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sábado, 3 de junho de 2023

Ode à Biblioteca

Marco Lucchesi



Quando meus olhos não falhavam, em noites de impiedosa insônia, eu apontava o telescópio para o céu. Mirava as nebulosas na distância, e o brilho antigo e novo das estrelas. Matéria de abandono, sintaxe e conjunção. Um repertório a cada nebulosa: o trânsito dos astros e o rumor de fundo. Eu colimava lentes, verbo e coração. E me perdia na fuga das galáxias, na espiral da Via-Láctea, reconhecida nas aldeias como Caminho das Antas. Cem bilhões de galáxias e quase o mesmo número de estrelas. Cifra assombrosa, incogitável. E, todavia, estranhamente próxima, se comparada à quantidade de neurônios. Carregamos um céu dentro de nós, o clarão da linguagem e das sinapses. Importa conjugar o transfinito, em patamares cada vez mais altos. E sem perder a humana condição. Lembro o convés do Raposo Tavares, quando subi o rio Negro, rumo a Novo Airão. Provei as extensões do Rio-Babel, a biblioteca viva da Amazônia, acervo do sistema Gaia, palimpsesto de múltiplos extratos (carbonífero e devoniano), a cuja coleção de obras raras correspondem quatrocentos bilhões de árvores. Quem sabe até – senão – o mesmo número de deuses? Estrelas. Árvores. Neurônios. As dimensões possíveis de um sistema. Como quem doma o Caos e faz uma defesa do infinito. Como quem sai do dicionário para a prosa, do arquivo aos metadados. Talvez, assim, a biblioteca de Babel, com alto brilho e densidade, seja a fornalha de uma estrela, volume líquido e gasoso, de livros vegetais e de xamãs, Apolo e Olorum.

Trata-se de um conceito universal, mosaico e labirinto: a geometria de Perec e Osman Lins. Talvez o delírio de Brás Cubas. Livros futuros, imaginários, Bolaño e Rabelais. E livros que podiam ter sido e que não foram. Suportes de papel ou nato-digitais, de verbo e de silêncio revestidos. Estrelas jovens e azuis. Ou mortas, cujo brilho não se apaga. A Biblioteca nasce de outro céu e de outra selva. É marca de um saber plural, sob o rigor da lógica do acréscimo. Lembra o famoso Hotel de Hilbert (do n + 1 às potências de números primos). E se mais mundo houvera, lá chegara. Não há, porém, limite algum. Somente o débito de espaço, pago a longo prazo. O mais do mundo aqui se encontra. A Biblioteca Nacional é dos mais belos ecossistemas do Brasil. Floresta de exemplos, natureza e cultura, memória social, que cada geração buscou guardar. Entre as bibliotecas do Oriente e do Ocidente, do Vaticano ou do Mali, todas subscrevem, sem hesitação, as palavras de Richard Bury: “O tesouro do conhecimento e da sabedoria, a que todos os homens aspiram, por instinto natural, supera em muito todas as riquezas do mundo reunidas; perto dele, as pedras preciosas se degradam, a prata se oxida e o ouro, areia fina, vira lama. Comparado ao seu esplendor, o Sol e a Lua são eclipsados, à sua doçura o sabor do mel e do maná tornam-se amargos”

Viajantes nos limites desse espaço, a bem de todos, para sempre inacabado. A biblioteca vive da soma dos tempos. Nutre-se de uma adição épica. Mais do que eterna, é sempiterna. Antes de ser lugar, é um conceito; antes de ser depósito, um sistema. Onívora, incontida. Seus muros se tornaram transparentes. Capítulo inovador, segundo Darnton, a “biblioteca sem paredes, acessível em toda a parte, contendo a quase totalidade do que se encontra nos acervos da cultura humana.” A Biblioteca Digital é um divisor de águas. Trata-se de uma conquista admirável. Precisamos ampliá-la, criando um robusto centro de dados, um centro de tecnologia da informação e comunicação. Cem milhões de acessos ano passado. A biblioteca é uma assembleia interminável, centro de cultura e difusão, que se renova com os leitores-cidadãos. Não há distância entre leitura e democracia. Não pode haver. A Biblioteca Nacional é um dos maiores bastiões da liberdade. Está no seu DNA, na vocação ecumênica, inimiga da censura, voltada aos metadados. Não admite a pós-verdade. Imune às fake News, Incapaz de rechaçar os próprios dados.

Eclipse do Sol e da Lua. Nosso maior tesouro e capital simbólico chama-se Biblioteca Nacional. A sexta cidade dos livros da Terra. A nossa mais antiga casa de cultura. Eis a razão pela qual a Biblioteca não é órgão de governo, mas de Estado; usa o plural, não se apequena em partes ou fração; não é trincheira ideológica, nem deve promover a parte contra o todo. Seu estatuto é a acolhida. Índices e motores de busca são lentes poderosas, que sondam a máquina do tempo e da leitura. Esta Casa possui 72 quilômetros de prateleiras. Seus hóspedes aumentam dia a dia. Não é pequena a taxa demográfica, que vai além de dez milhões. O mundo dos livros e o livro do mundo coincidem. Modelos de Universo inflacionário. Melhor dizendo: Multiverso. A travessia da Biblioteca é uma viagem terrestre e celeste: nas infovias, mapas e armazéns. Como disse J.L; Borges, bibliotecário de Babel: “Se um eterno viajante atravessasse, em qualquer direção, verificaria ao longo dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão se alegra com essa elegante esperança.”

Avalista de um horizonte generoso, não fragmenta seu tempo e discurso, não cancela a matéria-prima da alteridade. Não perde o contexto, o pano de fundo informativo, não quebra a comunicação, não abandona uma razão estrutural.

