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sábado, 23 de maio de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA, UM POEMA: Maria da Pandemia - Roberto Malvezzi (Gogó)

Maria da pandemia
Roberto Malvezzi (Gogó)


Maria da Pandemia,
Rogai pelos que estão entubados nos hospitais,
Buscando um pouco de ar para sobreviver,
Agonizando e morrendo na solidão.

Rogai por seus familiares e amigos,
Nessa hora de angústia,
Quando a dor é maior.
E a esperança menor.

Rogai pelos médicos, enfermeiras,
Profissionais da limpeza, religiosos,
Todos os que cuidam dos contaminados.

Livrai-nos da indiferença e dos indiferentes,
Dos adoradores da morte,
Dos que celebram as desgraças alheias,
Dos que deveriam ser os primeiros em responsabilidade
E se colocam de forma fria e sórdida diante desses tormentos.

Rogai para que Deus ilumine os cientistas,
Que seja encontrado rapidamente um caminho
Para neutralizar a ação do vírus.

Quando tudo passar,
Que o ar permaneça limpo,
Que as águas permaneçam puras,
Que as florestas permaneçam em pé,
Que nossas ruas tenham o silêncio da paz,
Que nosso céu permaneça azul
Que todas as formas de vida continuem celebrando sua liberdade
Que a humanidade aprenda que a Terra não é lugar só da humanidade.
Que todos vivemos em uma Casa Comum

Amém!


Roberto Malvezzi (“Gogó”), nasceu em 1953, no município de Potirendaba, São Paulo. É graduado em Estudos Sociais e em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, em São Paulo. Também é graduado em Teologia pelo Instituto Teológico de São Paulo.

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sexta-feira, 22 de maio de 2020

MENSAGEM DE UMA ELEITORA DO BOLSONARO PARA SEU PAI ESQUERDISTA


"Sabe, papai...
Fico aqui pensando...
Ele tem a sua idade... Família, filhos, Inclusive, uma filha pequena...
Ele poderia estar assim, em casa, resguardadinho nessa hora, exatamente como você está, de boa, apreciando o mar, como todo aposentado merece estar.
Nesse momento de epidemia, sendo ele, também, pertencente ao grupo de risco...está, agorinha e o dia todo, reunido com governadores, empresários, comerciantes, etc., juntamente com aqueles excelentes e sérios ministros, decidindo quais providências tomar em meio ao caos inevitável. Fazendo das tripas um coração para que os danos físicos e econômicos sejam os menores possíveis. Por que não é fácil...
É como um cobertor... Você precisa cobrir tudo mas, se esticar muito aqui, descobre ali... e vice-versa...
Que missão a desse homem!
Ter que transformar em hospitais os estádios que o Lula preferiu construir, em nome da Copa (vergonhosa, aliás)!
Ter que se virar para cobrir os rombos que nos outros 16 anos foram abertos, descaradamente, na nossa nação.
Esse homem poderia estar passando álcool nele o dia todo e de máscara...apenas ouvindo aos noticiários e dando uma de especialista em política, economia, saúde, segurança, etc., pagando de militante nas redes sociais da vida e debochando de cada passo que o presidente estivesse dando... ou da "máscara" que ele não soube usar...
Mas ele preferiu ser o "linha de frente". Ser bombardeado todos os dias, mas tentar fazer algo por esse país, de dimensões continentais...
Ele erra como todos nós, mas quem de nós gostaria de estar no lugar dele, principalmente agora?
Deboches e críticas tão pessoais mostram tremenda falta de empatia e amor ao próximo. E é o que mais me entristece.
Não temos bons exemplos que o antecederam. Não estamos nem na metade do seu mandato.
Mas os leigos esquerdistas, trancafiados em suas casas, confortavelmente, acham-se capacitados para condená-lo.
Que o façam!
Ele é valente, graças a Deus; e boca dura para quem merece.
Vai permanecer firme e muito ainda fará. Independente da torcida contrária.
Somos maioria. Estamos com ele...
Primeiro porque ele é um ser humano como nós,  por isso merece respeito.
Segundo porque o elegemos.
E terceiro porque sabemos que quem coloca Deus na frente já está com a vitória garantida.
E venceremos...
Somos Bolsonaro, bolsomínions, robôs, o que quiserem.
Mas somos convictos, assim como ele!
Ser Bolsonaro e eleitor do Bolsonaro é para os fortes.
Não é para qualquer um!"

