Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de junho de 2020

A CAMISETA VERMELHA – Nídia Costa Reis

Meu nome é Magno.

Depois de ficar viúvo, fui morar com minha filha e meu neto em um bairro aprazível e sossegado de uma cidade do interior do Paraná.

Sou como um Cravo que perdeu a Rosa, mas continua no jardim. Vivo das boas lembranças e gosto de ser útil sempre que me é possível. Nunca fui de muitas letras, mas leio a Bíblia, gosto de livros de aventuras e faço palavras cruzadas com o dicionário por perto, naturalmente.

No princípio, era interessante observar a rua, o trânsito de pessoas e veículos, os estudantes com seus fardos escolares, o ruído de uma cidade maior. Hoje, prefiro o sossego de meu quarto a buzinas e vozes na calçada.

Da porta da cozinha de nossa casa, eu via uma igreja e várias casas a uns sessenta metros de distância. Entre elas, um sobradinho com duas janelas e uma chaminé que soltava fumaça o dia inteiro e me trazia boas lembranças do antigo fogão a lenha da fazenda de meus pais. Enquanto esperava a hora do almoço, de vez em quando eu olhava a fumaça, ora espessa, ora quase imperceptível e, por isso, podia calcular a quantidade de lenha que ardia na boca daquele fogão.

Certo dia, além da fumaça, vi uma camiseta vermelha dependurada em uma das janelas do sobradinho. Às vezes, ela balançava e parecia que ia cair a qualquer momento. Com certeza, a vizinhança também estava de olho nela, não pela cor, mas pelo varal improvisado, na janela, onde ficou o dia inteiro. Ao anoitecer, ela continuava no mesmo lugar. Se fosse para secar já estaria seca, pensei. Por que não a recolheram? Percebi que minha curiosidade estava fora de controle e, por isso, decidi deixar a camiseta sossegada, embora estivesse morto de vontade de saber a opinião de alguém de minha família sobre o assunto. Eu tinha fama de ser curioso, portanto, se perguntasse à minha filha, ouviria de novo a mesma frase: “deixa pra lá, papai. Já vem o senhor de novo?”

Mas quem não seria capaz de observar uma camiseta vermelha na janela o dia inteiro? Calculei que o dono da camiseta se tratava de um torcedor de algum time de futebol ou de algum carnavalesco que exibia sua camiseta de escola de samba, guardada durante um ano, dentro do guarda-roupa.

No dia seguinte, fiquei bastante assustado. A camiseta vermelha estava na janela, do mesmo jeito, no mesmíssimo lugar. Achei que havia algo de misterioso para ser explicado, antes que eu desse um ataque de histeria e fosse internado em um manicômio qualquer. Comecei a desconfiar de mim mesmo. Eu era apenas idoso, não velho, e sempre achei que minha cabeça funcionava bem, mas, naquele momento, já não tinha tanta certeza. Talvez, havia começado a caducar e ainda não percebera! Mas, que maldita camiseta seria aquela?

Saí decidido a pedir socorro à primeira pessoa que encontrasse pela casa, a fim de desvendar aquele mistério. Minha filha já havia saído para o trabalho e a empregada lavava a louça do café. Avistei meu neto na varanda e pedi-lhe que viesse me ajudar, pois eu não estava me sentido bem. Ele veio resmungando como sempre fazia quando eu lhe pedia qualquer coisa. Fomos até a porta da cozinha, criei coragem e, meio sem jeito, fingindo não ser nada muito importante, perguntei-lhe:

- Paulinho, está vendo aquela camiseta vermelha na janela daquele sobradinho, lá adiante?

- Que janela? - perguntou.

- Aquela, do sobrado. Não está vendo uma camisa vermelha balançando, balançando?

- Não vejo nenhuma camiseta vermelha, vovô. O senhor está enxergando demais e vendo coisas de uns tempos para cá. Isto é perigoso. Também nessa idade...

Fiquei parado, triste e desiludido. Eu andava vendo coisas ultimamente. Outro dia vi um gambá no muro; era um gato. Cumprimentei o soldado José; era o sargento Oliveira. Antes, podia jurar que minha cabeça funcionava muito bem, mas, agora, comecei a duvidar.

Eu não estava preparado para aceitar chacotas e conviver com as cobranças do tempo, as deficiências da idade,. Enfim, eu não admitia ser um octogenário inútil, caduco, imprestável.

