Total de visualizações de página

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A CONCEPÇÃO CATÓLICA TRADICIONAL DAS MISSÕES


10 de outubro de 2019
Fundação da cidade de São Paulo – Oscar Pereira da Silva, 1909. Pinacoteca do Estado de São Paulo.

No post de ontem deste site reproduzimos a introdução do livro de Plinio Corrêa de Oliveira “Tribalismo Indígena – Ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI”, no post de hoje segue praticamente a íntegra do primeiro capítulo desta obra, da qual podemos dizer que é um prognóstico do atual Sínodo Pan-Amazônico.

Plinio Corrêa de Oliveira

• Como fim, evangelizar.
• Evangelizando, civilizar.
• Civilizando, fazer o bem.

          O“diálogo” que o leitor acaba de ler corresponde, na sua maior parte, a textos emanados de fontes missionárias “atualizadas”, e delineia uma radical modificação na doutrina das missões. Tal modificação penetrou largamente, de algum tempo para cá, em ambientes missionários brasileiros, onde se propaga com a discrição e a rapidez da mancha de azeite. Como se verá, esta transformação não interessa apenas a especialistas, mas afeta profundamente o futuro da Igreja e da Pátria.

         Assim, devem estar atentos para ela todos os brasileiros. Pois ela visa estender uma perigosa ondulação no mundo das selvas incultas. E, ainda mais, conectar esta ondulação com outra maior, a ser efetuada no mundo dos campos cultivados e das cidades.

         Selvas incultas, campos cultivados, cidades em franca expansão: é bem o Brasil inteiro que assim pode ser atingido…

1. Conceito de Missão

         Na doutrina missiológica da Igreja, velha de cerca de vinte séculos, o conceito de Missão católica, seus fins e seus métodos, está perfeitamente definido. E coincide com o modo de ver e de sentir do leitor brasileiro médio. Por isto pode-se estar certo, de antemão, que os próximos parágrafos não chocarão ninguém. Pelo contrário, parecerão tudo quanto há de mais normal.

         Missão vem do vocábulo latino missio, de mitto, isto é, eu envio. O missionário é pois um enviado (Bispo, Sacerdote — e, por extensão, também uma Religiosa ou um leigo).

Enviado, o missionário o é pela Igreja, em nome de Jesus Cristo, a Quem representa junto a povos não católicos, com o fim de os trazer para a verdadeira Fé.

2. Fim supremo da Missão – a glória de Deus e a bem-aventurança eterna

         Ensina a Igreja que a via normal para o homem se salvar consiste em ser batizado, crer e professar a doutrina e a lei de Jesus Cristo.

Trazer os homens para a Igreja é, pois, abrir-lhes as portas do Céu. É salvá-los. É este o fim da Missão.

Esta salvação tem por supremo fim a glória extrínseca de Deus. Salva-se a alma que tenha conseguido assemelhar-se a Ele pela observância da Lei, nos embates desta vida. E assim Lhe dará glória por toda a eternidade.

Toda semelhança é, em si, um fator de união. A alma dessa maneira unida a Deus alcança a plenitude da felicidade.

3. Efeitos da Missão na vida temporal

a) A ordem
         A glória de Deus e a perpétua felicidade dos homens são fins missionários da mais alta transcendência. Isto não impede que a Missão tenha efeitos terrenos, também dos mais elevados.
Com efeito, Deus criou o universo numa ordem sublime e imutável. Sendo o homem o rei do universo, tal ordem é sobretudo admirável no que toca a ele.

         Os preceitos da ordem natural se exprimem nos Dez Mandamentos da Lei de Deus (cfr. Santo Tomás, Suma Teológica, Ia. IIae., q. 100, aa. 3 e 11), confirmados por Nosso Senhor Jesus Cristo (“não vim dissolver a lei, mas cumpri-la” – Mt 5, 17), e por Ele aperfeiçoados (Mt 5, 17 a 48; Jo 13, 34).

         Ora, a observância da ordem, em qualquer esfera do universo, é a condição não só para a conservação desta, como para seu progresso, o que é sobretudo verdadeiro para os seres vivos, e mais especialmente para o homem.

b) A grandeza e o bem-estar dos povos

         Daí decorre que a Lei de Deus é o fundamento da grandeza e do bem-estar de todos os povos (cfr. S. Agostinho, Epist. 138 al. Ad Marcellinum, cap. II, n. 15).