Universo conjuga todos os tempos. A nostalgia do todo não permite desidratar o presente ou sequestrá-lo. Seu algoritmo trabalha a favor da pesquisa e da emancipação. Seu ofício transparente apura o trânsito informático, a pertinência e o valor da esfera pública. Nenhuma concessão à infocracia. Os algoritmos desta Casa possuem uma finalidade virtuosa. Instrumentos de acessos. E de conhecimento radial. Tesauros, ontologias. A Biblioteca não perde seu caráter multicêntrico. Sociedade de iguais, centrada no viés do bem comum, na conjunção da diferença. Não se limita ao curto prazo. Namora a longa duração. O presente infinito não esgota suas forças. O passado distante não é exílio e o futuro pode-se apressar. Projeto de igualdade, construção de paz e saber. O papel do bibliotecário se renova, sempre mais estratégico, num um paradigma aberto, segundo a Bibliotech, de John Palfrey, nova mundivisão e formas de pesquisa. Outros regimes de memória e mídia. A biblioteca anfíbia, virtual e analógica, duplicou as tarefas da preservação. Se antes era a química do papel e o ambiente – umidade, acidez, tinta ferrogálica –, agora são hackers, perda de dados, migração de tecnologia. O delicado olhar entre átomos e bits. Porque o digital não é eterno e imutável. A inteligência do processo deverá contemplar as novas materialidades. A nossa meta é a conquistar do espaço. Mais apetite à fome de guardar. Protocolos internacionais de cooperação. Transmitir o conhecimento entre gerações de profissionais que formam esta Casa. Levar a Biblioteca ao seio da República. Promover seminários nacionais e internacionais, mostras, publicações. Leitura em todos os quadrantes. E recuperar o acervo de obras perdidas.

Tempo de diálogo, com o Brasil e o Sul Global. A delicadeza como princípio ativo. A diplomacia do livro. Ouvir os agentes públicos da Casa, avalistas da memória, embaixadores do futuro. Ativos e aposentados. Permitam citar Zé Basto, cliente da Casa das Palmeiras: “O livro deve entrar no coração”. Frequentei bibliotecas mundo afora. Antes da crise sanitária, fui a aldeias e comunidades, escolas prisionais e terras quilombolas. Dou testemunha do gênio de nosso povo, diante da riqueza das dificuldades e a escassez de recursos. Todos imersos no cosmos – da língua materna, da biblioteca –enquanto organismo vivo, heterodoxo. Continuarei a visitá-los, sempre que possível. O presidente da Casa precisa testemunhar um sentimento solidário e democrático, a partir da república dos livros. A Biblioteca deve ser o espelho do país. Guardar todas as línguas e cosmogonias. Ninguém pode ficar de fora. A Compadecida e Diadorim, Paulo Honório e Policarpo, grafites urbanos e literatura de cordel, Lampião no Inferno e a massa flutuante de esperança. Espelho. Verbo. Imagem. Travessia. Para a terceira ou quarta margem fluvial. Futuro do pretérito e agora do passado, buscando diálogos: Sócrates e Ọ̀rúnmìlà, Isabelle Stengers e Davi Kopenawa. Harpas sonoras do sul.   

Antes do convite da ministra Margareth Menezes, planejava regressar ao Brasil para ficar dois meses navegando no Amazonas, com as gramáticas tikuna e nheengatu. Eu me via entre os volumes da selva, a visitar caciques nas aldeias. E, no entanto, aqui me vejo, na floresta dos livros, na missão de reconstruir o diálogo e o respeito da diversidade. Meu telescópio é o acervo. Essa é a minha constelação, meu atlas celeste. E a partir dessa confederação de luz, abrir um dos capítulos essenciais da história: aperfeiçoar os instrumentos da democracia e reconstrução do país.

 

Discurso de posse na Biblioteca Nacional, 30/05/2023

 

Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018, 2019, 2020 e 2021.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

A Mandíbula de Caim

Marco Lucchesi

 


Quem adentra esse mundo 3D, torna-se coautor da narrativa, segunda alma de Edward Mathers.

Este romance precisa de você. Não aprecia monólogos solitários. Nasceu para o diálogo, para ouvir suas ideias. O espetáculo começa quando você chega. Só depois abrem as cortinas.

Como um ator e espectador ao mesmo tempo. O livro precisa de um Tu. É um tabuleiro de xadrez, a convidar os jogadores.

Foi uma longa espera, convenhamos. Longa e sentida. Mas importa chegar.

Mantenha os olhos abertos. Leia 'além do que existe na impressão', segundo Jorge de Lima. São muitas mudanças de plano. Metamorfoses da língua. Mosaicos vivos. Quadrados mágicos, a que recorreu Osman Lins. Remate de palavras cruzadas. Recobre a atenção. Tantas sereias e Ulisses vai sozinho.

Esse livro jamais termina. Há quatro anos adentrei a narrativa. Já não consigo, e nem pretendo, abandoná-la. Talvez nos encontremos no meio da história. Conheço alguns bares nessas páginas. Uma xícara de café? E juntos escolhemos um caminho, capaz de elucidar parte do enigma. Um desafio refinado, quebra-cabeça dúctil, cujas peças podem crescer ou diminuir, sem alterar o desenho, com seu conjunto inquieto.

Os entendidos dão três soluções ao livro. Tenho uma ideia, mas não bancarei o spoiler. Mesmo porque, cada combinação é dinâmica. Se hoje parece uma coisa, amanhã já é outra.

Quem adentra esse mundo 3D, torna-se coautor da narrativa, segunda alma de Edward Mathers.

Para uma ideia da paisagem, cito o verbete 'dogma', do Etimologiário, de Maria Sebregondi: 's.m. (do ingl. 'dog': cachorro) - irrefutável verdade canina. As trocas e as metáteses entre etologia e teologia revelam que os cães têm indiscutivelmente razão: o cão é o espelho de deus (dog/god)'.

