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quarta-feira, 1 de julho de 2020

2 + 2 = X? - Paulo Roberto Campos

1 de julho de 2020

Paulo Roberto Campos

Está em voga certa pedagogia moderna, segundo a qual não se deve mais, como antigamente, corrigir — e muito menos reprimir — os erros cometidos pelos alunos, pois “poderia provocar traumas”.

Resultado dessa enganosa pedagogia: alunos de diferentes etapas do ensino fundamental são considerados “analfabetos funcionais”. Eles não entendem o texto que lêem, não sabem sequer interpretar uma única frase — entendem palavras soltas, mas não a expressão completa. Não sabem sequer as operações fundamentais de matemática.

Comento isso porque ontem recebi de um amigo carioca um vídeo que, de modo bem didático e cômico, ironiza a situação em que fica o aluno “protegido” por pessoas (às vezes até pelos pais…) que defendem a tese de que não há uma só verdade, mas verdades diferentes (sic!), “verdades alternativas”…, como a de que 2 + 2 são 22 (ou qualquer outro resultado).

E o professor que não aceita o resultado relativista e corrige os erros dos alunos poderá ser acusado de “politicamente incorreto”, extremista, fascista, por querer lhes impor “sua particular visão de mundo”. E sob acusação de “doutrinar e radicalizar os alunos”, o professor “nazista” poderá ser demitido do colégio.

Esse caso entre professor/aluno é apenas um exemplo. Tal relativismo se estende a todos os campos, como o da moral. Hoje, assim como se ensina que a verdade não é única, leciona-se que não há uma única moral, que se pode ir mudando a moral ao longo dos tempos. Entretanto, não acreditar que a moral é imutável é aceitar que a verdade é mutável, ou seja, mentira. E não passa de um ignorante troglodita aquele que nela crê. Daí a consequência: a perseguição aos “intolerantes” que ensinam logicamente que o resultado de 2 + 2 só pode ser 4.

Será que o tal do tão badalado “novo normal” dentro de uma “Nova Ordem Mundial” — da qual tanto se fala a propósito da atual pandemia — é aceitar como normal a ilogicidade, o absurdo e até aberrações?

A continuar assim, aonde vamos parar? Certamente, se não reagirmos, no tribalismo indígena, por meio de uma verdadeira Revolução Cultural, infelizmente já em curso.
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Postscriptum: Vale muito a pena assistir ao criativo vídeo que segue — a resposta final da professora é, além de divertida, brilhante!





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terça-feira, 30 de junho de 2020

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS ESTREIA NOVO CICLO DE PODCASTS INTITULADO "PENSANDO O NOVO NORMAL"


Academia Brasileira de Letras inaugura o ciclo de podcasts "Pensando o novo normal", gravado por seus acadêmicos e que abordará as relações entre a pandemia e as diferentes áreas do conhecimento humano. O primeiro episódio foi gravado pela Acadêmica Nélida Piñon e estará disponível para os ouvintes a partir das 16h da próxima quarta-feira, dia 1º de julho. O tema escolhido foi "Pandemia e Literatura". A apresentação será feita pelo presidente da ABL, Marco Lucchesi, e a coordenação-geral do ciclo cabe ao Acadêmico Antônio Torres.

 

Durante a emissão, a Acadêmica faz uma reflexão sobre como será a literatura no mundo pós-pandemia: “O que vai acontecer com a arte? Que tipo de arte nós vamos fazer? Eu diria que vamos fazer a arte que sempre fizemos. A arte brota das instâncias humanas, dos domínios da língua, dos domínios da sensibilidade, daquilo que nós somos hoje e fomos no passado, pois de verdade tudo aquilo que a gente diz ou cria hoje corresponde a um acúmulo de informações e de sensibilidade que vieram do passado. Nós somos um produto do grande caos humano.”

 

Estão previstos, até o final de setembro, mais 14 episódios, sempre apresentados às quartas-feiras. Todos os podcasts gravados ficarão disponíveis no site da Academia, assim como nas plataformas de streaming Spotify, Apple Podcasts, Deezer e Castbox.

