Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Paulino e Roberto

Artur Azevedo

 


                 O Paulino toda vida remou contra a maré.

            Para cúmulo da desgraça, o destino atirou-lhe nos braços uma esposa que não era precisamente o sonhado modelo de meiguice e dedicação.

            Adelaide não lhe perdoava o ser pobre, o ganhar apenas o necessário para viver. O seu desejo era ter um vestido por semana e um chapéu de quinze em quinze dias, possuir um escrínio de magníficas joias, deslumbrar a rua do Ouvidor, frequentar bailes e espetáculos, tornar-se a rainha da moda. Não se podia conformar com aquela vida de privação e trabalho.

            O Paulino era a bondade em pessoa, afligia-se muito por não poder proporcionar à sua mulher a existência que ela ambicionava. Fazendo um exame de consciência, o mísero acusava-se de haver sacrificado a pobre moça, que, bonita e espirituosa como Deus a fizera, teria facilmente encontrado um marido com recursos bastantes para satisfazer todos os seus caprichos de Frou-frou³ sem dote.

            Ele só tinha um amigo, um amigo íntimo, seu companheiro de infância, o Vespasiano, que um dia lhe disse com toda brutalidade:

            - Tua mulher é insuportável! Eu, no teu caso, mandava-a para o pasto.

            - Oh! Vespasiano! Não diz isso!...

            - Digo, sim! Senhor! Digo e redigo!... Vocês não têm filhos; portanto, não há consideração nenhuma que te obrigue a aturar um diabo de mulher que todos os dias te lança em rosto a tua pobreza, como se ela te houvesse trazido algum dinheiro, e o esbanjasses!...

            - Isso não é conselho que se dê a um amigo, nem eu tenho razões para me separar de Adelaide.

            - Pois não te parece razão suficiente essa eterna humilhação a que ela te condena?

           - Pois sim, mas quem me manda ser tão caipora?

           - Não creias que, se melhorasses de posição, ela melhoraria de gênio. Aquela é das tais que nunca estão contentes com a sorte, nem se lembram que Deus dá o frio conforme a roupa. Se algum dia chegasses a ministro, ela não te perdoaria não seres presidente da República!

            - Exageras.

            - Pode ser, mas afianço-te que mulher assim não a quisera eu nem pesada a ouro! Prefiro ficar solteiro.

            Efetivamente. Vespasiano, apesar de ser muito amigo de Paulino, não o frequentava, tal era a aversão que lhe causava a presença de Adelaide. Não a podia ver.

 

            Paulino em vão procurava por todos os meios e modos melhorar a vida, aumentando o parco rendimento, quando um comerciante, seu conhecido, lhe propôs uma pequena viagem ao Rio Grande do Sul, para a liquidação de certo negócio. Era empresa que lhe poderia deixar um par de contos de réis, se fosse bem-sucedida.

           Instigado pela mulher, a quem sorria a perspectiva de alguns vestidos novos, Paulino partiu para o Rio Grande a bordo do Rio Apa; tendo porém, desembarcado em Santa Catarina, perdeu, não sei como, o paquete, e foi obrigado a esperar por outro.

            Antes que esse outro chegasse, recebeu a notícia de que o Rio Apa naufragara, não escapando nenhum homem da tripulação, nem passageiro algum. Do próprio paquete não havia o menor vestígio. Sabia-se que naufragara porque desaparecera.

            Paulino agradeceu a Deus por ter escapado milagrosamente ao naufrágio.

 

            Ao ver o seu nome impresso, nos jornais, entre os das vítimas, atravessou-lhe o espírito a ideia de calar-se, fazendo-se passar por morto. Não sei se ele teria lido o Jaques Amour, de Zola, ou a Viuvinha, do nosso Alencar.

            - Em vez de me livrar da Adelaide, como aconselhava o Vespasiano, livrá-la-ei de mim. Ora está dito! Seremos ambos mais felizes...