Espelho, forma invertida, ludismo, deriva e combinação: eis alguns pontos centrais viajar com Mathers.

A que horas marcamos nosso encontro, aqui dentro, meu cúmplice-leitor, colega de aventura?

Comunita Italiana, 22/02/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/mandibula-de-caim

 

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018, 2019, 2020 e 2021

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domingo, 27 de novembro de 2022

LÍNGUA TURCA: AMA AZUN! - Marco Lucchesi


Idioma de densas camadas

Entrei cedo na escola dos ventos, nas ondas frias e atrevidas. Não sei aonde me vou, se nas águas do Bósforo ou da Guanabara.

Tecida de onda e vento, a língua de Istambul. Ouço rumores do livro didático: tekneler yavas geçiyor, nos barcos que deslizam vagarosos.

Rio de Janeiro, também uma Istambul dos trópicos. Leio o diário de Baghdãdĩ, ao narrar a chegada de um navio otmano, vindo para uma secreta missão ao império do Brasil. Disfarçados, assistem à missa de Páscoa na antiga Igreja da Sé.

Guardo de tudo hüzün e saudade. Leio Machado e Tapinar, íntimos de Sterne, como se amigos fossem entre si. A música do Memorial de Aires e do Instituto de regulação dos relógios (Saatleri ayaarlama enstitüsü). E reúno versos de Drummond e Nâzım Hikmet, Yunos Emre e Henriqueta Lisboa. Vizinhos potenciais, nas prateleiras, no mundo aberto.

O turco é língua de densas camadas. Pedra acesa na escuridão; fosforescente quanto ao timbre das vogais. Tremas  que cobrem o "o" e o "u"; formas longa e breve do "a"; o "i" com ou sem ponto. Não há vogal de férias. São oito que trabalham. Delas depende a vocação aglutinante, conduzida pela harmonia vocálica. Quase demissonárias, as proporções. Porque os casos gramaticais resolvem tudo, ou quase. Como os desenhos de um tapete universal.

No início, o turco parece um mosaico. Um tipo de quebra-cabeça rigoroso, até ficarmos íntimos das peças. Da língua escura nasce a luz de Caravaggio.

A parte desse undo dedique Bizâncio. Fiz amizade ou traduzi vários poetas: Bejan Matur, Ataol Behramoğlu, Tozan Alkan. Passei a traduzido e interrogado. Sem falar com Yunus e o citado Nâzım.

Minha proximidade com o árabe e o persa foram determinantes, para cantar Yine bir gülnihal, de Dede Efendi.

Tenho o livro-monumento dos poetas otomanos, o divã de Eliot, quase outra língua, sortidae plural. Forma sagrada, corânica, no alfabeto persa.

Mais tarde, com a decisão fonocêntrica, iniciada no século 19 e ultimada com a reforma de Atatürk, ocorreu uma das maiores aventuras língua adentro. Dois autores, dentre outros, levaram-me ao coração do processo, Geoffrey Lewis (The turkish language: a catastrophic success) e Negris Ertürk (Grammatology and literary modernity in Turkey).

Fantasmas sonoros, imagéticos, redivivos, sonhos de laços míticos, laboratório, tubos de ensaio, espelho côncavo.

O mito de Instambul serviu, como Florença, a imprimir na cera a forma de uma língua. Ao mesmo tempo, a chuva torrencial de neologismos, empréstimos das línguas asiáticas afins. E as tantas sugestões de Ataç, Atay, Sayılı. A língua com seus jogadores de cartas.

Depois veio a teoria do sol, a güneş dil teorisi, sonho, baliza e represa ao processo radical de substituição semântica, das palavras persas e árabes, em prol de uma ilusória pureza (öz türkçe). A teoria de Kergic, distante da ciência e pura ideologia, fez do turco a mãe de todas as línguas. Criava, a bem dizer, uma trégua no campo da reforma linguística. Dois espectros de uma suposta fala adâmica de origem turca (sem base etimológica): yaltrik > elétrico e Ama uzum ("Mas é grande") > Amazônia!

Não morreram certas franjas ideológicas. Um olho no Ocidente e outro na mítica Turan, com Ziya Gökalp.

Os relógios de Tanpınar  batem hoje bem mais livres. O instituto perde a razão de ser. A língua mede o presente infinito, porque dispõe de um vasto patrimônio. Cidades invisíveis, como as de Calvino, de Xinjiang e Sarajevo. Não lhe faltam recursos. Importa o modo de aplicar tanta riqueza. Não faltaram poetas, prontos a gastar a generosa herança.

Comecei dizendo que entrei cedo na escola dos ventos, nas ondas frias e atrevidas. O Bósforo e a Guanabara.

O vento de Instambul. Sopra incessante em toda parte. É brisa delicada ou temporal. Corre para um destino irreverssível. Flecha do tempo, abraça agora passado e futuro. Entre o Flamengo e Üsküdar. Ventro que varre as velhas ruas de Bizâncio. Sopra nas ilhas Maricá e na torre de Gálata. Vento que nada pede para si. Apenas beleza de seu torso nu.

comunitàitaliana | novem, 19/11/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/lingua-turca-ama-uzun

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018, 2019, 2020 e 2021.