 

 30/06/2020

 

http://www.academia.org.br/noticias/academia-brasileira-de-letras-estreia-novo-ciclo-de-podcasts-intitulado-pensando-o-novo

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ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: A MOSCA AZUL – Machado de Assis


 A Mosca Azul 
Machado de Assis


Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Industão,
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,
Em certa noite de verão.


E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua, - melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.


Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
“Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
 Dize, quem foi que to ensinou?”


Então ela, voando, e revoando, disse:
- “Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor.”


E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo,
E tranquilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.


Entre as asas do inseto, a voltear no espaço,
Uma cousa lhe pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço

 E viu um rosto, que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu,
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vichnu.


Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo, as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.


Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios,
Voluptuosamente nus.


Vinha a glória depois; - quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e o parabéns unidos
Das coroas ocidentais.


Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.


Então ele, estendendo a mão calosa e tosca,
Afeita a só carpintejar,
Como um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.


Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.


Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.


Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil,
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.


Hoje, quando ele aí vai, de aloé e cardamomo
Na cabeça, com ar taful,
Dizem que ensandeceu, e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.


  (Ocidentais, in Poesias completas, 1901.)

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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome do autor de O Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.

Fonte: ABL

MAIS VALE MORRER DO QUE VIVER NUMA TERRA DEVASTADA E SEM HONRA - Pe. David Francisquini

30 de junho de 2020
Pe. David Francisquini

Um brasileiro pouco afeito à grande mídia esclerosada é capaz de relacionar a suspensão da prisão em 2ª instância com certos crimes e, sobretudo, com certos criminosos… Ele procura em via de regra pensar bem, luta por uma sociedade sadia, ancorada em valores e instituições de índole cristã que pautaram a vida social e política do Brasil desde o seu nascedouro.

Com efeito, esse brasileiro nunca se afirmará de esquerda ou progressista, pois ele é naturalmente bondoso, cordato, além de criativo e empreendedor, sentindo-se bem ao cultivar nossos valores religiosos e familiares. Ele se encontra nas antípodas de uma minoria que tendo haurido um espírito alienígena de revolta, de ódio e de ressentimento, se define esquerdista, socialista, comunista, e até mesmo anarquista.

A nossa velha e esclerosada mídia parece ter desempenhado papel importante nesse longo processo de envenenamento dessa parcela da população, ora desacreditando pessoas de bem e verdadeiros patriotas que anelavam e lutavam por um País melhor rumo ao seu autêntico progresso, ora imputando-lhes inverdades ou suspeições — hoje diríamos fake news — a fim de criar um caldo de cultura falso como arma de propaganda de guerra psicológica revolucionária.

Vem-se falando muito de agendas — agenda ecológica, agenda homossexual, agenda política… Qual a fonte dessas agendas? Quem as faz? Há uma central da esquerda internacional formada por estudiosos de um falso ideal encarregados de compô-las? Com efeito, tais agendas não podem ser um fruto espontâneo da natureza. Quem as manipula apresenta uma ‘bula’ esclarecendo onde, quando e como elas devem ser aplicadas? Diante do conservadorismo brasileiro, como proceder? Quais setores devem ser atacados em primeiro lugar? Existe um cronograma? As perguntas poderiam se multiplicar…

Convido o leitor a analisar um ponto apenas da nossa — chamemo-la assim — agenda judiciária. Em 7 de novembro de 2019, dia em que o STF oficializou a suspensão da prisão em 2ª instância para favorecer a soltura de Lula, a esquerda comemorou o fato. Mas não parece mera “coincidência” o fato de esse dia ser também comemorado pelos bolchevistas que se serviram de criminosos soltos expressamente para atacar e dizimar populações inteiras. Isso já havia acontecido na Revolução Francesa.

O Livro Negro do Comunismo narra com cores sinistras toda a criminalidade perpetrada por essa ideologia. Foram 61 milhões de pessoas assassinadas na Rússia, além de mais 78 milhões na China, para implantar o regime comunista despótico, cruel e antinatural. Ainda hoje vemos a perseguição à Igreja na China, membros do clero e fiéis sendo presos e igrejas destruídas, enquanto no Ocidente grassa a propaganda para tentar quebrar a harmonia entre os poderes constituídos e assim fomentar o descrédito e a divisão da ala conservadora e anticomunista.