            Ninguém o conhecia em Santa Catarina, e ele, de ordinário taciturno e reservado, a ninguém se queixara de haver perdido a viagem, de modo que pôde executar perfeitamente o seu plano. Calou-se, muito caladinho, e deixou que a notícia da sua morte circulasse livremente, como a dos demais passageiros do Rio Apa.

            Escusado é dizer que mudou de nome.

            Tendo feito conhecimento com um rico industrial teuto-brasileiro, ex-colono de Blumenau, foi com este para o interior da província, e, como era inteligente e trabalhador, não tendo mulher que o “encabulasse”, arranjou muito bem a vida, conseguindo até por de parte algum pecúlio.

 

           Passaram-se os anos sem que Roberto, o ex-Paulino, tivesse notícias de Adelaide.

           Resolveu um dia ir ao Rio de Janeiro, a passeio, convencido de que ninguém mais se lembraria dele, nem o reconheceria, pois deixara crescer a barba, engordara extraordinariamente, e tinha um tipo muito diverso do de outrora.

            O seu primeiro cuidado foi passar pela casinha de porta e janela onde morava, na rua do Alcântara, quando embarcou para o Sul. Não a encontrou: tinham erguido um prédio no local outrora ocupado pelo ninho dos seus amores sem ventura.

            Informou-se na venda próxima que fim levara a viúva de um tal Paulino, morador naquela rua, náufrago do Rio Apa: mas ninguém se lembrava dessa família, e ele teve a sensação de que era realmente um defunto.

            Procurou ver Vespasiano, e viu-o, quando saía da Alfândega, onde era empregado. O seu movimento foi correr para o amigo e dizer-lhe: Olha! Sou eu! Não morri! Venha de lá um abraço!; mas conteve-se, e deixou-o passar, saboreando um cigarro.

            - Como está velho! – pensou Paulino - eu decerto não reconheceria, se o supusesse  tão morto como ele me supõe a mim! Deixá-lo! Eu morri deveras, e nada lucraria em ressuscitar, mesmo para ele, que era meu único amigo.

           

            Bem inspirado andou o morto em não se dar a conhecer, porque, alguns dias depois, achando-se num bondinho da praça Onze, atravessando a rua do Riachuelo, viu entrar no carro o Vespasiano acompanhado por uma senhora que era Adelaide sem tirar nem por.

            Paulino conteve o natural sobressalto que lhe causou aquela aparição.

            Ela vinha muito irritada. Logo que sentou, voltou-se com mau modo para Vespasiano, e disse-lhe:

            - Eu logo vi que você me dizia que não!

            Paulino reconheceu a voz da sua viúva.

            - Mas, reflete bem, Adelaide; aquele dinheiro está destinado para o aluguel da casa, e tu não tens assim tanta necessidade de uma capa de seda!

            Adelaide soltou um grande suspiro, e expectorou esta queixa bem alto para que todos a ouvissem:

            - Meu Deus! Que sina a minha de ter maridos pingas! Você ainda é pior que o outro!

            - Ah! se ele pudesse ver-nos lá do outro mundo – murmurou entre os dentes Vespasiano – como se riria de mim!

            Roberto ficou muito sério, olhando com indiferença para a rua, mas Paulino riu-se, efetivamente, no fundo do oceano.

            

Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.

* * *

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

AMOR - Clarice Lispector



 Amor 

Clarice Lispector

(Texto incluído entre “Os cem melhores contos brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, seleção de Ítalo Moriconi.)

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.

Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranquilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.

Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.

Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.

O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.

A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.

O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles.

Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.

Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.

Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.

A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível… O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.

O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo… E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite – tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.

Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.

Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.

Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.

A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.

De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.

Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.

Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.

Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.

Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.

Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada… Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado… O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.

Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.

Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.

Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha… Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles… Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.

Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?

Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.

Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.

Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.

Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água – havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d’água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.

Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.

Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.

Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.

— O que foi?! gritou vibrando toda.

Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:

— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.

Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.

— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.

— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.

Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

Acabara-se a vertigem de bondade.

E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.

Clarice Lispector )
(Os cem melhores contos brasileiros do século – Página 212)

 

Conheça Também:

Clarice Lispector – Site Oficial

Clarice Lispector – Wikipedia

* * *

quarta-feira, 20 de maio de 2020

UM HOMEM DE SERIEDADE – Nídia Maria Costa Reis


Um Homem de Seriedade 
Nídia Maria Costa Reis


                     - Oi, professor, vai um dinheirinho hoje? Juro tá bão!

                    Era sempre assim. Dorneles, o agiota analfabeto, mas bom de conta, não podia ver o professor Avelar na varanda de seu bangalô, sem lhe oferecer um empréstimo, raras vezes rejeitado. Ele sabia que, mesmo sem muita necessidade, o professor sempre aceitava alguma quantia. Era uma espécie de vício, adquirido ao longo dos anos de aperto financeiro que o levava sempre aos benditos cruzeiro, cruzados e reais do Dorneles.

          Agora, o professor tinha melhorado de vida. Tinha casa própria, filhos empregados e crédito fácil no comércio porque, apesar dos miseráveis proventos de professor aposentado que, mensalmente, caíam em seu bolso, ele sempre pagava o que devia, a trancos e barrancos, mas pagava. Andava até muito saliente com um fusquinha azul, bem conservado, presente que ele havia dado a si mesmo quando ganhou na loteria, num rasgo benevolente da sorte. Mesmo sem carteira de motorista, ele aventurava-se pelas estradas de terra de seu município, sempre acompanhado de sua esposa, em busca de lagoas e peixes ariscos.

          Certa vez, numa dessas pescarias improdutivas, viram-se numa enrascada dos diabos. Foi num cenário poético, junto à ponte da rodovia. Uma colina de cada lado, o rio no meio, barulhento, sobre um leito de rochas. Estacionaram o fusquinha em um pequeno acostamento e aproveitaram a parada para um cafezinho quente, já antegozando o “tête à tête” com os peixes. Eram três horas da tarde e fazia muito calor. O sol, inclinado, castigava-os sem dó nem piedade e aquecia excessivamente a atmosfera. De repente, surgiram cabriolando e atacando de rijo as primeiras abelhas. Umas tantas ferroadas aqui e ali, e, depois, o dilúvio do zumbido de asas malignas, dos golpes certeiros de ferrões aguçados e venenosos. O pobre professor e sua esposa precipitaram-se por barrancos e capinzais, desferindo taponas e esfregadelas na cabeça e no pescoço. Com o rosto coalhado de abelhas, tropeçando nas pedras e nas touceiras de capim, finalmente avistaram, à margem da rodovia, uma casinha onde se refugiaram e receberam os primeiros socorros.

          Sua esposa jurou por tudo que é sagrado jamais voltar a pescar, mas o professor, que enfrentara o desafio de inserir a tabuada na cabeça de seus alunos, durante vinte e cinco anos, não ia desistir tão facilmente. Passado o susto e a recuperação, voltaram às pistas, aos peixes e às abelhas.

          Certa manhã de domingo, o Dorneles voltava da missa todo enfatiotado, aflito para chegar a seu sítio e apartar as vacas. Para aproveitar a viagem, resolveu dar uma passadinha diante da casa do professor. Encontrou-o, como de costume, assentado no canto da varanda.

          - Bom dia, professor! Pegando um solzinho, né? Até que é bão, mas escuta, professor, queria ter um malemaleque com o senhor, posso?

          - Que história é essa, homem? Quanta falta de respeito!

          - Deus me livre, professor. Sou um homem de seriedade. É só um dedinho de prosa, gente! Só isso! Olhe, professor, fim do mês tá chegando. Aqueles quinhentos com mais sete por cento... fico preocupado. E o senhor? Ah!, mudando de assunto, outro dia eu ouvi a banda tocar na procissão uma música animada pra caramba. O Roque, aquele que toca prato, disse que foi o senhor que fez, é verdade? Eu sempre tive vontade de tocar um instrumento na banda. Se eu pudesse queria aquele fininho e preto. É bacana.

