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domingo, 16 de agosto de 2020

CONTRADIÇÕES FLAGRANTES - Paulo Henrique Américo de Araújo

16 de agosto de 2020

“Se falei mal, diga em quê. Se falei bem, por que me bates?”. Este simples argumento deixou evidenciada a flagrante contradição e injustiça do agressor. [Jesus Cristo diante do Sinédrio – Alessandro Mantovani, ca. 1860].

 Paulo Henrique Américo de Araújo

De todos os sublimes episódios da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, um em especial me veio à mente ao observar os absurdos e incongruências em que vai afundando este nosso século.

A cena ocorre durante a Paixão, quando o Redentor se encontrava diante do Sinédrio. Imputando-Lhe os juízes os crimes de sedição e revolta, tentam forçá-Lo a uma confissão. Jesus responde que havia ensinado publicamente, bastando inquirir quem O ouvira pregar no Templo e na sinagoga. Nesse momento, um dos assistentes do conselho dá-Lhe uma bofetada, dizendo: “Assim respondes ao Pontífice?”. E teve de ouvir contrafeito a resposta magnífica, irretorquível: “Se falei mal, diga em quê. Se falei bem, por que me bates?”. Este simples argumento deixou evidenciada a flagrante contradição e injustiça do agressor. Uma denúncia direta, cortante, invencível.

Em alguns acontecimentos recentes registrados pelo noticiário, sigamos o exemplo do Divino Mestre apontando neles a contradição. Mas ressaltemos desde já que a posição contraditória, nesses eventos, não é de uma pessoa em particular, mas sim a do mundo moderno neopaganizado, cujos fundamentos e instituições decadentes nadam invariavelmente nas águas turvas da incoerência.

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O programa blasfemo “A primeira tentação de Cristo”, transmitido no final de 2019, provocou a indignação dos católicos de todo o País. Dentre seus múltiplos e deploráveis escárnios, Nosso Senhor é aí representado como homossexual. Uma batalha judicial contra e a favor do filme travou-se desde então até os fins de maio último, quando houve o arquivamento definitivo de quatro representações que contestavam a exibição do programa.1

O Ministério Público Federal (MPF), favorecendo o grupo “Porta dos Fundos”, criador do filme, assim se pronunciou: “O vídeo em questão foi publicado por produtora de vídeos de comédia conhecida nacionalmente e apresenta sátiras de personagens bíblicos, o que se enquadra na liberdade de expressão de seus autores e atores, sendo que a mera intenção de caçoar (animus jocandi) exclui o elemento subjetivo do escárnio”.

Em outras palavras, ninguém deve se sentir ofendido em seus sentimentos cristãos, diante daquelas burlas proferidas contra o Redentor, pois a intenção dos autores foi apenas “fazer brincadeira”. Consequentemente, promover chacotas à Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo tornou-se algo legitimado pelo MPF. Ainda conforme a decisão do Ministério Público, a encenação do “Porta dos fundos” se reveste unicamente de “liberdade de expressão”, não houve qualquer ato “malévolo” de escárnio.

Conforme a doutrina da Igreja Católica, o pecado de homossexualidade “brada aos Céus e clama a Deus por vingança”. Porém, a seguirmos a “lógica” do MPF, não há razões para tolher a “liberdade de expressão” de eventuais galhofeiros, mesmo que os católicos se sintam injuriados em sua “identidade de cristãos” quando alguém apresenta Nosso Senhor como praticante de homossexualismo. No fundo, vislumbra-se na decisão do MPF uma espécie de decreto impositivo: Calem-se, católicos, e ouçam impassíveis as injúrias ao seu Deus! Apresentar ‘sátiras de personagens bíblicos’ é normal, ninguém pode reclamar disso!

Passemos a outra sentença, também emitida no final de maio de 2020. A Justiça obrigou a Fundação Palmares a retirar de seus canais de comunicação alguns textos escritos contra a figura do líder negro Zumbi dos Palmares.2

De acordo com a juíza Maria Cândida Carvalho Monteiro de Almeida, “a permanência dos artigos questionados no sítio institucional da Fundação Cultural Palmares ameaça o patrimônio histórico-cultural brasileiro e viola o direito à identidade, ação e memória da comunidade negra e a sua garantia a condições adequadas para a preservação, expressão e desenvolvimento de sua identidade”.

Neste caso, como afirma a juíza, houve uma agressão à “identidade”, ao “sentimento” da comunidade negra. No que se refere à imagem de Zumbi dos Palmares, portanto, não há direito à “liberdade de expressão”. Se aplicarmos as palavras da juíza ao programa blasfemo inventado pelo “Porta dos Fundos”, podemos perguntar: Atingir, zombar, achincalhar a figura de Jesus Cristo não representa “ameaça ao patrimônio histórico-cultural brasileiro”?

A contradição das duas decisões é evidente: a comunidade negra tem direito à preservação de sua identidade, e justifica-se proibir o ataque à imagem de Zumbi dos Palmares, referência simbólica dessa mesma identidade. Mas a pessoa de Jesus Cristo, símbolo máximo do sentimento cristão e um poderoso alicerce da unidade nacional, pode ser escarnecida à vontade, segundo o Ministério Público Federal. Não gozam os cristãos do direito de ter a sua identidade preservada?

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Passemos à análise de dois outros eventos. A pandemia do coronavírus fez com que vozes oficiais e extraoficiais de todo o mundo se unissem numa só meta: “salvemos vidas”. Qualquer determinação neste sentido devia ser acatada, sem possibilidade de contestação ou ponderação. Houve aplausos até para decisões as mais incongruentes, como a suspensão de vacinas para crianças ou a obrigatoriedade do confinamento radical de populações inteiras, com suas perigosas consequências.3

No Reino Unido, uma das regiões mais atingidas pelo contágio, o governo tomou medidas drásticas, impondo quarentenas e pesadas restrições, sob o pretexto de “salvar vidas”. Porém, como bem apontou o bispo de Shrewsbury, Monsenhor Mark Davies,4 [foto ao lado] as autoridades inglesas deveriam rever seu conceito de “valor da vida humana”. O prelado denunciou que o Departamento de Saúde e Assistência Social do Reino Unido havia decretado novas normas para facilitar o “aborto domiciliar” durante a crise da pandemia. Com apenas um telefonema e uma receita médica, a gestante estaria livre para autoinduzir o aborto.

