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sábado, 10 de junho de 2017

O MALANDRO E O DELEGADO – Antonio Hygino

O malandro e o delegado


Após assumir sua nova comarca, o magistrado foi convidado pelas autoridades locais para almoçar em um hotel. De início pensou em declinar do convite, pois, a seu juízo, não ficava bem aparecer em público acompanhado de pessoas até então desconhecidas e comprometer, de certo modo, sua autoridade. Eram, em sua maioria, políticos.

Foi dissuadido pelo Pároco local. E lá se foi a comitiva. Chegando ao hotel foi calorosamente recepcionado pelo Gerente e funcionários do estabelecimento. Entre uma conversa e outra, um drink e outro, percebeu a simplicidade daquelas pessoas, daquela gente humilde. Servidos foram frutos do mar e pratos exóticos. Ao se servir, observou do outro lado o Presidente da Câmara colocando em seu prato um pouco de tudo (moqueca de peixe, carne, camarão, feijão, arroz, salada) que se avolumava à medida que ia se servindo. A certa altura já se encontrava ele na parte da sobremesa. Quando ia colocar um pouco de farinha sobre o macarrão, o gerente dele se aproximou e disse-lhe discretamente: Presidente, é açúcar! Ao que ele respondeu disfarçando: lá em casa eu só como macarrão com açúcar! O juiz fingiu nada ter presenciado. Depois do almoço, a comitiva retornou. O tempo foi passando e novas pessoas foram conhecendo. Ficou familiarizado com os jurisdicionados, sem perder a sua autoridade. Era muito respeitado. Certa feita, o Delegado de Polícia o convidou para almoçar em um restaurante pitoresco da cidade. Lá foi apresentado a “Capado”, o proprietário do estabelecimento. Era uma figura engraçadíssima.

O Delegado, apesar de boa gente, era cismado. Para se ter uma ideia, cismava até da própria sombra. E “Capado” sabia disso. Num dia de sábado, o delegado comprou um cambiasse de cerca de 8 quilos e levou o bicho para “Capado” fazer uma moqueca que seria servida, no dia seguinte, aos seus convidados. Na manhã de domingo, o juiz antes de viajar para cidade vizinha onde iria almoçar com seus pais, resolveu passar no quiosque de “Capado”. Lá chegando, viu alguns tururins assando, ardendo na brasa e um cheiro gostoso se espalhava pelo ar. Pediu-lhe que lhe fosse servido um pouco para experimentar da iguaria. “Capado”, então, virou-se e disse: “Dotô, não compre a carne, porque eu fiz uma moqueca de peixe para o sinhô almoçar com seus pais”. O juiz aceitou o presente e seguiu viagem. Afinal, não podia fazer uma desfeita ao amigo diante de tamanha gentileza. 

Mais tarde, chega o Delegado e seus convidados. Uns dez. Todos sedentos e famintos. Passaram a comer churrasco, regado a cerveja e outros aperitivos.

Lá para às tantas, felizes e alcoolizados, o Delegado pediu a “Capado” para servir a esperada moqueca, ao que “Capado”, malandramente, respondeu: “olha, o juiz esteve aqui e disse que cambriassú é peixe de autoridade e que ia levá-la, e assim o fez. Não podia fazer nada”... E rematou: “ele é quem manda, não é?”. 

O delegado ficou embrabecido. O ocorrido se espalhou pela cidade. Houve resenhas e deboches que irritavam o delegado cada vez mais. Queria prender qualquer pessoa que comentasse o assunto, inclusive a “Capado”. 

“Capado” para se livrar das garras do Delegado procurou o juiz e lhe contou a verdade. O Juiz sorriu e em seguida chamou o Delegado. Esclarecida a pegadinha, deram o assunto por encerrado.


Antônio Carlos de Souza Hygino
Juiz de Direito titular da 5ª Vara Cível da Comarca de Itabuna – Bahia.


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segunda-feira, 15 de maio de 2017

"JURA SECRETA" - Antônio Carlos de Souza Hygino

"Jura secreta"
01/06/2016


Recordo-me bem das alvoradas e, com mais nitidez, do por do sol no velho cais banhado pelas águas do Rio Buranhém que se mesclavam com as vindas do oceano, separados, o rio e o mar, por um colossal recife em barreira esculpido pela natureza,  a desenhar uma das mais encantadoras paisagens por ela criadas.

Vejo-me na Ponta de Areia, local próximo ao cais. Na beira da praia, havia a tarifa –  ponto de comércio de mariscos -. Ao lado, uma amendoeira antiga cercada por  uma espécie de  banco de madeira, meio desforme e  rústico, onde as pessoas se reuniam para conversar, jogar dominó, tomar um trago e também confidenciar juras de amor.

Próximo dali, na Praia do Cruzeiro,  misturam-se  pitangueiras, mangabeiras, cajueiros e, na areia branca, os pés de guarus se espalhavam entrelaçados   e   ofertavam frutos roxeados de sabor inesquecível, sem igual. A eles se misturavam os pés de cocos de caxandó. Eu era menino e, juntamente com meus amigos, desfrutava daquilo tudo.
Adorava ir à tarifa com o meu avô comprar peixe. O preferido dele era Guaricema. Minha avó fazia uma moqueca de Guaricema frita, servida com mangabas, que até  hoje guardo na lembrança.