Cristianizar e civilizar são, pois, termos correlatos. É impossível cristianizar seriamente sem civilizar. Como, reciprocamente, é impossível descristianizar sem desordenar, embrutecer e impelir de volta rumo à barbárie.

Primeira Missa no Brasil – Victor Meirelles, 1860. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

4. Missão e índios

a) O contato com Jesus Cristo
         Ser missionário, no Brasil, é principalmente levar o Evangelho aos índios. É levar-lhes também os meios sobrenaturais para que, pela prática dos Dez Mandamentos da Lei de Deus, alcancem seu fim celeste. É persuadi-los de que se libertem das superstições e dos costumes bárbaros, que os escravizam em sua milenar e infeliz estagnação. Em consequência, é civilizá-los.

         Cabe insistir: enquanto é próprio ao homem cristianizado e civilizado progredir, sempre no reto e livre exercício de suas atividades intelectuais e físicas, o índio é escravo de uma imobilidade estagnada, a qual desde tempos imemoriais lhe tolhe todas as possibilidades de reto progresso.

Apresentando-se ao índio, está o missionário de Jesus Cristo no direito de lhe dizer: “cognoscetis veritatem, et veritas liberabit vos – conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8, 32).

b) O contato com o neopaganismo moderno
         Bem entendido, o contato com os missionários traz forçosamente, para o índio, o contato com a civilização. Não com uma civilização quimérica, descida das nuvens, mas com a civilização ocidental como ela é concretamente. Na medida em que esta possui ainda fermentos autenticamente cristãos, a civilização será rica, para os indígenas, em benefícios espirituais e até materiais. E na medida em que nela trabalhem os germes de decadência e do neopaganismo, há o risco de que ela seja ocasião para os índios se poluírem na alma e no corpo.

c) Problema desconcertante
         Essa circunstância cria para as missões contemporâneas dificuldades desconcertantes. Como podem elas evitar que, levando Jesus Cristo aos índios, não lhe siga o passo muito de perto o Anticristo, ou seja, o neopaganismo moderno?

5. Para o missionário, uma solução impossível: abster-se

a) O poder de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre as almas retas
O problema, por mais intrincado que seja, não pode servir de razão para o missionário não ir aos índios. Não lhes levar Nosso Senhor Jesus Cristo, sob a alegação de que o Anticristo moderno virá logo após Ele, é ignorar o poder e a bondade do Salvador. Em todas as almas retas, e entre os índios obviamente, Nosso Senhor Jesus Cristo é infinitamente mais poderoso do que o Anticristo.

b) O contato com a civilização ocidental
         Ao tratar da presente temática, é preciso não confundir grosseiramente o neopaganismo moderno com a civilização ocidental. Esta última foi cristã durante mais de mil anos; e embora por desdita já não se possa dela dizer tal, ainda conserva muito do caráter cristão de outrora. Da mesma forma que certos edifícios de pedra que, expostos ao dardejar do sol durante o dia inteiro, depois de entrada a noite conservam o calor acumulado. Assim também a civilização ocidental — sem mais poder dizer-se cristã, e a despeito da decadência onímoda em que se vai afundando — ainda está quente da ação benfazeja que, durante os séculos da antiga fidelidade, recebeu do Sol de Justiça (Ml 4, 2) que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

         De onde se deve concluir que seria irrefletido, simplista e até fanático pretender que, em contato com a civilização ocidental, os índios só têm a perder e nada a lucrar.

c) Influência do verdadeiro Sacerdote

         Quando vive na civilização atual, o verdadeiro Sacerdote tem por missão a luta. Luta a favor de tudo quanto procede de Jesus Cristo e a Ele conduz. Luta contra tudo que procede do mal e afasta de Jesus Cristo.

Se o índio nota no missionário esta atitude valorosa, de discernimento e de luta, terá as graças e o bom exemplo para beneficiar-se dessa civilização, sem nela se corromper.

d) Problema bizantino
          Ademais, na realidade concreta em que vivemos seria perfeitamente bizantino discutir sobre se convém aos índios receber, com a presença dos missionários, também a influência de nossa civilização. Esta, em seu vertiginoso desenvolvimento técnico, os estará alcançando a todos muito em breve, com ou sem missionários. E melhor será para os índios que, junto com a civilização neopagã, vão também os missionários de Jesus Cristo.

e) O agitador comunista, missionário de Satã
         Aonde a civilização neopagã for, o mais das vezes levará consigo o que ela tem de pior, isto é, o agitador comunista, o “missionário” de Satã.