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Fiz questão de copiar esse texto. Ele não é meu. Mas é de alguém que pensa, age e fala, EXATAMENTE COMO EU.
Faço dessas palavras não uma idolatria, mas um olhar de orgulho e amor, por um homem que está lutando por seu povo e que esse povo não quer enxergar.

(Recebi via WhatsApp)

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quinta-feira, 21 de maio de 2020

VIDAS PARALELAS - Marco Lucchesi


Como todos os meninos, fui também um caçador de heróis. A leitura das Vidas paralelas de Plutarco, largo manancial de coragem e ousadia, ordenou parte desse imaginário caçador. Sonhava ideias generosas e temperava o caráter com Alexandre e Júlio Cesar, Teseu e Rômulo, Demóstenes e Cícero. Textos paralelos, espelhos de diálogo, esquinas do passado com o futuro. Não havia nada que não fosse amplo e altissonante naquelas páginas. Não se perdoavam gestos pequenos ou indignos. As vidas ensinavam, mas eram três: as duas, que Plutarco redigia, e a do leitor, buscando imprimir, de forma altiva, para si mesmo, a renovação de uma biografia.

Sou amigo de Plutarco –, não o melhor, nem o único –, dentre as muitas amizades que se formaram, em torno de seu nome, ao longo de dois mil anos. Atravesso alguns cenários invisíveis, quase desfeitos. Bato à porta de fantasmas vivos, mais vivos que meus contemporâneos, com quem ressuscita algumas vozes, a buscar formas híbridas para a leitura do mundo.

Tais questões emergem do livro Como se tornar um líder, de Jeffrey Beneker. Ideias que tangenciam a crise da política e representação, nas democracias de baixa intensidade, como a brasileira, com a perda de espessura institucional e a decorrente escassez de lideranças.

O mundo antigo tem muito a ensinar. Se todas as épocas possuem uma visão do sublime, não podemos desconsiderar os elementos seminais da História do Ocidente. Plutarco é um aliado na recuperação do território, da cidade, do governo concreto, longe de uma certa abstração federativa que despreza o lugar onde se vive.

A visão do herói serve para a formação dos meninos, com um arquétipo incontornável. Adultos, não precisamos de heróis. E os que se arrogam tal condição ameaçam as instituições republicanas.

Desejo lideranças corais, que não percam o horizonte da comunidade e do pertencimento. Lideranças que compreendam a formação do consenso e a liturgia do poder. As Vidas paralelas brilham como um farol em tempos obscuros. E comprovam, uma vez mais, que sem educação republicana não haverá saída para o futuro.

Jornal de Letras, Artes e Ideias (Lisboa), 20/05/2020


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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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O CRISTO MILAGROSO QUE EXTINGUIU A EPIDEMIA

Em 1522, uma epidemia pior que a do coronavírus assolou Roma durante seis meses. Os religiosos da Ordem dos Servitas de Maria retiraram da igreja de São Marcelo o Crucifixo Milagroso [foto acima] e o esconderam em seu convento. Mas o desespero atingiu tal clímax, que a população os obrigou a fazer uma procissão penitencial até a basílica de São Pedro.
Essa procissão se prolongou por 16 dias, pois à medida que o crucifixo avançava os doentes iam sendo curados. Quando a imagem de Cristo retornou, a epidemia estava extinta.
Seria esta uma boa lição, a ser imitada pelos dirigentes eclesiásticos em nossos dias. Bem ao contrário disso é o que estamos vendo. Pois esse mesmo Crucifixo Milagroso foi levado no dia 27 de março à Praça de São Pedro. Mas não houve procissão nem curas milagrosas, apenas uma desoladora bênção para a qual o Papa Francisco nem sequer convocou o povo romano. Por razões sanitárias, é claro…
E esse povo, sempre muito expansivo, não reagiu como seus antepassados de 1522. Ao contrário de atrair bênçãos, como no passado, essa atual insensibilidade ante a proteção sobrenatural poderá atrair desgraças ainda maiores.
Em Roma, no ano de 1931, procissão com o Crucifixo Milagroso, da Igreja de São Marcelo.