Durante o almoço, percebi que meu neto estava aflito para falar sobre a camiseta do sobradinho. Então, passei-lhe um olhar de cobra venenosa e ele se conteve, mas advertiu minha filha de que ela deveria levar-me ao médico, pois achava que, na minha idade, era urgente uma consulta.

- Vovô está treslendo, meio lelé. Eu acho — disse ele.

Fiquei quieto, não disse nada, à espera da contestação de minha filha, mas ela parou de comer, olhou-me com ternura, aprovou a ideia e se dispôs a marcar um exame com um neurologista. Foi duro constatar que minha família desconfiava de minhas faculdades mentais, mas, no fundo, não era isto que eu queria?

E a camiseta vermelha? Quanto tempo eu aguentaria a visão que me atormentava dia e noite, sem poder desvendar aquele mistério?
     
No dia marcado para a consulta, entramos no carro e rumamos para o consultório do neurologista. Durante o percurso, meu neto resolveu antecipar o exame e começou a me testar, digo, me tentar:

- Vovô, que rua é esta? Aquela é a igreja de São Bento ou a de São Francisco? Meu colégio fica para cá ou para lá?

Achei suas perguntas uma falta de respeito e já ia chamar-lhe a atenção quando minha filha se antecipou e passou-lhe uma escaramuça de primeira. Coitado do Paulinho! Depois de me pedir desculpas, encolheu-se no banco de trás e não deu nem mais uma palavra. O pior era que eu não saberia responder a nenhuma de suas perguntas, pois há muito tempo, não passava por aquela parte da cidade e seria mais uma demonstração de que minha cabeça estava em péssimo estado de conservação.

No consultório, o médico deu início aos exames de rotina: mediu a pressão, auscultou-me os pulmões e o coração, revirou-me as pálpebras, olhou a língua e a garganta. Depois, pegou um martelo e bateu em meus joelhos com força. Dei um pulo na cadeira e vi que ele gostou, mas eu não achei graça nenhuma. Fiquei de pé para algumas palhaçadas: “Levante a mão esquerda, equilibre-se em uma perna só, mostre-me a orelha direita e a esquerda”. Eu obedecia às suas ordens como um robô japonês e já ia reclamar da incômoda ginástica, quando ele, amavelmente, deu-me um tapinha nas costas e mandou que me assentasse, naturalmente, para o veredicto final. Pela sua fisionomia calma e satisfeita, percebi que ia sair livre de qualquer culpa na minha saúde. Então, confessei-lhe que andava vendo coisas estranhas, trocando gambá por gato e soldado por sargento. Falei sobre a camiseta vermelha do sobradinho que só era vista por mim e afirmei-lhe que estava á beira da loucura. Ele não levou minhas queixas a sério e disse ser perfeitamente normal esses enganos na minha idade. Aconselhou-me a observar melhor antes de tirar conclusões, fazer pequenas caminhadas pelo bairro e cuidar da alimentação. Antes de sair, ele quis falar com minha filha. Pedi-lhe que não dissesse nada a ela a respeito de minhas visões para não ficar preocupada e passar a me vigiar dia e noite. 

Na volta, perguntei-lhe se estava tudo bem comigo. Disse - lhe que eu não havia gostado nem um pouco da consulta porque ele não me dera muita atenção e não me levara a sério. Minha filha, como sempre, não poupou esforços para me acalmar. Eu não tinha nada grave, mas seria bom procurar um oculista. Protestei, argumentando não ter dinheiro para tantas consultas, que minha aposentadoria, em breve, iria virar salário mínimo e meu plano de saúde não me garantia quase nada. Ela me afirmou que não seria por falta de recursos que eu deixaria de ir ao oculista. Já fazia muitos anos que eu usava os mesmos óculos e, depois dos oitenta, é comum ter catarata. Fiquei comovido pela preocupação de minha filha e já ia agradecer quando Paulinho saiu-se com esta:

- Eu quero ajudar o vovô. De hoje em diante o senhor não precisa me dar os cinquenta centavos do picolé. De cinquenta em cinquenta...

Tratei de mudar de assunto a fim de não dar oportunidade a meu neto de falar sobre a camiseta vermelha. Foi em vão. Parece que, de propósito, ele resmungou:

- Eu sei que o senhor anda vendo coisas esquisitas, não é verdade, vovô? E aquela história de camiseta ver...

Interrompi sua pergunta, virei para trás e fulminei-o com um olhar de cachorro bravo. Ele me entendeu e passou o resto do trajeto em silêncio. Preocupada na direção do carro, minha filha nada percebeu e o assunto foi encerrado.

