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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – Promoção

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(Rio de Janeiro, 1954 – promoção)


            Na manhã de domingo trabalho na redação de um manifesto – quantos redigi? -, Janaína e João Jorge chegam do banho de mar em correria, trazem e exibem prospectos atirados de avião sobre Copacabana e Ipanema, inundam a praia e as ruas. Entregam-me, ficam à espera de minha reação, Janaína risonha, gozadora, João Jorge de cara fechada, pronto para a briga.

            A campanha anticomunista ganha os céus, dois teco-tecos sobrevoam o bairro, a serviço da Liga Anticomunista, organização presidida pelo Almirante Pena Boto – a guerra contra os comunistas é um bom negócio, rende juros altos, como irão se arranjar agora os Pena Boto da vida, sem o ouro de Moscou para aplicar no medo dos ricalhaços e arrancar as verbas? Vão lastimar o fim da URSS, acabou-se o que era doce de coco, rapadura.

            Militante de base – seria mesmo de base? Nunca frequentei célula, sempre a cumprir tarefas da direção, especiais -, escritor conhecido, a Liga do Almirante oferece-me galardão de líder, prerrogativas de chefe: o volante na mão de Janaína, João Jorge me entrega o dele, refere-se a este vosso criado: o texto e o desenho. Ressalta minha notoriedade, promove-me, já me esqueci dos xingos, os de sempre, traidor da Pátria, vendido a Moscou,  capacho de Prestes, mas me lembro do desenho: balanço-me no regalo de uma rede, dois camaradas do Partido, amigos meus, o juiz Irineu Joffily, o advogado Letelba Rodrigues de Brito, empunham abanos, com eles fazem mais delicioso meu descanso, com a brisa dos leques combatem o calorão: regalias de paxá comunista, Pena Boto reclama cadeia e processo.

            Leio e vejo, caio na gargalhada, Jana e Juca riem comigo, mas Zélia se indigna: cães da reação, ratos de sarjeta, agentes do imperialismo, se ela encontrasse esse tal de Pena Boto lhe diria poucas e boas. Punho fechado, lhe mostraria quem é traidor da pátria, seu canalha! Jana e Juca recolhem o riso, empunham os tacapes, armam-se em guerra.

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            “Do sangue derramado na luta pela posse da terra, adubo sem igual, não floresceram apenas as roças de cacau, os frutos de ouro da riqueza, floresceu também a cultura Grapiúna, singular. A poesia e a ficção nasceram da conquista da mata, da colonização de sergipanos e árabes, da luta contra o feudalismo – os primeiros sindicatos rurais do Brasil surgiram nas lavras do cacau e a lei medieval foi rompida por moços socialistas, João Mangabeira exerceu a Prefeitura de Ilhéus.

            Os coronéis do cacau queriam orgulhar-se de filhos doutores, advogados, médicos, engenheiros, lá fomos nós para os colégios da capital, os dos padres jesuítas, maristas, salesianos, os leigos, o Ginásio Ipiranga de Isaías Alves de Almeida*. Nos internatos aprendemos português e aritmética. Nas roças, nos povoados, na gestação das cidades aprendemos a vida. Assim brotou a flor da poesia, Sosígenes Costa, Florisvaldo Mattos, Telmo Padilha, amadureceu o fruto da ficção, Elvira Foeppel, Adonias Filho, James Amado, Sônia Coutinho, Hélio Pólvora, Cyro de Mattos, Euclides Neto, o árabe Jorge Medauar, o sergipano Marcos Santarrita, os doutores do cacau, filhos dos coronéis. Sou um deles, possuo um mérito, único: ter sido aquele que primeiro começou a contar a saga das terras grapiúnas”.

