordinários, mas também ordinários encontros com Cristo ressuscitado, de maneira que Ele possa nos renovar e fortalecer com sua vida. Mas continua sendo a Semana mais santa do ano, pois comemora os eventos pelos quais vivemos em Cristo, pelos quais a vida eterna nos pertence, mesmo diante de uma pandemia, de uma crise sanitária mundial. Peço-lhes, portanto, que não cedam à mentira de Satanás, que deseja nos convencer de que este ano não temos nada para comemorar durante a Semana Santa. Não, temos tudo para celebrar, pois Cristo nos precedeu em todos os sofrimentos e agora nos acompanha em nossos sofrimentos, para que permaneçamos fortes em seu amor, o amor que vence todo mal.

Hoje celebramos o Domingo de Ramos, quando Cristo entrou em Jerusalém, conhecendo plenamente a Paixão e Morte que O esperava. Jesus sabia quão efêmera era a sua acolhida, uma acolhida apropriada ao Rei do Céu e da Terra, mas superficial, porque aqueles que a estenderam tinham apenas uma compreensão mundana da salvação que Ele veio trazer para nós. Eles não estavam prontos para ser um com Cristo no estabelecimento de seu Reino eterno através dos eventos de sua Paixão e Morte. Após o Domingo de Ramos, cada dia da Semana Santa é justamente chamado de santo porque é um episódio da firmeza de Cristo ao abraçar a sua missão salvadora rumo ao seu ponto culminante.

Consigam um tempo para meditar sobre a acolhida verdadeiramente régia que ofereceram a Cristo em seu coração e em seu lar. Leiam novamente o relato da entrada d’Ele em Jerusalém e de como, depois de sua entrada triunfante, Ele chorou sobre Jerusalém com estas palavras: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus fi­lhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas… e tu não quiseste!” (Mt 23, 37).

Se vocês ou seus lares estiverem longe de Nosso Senhor, recordem-se de como Ele deseja estar perto de vocês, ser o hóspede constante de seu coração e de seu lar.

Permaneçam com Cristo durante toda a Semana Santa. De maneira particular, façam da Quinta-feira Santa um dia de profunda gratidão pelos sacramentos da Sagrada Eucaristia e pelo Santo Sacerdócio instituído por Nosso Senhor na Última Ceia. Façam da Sexta-feira Santa um dia de silencio, durante o qual sejam praticados atos penitenciais para entrar mais profundamente no mistério do sofrimento e da morte de Cristo. Na Sexta-feira Santa, encham-se de gratidão pelos sacramentos da penitência e pela unção dos enfermos. No Sábado Santo, façam vigília com Nosso Senhor, louvando-O e agradecendo-Lhe pelo dom de sua graça em nossas almas através da infusão do Espírito Santo a partir de seu glorioso Coração trespassado. Meditem especialmente como sua graça está dentro de suas almas pelos Sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Sagrada Eucaristia. Durante todos esses dias, reflitam e agradeçam a Deus pelo dom do Sacramento do Santo Matrimônio e seus frutos, a família — a “Igreja doméstica” ou pequena igreja do lar —, o primeiro lugar em que aprendemos a conhecer a Deus, a oferecer-Lhe a oração e o culto e a disciplinar nossas vidas de acordo com sua Lei.

Se não puderem participar dos ritos litúrgicos nesses dias mais sagrados, o que é realmente uma grande privação, pois nada pode substituir o encontro com Cristo através dos sacramentos durante esses dias, esforcem-se em seus lares para participar na Liturgia Sagrada através do desejo de estar na companhia de Nosso Senhor, especialmente no mistério de sua obra salvadora. Nosso Senhor não espera de nós o impossível, mas que façamos o melhor que pudermos para estar com Ele durante esses dias de sua graça eficaz.

