Em 1930, alguns dias após a vitória da revolução, houve em
Itabuna uma reunião na sede da Sociedade Montepio dos Artistas para se tratar
de assuntos relativos aos preenchimentos dos cargos públicos, abandonados pelos
seus titulares.
A esta reunião compareceram
os representantes de todas as classes, autoridades militares e também um
contingente de atiradores do tiro de guerra 500 de ilhéus, sob o comando do
tenente Astor Badaró.
No decorrer da reunião,
surgiram algumas discussões acaloradas, com os ânimos um pouco exaltados.
Justamente numa destas ocasiões, um dos atiradores notando que o seu fuzil
estava com o ferrolho aberto tratou de consertá-lo, sendo que para isso teve de
fazer a devida manobra. Ouvindo o barulho característico da manobra do fuzil, o
tenente Astor, inadvertidamente, apitou para pedir atenção. foi o bastante para
se estabelecer o pânico no apertado salão do Montepio, sendo inteiramente
impossível evitar-se a debandada dos que ali se encontravam.
Apavorados, enquanto uns
tratavam de sair pelos fundos, galgando os muros e os telhados das casas que
davam para a Avenida Sete de Setembro, outros tentavam sair pela frente.
Logo na entrada do salão,
existia uma grande vitrine, com algumas selas em exposição, obra do artista
seleiro José Cupertino de Sousa Gomes. Com o atropelo, os vidros dessa vitrine
foram os primeiros que se quebraram, causando ferimentos em alguns.
Entretanto, um dos
apavorados, na carreira em que vinha, entrou pela vitrina adentro, julgando que
a mesma fosse a porta de saída. Neste exato momento, uma das selas lhe caiu
sobre as costas e ele julgando que fosse alguém que lhe estivesse embargando a
carreira, investiu forte carregando a sela nas costas até o meio da rua.
José Dantas de Andrade
Documentário Histórico Ilustrado de Itabuna – 1ª Edição -
1968
O cortejo
dos desesperados, uma leva de gatos pingados e mulambentos, calçados de sandália
de dedo de feira, arrasta-se conduzindo o defunto ladeira acima. Repousa no
caixão, olhos cerrados e boca em agonia, mais um garoto de 16 anos, apunhalado
a facadas na periferia de Itabuna. O velório, numa noite longa, é interrompido
vez ou outra por um choro em desconforto. A sensação de abandono sufoca o
ambiente, e flagra a ausência de qualquer autoridade pública – um delegado, o
prefeito, um promotor, um vereador, nada nem ninguém que ouça aquela história e
não a deixe esvair-se em vão.
Aquela
história termina em melancolia, como a de centenas de outras e codifica a
falência completa de organização social mínima. É o décimo sexto rapaz
assassinado, em menos de dois meses, na cidade que ostenta a macabra cifra de
mais violenta da Bahia – a Nigéria do Boko Haram é aqui. Um dilúvio ou uma bola
de fogo vinda de um céu com aquelas nuvens de fumaça enegrecida de campos de
concentração resolveriam a inação da classe média da outrora ‘capital do
cacau’: Itabuna precisa morrer de uma certa forma (na verdade, já está morta,
pois lidera o macabro ranking no Brasil com o maior índice de assassinato de
jovens em cidades com mais de 200 mil habitantes – a Bahia ocupa o posto de
segundo estado no país nesse ranking) para que as suas cinzas modelem um novo
começo, novas consciências – a frieza de conviver com índices de violência
atormentadores e se fechar num silêncio cúmplice é atitude de gente-defunta. A
violência se intensifica e se cronifica por incidir sobre as classes mais
desassistidas e periféricas, entregues à própria sorte.
A bola de
fogo poderia começar abatendo certeira, rápida e lancinante as ideias ensinadas
nos Departamentos de Direito e de Filosofia da UESC. Aliás, o governo do Estado
deveria interditar a UESC – ou lacrar aquilo ali, emulando o fechamento da
tampa do caixão de dezenas de jovens que morrem a faca, a bala, a marteladas.