*Isaías Alves de Almeida (1888/1968), educador.
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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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OBSERVADOR ISOLADO - Péricles Capanema


7 de agosto de 2018
♦  Péricles Capanema

Vou falar das eleições, enveredando antes — apenas na aparência — por um desvio. Não é de hoje, para tristeza nossa, o Brasil tem sociedade enormemente atrofiada, em especial se considerarmos até onde poderia ter chegado. Um exemplo. Pesquisa recente aponta que mais de 30% dos brasileiros são analfabetos funcionais, proporção que se mantém estável há 10 anos.

Boa parte do restante não está distante daí, pois só 12% se comunicam com adequação pela escrita. Imaginem o que essa chaga significa de exclusão social. Nem falo do Estado, ali existe atrofia, claro, porém o que choca à primeira vista é a elefantíase. Paquidermes doentes têm membros e órgãos com movimentos atrofiados.

Estado de espírito preocupante, como nação estamos nos acostumando à decadência, poucos vêm falando do Brasil como País do futuro, reflexões antes correntes, carregadas de tons esperançosos e até de ufanismo por vezes infantil. Exemplo tocante e ingênuo de tal propensão foi o livro do conde Afonso Celso “Por que me ufano de meu país”. Temos atenuantes, as decepções repetidas corroeram crenças, as esperas dilatadas exauriram ânimos. Imaginem, o livro do simpático conde é de 1900!

Enfim, se o ufanismo louvaminheiro era ruim, nunca o foi a esperança. Não é o que de momento assistimos, repito. O público parece aceitar resignado um presente cinza e a perspectiva de porvir inexpressivo. E ainda existe pessoal que brinca com a situação desoladora, destilando fel em comentários agridoces.

Não é consolação, mas tal apatia dissolvente golpeia ainda pessoas, famílias, regiões. Aos milhões. Basta olhar ao redor de nós, gente acomodada, apática, em situações gritantemente inferiores à sua condição originária. O último imperador da China, Pu Yi (1908-1967) passou seus últimos anos como funcionário apagado da burocracia maoísta. Deixou escorrer os anos como jardineiro e bibliotecário. Comenta-se, vivia conformado. Pior. Até mesmo satisfeitinho!

Terrível exemplo de decadência e demolição de personalidade. Poderia ser jardineiro e bibliotecário, ocupações dignas, mas o olhar precisava estar imerso na grandeza que a Providência lhe destinara, esmigalhada pelos infortúnios. Para todos, para não afundar cada vez mais, a única reação decente é a inconformidade enérgica (quando possível, o exercício intenso, com norte, das potencialidades indolentes). Não vislumbro outro caminho para restauração, prosperidade e felicidade; pelo menos para manter para si e diante dos outros o respeito devido.

Não houve desvio, fiquei no trilho. Estamos em período eleitoral, o combate à atrofia deveria ser a prova dos nove, o teste tornassol de todas propostas; de outro ponto de vista, o substrato dos debates.

Se a proposta nos ajudar a sair do poço da atrofia e escalar a montanha da plenitude, será aproveitável. Na educação, economia, privatização, reforma previdenciária, controle fiscal, segurança, saúde pública, ciência e tecnologia, enfim, em tudo, a simpatia deveria ir para candidatos, cujos compromissos (e exemplo de vida) estimulem o desenvolvimento de potencialidades nos campos em que a administração pública tenha condições de influir. Soltar amarras, desburocratizar, diminuir impostos, aumentar as responsabilidades de cada pessoa pelo seu próprio destino (condição de autonomia), limitar o poder do Estado e ampliar o âmbito de ação das forças sociais, destravariam o nosso potencial. E nos forneceriam recursos para atender aos fracos e desvalidos.

Em suma, a busca da plenitude, perseguida com senso de proporção e animada pela justiça é caminho real para a inclusão social. Perto de nós temos exemplos dilacerantes de escolhas que atrofiam, Cuba e Venezuela no destaque, xodós da esquerda católica e do petismo, de cujos efeitos cruéis deveríamos fugir como da peste.