Existem muitas maravilhosas ajudas para nutrir esse santo desejo. Antes de tudo, há um rico tesouro de oração na Igreja. Por exemplo, a leitura das Escrituras Sagradas, os Salmos Penitenciais, especialmente o Salmo 51 [50] e o relato da Paixão de Nosso Senhor nos quatro Evangelhos, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a meditação sobre os mistérios da nossa fé através da recitação do Santo Rosário, especialmente dos Mistérios dolorosos, as Ladainhas do Sagrado Coração de Jesus, da Santíssima Virgem (de Loreto), de São José e dos santos, a Via Sacra — que também pode ser feita em casa usando as imagens das catorze estações estampadas em um livro de orações ou sobre um objeto sagrado —, o Terço da Divina Misericórdia, visitas a santuários, grutas e outros lugares consagrados a Nosso Senhor e aos mistérios da Encarnação Redentora, e a devoção aos santos que foram poderosos para nos ajudar, especialmente São Roque, protetor contra as pestilências.

Em nossa época, temos o privilégio de ter acesso, através dos meios de comunicação, aos ritos sagrados e aos atos públicos de devoção, enquanto são celebrados em certas igrejas, especialmente nas igrejas de mosteiros e conventos nos quais toda a comunidade religiosa está participando. Observar um rito sagrado que é transmitido não é evidentemente o mesmo que participar diretamente dele, mas se é tudo o que nos é possível fazer, certamente é agradável a Nosso Senhor, que nunca deixará de nos encher com sua graça em resposta ao nosso humilde ato de devoção e amor.

Em qualquer caso, a Semana Santa não pode ser para nós como outra semana qualquer, mas deve ser marcada pelos sentimentos mais profundos de fé em Cristo, que é a nossa única salvação. Os sentimentos de fé durante os dias mais sagrados são igualmente sentimentos de profunda gratidão e amor. Se a gratidão e o amor não puderem ter sua expressão mais alta através da participação na Sagrada Liturgia, que eles a encontrem na devoção de seus corações e de seus lares. Comemorando com Cristo, com sua Mãe Santíssima e com todos os santos os eventos do Tríduo Sagrado, contemplamos o mistério de sua vida dentro de cada um de nós. Todo o tempo gasto em oração e devoção diárias, meditando sobre a Paixão de Nosso Senhor, nos ajudará a estar unidos da melhor forma possível a Ele durante esses dias mais sagrados. Quanto o sofrimento do tempo presente deve nos ensinar sobre o dom incomparável que é a Sagrada Liturgia e os Sacramentos!

Para encerrar, quero assegurar-lhes que suas intenções estão hoje em minhas orações e permanecerão nelas durante toda a Semana Santa, de modo especial durante o Tríduo Sagrado da Quinta-feira, Sexta-feira e Sábado Santos. Que todos nós possamos fazer companhia a Cristo com a mais profunda fé, esperança e caridade, ao celebrarmos os dias mais sagrados nos quais Ele sofreu, morreu e ressuscitou dentre os mortos para nos libertar do pecado e de todo mal e obter para nós a vida eterna. Que nossa observância da Semana Santa este ano seja nossa arma poderosa no contínuo combate ao coronavírus (COVID-19). Em Cristo, a vitória será nossa. “Não temas; crê somente” (Mc 5, 36).

Raymond Leo Cardeal BURKE
5 de abril de 2020, Domingo de Ramos
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(Tradução do inglês por Hélio Dias Viana).

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segunda-feira, 6 de abril de 2020

REFLEXÕES PARA A MAGNA SEMANA — A SEMANA SANTA


Publicado em 6 de abril de 2020


“Mas ele [Jesus] foi castigado por nossos crimes e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre Ele; fomos curados graças às suas chagas”.
(Isaías, 53, 5)
....

“Jesus foi desprezado e coberto de ignomínia quando estava na cruz. Seu rosto foi velado e maltratado a fim de que o poder divino se ocultasse sob o corpo humano”.

(São Jerônimo)
....

“Se a tua mente não se eleva à contemplação desse Homem-Deus crucificado, volta atrás e, começando desde o início até o fim, rumina todos os caminhos da Paixão e da Cruz do Homem-Deus vilipendiado. E se não podes retomar e falar de novo destas coisas com o coração, repete-as frequentemente e amorosamente com os lábios, porque aquilo que se repete com frequência com os lábios dá calor e fervor ao coração”.
(Santa Ângela de Foligno)



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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

COM A ABSTINÊNCIA DE CARNE, A IGREJA FAVORECE O VEGETARIANISMO? — REPOSTA DO PE. DAVID FRANCISQUINI


21 de fevereiro de 2020


Pergunta — Por que a Igreja proíbe comer carne nos dias de jejum e nas sextas-feiras? Agindo assim, não mostra certa reticência a este alimento, dando razão aos adeptos do regime vegano? Pergunto isso porque um colega de trabalho, que é vegetariano, me fez esse comentário e eu não soube responder. Obrigada.

