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terça-feira, 19 de julho de 2022

Médicos e Remédios

Helena Borborema

 


          Itabuna sempre teve excelentes médicos. Em épocas passadas, quando não havia ainda hospital na cidade, nem pronto-socorro, os médicos que aqui se estabeleceram realizaram maravilhas, verdadeiros milagres quando não contavam com os muitos recursos que existem hoje na área da medicina. Um médico sozinho desempenhava todos os tratamentos, tanto em adultos como em crianças. Não havia especialidade para isso ou aquilo. Um médico fazia partos, tratava de febres, doenças infantis, varíola, gripes epidêmicas, fraturas, pequenas cirurgias de emergência e, o que era de espantar, apesar da falta de recursos no meio e na própria medicina, quando não se falava aqui em antibióticos, eletrocardiogramas, ultrassom, radiografias e recursos outros, ele lutava para atingir o melhor com a sua competência e conhecimento.

            Em tempos difíceis como aqueles primeiros de Itabuna como vila e como cidade nascente, sem meios de transporte a não ser o burro, o médico estava sempre pronto para atender a qualquer chamado de emergência, a qualquer hora do dia ou da noite, na cidade e na zona rural, indo a pé, se a casa era perto, percorrendo ruas escuras e becos perigosos pelas tocaias, ou montado a cavalo, se a casa era afastada. Às vezes tinha de atravessar pedaços de cacauais, iluminado pela candeia do acompanhante, ou atravessar de canoa ou balsa um rio cheio, pondo em risco a própria vida, apesar de saber que não receberia nenhum pagamento, mas sabendo que uma vida estava a depender dele: uma mulher que se esvaía em trabalho de parto difícil sem que a parteira pudesse fazer mais nada, uma criança ardendo em febre, um pai de família prostrado por algum mal, sem socorro, sem nenhuma assistência. Às vezes a remuneração era uma carga de milho verde, um caçuá de laranjas, ou uma leitoa, um peru. Sei que a lembrança deles ficou gravada na memória e no coração de muita gente de Itabuna. Há o caso do Dr. Soares Lopes, que aqui clinicava, e teve de atender a um homem trazido da roça dentro de uma rede, em situação crítica, com o corpo várias vezes perfurado pelas balas de dois jagunços. A salvação seria uma cirurgia de emergência. Mas onde, se não havia hospital? Naquela situação  difícil, pediu o Dr. Soares Lopes que lhe arranjassem uma sala vazia ou um galpão e uma mesa, e a operação foi feita com toda aquela precariedade. Um braço foi amputado acima do cotovelo. Os ossos de uma perna e um queixo quebrados pelas balas foram consertados, e ou outros orifícios de tiros, tratados. Eu, menina, conheci o homem muitos anos depois do fato, já envelhecido, puxando de uma perna, um braço amputado, com duas fundas cicatrizes no peito, andando na rua e trabalhando ativo numa banca de jogo na praça Adami, como eu o vi numa noite de Natal. Isto graças à presteza e coragem de um médico do interior, que guardava sob a sua modéstia a alma de um santo e a competência de um grande profissional da medicina.

            Houve em Itabuna outra figura de médico um tanto diferente dos demais por sua extrema simplicidade. Era o doutor Ápio Lopes, muito procurado pela confiança que a clientela tinha em suas receitas. Modesto, pouco ligava para a sua aparência pessoal e do consultório. Não sei quando chegou a Itabuna, nem de onde veio, já o conheci bem velho. Tinha consultório numa das ruas do centro, a Oswaldo Cruz. Branco, rosto corado, fanhoso, era querido e respeitado pela clientela. Alguns diagnósticos ele dava só examinando a língua, os olhos e a tonalidade da pele. Creio que acertava em cheio, porque eu, menina, só ouvia elogios à eficiência do bom doutor.

            Ótimos médicos prestaram os seus serviços a Itabuna naqueles tempos difíceis de atentados à vida, epidemias e doenças várias que assolavam a população. A cidade pode se orgulhar de seus médicos, que dignificaram e enobreceram a profissão, no presente e no passado.

            Além do tratamento médico, havia a medicina caseira, muito aplicada. Esta, muitas vezes, era para as crianças um terror. Se o menino não queria comer, andava pálido, sem apetite, a primeira providência era chamar a rezadeira. Podia ser “olhado”. Esta era convocada e já chegava trazendo seus ramos de arruda ou pinhão-roxo. Ainda vejo nitidamente as figuras de dona Maria e dona Bertolina, muito procuradas e acreditadas. Feita a reza, às vezes uma só não bastava, eram três ao todo, aguardava-se a melhora. Se a falta de apetite continuava era sinal de vermes, as lombrigas. A sorte da criança estava lançada. Eu, no caso, entrava em clima de terror, porque sabia não ia demorar muito meu pai chegar em casa com o vidro de “Lombrigol”. A data era marcada: no minguante ou lua nova, caso contrário os vermes não morriam. Era um óleo grosso, intragável, de cheiro repugnante. No dia escolhido eu era acordada bem cedo, ainda no lusco-fusco. A cena que meus olhos viam, metia medo; minha mãe, de pé, com o vidro de remédio numa mão e a colher na outra, e meu pai ao lado, para dar reforço. Eu fazia horrores, chorava, trancava a boca, até por fim ser dominada e obrigada a engolir a colherada da droga. Depois disso vinha o resguardo: trancada no quarto o dia inteiro, sem ver a luz do sol e nenhuma cor verde. Se ocorresse olhar uma planta ou a claridade do sol, as lombrigas não morriam. A alimentação era bem fraca: chá preto e torradas para enfraquecer os vermes. No segundo dia, podia comer umas mantinhas de carne grelhada, com arroz, quase sem sal.

            O óleo de rícino era outro pavor da meninada. Não sei por que muito usado naqueles tempos. Se uma comida fazia mal, tinha um problema digestivo, se curava com chás. Se persistia o problema, não havia dúvida, entrava em cena o óleo de rícino. Era outro desespero. Minha mãe amenizava a minha angústia convencendo-me a segurar uma chave na mão – ajudava a não sentir o gosto do remédio, me dizia ela -, enquanto com a outra mão segurava uma banda de laranja, para chupar assim que engolisse o óleo grosso de cheiro repugnante que descia pela minha garganta.

            Nos casos de gripe forte, o remédio era um chá de sena com maná, comprado na farmácia. Era tomado frio, e tinha gosto intragável. Se aparecia o sarampo, para o tratamento buscava-se a flor do sabugueiro. Havia grande variedade de folhas para chás e para banhos, indicadas nos mais diversos males.

            Um tratamento muito usado era a “Emulsão de Scott”. Creio que toda criança de Itabuna, da minha geração,  a conheceu; era indispensável se tinha tosse ou após uma gripe. Muitos a tomavam para ajudar no crescimento. Se a criança andava magra ou anêmica, o remédio era “Capivarol”.