Nelson Rodrigues certa vez afirmou: “Aprendi a ser o máximo possível de mim mesmo”. Conhecimentos e hábitos podem nos levar ao máximo possível de nós mesmos. No conhecimento estão as percepções. Com auxílio de Deus, tantas vezes é possível entrever o que a Providência preparou pelo arranjo de qualidades pessoais e circunstâncias do meio para pessoas e grupos sociais. São vocações das mais variadas naturezas, divisadas por sintomas de difícil explicitação. O mesmo vale para o Brasil, tema que transcende campanhas eleitorais, sei bem, mas substancialmente é o grande assunto subjacente ao charabiá da ocasião. Queiramos ou não, o substrato de tudo que se debate é a escolha da plenitude versus atrofia.

Por que intitulei o artigo de observador isolado? Poucos analisam assim, são hoje uns isolados. Contudo, vista desse mirante, a paisagem é mais ampla e instrutiva. Meu convite cordial, observem também daqui o panorama.




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terça-feira, 7 de agosto de 2018

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO - Os dez mais


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(Rio de Janeiro, 1939 – os dez mais)


            A Revista Acadêmica, nascida órgão estudantil na Faculdade de Direito, transformada em magazine de cultura, ganha-pão de Murilo Miranda*, literato por analogia e parentesco,  era de periodicidade irregular, saía quando Murilo arranjava anúncios ou patrocínio, realizou em cinco ou seis números um concurso para saber quais os dez melhores romances brasileiros. Votavam apenas escritores, a relação dos votantes fora publicada na revista, cada qual compunha uma lista de dez romances de sua preferência, as listas eram divulgadas nas páginas da Acadêmica.

            A apuração final considerou os dez autores mais votados e de cada um deles o livro com maior número de sufrágios, se tivesse considerado os dez livros teriam entrado na relação dois romances de Machado, Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Se não me falha a memória os dez mais foram – não estão em ordem de votação, já não as relembro: Dom Casmurro, Iracema, de Alencar, Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antonio de Almeida, O Cortiço, de Aluísio, os Corumbas, de Amando Fontes, Angústia, de Graciliano, Banguê, de Zé Lins, Caminhos Cruzados, de Érico, Macunaíma, de Mário de Andrade, Jubiabá, de minha autoria – vale lembrar que o concurso aconteceu em 1939.

            Graciliano deixou para votar na última apuração, mostrou-me sua escolha, dois fatos chamaram-me a atenção. O velho – não completara ainda cinquenta anos, por que o tratávamos de velho? – votava apenas em nove títulos, deixava um lugar vago, não lhe perguntei a razão, desconfiei que, por modéstia, falsa modéstia, não colocava na relação romance seu. Perguntei-lhe, porém, por que não votara em Os Corumbas: romance de Amando Fontes, considerado na época o máximo, recolhia quase unanimidade dos sufrágios. Graça bebeu um gole de café, puxou a fumaça do cigarro Selma, estávamos no café Mourisco, esquina da rua do Rosário com a avenida Rio Branco:

            - Esse filho da puta não votou em mim. – Passou a outro assunto, a seu ver de maior valia: - Tu pensas que daqui a vinte anos ainda haverá quem nos leia?

            O concurso foi acompanhado com interesse pelos escritores, agitou os meios literários, provocou debates na Livraria José Olympio, no consultório de Jorge de Lima, na redação de Dom Casmurro, mas ninguém contestou o resultado. Não sei tampouco de romancista que tenha cabalado  voto, se o concurso dos dez mais acontecesse hoje ia ser um deus-nos-acuda com cabo eleitoral e leilão de sufrágios. Um detalhe para que se saiba como era malvista, na época, a literatura de Oswaldo de Andrade: o rebelde paulista só obteve um voto, dado por mim a Serafim Ponte Grande, meu e único.

