— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando
fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se
encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja
convosco”.
Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então
os discípulos se alegraram por verem o Senhor.
Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai
me enviou, também eu vos envio”. E, depois de ter dito isso, soprou sobre
eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados,
eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”.
Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com
eles quando Jesus veio. Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o
Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos,
se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não
acreditarei”.
Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente
reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus
entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”.
Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas
mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas
fiel”. Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” Jesus lhe disse:
“Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”
Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos,
que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis
que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais a vida em
seu nome.
No segundo domingo de Páscoa de cada ano, a liturgia nos
apresenta o belíssimo relato que só se encontra no evangelho de João. Esta
dupla aparição do Ressuscitado aos discípulos, primeiro na ausência de Tomé, e
depois na sua presença, nos diz algo sobre a comunidade cristã primitiva, mas
também traz luz sobre as nossas comunidades hoje.
Aí está constituída a nova comunidade pascal; uma comunidade
em torno à presença de Jesus; uma comunidade chamada a viver da experiência do
encontro com Aquele que consumou sua vida em favor da vida de todos; suas
chagas serão, de agora em diante, a melhor expressão da identidade entre o
Crucificado e o Ressuscitado. Uma comunidade animada pelo mesmo Espírito de
Jesus; uma comunidade não fechada sobre si mesma, alienada das chagas da
humanidade, mas aberta, como Ele, ao amor universal para com todas as pessoas.
Uma comunidade de amor, capaz de viver o perdão e ser presença misericordiosa.
Somos já “seres ressuscitados” quando vivemos estes dons do
Ressuscitado, comprometidos com o Seu projeto carregado de vida, para aliviar
as dores e as feridas da humanidade.
A CF deste ano, com o tema “Vida: dom e missão”, nos faz
tomar consciência que, aquele(a) que se experimenta a si mesmo como “Vida” é já
uma pessoa “ressuscitada”. Pois a vida autêntica é a vida movida, iluminada,
impulsionada pelo amor.
Quando acolhemos a presença do Ressuscitado, nossa vida se
destrava e torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de
liberdade, consciência, amor, arte, alegria, compaixão.... É vida em movimento,
gesto de ir além de nós mesmos; vida fecunda, potencial humano. Vida com fome e
sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação,
comunhão, solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que
desperta o olhar para o vasto mundo e move à missão.
Chama-nos a atenção (sobretudo nos evangelhos de Lucas e de
João) que Jesus ressuscitado tenha tanto interesse em mostrar a seus discípulos
as chagas de suas mãos, seus pés e de seu lado aberto. Quê significa isto, um
ressuscitado com chagas? Diante de um martirizado ressuscitado, qualquer um
esperaria ver um corpo totalmente renovado, rejuvenescido, limpo, sem feridas e
marcas do martírio.
E, no entanto, Jesus ressuscitado toma a iniciativa,
deixa-se ver, faz-se presença, provoca um encontro. Os discípulos e discípulas
buscam um cadáver, para lhe manifestar respeito e carinho. Jesus ressuscitado,
como bom pedagogo, busca aqueles e aquelas que o tinham seguido desde a
Galileia e, respeitando a liberdade e os tempos de cada um(a), os ressuscita
também, reconstruindo-os em sua identidade ferida.
As chagas de Jesus ressuscitado são algo mais que um modo de
dizer “sou eu mesmo”. Elas são expressão de identidade, ou seja, pertencem a
seu novo ser de ressuscitado. Dito de outro modo: Jesus, vencedor da morte, não
abandona o que é caduco e frágil da existência mortal. A fragilidade da carne
foi assumida na glória do Corpo ressuscitado. Por isso, suas chagas são
terapêuticas, pois curam as nossas chagas do fracasso, do medo, da tristeza, da
solidão, da dor... São feridas que curam feridas
A ressurreição afeta todo o nosso ser: tudo é iluminado,
re-significado, tudo adquire novo sentido.