            Antigamente o resguardo era fator importante para consolidar a cura de qualquer enfermidade; para a parturiente, então, ele era importantíssimo: sete dias no quarto em repouso, pés calçados com meias de lã para evitar friagem, e algodão nos ouvidos para não ouvir barulho; alguém da família vinha para tomar conta da casa: a mãe, a tia, a irmã, e, em último caso, uma comadre. Para a alimentação da parturiente só canja de galinha nova ou frango. Tudo o mais era vetado. Verduras que davam em ramagens, como o maxixe e a abóbora, eram considerados veneno. Limonada, nem falar. Peixe de couro era proibido; peru ou pato só podia comer um ano depois da criança nascida. Era com todas essas precauções que as senhoras enfrentavam os nascimentos de cinco, oito, doze, quinze filhos. Como não havia hospital nem maternidade, os partos eram feitos em casa, geralmente por parteiras eficientes pela prática e dedicadas pelos cuidados. Itabuna teve boas parteiras como dona Joventina, dona Glicéria, dona Guilhermina, e mais tarde, as diplomadas dona Otaciana, Olga Couto, e dono Júlia.

            O pior tratamento a que uma criança era submetida era o dentário. Não havia dentista só para crianças, como hoje. Quando se entrava num gabinete dentário, a primeira coisa que se via era um armário de vidro, e, nas prateleiras, bem arrumada, a exposição da aparelhagem toda, instrumentos que pareciam de tortura, agressivamente à vista. O meu drama começava logo que olhava para eles. Era assustador; desatava a chorar e a tremer. Assim, quando sabia que seria levada ao dentista, a minha primeira reação era esconder os sapatos; até que fossem encontrados, já tinha passado o horário, e assim, ia me safando daquela ameaça e da dor. Em casa, quando eu tinha dor de dentes, esta era aliviada com a “Cera do Dr. Lustosa”, então muito usada.

            Na minha infância, um dos cuidados que as mães tinham com os filhos, era a proteção contra o “vento sul” que, conforme eu ouvia falar, causava doenças. Quantas vezes eu estava brincando fora de casa, quando chegava a ordem: “entre; o vento sul está soprando, ele trás doenças“. – Que vento era aquele que minha mãe tanto temia? De onde vinha? Muito mais tarde fiquei sabendo que era o vento frio que soprava do Sul, vindo das matas próximas, carregado de umidade; como a cidade era mais aquecida, ele provocava uma queda repentina de temperatura e isso causava gripe, resfriado, alergias, etc.

            Sob os aspectos da saúde, as crianças de hoje são muito mais felizes do que as de anos atrás, porque desconhecem o pavor do consultório dentário que eu conheci, desconhecem as regras draconianas da medicina caseira, o cheiro e gosto horríveis da sena, do óleo de rícino e do “lombrigol”.

 

(RETALHOS)

Helena Borborema

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segunda-feira, 4 de julho de 2022

A CASA DOS VIDROS AZUIS – Helena Borborema

  


         De vez em quando, sempre que possível, eu fugia do olhar atento de minha mãe e corria para a casa dos vidros azuis. Ela me fascinava. Tinha eu então uns seis anos, e minha mãe não entendia por que eu gostava tanto daquele casarão. Sempre que corria para lá, na volta era ameaçada de receber umas chineladas, mas nada me fazia desistir daquelas visitas.

            Situado bem perto da minha casa, numa esquina de frente para o rio, o casarão tinha cor amarelo-queimado e se apoiava sobre enorme porão, todo acimentado e muito limpo. Cercado de pequeno jardim, onde gerânios de cheiro exótico e cor avermelhada cresciam, tinha de frente ampla sacada, janelas laterais e um alto portão de ferro que lhe servia de entrada. Transposto este, estava uma escadaria de poucos degraus, larga, feita de cimento polido, que dava acesso a uma maciça porta de madeira entalhada. Em sua frente alongava-se uma rua ainda não calçada, onde um gramado – não digo verdejante, porque a sua cor era sempre meio parda – a cobria como um tapete empoeirado. Do outro lado do gramado, estava o rio que gritava e ria pelas vozes das lavadeiras e aguadeiros que labutavam nas suas margens. Mas quando a escuridão da noite se aproximava e eles se iam, apenas o leve rumor das águas se fazia ouvir, e uma tristeza dolorida aquietava tudo. Era esse o cenário que os meus olhos de criança descortinavam, e a impressão que se gravava no meu espírito.

            Transpor a porta do casarão, visitá-lo, era o meu encantamento. Por isso o procurava sempre que podia. Lá dentro, duas salas grandes, com assoalhos de bonitas tábuas de madeira-de-lei, amarelas umas, outras escuras, dispostas em tiras lustrosas e bem tratadas, me atraíam. Era ali o meu palácio encantado. Já no portão, o perfume diferente dos gerânios me convidava a entrar num mundo também diferente, e eu entrava de mansinho, sem me anunciar e sem ser convidada. Simplesmente entrava.

            Lá dentro, uma tranquilidade. A brisa amena vinda do rio, espaços grandes quase vazios de móveis, e o casal de velhos. Velhos  aos meus olhos de criança, pois estariam beirando os quarenta e poucos anos. A dona da casa, amiga de minha mãe, olhava para mim, sorria e me deixava à vontade. Parecia que ela já adivinhara o motivo de minhas visitas. Eu nada dizia, nem procurava, apenas me encaminhava a uma grande sala cujos janelões eram adornados por lindos vidros de cor azul-anil. Ali estava toda a razão do meu encantamento.

            Era aquele o meu mundo encantado. O sol da manhã, que se refletia direto nas vidraças, espalhava uma luz que eu achava maravilhosa, azul forte, que se estendia pelas paredes e assoalhos. O salão com apenas algumas cadeiras e uma pequena mesa de centro, todo iluminado de azul-anil, me envolvia numa magia tão grande que eu quedava feliz, fascinada, dentro de um palácio lindíssimo. Princesas e príncipes das histórias que as empregadas me contavam, carruagens de ouro e prata surgiam e desfilavam ante os meus olhos cheios de alegria. Via arcas cheias de pedras preciosas de Ali Babá, reluzindo no meio do grande salão.

            Como não havia crianças na casa, e não tendo com quem brincar ou participar daquela maravilha, depois de pouco tempo eu deixava o casarão tão sem-cerimônia como entrara, e voltava correndo para casa, já esperando o carão de minha mãe por andar em casa de vizinhos. Como iria ela entender os motivos da minha atração pela casa dos vidros azuis?

            Os anos passaram. O meu encantamento pelo casarão  foi se desvanecendo como a nuvem que se desmancha no espaço. Cresci, fui para longe,  mas a lembrança carreguei comigo. Voltei anos depois , para encontrar desolação. Chuvas de muitos invernos lavaram as suas paredes já mudadas de cor pelo tempo e gosto dos diversos moradores que lá habitaram. Meio arruinado, vazio e silencioso, reboco caindo, vidraças quebradas, despertou-me tristeza. O velho portão de ferro ainda de pé, outrora tão bordado nos seus arabescos que mãos de artistas forjaram, parecendo agora um espectro corroído pela ferrugem, teimava inutilmente em cumprir o seu fado de guardião e protetor. Dos vidros azuis das janelas, poucos restavam.

            Triste e curiosa eu me perguntava: Que mal fez o meu casarão ao tempo para que o atacasse tão cruelmente? O que aconteceu durante o nosso longo afastamento? As tábuas do chão ainda seriam as mesmas, de duas cores e lustrosas? E os gerânios, o que foi feito deles? Tudo estava tão diferente... O gramado da rua fora substituído por paralelepípedos. Só o rio parecia o mesmo, ou melhor, quase o mesmo, porque estava calado, já sem os cantares das lavadeiras e os gritos dos aguadeiros.