*Murilo Miranda, ensaísta.
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            "Desistir agora, não – disse eu a Paloma quando, machucada, ela pensou em pedir o  boné e ir embora. Estamos numa briga, vamos brigar até o fim. Depois farás o que quiseres, o que te parecer melhor. Não agora. Perdi muitas brigas em minha vida, paciência, mas não fugi de nenhuma, fui sempre até o fim."

(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
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Jorge Amado - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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LIRISMO DO CONTISTA ALEILTON FONSECA – Cyro de Mattos


Lirismo do contista Aleilton Fonseca 
Cyro de Mattos*


            Baiano nascido em Firmino Alves (1959), município do Sul da Bahia,   criado em Ilhéus, Aleilton Fonseca reside há anos na  cidade de Salvador. Graduado em Letras pela Universidade Federal da Bahia,  fez mestrado na Universidade Federal da Paraíba e Doutorado  na Universidade de São Paulo. É professor titular Pleno da Universidade Estadual de Feira de Santana, onde leciona Literatura Brasileira. Já publicou  25 livros, entre volumes de  poesia, ensaio, conto e romance. Na galeria de suas criações figuram os romances   Nhô Guimarães (2006), O pêndulo de Euclides (2009) e o livro de ensaio O arlequim da pauliceia (2012), entre outros.   Faz parte de várias antologias do conto, poesia e ensaio, no Brasil e exterior.  Entre outras premiações, obteve o Terceiro Lugar no Prêmio da Fundação Cultural do Estado da Bahia, com Jaú dos bois e outros contos, em 1977,  e o Prêmio   Nacional Herberto Sales,  da Academia de Letras da Bahia, com O canto de Alvorada, em 2001.

            Um de seus volumes de contos,  O desterro dos mortos (2001),  apresenta doze histórias escritas revestidas de calor humano, que oferecem uma leitura prazerosa pontuada com uma linguagem simples e plena de camadas líricas no seu conteúdo  “Nhô Guimarães”, a primeira delas,   embrião do romance homônimo, conta a história  de “um homem de sobejas importâncias. Um distinto doutor, do sertão e da cidade, duas vezes lugareiro, muito conhecedor das estradas gerais.”  Fica visível que a narrativa, de apelos aos falares da gente rural no interior mineiro, retrabalhada em sua entonação cantante,   foi motivada pelo propósito de homenagear o  estupendo escritor e ficcionista Guimarães Rosa. A figura do escritor mineiro vai sendo erguida pouco a pouco com sua humanidade  no texto que flui com sabores na fala, usando para isso o contista das lembranças  e entre tantos que afloram do personagem Manu e sua mulher, amigos do homenageado. As histórias “O sorriso da estrela”, “O avô e o rio” e “Jaú dos Bois”  reaparecem em  O desterro dos mortos,  vindas do pequeno volume  Jaú dos bois e outros contos.

            Não é preciso ser íntimo das questões estéticas, crítico com  formação acadêmica, para perceber que os contos de Aleilton Fonseca possuem como singularidades a marca da simplicidade na escrita para externar a emoção,  qualidades que se aderem ao texto  infiltradas  de esperança e ternura.  Essa relação inseparável entre o discurso simples, sem experimentalismos, penetrado de afetividades,  é  posta   com sabedoria pelo contista  na escrita para que se faça a leitura da vida tocada com rapidez e visibilidade, impregnada de emoção causada pela cena.

            Na relação inseparável de que se vive e morre, sempre, aflições  e solidões são ultrapassadas,  ternuras  nos ritos de passagem  informam como as estações  amadurecem a infância,   existem noutras terras conduzidas pela morte  sob o peso do enigma. Histórias  urdidas pela chama do amor  em  adolescentes  irrompem para o voo de anjos terrenos alçados às nuvens, paixões de adultos  resvalam por entre fissuras e rupturas em suas verdades pungentes, impondo a separação amarga sem volta.
  