Como é possível uma cidade estampar números obscenos de violência e uma
faculdade de Direito – lugar onde a noção de Justiça deve ser ensinada e
aprendida – sair impune? Para que serve investir tanto dinheiro público em um
ambiente narcisista e simbolicamente violento ele mesmo? Quando vociferam por
aqueles corredores a demagógica manutenção do “estado de direito”, “estado de
direito” é traduzido aqui como a manutenção dos privilégios da classe média
calculista no poder ali.
Se uma
universidade não consegue apresentar estudos e alternativas de políticas que
combatam aberrações como a violência, ela é defunta por si mesma, e já passou da
hora de ser enterrada junto com o banho de sangue com o qual lava as mãos e as
enxuga com seus currículos duvidosos. Desconfia-se, portanto, de que onde há
violência ou miséria, isso é ensinado e aprendido por gerações, e desconfia-se
de que a própria universidade eduque para a morte, já que ela não consegue
ensinar a conviver pacificamente ou a estabelecer discussões políticas mínimas
que combatam os problemas que suas comunidades pagam para ela ajudar a
resolver.
Sequências
de ocupantes daquela reitoria (a atual reitora aparece vestida de vermelho na
internet e maquiada na imprensa pedindo ao DNIT, socorro!, uma lombada em
frente à UESC) disputam a gestão da universidade sem ser capaz de escrever uma
linha sequer sobre os graves problemas da região. Não atuam como intelectuais.
Estão ali para ostentar seus carros, maquiagens, perfumes caros, e não
apresentam estratégias para refletir sobre o que quer que seja. A reitoria da
UESC deveria promover a criação de um núcleo permanente de estudos e pesquisas
sobre a violência na região. Estimular e obrigar sociólogos, pesquisadores do
direito, pedagogos, economistas, filósofos, cientistas políticos a responder
para a sociedade por que ganham salários públicos e se escondem em suas casas
de praia, no conforto de suas vidas vazias, deixando a sociedade assolada por
problemas sociais inadmissíveis, como a ausência de saneamento e a incidência
de violência há décadas.
Há décadas
Itabuna vive imersa em esgotos (o canal do São Caetano e o do bairro Santo
Antônio são dois exemplos horripilantes) como se fossem bocas com todos os
dentes podres. Carnes são vendidas a poucos metros de fezes naquelas feiras
livres – se as autoridades públicas abandonam as populações a comprar víveres
ao lado de fezes, isso estimula e justifica a violência numa outra ponta, já
que homens e mulheres vão devolver uns para os outros o que receberam. Os
investimentos públicos que conseguem escapar da gatunagem do superfaturamento e
da corrupção se concentram nos bairros do centro e da classe média. A reforma
da Avenida do Cinquentenário – rua central – e o calçamento de bairros como o
Jardim Vitória (onde mora boa parte da gente rica) é prova da valorização dos
lugares dos endinheirados.
No ano de
2834, quando essa história for contada como ela de fato ocorreu, Itabuna será
lembrada como a cidade do esgoto e dos assassinatos abertos contra pretos
pobres da periferia. E suas memórias serão reconstruídas a partir das histórias
de diplomados funcionais em direito, economia, pedagogia e filosofia da UESC,
reconhecida, então, como a universidade que promovia a morte ou, no mínimo,
deixava a morte acontecer.
Braulino Pereira de Santana, doutor em Linguística pela UFBA
Poucos anos após inventar uma maneira de dirigir balões,
fazendo-os retornar ao ponto de partida, Santos Dumont decolou com o seu Demoiselle (“senhorita”),
o primeiro avião a sair do chão sem um empurrão. O dos Irmãos Wright foi
empurrado do chão para cima: através de uma catapulta; pelo interesse do
exército americano; financiado por empresários e incentivado pela propaganda
nacionalista cabotina.