Em meio à comunidade dos discípulos reunida, o evangelho de
João destaca a figura de Tomé, elaborando em torno a ele um relado de muita
densidade e com muita inspiração. Tomé é a expressão do ser humano a quem lhe
custa crer na ressurreição do Jesus Histórico, do Jesus das chagas nas mãos e
no lado, do Jesus da carne, do Jesus do povo crucificado.
Provavelmente, ele acreditava em Jesus, mas em um “Jesus
espiritual”, puramente interior, sem necessidade de compromisso comunitário,
sem chagas no seu corpo. Talvez, ele estivesse mais centrado no Cristo
glorioso, desligado da história de Jesus, das mãos que tocaram os pobres e
curaram os doentes, do coração que amou os excluídos da sociedade, dos pés que
romperam barreiras e fronteiras...
Por meio de outros testemunhos da literatura cristã antiga,
sabemos que Tomé queria tocar em Jesus só de um modo espiritual, criando um
tipo de comunidade de feição “quase angelical”, distanciando-se da humanidade
de Jesus e vivendo uma religião desumanizadora, centrada só em ritos,
doutrinas, leis...
Contra isso, a comunidade lhe diz que é preciso “tocar nas
chagas de Jesus”, que o Ressuscitado é o mesmo Jesus da História, Aquele que
foi chagado pela violência e pela rejeição. O Senhor Ressuscitado continua
sendo aquele que carrega em suas mãos e lado as feridas de sua entrega, os
sinais de seu amor crucificado em favor de todos. Este Jesus pascal, continua
estando presente nas chagas dos homens e mulheres de mãos quebradas, na ferida
do lado dos homens e mulheres que sofrem.
As chagas de Jesus, em seu lado e em suas mãos, são as
chagas de um perseguido e condenado pela “justiça” do mundo. Isso significa que
o Jesus ressuscitado não é um “fantasma”, mas o mesmo Jesus que foi
crucificado.
Ao mostrar suas chagas, Jesus ressuscitado revela que as
chagas da humanidade continuam abertas, esperando que seus(suas) seguidores(as)
prolonguem os gestos de cura e cuidado do mesmo Jesus. São estes e estas que
hoje atestam a vitalidade do Ressuscitado.
No entanto, não há mais o Cristo visível para tocar. Os
únicos traços para ver e tocar, que confirmam a realidade de sua presença, são
as pessoas de cada tempo que lutam por uma terra onde os pobres e os excluídos
terão seu lugar, onde o ódio não rege as relações, onde a bondade predomina
sobre o desprezo, onde o respeito impede a violência capaz dos piores
instintos, onde a acolhida impede o fechamento em si mesmo.
Portanto, crer na Ressurreição não é simples adesão a um
dogma de fé, é compromisso com a vida.
O “toque pascal” de Tomé (“coloque tua mão em minha
ferida...”) é o “toque das chagas”, é a experiência dos crucificados do mundo.
Só podemos “tocar” em Jesus de verdade, e confessar sua Páscoa, “tocando”
(ajudando) os enfermos e crucificados da história.
Não há experiência pascal se não descobrimos Jesus
ressuscitado nas chagas dos pobres, doentes e excluídos de nosso mundo; “tocar”
estas chagas vai além de um gesto físico; implica ser presença solidária,
acompanhar, ajudar, alimentar uma sintonia e comunhão com aqueles(as) que
clamam por uma presença consoladora, carregada de ternura.
Enfim, o evangelho deste domingo nos pede:
- Que abramos as portas e as janelas das comunidades
cristãos, para que todos possam ver o quanto de vida há dentro dela, para que
vejam quem somos, como vivemos..., de maneira que possamos oferecer e
compartilhar espaço de perdão, de acolhida sem preconceitos, de amor
oblativo...; é preciso afastar a pedra do dogmatismo, do legalismo, do
ritualismo... que nos mantém sufocados ou respirando o ar fétido dos túmulos;
- Que vivamos em comunhão, que permitamos que Tomé retorne à
comunidade. A transformação de Tomé implica também uma mudança da Igreja, que o
acolhe e lhe oferece um lugar a partir do Jesus crucificado; que ela seja
espaço aberto, integrador, acolhedor do diferente.