          - Deve ser a clarineta. Você tem bom gosto, mas, antes, é preciso aprender teoria musical e solfejo.

          - Quem me dera! Sou meio turrão, professor. Só alisei o banco da escola.

          Aproveitando a deixa, o professor animou-se com o assunto, falou bastante sobre música e a conversa parou por aí. O Dorneles seguiu caminho e deixou o coitado do professor bastante preocupado com a história dos quinhentos reais. Mais dia, menos dia, ele teria de barrar a escalada da dívida antes de recorrer ao FMI. O pior é que não sobrava nem um centavo depois de pagar o açougue, a padaria, a farmácia...

          Apesar da preocupação, o professor Avelar achou interessante aquele sujeito rude, sovina e ignorante ser sensível à arte de Euterpe. O Dorneles não era assim tão bronco como pensava. Ele gostava de música e apreciara seu último dobrado que, aliás, era mesmo uma criação de mestre. Homem culto, violinista, poeta, compositor e maestro, o professor, naquele momento, preferia uma carteira recheada a tantos dotes intelectuais. Na verdade, estava mesmo numa boa enrascada. Foi, então, que lhe veio a feliz ideia de trocar lições de solfejo pelos juros da dívida. Seria um bom negócio para os dois. Proposta feita, proposta aceita. Nos fins de semana, o Dorneles passou a vir religiosamente ao bangalô do professor Avelar para as lições de solfejo e teoria musical. O professor cada vez mais se entusiasmava com o talento e a notável aplicação de seu aluno que seguia, à risca, seus ensinamentos em troca dos juros dos quinhentos reais.

          Alguns meses se passaram e, após as lições sobre “andamento e ornamentos”, o professor, a contragosto, deu por encerradas as aulas e admitiu o recomeço do pagamento dos juros. A não ser que...

          - Desistiu da clarineta, Dorneles?

          - Eu? Quá! Quem sou eu, professor? Nem clarineta eu tenho.

          - Isto a gente dá um jeito. Posso ajudar.

          - É, mas quem vai me ensinar? O Roque não sabe. Ele só toca prato.

          - Eu ensino, se quiser. Acho que aprende em pouco tempo.

          - O senhor sabe tocar clarineta também? Puxa! O senhor é danadinho, professor.

          As aulas recomeçaram, desta vez ao som de uma clarineta emprestada. O aprendizado ia de vento em popa enquanto os juros permaneciam estacionados para a felicidade do professor Avelar. No início, eram só os primeiros sopros desafinados, seguidos das notas soltas e de escalas ascendentes e descendentes. Depois, o professor compunha umas lições fáceis, com mínimas e semínimas, diversificava os compassos, introduzia colcheias, semicolcheias e pausas. Dorneles assimilava tudo com a maior facilidade, a ponto de o professor escrever para ele uma valsinha cheia de quiálteras e apogiaturas, valsinha que foi digerida num átimo. O aluno tinha parte com o sopro e a palheta.

          Nada mais havendo para ser ensinado e aprendido, para a alegria do aluno e a tristeza do professor, encerraram-se as atividades musicais. Poucos dias depois, o Dorneles apareceu na porta do bangalô do professor com a finalidade de reativar os juros dos quinhentos reais. Apesar de todos os benefícios recebidos, ele não estava disposto a perdoar um centavo sequer. Conversa vai, conversa vem, o Dorneles deixou transparecer sua desilusão com a clarineta. O estudo fora perda de tempo, pois não tinha músicas para executar em seu instrumento e não conseguia tocar sem ver as notas na pauta, com compasso e tudo mais. O professor, imaginando uma proposta interessante, arriscou:

          - Não seja por isso. Tenho algumas partituras de valsa, dobrados e marchas fúnebres que compus e nunca foram executados por aí. Se quiser aproveitá-las, posso emprestar-lhe algumas se ...