            Quis adentrar o velho portão, mas eu também tinha mudado, já não era mais aquela criança que outrora entrava sem pedir licença e saía sem se despedir. Porém, que interesse tinha mais para mim a velha casa, se os seus vitrais já não refletiam o azul que encantou a minha infância, e se o meu palácio de sonho não mais existia? O meu velho casarão parecia agora estampar a figura de um mártir coberto de chagas, flagelado, agonizante, numa dor silenciosa. Os vitrais azuis estraçalhados eram testemunhas mudas daquela decadência. Novamente lhe disse adeus e parti.

            Novos verões e novos invernos vieram. O progresso chegou envolvendo ruas, avenidas, casas, costumes e tradições, e com ele lá se foi embora o meu velho casarão. Da última vez que o busquei, já não o encontrei. Em seu lugar erguia-se um edifício de apartamentos, moderno, todo fechado, sem vidros coloridos, sem portão de arabescos bordados, sem jardim de gerânios.

            Sem a beleza serena e nobre do meu lindo casarão e, sobretudo, sem a poesia dos lindos vidros azuis iluminados pelo sol.

 

(RETALHOS)

Helena Borborema

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HELENA BORBOREMA -  Nasceu em Itabuna/Ba. Professora de Geografia lecionou muitos anos nos colégios Divina Providência, Ação Fraternal e Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna, exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município.

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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

O COLÉGIO – Helena Borborema



             Ana Maria acabara de receber o pacote de maçãs trazido do mercado pela empregada. A manhã já ia pelo meio e ela havia convidado amigos para o jantar. Por que não fazer logo com aquelas maçãs a torta que havia desejado para a sobremesa da noite? Nesse sentido, começou a descascar as frutas. As maçãs eram vermelhas, bonitas, e o seu cheiro ativo logo impregnou todo o ambiente. Mas uma coisa estranha acontecia: aquele perfume sempre lhe lembrava coisas da infância, como as viagens de navio para Salvador quando, enjoada, só comia maçãs, ou as das merendas que levava para o colégio, quando no curso primário. Por isso ela hoje as detesta. Mas naquele momento veio-lhe de imediato à memória as maçãs grandes, vermelhas e cheirosas, que o pai comprava para ela no bar do senhor Elias Grimann.

            O senhor Elias era um lituano alegre, baixo e magrinho, muito educado, dono do Elite Bar, onde vendia frutas importadas, vinhos e licores finos, bombons e chocolates também importados. Porém entre os artigos mais procurados em seu estabelecimento, estavam os finos biscoitos “Aimoré”, embalados em bonitas latas com a figura de um também bonito índio impresso na tampa. E naquele momento, meu Deus! Como podia ser? – pensava Ana Maria. Como um passado de tantos anos podia voltar de repente, tão vivo, tão real, trazido pelo aroma de uma fruta? Uma lembrança olfativa e visual ao mesmo tempo, pouco a pouco lhe trouxe imagens que foram ficando cada vez mais vivas, e ela se viu no pátio de um colégio. Sim, era ela mesma, o uniforme do colégio que era o mesmo, saia azul de pregas, blusa branca e gravata também azul. Ela sorria com uma bonita maçã vermelha na mão. Era um recreio de meninas.

            Ana Maria não quis deter suas lembranças. Era bom recordar aquele passado que julgara estar muito para trás, mas que agora via, nítido, real. O pátio do colégio estava ali à sua frente, era o pátio de recreio do Colégio Divina Providência. Ela o reviu perfeitamente. Parou de descascar as maçãs, evocando mais acuradamente a cena. E um tempo passado voltou, uma fase de sua vida reviveu. Era menina, do primeiro ano primário, quando começou a frequentar aquele educandário, então dirigido por um grupo de religiosas. Uma a uma as figuras das freiras foram lhe surgindo como os olhos da mente as guardaram. Viu uma baixinha, gorducha, de olhos meio esverdeados, ar sarcástico, com quem ela nunca simpatizou. Foi sua professora nos dois primeiros anos primários, mas nunca soube cativar a amizade da menina. Viu ainda, nitidamente, uma outra de sobrolho carregado, que foi também sua professora e de quem também não guardou lembrança agradável. Outras figuras foram surgindo uma após outra, professoras, colegas, imagens distantes, mas redivivas. Sorriu quando viu a figura, alta, corada, nariguda, de sua primeira professora de piano, uma freira do Rio Grande do Norte, única de quem gostou por ser ela talvez a mais afetuosa.

            Ana Maria se deteve no trabalho para bisbilhotar melhor aquele cenário que a lembrança desenterrara. Viu-se no dia de sua Primeira Comunhão, na capelinha de Santo Antônio, com mais duas colegas cujas fisionomias o tempo apagou. Foi durante uma missa muito bonita, toda cantada, pois as freiras festejavam o dia da padroeira da Ordem. Com este pensamento, chegou-lhe à boca o gosto das empadas de camarão que sua mãe encomendara para aquele dia de festa, feitas por dona Santinha, uma portuguesa casada com o jardineiro da Prefeitura, também português. Empadas de preparo inigualável, tão bem feitas e saborosas que ficaram na lembrança, desafiando o tempo.

            Foi com as freiras do Divina Providência que Ana Maria iniciou o seu estudo de religião através do catecismo e das leituras da História Sagrada da conceituada Editora F. T. D. Este livro para escolares, de linguagem simples, com ilustrações, narrava todas as passagens do Antigo e do Novo Testamento de modo agradável, atrativo. Data dessa época, o curso primário, o seu conhecimento de todos aqueles personagens bíblicos, como por exemplo, Absalão, cuja figura ela guardara na retina, com a sua farta cabeleira presa aos galhos de uma árvore, e um soldado ao lado com a espada desembainhada para o matar. A leitura da História Sagrada expusera para ela, ainda menina, o mundo das figuras bíblicas como Abraão, Isaac, Moisés, Davi e outros. O sacrifício de Abraão no monte Moriá a deixara impressionada pela atitude corajosa do patriarca. Só o que lhe causava cisma era a figura de Deus Pai, representada por um velho de longa barba branca, de aspecto severo, que lhe impunha um respeito enorme, até um certo temor.

            Foi também no Divina Providência que ela aprendeu a segurar a agulha para bordar, nas aulas diárias de costura, à tarde, a que todas as alunas eram obrigadas a frequentar. Essas aulas começavam às 14 horas e o sinal era dado pelo apito do trem e iam até às 16 horas. No fim do ano letivo, os bordados adornando almofadas ou transformados em toalhas, blusas, paninhos diversos, eram apresentados em grande exposição, com o comparecimento das mães das alunas e visitantes. Ainda no final do ano Letivo, as freiras faziam para as famílias das alunas uma grande festa com representações teatrais, bailados, poesias, e no final, de modo solene, a leitura de notas de cada aluna e a distribuição de medalhas àquelas que fizeram jus.