O exemplo da África mostra quanto o comunismo internacional se empenha em tirar proveito das tribos aborígines. Quem poderá garantir que, hoje ou amanhã, ele não empreenderá o mesmo entre os índios não civilizados, ou os que venham a sê-lo?

Mais ainda — e quanto dói dizê-lo! — como se poderá garantir que, utilizando a infiltração ideológica em meios católicos, o comunismo não aproveite para a infiltração esquerdista entre os índios os Bispos, Padres ou religiosos cuja simpatia e cooperação tenha conquistado?

Em consequência, convém que vá ao índio o bom missionário, por todas as razões. Até mesmo para prevenir contra o “missionário” comunista.



* * *

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 2018 E 2019


Olga Tokarczuk e Peter Handke ganham prêmio Nobel de Literatura

Academia Sueca escolheu entregar o prêmio de 2018 junto ao de 2019. Premiação foi cancelada no ano anterior após o dramaturgo Jean-Claude Arnault ter sido acusado de abuso sexual.

Por G1
10/10/2019

Vencedores dos prêmios Nobel de Literatura de 2018 (Olga Tokarczuk) e 2019 (Peter Handke) — Foto: Reprodução/Twitter Nobel Prize

A polonesa Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke ganharam o prêmio Nobel de Literatura. O comunicado foi feito nesta quinta-feira (9) pela Academia Sueca.
O prêmio entregue a Olga Tokarczuk foi referente ao ano de 2018, quando a academia cancelou a premiação após um escândalo sexual. No início de 2019, a instituição anunciou a decisão de conceder dois prêmios em 2019 para tentar recuperar seu prestígio.

O prêmio para cada um dos ganhadores é de 9 milhões de coroas suecas (o equivalente a cerca de R$ 3,7 milhões).

Segundo a academia, o prêmio entregue a Olga foi "por uma imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa o cruzamento de fronteiras como uma forma de vida." Antes da premiação, a expectativa era que ao menos uma mulher levasse o prêmio, e a polonesa estava entre os nomes cotados, junto com a chinesa Can Xue, a russa Lyudmila Ulitskaya e a americana Joyce Carol Oates.

Durante o anúncio, a academia explicou que Peter Handke foi nomeado "por um trabalho influente que, com ingenuidade linguística, explorou a periferia e a especificidade da experiência humana".

Olga Tokarczuk
Olga Tokarczuk nasceu em 1962, em Sulechów, na Polônia, e hoje vive em Breslau, também na Polônia. Ela estreou como escritora de ficção em 1993 com "Podróz ludzi Księgi" ("A jornada do povo do livro", em tradução livre).

Segundo o Nobel, a verdadeira inovação de Tokarczuk veio com seu terceiro romance, "Prawiek i inne czasy" ("Primitivo e Outros Tempos"), de 1996. O romance é "um excelente exemplo de nova literatura polonesa após 1989", disse o comitê do prêmio.

"A obra prima de Olga Tokarczuk, até agora, é o impressionante romance histórico 'Księgi Jakubowe' 2014 ('Escrituras de Jacó'). Ela mostrou neste trabalho a capacidade suprema do romance de representar um caso quase além da compreensão humana", acrescentou o comitê.

Em 2018, a escritora ganhou o Man Booker International do Reino Unido pelo romance "Flights", que reúne uma série de histórias, como um conto do século 17 sobre o anatomista holandês Philip Verheyen, que dissecou e desenhou detalhes de sua perna amputada, e uma história do século 19 sobre o coração do finado Chopin, que viajou oculto de Paris a Varsóvia.

No Brasil, foi publicado em 2014 apenas um título em português da escritora, chamado "Os Vagantes" ("Bieguni", no título original em polonês).


Peter Handke
Handke, de 76 anos, nasceu em 1942, na vila de Griffen, na região de Kärnten, no sul da Áustria, mesmo local que sua mãe, que pertencia à minoria eslovena do lugar.