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sexta-feira, 19 de agosto de 2022

A PAIXÃO SEGUNDO CONY - Marco Lucchesi

A Paixão segundo Cony

 

Li de uma só vez, com duas pausas, se muitas, da madrugada ao amanhecer, o romance póstumo do inquieto e fascinante Carlos Heitor Cony. Como quem descobre uma carta não enviada, perdida numa gaveta entreaberta, sem destinatário – a todos e ninguém –, consignado, muito embora, o remetente, num jogo de espelhos remissivos. Faltou pouco para escoimar uma e outra parte, cortes e acréscimos, como deixou claro, na última revisão, suspensa em 2005, através de um movimento pendular: frontal e irresoluto, áspero e compassivo. Acenos de utopia e desencanto, estrela e solidão, no céu escuro deste século. Livro que flui para o leitor, na lisa superfície da narrativa, mas que se escreve sob dura condição, áspera e irregular. Legato que repousa na soma de staccati. 

Se a intenção do autor não atinge a totalidade que impôs a seus papéis – crítico feroz –, a intenção da obra resulta compacta e orgânica. Diria mesmo autossustentável. Entre as duas intenções, da obra e do autor, é privilégio de quem lê discernir os domínios da reta e o pontilhado, o que podia ter sido e o que ficou, na matéria verbal, na música do pensamento. A última parte, quando cresce a tensão entre ato e potência, surge como plano-piloto ou diário das personagens, na translúcida beleza, de que cada fragmento é portador.

A potência de Cony, feita de rocha e magma, segue irrefutável. O estilo firme, castigado, objetivo. Corte nervoso, dicção poética. A Paixão é romance de sabor carioca, erudito e popular, sem linhas divisórias. Vila Isabel, Gávea, Alto da Boa Vista. Cidade que remete a um programa literário, entre Lima Barreto e Machado de Assis. A rua e o seminário. Os delírios de Brás Cubas e Policarpo incidem no sonho de Mateus, não importa se de olhos abertos ou fechados, com deslocamento de planos, pontos de vista flutuantes, desejos e figuras. Texto primoroso, de conteúdo latente, que avança, e retrocede, segundo o índice do mistério da iniquidade, autêntico motor de sua ficção, base de sua razão existencial.

Cony jamais renunciou à dúvida metódica, ao entrechoque do novo com o antigo, mas sem querelas inúteis: sagrado e profano, utopia e distopia, Roma tropical, encarnada no Rio, e a outra, latina e metafísica, segundo uma deriva necessária. Esse entrechoque deu-lhe o sal da rebeldia, recusa e adesão. Sic et Non, podia ser o seu mote. Sentinela da noite e dos sentidos: “cuidar do estilo, mantendo unidade da primeira parte, ou preferir uma incursão declarada ao estilo misterioso e potente das duas introduções finais, do Orto e do Deserto”. Isto e aquilo, a revisão em processo, a uni- dade da escrita e o capítulo tomista, aquele da unidade, ferido, todavia, pelo mistério.

Não faltam hipóteses para explicar a reserva do autor sobre o romance e sua adesão aos véus do silêncio. Importa referir, contudo, que o mérito de vir a público é todo de Regina Cony, que tomou a sábia decisão no auge da pandemia, de publicá-lo. Não como preito restrito à memória do autor, mas como quem enriquece a literatura brasileira, pela força imanente da paixão, que é de Cony e de Mateus.

                                               Jornal de Letras de Lisboa, 27/07/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/paixao-segundo-cony

 

Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018, 2019, 2020 e 2021.

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domingo, 14 de novembro de 2021

GIACOMO LEOPARDI (PARA ANTONIO PRETE) - Marco Lucchesi



     Giacomo Leopardi (Para Antonio Prete) 

Marco Lucchesi

 

Um de seus mais belos poemas habita o sentimento do infinito. Para alcançá-lo, apenas a imaginação.
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Nos domínios fictícios do infinito, o pensamento humano só pode naufragar.
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Infinito atual e potencial: mas o poema hesita e não adere. A ideia de infinito é uma ilusão. Como na infância e novos arcaicos: o assombro da extensão de terra e mar. A fantasia trabalha e não descansa.
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Para ele, o infinito não é descortinável. Nem mesmo a analogia vai mais longe: "todos os mundos que existem, por maiores que sejam, não sendo infinitos, em número e em grandeza, são, por conseguinte, infinitamente pequenos, se comparados a quanto o universo poderia, se, de fato, fosse infinito; e o todo existente é infinitamente pequeno, se comparado à infinita verdade do não existente, do nada".
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De Leopardi, o timbre essencial, desde a infinita verdade do nada.
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Cantor (Georg) ouviu a melodia do infinito. E emprestou-lhe assim uma hierarquia.
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O infinito parece uma lição de botânica. Sua nomenclatura é expansiva. Dízimas, Fractais.
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Dedeking preencheu com os números reais o vazio da reta. É voz corrente. Pra mim, arrefeceu quanto possível.
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Insiste a voz de Cauchy: a soma de 1+1/2+1/4+... não chega a 2, mas tende para.
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A matemática e a metafísica se aproximam, segundo Leopardi, mediante operações de cálculo e proposição.
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Resisto, sitiado, na minha cidadela. Penso que a matemática é filha da poesia.

 

  Revista Humanitas, 12/11/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/giacomo-leopardi-para-antonio-prete


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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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quarta-feira, 20 de outubro de 2021

DANTE 700 - Marco Lucchesi


Dante 700

Marco Lucchesi


Desde a infância, Dante é meu fantasma. Quase de carne e osso. Vibrátil. Tornou-se meu enigma e obsessão. Determinou parte de minhas escolhas e de minhas recusas. Todos os anos volto ao Inferno, Purgatório e Paraíso. Basta entrar uma vez, para nunca mais sair. Um labirinto de beleza.

A morte de Dante é celebrada, mundo afora, com pompa e circunstância, em quase todas as línguas da Terra, para as quais foi traduzida a Divina comédia. Setecentos anos de presença e juventude. Seu decassílabo é fonte cristalina, pura dinâmica e inspiração. Como se Dante estivesse mais vivo do que nunca. Não tanto pelo impulso motor que imprime direção aos cem cantos da Comédia, mas pelo fulgor da poesia, no repertório das imagens, na nitidez de seu olhar.