            Afirma-se que literatura é a matéria verbal que expõe  uma experiência de vida. Esse conceito ajusta-se aos contos de Aleilton Fonseca de maneira eficaz e sóbria.  Em O desterro dos mortos,  a  matéria verbal disposta  para dizer do imaginário configura significados colhidos  através de uma experiência colhida pelo contista no teatro da vida. Expressa    histórias que nos remetem ao real imaginado, em alguns momentos  com sensações semelhantes a que se tem nos contos tradicionais de reis,   tanto é  o encantamento  provindo do estado psicológico dos personagens,  o   surgimento da paz no final sempre bem achado,  indicativo   de uma janela que se abre para a luminosidade da vida.
  
            De outro viés, entre a dor e o amor, a paz que irá emergir de  momentos agudos  mostra como a vida é um sofrido aprendizado. O personagem depara-se com as incompreensões absurdas da morte, como é visto  nos contos “O sorriso da estrela”,  “Para sempre”  e  “O desterro dos mortos”, nas relações  passionais que  atritam e separam,   na fumaça que ativa a doce lembrança da infância,   para que  saiba quanto  a dor   é capaz de reverter   momentos contrários em  sonos serenos  sob luares de relva.

            Nota-se que o instrumental teórico de base acadêmica não interfere na luminosidade que se espraia nas criações do contista. Não força  a prosa  que  apresenta    maneiras suaves   de horizontes longínquos e próximos em seu dizer cativante.  Há um modo sempre oportuno   de  o contista dizer o drama,  uma solidariedade que dignifica o comportamento marcado  para designar os  quadros da morte, da solidão  que o tempo impõe em rigor de atitude   que  comanda.

            Vale ressaltar que uma  harmonia, a porejar sensibilidades e cargas emotivas na escrita,  decorre  de   situações vividas pelo personagem sob o choque das descobertas, relevâncias existenciais, cortes extraídos  no difícil gesto de viver. Olhares lançados pelo contista sobre  os personagens buscam  desvendar  para o mundo estados interiores, incompreensões do tangível e do que não se explica,  aclarar a situação conflituosa no drama.  E uma  conversa ao pé do ouvido que puxa o leitor para dentro do texto remete ao contista  Machado de Assis, mestre  nessa atitude de aproximar a história de  quem a lê para assim torná-la mais verossímil na sua dinâmica.
 
            O contista sabe dosar com medidas certas o necessário para que o leitor seja envolvido  com ternuras e esperanças no assunto crítico vivido pelo personagem.  Em suas  reações tristes, situações de tormento,  o personagem desterra   pensamentos quando se vê com dificuldade para entender a vida.  Certa melodia,  que acompanha a altura, a intensidade e  a dimensão dos  gestos, em perfeito equilíbrio enquanto duram,   não dá chance para que o  vulgar e a pieguice descaracterizem  a escrita conduzida com simplicidade e emoção.

            O proseado que escorre do discurso enunciado com afetividades  contagia no seu ritmo, torna  o leitor  íntimo da problemática existencial do indivíduo.  Na escrita  apoiada em medidas rítmicas harmoniosas,  os significados e significantes formam unidades cadenciadas pelos  toques poéticos da vida sob os olhares líricos do narrador. Cenas marcadas de controvérsias,  contrapontos dos conflitos  são  construídos com pausas e respirações, breves e oportunas, para evitar que o vulgar nos fluxos e refluxos circule nas zonas do coração.
 
            As histórias de Aleilton Fonseca fornecem a  sensação  de que  entram pelos ouvidos e ficam  com seriedade ritmadas dentro de nós  sob puro  lirismo. Assim são construídas  com seus tremores e amores, como  feixes acesos  de humanidades múltiplas, determinam simpatia entre o real e o sonho. Não precisam de questionamentos profundos nas razões de ser dos outros no mundo, e  porque dotadas de puro lirismo  simplesmente o coração as aceita, pulsam amores em atitudes e sentimentos.