Numa dessas idas e vindas à tarifa, ouvi de um marujo, em tom zombador, de deboche, contar ao meu avô que “Beijinho” tentou a morte por amor.
    
Beijinho era pescador, homem do mar. Assim chamavam-no porque era de baixa estatura. Seu nome era Benjamim.
Sujeito forte, valente, destemido.  Tinha dois filhos, Maciel e  Otávio,  frutos do seu casamento com Ana, conhecida por Donana, a mulher de sua vida. Havia duas coisas que realmente  amava, Ana e o mar.

Eram também pescadores e mestres na arte de navegar. Não tinham estudo, mas experiência não lhes faltava.  Tinham um saveiro batizado de “Marujo”. Da embarcação tiravam o sustento.

O casamento de mais de 40 anos findara com a morte de Donana. A dor da perda da mulher amada, modificou-lhe complemente a vida. Beijinho não mais saia de casa. Fez-se triste. Nada mais fazia sentido. Desde o passamento,  a solidão e a tristeza passaram a lhe fazer companhia.

Certo dia, seus filhos convenceram-no a visitar “Marujo”. Estava o saveiro completamente reformado. Convencido pelos filhos, resolveu, então, voltar ao mar. O barco foi guarnecido do necessário à finalidade.

No dia seguinte, bem cedinho, deixaram o cais. O veleiro rompeu a barra e  rasgou o mar. A previsão de retorno era no final da tarde. A  depender da pescaria, dormiriam no mar e voltariam no dia seguinte.

A pesca era artesanal. Não havia instrumentos de navegação, salvo a bússola. Falava mais alto a experiência, até mesmo na localização dos chamados pesqueiros em alto mar.

Naquele dia tudo estava correndo muito bem. Um pesqueiro foi localizado e farta era  pesca. Animados, resolveram pernoitar.

Caía a tarde! As estrelas, ainda  meio tímidas, começavam a piscar  no firmamento...

De repente,  o tempo se transformou. O vento sul passou a soprar impiedosamente, cujas rajadas violentas despertaram a ira de Netuno, deixando o mar revolto.  A   natureza chorava em forma de tormenta e seus gritos se revelavam nos estrondos estarrecedores  dos  trovões. Por vezes cuspia labaredas de fogo  a   iluminar, por breves segundos, o breu da noite.  Em meio a esse cenário, o saveiro desgovernado bailava, ora para a esquerda, ora para a direita, ora para cima, ora para baixo,  sem saber ao certo para onde ir.
Dentro dele, os homens desesperados, rogavam  a Deus a salvação.

A chuva apagou as duas lamparinas que se encontram do lado de fora do convés. Tudo ficou turvo. Tateando em busca de uma delas, Beijinho desequilibrou-se e caiu ao mar.
Desesperado, mestre Otávio lançou-se ao mar em fúria para socorrer seu velho pai. Seu guia era a intuição. Do saveiro, com uma lanterna, Maciel norteava a Otávio.
  
Os gritos aflitos deram a Otávio a localização de Beijinho. Agarrado ao pai, tentava bravamente levá-lo a bordo, mas não conseguia, devido não só às circunstâncias, mas à resistência dele em querer morrer no mar.  Sem alternativa, desferiu-lhe um soco, vindo ele a  desmaiar. Maciel arremessou-lhe  uma boia amarrada numa corda. Agarrou-se à boia e puxado por Maciel, finalmente veio a  bordo trazendo consigo o pai.

Exausto,  no convés, agarrado ao pai, viu a noite lentamente passar.  O dia  amanheceu. O  tempo  havia melhorado. Beijinho  acordou. Ainda assustado, o mestre Otávio lhe perguntou: “meu pai, por que o senhor dizia aos grito que queria morrer”?  Ao que ele respondeu: “porque não cumprir a jura que fiz a Ana,  a mulher que sempre amei e amo,  de  partir antes dela para esperá-la no céu,  na casa de Deus e, num cantinho,  revivermos o nosso  grande amor”.

Em silêncio, atentamente, meu avô  a tudo ouviu e não fez qualquer comentário.  Pensei comigo como podia aquele homem desdenhar do amor?  Afinal,  quem nunca quis morrer por amor? E tenho, até hoje, que só desdenha do amor quem não conhece o amor. Amar é preciso. Viver não é preciso.

 Antônio Carlos de Souza Hygino
Juiz de Direito



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quarta-feira, 12 de abril de 2017

O DIA DO DIREITO - Antônio Carlos Hygino


O Dia do Direito


Lembro, com muito gosto, dos encontros promovidos por meu pai, em nossa casa, sempre no último sábado de cada mês. Minha mãe se encarregava dos petiscos e do almoço, este que não tinha horário para ser servido, mas normalmente era uma espécie de almoço-ajantarado.
Ela cuidava de tudo pessoalmente e com muito contentamento. 

Eram poucos, mas talentosos amigos. Todos os poetas, jornalistas e intelectuais. A casa era simples, mas a todos acolhia com afeto. Costumavam sentar-se à mesa que durante a semana servia de palco para as memoráveis partidas de jogo de botão, obviamente depois de feitas as tarefas escolares.

Quando os eles chegavam eu ficava sempre por perto. Achava bonito o que eles falavam e como colocavam as palavras de forma tão transcendental que eu me transportava para aquele mundo que só os poetas habitam e conhecem.