Os timbres novos e os acentos vários descerram uma viagem audaz no mundo das almas. Terreno até então desconhecido, seu canto renova as potências da linguagem. Severa, sublime, fulgurante. Leitura que produz uma força de tração irresistível, a Terra e o Cosmos. Densidade brutal ou leve transparência, segundo a cartografia dos três reinos. Obra que traduz um tempo misto, ao longo da qual o antigo e o moderno se entrelaçam, liberdade e erudição, matéria e sonho.

Quantos interrogam o mistério de Beatriz e buscam trazê-la ao mundo em que vivemos, num gesto de adesão e profecia.  A obra de Dante, em certo e largo sentido, escapa ao controle do autor e da crítica. Tornou-se uma grande metáfora, uma espécie de universo inflacionário. Vive além do espaço-tempo, na longa viagem pelos séculos, entre algas e correntes de leitores, cardumes incontáveis, quase infinitos.

Assim, num país como o Brasil, os olhos de Beatriz confundem-se com os olhos de Diadorim. Nossa Divina comédia passa através do sertão, de Euclides, Rosa e Suassuna. Não abandona a literatura de cordel, os romances antigos, o alfabeto de vaqueiros e a linguagem armorial, que rege a presente exposição.

A leitura passa pelo Barroco, em que se prolonga, transfigurado, o tempo de Dante, nas igrejas coloniais, altares e torres antigas, onde dobram os sinos de Ouro Preto, Salvador e Paraty. Chega à Semana de Arte Moderna, com A divina increnca, e às escolas de samba.

Nossa abordagem dantesca possui leitores de águas claras: Camões, Vieira e Pessoa. E desta suma trindade, outra se acrescenta, não menos admirável: Murilo Mendes, Cabral e Drummond. E me permitam acrescentar: Jorge de Lima e Joaquim Cardozo.

A política entra na corrente sanguínea da Divina comédia. Escrita no exílio, o poeta  criticou duramente o que lhe parecia indigno, sem meias-palavras, papas e imperadores, leigos e padres. Defendeu a separação entre poder temporal e poder espiritual.

A república e a poesia, tão caras ao poeta, não fogem ao olhar de Beatriz. Na distopia, impõe-se pensar o bom lugar. Assim, a  transição do Inferno ao Paraíso reflete a crise de seu tempo. Sinal de quem se rebela e sonha com uma nova ordem. 

Estamos dentro da Divina comédia. Nessa metáfora de vidros claros. Em sua translúcida beleza. Nela desenhamos parte de um destino.  Beatriz nos cumprimenta do futuro, até onde nossos olhos podem alcançá-la.

Jornal de letras de Lisboa, 20/10/2021

 

Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.


https://www.academia.org.br/artigos/dante-700

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quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O DESERTO E AS FORMAS - Marco Lucchesi


 

O deserto e as formas

Marco Lucchesi

 

Como definir a experiência do deserto, senão através de aparente recorrência?

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A tautologia surgiu no coração do deserto. Um anjo disse: A = A.  Mas quando veio o diabolus, descobrimos a cifra de um paraíso perdido. A ≠ B.

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O deserto, antes dele. O deserto, dentro dele. O pós-deserto. Três mundos que divergem, irredutíveis. A soma de matéria incandescente. 

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Deserto: um texto em branco cheio de impurezas. O mistério da noite que um cego vislumbra. A estática o precede, mudo e ruidoso. O nada é pura fonte de eloquência.  

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O que se perde se concentra no infinito.

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Três desertos me habitam. Síria, Marrocos, Mauritânia. Três vozes que me ferem, inapeláveis.

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O raso e o profundo se convertem mutuamente no deserto de areia. Até as dunas não passam da dinâmica interna do Mesmo. Altura provisória. Ondulação.

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Deserto. Desejo. O corpo do céu. Toda a extensão moveu-se para os sonhos. O timbre dessas vozes me descentra.

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Cruzar o deserto é como habitar o lado escuro da metáfora. A potência da potência. Tudo e nada.

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Medir o índice subjetivo dos trânsfugas que acorrem ao deserto.

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O deserto como ponto de encontro. O deserto como ponto de fuga.

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A solidão de um casto criminoso. Ou o pecado de virgínea solidão?

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Nenhum deserto é vazio. Nenhuma solidão, solitária. Nem mesmo a morte foge à inscrição da história.

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A impossível transição do deserto rumo ao Nada.

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O deserto dos místicos. O deserto dos santos. O deserto de ladrões e assassinos. Terra de não-lugar. Sonho de transumância.

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O deserto é desejo. Não possui geografia a aspiração de habitá-lo. O deserto não é o infinito em ato. Se muito, um infinito potencial. 

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Pensar o deserto e desejá-lo. Fome de libertação. Um mundo entre realidade e sonho: α-mundo. Assim, enquanto houver deserto, há esperança.

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Andrógino o deserto: meridiana ambiguidade. O tempo, imóvel, lembra a eternidade. A parte e o todo permanecem indiscerníveis.

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O desvio para o vermelho chama-se aqui desvio do amarelo alaranjado.  Cada grão de areia, uma galáxia.

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 Como guardar a diferença na entropia?

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Não há história capaz de abranger o deserto. Apenas o mundo marinho, estático e semovente, de Débussy.

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Ninguém se afoga no deserto de pedra, conquanto é certo o naufrágio em deserto de areia. A redundância da paisagem. O vento como alma do Mesmo.

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Contra o deserto, o princípio de individuação. Se água ou terra pouco importa. Porque o deserto um dia já foi mar.