O romance de estreia dele, Die Hornissen, ("As Vespas", em tradução livre), foi publicado em 1966. A obra, junto com a peça '"Ofendendo o Público", de 1969, são citadas como responsáveis por deixar a marca do escritor no cenário literário.

"Mais de cinquenta anos depois do lançamento de seu primeiro livro, tendo produzido um grande número de obras em diferentes gêneros, o laureado de 2019, Peter Handke, estabeleceu-se como um dos escritores mais influentes da Europa após a Segunda Guerra Mundial", disse o comitê do Nobel.

Denúncias de abuso sexual

O prêmio de 2018 foi cancelado após acusações contra o marido de uma das integrantes da Academia Sueca. O dramaturgo Jean-Claude Arnault foi acusado cometer abusos sexuais dentro de uma instituição cultural que recebia dinheiro da academia e de vazar o nome de vários ganhadores do prestigiado prêmio.

Segundo a agência AFP, o comitê do Prêmio Nobel -- composto normalmente por cinco membros que recomendam um laureado ao resto da academia -- decidiu incluir em 2019 e 2020 "cinco especialistas externos", especialmente críticos, editores e autores de entre 27 e 73 anos.

Depois do escândalo, estas nomeações externas foram impostas pela Fundação Nobel, que financia o prêmio. "As mudanças foram muito frutíferas e temos esperança para o futuro", declarou à AFP o novo secretário permanente, Mats Malm, dias antes do anúncio dos premiados.

Nobel da Literatura em números

Desde 1901, foram 116 laureados em 112 premiações. Isso porque eu quatro delas, dois nomes foram anunciados como vencedores no mesmo ano. Até hoje, ninguém foi premiado mais de uma vez no Nobel.

Rudyard Kipling foi o mais jovem vencedor do prêmio. Em 1907, quando foi nomeado, tinha 41 anos de idade.

Já a mais velha foi Doris Lessing, que estava com 88 anos quando foi premiada em 2007.

Vencedores do prêmio Nobel de Literatura, anunciado nesta quinta-feira (10) — Foto: Reprodução/Twitter Nobel Prize

As mulheres do Nobel de Literatura

Até então, o Prêmio Nobel de Literatura havia sido concedido a apenas 14 mulheres entre uma centena de homens desde sua criação, em 1901. Com o nome de Olga, o número sobe para 15.

1909 – Selma Lagerlöf
1926 – Grazia Deledda
1928 – Sigrid Undset
1938 – Pearl Buck
1945 – Gabriela Mistral
1966 – Nelly Sachs
1991 – Nadine Gordimer
1993 – Toni Morrison
1996 – Wislawa Szymborska
2004 – Elfriede Jelinek
2007 – Doris Lessing
2009 – Herta Müller
2013 – Alice Munro
2015 – Svetlana Alexievich
2018 – Olga Tokarczuk


NOBEL 2019




* * *

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

AMBIENTALISTA MARIO MOSCATELLI É O PALESTRANTE DA SEGUNDA CONFERÊNCIA DO CICLO “O BRASIL EM 2050”


A Academia Brasileira de Letras dá continuidade ao seu Ciclo de Conferências do mês de outubro, intitulado O Brasil de 2050, com palestra do ambientalista Mario Moscatelli. O tema escolhido é Rio de Janeiro, um futuro socioambiental inviável? Diagnose e perspectivas. A coordenação é do Acadêmico e escritor José Murilo de Carvalho. O evento será realizado quinta-feira, dia 10 de outubro, às 17h30, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson, 203 – Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.
A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora-geral dos Ciclos de Conferências de 2019.
Os Ciclos de Conferência, com transmissão ao vivo pelo Portal da ABL, têm o patrocínio da Light.
Serão fornecidos certificados de frequência.
A intitulação O Brasil em 2050, segundo o Acadêmico José Murilo de Carvalho, refere-se às consequências que acontecerão no Brasil nos próximos 30 anos. Uma mudança que está relacionada aos aspectos sociais, ambientais, econômicos e políticos, e à literatura brasileira.
O Ciclo O Brasil em 2050 terá mais três palestras, às quintas-feiras, no mesmo local e horário, nos seguintes dias, conferencistas e temas, respectivamente: dia 17, Cláudio Frishtak, A economia brasileira na era da incerteza; dia 24, Sergio Abranches, A grande transição do Século XXI e o futuro do Brasil; e dia 31, Rodrigo Lacerda, Horizontes da literatura brasileira: cenários para 2050.
O Conferencista
Mario Moscatelli é biólogo, mestre em ecologia, especialista em gestão e recuperação/criação de ecossistemas. Responsável pela recuperação de manguezais da Lagoa Rodrigo de Freitas, Canal do Fundão, aterro de Gramacho, Parque Olímpico, entre outros. Criou o projeto de gerenciamento ambiental aéreo Olho Verde.
Leitura complementar
Biblioteca Rodolfo Garcia disponibiliza seu acervo para pequisa e leitura de obras relacionadas ao tema desta conferência, como "A saúde pública no Rio de Dom João""Antiqualhas e memórias do Rio de Janeiro" e "Crônica para a cidade amada".
Para consultar mais materiais como os citados, acesse o link abaixo e visite os "Levantamentos bibliográficos" realizados para este evento.