 Pe. David Francisquini

Resposta — A disciplina atual da Igreja latina impõe aos fiéis “guardar abstinência e jejuar nos dias determinados pela Igreja” (Catecismo da Igreja Católica, n° 2043). O jejum e a abstinência são obrigatórios na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa; e a mera abstinência todas as sextas-feiras do ano, salvo se coincidir com alguma solenidade, conforme o cânon 1251. Mas, por disposição da CNBB, os fiéis brasileiros podem substituir a abstinência de carne das sextas-feiras por uma obra de caridade, um ato de piedade, ou pela privação de outro alimento (Diretório da Liturgia e da organização da Igreja no Brasil, 2010).

Antigamente, a obrigação de abstinência começava com o uso da razão, ou seja, aos sete anos, mas atualmente ela passa a vigorar somente a partir dos quatorze anos de idade, e vai até o fim da vida (o jejum é obrigatório somente entre os 18 e 59 anos). Da obrigação de abstinência — a qual vigora sob pena de pecado mortal — estão dispensados os doentes, os operários que realizam trabalhos cansativos, os soldados em campanha e os pobres e viajantes que não dispõem de outros alimentos.

Importa destacar que a obrigação da abstinência de carne é um costume multissecular na Igreja, confirmado por lei eclesiástica. Sua finalidade é nos ajudar a mortificar nosso corpo e dominar as paixões. Tal obrigação não é de direito natural; ou seja, embora o direito natural obrigue os pecadores a fazerem penitência por seus pecados, não lhes impõe nenhum meio específico para isso. Depois da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, essa obrigação deixou de ser de direito divino. Antes ela acontecia na lei mosaica, que proibia aos judeus o consumo de certos alimentos.

Na lei da abstinência de carne não entra, portanto, aversão alguma da Igreja em relação à carne como alimento, nem ao seu consumo pelo homem, contrariamente ao afirmado de modo errôneo pelo colega de nossa missivista e pelos que outrora sustentavam algumas heresias (como a dos maniqueus, para os quais a carne e todo o mundo material eram uma coisa má em si mesma). Pelo contrário, o Gênesis nos diz que cada categoria de seres criados foi considerada boa por Deus; e no relato referente ao sexto dia da criação, acrescenta: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (1, 31).

Não chames de impuro o que Deus purificou

São Pedro – Mestre de Castelsardo (séc. XV), 
igreja de São Pedro Apóstolo, 
Tuili, Sardenha, Itália.

Quanto a servir-se da carne como alimento, Deus o autorizou expressamente a Noé e seus filhos após o Dilúvio, dizendo: “Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento; eu vos dou tudo isto, como vos dei a erva verde” (Gen 9, 3). Dirigindo-se a Timóteo, São Paulo lhe diz que no futuro virão “espíritos embusteiros” “doutrinas diabólicas” (dir-se-ia que o Apóstolo previra o surgimento dos veganos de nossos dias…), os quais proibirão “o uso de alimentos que Deus criou para que sejam tomados com ação de graças pelos fiéis e pelos que conhecem a verdade”, apesar de que “tudo o que Deus criou é bom e nada há de reprovável, quando se usa com ação de graças” (1 Tim 4, 1-4).

Mesmo tendo Deus dado a Noé e à sua progênie uma permissão geral para alimentar-se indistintamente de vegetais e animais, Ele, porém, lhes proibiu de se alimentarem com o sangue dos animais, presumivelmente no intuito pedagógico de inspirar nos homens horror ao homicídio. Mais tarde, Moisés também proibiu aos judeus o consumo da carne de certos animais considerados impuros; daqueles que morriam por doença ou eram atacados pelas feras; dos imolados aos ídolos e das carnes sufocadas (ou seja, provenientes de animais que não tinham sido dessangrados ao morrer).