          - Aceito. Dois meses sem os juros, conforme a quantidade.

          O professor não esperou mais nada. Saiu às pressas para o quartinho da sala onde guardava o violino, o trompete, aposentado por falta de fôlego, e as benditas partituras musicais de sua autoria, um calhamaço de fazer inveja a J Strauss, a J F Sousa, e a João da Mata, uma preciosidade.

          Quando voltou, tratou de apresentar a obra, exagerando nos elogios e atenuando as dificuldades. O Dorneles, de queixo caído diante daquele precioso acervo, não teve dúvidas de que se tratava de um negócio da China. Afinal, ele jamais compraria tamanha coleção pelos juros de dois meses, uns setenta reais.

          Feliz da vida, o Dorneles se foi, levando consigo três valsas, dois dobrados e duas marchas fúnebres, obras inéditas da melhor qualidade. Foi-se e desapareceu por algum tempo. O professor, assentado em sua cadeira, na varanda do bangalô, respirava aliviado por ter feito o melhor negócio de sua vida. Mas a felicidade durou apenas alguns meses. Um belo dia, ou melhor, um dia sinistro, o Dorneles apareceu com as mãos nos bolsos da calça e um sorriso maroto de quem havia levado a melhor em alguma transação.

          - Oi, professor, que tempão, hem? Tomei chá de sumiço, não tomei? O senhor, com certeza, achou que eu morri, não achou?

          - Morrer? Você não morre assim tão fácil, meu amigo. É jovem e cheio de vida. Eu é que já estou na fila... Mas, que aconteceu? Ah, já sei. Os quinhentos, não é?

          - Que nada! é só um malemaleque sem importância. Eu vim passando e... Ah, quer saber? pra falar a verdade é sobre eles mesmo. Só que o negócio agora é outro.

          - Aumentou os juros. Eu já esperava. Coitado de quem pede dinheiro a qualquer um.

          - Que é isso, professor? Sou um homem de seriedade. Pra provar que sou um sujeito sério, fiz um negocião pra nós dois. Pra mim e pro senhor.

          - Negocião? Bom para mim?

          - Não é, professor? Escute. Eu não sou bobo nem nada. Já percebi, há muito tempo, que o senhor nunca vai me pagar os quinhentos que me deve. Então, resolvi tomar minhas providências.

          - Providências?

          - É isso mesmo. Outro dia, fui levar umas encomendas lá em Brojocó e fiquei sabendo que a cidade tinha uma bandinha de música, uma bandinha de nada, muito mixuruca. Aí, eu procurei o músico maestro e fiz a oferta.

          - Oferta?

          - Ele topou na hora. Vendi as partituras do senhor por seiscentos reais e ainda me convidou para tocar clarineta na banda dele. Tirei meus quinhentos e vim trazer o troco de cem pro senhor. Aqui, tome. Cem reais. Tudo resolvido. Um negocião! Sou ou não sou um homem de seriedade?

.................
Nídia Maria da Costa Reis - Educadora, escritora, soma mais de cem pequenas histórias e poemas catalogados, além da coleção 12 provérbios e suas histórias, que chegou à quarta edição e concorreu ao Prêmio Jabuti de Literatura. Aventuras de Gui Omar é seu trabalho mais recente.



** *

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

A MÁ FAMA DOS POLÍTICOS



 Um pequeno conto para ilustrar a visão geral que os políticos construíram no imaginário popular – não sem motivos!


“O florista foi ao barbeiro para cortar seu cabelo.

Após o corte, perguntou ao barbeiro o valor do serviço e o barbeiro respondeu:
– Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário esta semana.

O florista ficou feliz e foi embora.

No dia seguinte, ao abrir a barbearia, havia um buquê com uma dúzia de rosas na porta e uma nota de agradecimento do florista.