03/10/2019



* * *

QUANDO ABRI O QUARTO! - Antonio Nunes de Souza


Quando abri o quarto, depois de forçar bastante a porta, deparei com Lúcia sentada, cabeça sobre a penteadeira, respingos de sangue no espelho e, no tapete branco, uma enorme mancha vermelha escura decorrente do seu trágico gesto. Ainda em sua mão, segurava firmemente o revólver causador daquele estrago. Corri desesperado colocando-a em meus braços, mas, infelizmente, já era tarde demais. Lúcia estava morta!

Uma crise de choro apoderou-se de mim, ao tempo que a apertava contra meu corpo, estarrecido e surpreso pela sua grotesca atitude suicida, querendo entender o “por que” de tal gesto.

Mesmo com minha cabeça totalmente debilitada pela cena e o fato, tentei a todo custo rememorar tudo de nossa vida, no sentido de captar alguma coisa ou motivo que pudesse de alguma forma, leva-la a desejar acabar com a sua linda e jovem vida.

Conhecemo-nos há dois anos, estudávamos na mesma faculdade, sendo que eu fazia economia e ela enfermagem. Fomos apresentados por um amigo comum e, logo, logo, nos identificamos e começamos a namorar. Como era nosso último semestre, com as preocupações das provas finais, teses, plantões, etc., nossos encontros eram restritos apenas aos fins de semana, ocasiões que aproveitávamos bastante para conversar, ir ao teatro, cinema, trocar informações, quebrar as tensões dos estudos e curtir nossa alegria e felicidade. Amávamo-nos profundamente! Somente em olhar para o meu rosto, sentia o prazer incomensurável de estar ao meu lado, sendo que essa reação era idêntica da minha parte. Não vivíamos um para o outro, vivíamos ambos, despojando-nos de todos os bons sentimentos, para que nos transformássemos em uma pessoa só. Um amor raro, belo e invejável!

Como éramos do interior, eu morava em um modesto pensionato e Lúcia dividia o apartamento com uma amiga. Ela somente dedicava-se aos estudos, sendo provida totalmente pelos seus pais. Quanto a mim, fazia trabalhos eventuais, principalmente pesquisas e projetos, para complementar minha manutenção, pois meu pai não tinha condições de bancar-me na capital. Além do meu sacrifício, uma tia ainda me ajudava eventualmente. Minha formatura era o esperado orgulho de toda família. Seria eu o primeiro de duas gerações a completar o curso superior, que para eles era chamado pomposamente de doutor.

Depois de desfilar todos os meus pensamentos procurando razões ou motivos, infelizmente, nada encontrei que, mesmo de longe, justificasse tal gesto! Aos prantos, chamei os colegas dela vizinhos e eles se encarregaram de ligar para a polícia. Depois de alguns dias, já feitas as perícias e comprovadas que foi uma atitude solitária e suicida sem nenhuma explicação, ficamos todos na obscuridade de uma justificativa, uma vez que não foi deixado nenhuma carta ou bilhete e o revolver foi comprado por ela mesma em uma loja da cidade.

Hoje, dez anos depois, não consegui esquecê-la completamente e, sinceramente, vivo intrigado como uma pessoa amando e sendo amada por todos, realizando-se profissionalmente, inteligente, educada e feliz, comete tal loucura. Só posso dizer que são fatos inexplicáveis dessa Vida Louca que vivemos!

Quando nessas situações ouço alguém dizer: “Deus sabe o que faz!”, não ouso duvidar, mas...