Foi assim que ouvi pela primeira vez o meu pai recitar um poeta Castro Alves. Ainda guardo na lembrança a expressão dele ao interpretar o “poeta dos escravos”, nos seguintes versos:

”Boa noite Maria, eu vou-me embora/ A lua nas janelas bate em cheio/ Boa noite Maria, é tarde é tarde/ Não me apertes assim contra teu seio. Boa Noite e tu dizes – Boa noite/ Mas não digas assim por entre beijos/ mas não mo digas descobrindo o peito/ Mar de amor onde vagam os meus desejos!

Recitavam-se Fagundes Varela, Bilac, Cecília Meireles, Catulo da Paixão Cearense e tantos outros. Mas, não era só de poetas que falavam. Em verdade, discutia-se de tudo um pouco.

Certa feita, falavam sobre direito. A discussão girava em torno do “Dia do Magistrado”.

A ardência e o entusiasmo do debate deixaram-me curioso. Ouvindo atentamente a explanação de um dos presentes, dizia ele que em 25 de março de 1824 foi promulgada a Carta Política do Império. Em 09 de janeiro de 1825, foi publicado o decreto assinado por Estavam Ribeiro de Rezende, depois Marquês de Valença, criando um curso jurídico na Corte. Em 12 de março de 1826, o Deputado Lúcio Soares Teixeira de Gouveia, apresentou projeto criando duas Faculdades de Direito. Na sessão de 05.07.1826, dito projeto foi substituído por um de autoria do Deputado Januário da Cunha Barbosa, assinado também pelo Deputado José Cardoso Pereira de Melo, que se transformou na lei de 11 de agosto de 1827 que criou dois cursos jurídicos no Brasil, um em São Paulo e outro em Olinda, este, posteriormente, transferido para Recife.

Desses dois centros de cultura saíram homens de maior projeção em nosso País – magistrados, advogados, professores, estadistas, diplomatas e escritores, a exemplo de Teixeira de Freitas, Pimenta Bueno, Rui Barbosa, Clóvis Beviláqua e muitos outros. Assim, aproveitando a data, prosseguia ele, em 11 de agosto de 1892, instalava-se aqui na Bahia a Corte de Justiça. Daí porque afirmar-se que 11 de agosto encerra o dia dos magistrados é incorrer em equívoco. Dia dos magistrados, não. Dia do direito.

Para homenageá-lo devem reunir- se não somente os magistrados, mas todos os juristas. Ao lado dos que aplicam o direito, encontram-se os que o defendem e ensinam. Os magistrados são uma parcela dos juristas. A festa é dos magistrados, como o é dos advogados, do Ministério Público e dos Professores de Direito. É o dia em que todos devem render graças a Deus por imperar no Brasil o direito, essa força imanente, insuperável, inexaurível e inesgotável que impõe a paz, a ordem e a harmonia nas sociedades regularmente organizadas, garantindo as manifestações de todas as atividades individuais.

Todos concordaram e aplaudiram. Outro pediu a palavra e referindo- se a um advogado, narrou um fato que passou mais ou menos assim:

Av. Sete, em Salvador, havia um colégio. Ao longo da avenida, muitos quiosques. Havia um, próximo ao estabelecimento de ensino, cujo dono, um homem de setenta anos, não suportava ser chamado pelo apelido. Quati-coco era sua alcunha.

Os estudantes sabiam disso e se divertiam ao vê-lo irritado quando assim chamado. Rotineiramente o faziam. Certa feita, decidido, disse: o primeiro que assim me chamar, eu o mato. O sino anunciou o fim das aulas. Ele, o homem, no quiosque, preparou a garrucha e ficou na espreita, no aguardo. Saem os estudantes. Passa um grupo correndo em frente ao quiosque, em algazarra. Um deles, em tom zombador, chama-o pelo apelido.

Desvairado, às cegas, atirou. A bala atingiu letalmente uma criança. A vítima, de sete anos de idade, era filha de uma das famílias mais tradicionais e ricas de Salvador. Preso em flagrante, nenhum profissional queria defendê-lo, pois o crime causou enorme comoção social. Como ninguém pode ser condenado sem defesa, nomeado pelo Juiz foi um jovem que assumiu o patrocínio da causa.

Todas as provas eram a ele desfavoráveis. Como pode a experiência matar a inocência? Levado a júri, a condenação era certa. A Promotoria e o assistente de acusação pediram a pena máxima. A condenação era certa. Dada a palavra, da tribuna, o causídico saudou o Juiz, nestes termos:

Excelentíssimo Senhor Dr. Juiz de Direito, Presidente deste honrado Tribunal... E faz uma breve pausa; Repetiu a saudação e a pausa e o fez pela terceira vez, porém em nenhuma delas nada falou. O Juiz Presidente, irritado, levantou-se e disse: “Se V.Exa. não tem o que dizer, cala-se”.

Ele, o causídico, então, respondeu: Senhores jurados, observem, o Sr. Juiz de Direito, presidente deste Tribunal, homem jovem, culto e letrado, irritou-se por chamá-lo de Excelência, imaginem o que é para um idoso, para um homem que não teve oportunidades na vida, não estudou, não ser tratado pelo nome, mas por um apelido que o humilha, que fere a sua alma…

E por aí foi... Resultado, absolvição.

