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segunda-feira, 7 de março de 2022


 

  Duas mulheres guerreiras de Jorge Amado

                                 Cyro de Mattos

 

          Reconhecido como o embaixador símbolo do povo brasileiro no exterior, Jorge Amado, o baiano que dizia ser a sua paixão escrever, viver sem ela não fazia sentido diante das incompletudes da vida, no romance Tieta do Agreste cria uma das personagens femininas mais sensuais e rica de caráter para ficar em definitivo com a sua grandeza na prateleira da sua galeria de mulheres inesquecíveis, elaboradas com imagens certeiras, bem forjadas nos traços do caráter e curvas de cada beleza, como ressoam na retina os casos de Gabriela, Dona Flor e Teresa Batista, para citar algumas.

          Liberação sexual, luta pelo poder, necessidade de preservar o meio ambiente, conflito entre o atraso e o progresso são alguns dos ingredientes formadores do cenário provinciano de Santana do Agreste, palco onde vai se desenrolar o enredo protagonizado por Tieta, a pastora de cabras, representante da garra e ardência da vida, expulsa pelo pai por ser muito namoradeira. E, pelo outro lado Perpétua, a irmã rival, ciumenta, invejosa, com um caráter mesquinho, que encarna tudo que é maledicência para nutrir a alma com negações nos dias cor de sombras. 

          A volta de Tieta de São Paulo cria um rebuliço no ambiente da vidinha provinciana, da cidade estagnada no tempo, alimentada dos valores mesquinhos, da fuxicaria na falta de perspectivas, acostumada à vigilância dos que vivem de vigiar a vida alheia, sem razão para alcançar os horizontes dos melhores dias.  A menina que saíra pobre da sua terra natal voltava agora amadurecida, cheia de ímpeto para lutar contra os velhos costumes, pela valorização do meio ambiente, trazendo esperança à localidade com a instalação da energia elétrica, disseminando novos meios de vida no lugar dos preconceitos e das desigualdades sociais.

          Aos poucos, o romancista, que aderiu ao humor no lugar do juízo de valor no estilo, vai colocando nas páginas dúvidas sobre a vida de Tieta em São Paulo. Não se fizera a moça sedutora que inquietava os homens, nem casara com um comendador rico. Não passara de dona de um bordel de prostitutas, exploradora de mulheres da vida, que frequentavam a sua casa, fazendo na prostituição com que suas condições produzissem a riqueza necessária para o bem-estar da vida.  Para muitos em Santana do Agreste o que importava era sua maneira nova de ver a vida, a garra que transmitia para que a esperança motivasse livres movimentos, ideias e sentimentos misturados com fervorosa ternura, na qual sobressaía a garra da vida vivida ardentemente, com seus lances repletos de inquietações em caminhos contraditórios, desafiadores na natureza.

          De maneira até certo ponto idêntica com Tieta do Agreste, a leitura de Teresa Batista cansada de guerra (1977), de Jorge Amado, forte romance, pleno de verdades, nos força a pensar sobre aquela mulher não resignada, que rola no mundo. Aquela a quem um dia elogiei com este poema:

 

Para onde vá sem voz
Deixa que seja levada.
Maneira de ser conduzida
Expressa o espaço inútil.

Rolam anos de vergonha,
O que podemos achar nela?
Amanhecer é preciso
Apesar das opressões.

 Chega! Um grito é capaz
De parir as próprias emoções.
Sabe que viver são ondas
Passando pelo mito da mulher.

Significa enfim o arrojo
 Ao alcance da verdade.
Tal qual o parceiro na lida
De frente para o mundo.

 

          A personagem Teresa Batista simboliza a vida de muitas mulheres marcadas pela violência física e psicológica do machismo, preconceito e injustiça social. Sua história caracteriza-se pelas circunstâncias de uma garra mística, que exibe sem romantismos o contexto formado de negações, entranhado na desumanidade, no machismo que ofende e não se dá por satisfeito porque está nas entranhas do irracionalismo.

          A narrativa de alentado volume une as pontas de passado e presente, com feição de cordel em muitas passagens, dando uma visão certeira das relações sociais da Bahia em meados do século XX. No centro das atenções, à mulher reserva-se o polo passivo da submissão, que lhe é imposto sem concessão, para ser vista como alguém relegado à passividade, dominada pelas normas de desumanidade e preconceito.

          De regresso a Sergipe, depois de solta com a intervenção do advogado Lulu Santos, a estrela da noite fará sua estreia no cabaré famoso. A cena do homem que, na pista de dança, bate na sua mulher, deixa essa heroína das gentes indefesas com sangue nos olhos. Fere os brios de quem não gosta de ver homem batendo em mulher. Vai para cima dele, a briga rende-lhe ferimentos e a quebra dos dentes, é presa. Tem início aí o inconformismo da personagem, que terá uma imagem construída com valentia e misticismo, a se opor sempre contra as injustiças cometidas pelo sistema de poder contra a mulher.

          O espírito de revolta dessa mulher incrível está ligado ao passado sofrido, reiterado pela pobreza, abandono e exploração sexual. Para atenuar as negações do mundo, acompanham-na três orixás, de quem herda forças e virtudes que lhe infundem o caráter. De Iansã, dona dos raios e tempestades, ela herda a coragem e a valentia, de Omolu, orixá que cura as moléstias, a perseverança de quem tudo dá e nada quer em troca, pois como reza o canto, “o mundo de   Deus é grande, trago na mão fechada, o pouco com Deus é muito, o muito sem Deus é nada.” De Oxalá, dono de Olorum, o pai de todos os orixás, tem o socorro da mão protetora, que a salva das ocasiões perigosas.

          Menina, órfã, aos doze anos, por uma ninharia é vendida pelos tios ao capitão Justiniano Duarte da Rosa, conhecido na região pelas falcatruas, corrupções e estupros. Sua tara tende para preferir as vítimas que mal tinham tido a primeira relação sexual. Teresa Batista torna-se propriedade sexual exclusiva do capitão, violentada todos os dias, durante anos.  Numa proeza em que entram a audácia e o espírito místico, ela consegue escapar da prisão na casa do capitão Justiniano.