Antonio Nunes de Souza, escritor,
Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL

* * *

terça-feira, 8 de outubro de 2019

LANÇAMENTO DO LIVRO "POEMAS DE TERREIRO E ORIXÁS", DO ESCRITOR E ACADÊMICO CYRO DE MATTOS - 30.10.2019

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original

Novo livro de Cyro de Mattos
É de Poemas Sobre o Negro

          Com quase oitenta e um anos de idade, mais de cinquenta dedicados à literatura, o escritor baiano Cyro de Mattos, membro da Academia de Letras da Bahia, continua em plena vitalidade de criação literária.  Seu novo livro, Poemas de Terreiro e Orixás, que acaba de ser publicado pela Mazza Edições (BH), vai ser lançado no dia 30 de outubro, às 17 horas, na sede da Academia de Letras da Bahia, na avenida Joana Angélica, 198, Nazaré, Salvador.


Em Poemas de Terreiro e Orixás, Cyro de Mattos comparece com um modo encantatório de pensar o negro. Seus sentimentos refletem um jeito comovente de ser negro, ritmado no canto vindo da África, que transforma a alma em crença e magia.  As imagens de seus versos dizem de coisas tristes, que não se apagam no rastro das distâncias, na sucessão infeliz dos momentos.  Mas há também nelas vozes de uma gente alegre, que consegue suplantar os limites contrários impostos pela existência.

          Com saberes, histórias, sonhos, costumes, preceitos, liturgias, os poemas desse livro apresentam o negro com seus orixás, sua cantiga feita de amor, para seduzir com solidariedade.  Esse negro afrodescendente com o seu universo plantado na Bahia, como testemunho do homem carregado de poesia, valores que tornam perceptíveis os movimentos viáveis da vida.


* * *

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

TRIUNFO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DE LEPANTO - Paulo Henrique Américo de Araújo


7 de outubro de 2019
Paulo Henrique Américo de Araújo

Uma multidão apinha-se em frente à Igreja de São Domingos na cidade de Granada (Espanha). Aos poucos os membros do cortejo vão atravessando a porta principal do templo para a procissão anual de 12 de outubro. Ricamente vestidos, os participantes portam belos estandartes e instrumentos musicais.

Ao toque de sinos, um imenso andor, levado nos ombros por dezenas de homens, surge na entrada da igreja. As trombetas soam e os aplausos entusiasmados da multidão repercutem. Todos os olhares se voltam para a magnífica imagem de Nossa Senhora, que acaba de chegar.

O andor se detém um instante… A banda militar inicia o hino “Salve, Estrela dos Mares”, que é acompanhado pelas vozes uníssonas dos presentes. Ao fim da música, alguém grita: “Viva a Virgem do Rosário Coroada!”. E ouve-se a resposta imediata: “Viva!”.1

Difícil permanecer indiferente a essa manifestação de entusiasmo do povo espanhol. Enquanto a procissão avança, vemos aí uma espécie de declaração pública de vitória: o triunfo de Nossa Senhora é inevitável! Nós, espanhóis, o declaramos; e enfrentaremos qualquer circunstância para manter nossa posição!

Essa nota de triunfo iminente se reflete em todo o feitio da Imagem de Nossa Senhora do Rosário de Granada, ou Nossa Senhora de Lepanto. A Virgem traz um manto dourado, cravejado de pedras preciosas. A túnica e a saia, que formam a parte interior do vestido, não são feitas de tecido, mas de prata, como uma armadura, repleta de ornamentos. Em volta da face, esplendores à maneira de raios, a partir dos quais se distingue uma estrela na fronte. A cabeça vem encimada por uma grande coroa. De certos ângulos discernem-se, próximas ao pescoço, algumas mechas dos longos cabelos castanhos. Nas mãos, rosários, anéis e um cetro.

Alguém poderia pensar que tais adereços são um tanto exagerados. Não! Eles não nasceram simplesmente da veneração irrefletida de um povo devoto. Como veremos adiante, tudo na imagem relaciona-se a fatos e milagres estupendos.