            Além das matérias tradicionais do currículo e das aulas de bordado, as alunas tinham toda semana uma hora de aula de civilidade. Nessa ocasião eram ensinadas as boas maneiras, como se portar à mesa na hora das refeições, na sala de visitas, como tratar os superiores e empregados, a boa postura ao se sentar, ao andar, ao falar e ao rir, as atenções para com um hóspede. Enfim, por mais “botocuda” que fosse a aluna, tinha ali com as religiosas, a boa educação. Uma educação pode-se dizer, integral. O amor à Pátria era incentivado com os hinos no fim da tarde, bem como a exaltação à figura dos Santos, também invocados em hinos e orações, para começar e encerrar os períodos de aula. A Instrução Moral e Cívica, matéria que infelizmente foi abolida, também fazia parte do currículo.

            Quando uma aluna terminava o curso primário, mesmo que não desse continuidade aos estudos, já levava com ela um bom conhecimentos das matérias elementares, boa caligrafia e uma boa formação cívica, moral e religiosa. Para as alunas que quisessem, ainda havia um curso particular de piano, ministrado por uma das freiras. O Divina Providência veio para realizar em Itabuna uma missão importante numa época em que a cidade sentia de maneira premente a necessidade de um educandário.

            À noite, durante o jantar, essas lembranças de Ana Maria foram abordadas como um dos temas de conversa. Opiniões foram surgindo, comentários e elogios unânimes cercaram o Colégio Divina Providência, que como o próprio nome diz, gozou sempre da proteção de Deus.

            Entre as amigas presentes, uma lembrou-se da cisterna que havia no pátio do colégio, fechada por grande tampa de cimento e com uma bomba para levar água ao edifício, foi lembrada também a cozinha, onde a figura de proa era Porcina, cozinheira das freiras e perita no preparo de um alféloa, que fazia a delícia das meninas no recreio. Uma particularidade do Divina Providência era o seu internato, que abrigava grande número de meninas que moravam fora da cidade, e que sem essa casa de ensino teriam seus estudos dificultados.

            “E o prédio?” – observou outra amiga. Como se conservou a fachada, coisa difícil em Itabuna que pouco preserva o seu patrimônio! Realmente, o Divina Providencia tem mais esse mérito, o de conservar até hoje as suas características arquitetônicas iniciais. Nada mudou externamente, só o interior teve de ser alterado para ampliação das salas de aula, auditório, atendendo exigências outras do ensino moderno.

            No bate-papo do jantar, foram ainda lembradas as figuras daqueles homens idealistas e dedicados a Itabuna, a cujos esforços a cidade deve esse seu patrimônio cultural. O Divina Providência nasceu do idealismo e esforços de homens como Monsenhor Moisés Gonçalves do Couto, então vigário da Paróquia; Dr. Celso Fontes Lima, que até o fim da vida dedicou todos os seus esforços em defesa dos interesses do Colégio; senhores Ramiro Nunes de Aquino, Otávio Mendonça, Antônio Lúcio da Silva e alguns outros (todos pertencentes à Sociedade de São Vicente de Paula, de Itabuna), e mais tarde fortalecido pelo esforço e dedicação de dona Lindaura Brandão de Oliveira, sua diretora por vários anos.

            Após alguns anos de bons serviços, as Religiosas deixaram o Colégio, quando ele passou então para as mãos de professores não-pertencentes à ordem religiosa.

            A instalação do curso ginasial no Divina Providência foi um marco importante na vida de Itabuna. Antes disso, nem todos os jovens da cidade e da região podiam ter acesso ao ginásio. Só quem possuía muito dinheiro ou se atrevia a arcar com enorme sacrifício podia mandar um filho estudar em Salvador. Estudar na Capital era difícil, a começar pela viagem. Feita de navio, que nem sempre tinha viagens regulares, passou a ser feita também, a partir da década de trinta, por via terrestre, nas chamadas marinetes. Com as estradas em construção, a viagem era feita em duas etapas, o que equivalia a dois dias. Via Itabuna-Jequié, via Itabuna-Conquista. A comunicação da família com o filho estudante era outra dificuldade, só feita por telegrama, que quase sempre chegava atrasado ao destinatário, ou por meio de carta que, não raro, extraviava. Então muitas famílias pagavam a um correspondente, senhor de confiança que uma vez por mês ia a Salvador, levando dinheiro, carta, doces, roupas, encomendas para o filho estudante. O mais procurado era um senhor de nome Tranquilino. Na volta, trazia para a família as esperadas notícias, com a vantagem de ter falado a viva voz com o jovem.

            Cada amiga presente ao jantar tinha uma lembrança na família nesses tempos difíceis e dispendiosos, pois todo jovem estudante que ia do interior tinha que ficar interno no colégio, o que era muito caro, ou num pensionato, o que custava também muito dinheiro, salvo para aqueles  que tinham parentes em Salvador. Assim, a criação do curso Normal e depois o Ginasial no Divina Providência foi tão importante, que Itabuna podia ser marcada por duas épocas: antes e depois do Divina Providência.

            Como o sol esparge a luz, o Divina Providência espargiu pela Bahia um exército, um número incontável de jovens que hoje engrandecem a terra onde nasceram ou vivem. Em todas as profissões brilham nomes de ex-alunos do Divina Providência. Na Medicina, no Direito, na Odontologia, Artes Plásticas, Comércio, Engenharia, na Magistratura, no Clero, na vida pública, na política, no Jornalismo, nas Oficinas, no Exército, em todos os setores enfim, está um homem ou uma mulher bem preparado, que recebeu como alicerce de sua formação os ensinamentos do Ginásio Divina Providência.

            Ana Maria terminou o seu jantar com a alegria das boas  lembranças surgidas, boas recordações, lembrando que também daquele colégio ela saiu para continuar  os seus estudos e para ele voltou mais tarde, como professora, indo lecionar nas mesmas salas onde anos antes estudara, pisar o mesmo pátio onde, menina, já merendara risonha, bonitas e lustrosas maçãs vermelhas.

(RETALHOS)
Helena Borborema


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sábado, 15 de fevereiro de 2020

TIPOS REGIONAIS - Helena Borborema


            Itabuna, a partir dos seus primórdios como Arraial e Vila até chegar a Cidade, conheceu diversos tipos humanos integrados na sua vida, no seu dia-a-dia. Em tempos mais recuados, quando matas frondosas ainda cobriam grande parte do seu território e homens trabalhadores e honestos iniciaram um grande trabalho de desbravamento para plantar cacau, tipos humanos nos mais diferentes misteres foram aqui surgindo.

            Representado por sergipanos e sertanejos, o primeiro tipo humano - além dos índios - que se integrou na região, nela se fixando, foi o LAVRADOR. Coube a ele o papel de desbravador, quando derrubou a mata, plantou, fez roça de cacau. Foi ele o homem que, superando grandes dificuldades do meio com coragem e confiança no seu próprio valor, fez surgir, dentro da mata, as grandes plantações de cacau, e abriu trilhas que iriam unir as diversas partes de uma imensa região. Muitos transformaram as suas lavouras em grandes fazendas. Num dia-a-dia difícil, corajoso, fazendo economia, comprando novas plantações, iniciando outras, esses lavradores acabaram por acumular fortuna, tornando-se senhores de grande riqueza. A sua produção valia pelo peso, a arroba, e aquele que colhia de mil arrobas para cima era intitulado CORONEl.

            O coronel - e eram vários na Região Cacaueira - acabou por se tornar homem de muita importância entre os seus conterrâneos. Já tendo constituído família, os coronéis passaram a viver na cidade. Construiram um casas confortáveis, viviam cercados de prestígio, com grande influência na vida política, social e econômica da cidade.