quarta-feira, 20 de maio de 2020

UM HOMEM DE SERIEDADE – Nídia Maria Costa Reis


Um Homem de Seriedade 
Nídia Maria Costa Reis


                     - Oi, professor, vai um dinheirinho hoje? Juro tá bão!

                    Era sempre assim. Dorneles, o agiota analfabeto, mas bom de conta, não podia ver o professor Avelar na varanda de seu bangalô, sem lhe oferecer um empréstimo, raras vezes rejeitado. Ele sabia que, mesmo sem muita necessidade, o professor sempre aceitava alguma quantia. Era uma espécie de vício, adquirido ao longo dos anos de aperto financeiro que o levava sempre aos benditos cruzeiro, cruzados e reais do Dorneles.

          Agora, o professor tinha melhorado de vida. Tinha casa própria, filhos empregados e crédito fácil no comércio porque, apesar dos miseráveis proventos de professor aposentado que, mensalmente, caíam em seu bolso, ele sempre pagava o que devia, a trancos e barrancos, mas pagava. Andava até muito saliente com um fusquinha azul, bem conservado, presente que ele havia dado a si mesmo quando ganhou na loteria, num rasgo benevolente da sorte. Mesmo sem carteira de motorista, ele aventurava-se pelas estradas de terra de seu município, sempre acompanhado de sua esposa, em busca de lagoas e peixes ariscos.

          Certa vez, numa dessas pescarias improdutivas, viram-se numa enrascada dos diabos. Foi num cenário poético, junto à ponte da rodovia. Uma colina de cada lado, o rio no meio, barulhento, sobre um leito de rochas. Estacionaram o fusquinha em um pequeno acostamento e aproveitaram a parada para um cafezinho quente, já antegozando o “tête à tête” com os peixes. Eram três horas da tarde e fazia muito calor. O sol, inclinado, castigava-os sem dó nem piedade e aquecia excessivamente a atmosfera. De repente, surgiram cabriolando e atacando de rijo as primeiras abelhas. Umas tantas ferroadas aqui e ali, e, depois, o dilúvio do zumbido de asas malignas, dos golpes certeiros de ferrões aguçados e venenosos. O pobre professor e sua esposa precipitaram-se por barrancos e capinzais, desferindo taponas e esfregadelas na cabeça e no pescoço. Com o rosto coalhado de abelhas, tropeçando nas pedras e nas touceiras de capim, finalmente avistaram, à margem da rodovia, uma casinha onde se refugiaram e receberam os primeiros socorros.

          Sua esposa jurou por tudo que é sagrado jamais voltar a pescar, mas o professor, que enfrentara o desafio de inserir a tabuada na cabeça de seus alunos, durante vinte e cinco anos, não ia desistir tão facilmente. Passado o susto e a recuperação, voltaram às pistas, aos peixes e às abelhas.

          Certa manhã de domingo, o Dorneles voltava da missa todo enfatiotado, aflito para chegar a seu sítio e apartar as vacas. Para aproveitar a viagem, resolveu dar uma passadinha diante da casa do professor. Encontrou-o, como de costume, assentado no canto da varanda.

          - Bom dia, professor! Pegando um solzinho, né? Até que é bão, mas escuta, professor, queria ter um malemaleque com o senhor, posso?

          - Que história é essa, homem? Quanta falta de respeito!