Esse defensor chamava-se Cosme de Farias, concluiu. Falaram sobre o talento de Cosme de Farias e de outros juristas. Por volta das 15h, o almoço foi servido. Embevecido com os ensinamentos daquela tarde, deixava despertar em mim o desejo de trilhar o caminho da justiça.


Antônio Carlos de Souza Hygino

Juiz de Direito titular da 5ª Vara Cível da Comarca de Itabuna – Bahia.

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terça-feira, 4 de abril de 2017

A CONQUISTA DE UM IDEAL - Antônio Carlos de Souza Hygino

O texto que se seque, eu o escrevi quando do meu ingresso na magistratura. Após publicá-lo, por conta de mudança de comarca, etc... Acabei por não ficar com uma cópia sequer.
Debalde foram buscas no sentido de conseguir um exemplar do vespertino que o veiculou. E os anos se passaram. Havia perdido a esperança. Entretanto, na Noite de Natal do ano passado, fui presentado com exemplar do aludido jornal pelo meu irmão Jorge Hygino, brilhante advogado baiano, a quem sou eternamente grato. Ao relê-lo, voltei ao passado e não contive a emoção, por motivos óbvios. Trata-se da trajetória de um menino de família humilde, que se atreveu a ser Juiz. Ei-lo:

A conquista de um ideal


Vitorioso no vestibular de Direito da FESPI, subi-lhe as escadarias que davam acesso à sala onde iria assistir minha primeira aula de Introdução à Ciência do Direito. Vibravam em mim o entusiasmo e a esperança de ser advogado, para defender os interesses dos que tivessem sede de justiça. Durante quatro anos consecutivos repeti o mesmo ritual para receber, naquele Templo onde se cultuava a ciência de Têmis, as luzes do conhecimento jurídico. Findo o quatriênio, bacharelei-me em Direito. Impossível descrever as emoções daquele dia. O entusiasmo e a esperança do ingresso cederam lugar às responsabilidades que aguardavam o egresso no exercício da vida profissional.

Assustei-me ante o conflito existente entre o mundo teórico , de onde saía, e a complexidade do meu mister. Mergulhado em milhões de pensamentos desci, pela última vez, os patamares da minha querida Faculdade de Direito. O derradeiro deles, colocar-me-ia frente a frente com a realidade que temia encontrar. Entretanto, a vontade de crescer e de vencer na vida foi maior que o temor momentâneo. Enfrentei o mundo com determinação e firmeza de ânimo e exerci a advocacia com lealdade e amor à profissão, em respeito à sua nobre classe e à justiça.

No desempenho de minha profissão de advogado percebi, de logo, que a advocacia não me bastava. Queria ir mais longe. Queria ser magistrado. Para isso, amarguei os dissabores de vários concursos. Entretanto, não me deixei abater pelo pessimismo, pois só os fortes, os que não se acomodam, vencem e triunfam. E, se não fosse vitorioso no concurso de Juiz de Direito a que me submeti, estaria disposto a repetir a experiência tantas vezes fossem necessárias para ver realizado o meu sonho, o supremo ideal de minha vida.

E a magistratura me veio como uma recompensa, uma premiação aos meus esforços, aos meus sacrifícios por conquistá-la. Por isso mesmo saberei dar-lhe o devido valor. Saberei honrá-la e dignificá-la, lacerado que tenho os pés dos cardos do caminho por atingi-la.

Hoje sou magistrado e estou consciente da responsabilidade que flui da magistratura, a mais sublime missão que um mortal pode aspirar. Missão quase divina. Meu objetivo é ser aquele Juiz do futuro, de que fala o comentário de “La vie Judiciaire”: “Cavalheiresco, hábil para sondar o coração humano, enamorado da ciência e da justiça, ao mesmo tempo que insensível às vaidades do cargo; arguto para descobrir as espertezas dos poderosos; informado das técnicas do mundo moderno, no ritmo da era nuclear, onde as distâncias se apagam e as fronteiras se destroem, onde, enfim, as diferenças entre os homens serão simples e amargas lembranças do passado...”

Estou ciente da soma dos poderes e prerrogativas que o Juiz encarna e que, como bem disse Eliasar Rosa: “não pode cair em mãos quaisquer, sem riscos e perigos para todos, e sem o aviltamento, inclusive, da própria ordem jurídica”.
Apesar de jovem, tenho conhecimento da ciência da vida, que julgo mais importante que o direito, pois o saber jurídico, como magnificamente enfocou o eminente Desembargador Oscar Tenório, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, “por si só, não é suficiente ao digno exercício da magistratura. O conhecimento dos Códigos, mesmo à luz da doutrina dos grandes interpretes, não é domínio exclusivo dos juízes. O atributo essencial do grande magistrado é a sabedoria, cujas raízes conceituais se aprofundam na vida e na razão”.

Imbuído desses princípios é que, no exercício da judicatura, procurarei aplicar bem a justiça, como bálsamo para todas as chagas sociais. Procurarei ser digno de mim mesmo, como magistrado, reconhecendo, como Calamandrei, que as qualidades que mais se respeitam nos Juízes são a imparcialidade e a sua resistência a todas as seduções do sentimento.