            Em alguns casos, a figura do coronel esteve ligada à do JAGUNÇO. Este era o assalariado, vindo de outras bandas da região e até de outros estados, muitas vezes foragido da justiça. Carregando em si a influência do meio onde nasceu ou se criou, ou por atavismo, o jagunça se prontificava para qualquer ação criminosa. Buscando abrigo em fazendas, a troco de dinheiro ou proteção se colocava ele a serviço do patrão para cumprir qualquer ordem, fosse para matar, bater ou incendiar roças dos inimigos do seu chefe e protetor. O jagunço não tinha escrúpulos nem piedade; a ele só importava a ordem do patrão.

            Com o tempo, pela ação da Justiça e a civilização que se foi instalando, a figura dos jagunços acabou por desaparecer, uns eliminados pelos fuzis da polícia que vinha para combatê-los, enquanto outros acabaram na cadeia.

            Nos tempos atuais, há ainda remanescentes do jagunço, mas com outra denominação: são os pistoleiros de aluguel, matadores que ainda agem nas grandes e pequenas cidades sob as ordens de outros chefes, não mais os coronéis, e levantam outras bandeiras de banditismo.

            A cidade teve também os seus tipos peculiares. Um deles foi o AGUADEIRO, figura comum e necessária numa época em que a cidade não tinha ainda o serviço de água encanada. Toda a água consumida pela população, para o gasto e para beber, vinha do rio e cisternas, e era distribuída pelo aguadeiro, homem que tinha por meio de vida levar a água de casa em casa, transportada em quatro barris que iam pendurados a cangalha, no lombo de um burrico tangido por ele pelas ruas da cidade. Havia os aguadeiros de água do rio e os que distribuíam só água de beber tirada das cisternas. Cada aguadeiro já tinha sua freguesia certa. Em casa, a água era filtrada e mantida nos próprios filtros e talhas ou potes, dentro dos quais era costume se colocar um pedaço de enxofre. Até a instalação da rede de água encanada na cidade, eram os aguadeiros os seus únicos condutores. Ao lado do aguadeiro, tirando o seu sustento das águas do rio, estava a LAVADEIRA. Quando o Cachoeira ainda corria desimpedido e as máquinas de lavar eram inexistentes na cidade, a roupa toda da população era lavada nas águas mansas dos trechos limpos do rio, água corrente. As lavadeiras, que chegaram a formar grandes grupos, alegravam as margens do Rio Cachoeira e davam-lhe colorido com a variedade de cores das roupas estendidas ao sol sobre os lajedos e gramado da beira do Rio. De pele tostada pelos raios solares, com as pernas mergulhadas na água, elas mourejavam diariamente sobre os lajedos, num trabalho cansativo, mas necessário a elas e à freguesia. Algumas lavadeiras até almoçavam lá mesmo na beira do rio, ao abrigo de alguma moita ou arbusto frondoso que as protegia da inclemência do sol.

            Dois outros tipos eram vistos comumente nas ruas: o CARVOEIRO e o VENDEDOR DE LENHA. Não existia o gás de cozinha, assim toda a casa, por melhor que fosse, usava o fogão à lenha ou a carvão. O Carvoeiro vendia o seu produto em sacos que eram levados na cangalha de burros, e a lenha era vendida em feixes amarrados de cipó e  transportados também em animais.

            Com relação aos comestíveis, como não havia mercados, as donas-de-casa se valiam dos vendedores ambulantes de ovos, galinhas, peixes e carnes de carneiro, porco, mercados em tabuleiros, além da feira e dos açougues. Para o dia-a-dia, quando necessário, era nas quitandas que elas iam encontrar o que precisavam. A QUITANDEIRA, outro personagem da antiga Itabuna, tinha a sua quitanda sortida de verduras e tempero verde, funcionando em geral num pequeno vão de uma só porta. À luz de um fifó, muitas permaneciam até o início da noite, esperando a sua freguesia.

            Um personagem de destaque na comunidade itabunense era o COMERCIANTE de loja. Esse tipo de casa comercial tinha em geral grande sortimento e vendia de tudo: tecidos de seda e algodão, guarda-chuva, artigos para presentes, mosquiteiros, meias, sapatos, galochas – estas últimas muito procuradas em virtude das chuvas frequentes na cidade e das ruas enlameadas. Sortidas lojas alimentavam o comércio de Itabuna. Havia ainda o comerciante dono da VENDA. Uma boa venda tinha de tudo: sacos de feijão , arroz, farinha, milho seco, mantas de charque bem curtido expostas abertas, às vistas do freguês, barricas de bacalhau importado e, sobre o balcão, vidros com bombons e fumo em rolo. Vendia ainda fósforos, querosene, biscoito, manteiga, corda, vassouras tamancos, esteiras, breu, azeite doce, bolacha, cera de abelha, anzol, creolina, sal grosso, cachaça, vinagre, vinho e produtos outros.

            Outro elemento conhecido era o TROPEIRO. Vindo das fazendas de cacau, num tempo em que as estradas de rodagem eram reduzidas, o tropeiro entrava na cidade tangendo a sua tropa. Pés descalços, empunhando um chicote, instigava os passos dos animais que conduzia e que, obedientes, caminhavam sob o peso dos sacos de cacau em direção dos armazéns da cidade, onde a enorme carga seria trocada por grandes quantias em dinheiro.

            Foi administrando uma variedade imensa de atividades, das mais simples às mais complexas e exigentes, além da sua grande lavoura de cacau, do seu forte comércio e com o trabalho dos mais humildes aos de maior relevância de seus habitantes, que Itabuna cresceu. Como uma árvore de grande porte, nascida com as raízes fincadas na lama, ela brotou para o espaço azul em busca do Sol, cheia de seiva, plena de vida, ávida de desejo de crescer e frutificar.

(RETALHOS)
Helena Borborema

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domingo, 19 de agosto de 2018

A ESTRADA DE FERRO – Helena Borborema

ITABUNA, TERRA AMADA!
A Estrada de Ferro


             Às 13 horas e 45 minutos em ponto, os moradores do centro da cidade ouviam, impreterivelmente, o apito do trem da Companhia Estrada de Ferro Ilhéus a Conquista. Na realidade essa ferrovia nunca chegou ao Sudeste da Bahia, mas o nome estava lá, na estação: Ilhéus a Conquista, embora terminasse em Itabuna, em meio do caminho. No primeiro apito, como numa compulsão coletiva, os senhores da cidade tiravam os seus relógios das algibeiras para conferir. O apito, além de anunciar a partida, alertava a cidade  de que era chegada a hora de retornar à lida. Os colégios começavam as suas aulas, o comércio abria as suas portas, a cidade como que acordava de vez da modorra do meio-dia. A hora era exata, infalivelmente. A locomotiva Ilhéus e Conquista parecia até querer competir com o Big-Ben em pontualidade. Às duas horas em ponto, era a partida anunciada pelo segundo apito.