Santos Dumont atuava com recursos próprios. Romântico,
voltou para o Brasil. Os Irmãos Wright, com espirito weberiano, apoio da mídia,
do governo e de empresários, criaram uma empresa. Seus descendentes fabricam
peças para aeronaves nos EUA.
Transcorrido um século, brasileiros continuam desacreditados
por parte expressiva da mídia, pelo espírito provinciano, comum entre nós
(“Fazer sucesso no Brasil é ofensa pessoal” — Tom Jobin) e principalmente pelo
governo que nos descapitaliza tomando o nosso dinheiro, com taxas e impostos
abusivos. Não adianta nossa criatividade e espirito empreendedor se não há
capital, e os juros sufocam.
O empresário nacional, mesmo o pequeno, tem que ter manha de
camelô: “um olho na esquina, outro no freguês”, ou melhor, um olho no governo e
o outro na empresa. Tamanha a burocracia, diversidade e instabilidade legal
vigentes. Em alguns casos, agentes do governo induzem o incauto a saltar
obstáculos legais (propinas), como a única maneira de continuar trabalhando.
A cultura antecede a política que prevalece sobre ela,
porque promulga as leis. Culturas diferentes propiciam diferentes políticas e
leis próprias.
Dizem os historiadores que a instituição da propina no
Brasil remonta ao tempo das Capitanias Hereditárias. A coisa aqui se fez tão
antiga, universal, volumosa e descarada, que acabou se tornando um monstro
perigoso para todo mundo, visto por outros países como expressão da deslealdade
comercial.
Uma empresa, ao se expandir, se torna responsável por mais
bocas dependentes do salário. O empresário que conhece a cultura local encara a
ação paralela (propina) como vital, e, assim, contrata consultores e cria um
departamento específico para agir com competência, consoante o ambiente.
Embora tenha uma boa formação, ele se torna condescendente
com o crime quando avalia o interesse pessoal, o da sua empresa e a
responsabilidade para com terceiros. Então filosofa: se a Cultura concebe a
Política, e os políticos fazem as Leis que nos convidam a transgredir, não há
risco. Não será abandonado, com tantas informações, em barco furado, no meio de
um oceano de denúncias.
Aconteceu!
Daí o interesse pelas oportunas palavras do empresário Eike
Batista ao embarcar para ser preso no Brasil: havendo culpa, pagar pelos erros
cometidos, apoiar a Operação Lava Jato e apostar que, daqui para frente, a relação
empresa-governo será diferente, transparente. Subliminarmente ele justificou as
delações e indicou que, como a Operação Lava Jato alcança os políticos, a
participação das empresas na nefasta rede de corrupção será esclarecida.
Empresas criam riquezas. Mesmo a elite chinesa, que ontem
“xingava” a Rússia de “revisionista”, percebeu que, sem formar uma classe
empresarial, não conseguiria sustentar o seu povo e se manter no poder. O
gigante chinês, deitado em berço esplêndido, compreendeu e cresceu.
Acorda Brasil! Punição aos criminosos, vida longa e saudável
para nossas empresas!
A primeira
escola de Itabuna, conforme informações de pessoas da família do Cel. Firmino
Alves, foi instalada na Burundanga, mantida pelo Cel. Firmino Alves e a
professora chamava-se Maria Rosa de Jesus e por ser muito corada tinha o
apelido de “Rosa Camarão”.
Entretanto a
primeira escola oficial desta localidade começou a funcionar em 1878, na então
Rua da Areia, ainda no tempo de Tabocas. Era mantida pelo município de Ilhéus e
o seu professor chamava-se José Marcelino Borges.