Ao entrar em casa, fui direto à porta da cozinha, antes de ir ao banheiro, tal era a minha aflição e curiosidade. Lá estava ela, do mesmo jeito, tremulando como uma bandeira ameaçadora de piratas. Absorto pela visão aterradora, nem percebi a chegada do Paulinho que, cheio de malícia, falou baixinho:

- Aí, vovô, procurando a camiseta, não é? O senhor não desiste dessa história!

Assustado, repreendi-o mais baixo ainda.

- Quieto, menino tagarela. Não vê que sua mãe está ali na copa? Deixe-me em paz! Vá lavar as mãos para o lanche. Vá logo!

Durante o lanche, ficou resolvido que eu iria ao oculista assim que recebesse o pagamento de minha aposentadoria. Era minha última esperança de me livrar daquela maldita camiseta vermelha na janela do sobradinho.

Não admitia estar fraco de ideia, sei lá, de miolo mole, como insinuava meu neto. Agarrei-me à possibilidade de ter mesmo a catarata para conseguir esperar o dia da consulta. Prometi a mim mesmo não chegar à porta da cozinha com intuito de satisfazer minha curiosidade.

Passei a frequentar a cadeira da varanda onde ficava horas e horas lendo, pensando ou cochilando até a hora das novelas. Os dias tornaram-se mais longos, quase insuportáveis. Paulinho, que não era bobo, percebeu minha mudança de hábitos e, uma noite, assentou-se bem perto de mim e cochichou:

- Vovô, não fica nervoso. Mamãe já marcou a consulta. Aposto que é só uma operaçãozinha de nada e o senhor nunca mais vai ver aquela camiseta, está bem?                                                       

Quinze dia depois, fui submetido a uma cirurgia de catarata. Fiquei algum tempo de “quarentena”, à espera dos novos óculos como um náufrago perdido em alto mar, à espera de um navio salvador que o livrasse dos tormentos da fome, da sede e da impiedade do sol.

Finalmente, uma bela tarde, minha filha, ao chegar do trabalho, trouxe a caixinha com meu socorro visual. Ela e meu neto fizeram questão de presenciar o teste. Eu não reclamei por educação, mas detesto ser observado e analisado, porque não sou mais um galã e meu nariz é maior que o desejado.

Meio sem jeito, coloquei os óculos diante do espelho e fiquei parado sem saber o que dizer, tentando enxergar meu rosto e verificar o resultado da cirurgia. Esperei que um deles dissesse alguma palavra e não sabia mais o que fazer, se olhava de lá para cá, de cima para baixo. Nada acontecia, e o silêncio era total para meu desespero e aflição. Finalmente, meu neto resolveu dar o ar da graça e disse:

- Ó, vovô! Legal! O senhor está parecendo o Rui Barbosa!

Paulinho sempre me constrangia por seus palpites maliciosos. Minha filha, mais interessada na qualidade de minha visão que em minha aparência, sugeriu que fôssemos até a janela para que eu pudesse ver à distância.

- Janela, não – replicou meu esperto netinho. Vamos à porta da cozinha. É melhor. O senhor pode ver o sobradinho e aquela cami...

Antes de ela terminar a frase, saí depressa, seguido por minha filha, esbarrando nas cadeiras, tropeçando no tapete, ansioso pelo momento de provar que eu não estava maluco nem tampouco com a mente deteriorada pela idade.

Paramos na soleira da porta, os três, mudos e apreensivos. Vi o sobradinho e procurei a camiseta vermelha. Minha filha, que de nada sabia, perguntou-me se eu estava enxergando melhor, mas meu neto, percebendo minha desilusão, entrou na conversa e saiu-se com esta:

- Vovô, está vendo as janelas do sobradinho? O que o senhor está vendo em uma delas? É a mesma coisa que o senhor viu naquele dia?

Eu estava em tempo de desmaiar de tanta felicidade. Minhas pernas tremiam e meu coração batia descompassado, provocando-me um pouco de falta de ar. Foi com grande alegria e alívio que lhe respondi:

- Não, Paulinho. Deus seja bendito! Quer mesmo saber o que vejo lá na janela do sobradinho? Agora estou vendo um lençol vermelho balançando pra lá e pra cá. Meu Deus! Como eu estava cego!