          Por sua valentia atuante nas causas justas, vai para a prisão, torna-se amante de um coronel, que certa vez a libertou. Depois que ele morre, volta à prostituição para poder se sustentar, até que encontra o jovem médico, junta-se a ele, que a leva para uma cidadezinha no Sergipe. Lá é que outra vez se mostra como verdadeira guerreira, dessas que causa pasmo e é aplaudida de pé pelos que são vítimas de circunstâncias críticas operadas pela dura lei da vida.

           Inspirada por Omolu, combate sem trégua uma epidemia de varíola, sem temer permanece no meio das prostitutas da pequena cidade de Buquim. Em Salvador, mais uma vez volta à prostituição, mobiliza e lidera uma greve das prostitutas contra a violência policial e a destruição dos prostíbulos mais pobres. Essas e outras façanhas constroem a biografia audaciosa de Teresa Batista, mulher guerreira, de feitos intrépidos e incomuns na travessia da vida, de caráter forjado com a fome, peste e guerra. Na constante estupidez cometida pela sociedade contra a mulher, valente e impetuosa.  Daí se tornar no estrangeiro a bandeira de movimento feminista.

 

Referências

AMADO, Jorge. Tieta do agreste, romance, Editora Record, Rio, 

1977.

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Teresa Batista Cansada de Guerra, romance, Livraria Martins Editora, São Paulo, 1972.

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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segunda-feira, 9 de agosto de 2021

O GRAPIÚNA JORGE AMADO – Cyro de Mattos


           O Grapiúna Jorge Amado

Cyro de Mattos

 

             Em O Menino grapiúna (1981), pequeno livro de memórias, Jorge Amado destaca:

             Desbravador de terras, meu pai erguera sua casa mais além de Ferradas, povoado do jovem município de Itabuna, plantara cacau, a riqueza do mundo. Na época das grandes lutas.

             Mais adiante afirma:

           “Eu nasci em agosto de 1912 naquela mesma roça de cacau, de nome Auricídia”.

                        Nascera em 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, em Ferradas, um povoado do jovem município de Itabuna, que aparece com o seu comércio ativo no romance Terras de sem fim como um dos domínios do coronel Horácio. Neste romance, no capítulo Gestação de Cidades, quando se refere a Tabocas, Jorge Amado conta que o povoado pertencia ao município de São Jorge dos Ilhéus.

            Mas já muita gente quando escrevia cartas, não as datava mais de Tabocas e, sim, de Itabuna. E quando perguntavam a um morador dali, que estivesse de passeio em Ilhéus, de onde ele era, o homem respondia cheio de orgulho:

            - Sou de Itabuna

            Antigos fazendeiros, sobreviventes da fase heroica da conquista da terra, como Maneca Dantas e o coronel Horácio, personagens de Terras do sem fim, voltam no romance São Jorge dos Ilhéus a receber a empatia do ficcionista humaníssimo que é Jorge Amado. A figuração do Coronel Horácio já velho, quase cego, solitário, no meio dos cacaueiros, que plantara com muito sacrifício, alcança rica significação no romance.

            A recriação literária da civilização do cacau na Bahia tem sequência em Jorge Amado com o pequeno romance A descoberta da América pelos turcos ou de como o árabe Jamil Bichara, desbravador de florestas, de visita à cidade de Itabuna para dar abasto ao corpo, ali lhe ofereceram fortuna e casamento ou ainda os esponsais de Adma. Neste romance publicado em 1994, Jorge Amado volta a apresentar as marcas inconfundíveis de sua arte: fluência na escrita, facilidade de fabular e gozo pela vida. Recorre ao riso para contar a saga de sírios e libaneses no Sul da Bahia quando tinha início o plantio das roças de cacau e a construção de casas em vilarejos e pequenas cidades.

             Situações engraçadas predominam em A descoberta da América pelos turcos, romancinho armado com desventura e premonição de felicidade em seus episódios extraídos da vida real. Passagens com humor árabe acontecem na pequena cidade de Itabuna, agora aparecendo pela primeira vez com destaque na saga da civilização cacaueira baiana, definido como um dos filões ricos da novelística amadiana. Com o seu comercinho novo, o burburinho na estação do trem, igreja e capela. Hotel dos Lordes, cabarés, botequins, pensões de prostituta, fuxicaria na política, desmando dos jagunços armados, tropas carregadas de cacau nas ruas. A recente cidade de Itabuna como um burgo de penetração exibe-se sem retoques e ilusionismo, marca sua presença num cenário divertido da vidinha movimentada e turbulenta.

            Traduzido em mais de 40 idiomas, Jorge Amado é o escritor brasileiro que mais dá voz aos excluídos, os marginalizados pelo sistema organizado.  Sua prosa é prazerosa, sua mensagem de liberdade está expressa com a esperança na escrita irreverente, que faz pensar e, a um só tempo, rir. Esse grapiúna Jorge Amado, que nasceu numa fazenda de cacau, no Sul da Bahia, para se tornar um dos mais criativos contadores de histórias no mundo.

            Faleceu aos 6 de agosto de 2001, em Salvador.

 

 


Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Autor muitas vezes premiado, publicado também no estrangeiro. É membro das Academias de Letras da Bahia, Ilhéus e Itabuna. Na Academia de Letras de Itabuna ocupa a cadeira 6, que tem como patrono Jorge Amado.

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terça-feira, 28 de julho de 2020

CANTIGA GRAPIÚNA, por Jorge Amado


Cantiga Grapiúna

Jorge Amado*

 

Os poemas reunidos em Cantiga Grapiúna**, de Cyro de Mattos, referem-se ao campo e às cidades da região do cacau, no sul da Bahia. Canto de filho amantíssimo, cuja voz se ergue no alto louvor dos pioneiros, “homens domando os ventos”, da mata, “corpo de medo”, das fazendas, “entre o nascer dos verdes e cair dos maduros”, no louvor de todos os elementos desse chão tão rico e de história tão dramática.