- Que sonhemos também com uma Igreja que rompa os túmulos do
conservadorismo, do legalismo, da apatia, e se abra à desafiante situação de
nosso mundo, “vivendo em saída” para “tocar” os chagados e lhes oferecer o dom
da unção e do consolo.
Texto bíblico: Jo 20,19-31
Na oração:Nos Exercícios Espirituais, S. Inácio
nos convida a considerar como o Ressuscitado exerce o “ofício de
consolar”.
Somos, pois, consolados em nossas tribulações e dores para
poder consolar os outros nas suas. Trata-se de uma experiência transbordante,
expansiva, que nos impulsiona em direção aos outros.
Como seguidores(as) do Vivente, somos chamados(as) a exercer
este “ofício de consolar”; a experiência da Ressurreição nos move a “descer”
junto à realidade do outro (seus dramas, fracassos, enfermidades, perda de
sentido da vida...) e exercer este ministério humanizador. “Ser vida
ressuscitada que desperta outras vidas”: vida plenificada, iluminada,
integrada... pela experiência de encontro com o Ressuscitado e que flui em
direção às vidas bloqueadas, necrosadas... Assim como a consolação é o canal
privilegiado pelo qual o Deus da Vida se comunica e atua em nós, o ofício do
consolo é o canal por onde flui a vida.
- Como ser presença consoladora nestes tempos de pandemia?
E ele ergueu a
fronte e olhou para a multidão, e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz
forte, ele disse:
“Quando o amor
vos chamar, segui-o.
Embora seus
caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos
envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada
oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos
falar, acreditai nele,
Embora sua voz
possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma
forma que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica. E da mesma forma que ele
contribui para vosso crescimento, trabalha para vossa poda.
E da mesma forma
que ele sobe à vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam
ao sol,
Assim também
desce até vossas raízes a as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de
trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha
para expor a vossa nudez.
Ele vos peneira
para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até
a extrema brancura.
Ele vos amassa
até que vos torneis maleável.
Então, ele vos
leva ao fogo sagrado e vos transforma no pão místico do banquete divino.
Todas essas
coisas, o amor operará em vós para que conheçais os segredos de vossos corações
e, com esse conhecimento, vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor, procurardes
somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria
melhor para vós que cobrísseis vossa nudez e abandonásseis a eira do amor,
Para entrar no
mundo sem estações, onde rireis, mas não todos os vossos risos, e chorareis,
mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá
senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio.
O amor não
possui e não se deixa possuir.
Pois o amor
basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
‘Deus está no meu coração’, mas que diga antes: ‘Eu estou no coração de Deus’.
E não imagineis
que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar dignos, determinará
ele próprio o vosso curso.
O amor não tem
outro desejo, senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo,
amardes e precisardes ter desejos, sejam estes vossos desejos:
‘De vos
diluirdes no amor e serdes como um riacho que canta a sua melodia para a noite;
De conhecerdes a
dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria
compreensão do amor;
E de sangrardes
de boa vontade e com alegria;
De acordardes na
aurora com o coração alado e agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes
ao meio-dia e meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes
para casa à noite com gratidão;
E de
adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, e nos lábios uma canção
de bem-aventurança’.”
(O PROFETA)
Gibran Khalil Gibran
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Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi
um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da
Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os
segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.
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VIDA E OBRA DE GIBRAN (1)
Seu nome
completo é Gibran Khalil Gibran. Assim assinava em árabe. Em inglês, preferiu a
forma reduzida e ligeiramente modificada de Khalil Gibran. É mais comumente
conhecido sob o simples nome de Gibran.
Nasceu em 6 de dezembro de 1883, de pais pobres, em
Bicharre, na montanha do Líbano, a uma pequena distância dos Cedros milenares.