Mais tarde, no mesmo dia, veio um padeiro para cortar o cabelo. Após o corte, quando o homem tencionou pagar, o barbeiro disse:

– Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário esta semana.
O padeiro ficou feliz e foi embora.

No dia seguinte, ao abrir a barbearia, havia um cesto com pães e doces na porta e uma nota de agradecimento do padeiro.

Naquele segundo dia, veio um deputado para um corte de cabelo.

Quando o deputado-freguês foi pagar, o barbeiro disse:

– Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário esta semana.

O deputado ficou feliz e foi embora. No dia seguinte, quando o barbeiro foi abrir a barbearia, havia uma dúzia de deputados, com seus filhos, tios, sobrinhos, afilhados, vizinhos, cabos eleitorais, todos fazendo fila para cortar cabelo de graça!.
Essa é uma das diferenças entre os cidadãos e os políticos.”


 “Os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente e pela mesma razão.”     (Eça de Queiróz)



* * *

segunda-feira, 18 de março de 2019

O TRIUNFO DO AMOR - Cyro de Mattos


O moço morava no outro lado do rio. Lá havia uma olaria. Trabalhava ali, fazia moringa, panela, bonecos e santos. Mãos caprichosas, artesão afamado. A moça morava no lado de cá, margem esquerda do rio, onde havia a pequena cidade com o seu comércio próspero. Fazia toalha, tapete, rede. As mãos delicadas, tecelã admirada.

Em cada domingo, empreendia o caminho das águas. Na canoa remava. Sentia-se bem com a manhã clara, a aflorar sentimentos de ternura, a cada lance que remava. ”Rema, rema, remador, se queres ver o teu amor”.

Manejava o remo com serenidade, a canoa singrava no espelho das águas. Prosseguia na manhã sem nuvens, o moço concentrado em cada remada que dava, a canoa como uma folha deslizando nas águas claras, de fontes puríssimas. “Se a canoa não virar, devagar chegarás lá, o teu amor vais encontrar.”

O casamento foi marcado para maio, mês de nascimento do moço artesão e da moça tecelã. Era para acontecer num desses domingos de sol radiante. Na igrejinha de paredes alvas, erguida na colina, no pátio enfeitada de bandeirolas. Lá dentro os vasos com cravos e rosas, os ares ativados com o perfume das flores. O sino velho na torre saudaria os noivos, as batidas fazendo blem, blem, blem, alegrando a cidadezinha na manhã luminosa.

Vontade de chegar depressa, abreviar o caminho das águas. Bater à porta da casa onde a moça o esperava desde cedo, o coração temeroso, o rosto de ânsia. A canoa impelida pelo remo em lances cadenciados. O vento, a princípio manso, de repente assoviou forte, no peito do moço bateu enraivado. Mostrava que também estava enamorado da moça. Vento virado em bicho ciumento, danado, como se quisesse derrubar nas águas o moço, impedindo-o de se encontrar com a moça. Bateu mais forte na canoa, que bateu na pedra, virou de lado, encheu de água. Desceu para o fundo do poço.

Nadou com firmes braçadas. Para se encher de ânimo, o moço dizia para si, entre os redemoinhos da alma. “Nada, nada, nadador, se queres ver o teu amor.” Até que pisou em terra firme. Estava cansado, o peito arfava. Colheu flores silvestres no barranco, antes de prosseguir na jornada.

Já desanimada, a moça não mais esperava que ele aparecesse. Ouviu alguém bater palmas lá fora. “Tem alguém aí em casa?” Apressada foi abrir a porta. Queria saber de quem eram as palmas fortes. Assustada, viu o moço que aparecia risonho, um rosto de expressão vitoriosa.