E quero, ao final de minha carreira, diante do terrível NÃO JULGUEIS, dizer com os olhos fitos nos Céus: SENHOR, cumprir com o meu dever, convicto, porém, de que É TEU O PODER DE JULGAR.

Hoje, vinte e seis anos depois, venho aqui dizer que sinto em mim o mesmo vigor, a mesma devoção, o mesmo amor e mesmo respeito à magistratura. Vou ao fórum com a mesma disposição, encantamento e coragem dos primeiros dias.

A magistratura não me cansa, muito pelo contrário, renova diariamente as minhas energias. Sinto-me feliz com o meu trabalho. É enriquecedor ao espírito servir aos que têm sede e fome de justiça. O servir é o bálsamo que alivia os sofrimentos causados pelos cardos do caminho. A magistratura é a razão da minha existência.

Sou magistrado por vocação.



Antônio Carlos de Souza Hygino
Juiz de Direito titular da 5ª Vara Cível da Comarca de Itabuna – Bahia.

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sexta-feira, 24 de março de 2017

O VOO DA SABIÁ - Antônio Carlos Hyigino


O voo da sabiá

Para Bia Hygino, com afeto.


Era manhã de domingo. Encontra-se ele em sua casa de campo.


Sentado numa poltrona, na varanda, contemplava a natureza.

No jardim, havia muitas flores. Um pé jamelão trazia-lhe doces lembranças do seu tempo de criança. Um pé de amora ofertava frutos dulcíssimos. O cajueiro de frutos sem igual. As goiabeiras, o pé cambucá, as mangueiras, o pé de jambo a colorir a terra de lilás. E o pé de seriguela…. os galhos arriavam cheios de frutos maduros. Do pé de carambola seus frutos transformavam-se num doce de estrelas. Havia muito mais…


Em meio àquele cenário, solenemente casais de pavão passeavam. Em harmonia viviam perus, patos, gansos e galos a cantar a melodia da alvorada, a qual repetiam ao longo dia. 
Os passarinhos entoavam doces melodias de amor.

Por entre os montes, um riacho serpenteava em direção ao oceano, fertilizando o solo à margem de seu leito.

Dentro de casa, Nide preparava um delicioso café da manhã que seria servido assim que todos estivessem sentados à mesa. Faltava apenas Bia, a filha dele que ainda se arruma. 
Estava acertada uma caminhada matinal pelas redondezas.

Em meio aquilo tudo e no aguardo do desjejum, observou uma sabiá a fazer voos rasteiros em sua direção, sobrevoando lhe a cabeça.

No galho de cambucá, outra sabiá atentamente a tudo observa.

Olhou para cima e viu um ninho feito no espaço entre o ripão e o telhado. Dentro dele dois ou três pássaros. Um deles ficou à beira do ninho. A sabiá alimentava os outros dois.

Ele ficou preocupado com a possibilidade de o pequenino cair e se machucar. A altura entre ninho e chão era de dois metros e meio, mais ou menos. Pensou em fazer qualquer coisa que impedisse o inevitável, mas preferiu não interceder.

De repente, o cheiro de café espalhou- se pelo ar e veio o chamado. Mesa posta, familiares sentados. Servido foi bolo de aipim, de tapioca e de milho. Mingau de milho verde, canjica e pão. Seu compadre e cunhado, se fartou.

Com o pensamento voltado para a sabiá, retornou à varanda. Para sua surpresa, no chão, viu aquele passarinho que estava à beira do ninho. Frágil, indefeso, penugem esparsa, tentando fazer curtos voos por dentro da varanda. Não se conteve. Delicadamente, buscando protegê- lo, conseguiu levá-lo de volta ao ninho. Os pais, desesperados, do cajueiro observavam interferência do bicho homem.

Um deles voou de onde se encontrava para o ninho e ficou como se a conversar com o seu filho. Todos presenciaram a cena.

Na varanda, ficaram por cerca duas horas na expectativa do que pudesse acontecer. Nada aconteceu, salvo as idas e vindas da sabiá sempre a alimentar seus filhotes.

Resolveram, então, fazer a caminhada, conforme combinado.

Quando do retorno, já por volta do meio dia, o pequenino estava fora do ninho, novamente no chão e com o mesmo propósito: voar.

Ele pensou em levá-lo de volta, como antes o fizera, mas seu cunhado o dissuadiu. Ponderou para que observassem junto o que ocorreria.

Então, fazendo pequenos voos conseguiu chegar ao pé de Cambucá. Do pé de Cambucá voou para o pé de seriguela. Daí, para o galho do cajueiro. Em seguida para a caramboleira. Nessa trajetória acompanhada foi, à distância, pelos pais. A certa altura foi deixado pelos seus pais e voou na imensidão do azul.

Ficou ele a pensar o que poderia acontecer ao pequenino pássaro, desde o badoque até a ação do predador natural. 

Nada, entretanto, podia fazer. O destino estava selado: voar. 

Tudo que pudesse ou que viesse a acontecer com aquele pássaro fazia parte ou faz parte dessa história que se chama vida.

Veio o almoço e descanso vespertino.

À noite, pirilampos faziam breves clarões e os grilos cantavam em festa.

Logo de manhã retornaram à cidade.