Revista Humanitas, 30/08/2021

https://www.academia.org.br/academicos/marco-lucchesi

 



Marco Lucchesi
- Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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sexta-feira, 30 de julho de 2021

MOBY DICK - Marco Lucchesi


Alguém disse que, quando lemos um clássico pela primeira vez, realizamos, a bem da verdade, uma segunda leitura. Mais que um paradoxo, as linhas de força de um grande livro não deixam margem à dúvida. 
 

Esse é o caso de Moby Dick. Antes de navegar com Ismael, naquelas águas altas e perigosas, quem não passou por um sem-número de filmes e desenhos animados, músicas e quadrinhos, que aludem à baleia branca de Herman Melville? Portanto, sabíamos algo de Moby Dick, antes mesmo de aportarmos no romance, através de remissões e fragmentos. 

Um clássico dialoga com as vozes que o precederam. Melville não esqueceu a viagem dos Argonautas, o naufrágio da Odisseia e a tempestade da Eneida. 
Assim, quando chegamos a Moby não somos uma página em branco. A primeira leitura é, no mínimo, a segunda. 

A tradução de Melville em português adquire novo teor salino. Nossa língua é filha de Netuno e de Ulisses. Cresceu na intimidade com o mar, entre sonhos e lágrimas, naufrágio e calmaria, Vênus e Adamastor. 

A literatura é um repertório infinito, rede lançada em pleno oceano para buscar uma ostra, ou quem sabe uma estrela que dorme, afogada. Ou, ainda, uma baleia, simbólica e profunda.

Há outro fato que me encanta em Moby Dick. Leio um artigo publicado no jornal carioca Última hora: “Casca de Noz em pleno Oceano”. O repórter Irênio Delgado é atraído por um pequeno barco no porto do Rio. O “Buona Stella” partiu de Gênova e levou três meses para chegar ao Brasil. Corria o ano de 1951. Havia um mascote a bordo chamado Tânger. “Cachorro fiel que viveu os mesmos perigos da longa travessia”. Irênio entrevista um jovem de 29 anos, Egidio, oficial telegrafista. Era meu pai. A vida toda me falou da travessia, tempestades e baleias.

Moby estava em mim antes de conhecê-la. 

A “segunda” leitura do romance deu-se numa praia de Niterói de cara para o Atlântico. Ia eu cercado de antigas ideias, O velho e o mar e Os lusíadas. Dezessete anos de idade.  Não conseguia separar-me da ficção que condensava uma vida: o mistério do bem e do mal, as ideias fixas: o mundo sombrio e luminoso de cada personagem. E logo me apresento ao capitão Ahab: “Olá, meu nome é Marco”. E vogo em alto mar, preso ao convés, de olhos bem abertos, a sondar o horizonte.   

Se alguém disser que saiu do romance, não acredite, leitor. Quem bebe dessas águas não é capaz de abandoná-las.  Um clássico passa a fazer parte de nossa biografia, amizade que reconheço, quatro décadas depois, na mesma praia de Itacoatiara. Não tenho dúvidas de que Moby me engoliu. Quem sabe me tornei um novo Jonas, apaziguado no corpo da baleia. 

Jornal de Letras de Lisboa, 28/07/2021

 https://www.academia.org.br/artigos/moby-dick


Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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terça-feira, 22 de junho de 2021

UM POETA DA MATEMÁTICA - Marco Lucchesi


A matemática perde um grande poeta. E quanto a mim, perdi um mestre e um amigo. Ubiratan d'Ambrosio (falecido a 12 de maio, aos 88 anos, em S. Paulo, de onde era natural) fundou uma nova antropologia da matemática e uma forma inovadora de ensiná-la. Mestre de águas claras, Paulo Freire era seu irmão de liberdade. E declarou que a paz era também função de número e proporção. A etnomatemática deve-lhe a fundação, a forma de aprofundar-se, uma rede conceitual. 

Volto às suas memórias híbridas, sem narrador onisciente, inclinado à ficção da matéria rediviva. Várias formas de entrar e sair. Um tesouro de testemunhos, e felizes redundâncias, como um discurso musical, quando o mesmo episódio é revisitado com variações. Memórias que ostentam uma saudável dispersão, aparentes disjecta membra. Cabe ao leitor a tarefa dos fios da narrativa, que acercam a matemática no Mali e no Brasil, as atividades docentes, as não poucas missões entre organismos internacionais e escolas em áreas vulneráveis. E sobretudo a defesa de novas epistemologias, enucleadas no viés transcultural e no recorte transdisciplinar, que formam a digital de Ubitatan.

Emociona a evocação de Salomon Marcus, nosso amigo comum, professor que transitou vida afora entre a poesia e a matemática, discípulo, como foi, do grande poeta matemático Ion Barbu. Não são dois mundos, o das ciências exatas (depois de Gödel temos de mudar o tom) e o das ciências humanas. Nada além do mundo cultural, desde um generoso senso de unidade. Esse é também o espírito sensível de Ubiratan. Tenho uma dívida com ele, por haver apaziguado minha relação, outrora nada simples, com as matemáticas. Voltei para essa casa, de números e padrões, como o filho pródigo, através de seus livros, mediante suas palavras audazes.

A etnomatemática é um divisor de águas no campo dos saberes, que tangencia a hermenêutica e a história da matemática, rasgando novas fronteiras. E me levou-me a pensar, de modo mais estruturado, em uma poética da matemática. Como se o fio de Novalis não se houvesse peridod, assim como a lição de Leonardo, que vibra além das disciplinas e não se fecha em dimensões burocráticas, Ubiratan me conquistou pelo seu juízo severo do ensino da matemática, segundo um cardápio de sugestões fascinante.