          - Deus me livre, professor. Sou um homem de seriedade. É só um dedinho de prosa, gente! Só isso! Olhe, professor, fim do mês tá chegando. Aqueles quinhentos com mais sete por cento... fico preocupado. E o senhor? Ah!, mudando de assunto, outro dia eu ouvi a banda tocar na procissão uma música animada pra caramba. O Roque, aquele que toca prato, disse que foi o senhor que fez, é verdade? Eu sempre tive vontade de tocar um instrumento na banda. Se eu pudesse queria aquele fininho e preto. É bacana.

          - Deve ser a clarineta. Você tem bom gosto, mas, antes, é preciso aprender teoria musical e solfejo.

          - Quem me dera! Sou meio turrão, professor. Só alisei o banco da escola.

          Aproveitando a deixa, o professor animou-se com o assunto, falou bastante sobre música e a conversa parou por aí. O Dorneles seguiu caminho e deixou o coitado do professor bastante preocupado com a história dos quinhentos reais. Mais dia, menos dia, ele teria de barrar a escalada da dívida antes de recorrer ao FMI. O pior é que não sobrava nem um centavo depois de pagar o açougue, a padaria, a farmácia...

          Apesar da preocupação, o professor Avelar achou interessante aquele sujeito rude, sovina e ignorante ser sensível à arte de Euterpe. O Dorneles não era assim tão bronco como pensava. Ele gostava de música e apreciara seu último dobrado que, aliás, era mesmo uma criação de mestre. Homem culto, violinista, poeta, compositor e maestro, o professor, naquele momento, preferia uma carteira recheada a tantos dotes intelectuais. Na verdade, estava mesmo numa boa enrascada. Foi, então, que lhe veio a feliz ideia de trocar lições de solfejo pelos juros da dívida. Seria um bom negócio para os dois. Proposta feita, proposta aceita. Nos fins de semana, o Dorneles passou a vir religiosamente ao bangalô do professor Avelar para as lições de solfejo e teoria musical. O professor cada vez mais se entusiasmava com o talento e a notável aplicação de seu aluno que seguia, à risca, seus ensinamentos em troca dos juros dos quinhentos reais.

          Alguns meses se passaram e, após as lições sobre “andamento e ornamentos”, o professor, a contragosto, deu por encerradas as aulas e admitiu o recomeço do pagamento dos juros. A não ser que...

          - Desistiu da clarineta, Dorneles?

          - Eu? Quá! Quem sou eu, professor? Nem clarineta eu tenho.

          - Isto a gente dá um jeito. Posso ajudar.

          - É, mas quem vai me ensinar? O Roque não sabe. Ele só toca prato.

          - Eu ensino, se quiser. Acho que aprende em pouco tempo.

          - O senhor sabe tocar clarineta também? Puxa! O senhor é danadinho, professor.

          As aulas recomeçaram, desta vez ao som de uma clarineta emprestada. O aprendizado ia de vento em popa enquanto os juros permaneciam estacionados para a felicidade do professor Avelar. No início, eram só os primeiros sopros desafinados, seguidos das notas soltas e de escalas ascendentes e descendentes. Depois, o professor compunha umas lições fáceis, com mínimas e semínimas, diversificava os compassos, introduzia colcheias, semicolcheias e pausas. Dorneles assimilava tudo com a maior facilidade, a ponto de o professor escrever para ele uma valsinha cheia de quiálteras e apogiaturas, valsinha que foi digerida num átimo. O aluno tinha parte com o sopro e a palheta.

          Nada mais havendo para ser ensinado e aprendido, para a alegria do aluno e a tristeza do professor, encerraram-se as atividades musicais. Poucos dias depois, o Dorneles apareceu na porta do bangalô do professor com a finalidade de reativar os juros dos quinhentos reais. Apesar de todos os benefícios recebidos, ele não estava disposto a perdoar um centavo sequer. Conversa vai, conversa vem, o Dorneles deixou transparecer sua desilusão com a clarineta. O estudo fora perda de tempo, pois não tinha músicas para executar em seu instrumento e não conseguia tocar sem ver as notas na pauta, com compasso e tudo mais. O professor, imaginando uma proposta interessante, arriscou:

          - Não seja por isso. Tenho algumas partituras de valsa, dobrados e marchas fúnebres que compus e nunca foram executados por aí. Se quiser aproveitá-las, posso emprestar-lhe algumas se ...