            Antes da partida, o movimento era bastante grande na estação ferroviária. Gente que se abraçava, uns chorosos, outros alegres, na despedida. Todos tinham alguma coisa para falar. Sobre o alto passeio acumulavam-se malas, pacotes, caixas enormes, cestos, à espera do embarque. Havia vagões para passageiros e vagões para malas, cargas e mercadorias. Na casa da estação, pela janela de uma das salas, seu Leocádio, o chefe, fiscalizava tudo com atenção, acompanhado por outros funcionários. Postado junto a um dos vagões, seu Ferreira, de uniforme cáqui com botões dourados, de quepe, na sua costumeira cortesia, recebia e picotava os bilhetes de embarque. Aí embarcavam homens de negócio que tinham o que tratar no comércio de Ilhéus, moradores de lugarejos próximos da linha férrea que vinham a Itabuna fazer compras, fazendeiros que tinham suas roças de cacau em meio do caminho, advogados que tinham causas a tratar no Fórum de Ilhéus, pessoas que se destinavam ao embarque de navio no porto de Ilhéus com destino, a Salvador, como políticos e pessoas outras que se dirigiam à Capital a passeio. Todos se cumprimentavam, todos se conheciam. Não havia medo nem desconfiança, todos se respeitavam.

            No alvoroço da partida, no meio do burburinho de vozes, sobrepunha-se de repente um ranger de ferro e o ruído forte de uma máquina em movimento. Ouvia-se o apito estridente, e a grande máquina começava a se preparar para a partida. Vagarosamente a princípio, rangendo sobre os trilhos, expandindo grande quentura, fumegando, ela deixava a estação cantando  monótona o seu velho estribilho: Café com pão, bolacha não! Café com pão, bolacha não! Café com pão, bolacha não! E lá ia ela chispando fagulhas, lançando fumaça no ar, barulhenta, a despertar  alegria por onde passava. Pouco a pouco a estação ia ficando vazia, silenciosa, onde eram ouvidas apenas as vozes dos funcionários e de alguns carregadores que por ali sempre ficavam postados, como Prego, negro alto, forte, educado e humilde; Padre, negro forte, caladão; Abacaxi, de cor parda, forte, roliço, meio baixote e prestativo; Baratinha, branco, corado, baixo, com uma ferida fétida na perna, tomador de pinga. Esses eram os carregadores mais conhecidos e, por isso mesmo, os mais solicitados. Todos,  homens humildes, porém honestos e respeitadores.

            Deixando a estação, que ficava no local onde hoje se ergue o prédio da antiga Prefeitura e atual Faculdade de Tecnologia e Ciências – FTC, em frente ao canal, transpondo um pontilhão mais adiante, a grande máquina passava pela Rua da Linha, hoje Avenida Ilhéus, no Pontalzinho, onde era saudada pela criançada que, de suas casas, sobre altos barrancos laterais da estrada de ferro, descia correndo para dar adeus aos passageiros que, de suas janelas, respondiam alegremente. Passava pelo arruado da Caixa d’Água para mais adiante entrar na zona rural, quando apareciam,  aqui q acolá, casas grandes e confortáveis das fazendas de cacau.

            Uma parada no povoado de Mutuns, e o trem continuava sua marcha, apitando para responder às saudações dos moradores das fazendas, sempre cantando o refrão: Café com pão, bolacha não! Café com pão, bolacha não! Café com pão, bolacha não!... E lá se ia ele em direção aos povoados de Rio do Braço e Água Branca. Nesses lugarejos, uma parada suficiente para descer e receber passageiros. Um ramal da estrada de ferro se estendia para Água Preta, hoje Uruçuca, onde havia uma estação de passageiros, indo até Itapira, atual Ubaitaba. A estação de Água Branca era o ponto alvo da viagem para a criançada que ia nos vagões para Ilhéus. Na parada, os gritos dos moleques vendedores de guloseimas soavam como uma tentação:

            - Olha o amendoim torrado!

            - Olha o pé-de-moleque e o beiju de Água Branca!

            - Castanhas! Quem quer castanhas?

            Água de coco! Amendoim cozido!

            - Bolinhos de arroz e de milho! Quem quer?

            - Cajus doces!

            O trem parava e grande excitação tomava conta da meninada. Era uma algazarra de compra e venda. Depois da parada, a locomotiva retomava a sua marcha, só que reabastecida. Tendo pela frente uma grande reta, ela parecia agora mais rápida. Resfolegante, sacudia-se sobre os trilhos, alegre, chiando,  e com um novo estribilho repetia: Vou com Deus, vou com o diabo! Vou com Deus, vou com o diabo!...

            Com o diabo, não; com Deus, sim, porque nunca descarrilou, nunca matou ninguém, nunca despencou numa ribanceira, e assim, despertando alegria por onde passava, saudada pelas casas lá longe, anunciando a sua passagem com o apito, corria se sacodindo sobre os trilhos, atravessando áreas de baixa vegetação. De repente, a paisagem para os seus ocupantes ia mudando, terrenos cobertos de areia alva e fina apareciam, cajueiros aqui e acolá; adiante, zonas de mangues podiam ser vistas, enfim, uma brisa gostosa vinda do mar anunciava a proximidade  da cidade de Ilhéus. Os passageiros saindo da modorra conversavam mais animados, as crianças se alvoroçavam com aquela mudança de ares, e assim, na alegre expectativa, ia a locomotiva se aproximando cada vez mais do seu destino: a estação de Ilhéus. Novo apito, mais fagulhas entrando pelas janelas como minúsculas estrelas cadentes, e seu Ferreira, que acompanhava a viagem, sempre solícito, passando de um vagão para outro fechando janelas, cuidava para que as faíscas não caíssem na roupa e na pele dos passageiros. Começavam os preparativos para o desembarque. A locomotiva da Estrada de Ferro Ilhéus a Conquista nunca chegou a ir tão longe, mas cumpria galhardamente a sua função de unir dois grandes municípios, integrando sua economia e sua gente.

            O progresso é quase sempre um demolidor e,  quando mal compreendido, muitas coisas boas, tanto valores materiais como morais, são abatidas, imoladas em seu nome. E em nome do progresso a velha Estrada de Ferro Ilhéus a Conquista foi desativada, depois completamente destruída. Seus trilhos e dormentes foram arrancados, seus vagões sucateados, destruídos pela ação do tempo, sem a piedade dos homens que da sua existência nada guardaram, nem como lembrança que se preserva de um ente querido morto. A sua lentidão tinha de ceder lugar à velocidade dos caminhões, ônibus e automóveis. A sua segurança, em nome da evolução, tinha de ser substituída pelos riscos da alta velocidade. A alegria que tanto deu aos seus usuários hoje faz parte de um passado que ainda é lembrado como grata recordação por aqueles que tiveram a dita de usufruir das gostosas viagens sobre os seus trilhos, embalados pelo acalento da voz de suas máquinas no Café com pão, bolacha não! Café com pão, bolacha não! Café com pão, bolacha não! Café com pão...

(RETALHOS)
Helena Borborema
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Helena Borborema - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)
“Filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra’” (Cyro de Mattos)

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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O CARREGADOR PREGO – Helena Borborema

O carregador Prego



            Eu vislumbrava a sua figura meio apagada pela distância no tempo. Era muito pequena quando via aquele negrão alto, escuro como uma estátua hercúlea de ébano, sorridente, serviçal, fazendo carrego na estação da estrada de ferro. Daquele passado vinha a lembrança das vezes que ia embarcar ou receber meu pai na estação ferroviária nas suas viagens para Ilhéus ou Salvador.