A incoerência é gritante: ações das mais disparatadas para “salvar vidas”, na luta contra a Covid-19; e ao mesmo tempo, favorecimento do “extermínio da vida” dos bebês indefesos nos ventres maternos!

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Voltemos ao episódio da Paixão de Nosso Senhor, lembrado no início deste artigo. A Escritura não narra que atitude tomou aquele agressor após a magnífica resposta de Jesus. Provavelmente esse ímpio reduziu-se ao silêncio, pois lhe era impossível dar qualquer resposta de valor. Quando a contradição é evidenciada, só há duas possibilidades para quem a proferiu: admitir seu erro ou silenciar.

Se quisermos ser católicos verdadeiros, procuremos sempre denunciar as contradições do nosso século, forçando desta maneira os agressores a retratar-se ou a silenciar. Assim estaremos agindo como o Divino Mestre diante da agressão injusta.

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Notas

Cfr. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/05/25/mpf-arquiva-representacoes-contra-exibicao-do-especial-de-natal-do-porta-dos-fundos.ghtml

Cfr. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2020/05/justica-determina-que-fundacao-do-governo-bolsonaro-apague-textos-contra-zumbi-dos-palmares.shtml

Cfr. manifesto do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira: https://ipco.org.br/coronavirus-a-maior-operacao-de-engenharia-social-baldeacao-ideologica/

Cfr. https://www.aciprensa.com/noticias/obispo-lamenta-la-promocion-siniestra-de-abortos-en-casa-durante-pandemia-91643


https://www.abim.inf.br/contradicoes-flagrantes/

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segunda-feira, 18 de maio de 2020

GRANDE EMBATE EM CIDADE GAÚCHA - Paulo Henrique Américo de Araújo

·        17 de maio de 2020

Túmulo do Servo de Deus Pe. João Batista Reus [Fotos Paulo Américo]

·         Paulo Henrique Américo de Araújo


Em janeiro, integrando a caravana de voluntários do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, tive a oportunidade de visitar a cidade de São Leopoldo (RS), onde se encontra o Santuário do Sagrado Coração de Jesus. Ali o conhecido Pe. João Batista Reus (pronuncia-se Róis), jesuíta nascido na Alemanha e grande místico, exerceu boa parte de seu frutuoso apostolado. Falecido em 1947, seu corpo jaz numa capela ao lado da igreja, e atrai durante todo o ano multidões de fiéis.
Não é minha intenção descrever neste artigo a vida do Pe. Reus,1 mas sim focalizar alguns aspectos da atmosfera do santuárioe dos peregrinos que para lá acorrem.
Há duas realidades contrastantes no santuário: de um lado, a piedade verdadeira — na aparência débil — do povinho que se ajoelha junto ao túmulo do Servo de Deus; e de outro lado as manifestações do progressismo, como um monstro disforme e esmagador, que impregnam todo o ambiente. A impressão é a de um embate entre dois inimigos irreconciliáveis, dotados de forças extremamente desproporcionais. Uma luta entre Davi e Golias, dir-se-ia. Tudo indica que o gigante vencerá, porém a História nos afirma o contrário.
Após concluir minhas orações, detive-me para observar as pessoas que se aproximavam do túmulo do Pe. Reus. A “capela” – mais propriamente um galpão – não possui qualquer ornato, nem beleza. Bem poderia servir de garagem para automóveis. Nas paredes, alguns vitrôs simplórios deixam penetrar a luz direta do sol. Apenas um quadro estilizado da face do Pe. Reus quebra um pouco a monotonia que ali domina.
Invariavelmente os visitantes se apresentavam com expressões de veneração e respeito, cabeças baixas, lábios em movimento indicador de orações silenciosas. Alguns se ajoelhavam a poucos metros de distância, e nesta posição prosseguiam até chegar diante do túmulo. Homens e mulheres, jovens e velhos num fluxo contínuo, mas sem exasperação nem pressa. Em volta do túmulo, o frenesi de um domingo de verão desaparecia, como que por um passe de mágica; ou melhor, pela ação de uma graça impalpável, mas real.
Um dos nossos caravanistas notou naquele povinho uma atitude pitoresca, talvez fruto de um costume tornado natural. Alguns visitantes traziam flores e as tocavam na cruz que contém a figura incrustada do venerável sacerdote, e as depositavam sobre o túmulo. Outros peregrinos colhiam e levavam consigo algumas dessas mesmas flores, que pouco antes haviam sido ali depositadas. Expressivo símbolo da comunhão dos santos, confirmando que os oferecimentos ou méritos de alguns fiéis concorrem para o benefício de outros fiéis.
Ressalto com tristeza que tal devoção popular, carregada de muitos sinais de sinceridade, vinha acompanhada da degradação e imodéstia dos trajes. Não encontrei qualquer exceção a essa verdadeira ditadura das roupas imorais, tanto nos homens quanto nas mulheres. Entre eles um casal, aparentando idades entre 25 e 30 anos, veio para rezar, mas sua imoralidade no trajar mostrava-se ainda mais agressiva. Pareciam ter acabado de sair de uma academia de ginástica, como seus trajes o denunciavam. Com tatuagens aparentes, ambos se ajoelharam e rezaram ao Servo de Deus!
Como se conciliam, na mente dessas pessoas, a piedade e os trajes próprios à imoralidade? Falta de instrução? Maldade ostensiva? Não sei dizer. Mas sou tendente a concluir que, embora o processo de destruição dos costumes cristãos tenha alcançado no Ocidente todas as vitórias em matéria de imoralidade, paradoxalmente não conseguiu apagar no comum das pessoas o sentimento religioso.
Saindo pelos fundos do “galpão-capela”, encontrei-me em um jardim com grandes cruzes brancas. Trata-se, na verdade, de um cemitério com as sepulturas de dezenas de padres e irmãos leigos jesuítas, sinal impressionante do antigo florescimento da Companhia de Jesus na região. Mas naquele jardim não encontrei qualquer túmulo de padres mais novos, falecidos recentemente. Todas as sepulturas pertencem a jesuítas nascidos até a década de 50, todos com mais de 70 anos. Tudo indica não haver ali padres jovens.
Alguém poderá argumentar que só há sepulturas de padres velhos porque é comum os velhos morrerem! Argumento lógico, sem dúvida, mas todos os cemitérios demonstram ser ele apenas parcialmente verdadeiro. Pergunto se não seria normal, no meio dos falecidos ultimamente, encontrar ao menos um padre jovem. Por exemplo, com 40 ou 50 anos de idade. Por que não os há? A resposta é simples: praticamente não existem vocações recentes. A Companhia de Jesus e todas as Ordens religiosas vão definhando, numa inexorável crise de vocações, desde o início da era pós-conciliar. Qualquer um pode ver a prova disso naquele cemitério de cruzes brancas.
Escrivaninha, paramentos, breviário, altar e até um violino que pertenceram ao Pe. Reus