Com profunda emoção, Cyro de Mattos canta a cidade de Ilhéus no seu centenário, no magnífico “Poemazul para Ilhéus”, “repetida de azul a cidade anoitece...” Não menos belo é o  poema “Itabunamada”, dedicado à cidade de Itabuna, “minha cidade de metal”, como fala o poeta.

 Cantiga Grapiúna, pequeno grande livro de poemas, do conhecido ficcionista Cyro de Mattos, detentor de vários prêmios brasileiros importantes, é canto construído de ternura e solidariedade. Canto de amor de um escritor que carrega dentro de si, para transformar em literatura, a epopeia e o mistério da terra grapiúna.

 

*Jorge Amado, romancista, in “Dois Livros de Cyro de Mattos”, Revista FESPI, janeiro-dezembro 1983, Ilhéus, Bahia.

**Cantiga Grapiúna, Cyro de Mattos, Edições GRD, capa de Renard, Rio de Janeiro, 1981.


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terça-feira, 21 de julho de 2020

APRESENTAÇÃO DO LIVRO “OS BRABOS” DE CYRO DE MATTOS POR JORGE AMADO NA ABL

              Apresentação do livro “Os Brabos”
de Cyro de Mattos por Jorge Amado
na Academia Brasileira de Letras

“As quatro narrativas de Cyro de Mattos, reunidas em Os brabos, volume de recente edição da Civilização Brasileira, mereceram, ainda inéditas, o Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos, distribuído pela Academia Brasileira de Letras. Relator da ilustre comissão de romancistas que o concedeu (Bernardo Elis, José Cândido de Carvalho, Herberto Sales, Adonias Filho e Afonso Arinos de Meio Franco), nosso mestre Alceu de Amoroso Lima, a mais alta expressão de crítica literária brasileira, consagrou o livro e o autor.

No livro, Alceu de Amoroso Lima encontrou "narrativas   dramáticas e brasileiríssimas, por seu tema e por sua linguagem", e disse do autor ser ele "escritor visceralmente nosso... Admirável ficcionista." Transcrevo esses trechos do relatório do Mestre Alceu porque sintetizam, com aquele singular poder de análise e definição, a literatura de Cyro de Mattos. Realmente um escritor brasileiríssimo pela temática e pela linguagem. O tema é "o povo brasileiro mais humilde e típico" e a linguagem, depurada, exata, amplia a dramaticidade da ação, impedindo qualquer vulgaridade de sentimento, evitando qualquer recurso aos modismos tão em voga atualmente.

Cyro de Mattos não se confunde à maioria de escrevinhadores que, na falta de real experiência humana e de real experimentação literária, se perdem na imitação uns dos outros, em cacoetes e fogos de artifícios enganadores. Cyro de Mattos possui uma personalidade vigorosa e original: a condição humana dos personagens que surgem de seu conhecimento e emoção nada têm de artificialismo da pequena burguesia a exibir angústia de psicanalista. O autor de Os brabos pisa chão verdadeiro, toca a carne e o sangue dos homens, "entre sombras e abismos".

Largo caminho andou Cyro de Mattos do livro de estreia - estreia, aliás, marcante com  Berro de fogo, em 1966, até as narrativas reunidas neste volume de 1979. O escritor cresceu, depurou-se, a poesia que é parte inerente de sua criação fundiu-se na limpidez da expressão, formando um todo harmonioso, iluminando os personagens de dentro para fora, expressando a vida solidária.

Com seu novo livro, Cyro de Mattos marca mais uma vez a presença na literatura brasileira dos escritores grapiúnas, do poderoso clã de poetas e ficcionistas nascidos da civilização do cacau no sul da Bahia.”

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O Texto de Jorge Amado sobre Os brabos, novelas, de Cyro de Mattos, está registrado na ata da Academia Brasileira de Letras, em 6 de março de 1980.

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sábado, 10 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – o robe de ouro


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(Rio de Janeiro, 1977 – o robe de ouro)


            Chega-se ao fim de uma batalha que durou oitenta anos, tantos quantos os da Academia*: as mulheres de agora em diante poderão se candidatar às vagas, ganhar a eleição, vestir o fardão com o peitoril de ouro. Como será o fardão das damas? Robe verde, pano de bilhar, ourama no parapeito, desenhado por Austregésilo**. Apesar da ameaça do robe, apoio com alvoroço a luta pela entrada das literatas, voto a favor da proposição de Osvaldo Orico***.

            Essa história de exclusão das mulheres dos quadros acadêmicos foi umas das salafrarices cometidas por Machado de Assis quando fundou a chamada Ilustre Companhia, não foi a única, sujeitinho mais salafrário nosso venerado mestre do romance.  Custou-lhe esforço chegar a branco e a expoente das classes dominantes, mas tendo lá chegado não abriu mão de nada a que tinha direito, culminou a carreira bem-sucedida de burocrata com a fundação da Academia: até hoje a preside, entronizado de sobrecasaca no pátio de entrada do Petit Trianon. Crítico entre amável e sarcástico da burguesia brasileira da época, da classe média alta, o mestre romancista; sustentáculo de seus privilégios e preconceitos, o cidadão Joaquim Maria Machado de Assis, marido de dona Carolina, casou-se com portuguesa.