          - Aceito. Dois meses sem os juros, conforme a quantidade.

          O professor não esperou mais nada. Saiu às pressas para o quartinho da sala onde guardava o violino, o trompete, aposentado por falta de fôlego, e as benditas partituras musicais de sua autoria, um calhamaço de fazer inveja a J Strauss, a J F Sousa, e a João da Mata, uma preciosidade.

          Quando voltou, tratou de apresentar a obra, exagerando nos elogios e atenuando as dificuldades. O Dorneles, de queixo caído diante daquele precioso acervo, não teve dúvidas de que se tratava de um negócio da China. Afinal, ele jamais compraria tamanha coleção pelos juros de dois meses, uns setenta reais.

          Feliz da vida, o Dorneles se foi, levando consigo três valsas, dois dobrados e duas marchas fúnebres, obras inéditas da melhor qualidade. Foi-se e desapareceu por algum tempo. O professor, assentado em sua cadeira, na varanda do bangalô, respirava aliviado por ter feito o melhor negócio de sua vida. Mas a felicidade durou apenas alguns meses. Um belo dia, ou melhor, um dia sinistro, o Dorneles apareceu com as mãos nos bolsos da calça e um sorriso maroto de quem havia levado a melhor em alguma transação.

          - Oi, professor, que tempão, hem? Tomei chá de sumiço, não tomei? O senhor, com certeza, achou que eu morri, não achou?

          - Morrer? Você não morre assim tão fácil, meu amigo. É jovem e cheio de vida. Eu é que já estou na fila... Mas, que aconteceu? Ah, já sei. Os quinhentos, não é?

          - Que nada! é só um malemaleque sem importância. Eu vim passando e... Ah, quer saber? pra falar a verdade é sobre eles mesmo. Só que o negócio agora é outro.

          - Aumentou os juros. Eu já esperava. Coitado de quem pede dinheiro a qualquer um.

          - Que é isso, professor? Sou um homem de seriedade. Pra provar que sou um sujeito sério, fiz um negocião pra nós dois. Pra mim e pro senhor.

          - Negocião? Bom para mim?

          - Não é, professor? Escute. Eu não sou bobo nem nada. Já percebi, há muito tempo, que o senhor nunca vai me pagar os quinhentos que me deve. Então, resolvi tomar minhas providências.

          - Providências?

          - É isso mesmo. Outro dia, fui levar umas encomendas lá em Brojocó e fiquei sabendo que a cidade tinha uma bandinha de música, uma bandinha de nada, muito mixuruca. Aí, eu procurei o músico maestro e fiz a oferta.

          - Oferta?

          - Ele topou na hora. Vendi as partituras do senhor por seiscentos reais e ainda me convidou para tocar clarineta na banda dele. Tirei meus quinhentos e vim trazer o troco de cem pro senhor. Aqui, tome. Cem reais. Tudo resolvido. Um negocião! Sou ou não sou um homem de seriedade?

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Nídia Maria da Costa Reis - Educadora, escritora, soma mais de cem pequenas histórias e poemas catalogados, além da coleção 12 provérbios e suas histórias, que chegou à quarta edição e concorreu ao Prêmio Jabuti de Literatura. Aventuras de Gui Omar é seu trabalho mais recente.



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terça-feira, 19 de maio de 2020

TRÊS EDITORAS NO SUL DA BAHIA – Cyro de Mattos


Três Editoras no Sul da Bahia
Cyro de Mattos


           Há pouco mais de cinquenta anos, o romancista Otávio de Faria perguntou na Biblioteca Nacional ao amigo Adonias Filho o que era que o sul da Bahia produzia além do cacau. Respondeu sem hesitar o consagrado escritor Adonias Filho que produzia artistas da palavra.  E citou os nomes de Jorge Amado, Sosígenes Costa, Emo Duarte,  Jorge Medauar e Hélio Pólvora. Acrescentou que mais escritores estavam chegando, como Telmo Padilha, Florisvaldo Mattos, Marcos Santarrita, Ildásio Tavares,  Sonia Coutinho e este cronista.