Entregou à moça o buquê de flores. Pediu uma xícara de café quente. Sentou na cadeira da sala, vestido com outras roupas, limpas e engomadas, que a própria moça providenciara. Depois de aquecer o peito com o café, bebido aos poucos, começou a contar por que se atrasara. O vento cheio de ciúme bateu na canoa com uma rajada medonha, suficiente para fazer um rombo na popa. A canoa afundou. Para não esmorecer na travessia, fortaleceu a vontade com uma coragem impressionante. Impeliu-se em arrojadas braçadas. Nada o atemorizava. Nem o poço fundo, a correnteza poderosa, o vento incontrolável, que enciumado assoviava na manhã tormentosa.

Durante a difícil travessia, só queria que chegasse aquela hora para dizer à moça o que sempre desejara:
- Estou esperando na igrejinha para receber você como a minha esposa.

Como havia prometido, desde aquele dia em que o artesão afamado deu o seu primeiro beijo na tecelã amada.


* Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Possui prêmios literários expressivos no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.


* * *

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

NATAL DAS CRIANÇAS NEGRAS - Cyro de Mattos


Natal das crianças negras
Conto de Cyro de Mattos

       
        
Ilustrações de Calasans Neto



-------------------

O Autor

Cyro de Mattos nasceu e reside em Itabuna, Sul da Bahia. Contista, poeta, cronista, romancista, autor de livros infanto juvenis. Publicou 44 livros, para adultos e para crianças. Tem livros também editados em Portugal (4), Itália (6), França (1), Espanha (1) Alemanha (1). No Brasil e exterior recebeu vários prêmios e, entre eles, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte, Prêmio Internacional de Poesia Maestrale Marengo d’Oro, Itália, e do Instituto Piaget de Almada, Portugal. Finalista do Jabuti três vezes. Participou como convidado do III Encontro Internacional de Poetas da Universidade de Coimbra e Feira Internacional do Livro em Frankfurt. Com o romance Os Ventos Gemedores ganhou o Prêmio Pen Clube do Brasil. É membro da Academia de letras da Bahia e Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz, Bahia.

---------------------

                   Eles moravam no morro, a irmã era chamada de Bel, o irmão de Nel. Bel não recebia da vida a doçura feita com mel. E Nel não vivia a vida, lá no alto morro, como se estivesse no céu. A mãe deles chamava-se Maria. Vestia trajes simples, gastos pelo uso diário. Nunca vestiu um manto azul feito de seda para brilhar no dia, como se via na igreja com a imagem da Virgem Maria.

                    A mãe de Bel e Nel era lavadeira. Tinha as mãos grossas de calo de tanto bater roupa na correnteza de águas límpidas. Durante a semana, descia o caminho pelo barranco com a bacia de roupas sujas na cabeça. Quando chegava à beira do rio, colocava a bacia de roupas em uma pedra grande, junto ao areal. Não demorava e começava a tirar as roupas da trouxa. Molhava, ensaboava, esfregava, lavava e torcia. Estendia as roupas nas pedras pretas para secar ao sol. As pedras pretas, cobertas de roupas estendidas, de repente apareciam coloridas naquele trecho do rio.

                   O pai de Bel e Nel chamava-se José, era carpinteiro. Sabia usar com habilidade os instrumentos de trabalho: martelo, serrote, enxó, plaina e formão. Suas mãos pequenas faziam cadeira, mesa e banco. Consertavam porta, janela e portão. No mês em que Bel completou seis anos de idade, o carpinteiro José começou a sentir dores na espinha. Os ossos inflamados, as mãos trêmulas, o corpo todo doía. À noite, no quarto, gemia. O coração dele foi diminuindo o amor que tinha por São José, o padroeiro da cidade, por causa da doença que o afligia. Até que um dia o pai de Bel e Nel perdeu para sempre sua constante fé em São José, o santo protetor dos carpinteiros.