Por fim dirigi-me à igreja. Na cripta do Santíssimo Sacramento, no subsolo, um memorial do Pe. Reus exibe seus objetos pessoais: escrivaninha, paramentos, breviário, altar, e até um violino. Os visitantes tinham o olhar encantado ao vê-los. Nesse pequeno museu percebe-se, a um só tempo, a vida de piedade e a obra de apostolado do Servo de Deus. A esses objetos simples, mas com muita dignidade, se opõem outros aspectos modernizados da cripta: um gélido e monótono altar-mesa circundado pelas estações da Via-sacra, cujos Personagens disformes parecem ter sofrido ainda mais após a crucifixão. Ninguém demonstrava encantar-se com elas.
De todas as carrancas com que o progressismo se manifesta no santuário, a mais escandalosa e grotesca é sem dúvida a do altar principal. Um verdadeiro monstro de metal, mistura de ficção-científica e pós-modernismo de face hedionda. Tremo e hesito ao constatar que aquela figura pretende ser uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Pareceu-me verdadeira blasfêmia considerá-la como tal. Como conseguirá alguém, diante daquela imagem, elevar a mente ao dulcíssimo Jesus, Filho da Virgem Santíssima? Impossível! Vi-me impelido a sair depressa dali.
Em São Leopoldo, o progressismo dito católico se imiscuiu nas expressões de piedade e devoção provenientes da vida exemplar do Pe. Reus. A catolicidade verdadeira, terna e singela sobrevive ali, mas sufocada pelas patas repugnantes da pseudo-arte moderna e do neopaganismo progressista. Uma análise apressada nos faria temer que as pequenas devoções não consigam resistir ao poderio massacrante desse monstro anti-católico. Se foi essa a conclusão de uma análise apressada, devemos ter em mente o jovem Davi combatendo contra Golias. O pequeno, tido por mais débil, pode perfeitamente derrotar o atual gigante!
O venerável jesuíta escreveu, ao partir da Alemanha: “Ó Maria, Mãe minha, fazei que chegue ao Brasil são e salvo, para lucrar muitas almas para Vós e para o Sagrado Coração de Jesus!”.3 Como o Pe. Reus veio para cá com essa santa intenção, peçamos que do Céu ele interceda agora junto a Nossa Senhora para a derrota do monstro progressista, que tanto afasta as almas de Deus.
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Notas
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 833, Maio/2020.
1.      Uma boa biografia do jesuíta foi escrita por Ferdinand Bauman, S.J.: Um Apóstolo do Coração de Jesus, Publicações Avulsas de História, UNISINOS, S. Leopoldo, 1987.
2.      O Santuário do Sagrado Coração de Jesus, sob a influência da arte modernista, foi construído entre os anos de 1958 e 1968, após a morte do Pe. Reus.
3.      Op. cit. pág. 81.

http://www.abim.inf.br/grande-embate-em-cidade-gaucha/

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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

TRIUNFO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DE LEPANTO - Paulo Henrique Américo de Araújo


7 de outubro de 2019
Paulo Henrique Américo de Araújo

Uma multidão apinha-se em frente à Igreja de São Domingos na cidade de Granada (Espanha). Aos poucos os membros do cortejo vão atravessando a porta principal do templo para a procissão anual de 12 de outubro. Ricamente vestidos, os participantes portam belos estandartes e instrumentos musicais.

Ao toque de sinos, um imenso andor, levado nos ombros por dezenas de homens, surge na entrada da igreja. As trombetas soam e os aplausos entusiasmados da multidão repercutem. Todos os olhares se voltam para a magnífica imagem de Nossa Senhora, que acaba de chegar.

O andor se detém um instante… A banda militar inicia o hino “Salve, Estrela dos Mares”, que é acompanhado pelas vozes uníssonas dos presentes. Ao fim da música, alguém grita: “Viva a Virgem do Rosário Coroada!”. E ouve-se a resposta imediata: “Viva!”.1

Difícil permanecer indiferente a essa manifestação de entusiasmo do povo espanhol. Enquanto a procissão avança, vemos aí uma espécie de declaração pública de vitória: o triunfo de Nossa Senhora é inevitável! Nós, espanhóis, o declaramos; e enfrentaremos qualquer circunstância para manter nossa posição!

Essa nota de triunfo iminente se reflete em todo o feitio da Imagem de Nossa Senhora do Rosário de Granada, ou Nossa Senhora de Lepanto. A Virgem traz um manto dourado, cravejado de pedras preciosas. A túnica e a saia, que formam a parte interior do vestido, não são feitas de tecido, mas de prata, como uma armadura, repleta de ornamentos. Em volta da face, esplendores à maneira de raios, a partir dos quais se distingue uma estrela na fronte. A cabeça vem encimada por uma grande coroa. De certos ângulos discernem-se, próximas ao pescoço, algumas mechas dos longos cabelos castanhos. Nas mãos, rosários, anéis e um cetro.

Alguém poderia pensar que tais adereços são um tanto exagerados. Não! Eles não nasceram simplesmente da veneração irrefletida de um povo devoto. Como veremos adiante, tudo na imagem relaciona-se a fatos e milagres estupendos.