Anos depois, perdido em seus pensamentos, sua filha, ainda adolescente, sem qualquer experiência de vida, veio ao seu encontro e lhe disse: pai, tenho uma surpresa. Qual? 
Questionou ele. Ela lhe respondeu com alegria contagiante: passei na seletiva do intercâmbio. Vou para Taiwan, país que fica ao sul da China. O Senhor deixa?

Naquele instante veio em sua mente um poema do incomparável Khail Gibran, “Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.Vêm através de vós, mas não de vós e embora vivam convosco, não vos pertencem”.

Lembrou-se, então, do voo da sabiá. Disfarçando com um sorriso o seu medo e não contendo a lágrima que rolava em seu rosto, abraçou-a afetuosamente, sem nada dizer.


Antônio Carlos de Souza Hygino
Juiz de Direito titular da 5ª Vara Cível da Comarca de Itabuna – Bahia.



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terça-feira, 21 de março de 2017

ITABUNA CENTENÁRIA: UM POEMA – Antonio Carlos Hygino

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
Pontal de Ilhéus

Pontal querido, meu Pontal amado,
Formoso bairro de beleza tanta...
Cheio de luz e pelo mar banhado,
a lua cheia, que seduz e encanta...

O sol que fulge sobre o céu dourado,
Os pescadores já chegando em terra...
O Pernambuco pelo mar banhado,
O por-do-sol, que só beleza encerra...

Que é das lanchas, do tamarindeiro,
Da travessia, da jundiba anosa,
E do "besouro", a trafegar ligeiro?

Tudo se foi, desse passado lindo,
Ó meu Pontal- ó meu amor primeiro
Tudo se foi com o progresso vindo!...

Antônio Carlos de Souza Hygino
Juiz de Direito titular da 5ª Vara Cível da Comarca de Itabuna – Bahia.
E-Mail: hyginoantonio@bol.com.br

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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O MÉDICO E A VIDA: UM GESTO DE AMOR!- Antonio Carlos Hygino

15/03/2016
O Médico e a Vida: um gesto de Amor!
                                                                                                              

Ao Dr.  Álvaro Andrade

Manhã de segunda-feira. Por volta das 10:00hs., chega ao hospital local D. Maria acompanhada de Gracinha, como era conhecida a sua filha Maria das Graças, de quatorze anos de idade. A mãe era o retrato da  aflição. O olhar revelava tristeza, dor e desgosto profundos. Estava descontrolada.
Agitada ao extremo. Chorava e aos gritos chamava pelo obstetra de plantão. Gracinha estava perturbada, atônita, confusa, quase sem ação. Deixava-se conduzir por sua genitora pelos corredores do nosocômio. Estava absorvida pelo medo e dominada pela fúria materna. Os enfermeiros que ali se encontravam buscavam acalmá-la, mas ela estava indócil.

Conduzida à presença do plantonista e, de frente para dele, face a face, sem que houvesse qualquer diálogo, retirou da bolsa um escrito e o entregou dizendo-lhe: É urgente!

O médico, à medida que lia o documento, sua expressão facial se transformava. Afinal, o que estava ali escrito ia de encontro aos seus princípios éticos e religiosos. Tratava-se de autorização judicial para retirada do feto.

O conflito apoderou-se de seu ser. Não podia deixar de cumprir a determinação judicial e, por outro lado, se a cumprisse estaria a violentar sua consciência.

Envolto nesse dilema, a insistência da genitora da adolescente na realização imediata do aborto, consumia-lhe a mente e lhe feria a alma.

Buscando adiar a decisão, tentou acalmá-la pedindo que se sentasse. Enquanto isso, num cantinho do consultório, acomodava a adolescente numa maca para examiná-la.

Voltando-se para a genitora, perguntou-lhe o que havia acontecido? Ela, então, debulhando-se em lágrimas, disse que a sua filha havia sido violentada pelo padrasto e que dele encontrava-se grávida. Disse-lhe, também, que o fato foi comunicado à autoridade policial e que ele se encontrava preso.

Na justiça,  confessou ele, despudoradamente, o mal que houvera feito, acrescentando que  agiu sem o consentimento de sua enteada, desvirginando-a antes que outrem o fizesse.
A horrenda confissão lhe  arrancou do peito todo sentimento que por ele nutria.

Foram conviver quando Gracinha contava com dois anos.
Estavam juntos há cerca de dez anos, de cuja união nasceram dois filhos. Daí, o seu sofrimento, dor e mágoa.
   
Após ouvir o relato, decidiu pelo cumprimento da ordem judicial.

A menina chorava na maca. Instintivamente sabia que o seu filho ser-lhe-ia arrancado do ventre.

Girando a cadeira na direção em que se encontrava a aflita menina, pensou consigo: “É certo que a gestação decorreu de uma violência contra àquela menina, mas por que responsabilizar a criança que ela carrega em seu ventre por um crime que ela não cometeu?

Voltou-se, então, para D. Maria e objetivando despersuadi-la, argumentou: Antes de dar início aos trabalhos, eu vou colocar uma música para a Senhora ouvir. É uma música única. É uma música que fala de Deus, do amor e da vida.
Após ouvi-la, a Senhora irá me dizer se prossigo ou não, ok?
Ela consentiu.

Com suave ternura, pediu-lhe  para fechar os olhos; relaxar  e abrir a alma e espírito.