          A publicação de escritores do sul baiano naqueles idos que já vão longe acontecia  de fora para dentro. Depois que a Universidade Estadual de Santa Cruz foi implantada  há pouco mais de duas décadas, a publicação de escritores sulinos do Estado  passou  a ser realizada de dentro para fora.   Como usina  educativa e cultural, a  UESC vem fornecendo  o  instrumental teórico necessário, que serve como estímulo e lapidação das vocações dos escritores  no sul do Estado. 
 
           Formado  o poderoso corpo literário,  fazia necessário a criação da editora para  publicar os livros de tantos  autores nascidos ou residentes no sul da Bahia. Surgiu primeiro a Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz,  sediada na rodovia Jorge Amado, entre Ilhéus e Itabuna. Dirigida hoje pela  doutora Rita Virgínia Argolo, passa por fase difícil  em virtude da falta de verba estadual.  Presta-se às publicações  de natureza universitária, além de prestigiar a edição de autores  regionais, selecionados pelo seu conselho consultivo.   A impressão de seus livros,   sob o ponto de vista de confecção artística e gráfica, para não se falar do conteúdo,  é de excelente nível.   Circulam em ambiência nacional, com a vantagem de que  a Editus  integra a Associação Brasileira  de Editoras Universitárias, marcando   presença em feiras de livros e eventos, inclusive nas bienais de São Paulo e Rio de Janeiro.

            A segunda de nossas editoras é a Via Litterarum,  sediada em Ibicaraí, já com dezenas de títulos em seu catálogo.  Seu diretor é o  incansável Agenor Gaspareto, dublê  de editor guerreiro e professor universitário.
A caçula é a Mondrongo, regida sob a batuta do poeta e  cronista Gustavo  Felicíssimo, localizada em Itabuna. Possui livros premiados em concurso literário cobiçado, de âmbito nacional, como  A Dimensão Necessária, de João Filho, Prêmio de Poesia da Biblioteca Nacional, e Natal de Herodes, Prêmio de Poesia da Academia Pernambucana de Letras.  Qualquer escritor que seja publicado por uma das três  editoras está  em boas mãos.

            Até hoje essas editoras não receberam por sua iniciativa o  reconhecimento e o abono merecido  de um projeto  das secretarias de educação e da cultura de Itabuna e Ilhéus, como incentivo à edição de livro do autor regional.  Lamentável. A literatura é útil ao próximo na compreensão do mundo.  Fala à imaginação e ao sentimento. É a expressão mais completa do homem na leitura do mundo. Cometem  omissão incompatível  com a sua finalidade de órgão público educativo  quando deixam de elaborar projeto de reconhecimento e incentivo  à editora no sul do Estado.  O patrimônio  formado pela literatura  é valioso,  serve para  apresentar  a vinculação da vida no seu processo histórico  ao percurso  espiritual de um povo.  Nunca é demais lembrar o que nos disse o genial poeta Castro Alves.

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n'alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!

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*Cyro de Mattos é poeta e escritor. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro do Pen Clube do Brasil, Academias de Letras da Bahia, Ilhéus e Itabuna. É também editado em Portugal, Itália, França, Alemanha e Espanha. Seus livros são também editados pela Editus, Via Litterarum e Mondrongo.  