Há mais. O Partido Comunista Chinês vem se intrometendo na vida interna das nações, desrespeitando suas soberanias. Às vezes eu me pergunto se esse coronavírus não faria parte da ‘agenda chinesa’ para impor a sua dominação.  O mais triste e perplexitante é ver até mesmo altas autoridades eclesiásticas colaborarem com o regime chinês nesse non sense jamais imaginado.

O que nos vem deixando igualmente perplexos no curso da presente epidemia é o favorecimento que uma parte do Judiciário a alguns governadores e prefeitos no sentido de atender a agenda da esquerda, em detrimento do governo federal e dos mais lídimos interesses do Brasil, no que foram coadjuvados pelo Legislativo, que abriu as comportas do erário sem pensar no futuro que nos aguarda.

Por outro lado, enquanto todos se dizem empenhados em defender vidas, no Congresso Nacional tentam aprovar a matança de inocentes com a prática abortiva; enquanto as pessoas de bem são confinadas para poupar vidas, bandidos e assassinos são soltos para atentar contra as vidas. Morros que são esconderijos de armas pesadas não poderão ser revistados durante a pandemia, enquanto jornalistas, blogueiros e manifestantes conservadores são arbitrariamente revistados e presos.

Estará a esquerda preocupada com a saúde, ou antes, está empenhada em conduzir o Brasil para o caos? Soltar criminosos em razão do vírus chinês não constitui um eventual perigo de uma guerra fratricida? Por que teria o Judiciário proibido o Exército e a Polícia de investigar os morros?  Que relação há entre drogas, crime organizado, tráfico de armas pesadas e toda a incessante movimentação da esquerda de cerceamento do governo federal?  Por que ainda se dificulta a posse de armas aos homens de bem?

Se tudo isso acontece no Brasil, por que permite Deus tão tremenda provação? Por que o episcopado nacional, em vez de manifestar seu zelo pelas almas atraindo-as para Deus, fecham as portas dos templos, parecendo mais preocupados com a saúde do corpo do que com a da alma? Por que não elevam suas preces aos céus a fim de pedir a Deus que perdoe os nossos pecados?  Para se entender um tanto o que está acontecendo, citaremos II Crônicas, VII -12, que aconselha:

“O Senhor apareceu-lhe [a Salomão], de noite e disse: Ouvi a tua oração e escolhi para mim este lugar para casa de sacrifício. Se Eu porventura fechar o céu e não cair chuva, mandar e ordenar aos gafanhotos que devorem a terra, mandar a peste ao meu povo; e o meu povo sobre o que foi invocado o meu Nome, convertendo-se, me rogar, buscar a minha face, fizer penitência dos seus maus caminhos, eu também o ouvirei do Céu, perdoarei os seus pecados e purificarei a sua terra. Os meus olhos também se abrirão e os meus ouvidos atenderão a oração daquele que orar neste lugar; porque eu escolhi e santifiquei esse lugar a fim de estar o meu nome para sempre, os meus olhos e o meu coração estarem fixos para sempre.”

Como podemos constatar, duas décadas de regime de esquerda produziram uma nefasta transformação no Brasil. Aparelharam-se instituições, e, sobretudo, por meio da infiltração comunista, os próprios meios católicos foram contaminados. É hora de conclamar o povo brasileiro a lutar, a exemplo do que sempre fez o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em sua incansável cruzada, a qual marcou indelevelmente a história do século XX e reverberará pelos séculos futuros.

Se hoje o conservadorismo viceja no Brasil, deixando estonteadas as forças do mal, é porque tivemos um homem de pensamento e ação contra-revolucionária que, por meio das caravanas de propagandistas da TFP, fez ecoar em todos os rincões deste país-continente o brado de inconformidade dado outrora por Judas Macabeu, mais vale morrer do que viver numa terra devastada e sem honra!

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* Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).