Aproximou-se da menina e delicadamente pediu-lhe para ficar calma. Em seguida deu início ao exame de ultrassonografia, deixando o aparelho  em viva voz …

Alguns segundos depois, todos ouviram a música. Era mais ou menos assim: “tum....tum....tum....tum....tum....tum....tum...tum....tum....tum.... tum... tum... tum...tum”...

À medida que ouvia a melodia, o semblante da angustiada mãe se modificava, ficando mais leve … embora os olhos ainda estivessem fechados, lágrimas deslizavam mansamente no seu rosto...

Alguns minutos se passaram e, ainda com o aparelho ligado, o médico esclareceu: “Essa música que a Senhora está a ouvir é o coração de seu neto ou neta a pulsar.  Ela revela o amor e a bondade de Deus a oportunizar a um ser humano o dom vida”.

Diga-me, então, desligo ou não a música?

Sorrindo ternamente e com o rosto ainda molhado, ela respondeu: “meu neto não tem culpa. Deixe-o nascer”.

Enternecido, abraçando-as, em silenciosa oração agradeceu a Deus por ter lhe permitido salvar mais uma vida.


Antônio Carlos de Souza Hygino
Juiz de Direito



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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

OUVIR ESTRELAS, por Antônio Carlos de Souza Hygino

Ouvir estrelas

18/11/2015


O vento a lufar. A madrugada fria.  A natureza em prantos.

Nos seus aposentos, já acomodado, o sono teimava em não chegar. O seu pensamento ainda continuava nela.  Levantou-se, foi ao armário e olhou para o quadro que iria presenteá-la no dia do seu aniversário. Adquiriu-o de um renomado artista lusitano. E o fez não só  pela beleza da obra mas, sobretudo, para ver no rosto dela aquele  sorriso  que o encantava e, também, lá no fundo, para dar contentamento ao seu coração que de há muito em mais nada acreditava.

Lembrou-se, então, do dia em que a conheceu. Na verdade foi numa noite de verão. Havia uma  reunião. Muitos poucos amigos se faziam presentes, o que deixava o ambiente mais íntimo e agradável. Não era propriamente uma festa, mas tinha a alegria  de uma festa.

Conversando reservadamente com um amigo, de onde se achava, notou a chegada de uma moça, vestida de branco. Ficou a observá-la. Ela cumprimentava as pessoas  e caminhava sem querer em sua direção e, quanto mais se aproximava, mais sua beleza se revelava. Linda mais que demais, diria Caetano se a visse.  Ele  que a viu  disse ser ela muito mais bela do que Vênus e  Afrodite juntas.

Sentou-se, por acaso,  a sua frente.  Ao olhar em seus olhos viu a estrela. A luz que iluminaria o seu caminho e pela qual procurou em outros planos, em outra dimensão, estava bem ali em sua frente, a sorrir.  Meu Deus, é verdade. Ela existe.
Pensou consigo.

Cautelosamente, disse-lhe: conheço você! Não me recordo de onde! E você não me é estranho, respondeu. Naquele instante,  a alegria do reencontro dominava todo seu ser e sublimava-lhe a alma.  E a conversa prosseguiu... A  noite avançou.  Já se fazia tarde.  Despediu-se dela  beijando-lhe as mãos.

Veio a manhã e sucessão de dias e mais dias. As tentativas de aproximação ou mesmo de reaproximação cediam ao silêncio. Ele nada entendia. Milhões de coisas passavam em sua cabeça. Só não passava a alegria que  aumentava  a cada instante em seu peito e fazia feliz o seu calado coração. Nada podia dizer, ou confessar, a ninguém, daquele amor, nem mesmo às paredes.

Ah! Poeta, porque sentenciastes  “que a vida é a  arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”.
  
Questionava a si mesmo o porquê do silêncio? Acostumado à solidão,  fez do silêncio dela o seu companheiro e a ele confidenciava segredos vindos da alma, imaginando  na fantasia dos seus sonhos que o fazia  a ela, docemente em seus ouvidos.

O seu sentimento  tornava-o capaz de ouvir e de entender estrelas, numa sintonia perfeita com o poema de Bilac.

Olhos fixos na paisagem retratada pelo artista, atordoado, sentiu ecoar  em seus ouvidos aquelas palavras que lhe feriram a alma e destruíram o resto de esperança que guardava em seu peito.

Decidido,  fechou a porta do armário. Pela janela jogou as chaves fora. O vento frio invadiu seus aposentos. Sentou-se à beira da cama. Fez-se forte e  sufocou sua paixão. Escondeu-se debaixo da coberta e fingiu acreditar no novo dia, no novo amanhecer, pois tudo estava perdido e fora inútil querer o amor que não mais seria seu.

De mansinho, então,  chega-lhe o seu companheiro inseparável  – o silêncio dela – e sussurra coisas em seus ouvidos – segredos – que lhe renovam a esperança no amor  que o faz ouvir e entender estrelas.