                   O tempo de Natal era chegado. Nel queria um avião grande, Bel uma boneca que chora. Viram o velho gordo com o rosto rosado pela primeira vez na televisão da loja. Carregava um saco de brinquedos nas costas. Tinha a barba branca e os cabelos sedosos. Vestia uma roupa vermelha. Calçava botas pretas. Numa das cenas em que aparecia na telinha, deixava escapar do rosto rosado um sorriso que transmitia uma sensação de alegria e paz a cada criança que ia falar com ele e receber o seu carinho. Os meninos no passeio da loja não tiravam os olhos da televisão. Comentavam que o velho dava brinquedos à criançada sem querer nada de volta. Eles sorriam quando o velho aparecia com as roupas folgadas na telinha. Olhinhos deles todos no querer, como que encantados, cintilavam.

                   Com olhinhos espertos e risinhos que enchiam os
dentinhos, Bel e Nel foram olhar a árvore enfeitada com bolinhas e luzinhas, armada em um dos cantos da loja. À noite, as luzinhas acendiam e apagavam. A estrela no alto comovia.

                    Descobriram depois o presépio em outro canto da loja, com os camponeses, pastores e bichos. Ficaram admirando o pequeno estábulo do presépio, que tinha o teto coberto de folha de palmeira. Um galo de crista vermelha estava no telhado. Uma estrela brilhava na cumeeira, toda acesa de Deus. Nossa Senhora e São José mostravam os semblantes felizes, ao lado de Jesuscristinho, que dormia o sono bom no berço puro e quente, feito de palha. E os três reis magos, ali no presépio, davam a entender que não eram dignos de tocar na palha onde Jesuscristinho dormia o sono sereno.

                    Sentados no meio-fio do passeio da loja, Bel e Nel escutavam agora a musiquinha que saía alegre pelo alto-falante no poste. De vez em quando o alto- falante baixava o som. Então a musiquinha fazia um fundo musical no mesmo instante em que entrava a voz pausada do locutor. A voz dele informava que vinha de Belém a estrela mais bela. Fora trazida pelas mãos da maior madrugada. Seu brilho imenso descaía do céu e vinha iluminar a relva onde os bichos anunciavam e cantavam o nascimento do menino Jesus. A voz do locutor ficava emocionada quando comunicava que naquele dia o menino pobre nascia no estábulo. Esse menino Deus vinha para afugentar o mal de toda a terra. A voz doce do locutor terminava a mensagem de paz eterna com mais emoção no final quando então revelava que os sinos do mundo inteiro nessa hora tocavam: É Natal! É Natal!

                    O alto-falante voltava a tocar a musiquinha alegre, acompanhada dessa vez de uma cantiga cativante. Bel e Nel continuavam sentados no meio-fio do passeio. Recebiam o sopro da brisa que circulava na rua, ao final do dia. A brisa suavizava os rostos deles dois em silêncio, enquanto seus pequenos corações eram tocados pela cantiga que se repetia e começava assim:

Botei meu sapatinho
Na janela do quintal.
Papai Noel deixou
Meu presente de Natal...

                     Dizia a cantiga ainda mais, que o velhinho sempre visitava o quarto de cada menino onde deixava, ali, um brinquedo como presente naquela noite especial. Seja rico, seja pobre, seja branco, seja preto, como Bel e Nel, o velhinho sorridente e bondoso não esquece de ninguém.

                    Bel e Nel colocaram os chinelos na janela do quarto. Nada acharam no outro dia. Do ponto mais alto do morro ficaram olhando as nuvens alvas, trafegando no céu como grandes almofadas. Umas nuvens menores desenhavam brinquedos enquanto iam passando, mansas, diante dos olhos tristes deles dois.


                     Eles viam nesse instante a cidade lá embaixo, aos seus pés. Imaginavam a algazarra da manhã festiva. No passeio, no jardim, em qualquer canto da casa. Cada menino o brinquedo exibia. Saltava, dançava, corria, sonhava, voava, sorria.

                     Então souberam como o mundo dava as costas a Jesus. Não queria ver Maria. Escondia-se de José. O Natal era a lágrima que pelo rosto deles dois descia.

                     E uma canção desfazia.

* * *