             No passeio da estação, um pequeno grupo de carregadores estava sempre a postos esperando trabalho, e aquele negrão alto, de modo educado, era sempre requisitado por meu pai. Prego era o seu nome. Não sei o porquê do apelido, como nunca soube o seu nome de batismo. Prego agarrava malas e embrulhos numa disposição de atleta sem nunca perder a gentileza que lhe era inata.

            Os anos passaram para mim e para aquele carregador. Eu, de criança ficando adulta, e Prego, de adulto que era, envelhecendo. A estrada de ferro acabou, os carregadores foram desaparecendo pelo serviço que foi minguando e assim, com o passar dos anos, a vida foi distanciando pessoas, apagando lembranças, modificando estilos de vida. Prego desapareceu de minha visão e foi esquecido.

            Desaparecido o trem de ferro, outro meio de transporte surgiu: o táxi. Desembarcado o passageiro, malas e volumes são rapidamente engolidos pela boca escancarada do carro, que rapidamente os conduz ao destino. Assim, aos poucos, aqueles homens e trabalhadores da estação foram ficando sem o seu ganha-pão. Mais tarde, perdendo o vigor de seus braços e sem ampara de leis justas, foram eles,  pouco a pouco sumindo na voracidade do quotidiano, sem proteção. E assim, sumiu do meu raio de visão a figura do negro Prego.

            Muitos anos mais tarde o encontro no nosso cenário, casualmente, trazido pelo braço amigo de meu irmão. Este era ainda criança, quando Prego, já homem feito, trabalhava na estação do trem. Foi encontrado abandonado, faminto, velho e doente, sentado num banco da Praça Santo Antônio. Olhava a rua com o olhar apagado pela névoa dos anos e da catarata. Não pedia esmola. A sua dignidade de homem trabalhador nunca descera a tanto, mesmo naquelas circunstâncias. Faminto, simplesmente olhava triste,  os que passavam pelas ruas de Itabuna, a cidade que ele ajudara com a força de seus músculos e que não conhecia mais. Triste, simplesmente olhava. Não sei como meu irmão, que não o conhecera antes, pois era muito pequeno, mas sabia do seu passado de carregador bom e prestativo, o encontrou. Trouxe-o para casa, onde Prego passou a ter almoço e jantar garantidos, e o presente de um cobertor de lã. Infelizmente a ajuda durou pouco. Quando se pensava em dar-lhe melhor garantia e amparo, o seu protetor teve de fazer uma viagem urgente, da qual não voltaria mais.

            Atordoada pelo acontecido, não soube o que foi feito de Prego. Afastada alguns dias de casa, quando me lembrei dele não o encontrei mais. Talvez naquele espaço de tempo tenha feito a mesma viagem do meu irmão, encontrando-se os dois lá em cima, na casa do mesmo Pai. Lá do alto, quem sabe Prego ainda olhe com o seu ar sorridente e humilde, porém feliz, as agruras, as misérias e indiferença que largou aqui na terra.

            Gostaria de ter tido o tempo de lhe externar um pouco do calor humano que você, Prego, merecia dos filhos de Itabuna que o conheceram, mas o destino mais uma vez negou-lhe essa dádiva, a gratidão daqueles a quem tão bondosamente você serviu na sua humildade.

            Você, Prego, negro velho e bondoso, de alma simples de criança, que refletia no olhar manso,  a beleza do seu espírito, é pena que o nosso encontro tenha sido tão rápido e tardio. Mas aqui vai, para você, a minha homenagem.

(RETALHOS)
Helena Borborema
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HELENA BORBOREMA -  Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)

Conhecida professora itabunense, filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra’.  (Cyro de Mattos)

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terça-feira, 15 de agosto de 2017

AVENTURAS DE UMA MENINA BOBA – Helena Borborema

Aventuras de uma menina boba


            A Rua Paulino Vieira mudou muito no seu aspecto com o passar dos anos. Continuando estreita e movimentada, teve, no entanto,  as fachadas de suas casas totalmente remodeladas, calçamento de pedra substituído por asfalto, fundos de casas transformados em lojas e, ultimamente, os passeios uniformizados. Ela já foi preferencialmente uma rua de residências, mas sem nunca deixar de ter movimento comercial. Antigamente, porém, o seu comércio era de feirantes, verdureiros e vendedores outros, que por ela passavam com suas mercadorias, oferecendo-as nas casas de família ou em direção à feira, nos dias de sábado. Por ela passavam também mercadores de carnes nos tabuleiros, carvoeiros, aguadeiros, leiteiros, padeiros, mascates e outros vendedores.

            Senhores importantes a palmilhavam diariamente, pois tinham ali suas residências.

            Por ocasião da safra do cacau, uma parte do seu trecho era tomada por uma grande tropa carregada de sacos do precioso produto, que era despejado num grande armazém do rico cacauicultor Oscar Marinho, também ali residente. A chegada da tropa na rua era uma festa para os meninos. Todos corriam para vê-la. A tropa era enorme. Os animais entravam na rua com a madrinha à frente, uma besta toda enfeitada de fitas de várias cores e um peitoral de metal reluzente tilintando pequenos sinos, indicando o caminho aos outros animais. Os tropeiros, ágeis e suarentos, iam logo descarregando os animais e transportando na cabeça os sacos para dentro do armazém, entulhando-o com a preciosa carga. Não havia empecilho para o trânsito de carros, pois esses ainda eram poucos na cidade.

            As casas da Paulino Vieira foram mudando com o tempo, as suas fachadas transformadas em vitrinas de lojas e butiques elegantes. Os feirantes e mercadores mudaram de caminho, pois as famílias foram saindo com a invasão das lojas. Nessa mudança para um comércio modernizado, algumas casas velhas foram demolidas para ceder lugar a novos prédios. No meio dessas demolições, lá se foi um sobradinho estreito, de um andar, que possuía no térreo um modesto restaurante, sempre aberto aos passantes. Em seu lugar foi erguido, anos depois, um prédio revestido de mármore, para funcionamento do Banco da Bahia, uma esquina entre a Paulino Vieira e a Avenida do Cinquentenário.

            Nesta rua eu, ainda bem menina, no primeiro ano primário, vinha do colégio trazendo na mão uma pasta com os livros e cadernos, após as aulas da manhã. O passeio do pequeno sobrado era o meu caminho diário. Vinha atenta às ordens de não parar no caminho, quando deparei um pequeno grupo de pessoas, talvez empregados ou comensais da pensão, fazendo um certo alvoroço com muitas risadas em torno de um amontoado de pequeninos bichos que se mexiam sem sair do lugar sobre o passeio. Aquilo despertou minha curiosidade que me deteve para perguntar que bichos eram aqueles que eu nunca tinha visto.

            - São  filhos de leão! -, respondeu alguém entre risadas.

            - Filhotes de leão? -, perguntei maravilhada.

            - Sim. Quer levar os três?

            - O senhor me dá?

            Já tinha visto leões no circo e nos livros, todos grandes, os pequeninos assim, miudinhos, nunca.

          Que coisa linda criar três leõezinhos, logo imaginei, brincar com eles e, quando estivessem mais crescidos, mansinhos, andar com eles em casa como se fossem três cachorrinhos! Era bom demais.

            A turma toda olhou para mim e, divertido, um dos homens disse: leve os três.