Ao contemplarmos a belíssima fisionomia da imagem, surge uma dificuldade. O espírito brasileiro normalmente reverencia a Santíssima Virgem pelo seu lado maternal, terno e bondoso. Na imagem de Nossa Senhora de Lepanto, sem dúvida vemos tais aspectos, mas os traços de majestade, firmeza e poder aparecem nela com muito mais fulgor. Ao fitar sua face, quase se poderia ouvi-la dizer: Eu sou a Rainha do Universo, pois sou a Mãe d’Aquele que tudo criou. Tenho o direito de mandar, de governar. E para ti, que me vês, tua melhor atitude é seguir-me. Então, terás participação na minha própria glória!

O Menino Jesus, trazido no braço esquerdo da Virgem-Mãe, apresenta análogas características. Apesar do semblante rosado, tal como o de uma tenra criança, Ele parece demonstrar uma santa indignação, sobretudo se observarmos a posição levantada do braço direito, bem como a mão que empunha o cetro do poder. O pecado, o erro, a heresia não têm parte com esse Divino Infante.

Como dissemos, tudo isso reflete de modo muito adequado a mentalidade espanhola – mentalidade impregnada de força de vontade, coerência, princípios categóricos. Mas quais fatos contribuíram para a Virgem ser representada assim, cercada de tantos atributos de poder e majestade? Na verdade, uma Rainha triunfante convém muito à frase da Escritura: “Terrível como um exército em ordem de batalha”. Foi precisamente assim que Ela quis aparecer aos seus inimigos, o que explica as características da imagem.

D. Álvaro Bazán, Marquês de Santa Cruz, resolveu levar a imagem de Nossa Senhora consigo em sua nau, para juntar-se às forças da Santa Liga, que venceram os muçulmanos na Batalha de Lepanto.
.
Histórica vitória da Virgem

A imagem2 foi talhada em madeira no início do século XVI. Cedida pelos Duques de Gor, passou a pertencer à Arquiconfraria de Nossa Senhora do Rosário em Granada a partir de 1552. Nessa época, seu tamanho era menor do que se apresenta agora, e não possuía o vestido de prata a que nos referimos acima.

Em 1571, o granadino D. Álvaro Bazán, Marquês de Santa Cruz, resolveu levá-la consigo em sua nau, para juntar-se às forças da Santa Liga. Foi esta a coligação que, por iniciativa do Papa São Pio V, reuniu as frotas navais da Espanha, Veneza e Estados Pontifícios, com o objetivo de eliminar a temível armada turco-otomana que ameaçava toda a Cristandade.

Em 7 de outubro do mesmo ano, nos mares da Grécia, as forças católicas e muçulmanas se digladiaram na famosa Batalha de Lepanto. Um curioso detalhe do desenrolar do confronto naquele dia revela uma como que ação direta da Santíssima Virgem. D. Álvaro Bazán, que levava em seu navio a imagem de Nossa Senhora de Granada, recebeu a missão de comandar as forças de reserva. Sua frota, constituída de algumas dezenas de galés, permanecia atrás da linha principal da esquadra católica, enviando socorro quando a pressão dos inimigos fazia fraquejar as embarcações aliadas. Ao menos três vezes durante a luta, as reservas de D. Álvaro evitaram a derrocada da Santa Liga.

Dir-se-ia que Nossa Senhora atuava ali também, como um astuto comandante, observando atentamente as manobras da batalha, e enviando sua preciosa ajuda nas horas mais desesperadoras. Mas restava um último lance da Virgem. Mesmo com todos os esforços dos soldados da Cruz, as hostes turcas avançavam. Só uma coisa as deteve: no fragor do embate, os infiéis viram no céu uma Senhora com ar ameaçador, segurando um menino nos braços. Aparentemente, Nossa Senhora fez sua imagem de Granada transfigurar-se em forma viva. Ela disse então um basta aos muçulmanos, e em pessoa deu a vitória aos católicos. Os turcos se desesperaram, uns fugiram, outros pereceram no mar.

Desde a vitória em Lepanto, a devoção a Nossa Senhora de Granada não parou de crescer. No início do século XVII, após uma restauração, sua imagem foi reconstituída no tamanho humano natural. Além do traje perpétuo feito de prata, recebeu então inúmeros mantos e roupas que lhe foram doados. Esses vestidos permanecem hoje num anexo à Igreja de São Domingos, no chamado Camarim de Nossa Senhora. Por isso podemos contemplá-la em variados trajes e ornatos, dependendo das diversas festas e solenidades do ano.