Tinha oito anos quando, um dia um vendaval passa por sua cidade. Gibran olha,
fascinado, para a natureza em fúria e, estando sua mãe ocupada, abre a porta e
sai a correr com os ventos. Quando a mãe, apavorada, o alcança e repreende, ele
lhe responde com todo o ardor de suas paixões nascentes: “Mas, mamãe, eu gosto
das tempestades. Gosto delas. Gosto!” (Seu melhor livro em árabe será
intitulado Temporais).
Em plena guerra cultural, um tiozão de 60 e poucos anos,
sentado, de chinelo, na frente do palácio do alvorada, é capaz de fazer
arrepiar até o último fio de cabelo de todo um império corrupto.
Todas as tentativas de encurralá-lo foram em vão, todas as vezes
que ele parecia fraquejar, ele virou a mesa. Todas as narrativas criadas pela
extrema mídia e pela esquerda, viraram pó diante das suas atitudes.
Por que você acha que agora será diferente?
- Fez feminista defender a família.
- Fez abortistas se preocuparem com a vida durante o
COVID-19.
- Fez profanos odiarem a expressão "golden
shower", após um Carnaval.
- Fez a própria Globo repudiar expressões do médico Drauzio
Varella.
- Fez a Globo atacar a própria atriz Regina Duarte, após
indicação á cargo.
- Fez pessoas pró-drogas começarem a se questionar acerca de
efeitos colaterais de medicamentos.
O tiozão de 60 e poucos anos é o maior estrategista da história
do BRASIL!
Ministro entrará para a história como o homem que tentou
fritar quem o nomeou e jogou uma oportunidade única de escrever seu nome nos
anais da medicina
Por Cláudio Magnavita*
Há uma máxima na medicina de que todo o médico ortopedista é grosso, truculento
e bruto. Não é função para pessoas sensíveis e delicadas. Não se trata de
nenhum demérito à especialidade, mas um pré-requisito até para um bom
ortopedista.
Foi exatamente esta a especialidade que o acadêmico da Gama
Filho do Rio, Luiz Henrique Mandetta, escolheu para seguir a sua carreira.
Nos últimos dias ele tem exercido com perfeição o papel
truculento nas relações que emanavam a sua fonte de poder.
Nunca um brasileiro jogou fora uma oportunidade histórica
por puro egocentrismo e a incapacidade de perceber que parte da bajulação que
recebia tinha um objetivo único: ferrar o seu chefe, constranger aquele que o
ungiu ao cargo mais importante da saúde no Brasil.
Por ter tido dois mandatos de deputado e por ter tido duas
campanhas financiadas por patrocinadores, que depois viraram fornecedores do
próprio Ministério sem ter licitação, não se pode dizer que Mandetta foi um
inocente útil na mão de uma oposição velada, e por parte da mídia que quer
implodir a popularidade de Bolsonaro.
O certo é que o ministro foi inábil, partiu para o
confronto, acreditando que em plena crise ninguém seria capaz de exonerá-lo. O
apoio que recebeu de colegas e até da turma verde-amarela do Palácio se
esfacelou por pura deslealdade.
Faltou humildade a Mandetta, faltou perceber que ele não era
mais detentor de um mandato, no qual teria imunidade por fazer e desfazer ao
bel prazer.
Ele estava preso a uma cadeia de comando, a uma delegação de
poderes, a uma hierarquia que um dia o nomeou e, como falamos antes, o ungiu ao
cargo mais alto da saúde do país. E o que ele fez? Passou os últimos dias,
destruindo os tênues fios que o ainda o sustentava.
Como um médico, um brasileiro, um pseudo apaixonado pela
ciência, joga fora a maior oportunidade de sua vida por simples orgulho? Por
vaidade. Ele não poderia ter usado o seu charme para convencer o presidente dos
seus pontos de vista? Não poderia usar a sua eloqüência para equilibrar os
ritos do poder?