Meu neto explodiu numa sonora gargalhada e correu para o quintal quase morto de tanto rir. Minha filha, assustada, abraçou-me ternamente, afagou-me a cabeça e, desconsolada, disse:

- Não ligue para o Paulinho, pai. Ele anda impossível. Sua visão está ainda bem boa. O senhor quase acertou. Aquilo não é lençol, pai. É uma cortininha vermelha, esquisita, que está lá há muito tempo. De longe, para quem não enxerga bem, eu juro que até parece uma camiseta vermelha!  

                                        
                                                 Nídia Maria da Costa Reis
                                                           21 / 07 /2007
.................
Nídia Maria da Costa Reis - Educadora, escritora, soma mais de cem pequenas histórias e poemas catalogados, além da coleção 12 provérbios e suas histórias que chegou à quarta edição e concorreu ao Prêmio Jabuti de Literatura. Aventuras de Gui Omar é seu trabalho mais recente.

* * *

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

APRENDA A CHAMAR A POLÍCIA...



"Eu tenho o sono muito leve, e numa noite dessas notei que havia alguém andando sorrateiramente no quintal de casa. Levantei em silêncio e fiquei acompanhando os leves ruídos que vinham lá de fora, até ver uma silhueta passando pela janela do banheiro. Como minha casa era muito segura, com grades nas janelas e trancas internas nas portas, não fiquei muito preocupado, mas era claro que eu não ia deixar um ladrão ali, espiando tranquilamente

Liguei baixinho para a polícia, informei a situação e o meu endereço.

Perguntaram-me se o ladrão estava armado ou se já estava no interior da casa.

Esclareci que não e disseram-me que não havia nenhuma viatura por perto para ajudar, mas que iriam mandar alguém assim que fosse possível.

Um minuto depois, liguei de novo e disse com a voz calma:

— Oi, eu liguei há pouco porque tinha alguém no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. Eu já matei o ladrão com um tiro da escopeta calibre 12, que tenho guardada em casa para estas situações. O tiro fez um estrago danado no cara!

Passados menos de três minutos, estavam na minha rua cinco carros da polícia, um helicóptero, uma unidade do resgate , uma equipe de TV e a turma dos direitos humanos, que não perderiam isso por nada neste mundo.

Eles prenderam o ladrão em flagrante, que ficava olhando tudo com cara de assombrado. Talvez ele estivesse pensando que aquela era a casa do Comandante da Polícia.

No meio do tumulto, um tenente se aproximou de mim e disse:
— Pensei que tivesse dito que tinha matado o ladrão.

Eu respondi:
— Pensei que tivesse dito que não havia ninguém disponível".


(Autor desconhecido)

Fonte: 


* * *

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O GOLEADOR TINDOLA E O GOLEIRO ASCLEPÍADES


O Goleador Tindola e 
O Goleiro Asclepíades

Crônica de Cyro de Mattos


O Janízaros era um dos times grandes do campeonato da Liga.  Um dos seus ídolos era o centroavante Tindola, apelidado de “Cabecinha de Ouro”, pelo cabeceio forte que sempre terminava em gol. Era um preto baixo, troncudo e musculoso. Fora responsável por vitórias maiúsculas do esquadrão azul e branco quando tudo parecia que estava perdido.

Quando o Janízaros jogava contra o Flamengo, os desportistas na semana não falavam em outra coisa pela cidade que não fosse o duelo entre os dois grandes times do futebol amador da Liga.  Surgiam comentários sobre o duelo à parte entre o centroavante Tindola, o implacável goleador no cabeceio, e o arrojado goleiro Asclepíades, o que tinha punhos de ferro e peito de aço.

Asclepíades era um preto forte, de estatura baixa para jogar no gol, mas saltava como uma fera esfomeada  para com as mãos fechadas  socar a bola. Saía  muito bem do gol, nas bolas cruzadas da intermediária  ou nas que vinham do escanteio. Havia sido um dos heróis da seleção amadora da cidade, que se sagrou campeã  no Torneio Intermunicipal Governador Antonio Balbino, disputado no Estádio da Fonte Nova, em Salvador. Fechou o gol na última partida contra a seleção de Alagoinhas.

O centroavante Tindola não resistiu ao soco que lhe desferiu o furioso goleiro Asclepíades no final da partida, em disputa pelo título do campeonato.  Ali mesmo na pequena área caiu estrebuchando. Foi levado às pressas para o hospital da Santa Casa de Misericórdia. E lá por vários dias permaneceu em observação pelos médicos de plantão, até que acordou no oitavo, a custo de muitas injeções e massagens no peito.