            Estabeleceu ele próprio a relação dos fundadores, inscreveu os vetos. Nem boêmios - Emilio de Menezes ****só pôde ser eleito após a morte de Machado -, nem mulheres. Na época havia uma escritora de renome estabelecido - e merecido, vale a pena ler seus romances, Júlia Lopes de Almeida *****, impossível passá-la para trás, se ela protestasse seria o escândalo, como fazer para não colocá-la entre os quarenta ilustre titulares? Machado, o manipulador, deu a volta por cima, encontrou como impor o machismo. Barganhou com dona Júlia: ela ficava de fora, mas em troca ficaria de dentro, acadêmico de número, o marido dela, Filinto d'Almeida, escrevinhador de pouca valia. A romancista achou, com a razão, que o consorte precisava bem mais que ela dos bordados da Academia, cedeu-lhe a cadeira, a ela bastavam os romances. Com o quê Machado fechou de vez as portas do silogeu às saias femininas. Nem mulheres nem boêmios, mas teve vaga para jovem de vinte anos, quase inédito, Magalhães de Azeredo, dele se conhecia apenas páginas de louvor, aliás justo, aos livros do fundador da instituição. Também vem de Machado a tradição das cadeiras reservadas aos candidatos das diversas categorias do poder, cadeiras cativas do Exército, da Igreja, do Judiciário, das letras médicas: a tradição dos expoentes perdura ainda hoje. Escritores, uns poucos e nem sempre os melhores. Deixa pra lá.

            Certa quinta-feira, dia de sessão, na sala do chá testemunhei ácido debate entre Luiz Viana Filho e Magalhães Júnior a propósito de Rui Barbosa, alvo da crítica do rebarbativo Raymundo. A memória dos grandes homens, exemplo para a juventude, deve estar acima de qualquer restrição, branca de leite, limpa e polida de qualquer defeito, impoluta para a admiração da posteridade, arengava Luiz. Viu-me parado a escutar, olhou-me com o rabo do olho, sorriu-me, mas, político habilíssimo, não pediu minha opinião. O cidadão Machado de Assis, não o romancista, muito tem se beneficiado com a tese da memória pulcra dos grandes mortos.

            Na votação da proposta o que abriu as portas da Academia às mulheres, Hermes Lima surpreendeu-me: voto contra. Vendo  meu espanto, explica-me: isso aqui não passa de um clube de homens, Jorge, no dia em que entrar mulher nem isso mais será: nossa paz se terminará, a fofoca substituirá a convivência.

            Um jornal faz uma enquete às vésperas da decisão, pergunta qual das nossas beletristas (!) deve ser a primeira a envergar o fardão – perdão, o robe. Em minha opinião, digo ao repórter, nenhuma das nossas confrades merece mais a consagração, os pechisbeques (!) da Academia do que a poetisa - naquele tempo dizia-se poetisa, hoje poetisa é xingo  - Gilka Machado, figura singular em nossa literatura. Poetou sobre o desejo da mulher, a tesão pelo homem, o amor sem peias quando as outras reservaram o coito para os confessionários das igrejas: ousou quando a ousadia significava discriminação, repulsa, abjeção. Sugeri que as prováveis candidatas assinassem manifesto propondo aos acadêmicos o nome de Gilka Machado: mais que outra qualquer merece ser a primeira mulher a ingressar no fatal cenáculo. A sugestão caiu no vazio das vaidades, tampouco eu acreditava fosse avante, sou ingênuo, mas não tanto. As impacientes andavam pelos alfaiates, de figurino em punho, estudando o robe: ainda mais solene e triste do que o fardão.

*Academia Brasileira de Letras

**Austregésilo de Athayde, Presidente da ABL
***Osvaldo Orico (1901/1981), escritor
****Emílio de Menezes (1866/1918), poeta
*****Júlia Lopes de Almeida (1862/1934), romancista


Jorge Amado
(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)

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(Rio de Janeiro, 1968 – os mabaças)

            O filme de Fernando Sabino e David Neves, A Casa do Rio Vermelho, um dos doze documentários que a dupla dedicou a escritores brasileiros, tem vinte minutos de duração dos quais os senhores Carybé e Dorival Caymmi desperdiçam uns seis ou sete a dizer mal de mim, o mocinho da película.           

            Fernando e David foram à Bahia para a filmagem, os dois figurantes não estavam, exibiram-se depois, no Rio. Disseram horrores, que eu fazia e acontecia, inventada e produzia, pintava o diabo, amarrava o bode, criticaram-me as bengalas, os bonés e o bigode, as camisas coloridas, as bermudas, as sandálias.

           Assisto o filme, vejo os dois compadres fazendo minha caveira, no entanto sou o terceiro a formar com eles a trinca dos doutores do povo da Bahia, três obás de Xangô, senhores respeitáveis. Meus dois mabaças, Caymmi e Carybé, não merecem confiança, não são pessoas sérias, línguas de trapo, corações de ouro, a voz e a face da Bahia.

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.



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sexta-feira, 9 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – a poeta e a fundação

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(Paris, 1992 – a poeta e a fundação)


            Da Bahia Rosane me envia o livro de poemas de Myriam Fraga, Os Deuses Lares, ilustrações de Calasans Neto. A dupla é imbatível, Calá nasceu para ilustrar a poesia de MYriam, os poemas e as monotipias são da mesma matéria, visceral.

            Leitor cativo de Myriam Fraga, tomo do livro e constado que seu canto atingiu a madureza, a densidade dramática, a sabedoria da palavra precisa e mágica. Que poeta, meu Deus! Que Deus a abençoe, o Deus da Fundação, o compadre Exu. Fuso e roca / roca e roca/ /tinjo e lavo /lavo com água e /mornos sais /o corpo /as feridos /na fímbria /no remoto  - vou parar senão transcrevo o livro todo, verso a verso.

           Nós o lemos juntos, Zélia e eu, não sei de prazer maior que o de ler poesia com a namorada, em conluio. Invadido de remorsos, acuso Zélia: a culpa é tua, foste tu a inventar a Fundação onde Myriam se encerra dia e noite no trabalho, na luta, na estafa, no planejamento, na realização, na busca mesquinha e heroica de dinheiro para poder levar avante a cultura , no afã de criar condições para a literatura e a arte na Bahia, para o estudo do romance brasileiro, pauta de afazeres pejada de problemas.