Por que ser irônico? Por que se aliar a inimigos? Será que o
cansaço e o esgotamento físico levou um tarimbado homem público a perde o dom
do diálogo?
Mandetta cometeu todos os pecados que um ocupante de uma
função de confiança não deveria cometer. Desafiou publicamente o chefe. Foi
desleal com os colegas que enfrentaram o presidente e avalizaram sua
permanência. Foi desleal com o seu currículo, jogando fora o juramento de
Hipócrates, pilotando o maior plano de emergência de saúde da história da
humanidade.
Ele vai sair do Governo e vai se abrigar em São Paulo ou em
Goiás, atrás de uma trincheira nitidamente de oposição. Será julgado pela
história não pela sua capacidade de tentar acertar, mas de não ter a humildade
e o jogo de cintura para permanecer em uma função que o destino lhe deu e que,
por burrice política, deixou escapar pelas mãos.
A história será implacável, mas o carimbo de traidor e
sobretudo de ingrato está fixado em seu currículo. Um ministro que durante
semanas fritou o seu próprio presidente e que foi incapaz de perceber que
estava fazendo o jogo de uma oposição inconformada de ter no Palácio do
Planalto um homem disposto a quebrar paradigmas, acabar com privilégios e que,
pela primeira vez, deu carta branca e porteira fechada a todos os seus
ministros. Infelizmente, no caso do ortopedista Luiz Henrique Mandetta, ele não
soube usar.
*Cláudio Magnavita é diretor de Redação do Correio da Manhã
Ela
nunca soubera o tempo de escutar a própria voz e se sentir em disponibilidade
de si mesma. Pouco a pouco, uma realidade foi sendo constatada em seus ângulos desconhecidos.
Respirava entre pessoas que se encontravam para manter um ritmo sem
qualquer atrativo humano especial, apenas para alimentar certo rótulo
social e econômico, exibido com enorme satisfação como um trunfo que poucos na
vida conseguem. Perfis da vitória nos seus acentos circunflexos, gestos
redondos que se intumesciam de prazer, na mesa a prata castiça, iguarias e
bebidas raras. Os dias desfilavam sob o peso de uma mentira constante. Por
acaso existirá no mundo algo mais triste do que a solidão em família com as
palavras encobrindo verdades e ferindo como faca? Ela tinha tudo em suas mãos,
mas o sonho de viver livre era um passo que parecia impossível de ser dado. Um
pássaro que não voava, com o seu canto prisioneiro guardado numa gaiola de
ouro era mesmo uma coisa sem sentido. E o dissabor da realidade desse pássaro
artificial atingiu o ponto máximo quando ela percebeu que os filhos não
precisavam mais dela, e o marido, o banqueiro mais famoso da cidade,
fechado no mundo dos negócios, era uma pedra que se lançara para o fundo de um
poço.
Um
grito então aconteceu. Como algo especial que se aqueceu em segredo e apareceu
na paisagem para se propagar com os dias plenos de ardor. Laura Palmer, senhora
de alta sociedade, mãe de três filhos, todos casados, em romance com Clarindo
Mali, compositor negro, cantor do bloco Olodum, que neste ano vai apresentar
durante o carnaval o tema “Dogons, o povo das estrelas”, e mostrará como se deu
a criação, a origem da vida, do nosso planeta e do universo. O bloco irá
mostrar no desfile dessa temporada a importância do respeito às águas, o
amor às estrelas, de onde viemos e para onde vamos voltar um dia. Milionária
divorciada grava o seu primeiro CD e entra com surpreendente sucesso no
mundo apaixonante da música popular. E fofocas e comentários e disse me
disse. Ela assim conheceu que aquele grito deveria ter sido dado muito antes.
Aos dezessete anos talvez. Na plena força da idade quando o coração pulsa com o
fulgor maravilhoso de um sol, a irradiar luz por todos os recantos. É bom
caminhar assim e sorrir e chorar. Esta a vida do ar, do amar e do sonhar,
pensou.