Um enfermeiro comentou mais tarde  com um dos torcedores do Janízaros que o centroavante Tindola,  também exímio cabeleireiro, em sua tenda instalada no Beco do Fuxico,  teve febre alta, suando muito quando deu entrada no hospital.  O quadro era  muito preocupante. Foi levado para a unidade de terapia intensiva, sem perda de tempo.

Quando retornou de lá para o apartamento, depois de alguns dias conseguiu com dificuldade pronunciar as primeiras palavras.  No delírio dizia com a voz trêmula:

          - Eu te perdoo, Asclepíades, meu caro amigo... mas não faça mais isso comigo... ainda quero criar meus filhos...

  Quando perguntaram ao Asclepíades, se não estava preocupado com a situação do Tindola, que dera para falar bobagens com os clientes, depois que saiu do hospital e retomou seu ofício de  cabeleireiro caprichoso  e barbeiro de navalha hábil,  na tenda “Gol  Cabeça de Ouro”,   ele respondeu que não via nada de mais no que tinha acontecido.

Afirmou com o rosto sério:

- Futebol é pra homem!” -  acrescentando:  -  Atacante que se cuide. Cara feia do Tindola ou de outro jogador atrevido, metido a goleador no cabeceio, nunca me meteu medo.
  
E, dando uma cusparada para o lado, com aquela cara feia que fazia quando partia para esmurrar a bola,  vinda na direção do atacante, em atenta posição para o cabeceio, finalizou:

- Na pequena área, atacante saia da frente, a bola é minha!


Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

* * *

sexta-feira, 7 de julho de 2017

O BARBEIRO, O PAPA E A REGULAMENTAÇÃO DAS PROFISSÕES – Raul Cânova

O barbeiro, o papa e a regulamentação das profissões 


Ontem fui cortar o cabelo (o que restou) e como sempre João me recebeu com um abraço. Somos amigos e às vezes confidentes já faz um tempo. Bem humorado, começou seu trabalho perguntando: Você conhece a anedota do barbeiro e o cara que foi a Roma? Não – respondi. - Então a estória é a seguinte: o cara vai ao barbeiro e começa o seguinte diálogo…

Cliente: Bom dia, Libertino!

Barbeiro: Ora, viva! Como está você?

Cliente: Tudo bem, tudo bem! Preparando minha viagem, vou a Roma amanhã, com minha mulher. Vê de deixar meu cabelo em ordem.

Barbeiro: Roma?! Xi! Que escolha, eh! Uma cidade suja, barulhenta cheia de turista pobre...

Cliente: É, minha mulher e eu queremos ver o Papa.

Barbeiro: O Papa? Tá bom! Vão vê-lo deste tamanhinho, desde a Piazza di San Pietro, quando saúda a multidão desde a janela – diz fazendo um gesto com a mão, enquanto segura o pente entre os dentes.

Cliente: Não importa, de qualquer maneira iremos vê-lo.

Barbeiro: Já comprou as passagens?

Cliente: - Sim, pela Alitalia.

Barbeiro: Alitalia?! Alitalia não renova a frota há tempos, nem as aeromoças, aff... São as mesmas da época da Sophia Loren. E o hotel? Já reservou o hotel?

Cliente: Sim, claro, vamos ficar no Sofitel.
Barbeiro: O Sofitel não é aquele da Via Veneto? Um prédio antigo, meio caindo aos pedaços?

Cliente: Libertino, acho que você está enganado, me falaram que é um hotel delicioso, muito fino.

Barbeiro: Sei não, tomara que dê tudo certo – disse o homem enquanto passava uma escova, depois de terminar com o corte.

PASSAM-SE QUATRO SEMANAS E O CLIENTE VOLTA AO SALÃO COM UM SORRISO MAROTO

Cliente: Como estão as coisas, Libertino? Tudo Bem?

Barbeiro: Tudo OK! Como foi de viagem?

Cliente: Ah, foi bom, sempre tem algum transtorno, mas foi tudo bem, tudo bem mesmo.

Barbeiro: Mesmo, mesmo?

Cliente: - Ô, quando chegamos a Cumbica, para embarcar na ida, sofremos com um overbooking.

Barbeiro: Não falei?!

Cliente: Sim, mas o pessoal da Alitalia nos ofereceu como compensação viajar na 1ª Classe, inclusive na volta, sem nenhum gasto extra. Foi fantástico: Risottos alla Milanese, acompanhados com bons vinhos como Brunello di Montalcino, aeromoças simpáticas, aliás, a companhia está com uma frota nova de Boeing 777, silenciosos e essas comissárias de bordo foram formadas recentemente e, apesar de jovens, meninas quase, são treinadíssimas e muito simpáticas.