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segunda-feira, 29 de junho de 2020

O DIA EM QUE SHAKESPEARE ESTEVE EM PERNAMBUCO - Evaldo Cabral de Mello

Nos anos 50, o professor de Teoria Geral do Estado na Faculdade de Direito do Recife era Samuel MacDowell, que estudara em Oxford, onde, devido à sua compleição morena, representou Otelo no espetáculo montado pelos colegas. Isolado na casa-grande do engenho, ele dedicou-se a traduzir os sonetos de Shakespeare. Como costumava narrar nas mesas boêmias dos bares do Recife, eis que, em certa noite em que trabalhava em seu gabinete, apareceu-lhe o próprio Shakespeare, envolto numa auréola. Deu-se, então, o seguinte diálogo:

Shakespeare: — Samuah, Samuah, que estás tu a fazer a estas horas mortas?

MacDowell: —Will, estou a te traduzir.

Shakespeare apanhou, então, uma das folhas que se achavam sobre a escrivaninha, leu-a demoradamente, para finalmente sentenciar: “Samuah, Samuah, se um dia eu tivesse de me exprimir em tão rude idioma, o faria precisamente assim”. Dito o quê, Shakespeare desapareceu na auréola que o trouxera até Pernambuco.

Nunca me intrigou o aparecimento de Shakespeare, porque é conhecida a sua predileção pelos fantasmas e nada impedia que se transformasse em um deles e cruzasse o Atlântico. Intrigavam-me, contudo, primeiro, a intimidade com que os interlocutores se tratavam, e também o fato de Shakespeare conhecer a língua portuguesa. Tanto que se manifestara enfaticamente sobre a qualidade do trabalho de MacDowell.

O Globo, 27/06/2020


Evaldo Cabral de Mello - Oitavo ocupante da Cadeira n.º 34 da ABL, foi eleito no dia 23 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico João Ubaldo Ribeiro, e recebido no dia 27 de março de 2015, pelo Acadêmico Eduardo Portella.

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SÃO PEDRO E A CHAVE DO CÉU E A DA TERRA – Plinio Corrêa de Oliveira

29 de junho de 2020 
Neste dia 29 de junho a Santa Igreja celebra a festividade de São Pedro e São Paulo. Em memória desta importante comemoração — hoje tão diminuída e abafada devido ao processo de autodemolição da Igreja promovido pela própria autoridade eclesiástica —, transcrevemos a seguir trecho de uma conferência de Plinio Corrêa de Oliveira de 11-11-1988. 

“Bem no meio da praça de São Pedro, chama a atenção um obelisco — agulha de pedra muito alta, coberta de inscrições egípcias. Os faraós mandavam erigir obeliscos narrando os fatos do reinado deles, ou coisas do gênero. O Egito foi a mais gloriosa das nações antigas, e a Grécia formou grande parte de sua cultura aproveitando elementos da cultura egípcia. Os romanos, por sua vez, inspiraram-se em larga medida na cultura da Grécia. 

Assim, um obelisco no centro daquela praça romana tem muito significado. No alto do obelisco foi colocada uma cruz, simbolizando assim o triunfo da Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre o mundo inteiro. 

E a ideia que preside o conjunto da praça e da Basílica de São Pedro é a representação de uma chave. É muito significativa tal representação em forma de chave, lembrando as chaves do Apóstolo São Pedro –– a chave dos Céus e a da Terra –– o poder exercido no Reino do Céu e, indiretamente, no Reino da Terra!”




domingo, 28 de junho de 2020

RETROCESSOS MONSTRUOSOS – Péricles Capanema

28 de junho de 2020
Péricles Capanema

Temos às pencas regressões sociais desconhecidas da maior parte das pessoas, às vezes esquecidas, por vezes subestimadas. São fracassos medonhos, lesivos ao bem comum. E assim, ao longo das décadas e séculos, empobreceram a sociedade, dificultaram a inclusão, a mais de fechar horizontes da promoção (perfeição) social. Por imperativo de justiça, reclamam resgate do olvido imerecido, que começa pelo conhecimento. Reitero, convém trazê-los de volta à luz, para fruição, instrução e proveito popular. Bem vista, essa revivescência é benemérito ativismo social. Todos perdem com tais esquecimentos (qualificação benévola, existem ocultações e deformações intencionais).

Vou falar em especial de um deles, hoje perdido em desvãos da História. Antes, poucas linhas de útil recordação sobre a relevância da exemplaridade. Tratei faz pouco, pela rama embora, do papel social dos “role models”, exemplos e padrão para milhões. Bafejando comportamentos, são fundamentais para formar mentalidades, favorecer doutrinas, promover condutas. Governam no mais alto sentido da palavra. Pois governar não é sobretudo abrir estradas e construir pontes; é em primeiro lugar dirigir pessoas. Dirige-as quem influi nas convicções, mentalidades e hábitos morais.