            Myriam teria escrito e publicado nesses anos pelo menos três  livros de poemas, sem falar no lazer abandonado, a casa de praia em Mar Grande, os fins de semana na fazenda, já não lhe sobra tempo para nada, vive amarrada às cadeias de mil dificuldades, carrega nas costas essa tal de Fundação, a tua Fundação. Zélia não se abala, diz estar certa que Myriam o faz com prazer, além de poeta é combatente, as dificuldades não a assustam, ao contrário, a seduzem. Quanto a poesia, que eu não me incomode, a poesia brota e resplandece, vive dentro de Myriam e nada a impedirá.

            Quando digo que Zélia é a responsável pela existência da fundação cultural estabelecida no Pelourinho, nascida da doação do de meu acervo literário leva meu nome, digo a verdade. Não fosse Zélia o acervo estaria a essa hora em universidade norte-americana.  

            Começara por me desfazer de minha biblioteca, nunca foi grande, mas eu já não tinha, fosse na Bahia, fosse no Rio, onde botar tantos livros. Passei a doá-los a bibliotecas públicas, muitos volumes foram para Lençóis Paulista onde funciona a Biblioteca Orígenes Lessa. A partir de certo momento, atendendo sugestão feita por Carlos Cunha, venho doando os livros a Biblioteca da Academia de Letras da Bahia. Guardo apenas uns poucos tomos, de minha preferência absoluta, mestres que me marcaram, amigos a quem quero, uns quantos álbuns, poucas centenas de volumes, bastam e sobram. Também o acervo se acumulava, onde guardar tanta papelada?

            Pesava eu propostas recebidas de universidades americanas, da Pensilvânia e de Boston, desejavam receber o acervo em doação, propunham-me zelar por ele, colocá-lo à disposição dos interessados em pesquisá-lo, criando para tanto, verbas e espaços. Eu testemunhara durante minha estada na Penn State University*, como tais universidades trabalham com eficiência e dedicação. Eu estava quase a decidir-me, Zélia se opôs com determinação a minha ideia de oferecer à organização estrangeira documentos, correspondência, livros, fotos, diplomas, a massa dos guardados: esse acervo só sairá do Brasil, da Bahia, se passarem por cima de meu cadáver, tem de ficar aqui, é o seu lugar. No decorrer de quase meio século de coabitação aprendi que não adianta discutir com Zélia, perco sempre, até agora não ganhei uma.

            O escritor José Sarney, na época Presidente da República, em cerimônia no Palácio do Planalto** instituiu a Fundação. Ao agradecer eu disse esperar que a casa não se transformasse num 
museu, fosse realmente centro de cultura para o estudo da literatura baiana e do romance brasileiro, trabalhasse em conjunto com os outros organismos culturais. Acrescentei que sendo na Casa apenas personagem, não me envolveria em sua administração nem no planejamento das tarefas. Por fim, referindo-me à doação por James Amado de escultura de Tati Moreno, coloquei a fundação sob a proteção, os cuidados de Exu, entregue ao seu desvelo.

           Sob a grande placa das três raças que se misturaram, os índios, os negros e os brancos, arte de Carybé, erguido diante da Casa, Exu preside o destino da Fundação, ali foi plantando o fundamento na noite de inauguração. Dos diversos axés e ilês vieram as mães e as filhas-de-santo para o canto e a dança em seu louvor. Antes o Presidente da República, acompanhado pelo Ministro da Cultura, Celso Furtado, pelo Ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, pelo Governador do Estado, João Durval Carneiro, declara a Fundação inaugurada. Dom Timóteo aspergiu a água benta da Igreja Católica, o babalorixá Luiz da Muriçoca soltou a pomba branca do culto do candomblé, Casa do sincretismo e da miscigenação. No palco armado no largo desfilam à noite os músicos e intérpretes que, de uma ou de outra maneira, estão ligados a meu trabalho de escritor, foram comandados por Nilde Spencer, minha amiga, grande dama do teatro da Bahia. Mais de vinte mil pessoas lotavam o Pelourinho na noite da inauguração***. Ao lado de Waldir Pires, governador eleito, e de José Aparecido de Oliveira, governador de Brasília, assisti de uma janela ao começo da festa, não tive condições de ficar até o fim, o coração tem seus limites.

            Aqui nestas lembranças desejo apenas agradecer a todos e a cada um dos que concorreram para a existência e a atuação da Casa, são muitos. José Sarney que a instituiu, Antônio Carlos Magalhães, Celso Furtado, Waldir Pires, João Durval Carneiro, ministros e governadores, Lafayete Pondé Filho, presidente do Banco da Bahia, Renato Martins, da Odebrecht, Mario Gordilho, Germano Tabacov, reitor da UFBA****, que preside seu destino desde a instalação, os que compõem os Conselhos, os que nela trabalham: Rosane Rubim, Zilá Azevedo, Maria de Lurdes, cito apenas as que começaram com a Casa, ao poeta Claudios Portugal que inventou e dirige a revista Exu, órgão da Fundação. Quando me anunciou o projeto temi pelo futuro do organismo, a revista iria devorar-lhe o patrimônio, ser arauto da subliteratura, nunca cometi engano tamanho, a revista é uma beleza e não custa um centavo aos cofres magérrimos que Myriam administra.

            Diretor-executivo, Myriam Fraga moureja buscando solução para os problemas, não se queixa, não se abate por mais difícil pareça e seja a manutenção da Casa, a execução dos projetos. Myriam dirige a Fundação em poesia, em fuso e roca, no embruxedo, na fantasia, dona e comparsa, no esconjuro e na esperança, um ato de amor que ela repete a cada dia, a poeta Myriam Fraga.

            Agradeço também a Zélia: só passando sobre meu cadáver! Não fosse ela, a Casa não teria nascido, a papelada estaria nos States.