As primeiras
escolas públicas deste município foram criadas pelo Intendente Olinto Leone, em
1908, regidas pelos professores: Bel. Júlio Virgínio de Santana, Marieta
Galvão, Valentim da Costa Lima, Amália Ferreira Lorens e Rosa Guimarães de
Lima. Nessa época foram também criadas escolas municipais para as localidades
de Ferradas, Catulé e Feirinha. A professora de Ferradas foi D. Eutália Maria
de Oliveira, a de Catulé, D. América Magalhães e a de Feirinha, D. Joana
Bastos.
Em 1909,
começaram a funcionar duas escolas estaduais regidas pelas professoras:
Etelvina de Araújo Mendonça e Lúcia Oliveira.
Em 1910, já se registrava a existência de duas escolas
particulares das professoras: Maria do Carmo Ferreira e Maria Amália Bastos.
Em 29 de
setembro de 1915, foi fundado nesta cidade o primeiro colégio de curso
adiantado, sob a direção do Dr. José de Sá Nunes (notável filólogo brasileiro)
, Álvaro Passos e Euclides Dantas, com denominação de “Colégio Cabral”.
Em 1923,
outro colégio de curso superior foi fundado nesta cidade por iniciativa da
Sociedade São Vicente de Paulo, ou seja o Colégio São Vicente de Paulo, que
inicialmente esteve sob a direção do Cônego Amâncio Ramalho, passando depois a
ser dirigido pelas irmãs de caridade, com a denominação de “Colégio Divina
Providência”, transformando-se posteriormente em Ginásio.
De 1920 a
1930, surgiram alguns colégios particulares e outros mantidos pelas Sociedades:
Loja Maçônica e Montepio dos Artistas.
Entre os colégios particulares o mais importante foi o
dirigido pelo professor Américo Guimarães Costa.
Na falta de
outros registros aqui ficam os nomes dos professores que ministraram seus
ensinamentos aos primeiros filhos de Itabuna : Pe. André Costa, Brasília
Baraúna de Almeida, Sancha Galvão, Alzira Paim, Otaciana Pinto, Maria José
Capinã, Dalila Paganelli, Alice Ferreira, Emília Edith de Oliveira, Alice Pinto
Leite, Albertina Barbosa, Olga Leone Grego, Mathilde da Silva Pachaco, ,
Ewertom Chalup, Maria Celeste Mota, Antonieta Mariani, Leonor Pacheco, Maria
Paulina de Queiróz, Maria Sílvia de Queiróz Sampaio, Josefina Andrade, Edmundo
Belfort de São Luiz Saraiva, Nestor Fernandes Távora, Adolfo Silva, Jovino
França, Primitivo Alves Neves e América Freire (Ferradas), Albertina Oliveira
(Muntuns), Guilhermina Cabral (Macuco), Almerinda Barbosa, Maria José Borba
Toiurinho, Laura Rolemberg de Oliveira (Rua de Palha), Cecília Pinheiro e
Carmosina Conceição Costa (Ferradas), Júlia Guimarães Costa e Lindaura Brandão.
Representando a grande legião de professores dos diversos cursos:
primário, secundário e ginasial que atualmente (1968*) ministram seus
ensinamentos a milhares e milhares de alunos, ficam aqui registrados os nomes
dos seguintes: Plínio de Almeida, Antonio Lúcio Silva, Flávio Simões, Raimundo
Machado, Litza de Carvalho Câmera, Rita de Almeida Fontes, Tereza Gomes
Ribeiro, Hermita Santos, Geny Miranda Bastos, Celina Braga Bacelar, Juliana L.
Caetano, Alonso Djalma, Walter Moreira e Nestor Passos.
(Documentário Histórico Ilustrado de Itabuna – 1ª Edição –
1968)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Vós sois o sal da terra.
Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais
nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre
um monte. Ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha,
mas sim num candeeiro, onde brilha para todos que estão na casa.
Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas
obras e louvem o vosso Pai que está nos céus.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe.