É difícil a tradução de “role model” para o português; seria modelo ou modelo social. Aliás, é exatamente esse o papel de um santo canonizado, servir de modelo, padrão, sugerir rumos, trabalhar mentalidades. O “role model” dos nossos dias em regra é versão apequenada, desnaturada, laicizada e aguada do santo.

Assim define o “Business Dictionary” [Dicionário dos Negócios] o “role model”: “São pessoas para as quais se olha e se reverencia. Um modelo social é alguém que os outros desejam imitar, seja agora, seja no futuro. Um modelo social pode ser alguém que você conheça, relacione-se normalmente com ele, ou alguém que você nunca encontrou, como uma celebridade. Modelos sociais podem ser atores conhecidos, figuras públicas, políticos, professores, policiais, pessoas importantes da família”.

Modelos sociais são ou foram Gandhi, os Beatles, Elvis Presley, Che Guevara, Bill Gates, Pelé, a princesa Diana e ainda numerosos influencers atuais. Um tio seu, leitor, admirado na família. Uma prima, leitora. “Quero ser como fulano”, é grito interior de sem-número de pessoas. Modelos sociais influem no caminhar da sociedade (involuções ou avanços), cada um a seu modo e título, cada um atuando em especial sobre certa faixa do público. Seu tipo humano se torna objetivo atraente naquela faixa da realidade. É corrente, a irradiação de sua personalidade, ligada ao fascínio que exercem, muitas vezes ultrapassa a influência de chefes de governo ou de Estado, mesmo de grandes potências. Podem atrair para o bem, hoje pouco comum, podem puxar para o mal, o que é mais frequente.


Luís XIV (1638-1715) é considerado a personificação do monarca absoluto. Dele teria sido a frase, pronunciada em 1655, “L’État, c’est moi” (o Estado sou eu). Nunca a disse; pelo contrário, pouco antes de falecer, afirmou: “Morro, mas o Estado permanece”. Ninguém nega, contudo, Luís XIV governou com autoridade, exerceu com desembaraço o mando. “Le métier du roi est grand, noble et délicieux”. Essa é dele; para o monarca o ofício do rei era grande, nobre e delicioso. Marcou a França, marcou sua época, foi modelo para soberanos. Não analisarei sua política, nem seus acertos e erros. Meu foco é aspecto pouco destacado, facetas de seu tipo humano, inspiradoras de comportamentos e formadoras de mentalidade. A descrição de que me valho é de Hyppolite Taine (1828-1893), dos maiores historiadores franceses, está nas páginas do seu livro “Les origines de la France contemporaine” [capa acima]; dela vou retirar apenas as referências para tornar mais fluente a leitura. Hoje é fácil encontrar a obra na rede e baixá-la — está no domínio público.

“Luís XIV tinha todas as qualidades de um mestre de casa, o gosto da representação e da hospitalidade, a condescendência e a dignidade; a arte de não ferir o amor-próprio das pessoas, a arte de ficar sempre em seu lugar, a galanteria nobre, o tato, o atrativo do espírito e da linguagem. Falava perfeitamente bem; quando era preciso tinha a linguagem leve; quando necessário, o gracejo. Se narrava uma história, fazia-o com enorme encanto, um tom nobre e fino, que só vi nele. Nunca houve homem mais naturalmente polido, nem com uma polidez tão bem medida, tão bem graduada, ninguém distinguia melhor nas respostas e na maneira de ser a idade, a condição social e o mérito. Suas reverências, mais ou menos marcadas, sempre discretas, tinham uma graça e uma majestade incomparáveis. Era admirável pela forma diferenciada de receber homenagens à frente das tropas e ainda nas revistas. Sobretudo no tratamento das mulheres, nada havia de semelhante. Nunca passou diante da mais simples empregada de quarto sem tirar o chapéu e sabia a quem cumprimentava. Nunca disse nada depreciativo para ninguém. Nunca em sociedade comentou alguma coisa fora do lugar ou deslocada. Até no menor gesto, no caminhar, no porte, na postura, tudo medido, decente, nobre, grande, majestoso e, contudo, muito natural”.