*em 1971
**Brasília, 1986
***maio de 1987
****Universidade Federal da Bahia


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)

Jorge Amado

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(Rio, 1947 – semelhança)

            Médicos e doentes se atropelavam para ver passar Maria, a della Costa, esplendor de beleza: atravessa os corredores da maternidade, vem de visita a Zélia que na véspera dera à luz um menino, João Jorge.
            Enfermeiras vão buscar o infante no berçário e o trazem para o banho na presença da mãe feliz. Desnudam-no das fraldas, mergulham-no na água tépida. A atriz examina o corpo do recém-nascido, aponta:
            - Olha a piquinha dele... Igualzinha à do pai.

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.



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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – as gulosas


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(Bahia, 1965 – as gulosas)


            Um ruído suspeito me acorda, apuro o ouvido, parece-me provir da sala de jantar. levanto-me evitando fazer barulho, saio do quarto, avisto luz acesa na cozinha. vou em passo de gato, surpreenderei o ladrão, a surpresa será a melhor arma, não tenho revólver em casa. Aliás nunca possuí nem usei revólver, na Câmara dos Deputados eu era o único parlamentar desarmado, me lembro do assombro de Silvestre Péricles de Góes Monteiro quando abri o paletó e ele constatou a ausência de pau-de-fogo em minha cintura: você é maluco.

            Na cozinha, o que vejo? Dona Angelina, mãe de Zélia, e minha mãe Lalu, envergando uma e outra camisolas de dormir como convém a viúvas idosas, chupam mangas - manga se chupa, não se come, caso se deseje fruir o prazer completo -, rostos lambuzados. O mel escorre dos lábios para o queixo, mancha as pulcras camisolas. Chupam as mangas com avidez e competência, o ruído que me pareceu suspeito procede das bocas das duas senhoras no gozo da fruta colhida no jardim da casa, mangas-carlotas suculentas.

            Regresso ao quarto, pé ante pé, para que as duas não me vejam, morreriam de encabulamento. Aproveitam a calada da noite para o pecado da gula, o sabor das mangas chupadas assim às escondidas torna-se divino. Lalu e Angelina estalam as línguas.

***
            Onde quer que eu chegue, nas comarcas do mundo, províncias e metrópoles, vilarejos, encontro mesa posta e escuto uma palavra amiga.

            Alguém me diz: li teu livro, companheiro, ri chorei, me comovi. Tereza Batista mudou minha vida, Pedro Arcanjo me ensinou o pensamento livre, a pensar por minha cabeça, aprendi com Quincas a não ser o outro e, sim, eu próprio, com o comandante Vasco Moscoso de Aragão troquei o medíocre pelo sonho, aprendi o amor com Gabriela e dona Flor dele me deu a medida exata: mais poderoso do que a morte. És escritor porque eu existo, teu leitor: chorei e ri, me emocionei ao ler teu livro.

          Onde quer que eu chegue tenho mesa posta e alguém me diz uma palavra amiga. esse o prêmio, a razão e o compromisso.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – singularidade


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(Pequim, 1987 - singularidade)


           Em Pequim, Fan Weixin, tradutor para o chinês de livros de língua portuguesa, de brasileiros traduziu José de Alencar e Herberto Salles, traz-me exemplar de tradução de Dona Flor e seus dois maridos, edição modesta, porém decente, Fan está contente com a repercussão do romance da moça baiana.

            Folheio o volume, relembro cenas de amor, dona Flor e Vadinho, os dois na cama, a rosa-chá e a pimenta malagueta, desconfiado pergunto a Fan Weixin:

            - Como traduziste as patifarias de Vadinho?

            Os lábios do tradutor abrem-se num sorriso malandro, quase brasileiro:

            - Ao pé da letra.

            No fim desse mesmo ano hospedamos na casa do Rio vermelho um jovem casal de amigos chineses. Ele é Ho-Ping, filho de Eva e Emi Siao (Siao Sam), Eva fotógrafa alemã, Emi um dos poetas mais famosos da China, foi íntimo amigo de Maiakowski*, deputado, biógrafo de Mao, durante vários anos representante da China no secretariado do Conselho Mundial da Paz, na Tchecoslováquia. Ho-Ping, dito Pupsik, nasceu em praga, alguns meses antes de Paloma: pais bobocas, inventávamos no Castelo dos Escritores* futuro noivado entre os dois infantes. Eva e Emi regressaram à China, gramaram dezesseis anos de prisão durante a mal denominada Revolução Cultural, Emi saiu da cadeia muito enfermo, logo faleceu.

            Ela é Ting-Li, esposa de Ho-Ping, filha de Liu Chao Shi, que foi Presidente da República Popular da China, Secretário-Geral do Partido Comunista, liquidado politicamente e assassinado durante os anos infelizes do domínio da Banda dos Quatro – os assassinos inventaram que Liu Chao Shi morrera num desastre de avião.

            Jovem casal encantador, trocam pernas nas ruas da Bahia, adoram a cidade, o casario, a culinária, os mercados, o povo alegre cordial. Nos intervalos dos passeios, no Jardim da casa do Rio Vermelho, Ting Li lê Dona Flor e seus dois maridos em chinês e em inglês. Pergunto e o que acha das duas traduções. Pensa um pouco, responde:

            - Ambas são boas, gostei das duas. Em inglês a história é mais picante, em chinês é mais romântica. Para você ter uma ideia dá singularidade de cada uma: em chinês dona Flor chama Vadinho de volta com o coração, em inglês ela o chama com aquilo o que tem debaixo das calcinhas.

            - E como se diz em chinês aquilo o que ela tem debaixo das calcinhas?

            Tim lê sorri, encabulada, pronuncia uma palavra, soou-me linda, um trino de pássaro, me esqueci, que pena.


*Maiakowski (18903/1930, poeta soviético.
**Castelo de Dobris, perto de Praga, onde J.A. viveu com a família de 1950 a 1952.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
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            “Nenhum de meus detratores, esses tantos que não perdem vaza para dizer mal de mim, sabichões cuja missão crítica é negar qualquer valor a meus livros, nenhum deles conhece tão bem minhas limitações de escritor quanto eu próprio, deles tenho plena consciência, não permito que me iludam os oropéis e os confetes.