Ao contemplarmos a belíssima fisionomia da imagem, surge uma dificuldade. O espírito brasileiro normalmente reverencia a Santíssima Virgem pelo seu lado maternal, terno e bondoso. Na imagem de Nossa Senhora de Lepanto, sem dúvida vemos tais aspectos, mas os traços de majestade, firmeza e poder aparecem nela com muito mais fulgor. Ao fitar sua face, quase se poderia ouvi-la dizer: Eu sou a Rainha do Universo, pois sou a Mãe d’Aquele que tudo criou. Tenho o direito de mandar, de governar. E para ti, que me vês, tua melhor atitude é seguir-me. Então, terás participação na minha própria glória!

O Menino Jesus, trazido no braço esquerdo da Virgem-Mãe, apresenta análogas características. Apesar do semblante rosado, tal como o de uma tenra criança, Ele parece demonstrar uma santa indignação, sobretudo se observarmos a posição levantada do braço direito, bem como a mão que empunha o cetro do poder. O pecado, o erro, a heresia não têm parte com esse Divino Infante.

Como dissemos, tudo isso reflete de modo muito adequado a mentalidade espanhola – mentalidade impregnada de força de vontade, coerência, princípios categóricos. Mas quais fatos contribuíram para a Virgem ser representada assim, cercada de tantos atributos de poder e majestade? Na verdade, uma Rainha triunfante convém muito à frase da Escritura: “Terrível como um exército em ordem de batalha”. Foi precisamente assim que Ela quis aparecer aos seus inimigos, o que explica as características da imagem.

D. Álvaro Bazán, Marquês de Santa Cruz, resolveu levar a imagem de Nossa Senhora consigo em sua nau, para juntar-se às forças da Santa Liga, que venceram os muçulmanos na Batalha de Lepanto.
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Histórica vitória da Virgem

A imagem2 foi talhada em madeira no início do século XVI. Cedida pelos Duques de Gor, passou a pertencer à Arquiconfraria de Nossa Senhora do Rosário em Granada a partir de 1552. Nessa época, seu tamanho era menor do que se apresenta agora, e não possuía o vestido de prata a que nos referimos acima.

Em 1571, o granadino D. Álvaro Bazán, Marquês de Santa Cruz, resolveu levá-la consigo em sua nau, para juntar-se às forças da Santa Liga. Foi esta a coligação que, por iniciativa do Papa São Pio V, reuniu as frotas navais da Espanha, Veneza e Estados Pontifícios, com o objetivo de eliminar a temível armada turco-otomana que ameaçava toda a Cristandade.

Em 7 de outubro do mesmo ano, nos mares da Grécia, as forças católicas e muçulmanas se digladiaram na famosa Batalha de Lepanto. Um curioso detalhe do desenrolar do confronto naquele dia revela uma como que ação direta da Santíssima Virgem. D. Álvaro Bazán, que levava em seu navio a imagem de Nossa Senhora de Granada, recebeu a missão de comandar as forças de reserva. Sua frota, constituída de algumas dezenas de galés, permanecia atrás da linha principal da esquadra católica, enviando socorro quando a pressão dos inimigos fazia fraquejar as embarcações aliadas. Ao menos três vezes durante a luta, as reservas de D. Álvaro evitaram a derrocada da Santa Liga.

Dir-se-ia que Nossa Senhora atuava ali também, como um astuto comandante, observando atentamente as manobras da batalha, e enviando sua preciosa ajuda nas horas mais desesperadoras. Mas restava um último lance da Virgem. Mesmo com todos os esforços dos soldados da Cruz, as hostes turcas avançavam. Só uma coisa as deteve: no fragor do embate, os infiéis viram no céu uma Senhora com ar ameaçador, segurando um menino nos braços. Aparentemente, Nossa Senhora fez sua imagem de Granada transfigurar-se em forma viva. Ela disse então um basta aos muçulmanos, e em pessoa deu a vitória aos católicos. Os turcos se desesperaram, uns fugiram, outros pereceram no mar.

Desde a vitória em Lepanto, a devoção a Nossa Senhora de Granada não parou de crescer. No início do século XVII, após uma restauração, sua imagem foi reconstituída no tamanho humano natural. Além do traje perpétuo feito de prata, recebeu então inúmeros mantos e roupas que lhe foram doados. Esses vestidos permanecem hoje num anexo à Igreja de São Domingos, no chamado Camarim de Nossa Senhora. Por isso podemos contemplá-la em variados trajes e ornatos, dependendo das diversas festas e solenidades do ano.

Represenatção do entrechoque das naus capitânias durante a Batalha de Lepanto

Milagres e prodígios

A Santíssima Virgem, após se mostrar terrível aos inimigos de Deus, quis também evidenciar sua misericórdia para com seus filhos.

Em 1670, um fato extraordinário ocorreu. No dia 6 de abril, Domingo da Ressurreição, duas camareiras, Ana de San Pedro Mártir e Juana de Santo Domingo, preparavam a imagem para a procissão e notaram que seu rosto havia mudado. Transpirava, e algumas lágrimas lhe caíam dos olhos. O prior e autoridades seculares também contemplaram o prodígio, que durou por volta de 32 horas. O Arcebispo de Granada, D. Santiago Escolano, abriu um processo canônico, o qual foi concluído com uma investigação minuciosa e a declaração formal de que o fenômeno havia acontecido de modo sobrenatural.

O motivo das lágrimas só se explicaria nove anos depois, em 1679. Uma assustadora peste alastrava-se por toda região da Andaluzia, e já se fazia sentir em Granada. A Mãe Celeste havia antecipado o sofrimento dos filhos, e por isso tinha chorado de tristeza.

Mas Ela também já preparava a salvação. No mês de maio daquele ano, organizaram-se orações públicas diante da imagem. Passados dois dias, estando a igreja cheia de fiéis, “todos viram com admiração, na fronte da santa imagem, brilhar uma luz extraordinária como uma estrela, cujos raios resplandeciam em cores de prata, verde e dourada, imitando as cores do arco-íris”.

A cidade inteira se mobilizou para contemplar o chamado “Milagre da Estrela” [desenho ao lado], o qual durou 60 dias! Durante esse período houve uma sucessão de prodígios: conversões de toda ordem; uma mulher cega recuperou a vista; outra, a audição; ainda outra, já desenganada, teve a saúde completamente restabelecida. E o mais importante: logo veio o fim da peste, oficialmente declarada extinta em 6 de outubro, durante a novena da Festa do Rosário.