Represenatção do entrechoque das naus capitânias durante a Batalha de Lepanto

Milagres e prodígios

A Santíssima Virgem, após se mostrar terrível aos inimigos de Deus, quis também evidenciar sua misericórdia para com seus filhos.

Em 1670, um fato extraordinário ocorreu. No dia 6 de abril, Domingo da Ressurreição, duas camareiras, Ana de San Pedro Mártir e Juana de Santo Domingo, preparavam a imagem para a procissão e notaram que seu rosto havia mudado. Transpirava, e algumas lágrimas lhe caíam dos olhos. O prior e autoridades seculares também contemplaram o prodígio, que durou por volta de 32 horas. O Arcebispo de Granada, D. Santiago Escolano, abriu um processo canônico, o qual foi concluído com uma investigação minuciosa e a declaração formal de que o fenômeno havia acontecido de modo sobrenatural.

O motivo das lágrimas só se explicaria nove anos depois, em 1679. Uma assustadora peste alastrava-se por toda região da Andaluzia, e já se fazia sentir em Granada. A Mãe Celeste havia antecipado o sofrimento dos filhos, e por isso tinha chorado de tristeza.

Mas Ela também já preparava a salvação. No mês de maio daquele ano, organizaram-se orações públicas diante da imagem. Passados dois dias, estando a igreja cheia de fiéis, “todos viram com admiração, na fronte da santa imagem, brilhar uma luz extraordinária como uma estrela, cujos raios resplandeciam em cores de prata, verde e dourada, imitando as cores do arco-íris”.

A cidade inteira se mobilizou para contemplar o chamado “Milagre da Estrela” [desenho ao lado], o qual durou 60 dias! Durante esse período houve uma sucessão de prodígios: conversões de toda ordem; uma mulher cega recuperou a vista; outra, a audição; ainda outra, já desenganada, teve a saúde completamente restabelecida. E o mais importante: logo veio o fim da peste, oficialmente declarada extinta em 6 de outubro, durante a novena da Festa do Rosário.

Novo processo canônico foi instaurado. Após 38 testemunhos de escultores, pintores e teólogos, o Arcebispo Alonso Bernardo de los Ríos y Guzmán declarou “ser milagrosa a dita luz e estrela, por exceder as forças naturais na maneira como foi vista. Todas as circunstâncias concorrem para ter o fato como milagroso. Assim o atribuímos a um milagre de Deus Nosso Senhor e o aprovamos e declaramos como tal”.

Vemos, portanto, que tudo na magnífica imagem da Virgem de Granada está perfeitamente fundamentado em fatos e circunstâncias comprovadas. Nada há de exagerado nela.

O cume da glorificação de Nossa Senhora do Rosário de Granada se deu no ano de 1961. Mais de 100 mil fiéis presenciaram sua solene Coroação Canônica, oficiada pelo Arcebispo D. Rafael García y García de Castro. Além disso, o governo espanhol concedeu à imagem a honra máxima de Capitão-General da Armada Espanhola.

Neste mês de outubro comemoramos 448 anos da vitória de Nossa Senhora em Lepanto. Fica-nos a certeza de que Ela, de novo, triunfará. Desta vez, não apenas sobre os turcos infiéis, mas sobre toda a impiedade de nossos dias.
_______________
Notas
1 Vídeo da procissão: https://youtu.be/Tw9IedR9Ay8
2  As informações sobre a Imagem foram extraídas da página: archicofradiarosariocoronada.blogspot.com/


* * *

ITABUNA CENTENÁRIA, UM SONETO: Chocolate quente – Oscar Benício dos Santos


Chocolate Quente
Oscar Benício dos Santos


Noite triste, úmida, frígida,
solitário, sozinho na fazenda
sem o calor d’uma parte pudenda;
noite interminável, fria, indormida. 

Noite pelo notívago vivida,
que é pro boêmio viandada senda,
para mim, é solidão e vivenda
d’uma criatura só e esquecida. 

Noite que abriga sonhos e sombra,
que me fascina, mas também assombra,
torna-se em mim mais fria, triste, inclemente, 

sem um abraço ou afago duma mão,
por pessoa chegada ao meu coração.
Resta-me só – um chocolate quente!


Oscar Benício dos Santos
*08/12/1926 - +18/02/2019
Faz. Guanabara,
Junho de 2010.



* * *