Nosso Senhor Jesus Cristo, porém, ensinou que a impureza não provém daquilo que entra pela boca, mas do que sai do coração (Mt 15, 17-20), revogando implicitamente as prescrições alimentares da lei mosaica. Para confirmar tal revogação, Deus mostrou a São Pedro — no êxtase que este teve na casa do curtidor Simão, em Jope, enquanto lhe preparavam de comer — uma toalha na qual havia “de todos os quadrúpedes, dos répteis da terra e das aves do céu”, enquanto uma voz lhe dizia: “Levanta-te, Pedro! Mata e come”. Ao que ele respondeu: “De modo algum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma profana e impura”. A voz então retrucou: “Não chames tu de impuro o que Deus purificou”. E isso se repetiu três vezes (Act 10, 9-16).

Dita revogação foi ainda confirmada no Primeiro Concílio de Jerusalém. Contrariando os desejos dos cristãos judaizantes, que queriam sujeitar os gentios convertidos à observância das abstinências da Lei de Moisés, o Concílio decretou que “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós [os Apóstolos] não vos impor outro peso além do seguinte indispensável: que vos abstenhais das carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne sufocada e da impureza” (Act 15, 28-29).

O Concílio de Florença (1444) declarou que essa abstenção (do sangue e das carnes sufocadas) imposta pelos Apóstolos reunidos em Jerusalém visava unicamente poupar a sensibilidade dos judeus recentemente convertidos, e que não era mais obrigatória no Novo Testamento.

Enquanto certas igrejas do rito oriental ainda a observam, na Igreja latina essa prática de abster-se do sangue e das carnes sufocadas já havia desaparecido na Idade Média. O Papa Nicolau I (858-867), numa resposta a consultas dos búlgaros, afirmou: “Pode-se comer todo tipo de carnes, a menos que elas sejam nocivas em si mesmas” (n° 43).

A posição equilibrada da Igreja Católica

Em matéria de abstinência há, portanto, dois erros a evitar: o primeiro é o excesso dos antigos hereges maniqueus e outros (e hoje, dos veganos), para os quais comer carne é mau em si mesmo; o segundo erro é o dos mundanos, para os quais jejuar e abster-se de carne é masoquismo; e ainda o dos evangélicos, para os quais a abstinência não tem nenhum valor religioso. O argumento que usam em favor deste segundo erro é a interpretação errônea da epístola aos Colossenses, que diz: “ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber” (2, 16).

Mas a atitude correta, adotada pela Igreja Católica, é uma posição intermediária, que prescreve alguns dias de abstinência de carne como exercício espiritual de mortificação. Segue assim as pegadas de São Paulo, que declarou: “Castigo o meu corpo e o mantenho em servidão” (1 Cor 9, 27); e afirmou ainda que “os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências” (Gal 5, 24).

É por isso que, na Igreja primitiva, uma abstinência de vinte dias era imposta aos catecúmenos que se preparavam para receber o Batismo. Também desde os primórdios da Igreja, a prática da abstinência de certos alimentos em determinados dias já era muito difundida entre o comum dos fiéis, como se verifica nos escritos dos Padres da Igreja.

São Jerônimo afirma que a abstinência data da vinda de Cristo ao mundo; Clemente de Alexandria diz que Cristo a praticava ao alimentar seus discípulos com pão e peixe; São Gregório de Nazianzeno afirma que São Pedro se alimentava somente de favas. Tertuliano diz que no século II os cristãos da África se abstinham de carne e de vinho. Orígenes, no século III, diz que é indiferente alimentar-se de carnes, mas que é razoável privar-se ocasionalmente delas. Santo Epifânio, no século IV, testemunha diversas formas que tomava a abstinência entre os cristãos da época.

Pelo jejum se reprimem os vícios, eleva-se a inteligência

Alguém poderia perguntar: Por que mortificar o corpo, privando-se da alimentação nos dias de jejum? E, em particular, por que privar-se de carne? A razão é que a intemperança é a mãe da luxúria, e por isso o demônio da impureza só pode ser expulso pela oração e pelo jejum (Mt 17, 21). De fato, ninguém consegue ser casto se, com certa frequência, não recusa ao seu corpo até mesmo coisas permitidas.