Mas é a proposta de uma cultura da paz que se afirma, a cultura, onde seguimos todos implicados, nas escritas da periferia e do sistema prisional. Ubiratan acertou em cheio. O ensino da matemática traduz parte do ideal possível de uma paz perpétua, ou de uma ética em trânsito que sonha com uma parcela de beleza e liberdade.

Jornal de Letras, Artes e Ideias (Lisboa), 19/05/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/um-poeta-da-matematica

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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sexta-feira, 30 de abril de 2021

CÉU NOTURNO – Marco Lucchesi


Céu Noturno

Marco Lucchesi


Espanto e maravilha, irrompe a fresca madrugada nos domínios da insônia.

A descoberta da escala me pareceu assombrosa. Não sofro de insensibilidade numérica. A estrela Ícaro, na constelação do Leão, dista nove bilhões de anos-luz da Terra! A fome da distância produz vertigem e delírio. Impossível morrer por falta de ar.

Poincaré: a astronomia é útil porque nos eleva acima de nós, útil porque é bela. Faz ver quanto o homem é pequeno no corpo e no espírito, pois essa imensidão resplandece onde seu corpo não passa de um ponto obscuro, e pode abarcar a sua inteligência e dela fruir a silenciosa harmonia.

O céu noturno clama o sentimento do infinito. Ou de operar em vastas, sublimes escalas. E de obrigar-se para o mais, não para o menos. Apelo de angústia ou de paz. A luz das nebulosas, estrelas e quasares. Leio Paul Coudrec: “os poetas não terão mais, sozinhos, o privilégio de celebrar a luz: toda a ciência tornou-se um hino à luz”

 Também assim, para Farias Brito, mas por motivos outros, ao declarar que dentro da luz agimos e estamos.

 As não pequenas dificuldades do campo unificado. O primeiro livro que me abordou foi o de Abdus Salam. A mecânica celeste e os sóis incontáveis. 

 Betelgeuse e Bellatrix. Les belles dames sans merci. Amo as nebulosas de Órion e Cabeça de Cavalo. Assim na Cruz o Saco de Carvão. Mais belas entre Escorpião e Sagitário, as nebulosas da Lagoa, a Trífida e a Messier 55.

Comprei alguns livros de radioastronomia. Mas inutilmente. Olhar de poesia, artesanal. Vou mais longe com a matemática. Reclamo sempre o corpo razoavelmente tangível.

Minhas estrelas: Antares e Aldebarã. E a Mira Coeli – em vez de Mira Coeti para dizer como Jorge de Lima.

Passaram-se muitos anos. Meu telescópio ainda vive. É preciso colimar as lentes. Eu também vivo. Quando o mundo é mais hostil, não falta céu.

 

Humanitas, 01/04/2021


Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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quarta-feira, 14 de abril de 2021

DOSTOIEVSKI - Marco Lucchesi




                                         Dostoievski 

Marco Lucchesi


 

A narrativa em Dostoievski perde para o abismo do diálogo. A voz das criaturas é a raiz. Intensidade radical. Como Os demônios, extremada. 360º de partitura. Imagem especular. Fusão e simbiose. Para Baktin, a polifonia. Para Kantor, a fronteira.

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Na pane do sistema racional, o paradoxo é probatório. Também a teologia negativa e a reiterada floração do inatingível.

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Viacheslav Ivanov: “Como se víssemos a tragédia numa lente de aumento. Torna-se clara aquela lei do ritmo épico em Dostoievski, que corresponde à essência da tragédia, lei que gradualmente adiciona o peso dos eventos e transforma suas criações num sistema de músculos e nervos tensionados”.

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Sou visitado por um rosto, ubíquo e transversal. Não mais que um rosto vazio e sem alma. A outra parte que de mim não sabe. Goliádkin!

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Berdiaev: “Um turbilhão da natureza humana apaixonada e ardente nos leva ao misterioso, ao profundamente enigmático e insondável ​​dessa natureza. Aqui Dostoievski revela a qualidade infinita e sem fundo da natureza humana. Muito embora nas profundezas, o rosto e a imagem do homem permanecem”.

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Raskolnikov e a transmutação dos valores. Além do bem e do mal. Vazio de sua terrível inquietação. Nietzsche reconheceu um irmão de sangue em Dostoievski.

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Zossima e a tradição do monte Atos. Camadas abissais. Esplendor metafísico. Como Ésquilo e Kirkegaard, quando diz: “é terrível cair nas mãos do Deus vivo”.

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Dostoievski, enquanto transição da modernidade equívoca e tardia.

 

Revista Humanitas, 31/03/2021

  

https://www.academia.org.br/artigos/dostoievski

 


Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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quarta-feira, 24 de março de 2021

NIETZSCHE NO CÉU - Marco Lucchesi


A poesia clássica persa é um condensado de beleza, em língua delicada: antiga e jovem, intensa e maleável, aberta e rigorosa. Seu timbre não esconde uma sublime vocação. Atenta às formas transitórias. Habitada por nuances. Herdeira de semitons. Todo um repertório de imagens que incessantemente se renova. Tema e variação: o jardim e a luz da aurora, as flores perfumadas e os espinhos, o rouxinol de amor perdido pela rosa. Língua suave e subtil, feita de símbolos e formas vicárias. E se abastece de sua própria linfa. Uma vogal apenas une umas às outras as palavras. Não se apagam as vozes de Rūmī e Hāfez. Esse mesmo frescor feriu o Divã de Goethe e a poesia de Mohammed Iqbāl.

Iqbāl, poeta paquistanês (1877-1938) mergulha nas várias línguas de sua cultura. E quando escreve em persa, filia-se a uma tradição, que lhe pertence, amorosamente. Usa o repertório para modificá-lo, mais inclinado a Rūmi que a Hāfez. Menos a Pérsia barroca, de que falava Scarcìa, e mais o tesouro sufi de águas claras. Íntimo, contudo, de Sanā’ī , Sa‘dī e Attār. A rosa e o jardim, a flauta e o rouxinol aparecem deslocados em Iqbāl. Adquirem novas ressonâncias. Um centro que desde então se descentra. Mantida entretanto a moldura simbólica.