 
Referência

FONSECA, Aleilton. O desterro dos mortos, contos, Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2001.
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*Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista, ensaísta, romancista, organizador de antologia,  autor de livros para crianças e jovens. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”,  para obra publicada, e “Poemas escolhidos/poesie scelte”, para obra inédita, o  Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos,  Associação Paulista de Críticos de Arte com “O Menino Camelô”, infantil,  e o Prêmio Nacional Pen Clube do Brasil com o romance “Os Ventos Gemedores”.  Finalista do Jabuti três vezes. Um dos quatro finalistas do Prêmio Internacional da Revista Plural, México, com a novela “Coronel,  cacaueiro e travessia”. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence às Academias de Letras de Ilhéus e de Itabuna.

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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – Língua portuguesa


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(Bahia, 1964 – língua portuguesa)


            Em Lisboa disseram a Luís  Forjaz Trigueiros que na Bahia o calor, além de tórrido, é constante, jamais faz frio. Luís viaja ao Brasil em missão cultural,  pede a Maria Helena que coloque na mala apenas roupas leves. Assim desembarcou desvestido com elegância  para o verão feroz.

            Ora, em lugar de calor senegalês, uma onda fria abateu-se sobre a cidade, frio ainda mais difícil de suportar devido à umidade, o escritor sentiu-se enregelar. Dado que o inverno se manteve, não lhe coube opção senão ir à compra de agasalho. Luís se informou, rumou para a Rua Chile, a de comércio fino e caro de prendas de vestir cavalheiros e senhoras. Deteve-se ante uma loja: ali se exibia a peça exata que buscava para com ela resguardar o peito, evitar o resfriado, a gripe, a pneumonia: Luís Forjaz pretende-se chegado a enfermidades nos brônquios e pulmões, o perigo da gripe o horroriza. De lã, chique,  discreta, na cor preferida, estava à sua espera. Luís adentrou o estabelecimento, o vendedor acolheu solícito, colocou-se a seu serviço.

            - Desejo comprar uma camisola – informou o literato luso, sorrindo com a delicadeza que o caracteriza.

            Não menos delicado o balconista:

            O cavalheiro se enganou, aqui só vendemos artigos masculinos, mas na loja em frente, de artigos para senhoras,  o senhor encontrará variado estoque de camisolas...

            Não tendo entendido, algum engano havia, Luís insistiu:

            - Eu disse camisola...

            - Já lhe disse que não temos. – O caixeiro elevou a voz,  desconfiado que o simpático freguês fosse surdo de nascença.

            - Como não tem, se acabo de ver na montra uma camisola castanha na medida própria?

            - Onde disse ter visto camisola?

            O balconista sentiu-se perdido, além de surto o freguês falava língua desconhecida, nem espanhol, nem francês, menos ainda inglês, dialeto que o rapaz identificava, familiar de sotaques e pronúncias. Não sabendo o que dizer, riu e coçou a cabeça. Um parvo, persuadiu-se Luís Trigueiros, e, sem mais delongas, tomando-o gentilmente pelo braço – aos parvos deve-se tratar com firmeza sem, no entanto abandonar a cortesia -, levou-o até a porta de onde, triunfante,  mostrou-lhe na montra a camisola castanha.

            - Ali está ela, a camisola, quanto vale?

            A risada do rapaz não era mal-educada, mas continha uma ponta de deboche:

            - Ilustre cavalheiro, fique sabendo que em bom português o senhor quer comprar um pulôver marrom igual ao que está na vitrine, não é isso? Por que não disse logo? Um suéter porreta e o preço de arrasar...

            Encontrei Luís no hotel envergando a camisola castanha, ou seja, o pulôver marrom, não sendo ainda o brasileiro competente que viria a ser anos depois devido aos azares da política, o escritor estava indignado:

            - O gajo diz-me duas palavras em francês, uma em inglês e afirma estar falando em português, em bom português.

            - Em nosso bom português, Luís, o do Brasil.