            Sei também, de ciência certa, existir nas páginas que escrevi, nas criaturas que criei, algo imperecível: o sopro de vida do povo brasileiro. Não carrego vaidade, presunção, e sim, orgulho.”

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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terça-feira, 6 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – os anarquistas


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(Rio de Janeiro, 1954 – os anarquistas)


            Deslumbra-me a conversa dos dois velhos anarquistas, o escritor e a operária: o mundo liberto das injustiças e dos preconceitos, nem o poder do Estado, nem a lei fosse qual fosse. Trinta anos depois escreverei um romance, Tocaia Grande, nascera naquele dia quando dona Angelina chorou de emoção ao abraçar Thomas da Fonseca*.

            Tomas da Fonseca, prosador ilustre, em Portugal mais do que ilustre, uma legenda viva, símbolo da resistência ao fascismo, da audácia do pensamento livre: o sonho da sociedade sem fronteiras de qualquer espécie. Angelina D’Acol Gattai, imigrante italiana, tinha quatro anos de idade quando desembarcou no Brasil, a família de camponeses vênetos de Pieve di Cadore veio trabalhar nas fazendas de café de São Paulo após a abolição da escravatura. Aos nove anos Angelina entrou de operária têxtil numa fábrica do Brás, na pauliceia desvairada. Fez-se anarquista ao conhecer Ernesto, os Gattai vieram de Florença, atravessaram o mar nos porões imundos para realizar o sonho do agrônomo Giovanni Rossi: fundar nas selvas do Paraná a Colônia Cecília, experiência de sociedade anarquista na América, sob o patrocínio de Dom Pedro II, Imperador  - já então era o Brasil um país surrealista.

            A colônia durou quatro anos, a mesquinhez do cotidiano a liquidou, mas as ideias libertárias afirmaram- se e floresceram na cidade de São Paulo das primeiras indústrias e dos grêmios das classes laboriosas. Angelina namorou o mecânico Ernesto nas reuniões e festas operárias - imigrantes italianos, espanhóis e portugueses encontravam-se, discutiam, discursavam, declamavam, encenavam peças. As poesias e as canções anarquistas da península, as peças de Pietro Gori: Angelina, primeira-dama do palco proletário. Ressoava o canto da Catalunha em fogo: donde vas com paquetes y listas / que tan pronto te veo correr/ voy al Congreso de las anarquistas/ que reclaman um derecho: vivir/ Escúchame um momento se quieres / Anarquista, que quiere decir? / Es la imensa falange obrera / que reclama um derecho: vivir! Os poemas de Guerra Junqueiro, os livros de Thomas da Fonseca, a italiana Angelina, anarquista brasileira, declamava o vate português, sabia de memória trechos incendiários do prosador. Mesmo quando o marido Gattai subiu na vida, de motorista dos Prado, paulistas quatrocentões, passou a agente dos automóveis Alfa Romeo, de libertário virou militante do Partido Comunista, Angelina manteve intacta a quimera, o sonho.

            Ancião, as barbas brancas desciam-lhe sobre o peito, de passagem pelo Rio, Thomas da Fonseca veio me visitar, ao escritor como ele também proibido em Portugal, amigo de seu filho Branquinho*, eu o recebi no alvoroço da admiração, abertos os braços do bem-querer: jamais uma visita me honrara tanto. Enquanto conversávamos política e letras, Zélia saiu correndo em busca de dona Angelina, por feliz acaso também no Rio, em nossa casa, para comunicar que seu ídolo, dela, Angelina, estava na sala tomando cafezinho.

            Dona Angelina, não acreditou: Thomas da Fonseca, ali em pessoa? Impossível. Repreendeu a ousadia da filha, que, com tal atrevimento, lhe faltava ao respeito, levando na chalaça suas ideias e seus mitos. Fez-se necessário que eu a fosse buscar para que viesse à sala e, em lágrimas, beijasse as mãos ossudas do Ancião. Ficaram a conversar.

            Dona Angelina declamou trechos dos livros de Thomas da Fonseca, sabia páginas inteiras de memória, agora era os olhos do escritor que se iluminavam. A tertúlia prosseguiu em utopia, Zélia e eu ouvintes deslumbrados.

*Thomas da Fonseca (1877/1968), escritor português, líder anarquista.
**Branquinho da Fonseca (1905/1974), escritor português.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – barba



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(Bahia, 1985 – barba)

             Márcio Tavares d’Amaral, filósofo e poeta, ilustre professor universitário, grave catedrático, letrado familiar de Joyce e de Kafka, incorrigível líder estudantil, saudoso das passeatas e das molequeiras, com as mãos sobre a boca imita sons de saxofone, as sirenes dos carros de polícia e das ambulâncias, com acento alfacinha canta músicas de protesto de Sérgio Godinho. Está hospedado na casa do Rio Vermelho com Teresa, flor dos Costa, conversamos enquanto ele faz a barba.

            Conversa longa, Márcio não leva menos de meia hora a barbear-se: um dia demorei apenas vinte e cinco minutos, mas aconteceu somente naquela vez, me diz. Eu não gasto mais de cinco minutos, admiro-me de diferença tamanha, Márcio me explica:

            - Você conhece o verbo escanhoar? É o que eu uso. Você conjuga outro: raspar a barba, para ser sincero uma xucrice.

            Conto-lhe que Graciliano Ramos fazia a barba com navalha antiga, nunca usou gilete. Os olhos de Márcio se iluminam:

            - Isso é o supra-sumo, não chego a tanto.

            Barba escanhoada, Márcio aproxima-se do muro, desata a sirena da polícia na rua Alagoinhas: vizinhos saem portas a fora a ver o que ocorre. O riso de Teresa tranquiliza os passarinhos.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado

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            “Sou de um tempo em que ao ouvir bater na porta se dizia: Se é de paz pode entrar. Quem bate à porta é de paz e de amizade, o ator Zé Trindade, artista de cinema e de televisão, celebridade desde os tempos das chanchadas, agora percorre o interior do país, faz a alegria das plateias das cidadezinhas.