O diálogo com Goethe inscreve-se no seio da comunidade muçulmana. Um olhar de mão-dupla, mais permeável entre Oriente e Ocidente na sua leitura corânica. E a partir do cerco de Bagdad (1258), quando se inicia uma longa crise no islão. O poeta deixa de lado a dissolução contemplativa radical, e encontra na ação o empenho na reforma do pensamento religioso, como Dante, no Paraíso, clamando por justiça. Não é Virgílio o guia de Iqbāl, mas o poeta Rūmī. Temos aqui a elaboração de uma genealogia, de um legado mútuo, fascinante e especular. As palavras de Abdālī, no Empíreo traduz sua densidade: “A força da Europa consiste na ciência e na técnica, desse fogo brilha a sua lâmpada. A sabedoria não consiste no corte da roupa, nem o turbante é obstáculo às ciências e às artes. Pouco importa como proteges a cabeça! Basta um pensamento ágil, uma inteligência aguda".

Nas alturas do Céu, Iqbāl encontra ninguém menos do que Nietzsche. Justamente no prelúdio ou no átrio do Paraíso: “Perguntei a Rūmī: ‘Quem é esse louco?’. Respondeu: ‘é um sábio alemão. Seu lugar é entre estes dois mundos, um canto antigo o que sai de sua flauta! Suas palavras foram ousadas e grandioso o seu pensamento. Cortou a Europa em duas partes com a espada de suas palavras. A sua melodia rompeu a corda de seu alaúde.” Quem é capaz de colocar Nietzsche no Céu, pode sondar a delicada fronteira da alteridade. Iqbāl é o poeta do encontro, além de fortes e fronteiras, segunda a expressão de João da Cruz. Uma nova inscrição em que a paz se redesenha.

 

Jornal de Letras, Artes e Ideias (Lisboa), 24/03/2021

 

Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

AUTO DE NATAL: O IRMÃO ARTURO PAOLI por Marco Lucchesi



N
este ano feroz de pandemia, na extrema solidão que me atravessa, atenuada apenas pelo céu noturno, ouço a cantata de Bach, a BWV 248. Um júbilo que espanta todos os fantasmas. E penso num homem admirável que conheci em dezembro de 2006, nas colinas de Lucca.

Era um grupo de oito pessoas. Após o jantar, ninguém deixou a mesa, pois o anfitrião ia celebrar missa, como os cristãos primitivos. De quando em quando, ele interrompia a cerimônia, insatisfeito com o fogo da lareira, que procurava reavivar. A saúde frágil, era uma águia: nada escapava a seu reduzido campo visual.

O irmão Arturo Paoli (1912-2015) padre e missionário italiano, foto, viveu até os 102 anos. Lutou na resistência contra os nazistas e salvou os judeus, reconhecido como “Justo entre as Nações”. Viveu no deserto da Argélia, como Charles de Foucauld. Doou a vida aos mais pobres da Argentina e da Venezuela. Em Foz do Iguaçu, trabalhou, anos a fio, numa comunidade sofrida.

Olha para mim alguns segundos: “se você é brasileiro, conhece a palavra rabicho”. “Sim, Arturo”, respondi timidamente.

Falou do sermão aos pobres de Foz. Precisamos do amor de Deus, mas ele também precisa do nosso amor. Havia uma torre de alta tensão, plantada na comunidade, que não comunicava luz elétrica. A metáfora da altura e da energia traduzia a mística de Arturo. Como sentir a dimensão divina? Como exercer o amor de mão dupla, senão através da conversão e, neste caso, fazendo um rabicho? Deus é luz. Ninguém merece viver nas trevas.

A exclusão social é um escândalo. Il diavolo, o diabo. O liberalismo é a raiz de todos os males. Não tenho dúvidas. Mas não perco a dimensão da burrice do demônio, como dizia o saudoso Hélio Pellegrino.

Arturo Paoli foi dos primeiros a denunciar a teologia do mercado e os que morrem esmagados pela exploração: “ao amanhecer, abro a porta da minha casa e logo encontro nas ruas estreitas da favela pessoas que gemem sob as rodas do mercado, e elas são a minha família..."

Penso no Brasil em 2021. Toco uma peça de Bach ao piano. É o que me resta. Faz escuro. Conto as estrelas. Não tenho lágrimas.

https://www.academia.org.br/artigos/auto-de-natal-o-irmao-arturo-paoli

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Marco Lucchesi
- Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

ODE À POESIA - Marco Lucchesi


                                                              Ode à Poesia

Marco Lucchesi


Não fosse a poesia, 

seria impossível respirar na quadra atual.

Um tempo inimigo dos poetas.

Não é pequena coisa rebelar-se.

Imaginar o avesso do presente.

E emprestar ao sonho cidadania.

Um estatuto de emancipação.

Caminho solidário.

A poesia é núcleo de inquietação e liberdade.

Comunhão de vida e pensamento, 

pedra e nuvem: o que podia ter sido e o que será.

A poesia reclama o direito de sonhar.

Traduz a forma de saber que estamos vivos, 

se já não desistimos do futuro.

A poesia é máquina do tempo: 

de Homero ao poeta de 2080.

A poesia é irmã gêmea do saber.

E sonda o que não sabe.

Generosa e ecumênica.

Ignora as leis de mercado.

Altiva e mercurial.

Passam os bárbaros.

Morrem os impérios.

Mas a poesia não perde sua antiga juventude.

 

https://www.academia.org.br/artigos/ode-poesia

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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