Na
medida em que se via penetrada das cores da realidade nova, ela se sentia
levada por ondas que iam deixando para trás cenas de uma alma saturada de
coisas insignificantes. Havia circulado naquele tempo habitado por rostos sem
brilho, beijos sem afeto, dedos sem entrelaço. Que droga, aquela havia sido a
sua estrada? Quanta insinceridade, meu Deus, as pessoas haviam colocado nisso
tudo, nessa estrada horrível, a essa altura comprida. Pessoas de seu círculo
formaram logo opiniões. Quiseram tomar detalhes, reincidiram nas visitas,
mostraram-se inconformadas com aquela mudança súbita. No fundo mesmo
ficaram revoltadas com a altivez acentuada que surgiu dos traços
harmoniosos de seu rosto. Alguns parentes, não conseguindo ferir os encobertos
objetivos, utilizaram-se das armas do desprezo, coação e censura.
A
propósito, há poucos dias sua mãe fez a seguinte observação: Depois de velha,
você entendeu de ser artista... E ela, agora eu sou livre, l-i-v-r-e. E seu
ex-marido, o banqueiro Carlos, deixou um pouco de lado o mundo dos sucessos
econômicos e resolveu também interferir. É essa a maneira de você retribuir
aos filhos o amor que eles sempre dedicaram a você? E ela: Na minha
maneira de ser nada mudou para eles, apenas agora eu estou vivendo. E os filhos
por sua vez disseram que não acreditavam no que estava sendo publicado nas
colunas sociais dos jornais e revistas. Esses comentários chocam muito. E ela,
não vendo qualquer motivo que justificasse esconder a verdade, procurou
deixá-los a par de tudo. Vocês não devem sofrer por isso, gostaria
de dizer a vocês o inverso do que eu ouvi dos meus pais, o oposto de tudo o que
eu aprendi com eles. Concluindo: Sinto-me na vida. E mil coisas agradáveis,
marcantes, ela passou a conhecer.
Aconteceu
ela cruzar inúmeros caminhos, descobrir-se com uma infinidade de pessoas, cuja
beleza consistia em fazer da vida uma realidade simples, espontânea, habitada
nos seus movimentos cotidianos à vontade por ondas de calor e brilho forte.. E
recentemente lhe tocou uma emoção grande quando aquele rosto tão jovem
aproximou-se dela e perguntou qual seria o título do seu livro de memórias e ela,
irradiando serenidade e alegria, sem hesitar um minuto sequer, respondeu:
Viver.
....................
Cyro de Mattos - Ficcionista e poeta. Publicado em inglês,
francês, italiano, espanhol, alemão, dinamarquês, russo. Premiado no Brasil,
Portugal, Itália e México. É membro titular da Academia de Letras da Bahia e da
Academia de Letras de Ilhéus. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual
de Santa Cruz-UESC.
O coronavírus está mudando a fisionomia do mundo. Mais
precisamente, as medidas preventivas estão mudando completamente a situação
mundial. Será razoável? Será proporcional?
As autoridades divergem em suas avaliações. Só uma coisa é
sólida: o empobrecimento acentuado dos países.
Antigamente, o zelo do clero e a fé dos fiéis se traduziam
em tais ocasiões em cerimônias nas quais orações acompanhadas de ardentes e
ininterruptos pedidos de misericórdia subiam ao Céu até obter de Deus a
cessação da epidemia, da catástrofe, da guerra.
Hoje, não. As igrejas estão fechadas, inclusive não
ocorreram as cerimônias de Semana Santa com os fiéis. Por quê?
Porque não se acredita mais que dessas celebrações se obtêm
os grandes auxílios sobrenaturais. Até fontes de milagres como Lourdes foram
fechadas!
Acompanhe-me, por favor, no seguinte raciocínio.
Após as transformações operadas pelo Concílio Vaticano II
acentuou-se no mundo moderno a ideia de que o mais importante na vida é ter
saúde e dinheiro.