Barbeiro: Humm... E o hotel, era velho como eu disse?

Cliente: É, o predio é de 1890, mas foi reformado há pouco e por dentro tem toda a tecnologia do século XXI. O problema é que quando chegamos não encontravam minha reserva.

Barbeiro: Ai!

Cliente: É, e o concierge, que era uma figura, um verdadeiro conde romano, arranjou a suíte presidencial para nós e ainda pediu mil desculpas. Incrível, foi uma espécie de segunda lua de mel, mas de poderosos!

Barbeiro: - E o Papa? Foram na praça para ver o Papa?

Cliente: - Não, fomos visitar o Vaticano bem cedo e aconteceu algo totalmente inesperado. Estava andando com minha mulher, conversando sobre as obras de arte do Museu do Vaticano, quando se aproximou um guarda suíço e falando baixinho pergunto se éramos brasileiros. Eu falei que sim, que éramos de São Paulo e ele confidenciou que Sua Santidade tinha acordado com o desejo de convidar brasileiros para seu desjejum. Ficamos surpresos, parecia um sonho. Tomar café da manhã com o Papa era demais! Mas era verdade, entramos nos aposentos papais e lá estava ele com um sorriso sabido, como se me conhecesse há tempos.

Barbeiro: E aí?– pergunta atônito, já com a tesoura quase caindo da mão.

Cliente: Aí nada. Foi tudo muito cerimonioso, tomamos o café em silêncio, nessas xícaras de porcelana de Limoges, tudo muito chique, com muita prataria, toalhas e guardanapos de linho...

Barbeiro: E ele, o Papa, não falou nada com você, nada?

Cliente: - Falou sim, chegou bem perto de mim e disse, em voz baixa e doce: 'Hummm, quem é o cretino imbecille que corta teu cabelo?"

Depois de umas boas risadas, que contagiaram as outras pessoas que estavam também cortando o cabelo, o João me disse que, piadas à parte, há muitos por aí que não honram a profissão do Fígaro, falando mais do que devem e cuidando mal das madeixas. Mas, segundo ele, tudo isto acabou depois de aprovar a lei que regulamenta a profissão de cabeleireiro, vinte dias atrás.

- Nós, cabeleireiros de verdade, sentimos orgulho de seguir os passos de Vidal Sassoon e de Lee Stafford.

- Quem são esses caras? – perguntei.

- Como quem são esses caras, Raul? O Vidal é uma eminência há um tempão e o Stafford é hoje, o mais famoso do planeta!

- Pega leve, João, aposto que nunca ouviu falar de John Brookes ou de Patrick Blanc.

- Lógico que já, ou você acha que não leio sobre jardins?

- Tá bom, Espero que, junto a outros colegas, possa sentir esse mesmo orgulho, quando aprovemos a regulamentação da profissão de paisagista.

- Ué, sua profissão não é regulamentada? Não é pra valer?

- Ainda não, João,

Na ANP, que é a Associação Nacional de Paisagismo, estamos trabalhando para que a lei seja aprovada.

- Puxa, nada mais justo!

- Abraço, João

- Abraço, Raul!

P.S. Piadas à parte, todos aqueles que, de algum modo, projetam espaços ambientando-os com vegetação e mobiliário específico para áreas externas, devem somar-se aos que trabalham para aprovar o Projeto de Lei 2043/11, do deputado Ricardo Izar (PV-SP), em tramitação na Câmara, que regulamenta a profissão de paisagista e passará a ter registro próprio expedido pelo Ministério do Trabalho.

Autor: Raul Cânovas




* * *


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

HISTÓRIA DE ITABUNA: A HONRA NAQUELES TEMPOS - Oscar Benício dos Santos

A honra naqueles tempos


Estamos no início do século passado. Itabuna parcialmente às escuras, tinha seus bairros, ou melhor, suas ruas de melhores edificações iluminadas, juntamente com as residências, por motores a diesel. Estas máquinas ficavam na conhecida Usina de Luz e era manobrada por trabalhadores da região sob a direção de um homem correto e honesto pai de família.

Por desconhecer o nome do chefe da Usina, vou tratá-lo por Compadre, como meu avô o chamava, pois havia batizado uma de suas filhas.

Este senhor passava as noites praticamente às claras na Casa da Luz – como a maioria dos habitantes de Taboquinhas a conhecia.