Julio Lancellotti:
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Sal e luz, presença que faz a
diferença
“Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo” (Mt
5,13-14)
O Evangelho de hoje (5º dom TC) vem imediatamente após a
proclamação das Bem-aventuranças. Isto quer dizer que aquelas e aqueles que
fazem das Bem-aventuranças o programa da sua vida, são chamados a uma
responsabilidade real e atual, ou seja, eles/elas não vão se tornar sal da
terra e luz do mundo no futuro, mas devem ser presença diferenciada no aqui e
agora, humanizando as relações e comprometendo-se com a vida mais justa e
plena.
Jesus diz: “Vós sois”; não diz “deveis ser”, ou
“tenhais que vos converter em...” “Sois”: expressão que se refere à existência
toda do(a) seguidor(a) de Jesus, em qualquer circunstância e tempo. Quem segue
a Jesus Cristo, afetado por seu chamado, torna-se plenamente convertido em sal
da terra e luz do mundo.
“Sal da terra…, luz do mundo”: muitas vezes estas duas
imagens foram entendidas em chave proselitista, de um modo sumamente atraente
para o ego e gratificante para a mente.
Ao ego lhe atrai sempre considerar-se em posse da verdade,
particularmente por dois motivos: porque isso lhe traz uma sensação de
segurança e porque lhe permite manter uma imagem de si “acima” daqueles que,
para ele, se encontram no erro. Ao ego lhe encanta ser “especial”, brilhar,
aparecer... Ao ego lhe encanta que o reconheçam como “sal” e como “luz”, já que
ele não busca outra coisa a não ser sentir-se reconhecido a qualquer preço.
Se permanecermos no clima das bem-aventuranças, cairemos na
conta que a pessoa que é chamada a ser sal e luz não sai publicando por aí; ela
é sal e luz não por suas ideias, doutrinas ou normas morais que busca impor aos
outros, mas por ela mesma, por aquilo que ela é em sua interioridade.
Concretamente, é “sal” aquela pessoa que nos ajuda a
saborear a vida com mais profundidade, porque seu gosto por viver nos contagia
e nos apoia para que possamos experimentar isso também. É “luz” porque, com sua
presença amorosa, dissipa nossas obscuridades e facilita que percebamos o
sentido luminoso de nossa existência, de nossa verdadeira identidade.
Ser “luz” e “sal”, portanto, é o mais radicalmente oposto a
qualquer atitude de superioridade e de proselitismo. Nem a vaidade, nem o
fanatismo trazem sabor e luz.
A vida de Jesus aparece como “sal” e como “luz” pelo que Ele
era e vivia. Sua mensagem era sumamente simples, centrada no compromisso com
todos e numa presença compassiva; afinal de contas, “sal” e “luz” é outro nome
da compaixão. Jesus despertou um movimento humanizador, carregado de sabor e
iluminação, afetando a todos que d’Ele se aproximavam. Ele não estava
preocupado em fazer proselitismo, nem anunciar uma nova religião, uma doutrina
mais palatável... Sua presença desvelava a luz e o sal presente em toda e qualquer
pessoa.
«Vós sois o sal da terra…” “Vós sois a luz do
mundo…”: constitui uma das afirmações evangélicas mais claras de
que a missão dos seguidores de Jesus no mundo faz parte de sua própria
identidade. Duas pequenas imagens ou afirmações para duas grandes atitudes.
As imagens do sal e da luz servem também de apoio para
justificar duas formas diferentes de presença e de ação no mundo. A referência
ao sal remete a uma ação invisível, pois concebe a presença dos cristãos no
mundo sob a forma da encarnação, a presença silenciosa na realidade, a inserção
na sociedade, deixando atuar, pelo testemunho de cada um, a força do evangelho
que, como a semente, uma vez semeada, germina no campo, de dia e de noite, sem
que o semeador perceba.