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segunda-feira, 18 de maio de 2020

GRANDE EMBATE EM CIDADE GAÚCHA - Paulo Henrique Américo de Araújo

·        17 de maio de 2020

Túmulo do Servo de Deus Pe. João Batista Reus [Fotos Paulo Américo]

·         Paulo Henrique Américo de Araújo


Em janeiro, integrando a caravana de voluntários do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, tive a oportunidade de visitar a cidade de São Leopoldo (RS), onde se encontra o Santuário do Sagrado Coração de Jesus. Ali o conhecido Pe. João Batista Reus (pronuncia-se Róis), jesuíta nascido na Alemanha e grande místico, exerceu boa parte de seu frutuoso apostolado. Falecido em 1947, seu corpo jaz numa capela ao lado da igreja, e atrai durante todo o ano multidões de fiéis.
Não é minha intenção descrever neste artigo a vida do Pe. Reus,1 mas sim focalizar alguns aspectos da atmosfera do santuárioe dos peregrinos que para lá acorrem.
Há duas realidades contrastantes no santuário: de um lado, a piedade verdadeira — na aparência débil — do povinho que se ajoelha junto ao túmulo do Servo de Deus; e de outro lado as manifestações do progressismo, como um monstro disforme e esmagador, que impregnam todo o ambiente. A impressão é a de um embate entre dois inimigos irreconciliáveis, dotados de forças extremamente desproporcionais. Uma luta entre Davi e Golias, dir-se-ia. Tudo indica que o gigante vencerá, porém a História nos afirma o contrário.
Após concluir minhas orações, detive-me para observar as pessoas que se aproximavam do túmulo do Pe. Reus. A “capela” – mais propriamente um galpão – não possui qualquer ornato, nem beleza. Bem poderia servir de garagem para automóveis. Nas paredes, alguns vitrôs simplórios deixam penetrar a luz direta do sol. Apenas um quadro estilizado da face do Pe. Reus quebra um pouco a monotonia que ali domina.
Invariavelmente os visitantes se apresentavam com expressões de veneração e respeito, cabeças baixas, lábios em movimento indicador de orações silenciosas. Alguns se ajoelhavam a poucos metros de distância, e nesta posição prosseguiam até chegar diante do túmulo. Homens e mulheres, jovens e velhos num fluxo contínuo, mas sem exasperação nem pressa. Em volta do túmulo, o frenesi de um domingo de verão desaparecia, como que por um passe de mágica; ou melhor, pela ação de uma graça impalpável, mas real.
Um dos nossos caravanistas notou naquele povinho uma atitude pitoresca, talvez fruto de um costume tornado natural. Alguns visitantes traziam flores e as tocavam na cruz que contém a figura incrustada do venerável sacerdote, e as depositavam sobre o túmulo. Outros peregrinos colhiam e levavam consigo algumas dessas mesmas flores, que pouco antes haviam sido ali depositadas. Expressivo símbolo da comunhão dos santos, confirmando que os oferecimentos ou méritos de alguns fiéis concorrem para o benefício de outros fiéis.
Ressalto com tristeza que tal devoção popular, carregada de muitos sinais de sinceridade, vinha acompanhada da degradação e imodéstia dos trajes. Não encontrei qualquer exceção a essa verdadeira ditadura das roupas imorais, tanto nos homens quanto nas mulheres. Entre eles um casal, aparentando idades entre 25 e 30 anos, veio para rezar, mas sua imoralidade no trajar mostrava-se ainda mais agressiva. Pareciam ter acabado de sair de uma academia de ginástica, como seus trajes o denunciavam. Com tatuagens aparentes, ambos se ajoelharam e rezaram ao Servo de Deus!
Como se conciliam, na mente dessas pessoas, a piedade e os trajes próprios à imoralidade? Falta de instrução? Maldade ostensiva? Não sei dizer. Mas sou tendente a concluir que, embora o processo de destruição dos costumes cristãos tenha alcançado no Ocidente todas as vitórias em matéria de imoralidade, paradoxalmente não conseguiu apagar no comum das pessoas o sentimento religioso.
Saindo pelos fundos do “galpão-capela”, encontrei-me em um jardim com grandes cruzes brancas. Trata-se, na verdade, de um cemitério com as sepulturas de dezenas de padres e irmãos leigos jesuítas, sinal impressionante do antigo florescimento da Companhia de Jesus na região. Mas naquele jardim não encontrei qualquer túmulo de padres mais novos, falecidos recentemente. Todas as sepulturas pertencem a jesuítas nascidos até a década de 50, todos com mais de 70 anos. Tudo indica não haver ali padres jovens.
Alguém poderá argumentar que só há sepulturas de padres velhos porque é comum os velhos morrerem! Argumento lógico, sem dúvida, mas todos os cemitérios demonstram ser ele apenas parcialmente verdadeiro. Pergunto se não seria normal, no meio dos falecidos ultimamente, encontrar ao menos um padre jovem. Por exemplo, com 40 ou 50 anos de idade. Por que não os há? A resposta é simples: praticamente não existem vocações recentes. A Companhia de Jesus e todas as Ordens religiosas vão definhando, numa inexorável crise de vocações, desde o início da era pós-conciliar. Qualquer um pode ver a prova disso naquele cemitério de cruzes brancas.
Escrivaninha, paramentos, breviário, altar e até um violino que pertenceram ao Pe. Reus