Vizinho à Usina morava um casal de lindíssimas moças casadoiras, as quais cuidavam mais de se casarem do que qualquer outro afazer. Das três jovens, a mais velha e desinibida, apiedou-se da solidão do Chefe da Usina e resolveu, às escondidas dos pais, fazer companhia, com suas conversas cativantes, ao compadre do meu avô. Conversa vai, conversa vem, até que uma noite ela deixou de conversar e ele de ouvir. O esperado aconteceu...

Naquela época o defloramento era crime tão grave quanto o homicídio e só era reparado com o casamento ou prisão.
O Compadre homem de certo preparo e conhecimento, sabedor do delito que havia cometido, refugiou-se na casa do meu avô materno, Manoel Amâncio da Silva – Escrivão do Júri e Tabelião da Comarca de Itabuna –, pedindo guarida. O destacamento de policiais comandado pelo Delegado o não encontrando na residência, foi procurá-lo na casa do meu avô, pois sabia da amizade entre os dois.

O Velho Manoel da Silva, coronel da Guarda Nacional, recebeu carinhosamente o amigo e o fez sentar-se ao lado direito da cabeceira que ocupava, defronte ao meu pai, Coronel Francisco Benício dos Santos, seu genro, que há pouco chegara. Mandou o Delegado entrar e com a solenidade que a reunião pedia, levantou-se e, apontando a cadeira na outra cabeceira, pediu ao policial para se sentar.

Um diálogo seco entre meu avô e o Delegado prolongou-se por intermináveis minutos para o deprimido Compadre, o qual, percebendo que estava irremediavelmente perdido, sacou do coldre, na cintura, a pistola e apontando-a para o próprio ouvido, numa questão de segundos disparou-a, deixando a cabeça ensanguentada tombar sobre o braço esquerdo.

Horrorizados os circunstantes, boquiabertos observavam o olhar opaco do morto, que só é guardado pelos suicidas. Meu avô interpretou aquele olhar como um pedido de perdão aos seus, que ele deveria levar à mulher e às filhas.

Assim tratava-se a honra naqueles tempos...

 ----------

Oscar Benício dos Santos - nasceu em Itabuna BA no dia 08 de dezembro de 1926, filho do desbravador de Itabuna e historiador Francisco Benício dos Santos e de dona Adelaide. Estudou em Itabuna e depois em Salvador no Instituto Baiano de Ensino e no Colégio Maristas. Fez o curso de Odontologia na Faculdade Federal da Bahia. Ao se formar montou consultório em Salvador e também cuidava  das suas fazendas de cacau em Itabuna e de gado em Itaju do Colônia. Hoje reside na sua Fazenda Guanabara em Itabuna. É autor do livro CACAU EM VERSOS lançado com grande sucesso na 1ª Feira Universitária do Livro da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC no dia 21/10/2013 

* * *

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

DEUS, SAÚDE E DINHEIRO – João de Paula

Deus, Saúde e Dinheiro

É a base para  manter o equilíbrio  e uma vida longa.

O que eu faço sem Deus?
O que eu faço sem Saúde?
O que eu  faço sem Dinheiro?

Há o ateu, mas alguém acaba acreditando em alguma coisa, ou na razão superior, ou no superior racional, o Deus.
Há quem tem boa saúde, vida boa, boa vida, que entra e sai em qualquer lugar esbanjando saúde.

Na verdade,  com saúde a gente vai longe, chega longe, pode contemplar a própria vida mais feliz e caminha avante.
Há quem diga que não precisa de dinheiro para viver e sobreviver; que o dinheiro não é tudo; que para ser feliz não precisa de dinheiro, a moeda corrente que faz a maioria das pessoas comprar e adquirir o que bem quer.

O certo é que o homem para ser feliz tem que eliminar a doença, a pobreza e o conflito; e buscar vivenciar a paz, a saúde e a prosperidade na sociedade em que vive,  no meio social ou em qualquer parte deste planeta. O homem  vai precisar de dinheiro e saúde. Pode até não acreditar em Deus, mas Deus acredita nele, em você, em todos nós.

Agora, com Deus, com saúde e dinheiro tudo fica mais fácil para obter o que almejamos. Obter a boa fama, obter a casa dos sonhos, a joia, o livro, o carro, o jardim, a vida e a beleza. Obter o melhor espaço na mansão dos mortos.