O meio de triunfar sobre as paixões desordenadas consiste em enfraquecê-las na sua raiz, pelo jejum e pela abstinência, que são perfeitamente conformes às disposições da natureza humana, posto ser fisiologicamente vantajoso substituir em certos dias o regime alimentar ordinário por outro menos substancioso e energizante. Com tais privações, a pessoa de alguma maneira se desmaterializa, libertando sua alma, fortificando-a e predispondo-a para realizar grandes coisas.

Quanto ao fato de a obrigação de abstinência recair sobre a carne, a Igreja nada fez além de seguir o bom senso; pois, especialmente nos climas frios, a carne constitui o alimento mais suculento, aquele que pode ser preparado de formas mais variadas, e pelo qual a maioria das pessoas sente mais apetite. Confirma-o com sua sensatez habitual Santo Tomás de Aquino: “Ao instituir o jejum, a Igreja observa o que mais geralmente acontece. Ora, comer carne é geralmente mais deleitável que comer peixe, embora para algumas pessoas tal não se dê. Por isso, aos que jejuam a Igreja proíbe comer carne em vez de peixe” (II-II, q. 147, a. 87, s. 2).

Em resumo, ao impor aos católicos a abstinência de carne, a Igreja não visa inculcar-lhes qualquer forma de masoquismo, nem sequer a recusa “vegana” dos alimentos de origem animal, mas aquilo que belamente proclama o prefácio da Quaresma: “Verdadeiramente é digno e justo, razoável e salutar que, sempre e em todo lugar, Vos demos graças, ó Senhor santo, Pai onipotente, eterno Deus, que pelo jejum corporal reprimis os vícios, elevais a inteligência, concedeis a virtude e o prêmio dela, por Jesus Cristo Nosso Senhor”.

Ao jejuar e fazer abstinência, devemos pedir a Deus essa graça do domínio das nossas paixões e da elevação de alma, e de preferência devemos pedi-lo pela intercessão de Maria Santíssima. Porque mesmo isenta de qualquer paixão desordenada ou de inclinação ao pecado, em virtude de sua Imaculada Conceição, Ela foi modelo de mortificação: aceitou com resignação dar à luz o seu divino Filho num presépio; viveu pobremente na casa de Nazaré; e, acima de tudo, acompanhou-O na Via Sacra; permaneceu de pé junto d’Ele durante a Crucifixão; e mereceu assim o título de corredentora.


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terça-feira, 16 de abril de 2019

DEFININDO A SEMANA SANTA – Dom Ceslau Stanula


Bom dia.

Estava pensando como definir estes primeiros dias da Semana Santa.

Acho que os poderia definir como um retiro em preparação para algo grande.

O incêndio da Catedral Notre Dame em Paris, chocou o mundo. A riqueza cultural, religiosa e testemunhal de quase nove séculos, foi destruída pelo fogo em poucas horas...

Sentimos, como estamos impotentes, perante a fúria da natureza. Nossos símbolos matérias desaparecem num piscar de olhos... só o espírito, a alma permanece porque é imutável e eterno.

As leituras da liturgia nestes três dias confirmam efemeridade e fragilidade do mundo e de nós mesmos. Mas o Cristo, angustiado como homem, mas poderoso como Deus, aponta para a vida e para a eternidade.

O perfume de Maria só pode ter valor, na perspectiva da vida eterna (Jo 12,7 8);

Lázaro, o justo, ressuscitado, vive com a força restauradora de Cristo, mas incomoda. Por quê? (Jo 12,10-11);

Finalmente, até o Filho de Deus, é vendido por 30 moedas ganhos pela corrupção... (Mt 26,15);

São tantas questões existenciais para repensar...

Que Cristo sofredor nos ilumine.

Com a benção e oração, bom dia.

Dom Ceslau.

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Dom Ceslau Stanula - Bispo Emérito da Diocese de Itabuna-BA, escritor, Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL

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segunda-feira, 1 de abril de 2019

SEMANA SANTA - Cyro de Mattos*


Todos os santos na igreja eram cobertos com um pano roxo na Semana Santa, menos Jesus Cristo. Era proibido comer carne vermelha e beber leite. A refeição matinal era com café e pão. À noite, a refeição era a mesma. Ainda bem que tinha um pouco de arroz e peixe no almoço. Sempre achava um jeito de chupar uma manga, um pedaço de melancia ou laranja para tapear a barriga e não sucumbir à fome. Fazia isso com cuidado, sem que minha mãe soubesse. Ela dizia que as pessoas deviam jejuar na Semana Santa, em sinal de amor e respeito à morte do Cristo. O jejum era só naquela semana, passava logo, ninguém ia morrer por isso.