            Com as empregadas da casa aprendo a humildade, a não me vangloriar, a importância é sempre relativa, dou-me conta. Ouço a cozinheira Agripina dizer a Eunice*, que vem lhe informar quem chamou à porta e ela fez entrar:

            - Zé Trindade? Não me diga! Seu Jorge é mesmo importante, é amigo de Zé Trindade.

             Tem razão. Zé Trindade na TV, na tela do cinema, no rádio, em pessoa é ídolo popular queiram ou não os elitistas da cultura, uns bestalhões, sua amizade me dá status, importância. Agripina, Eunice, Detinha vêm espiá-lo do corredor, a meu convite entram na sala, se aproximam deslumbradas, estendem as mãos a Zé Trindade, ele as abraça, repete um bordão de rádio, careta cômica de televisão, o riso se espraia.

 *Eunice Ferreira, arrumadeira na
 casa de JA
           
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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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domingo, 4 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – Paloma


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(Paris, 1949 – paloma)


            De ministério em ministério, de repartição em repartição, acompanho Pablo Picasso pelas ruas de Paris, no esforço para resolver o problema da estada de Pablo Neruda na França. Trotávamos de déu em déu, o dia é especial para o pintor: Françoise, sua mulher, fora para o hospital com dores de parto. Ele desejava menina, se chamaria Paloma: a Paloma da paz, desenho de Picasso, cobre os muros da cidade na propaganda do I Congresso Mundial dos Partidários da Paz que vai se iniciar no dia seguinte na sala Pleyel.

           Neruda desembarcara em Paris uma semana antes, habilitado com passaporte falso o que o identificava cidadão guatemalteco don Antônio dos anzóis carapuça, de bastos bigodes, adido cultural, qualquer coisa assim. O passaporte lhe fora fornecido por Miguel Anjel Asturias, embaixador da Guatemala na Argentina que, ao atender à necessidade do amigo, punha em jogo o cargo e a carreira. Não hesitara um minuto quando Pablo, fugitivo do Chile onde havia sido expulso do Senado, lhe colocara o problema.

            A princípio conhecida apenas por mim e por Alfredo Varela  - o romancista de El Rio Oscuro, dirigente do pecê argentino  -, por Laurent Casanova  responsável no Bureau Político do pecê francês pelos problemas culturais e pelo movimento da paz, por Louis Aragon e François Leclerc em cujo apartamento estava hospedado, a presença do poeta, secretíssima, logo se tornou segredo de polichinelo. A comitiva de admiradores engordava a cada dia com a chegada para o Congresso de intelectuais latino-americanos: Juan Marinello, Nicholás Guillén, Miguel Otero Silva, Alfredo Gravina, o pintor Venturelli. Passaporte ilegal, Pablo estava impedido de participar do conclave e corria o risco de ser detido e posto fora da França a qualquer momento.

          De autoridade a autoridade, Picasso encaminha a solução, eu o acompanho, sou de pouca ajuda, mas faço-lhe companhia. De meia em meia hora entramos num bistrô, Picasso telefona para o hospital, pede notícias da parturiente, fica sabendo que Françoise ainda não deu à luz. Numa dessas vezes, porém, a pergunta é acolhida com hosanas: nascera a menina Paloma, a mãe passa bem, Picasso exulta.

            Ora, o problema de Neruda, àquela hora, estava praticamente resolvido, restavam detalhes finais, deles eu poderia me encarregar sozinho. Vai ver tua filha e tua mulher, propus, Picasso recusou: só quando terminar. O Ministério do Interior e o Quai d’Orsay encontraram por fim  a solução: Pablo deixaria a França de carro, a polícia da fronteira estaria avisada para não criar problema, voltaria assim que tivesse passaporte em ordem.

            Na suíça, onde La Hormiga* o aguardava, um ex-cônsul do Chile, admirador incondicional, prolongara velho passaporte chileno que Delia trouxera de Santiago. O ex-cônsul, aposentado, guardara os timbres e os carimbos, poderiam ser de utilidade um dia, foram. Assim o poeta regressou a Paris não mais na pele de don Antônio dos anzóis carapuça e, sim, na do chileno Naftali Ricardo Reyes, seu nome verdadeiro. Ainda não oficializara o pseudônimo, o que fez quando retornou ao Chile: nem Antônio dos bigodes, nem Naftali Reyes, para sempre Pablo Neruda, poeta e militante.

            Picasso cuidou do caso até vê-lo completamente resolvido, me encarreguei da viagem, designei guarda-costas, dois jovens comunas brasileiros no gozo de bolsas de estudo em Paris, Paulo Rodrigues e Alberto Castiel, levaram o bigodudo don Antônio à Suíça, trouxeram Delia e Pablo para a França, ele de passaporte legal e sem bigodes.

            De volta ao hotel contei a Zélia as andanças do dia, os telefonemas de Picasso para o hospital, o nascimento de Paloma.

            - Se um dia tivermos uma filha ela se chamará Paloma - Decide Zélia, arrebatada.

            O caso se deu em 1949, nossa Paloma nasceu e 1951. Até parece de propósito, a sementinha foi posta em Varsóvia durante o II Congresso Mundial dos Partidários da Paz, a paloma de Picasso nos muros da cidade, inspiradora.


* La Hormiga, apelido de Delia del Carril, na época mulher de Neruda.

(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
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            “Nada mais cansativo, mais estafante, mais terrível do que as reuniões ditas sociais, coquetéis, recepções, jantares, festinhas, outras chatices semelhantes.
             A obrigação de ser inteligente, os convidados esperando as frases de efeito, a profundeza, o brilho do escritor: é de lascar. Fico apavorado se não tenho jeito de escapar, como ser inteligente ao fim da tarde ou na mesa de jantar de cerimônia, com gravata e paletó? Emburreço por completo, dá-me aquela inibição, emudeço, perco o dom da fala, ainda mais parvo do que no dia-a-dia.”

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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