Novo processo canônico foi instaurado. Após 38 testemunhos de escultores, pintores e teólogos, o Arcebispo Alonso Bernardo de los Ríos y Guzmán declarou “ser milagrosa a dita luz e estrela, por exceder as forças naturais na maneira como foi vista. Todas as circunstâncias concorrem para ter o fato como milagroso. Assim o atribuímos a um milagre de Deus Nosso Senhor e o aprovamos e declaramos como tal”.

Vemos, portanto, que tudo na magnífica imagem da Virgem de Granada está perfeitamente fundamentado em fatos e circunstâncias comprovadas. Nada há de exagerado nela.

O cume da glorificação de Nossa Senhora do Rosário de Granada se deu no ano de 1961. Mais de 100 mil fiéis presenciaram sua solene Coroação Canônica, oficiada pelo Arcebispo D. Rafael García y García de Castro. Além disso, o governo espanhol concedeu à imagem a honra máxima de Capitão-General da Armada Espanhola.

Neste mês de outubro comemoramos 448 anos da vitória de Nossa Senhora em Lepanto. Fica-nos a certeza de que Ela, de novo, triunfará. Desta vez, não apenas sobre os turcos infiéis, mas sobre toda a impiedade de nossos dias.
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Notas
1 Vídeo da procissão: https://youtu.be/Tw9IedR9Ay8
2  As informações sobre a Imagem foram extraídas da página: archicofradiarosariocoronada.blogspot.com/


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segunda-feira, 24 de junho de 2019

CRESCE O CÍRCULO DE INFLUÊNCIA DA CONTRA-REVOLUÇÃO – Paulo Henrique Américo de Araújo


23 de junho de 2019
Lançamento da Frente Parlamentar do Ensino Domiciliar, 
ocorrido no Congresso Nacional em 2 de abril de 2019 
[Fotos: Cleia Viana / Câmara dos Deputados]


Paulo Henrique Américo de Araújo

O auditório encontrava-se lotado. Todos os presentes pareciam muito à vontade, quase como se estivessem em casa. Homens, mulheres, casais jovens; e para completar, muitas crianças corriam e brincavam entre as poltronas, através dos corredores, deixando-se filmar e fotografar. Mas o leitor se enganaria, julgando tratar-se de festa de aniversário ou reunião de pouca importância. Não! Lá estavam vários deputados federais, jornalistas aglomerados; e na tribuna, uma Ministra de Estado.

Um menino mais ousado subiu correndo até a área das autoridades, e se escondeu sob a mesa junto da qual se achava a Ministra. A mãe, em estado avançado de gravidez, rapidamente alcançou o pequeno atrevido, e após pequena luta conseguiu retirá-lo daquele lugar inapropriado. Todos os que presenciaram a cena, inclusive a Ministra, sorriam e achavam graça.

A descrição que acabo de fazer é fidedigna. Eu mesmo a acompanhei, e seria facilmente confirmada por todos os presentes no lançamento da Frente Parlamentar do Ensino Domiciliar, ocorrido no Congresso Nacional em 2 de abril de 2019.1 A alegria distendida da cena pode surpreender o leitor, e foi certamente sentida pelos frequentadores dos carrancudos ambientes parlamentares de Brasília, assim amenizado pela presença incomum de tantas crianças em evento que dizia respeito a elas.

 As crianças amenizaram com sua presença o importante evento

Defender os filhos da corrupção moral

Por cima do debate sobre o ensino domiciliar (home schooling), durante aquela sessão as atitudes, o convívio, as maneiras de ser revelavam algo de profundamente distendido, gentil, suave, algo autenticamente brasileiro. Bem o oposto do que se costuma ver no Congresso: carrancas, manifestações furiosas, gestos histéricos, violentos até.

Como argumento mais recorrente a favor do ensino domiciliar, os deputados integrantes da Frente Parlamentar apontavam sobretudo a defesa da família, sob os aplausos entusiasmados da audiência. A Ministra Damares Alves foi especialmente ovacionada quando afirmou: “O Estado é laico, mas nós somos cristãos”.

Poderia haver nos presentes algumas discrepâncias de métodos, mas um princípio era compartilhado por todos: a educação das crianças cabe primeiro aos pais. Ao Estado cabe apenas a função supletiva, acessória. Os pais têm o direito e o dever de defender seus filhos, especialmente quando se sabe que o ambiente escolar está impregnado de doutrinação marxista e degradação moral. Assim, a bandeira do home schooling adquire, em linhas gerais, um inegável caráter contra-revolucionário.

Algumas ponderações e distinções se impõem. Em seu depoimento aos participantes, uma mãe de dois filhos com problemas mentais indicou que o home schooling não é para todos, mas sim para os pais que desejarem e tiverem condições para tanto. Para os militantes da esquerda, contrários à educação dos filhos em casa, deixou este recado, sob aplausos do auditório: “Nós não somos extra-terrestres!”.

Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados

Fracos argumentos contra o ensino em casa

A argumentação contrária ao home schooling alega que a educação cabe primeiro ao Estado, e secundariamente à família. Num evidente embaralhamento de conceitos, exemplifica com crianças hipotéticas, que fora das escolas públicas não teriam oportunidade de interação, convívio com pessoas diferentes (na verdade, recorrem a termos tendenciosamente manipulados, como “diversidade”, “socialização”, “preconceitos”, etc). Os pais que negam isso aos filhos são pejorativamente tachados de retrógrados, conservadores obtusos, religiosos fanáticos.