Mesmo dentro das igrejas, o maior empenho era pela vida,
simplesmente, não pela vida humana que é espiritual, mas pela vida humana no
que ela tem de “animal”. “Somos pela vida” era o que mais se ouvia.
Além disso, a sociedade em geral sobrevalorizou a um grau
extremo a ideia de que, além da saúde, o importante era ganhar dinheiro e,
consequentemente, de que as pessoas, com ou sem vocação, deveriam cobiçar um
diploma universitário, em detrimento de outras profissões dignas e
indispensáveis à sociedade.
Dr. Plinio Corrêa de Oliveira disse inúmeras vezes que a
sociedade estava ficando de tal maneira paganizada, que Deus já não lhe dizia
quase nada. Mas que a saúde e o dinheiro diziam tudo. Esse duplo interesse ele
o comparou aos dois deuses da mitologia pagã: Bios (o deus da vida, da saúde) e
Mamon (o deus do dinheiro).
Esses falsos deuses imperaram até há pouco.
O Sínodo da Amazônia, conforme afirmado por Dom Claudio
Hummes, estava preparando uma Igreja com nova fisionomia, não só para a
Amazônia, mas para o mundo inteiro. Seria a igreja dos pobres, ela mesma pobre
e miserável.
Eis palavras de Dom Hummes na catacumba de Santa Domitila,
por ocasião de uma renovação do Pacto das Catacumbas, realizado durante o
Sínodo da Amazônia: “Todas as grandes maldades do mundo são por causa do
dinheiro; é a corrupção, é o roubo, guerras, conflitos, são mentiras. Tudo para
juntar dinheiro, para ganhar dinheiro às custas de qualquer coisa. O dinheiro é
o grande inimigo de Jesus, pois você não pode servir a Deus e ao dinheiro.”
Estranha coincidência o fato de todas as medidas preventivas
globais contra o Covid-19 serem de molde a empobrecer sensivelmente os povos
não comunistas…
Mas como fazer para que uma população mundial ávida de
dinheiro e de prazer se resigne a abrir mão de seu dinheiro, dinheirão ou
dinheirinho?
A estratégia foi jogar o deus Bios contra o deus Mamon, ou
seja, a saúde contra o dinheiro, pois viver é ainda mais forte do que possuir.
É preferível empobrecer a morrer.
Se este raciocínio for verdadeiro, não estranharia que as
esquerdas tentassem de tudo para aproveitar essa tragédia para empurrar a
população mundial rumo a uma pobreza cubana, venezuelana ou chinesa.
Verdade ou não, o certo é que aos olhos dos devotos de Nossa
Senhora de Fátima se trata do descumprimento total dos desejos manifestados por
Ela em sua Mensagem, ou seja, que os homens fizessem penitência e se
convertessem de seus pecados. O que estamos vendo é a degringolada moral
pasmosa que atingiu toda a humanidade.
Hoje estamos com todas as igrejas fechadas, inclusive a
própria basílica de São Pedro, no Vaticano, fechadas. O clero católico se
curvou diante de Bios e mostrou que sua fé é fraca, se é que ainda existe.
Porque outrora seus membros iam para junto dos enfermos para atendê-los e
confortá-los na hora extrema. E muitos morriam por se exporem heroicamente à
contaminação pelo bem das almas.
Como não poderia deixar de ser, Nosso Senhor Jesus Cristo
está suscitando clérigos heroicos, com fé ardente e inabalável, capazes de não
se vergarem diante de Bios nem de Mamon, nem do Covid-19, mas de cumprir
heroicamente sua missão de preencher os tronos do Céu com almas santas.
Embora minoritários, crescem a cada dia. Rezemos a Nossa
Senhora de Fátima por eles. E peçamos acima de tudo a Ela que não permita a
extinção da Santa Missa e dos demais sacramentos da única Igreja verdadeira e
faça vir o quanto antes o triunfo do seu Imaculado Coração.