Taine conclui: “Eis o modelo. De perto ou de longe, foi seguido até o fim do Antigo Regime”. Sabe-se que Luis XIV morreu em 1715, o Antigo Regime acabou com o triunfo da Revolução Francesa em 1789. De fato, Luís XIV incarnou em alto grau um ideal de perfeição social, que marcou o Antigo Regime. Em especial, tal ideal social moldou a educação dos príncipes, a formação do “honnête homme”, o homem de sociedade. Tendia a se generalizar; sua perenidade e aperfeiçoamento gradual estimulariam avanços civilizatórios, dos quais o mundo se viu privado. Com o fim do Antigo Regime, atacada e vilipendiada pelas correntes revolucionárias, em análise rápida, sobraram destroços de tal padrão de convívio, ainda que por vezes enormes. Multidões durante séculos estiveram excluídas de formas mais perfeitas de vida social, acostumando-se com a degradação nas relações humanas. Decadência atroz — minimizada.

Esse mesmo espírito, aninhado no fundo da doutrina e da mentalidade das formações revolucionárias, manifestou-se repetidas vezes ao longo da História, gerando miséria e exclusão. Dois exemplos. Um grande cientista — nascido na nobreza de toga (durante a Revolução Francesa, renunciou ao uso da partícula de, própria à nobreza; aliás, pouco lhe adiantou) —, hoje por vezes chamado de “pai da química moderna”, Antoine-Laurent de Lavoisier (1743-1794) foi condenado à guilhotina por tribunal de exceção da Revolução Francesa. Pediu alguns dias de adiamento da execução, queria terminar; solicitação negada. Resposta emblemática de Jean-Baptiste Coffinhal, presidente do Tribunal Revolucionário: “A República não precisa de sábios”. Lavoisier foi guilhotinado em 8 de maio de 1794. Arremeteu irado contra o crime hediondo Louis de La Grange, dos maiores matemáticos da época: “Morreu Lavoisier, só lhes custou um segundo cortar a cabeça, cem anos talvez não sejam suficientes para que apareça uma parecida”. Quanto perdeu o mundo? Quanto perderam os pobres em qualidade de vida? Retrocesso desumano — silenciado.


Outros fatos, de mesma natureza. No Brasil, animadas pelo mesmo fanatismo, mulheres do MST (uma das vanguardas da atrofia social entre nós), em pelo menos duas ocasiões, pelo que me lembro agora, 2006 e 2015, foram discípulas modelares de Jean-Baptiste Coffinhal. Em março de 2006 em Barra do Ribeiro, a 60 quilômetros de Porto Alegre, destruíram pelo menos um milhão de mudas de eucalipto em laboratório [foto ao lado] de propriedade da Aracruz Celulose. Renato Rostirolla, gerente florestal, lastimou: “Há trabalhos de 20 anos de melhoramento genético que foram destruídos. Se fôssemos realizar todos os cruzamentos, levaria no mínimo cinco ou seis anos. Alguns nunca mais serão possíveis, porque as matrizes foram destruídas”. Vandalismo semelhante foi perpetrado em Itapetininga, março de 2015, também por mulheres capitaneadas pelo MST, agora na Futura Gene, empresa do grupo Suzano. O gerente Eduardo José de Mello lamentou: “Perdemos alguns anos de desenvolvimento tecnológico”. Segundo a empresa, 14 anos de pesquisas foram destruídos.

Os setores que espatifam com delícias intolerantes milhares e até milhões de mudinhas escolhidas de eucalipto, prenúncios de porvir melhor, de forma congruente, simpatizarão com a decapitação criminosa de Lavoisier; e não perceberão problema algum, acharão é bom, que a alta educação de Luís XIV seja depreciada e finalmente desapareça como fator de aperfeiçoamento social. Inimigos do crescimento, obstruem os caminhos da subida e o povo é a maior vítima.

Post-scriptum: tais setores não têm apenas manifestações extremadas; correntes de opinião numerosas ingeriram prazerosamente doses graduadas de tal veneno.


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