            Sem ter ideia do que fazia, pois só pensava no brinquedo que iam ser, prontamente, sem nojo, os peguei e os coloquei dentro da pasta, no meio dos cadernos, na maior alegria. Parti para casa feliz, mas logo caí em mim. E meus pais iam deixar que eu ficasse com aquele presente? Como iriam eles receber a novidade? O mais prudente  era mostrar depois do almoço, quando tudo estava mais calmo. Enquanto isso, era preciso guardar os três bichinhos até o momento que achasse bom. Mas onde guardar? Estava difícil encontrar um lugar onde ninguém descobrisse. Mas onde? Almocei quieta, dando tratos à bola. De repente, a ideia chegou. Já sei! Na gaveta do criado-mudo de minha mãe, peça colocada a um canto do quarto onde ela pouco mexia. Terminado o almoço, corri para a pasta escolar, peguei os bichinhos e os coloquei dentro da gaveta. E agora? Fiquei pensando, como alimentá-los? O que iriam eles comer? Valia a pena todo cuidado porque ficariam lindos quando crescessem mansinhos e eu pudesse brincar com eles.

            Fiquei sem entender o porquê do inesperado. Como pôde acontecer aquela coisa horrível que eu jamais pensara? Estava tudo calmo, eu esperando que meu pai saísse às duas horas, como fazia sempre, e minha mãe se ocupasse com alguma coisa, para eu poder, tranquilamente, olhar os meus três leõezinhos.

            Aguardava pacientemente a grande oportunidade, quando ouvi um grito partindo do quarto de minha mãe, a sua voz alterada, a chegada de uma empregada e uma enorme confusão. Três ratinhos recém-nascidos tinham sido encontrados. Como apareceram ali dentro daquela gaveta? Procurei me esconder, mas fui chamada às falas. Acho que a minha cara me denunciou ou alguma atitude suspeita me traiu. O certo é que o meu pai, que ainda não tinha saído, foi convocado, as empregadas se juntaram e eu, na maior vergonha de uma confissão pública, diante do interrogatório a que me submeteram, desembuchei toda a história. Como podia uma menina crescida, na escola, trocar filhos de ratos por leões, pegar naquela porcaria, receber coisas das mãos de estranhos, parar na rua desobedecendo ordens e trazer presente escondido para casa? Foi um rosário de culpas que minha mãe desfiou para mim, além de me mostrar o seu chinelo que iria funcionar na primeira ocasião que eu aprontasse outra armação.

            Além do conhecido chinelo, minha mãe tinha com frequência à mão, uma sola larga que ela mandava buscar na sapataria de seu Zé Gomes, que ficava perto de casa. Não adiantava eu dar sumiço na malfadada sola, porque seu Zé Gomes renovava sempre os pedidos feitos. Ele já sabia qual a finalidade, e parecia a mim que ele tinha prazer em atender os pedidos de minha mãe, pois nunca recusava. Por isso eu o odiava. A sola não funcionava realmente, mas intimidava com a presença.

            Passaram-se os anos. Eu, adulta, formada. Um dia fui convidada por seu Zé Gomes para ser madrinha de batismo de sua filha caçula. Aceitei o convite com muito prazer, com estima. Tornamo-nos compadres e eu já então agradecida, porque talvez as solas que ele forneceu tenham ajudado um bocado na eficiente pedagogia de minha mãe.

            Essa história dos ratos, além da decepção que me causou pelo logro em que caí, me ficou na lembrança e me faz recordá-la, sempre que passo pelo fundo do antigo Banco da Bahia, no passeio da Paulino Vieira. Parece que vejo gravado na parede de mármore branco: Por aqui passou um dia uma menina boba.


(RETALHOS)
Helena Borborema
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HELENA BORBOREMA -  Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)

Conhecida professora itabunense, filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra’.  

(Cyro de Mattos)

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sábado, 8 de julho de 2017

REMINISCÊNCIA DA ROÇA – Helena Borborema

Reminiscência da Roça


          Como era gostoso, tranquilizador, um dia passado numa fazenda de cacau, daquelas de antigamente, que não tinham conhecido ainda os horrores da praga que as atingiria mais tarde, quando ainda se estendiam verdejantes, pujantes de vida vegetal. A quietude reinante acalmava o espírito, a paisagem bucólica despertava um quê de doce nostalgia, mesmo no espírito simplório de uma criança. Na propriedade grande de um fazendeiro,  a  visão era a da casa ampla, de construção simples, porém sólida, cheia de janelas, telhado à vista, tendo de frente uma comprida varanda onde a brisa da tarde bafejava a família reunida no ajuntamento feliz de um entardecer.
        
          Mais à frente as barcaças, repletas de sementes de cacau secando ao sol, revelavam riqueza. Aves de criação ciscando aqui e acolá em volta da casa, as árvores do pomar ao lado balançadas  pela brisa, quase sempre o murmúrio  de um rio ou riacho mais além completavam a beleza da paisagem.
  
          Homens de pele morena, tostada pelo sol, outros de pele negra lustrosa, mostrando nos braços nus a força musculosa da raça, entregues à sua faina diária, circulavam dando mais vida ao conjunto. Eram os trabalhadores, barcaceiros, às vezes vaqueiros, empregados, enfim, que no dia-a-dia afanoso ajudavam o proprietário a manter em funcionamento o seu grande império de cacaueiros. Aqueles cacaueiros robustos e carregados de frutos representavam a força do trabalho, a fertilidade da terra, a bonança do clima, e eram a garantia da riqueza de uma vasta região.
         
          Tanto ao nascer do dia, anunciado pelo canto dos galos e chilrear dos passarinhos no seu despertar, como à tardinha, quando uma paz tristonha descia sobre tudo, homens e natureza, a fazenda na sua quietude se transformava  em imensa tela pintada pelas mãos de um artista invisível. A beleza pictórica da fazenda, o cheiro do cacau secando nas barcaças ou vindo de longe, dos cochos de fermentação, trazido pelo vento, impregnando o ar, não podiam deixar de se  transformar em lembranças indeléveis para quem os viu e sentiu.

          Assim, são relembrados dias passados entre os cacaueiros, quer fossem de fazenda grande, quer fossem de uma simples burara. A quietude era sempre a mesma. Na pequena fazenda ou roça, o silêncio, a nostalgia do cair da tarde, eram os mesmos. O romper da madrugada era também anunciado pelo canto das aves, o mugir de uma vaca no pasto ou o ranger de uma cancela. A mesma sensação de felicidade nunca deixava de invadir a alma, num despertar aquecido pelos raios do sol que se infiltravam mansamente pelas frestas das telhas vãs, trazendo um acordar gostoso, alegre, como sacudido docemente por um afago materno.
  
          Na roça de cacau, pisar aquele chão ensombreado pelas copas dos cacaueiros, coberto de folhas que farfalhavam sob os pés, ouvir o zumbido das abelhas na laranjeira em flor, o pio triste de um pássaro num galho de árvore, nos davam a sensação de sons emitidos pelo mato, só escutados naquele silêncio. Sons que se gravariam na lembrança e que nunca se apagariam. São eles, hoje, ruídos do passado e da saudade que nunca vão embora, vivem sempre ao nosso lado. Nós é que, à medida que caminhamos, os vamos deixando para trás, mas um dia eles sempre voltam e nos alcançam.

(RETALHOS)
Helena  Borborema
          
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Helena Borborema - Conhecida professora itabunense, filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra’. (Cyro de Mattos)

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