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quarta-feira, 14 de junho de 2017

CORAÇÃO EM PAZ - Gloria Wendroff

Coração em paz


Se teu coração fosse um oceano, que tipo de oceano gostarias que ele fosse? Agitado, tumultuoso? Tranquilo, sereno?
Conscientemente escolherias o oceano tranquilo, um oceano ideal para um veleiro, suavemente ondulado pela brisa. Não escolherias um oceano tempestuoso, um furacão, um tufão, um ciclone, um redemoinho no mar.

Sabes muito bem que escolherias um oceano calmo. Entretanto, amado, o que tens escolhido com mais frequência? Um coração turbulento.

Quantas vezes por semana te agarras ao teu coração? Quantas vezes por semana ele desaba? Quem é que escolhe para onde teu coração vai?

Mesmo em mares turbulentos, manterias teu equilíbrio. Mas, com teu coração  deixas que aconteça qualquer coisa, que ele vá para qualquer lado; para cima, para baixo, para a extrema esquerda, para a extrema direita, para frente e para trás, deste jeito ou daquele jeito… Fazes uma tormenta do teu coração, mesmo quando ele está seguro no porto.

Teu coração não precisa ser selvagem. Teu coração não precisa ser uma “ópera de sabão”, uma telenovela. Teu coração não precisa ser um navio na tormenta. 

Tem pena do teu coração, e deixa que ele enfrente a vida com calma. Não há nenhuma necessidade de destruíres teu coração. Dizes que queres paz, entretanto o que tens vivido?

Mesmo quando há uma tempestade na vida, não precisas maltratar teu coração. Corações são feitos para o amor, não para perturbação. Corações são destinados a velejar suavemente pela vida. Faz as pazes com teu coração. 

Se teu coração fosse um navio, nem sempre o navegarias a todo vapor. Serias um proprietário mais amável; permitirias que teu coração tivesse momentos de descanso. Sê um mestre gentil para o teu coração. Não o faças passar por acessos de raiva. Sê agradável ao teu coração.

Diga ao teu amigo fiel: Calma, calma, coração. Não precisas viver numa tempestade; fica em águas tranquilas. Providenciarei para que descanses de atividades horríveis. Sou grato a ti. Bates por mim tantas vezes a cada minuto; entretanto, podes tomar fôlego entre uma batida e outra.

Vou afrouxar as rédeas e deixar que caminhes numa pulsação tranquila. Isto é o mínimo que posso fazer por ti. 

Não te farei trabalhar tão duro de agora em diante. Vou te conduzir às águas serenas. Vou te mostrar como remar ao longo da vida como se estivesses numa canoa sobre águas cantantes.

Vou acalmar-te e abençoar-te. Permitirei que vivas em paz e tranquilidade. Não vou mais aborrecer-te. Seja o que for que aconteça, não vou mais chicotear-te.

Não vou deixar-te irritado, nem acelerado nem aborrecido. Deixarei que sejas o coração que Deus me deu; não vou mais permitir que te agites.

Peço que me desculpes, meu coração, por toda perturbação que tenho causado a ti. Tens sido um coração bom, fiel e esforçado, e não mais o farei trabalhar tão duro. De agora em diante, vou ser uma bênção para ti.

Nós – eu e tu, querido coração – velejaremos para cima e para baixo pelos Altos Mares do Amor, e isto é o que nos ocupará.

Ouço tua batida, meu coração, e ela é firme e uniforme. Obrigado por permaneceres junto a mim e por me mostrares como suavizar as ondas da vida.
Faz as pazes com teu coração.


 Gloria Wendroff


Enviado por: " Gotas de Crystal" <gotasdecrystal@gmail.com>

* * *

JUNHO – MÊS DE MACHADO DE ASSIS (VIII)

1888
19 de maio
Bons Dias!



Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. 

Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

Nesse jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (coupe do milieu, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia a que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembéia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
— Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que...

— Oh! meu senhô! Fico.

— Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente. Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...

— Artura não qué dizê nada, não, senhô...

— Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

— Eu vaio um galo, sim, senhô.

— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.

O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes de abolição legal, já eu em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo, tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposição) é então professor de filosofia no Rio das Cobras: que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.