Nesse sentido, é reveladora a declaração de Telma Vinha, professora de Psicologia Educacional da Unicamp: “Se a família tem visões racistas ou preconceituosas, a escola tem que transformar esses valores em socialmente desejáveis. Cada família vai estar centrada nos seus valores e achar que são únicos, só que a gente tem que pensar que educa as pessoas para uma sociedade democrática, plural”.2

A mensagem da professora não poderia ser mais tendenciosa: deve-se corrigir as famílias de seus “racismos” e “preconceitos”, quer dizer, de seu posicionamento contra o homossexualismo ou contra a ideologia de gênero, por exemplo. E a escola se apresenta como o lugar ideal para libertar as crianças de tais ideias religiosas “radicais” e “discriminatórias” vindas dos pais…

Ainda mais ostensivamente contrária é a opinião da jornalista Renata Cafardo, num pequeno artigo para “O Estado de S. Paulo”: “Com 45 milhões de estudantes nas escolas brasileiras, o governo de Jair Bolsonaro escolheu priorizar em seus primeiros cem dias o ensino em casa, praticado por cerca de 7 mil famílias”.3 Note-se que o vozerio altissonante da esquerda em favor das minorias (sobretudo a autointitulada LGBT) aplaude qualquer iniciativa governamental que as favoreça, mas isso não vale para as minorias do home schooling, nas quais não reconhece o direito de existir.

Com esta comparação se percebe como a iniciativa da educação em casa tem causado dores de cabeça aos revolucionários de nossos dias.

A reação anticomunista se fortalece

Após a referida reunião no Congresso Nacional, em 12 de abril o Governo Federal apresentou projeto de lei para regulamentação do ensino domiciliar.4 É claro que os contrários esperam barrar essa iniciativa, para manterem como obrigatória para todas as crianças a escola que no entanto qualificam como “plural”, “diversa” e “cidadã”. Os campos estão bem delimitados, nessa batalha que não deve terminar tão cedo.

O ambiente distendido e alegre no Congresso Nacional, por ocasião do lançamento da Frente Parlamentar do Ensino Domiciliar, em nada diferia das multidões pacíficas, tipicamente brasileiras, que se aglomeraram nas principais cidades do País a partir de 2013. Pois os pais que se preocupam com os perigos da doutrinação esquerdista e a degradação moral nas escolas acompanham e apoiam também as incontáveis outras reações sadias da opinião pública nos últimos anos — manifestações firmes, serenas, contra o socialismo e a imoralidade, sem nada de agressões nem agitações.

Esse panorama trouxe-me a recordação de uma entrevista concedida por Plinio Corrêa de Oliveira ao Prof. Marcelo Lúcio Ottoni de Castro, na ocasião em que este preparava sua dissertação de mestrado em História.5 Quando o diálogo tratava do desequilíbrio de forças da Revolução e da Contra-Revolução, especificamente entre as décadas de 60 e 90 do século XX, o entrevistado deixou claro o que pensava:

“No desequilíbrio de forças, a da Contra-Revolução aumentou mais. Por quê? Porque a Revolução se tornou mais radical. E tornando-se mais radical, muita gente que era da chamada ‘terra de ninguém’, entre Revolução e Contra-Revolução, se assustou e voltou para trás. São os ‘agredidos pela realidade’. Esses voltaram e acrescentaram em algo o círculo de influência da Contra-Revolução. Não ficaram propriamente contra-revolucionários, mas ampliou-se o círculo de influência da Contra-Revolução”.

A constatação acima se apresenta ainda mais verdadeira ao analisar os fenômenos de opinião pública ocorridos no Brasil recente. Nos 13 anos dos governos Lula-Dilma, aguçou-se uma reação veemente de grande parte dos brasileiros contra a cavalgata esquerdista. E aí está o fenômeno do “ensino domiciliar”, a comprovar o fato. Assim cresce o círculo de influência da Contra-Revolução.

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Notas


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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

SEGREDO DE CONFISSÃO AMEAÇADO - Paulo Henrique Américo de Araújo

29 de novembro de 2018


♦ Paulo Henrique Américo de Araújo


Nos últimos meses, notícias de abusos sexuais de membros do clero ganharam novamente grande destaque na mídia. As evidências existem, embora sejam habitualmente acompanhadas de exageros da imprensa. Escândalos como os noticiados causam indignação e tristeza em todos os católicos verdadeiros, mas, sobretudo no coração materno de Nossa Senhora.

Nesses momentos em que o público se manifesta estarrecido com o noticiário, os propagadores de falsas soluções surgem e se arvoram em defensores da moral infantil e juvenil, repetindo a velha cantilena de que a Santa Igreja deve mudar suas instituições e disciplinas. O celibato sacerdotal e a organização hierárquica da Igreja tornam-se os alvos preferidos de tais detratores e fabricantes de falsas soluções.

Curiosamente, a mídia anticatólica passou a pontificar contra os abusos sexuais de membros do clero. Mas é público e notório que ela há muito tempo se destaca como a maior promotora da perversão sexual de crianças, jovens e adultos. Basta ver o amplo espaço que dedica à imoralidade na TV, no cinema, na internet; à educação sexual e ensino da ideologia de gênero nas escolas; à pornografia e incentivo a desvios sexuais em todos os veículos de publicidade. Sendo essa mídia a grande propagadora dos erros morais, com que direito esbraveja contra os que praticaram esses mesmos erros? Deveriam entender ainda que uma consequência inevitável da propaganda que fazem da imoralidade e liberalização dos costumes é a penetração dessa imoralidade nos próprios seminários, minando na base a tradicional exigência da castidade e pureza dos costumes no clero. Tudo isso, dói também dizê-lo, com a conivência ou cumplicidade de altos Prelados.

A solução para a crise moral do clero não se encontra na desconstrução dos costumes e instituições católicas milenares, mas na retomada vigorosa deles. Acrescente-se a necessidade de frisar a noção do pecado, do bem e do mal. Sem isso, será inócua qualquer medida para encontrar, denunciar e punir os eventuais culpados de abusos sexuais dentro da Igreja.

Diante desse quadro, bem se podem aplicar as palavras de Plinio Corrêa de Oliveira em uma meditação da Via Sacra publicada em Catolicismo (março/1951): “Quantos são os que realmente veem o pecado e procuram apontá-lo, denunciá-lo, combatê-lo, disputar-lhe passo a passo o terreno, erguer contra ele toda uma cruzada de ideias, de atos, de viva força se necessário for? Quantos são capazes de desfraldar o estandarte da ortodoxia absoluta e sem jaça, nos próprios lugares onde campeia a impiedade ou a piedade falsa? Quantos são os que vivem em união com a Igreja este momento, que é trágico como trágica foi a Paixão, este momento crucial da História, em que a humanidade inteira está escolhendo por Cristo ou contra Cristo?