Antônio Carlos de Souza Hygino
Juiz de Direito




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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

POR AMOR – Antônio Carlos Hygino

Por amor

Recordo-me bem das alvoradas e, com mais nitidez, do por do sol no velho cais banhado pelas águas do Rio Buranhém,  que se mesclavam com as vindas do oceano, separados, o rio e o mar, por um colossal recife em barreira esculpido pela natureza, a desenhar uma das mais belas paisagens por ela criadas. Vejo-me na Ponta de Areia, local próximo ao cais. Na beira da praia, havia a tarifa – ponto de comércio de mariscos -. Ao lado, uma amendoeira antiga cercada por espécie de banco de madeira, meio desforme e rústico, onde as pessoas se reuniam para conversar, jogar dominó, tomar um trago e também confidenciar juras de amor. Próximo dali, na Praia do Cruzeiro, misturam-se pitangueiras, mangabeiras, cajueiros e, na areia branca, os pés de gurus se espalhavam entrelaçados e ofertavam frutos roxeados de sabor inesquecível, sem igual.

A eles se misturavam os pés de cocos de caxandó. Eu era menino e, juntamente com meus amigos, desfrutava daquilo tudo. Adorava ir à tarifa com o meu avô comprar peixe. O preferido dele era Guaricema. Minha avó fazia uma moqueca de Guaricema frita, servida com mangabas, que até hoje guardo na lembrança. Numa dessas idas e vindas à tarifa, ou- vir um marujo, em tom zombador, de deboche, contar ao meu avô o que houvera se passado com “Beijinho”, um pescador, homem do mar. Assim o chamavam porque era de baixa estatura. Seu nome era Benjamim.

Sujeito forte, valente, destemido. Beijinho era pai de Maciel e de Otávio, frutos do seu  casamento com Ana, conhecida por Donana, a mulher de sua vida. Havia duas coisas que realmente amava Ana e o mar. Eram pescadores, mestres na arte de navegar. Não tinham estudo, mas experiência não lhes faltava. Tinham um saveiro batizado de “Marujo”. Da embarcação tiravam o sustento.

O casamento de mais de 40 anos findara com a morte de Donana. A dor da perda da mulher amada,  modificou-lhe complemente a vida. Beijinho não mais saia de casa. Fez-se triste. Nada mais fazia sentido. Desde o passamento, há um ano, a solidão e a tristeza passaram a lhe fazer companhia.

Certo dia, seus filhos convenceram-no a visitar “Marujo”. Estava o saveiro completamente reformado. Convencido pelos filhos resolveu, então, voltar ao mar. O barco foi guarnecido do necessário à finalidade. No dia seguinte, bem cedinho, deixaram o cais. O veleiro rompeu a barra e rasgou o mar. A previsão de retorno era no final da tarde. A depender da pescaria, dormiriam no mar e voltariam no dia seguinte. A pesca era artesanal. 
Não havia instrumentos de navegação, salvo a bússola. Falava mais alto a experiência, até mesmo na localização dos chamados pesqueiros em alto mar.

Naquele dia tudo estava correndo muito bem. Haviam localizado um pesqueiro e farta era a pesca. Animados, resolveram pernoitar. Caía a tarde. As estrelas, ainda meio tímidas, começam a piscar no firmamento. De repente, o tempo se transformou. O vento sul soprava impiedosamente, cujas rajadas violentas despertaram a ira de Netuno, deixando o mar revolto. A natureza chorava em forma de tormenta e seus gritos se revelavam no estrondo estarrecedor dos trovões. Por vezes cuspia labaredas de fogo a iluminar, por breves segundos, o breu da noite.

Em meio a esse cenário, o saveiro desgovernado bailava, ora para a esquerda, ora para a direita, ora para cima, ora para baixo, sem saber ao certo para onde ir. Dentro dele, os homens desesperados, rogavam a Deus a salvação. A chuva apagou as duas lamparinas que se encontram do lado de fora do convés. Tudo ficou turvo. Tateando em busca de uma delas, Beijinho desequilibrou-se e caiu ao mar. Desesperado, mestre Otávio lançou-se ao mar em fúria para socorrer seu velho pai. Seu guia era a intuição. Do saveiro, com uma lanterna, Maciel norteava a Otávio. Os gritos aflitos deram a Otávio a localização de Beijinho. Agarrado ao pai tentava bravamente levá-lo a bordo, mas não conseguia devido não só às circunstâncias, mas à resistência dele em querer morrer no mar. Sem alternativa, deferiu-lhe um soco, vindo ele a desmaiar. Maciel arremessou- lhe uma boia amarrada numa corda. Agarrou-se à boia e puxado por Maciel, finalmente veio a bordo trazendo consigo o pai. Exausto, no convés, agarrado ao seu pai, viu a noite lentamente passar.

O dia amanheceu. O tempo havia melhorado. Beijinho acordou. Ainda assustado, o mestre Otávio lhe pergunta: “meu pai, por que o senhor dizia aos gritos que queria morrer”? Ao que ele respondeu: “porque não cumpri a jura que fiz a Ana, a mulher que sempre amei e amo, de partir antes dela para esperá-la no céu, na casa de Deus e, num cantinho, revivermos o nosso grande amor”. Em silêncio, atentamente, meu avô a tudo ouviu. Apaixonado por minha avó, não fez qualquer comentário. Pensei comigo como podia àquele homem desdenhar do amor? Afinal, quem nunca quis morrer por amor?

E tenho, até hoje, que só desdenha do amor quem não conhece o amor.

Amar é preciso.

Viver não é preciso.


Sobre o autor:
Antônio Carlos de Souza Hygino
Juiz de Direito titular da 5ª Vara Cível da Comarca de Itabuna – Bahia.



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