Boas noites
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terça-feira, 13 de junho de 2017

JUNHO - MÊS DE MACHADO DE ASSIS (VII)

Visio  
 (1864)

Eras pálida. E os cabelos,
Aéreos, soltos novelos,
Sobre as espáduas caíam
Os olhos meio-cerrados
De volúpia e de ternura
Entre lágrimas luziam
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiram

Depois, naquele delírio,
Suave, doce martírio
De pouquíssimos instantes
Os teus lábios sequiosos,
Frios trêmulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes

Depois... Depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquele sonho desperto,
Olhei... silêncio de morte
Respirava a natureza —
Era a terra, era o deserto,
Fora-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.

Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira;
Tu e o teu olhar ardente,
Lábios trêmulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e veemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a fantasia doente.

E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquele sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indiferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a imagem do passado.

Foi, sim, mas visão apenas;
Daquelas visões amenas
Que à mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes:
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raízes.

Inda assim, embora sonho,
Mas sonho doce e risonho,
Desse-me Deus que fingida
Tivesse aquela ventura
Noite por noite, hora a hora, 
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora,
Chorara de agradecida!


(CRISÁLIDAS)
Machado de Assis

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MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

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DIÁRIO DE VIAGEM - Francisco Benício dos Santos (4)

BORDO DO PEDRO II
4º DIA


O Rio está à vista.
O cenário empolgante da linda baía de Guanabara deixa-me em êxtase.

O sol espancando e avermelhando os altos picos com as nuanças coloridas do seu aparecimento, faz pouco a pouco aparecerem os contornos das montanhas faladas e afamadas.

 O Cristo do seu pedestal de milênios abraça as nuvens e como que querendo esmagar o sol que lhe despe a camisa de brumas numa irreverência incrível.

O gigante deitado desperta e esfrega os olhos embaciados com a neblina, como que espreguiçando-se.

Navios da esquadra como que imensos monstros marinhos arregalam brilhantes olhos que ofuscam o “Pedro II”, o qual mansamente, bravamente, vai transpondo a barra por entre as  duas fortalezas velhas e históricas.

A baía está coalhada de embarcações de todos os portes.

A Ilha das Cobras, como pequena casinha de bonecas, lá está bonitinha e mignon.

Barcas de Niterói passam velozes e cheias, superlotadas.

Silvo de rebocadores das fábricas e o bulício da cidade que vai despertando. O navio lança os dois possantes ferros.

Visitas protocolares e maçantes: da  saúde, da imprensa, da polícia, de não sei que mais.

Mansamente o transatlântico suspende as âncoras e vai se aproximando do primeiro armazém no cais Mauá.

Os conhecimentos adquiridos à bordo desaparecem como surgiram.

Saltamos.

Aguardam-me emissários dos correspondentes de Castro C. que me conduzem gentil e gratuitamente ao hotel.

Novo ambiente, novas emoções, novos personagens.

Visitas de praxe, aos monumentos e aos logradouros públicos, aos centros culturais, aos centros educacionais.

Ministério do Exterior:
Passaporte, carta de apresentação ao pessoal das delegações de Montevidéu e Buenos Aires.

Pasta de ordem contra o Banco do Brasil sobre Montevidéu, Buenos Aires, Valparaíso, Lima, México...

Cartas de apresentação de Castro C. para seus correspondentes em Montevidéu e Buenos Aires.

Visitas ao Teatro Municipal, Biblioteca Pública, Jardim Botânico, Belas Artes, Museu Nacional...


(AQUARELAS E RECORDAÇÕES Capítulo XXII)

Francisco Benício dos Santos.

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LAFAYETTE DE BORBOREMA UMA VIDA, UM IDEAL - Helena Borborema

Prefácio  do livro Lafayette de Borborema UMA VIDA, UM IDEAL, de Helena Borborema


          Não foi somente em ordem cronológica o primeiro advogado de Itabuna. Na galeria dos valores profissionais de seu tempo, Lafayette de Borborema – pela inteligência arguta e criativa, pela lhaneza de trato, pela probidade pessoal, pela cultura pragmaticamente aliada a uma sutil e surpreendente perspicácia, a uma luminosa e sensível intuição dos fatos jurídicos – situava-se como dos mais brilhantes, dos mais eminentes, dos mais destacados.

            Distinguido com o calor humano da sua dileta amizade pessoal, pude conhecer também a outra face, a outra dimensão da sua vida privada, perceptivelmente estruturada com os valores cristãos da simplicidade, da humildade e, até mesmo, de um quase estoico despojamento de vida interior. Valores evangélicos, sem dúvida, que, aos olhos de Deus, não só configuram a personalidade divinizada dos santos, mas forjam também, modelam a figura plenamente humanizada do verdadeiro homem. Do homem autêntico, crístico, vertical, ético. Homens, que no plano dinâmico da experiência existencial, apesar das amplas limitações imanentes à sua própria condição humana, afirmam-se, projetam-se, atingem o cimo luminoso da emérita dignidade – a grandeza transverberante da suprema plenitude do ser. Do ser contingente, finito, maravilhosamente criado, por um incontido transbordamento de amor, à imagem e semelhança do Criador Infinito.