 Inviolabilidade do segredo da confissão

Sacerdotes na Austrália “dispostos a ir para a prisão” 
antes que violar o segredo de confissão.
Entretanto, a atual ofensiva contra a Igreja aproveita-se dos escândalos sexuais para avançar ainda mais na sua obra destruidora. Pretende inclusive quebrar o sigilo do sacramento da confissão. Em junho deste ano, o território de Camberra, na Austrália, aprovou uma lei que obriga os sacerdotes católicos a revelar à polícia o segredo de confissão, quando algum fiel declarar pecados em matéria de abusos de menores. A norma passará a vigorar a partir de 31 de março de 2019.1

No momento, o alcance dessa lei anticatólica é regional, mas já se cogita a sua ampliação para a esfera nacional. A informação é de Sandro Magister: “O primeiro-ministro de New South Wales, um dos estados que constituem a federação australiana, já requereu que a lei seja discutida e sancionada em âmbito federal, tornando-a válida para todo o país”.2

O clero católico, como é seu dever, reagiu com firmeza. O Pe. Michael Whelan, pároco de Saint Patrick, em Sydney, esclareceu que o Estado não pode constranger os sacerdotes católicos a praticar o mais grave dos crimes. E acrescentou que ele e outros sacerdotes estão “dispostos a ir para a prisão” antes que violar o segredo de confissão.

A Fraternidade Australiana do Clero Católico (Australian Confraternity of Catholic Clergy – ACCC), associação privada de sacerdotes, afirmou que o segredo sacramental “não é meramente uma questão de direito canônico, mas de Lei Divina, a qual a Igreja não tem poder para dispensar. Nenhum sacerdote está obrigado a cumprir qualquer lei humana que procure solapar a confidencialidade absoluta da confissão”.3

É importante lembrar a firmeza com que a Igreja trata o sigilo da confissão. O cânon 984 do Código de Direito Canônico proíbe terminantemente ao confessor fazer uso de qualquer informação ouvida na confissão. O cânon 1388 pune o confessor que “viole diretamente o sigilo sacramental, com excomunhão latæ sententiæ [automática] reservada à Sé Apostólica”; quer dizer, além de ser automática, a excomunhão só pode ser levantada pelo Papa.

Além de iníqua, a lei favorece o abuso

São Pio de Pietrelcina no confessionário

Qualquer iniciativa para violar essa sagrada instituição representa grave violação à liberdade da Igreja Católica. Em outras palavras, trata-se de perseguição religiosa sob a capa de legalidade. Como se essa tirania legislativa já não bastasse, alguns membros do clero australiano a consideram também ineficaz. A Fraternidade Australiana do Clero Católico registrou uma gravíssima contradição: os pecadores deixarão de confessar o ato iníquo, e consequentemente permanecerão sem os recursos penitenciais e sobrenaturais para evitar a reincidência. Como resultado evidente, a lei acabará aumentando o crimes que pretende evitar.

Além disso, caso algum sacerdote católico se disponha a denunciar um eventual confidente, como poderá ter certeza da sua identidade? Pois é sabido que na maioria das vezes as confissões são feitas através da grade do confessionário, e nessa situação é difícil o reconhecimento de qualquer pessoa. Exigirá a nova lei que o confessor pergunte o nome do penitente? Quantas outras situações constrangedoras surgirão daí? Os absurdos da lei vão se sobrepondo uns aos outros.

Diante dessa onda, mais uma pergunta se impõe: estarão os sacerdotes australianos — e eventualmente os do mundo inteiro — dispostos a manter o segredo de confissão a todo o custo, até mesmo ao preço da própria vida? Outros já o fizeram no passado…


Mártires do sacramento da confissão

Talvez o caso mais conhecido de martírio por fidelidade ao sigilo da confissão seja o de São João Nepomuceno.4 Em meados do século XIV ele era Arcebispo de Praga e se tornou confessor da rainha Sofia, esposa do rei Wenceslau. O soberano considerou-se no direito de exigir que ele lhe revelasse a confissão de sua mulher. Diante da negativa, em um ataque de cólera Wenceslau ameaçou-o de morte. Posteriormente, aproveitou-se de uma querela com o santo sobre bens da Igreja como pretexto para torturá-lo e atirar seu corpo no rio Moldava. Recolhido pela população local, o corpo foi sepultado religiosamente.

No século XX, durante a perseguição aos católicos no México, o Pe. Mateo Correa Magallanes foi fuzilado pelas autoridades do governo pró-comunista, por se negar a revelar as confissões de prisioneiros resistentes, tornando-se mártir do sigilo sacramental. Pelo mesmo motivo, os padres Felipe Císcar Puig e Fernando Reguera foram martirizados durante a Guerra Civil Espanhola, na década de 30.

Na esteira de protestos generalizados contra abusos sexuais praticados por membros do clero, podem estar sendo articuladas perseguições como essas e muitas outras. Todos nós católicos lamentamos e repudiamos esses eventuais abusos. Mas também desejamos e esperamos que, se a tais extremos chegar a presente perseguição contra a Igreja, os exemplos já registrados pela História sirvam de modelo para os clérigos de nossos dias.

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Notas

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 815, Novembro/2018. 


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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

CONTRADIÇÕES DO MOVIMENTO FEMINISTA - Paulo Henrique Américo de Araújo


18 de outubro de 2018
As feministas alegam defender os interesses das mulheres, mas os fatos as desmentem

♦  Paulo Henrique Américo de Araújo
Simone de Beauvoir

Uma das iniciativas mais funestas, na tarefa em que se empenham os destruidores da Civilização Cristã, é o chamado feminismo. As raízes relativistas, hegelianas e marxistas desse movimento se encontram, em boa medida, nas ideias de Simone de Beauvoir, “companheira” de Jean Paul Sartre, o criador da escola existencialista.1 Beauvoir baseou-se no princípio da luta de classes, arma que Marx inventou contra a “opressão” dos ricos sobre os pobres, e estendeu o conceito à “opressão” do homem sobre a mulher. Assim, deve ser combatidoqualquer aspecto da convivência humana que não seja regido pela igualdade entre os sexos, mesmo em questões cujas diferenças biológicas são flagrantes.