O comércio cerrava as portas na quinta e sexta-feira. Ninguém trabalhava nesses dias. A mãe falou que um homem entendeu de tirar leite da vaca na Sexta-Feira Santa para tomar no café da manhã. Quando ele começou a puxar as tetas da vaca, só saía sangue em vez de leite. Aquilo era um sinal do céu para que o homem respeitasse o dia em que Jesus Cristo, o bem-amado salvador da humanidade, foi crucificado sem piedade pelos homens.

Parecia que toda a cidade amanhecia vestida de roxo na Semana Santa, principalmente na Sexta-Feira. Assistia ao filme sobre a vida, paixão e morte de Jesus Cristo na matinê da Quinta-Feira Santa do Cine Itabuna. As pessoas saíam cabisbaixas do cinema quando o filme acabava. Ninguém se conformava com o que fizeram com Jesus, que foi coroado com uma coroa de espinho, depois de ser cuspido e chicoteado. Para não se falar na cruz pesada que o pobre coitado carregara pelas ruas. Não satisfeitos com tanta judiação ainda pregaram o filho de Deus na cruz de maneira cruel. Em vez de água, quando Ele pediu, deram vinagre e, por último, enfiaram uma lança no coração. Era demais o sofrimento de Jesus, muita gente chorava.

E tudo por causa do Judas, que traiu Jesus por um saquinho de dinheiro em moedas. O Judas passava como um dos apóstolos de Jesus, mas se rendeu à tentação do dinheiro. Deu um beijo na face para entregar o filho de Deus aos soldados romanos. Todo mundo se vingava do Judas quando no filme ele aparecia enforcado, o corpo do traidor balançando numa corda amarrada ao galho da árvore seca. Nessa hora, o cinema quase vinha abaixo com as vaias da plateia.

Tinha uma sensação na procissão da Sexta-Feira Santa que tudo era pecado, dor e lamentação pelo que fizeram a Jesus. A imagem de Nosso Senhor Morto era levada no andor pelas ruas principais da cidade sob os cantos que falavam de pesares e perdão:

Perdoai, Senhor,
Por piedade,
Perdoai-nos, Senhor,
Tanta maldade,
Antes morrer,
Antes morrer
Do que Vos ofender...


* Cyro de Mattos é escritor, poeta e advogado aposentado. Diplomado em capoeira regional pela escola de Mestre Bimba, em Salvador. Tem no prelo da Editora Mazza, de Belo Horizonte, o livro “Poemas de Terreiro e Orixás”.


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sábado, 31 de março de 2018

DOM CESLAU STANULA - O Tríduo Pascal.





28/03/2018


Dentro da Semana Santa destaca-se o Tríduo Pascal, que são os três últimos dias em que contemplamos o mistério da Páscoa: a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.

O Tríduo Santo inicia com a celebração, nas horas vespertinas, da Ceia do Senhor. Esta celebração possui o tom festivo. A liturgia realça que Cristo nos deu a Páscoa no rito da ceia que exige da Igreja a união indissolúvel na vida entre o serviço e a caridade fraterna. 
Dentro deste contexto se deve ver o rito do Lava pés, praticado desde o tempo de S. Agostinho, que foi reservado só para as igrejas catedrais, e depois da refirma do Papa Pio XII em 1955, seu uso se estendeu a todas as Igrejas.

Depois da celebração as Hóstias consagradas são solenemente levadas a um lugar devidamente preparado para a adoração.  Desta forma fica plenamente expressa a ideia, que o culto ao mistério eucarístico devemos prestar tanto na Missa como e fora da Missa. Não se trata então do “sepulcro”, Cristo no túmulo, mas do contrário, de “ostensão”, exposição, do tabernáculo que contém as Sagradas Espécies que devemos adorar sempre, porque é o próprio Cristo Jesus. (Veja: Dicionário Litúrgico – Tríduo Pascal).