            Hoje Luís Forjaz Trigueiros traça na maciota nosso misturado português de mestiços, mas, para escrever sua prosa escorreita, forte, terna e colorida, conserva-se fiel ao português de Portugal, à língua de Camões.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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O DIGITAL E O ENSINO



O digital e o ensino

Painel Digital terá mesa sobre as oportunidades de aprendizado em conjunto no ambiente digital


Pelo mundo afora existem iniciativas que usam o digital para construir ambientes de inclusivo de aprendizado em conjunto. Para falar um pouco mais sobre este tema o Painel Digital trará no dia 19 de agosto, às 15 horas, a mesa Rede Colaborativas e Aprendizado. Nela, Henrique Foreti, Robo Livre, e 
Débora Abdalla, Projeto Onda Digital mediados por 
Vicente Aguiar, Colivre, baterão um bate-papo redes colaborativas, comunidades virtuais, ensino e conhecimento compartilhado.


Curador dos principais eventos de Robótica e Tecnologia da América Latina, Henrique Foresti trará sua experiência para a conversa. Idealizador da plataforma RoboLivre, desde 2005, ajuda a promover o ensino da robótica para qualquer pessoa que tenha interesse. A metodologia Robolivre, desenvolvida a partir da plataforma online, ainda é usada para levar aulas presenciais de robótica às escolas públicas do Recife (cidade sede do projeto).

O engenheiro ainda desenvolve projetos de pesquisa e inovação creditados por diversas instituições de fomento, em especial nas áreas de robôs domésticos,  robótica pedagógica, robôs terrestres, veículos aéreos não tripulados e plataformas de telemetria, processamento e comunicação. Engenheiro de sistemas no CESAR e Doutorando no Cin UFPE, fomenta competições de Robótica em diversos estados do Brasil, presencialmente ou pela internet. 

Com trabalhos realizados em temas como inclusão sociodigital, informática na educação, educação em computação, computação e sociedade, ontologias, lógicas de descrições e web semântica, Débora Abdalla falará das facilidades e desafios que enfrenta no seu dia a dia. Professora de Ciência da Computação da Universidade Federal da Bahia, é pesquisadora e coordenadora do Grupo de Pesquisa e Extensão em Informática, Educação e Sociedade - ONDA DIGITAL (UFBA), programa de inclusão sociodigital. Também participa do grupo FORMAS - Formalismos e Aplicações Semânticas da UFBA

O mediador da conversa será Vicente Aguiar, organizador e co-autor do livro 'Software Livre, Cultura Hacker e Ecossistema da Colaboração', sócio fundador e gestor de projetos da COLIVRE, além de membro da equipe do Projeto Noosfero – uma solução em software livre, onde é possível criar a sua própria rede social e ali usar de seus diversos recursos como blog, fórum de discussão, portfólio online e agenda de eventos.

Painel Atitude Digital - Big Bata, Cidades Inteligentes, Redes Colaborativas, Representatividade, Comunicação Digital, Influência, Aprendizado, Robótica, Interações Sociais e Comunidades, serão os temas debatidos na primeira edição do Painel Atitude Digital. O evento vai estabelecer conversas sobre comportamento e cultura em mesas e oficinas com a participação de nomes locais e nacionais de destaque, que têm contribuído para o estudo do ambiente digital, e suas evoluções.Ao todo são cinco mesas e duas oficinas, que buscam apresentar conexões entre as mudanças no nosso olhar perante o mundo e as principais tendências da cultura digital.

Incentivo à cultura - A CAIXA investiu mais de R$ 385 milhões em cultura nos últimos cinco anos. Em 2018, nas unidades da CAIXA Cultural em Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, está prevista a realização de 244 projetos de Artes Visuais, Cinema, Dança, Música, Teatro e Vivências.