É claro que devemos cuidar dos dois campos: o material e o espiritual, para que possamos ser fortes e compreender melhor alguns encontros e desencontros, cantos e desencantos, flores e cores, realizações e desânimos, amigos e invejosos, sucesso e insucesso, morte e vida.

A verdade é que todos buscam  a satisfação e a realização pessoal; buscam saltar de felicidade algum dia, buscam a boa fama, a posição social, o reconhecimento e o destaque dos seus atos e ações em vida.

Vários são os valores morais e espirituais  que são agregados a estas metas e focos.  É claro que o conceito de felicidade, sim, não, gozo, realização pessoal, céu,  prosperidade e de ser o possuidor de bens materiais varia de pessoa para pessoa.

Neste sentido,  pautado na fé em Deus, onde vamos ampliar o amor, a esperança, a justiça,  a humildade, a tolerância, a confiança e o perdão; a nossa visão de vida ampla tem outro significado mediante a cultura espiritualista que aprendemos para uma vida longa e com o respeito pela  arte de viver bem, em  fazer o outro feliz, lutar pelo amor a humanidade.

É claro que a boa saúde é fundamental em todas as idades, para chegarmos bem com o exemplo de vida, para avançar, para ser firme e forte mediante as intempéries da vida.
Basta imaginar que o homem sem saúde não vai muito longe, não. Nem pode inclusive saborear os alimentos; e cada coisa tem o seu sabor todo especial.

A economia tem sido a base da prosperidade, porque quem  poupa sempre tem suas reservas financeiras. É muito bom poder comprar tudo aquilo que podemos comprar para o nosso prazer e felicidade, vez que, o homem foi feito para ser feliz.

Os templos as virtudes devem ser erguidos, por homens livres e de bons costumes, com Deus, saúde e dinheiro, para tornar suas ações duradoras  e exemplares.

O que eu faço sem Deus?
O que eu faço sem Saúde?
O que eu  faço sem Dinheiro?

É  preciso ter uma formação educacional  ampla, uma visão das coisas materiais e espirituais, bem como treinamento, preparação e aprimoramento, para poder aceitar certas coisas da vida e compreender melhor porque o imprevisto não manda aviso prévio.

Todos almejam bonança, bondade, prosperidade, beleza, flores, amores, cores, sucesso e um livro da vida com perfeição, com virtudes, com bons exemplos, com passos a ser seguidos.

Agora, sem Deus, sem dinheiro e sem saúde o homem não chega muito longe, não.

Faça sua experiência e veja que cada ação, cada projeção, cada iniciativa exige uma boa visão, uma boa educação, uma boa formação, uma boa determinação e força de trabalho que com Deus, saúde e dinheiro vogam muito mais. 


João Batista de Paula 

Escritor e Jornalista

* * *

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

RUA ALAGOINHAS 33, RIO VERMELHO, SALVADOR >BAHIA > BRASIL! - Eglê S Machado

Clique sobre as fotos, para vê-las no tamanho original
A Casa do Rio Vermelho


Dia 13 de janeiro de 2017 fui visitar meu médico.

Depois tinha um endereço me esperando: RUA ALAGOINHAS 33.

Com muito gosto, eu e minha filha, mais dezenas de turistas visitamos a casa do Rio Vermelho, onde viveu o amado Jorge Amado com sua musa Zélia Gattai, uma bela história de amor!

A linda casa, lugar de aconchego do casal de escritores acolhe e encanta. No jardim, sob uma mangueira repousam suas cinzas.

Visita Guiada por gente bem preparada,  detalhando maravilhas!

Tudo ali permanece impregnado de vida:  sala de estar, cozinha,  piscina,  biblioteca,   armários,  dormitórios...  Cada cômodo ali tem uma história, até o  quintal recende os Amado!

A antiga máquina de escrever e os óculos do escritor protegidos por vidraças, a grande estátua de Iemanjá do alto nos observando, obras de arte de grandes artistas, cartas trocadas, cartas de amigos - tantos tesouros no pequeno museu revelam o cotidiano do casal...

No arvoredo do jardim vicejante  canta a passarada.  Jorram fontes, peixinhos brilham, jabutis ‘correm’, pipocam flashes das câmeras fotográficas!

É a vida que ali está e segue...

E a ininterrupta brisa mansa parece dizer repetidamente:

Sejam bem-vindos! Voltem sempre!...


Eglê S Machado
Academia Grapiúna de Letras-AGRAL
13/01/2017



------------
Veja fotos abaixo:
 
 
 
 
 
 
 

* * *