Em conferência promovida pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, a Profª. Fernanda Takitani afirmou que “a origem das atuais discussões sobre ‘gênero’ pode ser buscada no movimento feminista, que nega a complementaridade entre o homem e a mulher”.2 Tanto o feminismo quanto a ideologia de gênero negam essa complementaridade, portanto são parceiros na guerra infame que movem contra a concepção católica de família; no fundo, contra a Civilização Cristã.

Atualmente, o viés mais radical do feminismo chega inclusive a promover rituais místicos dos mais bizarros, segundo observou Julio Loredo em recente estudo.3 Todas essas tendências não conseguem, no entanto, esconder as contradições e falsidades em que se baseiam. Para demonstrá-lo, convido o leitor a acompanhar o raciocínio a seguir, que possibilita reconhecer os reais fundamentos do feminismo.

Incoerência feminista

Se o feminismo fosse coerente com seus princípios, não faria acepção ideológica em relação às mulheres. Entretanto, nem sempre essa alegada “defesa das mulheres” se apresenta no currículo feminista. Vejamos um exemplo.

No último mês de maio, correu como rastilho de pólvora na imprensa brasileira a ação da policial Katia Sastre, que evitou um assalto em frente à escola de sua filha em São Paulo.4 Vestida à paisana, por estar fora do seu horário de trabalho, com rapidez e perícia ela atirou no assaltante, que ameaçava com uma pistola as crianças e seus pais, e o imobilizou no meio da rua. Pouco depois ele veio a falecer no hospital.

Muitos especialistas atribuíram principalmente ao treinamento e profissionalismo a eficácia da policial, e algumas vozes apontaram riscos e agressividade na sua atitude. De qualquer modo, é estranho não se ter conhecimento de nenhuma manifestação de apoio proveniente dos arraiais feministas,5 mesmo diante dessa patente vitória de uma mulher contra um homem criminoso que

Katia Sastre, policial que evitou um assalto
em frente à escola de sua filha em São Paulo

intimidava impunemente mulheres e crianças. Por que o movimento feminista silenciou a respeito? Afinal, a policial Sastre demonstrou agilidade e “sangue frio”, tornando-se uma verdadeira heroína na defesa da sociedade. Por que não é ela um modelo para as feministas?

Uma das muitas hipóteses sobre as razões desse silêncio seria a de que as feministas são contra qualquer tipo de violência, mas tal hipótese não se coaduna com a realidade dos fatos, como veremos.

Um peso, duas medidas

Em dezembro de 2016, o então presidente da França, François Hollande, concedeu liberdade a uma mulher que havia assassinado o próprio marido com três tiros nas costas.6 Ela sofrera abusos dele durante décadas, havia sido condenada pelos tribunais, e cumpria pena desde 2012. No imenso alarido midiático desse fato, as ONGs feministas comemoraram a libertação.

Nesse caso, as feministas consideraram que a violência da mulher estaria justificada por ter sido praticada contra a “opressão” em um casamento abusivo. Mas a atitude da heróica policial brasileira, enfrentando a “opressão” do bandido, recebeu apenas o silêncio dessas mesmas feministas. Endossaram a ação violenta da mulher francesa, mas não a da policial brasileira. Como desvendar esse enigma?

A resposta só pode estar em outro fator, e não na simples questão da violência. No fundo, o feminismo não visa defender as mulheres contra a “opressão da sociedade patriarcal”. Tendo sua origem na Revolução gnóstica e igualitária, na realidade ele pretende subverter o que resta da boa ordem desejada por Deus no convívio humano.

Não interessa às feministas defender uma mulher policial que mata um bandido numa ação legítima. Tal ação se apresenta aos olhos do público como uma vitória contra a criminalidade e o caos moderno, expressões uma e outro da Revolução que visa destruir os restos da Civilização Cristã. E o feminismo é parte dessa Revolução.

Além disso, a policial paulista agiu para defender sua filha e os filhos de outras mães, que corriam risco em frente à mencionada escola. Ora, as feministas, nas suas correntes mais extremadas, repudiam até a maternidade, daí o seu invariável apoio ao aborto. Nada mais natural, portanto, que elas tenham se calado quando uma mãe policial saiu vencedora.

Por outro lado, quando uma esposa mata o próprio marido e é libertada antes de cumprir toda a pena estabelecida pela justiça, as feministas aplaudem e festejam, pois isso representa, em tese, uma rejeição aos ideais do casamento e da família. Estes são restos da Cristandade, ainda presentes na sociedade, que a vertente feminista detesta.

Muçulmanos poupados pelo feminismo

Feminista protesta nos EUA

As feministas são sempre contrárias a agressões sexuais contra mulheres? Seria normal elas sempre levantarem protestos indignados diante de qualquer fato desse gênero. No entanto, vejamos o que aconteceu em Colônia (Alemanha), no final de 20157. Centenas de mulheres alemãs relataram assédio sexual ou agressões físicas por homens de origem árabe, na celebração de Ano Novo no centro da cidade. Em dois meses, 73 suspeitos foram identificados como imigrantes do norte da África.

Dias depois, em resposta aos ataques, a prefeita de Colônia, Henriette Reker, tida como feminista, simplesmente instruiu as mulheres alemãs a se manterem “a um braço de distância de desconhecidos, para evitar agressões”.8 A declaração foi muito criticada, bem como todo o movimento feminista, pois não se ouviu dele nenhuma manifestação relevante repudiando os ataques.

Por cima do cinismo escancarado da prefeita alemã, e do silêncio das feministas, fica a marca de sua indiferença — para dizer o mínimo — quanto aos perigos que representam para a Civilização Cristã as atuais ondas de imigração na Europa. Aparentemente, para o feminismo vale mais a conivência com a multidão desenfreada de imigrantes do que a proteção das mulheres europeias.

Em resumo, o feminismo é sinônimo de subversão, de Revolução anticristã, não de verdadeira defesa das mulheres.

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Notas
Cfr. Catolicismo, novembro/2005. A Revolução Sexual destrói a família.
Teologia da Libertação – Um salva-vidas de chumbo para os pobres, p. 407.


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