Por fim dirigi-me à igreja. Na cripta do Santíssimo Sacramento, no subsolo, um memorial do Pe. Reus exibe seus objetos pessoais: escrivaninha, paramentos, breviário, altar, e até um violino. Os visitantes tinham o olhar encantado ao vê-los. Nesse pequeno museu percebe-se, a um só tempo, a vida de piedade e a obra de apostolado do Servo de Deus. A esses objetos simples, mas com muita dignidade, se opõem outros aspectos modernizados da cripta: um gélido e monótono altar-mesa circundado pelas estações da Via-sacra, cujos Personagens disformes parecem ter sofrido ainda mais após a crucifixão. Ninguém demonstrava encantar-se com elas.
De todas as carrancas com que o progressismo se manifesta no santuário, a mais escandalosa e grotesca é sem dúvida a do altar principal. Um verdadeiro monstro de metal, mistura de ficção-científica e pós-modernismo de face hedionda. Tremo e hesito ao constatar que aquela figura pretende ser uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Pareceu-me verdadeira blasfêmia considerá-la como tal. Como conseguirá alguém, diante daquela imagem, elevar a mente ao dulcíssimo Jesus, Filho da Virgem Santíssima? Impossível! Vi-me impelido a sair depressa dali.
Em São Leopoldo, o progressismo dito católico se imiscuiu nas expressões de piedade e devoção provenientes da vida exemplar do Pe. Reus. A catolicidade verdadeira, terna e singela sobrevive ali, mas sufocada pelas patas repugnantes da pseudo-arte moderna e do neopaganismo progressista. Uma análise apressada nos faria temer que as pequenas devoções não consigam resistir ao poderio massacrante desse monstro anti-católico. Se foi essa a conclusão de uma análise apressada, devemos ter em mente o jovem Davi combatendo contra Golias. O pequeno, tido por mais débil, pode perfeitamente derrotar o atual gigante!
O venerável jesuíta escreveu, ao partir da Alemanha: “Ó Maria, Mãe minha, fazei que chegue ao Brasil são e salvo, para lucrar muitas almas para Vós e para o Sagrado Coração de Jesus!”.3 Como o Pe. Reus veio para cá com essa santa intenção, peçamos que do Céu ele interceda agora junto a Nossa Senhora para a derrota do monstro progressista, que tanto afasta as almas de Deus.
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Notas
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 833, Maio/2020.
1.      Uma boa biografia do jesuíta foi escrita por Ferdinand Bauman, S.J.: Um Apóstolo do Coração de Jesus, Publicações Avulsas de História, UNISINOS, S. Leopoldo, 1987.
2.      O Santuário do Sagrado Coração de Jesus, sob a influência da arte modernista, foi construído entre os anos de 1958 e 1968, após a morte do Pe. Reus.
3.      Op. cit. pág. 81.

http://www.abim.inf.br/grande-embate-em-cidade-gaucha/

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