A CAIXA Cultural Salvador foi inaugurada em 1999, no prédio datado do século XVII, que já abrigou a antiga Casa de Orações dos Jesuítas e onde, ao longo da história, já trabalharam personalidades como Glauber Rocha, Caetano Veloso e Lina Bo Bardi. 

Após ser tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e restaurada pela CAIXA, a Casa hoje oferece ao público duas galerias de arte, um anfiteatro, um salão para espetáculos, uma sala para eventos e uma sala de oficinas, constituindo importante espaço de difusão cultural localizado no centro de Salvador (BA), com sala para eventos e uma sala de oficinas, constituindo importante espaço de difusão cultural localizado no centro de Salvador.


Serviço

Painel Atitude Digital 
Quando: 17, 18 e 19/08/2018 – (Sexta, Sábado e Domingo)
Onde: Caixa Cultural Salvador, Rua Carlos Gomes, 57, Centro.
Entrada Franca, observada a capacidade do espaço - Estacionamento gratuito ao lado nos dias 17 de agosto, a partir das 18h e 18 e 19 de agosto, a partir das 14h. 
Horários do evento:
17/08/2018 - a partir das 18 horas
18 e 09/08/2018 - a partir das 14horas
Classificação: Livre


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A ANISTIA NÃO DEVE SER REVOGADA – Marco Antônio Villa


03/ago/18
No Brasil, o processo de transição do regime militar para a democracia adquiriu formas absolutamente originais, sem qualquer paralelo com os países do Cone Sul. Vale destacar também que os governos desses países desenvolveram políticas que os distinguiram em relação ao Brasil, no mesmo momento histórico. Ou seja, não é possível jogar no mesmo saco — como se diz popularmente — regimes tão díspares. Não custa ressaltar que a marca ideológica da presença dos militares na cena política nacional, desde a Proclamação da República, foi o positivismo — e a referência prática, concreta, teve no castilhismo gaúcho a sua matriz.

É de conhecimento geral que tivemos um longo processo de transição que teve início com a distensão, ainda na presidência Ernesto Geisel. Mas os passos mais ousados foram dados no governo Figueiredo. A aprovação da anistia, em agosto de 1979, foi um importante marco. Permitiu realizar a transição de uma forma mais rápida, eficaz e sem traumas.

De tempos em tempos é recolocada a questão de revogar a lei de anistia. O argumento é que crimes teriam de ser apurados e punidos. A leitura passa pela ação dos órgãos de repressão e pelas graves violações dos direitos humanos contra centenas de brasileiros. Isso é fato, não se discute. Porém, deve ser também analisada a atuação dos grupos terroristas que mataram muitos brasileiros em atentados, assaltos a bancos e nos “justiçamentos.” Se é para judicializar a história, isso deve ocorrer para os dois lados.

A questão central é que não tivemos, no momento adequado, quando da passagem do governo para os civis (1985), um processo que enfrentasse o passado recente de forma a construir valores democráticos. Um bom exemplo ocorreu na África do Sul com a criação, por Nélson Mandela, da Comissão Nacional da Verdade e da Reconciliação. Apresentar os fatos, discutí-los, ouvir as diferentes versões e a partir daí, com as lições da história, edificar uma sociedade democrática. Infelizmente, isso não ocorreu no Brasil. Ao invés de um Mandela, tivemos José Sarney, um presidente fraco e temeroso de enfrentar os dilemas da época.

Buscar em organismos internacionais uma muleta jurídica para revogar a lei de anistia poderá gerar ainda mais tensão política. É muito mais eficaz discutir abertamente aquele momento histórico. E demonstrar que a urna é o caminho das mudanças e não um pau-de-arara ou uma bomba.



Marco Antônio Villa é historiador, escritor e comentarista da Jovem Pan e TV Cultura. Professor da Universidade Federal de São Carlos (1993-2013) e da Universidade Federal de Ouro Preto (1985-1993). É Bacharel (USP) e Licenciado em História (USP), Mestre em Sociologia (USP) e Doutor em História (USP

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