O específico da luz, por outro lado, é brilhar, ou seja,
esta imagem realça uma forma de presença visível, através das ações
comunicativas e, especialmente, do anúncio explícito, como meios para fazer
chegar o evangelho ao mundo no qual o cristão é chamado a ser presença
diferenciada.
De acordo com o texto, as formas de presença significadas
pela luz e pelo sal são, as duas, inseparáveis. São duas formas de presença no
mundo; duas formas de exercício da missão, de um modo de proceder que se dá por
“contágio ativo”, caracterizado pela hospitalidade, o amor mútuo, a caridade
para com os pobres, a alegria contagiante...
O símbolo da luz é ainda mais rico do que o do sal: a luz
ilumina, aquece, guia, agrega, tranquiliza, reconforta. A Luz é força
fecundante, princípio ativo, condição indispensável para que haja vida. Tem
capacidade de purificar e regenerar. Em oposição às trevas, a Luz exalta o que
belo, bom e verdadeiro.
Vivemos imersos num oceano de luz; carregamos dentro a força
da luz. Ela sempre está aí, disponível; basta abrir-nos a ela com a disposição
de acolhê-la e de fazer as transformações que ela inspira.
Pelo fato de ser benfazeja e criadora, a luz nos permite
dizer com o poeta Thiago de Mello, no meio de impasses, ameaças e conflitos que
pesam sobre nossa vida: “Faz escuro, mas eu canto”.
Há aqueles que, ao invés de serem presenças iluminadoras,
estão mais preocupados em subir e ocupar a posição do candeeiro, para aparecer,
para se colocar acima dos outros, serem vistos e elogiados pelas pessoas. Quem
aspira estar no candeeiro revela não ter luz para iluminar os outros, mas uma
luz auto-referente. O candeeiro não é para que os vejam; o candeeiro é para que
a luz de suas vidas se expanda e ilumine melhor; o candeeiro não é para que
estejam mais altos, mas é para que a luz de suas vidas chegue a lugares mais
distantes.
O ser humano é luz quando expande seu verdadeiro ser, ou
seja, quando transcende e vai mais além, desbloqueando as ricas possibilidades
de humanidade. A luz, por si mesma, é expansiva.
Um fotógrafo profissional fez a seguinte afirmação: “minha
profissão é escrever com a luz; muitos escrevem com letras, eu com a luz”. As
fotografias dependem de como a pessoa administra a luz.
Uma preciosa motivação a buscar a luz dentro de nós mesmos,
a buscar esse “retrato interior” que é movido a se expor diante dos olhares dos
outros. Nossa vida pode ser apaixonante se a contemplamos e a construímos como
um diálogo de vida e de luz.
O salmista utilizará um registro parecido, contemplando
nosso espaço interior como uma fonte de luzes; uma fonte que deixa transparecer
aquela Luz profunda que nos leva por caminhos de paz e serenidade:
“Pois em Ti está a Fonte da vida e à tua Luz vemos a luz”
(Sl 36,10).
Deixemo-nos iluminar pela Luz de Deus, levemos a Luz nas
nossas pobres e frágeis mãos, iluminando os recantos do nosso cotidiano.
Somos uma “sarça ardente” diante dos outros, consumindo-nos
constantemente, no humilde serviço; somos uma lamparina humilde, brilhando na
janela da nossa pobre casa, indicando aos outros o caminho da segurança e do
aconchego.
Texto bíblico: Mt 5,13-16
Na oração: Sinto-me uma lâmpada com a responsabilidade de
iluminar no meio da sociedade?
- Quê atitudes e comportamentos meus projetam luz para
potenciar a tímida luz presente no outro?
- E quais projetam sombras, para poder erradicá-las? Na
família, no trabalho, na comunidade cristã?
- Estou integrado ou devo integrar-me em alguma comunidade,
grupo ou movimento eclesial, para ser luz coletivamente? A quê
compromissos concretos o Espírito me impulsiona pessoalmente e à nossa
comunidade para ser luz em nosso entorno?