Nas Igrejas Catedrais, nos horários matutinos, celebra-se a Missa do Crisma, durante a qual o Bispo abençoa os óleos santos: do Batismo, dos Enfermos e do Crisma. Está solene liturgia transformou-se também em oportunidade para reunir todo o presbitério em torno do seu bispo, renovar as promessas sacerdotais e fazer da celebração uma festa do sacerdócio. Rezemos pelos bispos e padres que Jesus nos deixou para nunca nos faltar a Eucaristia.
Com a oração e benção episcopal.
Dom Ceslau.

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29/03/2018
A Sexta-feira Santa

A sexta feira Santa exprime o significado da cruz, inspirado no Evangelho de São João. Portanto, a sexta feira santa não é o dia de luto na igreja, mas o dia de amorosa contemplação do sacrifício de Jesus, fonte da salvação.  O aspecto da humilhação e da morte está sempre inseparavelmente ligado ao mistério da ressurreição e da glorificação de Cristo. Este significado teológico da cruz exprimem os textos litúrgicos: as orações, mas principalmente os textos bíblicos que constituem a liturgia da Palavra. Na Sexta Feira Santa nunca se celebrou a santa Missa, e no seu lugar se coloca a adoração solene da Santa Cruz, que é o ponto central das celebrações da Sexta-feira Santa. Este rito da adoração da Santa Cruz vem de Jerusalém e já está praticado no século IV, como atesta São Cirilo (+386) bispo de Jerusalém. Depois as leituras, desde o século II, seguem as orações solenes – “oração universal”. A celebração termina com a Santa Comunhão, que no início ficou reservada para o celebrante, mas desde 1955, desde a reforma do Papa Pio XII, foi estendida para os fiéis.

Na sexta Feira Santa, por motivos religiosos obriga, o jejum e abstinência. Este jejum é o sinal sacramental da participação no sacrifício de Cristo. De fato, “chegaram os dias em que o esposo foi tirado”, por isso, segundo a recomendação de Jesus, os discípulos jejuarão (Lc 5,33-35).

Num profundo silencio orante contemplemos o amor de Jesus para conosco. Uma boa noite.
Dom Ceslau
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30/03/2018
A Vigília Dominical
A primeira  e a única celebração no Sábado Santo é a Vigília dominical, chamada por S. Agostino como a “mãe de todas as vigílias”. O rito romano, com o tempo, enriqueceu-o pela introdução de elementos novos, como a benção do fogo e o círio, que constituem a abertura da celebração da Vigília. A partir do século II a noite da Vigília Pascoal ficou caracterizada pela celebração do batismo. A celebração da Vigília desenvolve-se inteiramente na alegria da páscoa e com o rito progressivo e ascensional e desemboca na santa Missa a verdadeira Páscoa.
Depois das cerimônias iniciais, a benção do fogo e do círio, com o belíssimo canto de perecônio pascoal, vem a liturgia da Palavra, com nove leituras, apresentando a história da salvação, e depois segue a liturgia batismal. A liturgia renovada aconselha que haja não só a renovação das promessas batismais dos adultos, mas a efetiva celebração do batismo. Depois da liturgia batismal, a comunidade explode com canto alegre e triunfal: Glória a Deus no mais alto dos céus, em Celebração Eucaristia da Páscoa.

O simbolismo fundamental da celebração da vigília pascoal consiste em ser ela “uma noite iluminada”, “a noite vencida pelo dia”, mostrando assim pelos sinais, que a graça de Cristo venceu as trevas do pecado. Por isso a vigília pascoal é noturna pela sua natureza. Começar de noite para terminar no raiar do dia. Passagem das trevas para a luz, da noite para o dia, expressa a realidade do mistério da Pascoa em Cristo e em nós. A Páscoa, QUE SIGNIFICA A PASSAGEM... passagem sempre para o melhor, sempre para a luz.... Que linda simbologia.
Feliz Páscoa. Que a luz do dia da Páscoa continue brilhando na sua e na nossa vida. Feliz Páscoa.
Dom Ceslau.

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Dom Ceslau Stanula 
Bispo Emérito da Diocese de Itabuna-BA, escritor, Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL

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