            Esse o Lafayette da minha visão pessoal, da minha lembrança indelével. O que sabendo viver com alegria pôde, por isso mesmo, morrer com a serenidade cordeira de um justo.

            Salvador, 28 de março de 1984.


                                         Bartolomeu Brandão

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RAÍZES MEDIEVAIS EMERGEM NO MOMENTO ELEITORAL FRANCÊS

Luis Dufaur (*)

Para obter votos o futuro presidente Macron  foi se fotografar na festa de Santa Joana d'Arc em Orleans


Pode parecer estranho, mas não é. Nas eleições nacionais francesas os principais candidatos apostaram corrida para ver quem se identificava mais com a heroína medieval Santa Joana d’Arc.

Nenhum deles é especialmente devoto, nem muito praticante, provavelmente só queriam o voto do eleitor.  Mas o que há na cabeça dos franceses para que ainda hoje o candidato se tornar presidente de uma República formalmente laica e agnóstica ele necessite mostrar-se também ligado ao passado sacral católico da França?

O jornais foram à procura de eminências do pensamento francês para achar uma explicação do fenômeno que, para ele, parece uma aberração.

François Huguenin, autor de As grandes figuras católicas da França respondeu: “Existe uma trama comum entre o cristianismo e a fundação da França. É impossível separar os fios da tapeçaria sem desmanchar tudo. O catolicismo é a matriz da França”.

No livro Deus escolheu a França, o professor auxiliar de História Camille Pascal concorda que o singular é que isso acontece no fundo das cabeças de muitos presidentes, até mesmo socialistas, que da língua para fora não querem saber de religião.

Rémi Brague, historiador de filosofia medieval, foi aprofundar-se no catarismo, heresia do sul da França no século XIV explica: “Em nosso país, jamais existiu uma situação na qual a política não teve alguma dimensão religiosa e vice-versa”.

E acrescenta: foi a Revolução Protestante! Do tronco a religião protestante nasceu o Iluminismo racionalista que sabotou os fundamentos da monarquia até derrubá-la e implantar uma República laica, ateia, que muda segundo o capricho dos homens. Nicolas Le Roux, secretário geral da Associação dos Historiadores Modernistas diz que no povo francês, “o reino era visto como um corpo, imagem do Corpo Místico da Igreja. O rei era a cabeça desse corpo político e social. Por meio do convívio social, das festas, das procissões, das missas, se atingia a salvação. Deixar de ir à Missa, quebrar as imagens de Nossa Senhora, cantar os salmos em francês punha em perigo essa vida em comum, a salvação de todos”.

A contribuição religiosa do Islã foi nula e fonte de guerra constante. O historiador de filosofia medieval árabe e judia, Rémi Brague, fala com clareza : “Não, o islã não contribuiu para nossa história. Os saqueadores árabes e berberes que vieram até Poitiers só tinham o Corão numa mão e a cimitarra na outra. Eles vieram para pilhar”.

Hoje essas tendências subterrâneas carregadas de alta tensão voltam a se chocar.  E Nicolas Le Roux conclui: “O verdadeiro problema continua sendo que os modelos de Estado católico-monárquico e laico-republicano não são capazes de coabitar. Essa é a questão que se punha no século XVI e que se põe hoje”.

          ( * ) Luis Dufaur é escritor, jornalista, conferencista de política internacional e colaborador da ABIM


Fonte: Agência Boa Imprensa – (ABIM)

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INSUBSTITUÍVEL – Mírian Warttusch

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Insubstituível


Seria alguém, no mundo, insubstituível?
Julgam alguns, que isto é bem possível.
Cada um de nós, entanto, tenho eu certeza
Não será jamais substituído em sua natureza.

Substituir o que somos, em nossa pura essência?
Impossível, direi eu, pois nessa improcedência,
Seria negar a própria vida, ao nosso Criador,
Que nos fez nascer “únicos” com todo Seu amor.

Podemos ter sim, uns dons até que parecidos,
Mas o modo de fazer, aqui, em nós nascido,
Jamais alguém fará igual... e se o fizer,
É plágio... pode processar se se tornar mister.


Mírian Warttusch

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