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domingo, 31 de outubro de 2021

DRUMMOND PERMANENTE – Cyro de Mattos



Drummond Permanente

Cyro de Mattos

 

Em meu ouvido um pássaro

nos instantes de tudo canta

teu diálogo com o mundo

como oferendas do amor.

Quantas vezes solitário

não mundo solidário me tens? 

Por entre gestos cotidianos

dos eventos nesta rosa emergem

teus acentos feitos de espantos.

Ora canto do homem do povo,

ora aquele quadro na parede,

sinais, expressões do tempo,

fome de situações patéticas.

Vejam isto, dizendo que tropeço

numa pedra no meio do caminho.

Ó de Itabira, se bem procuro,

afinal termino encontrando

não a explicação (relativa)

da vida, apenas a beleza,

sem explicação, da poesia.

Submeto-me nesse dilema

que me fere com os passos  

do vento na hora do enigma   

deixando que eu vá inquieto.

Nas contradições e dúvidas

entre o efêmero à margem

sei da vida que não é vã,

tua lírica em nós perdura

no verbo com engenho e arte

esse cheiro de cada manhã.

 

Cyro de Mattos - Escritor e poeta. Autor de mais de 50 livros pessoais, de diversos gêneros. Editado também no exterior. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.


* * *

segunda-feira, 29 de março de 2021

DEGRAUS DE LUZ, Por Sonia Argon



 

Degraus de Luz  

 

Se não pudermos ser Frutos para nutrir a Terra,

Que possamos ser Sementes.

Se não pudermos ser Flores para enfeitar as janelas,

Que possamos ser Vasos.

Se não pudermos ser Canção para embalar os sonhos,

Que possamos ser Silêncio.

Se não pudermos ser Discurso para encorajar os corações,

Que possamos ser Escuta.

Que tenhamos um Sorriso doce,

Quando faltar Esperança.

Que tenhamos um Olhar sereno,

Quando faltar Doçura.

Que tenhamos uma Palavra terna,

Quando faltar Companhia.

Se não pudermos ter a Segurança da terra firme,

Que possamos ter a Singeleza do grão de areia.

Se não pudermos ter a Valentia do vento,

Que possamos ter a Suavidade da brisa.

Se não pudermos ter a Força dos mares,

Que possamos ter a Simplicidade de uma gota d’água.

Que não almejemos ser estrelas,

mas que possamos ser a menor centelha de luz a iluminar a escuridão.

Que não precisemos fazer grandes Obras, 

mas que consigamos ser uma pequena onda de calor a dissipar a Solidão.

Que não intencionemos fazer Sucesso, mas que tentemos plantar 

uma minúscula partícula de Esperança em cada Coração.

Se não pudermos ser Elogio sem restrição,

que possamos ser Paciência.

Se não pudermos ser Parceria sem questionamento,

que possamos ser Respeito.

Se não pudermos ser Atenção,

Que possamos ser Gentileza.

Se não pudermos ser Escada de transformação,

que possamos ser, apenas,

“Degraus de Luz”!



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Sonia Argon é Bacharel em Direito. Pós-Graduanda em Filosofia. Locutora, Roteirista e Narradora de Audiodescrição. Eterna Aluna de Canto! Atuou como Professora de Educação Infantil por longo período, em sua cidade natal, Petrópolis, situada na região serrana fluminense. Confessa ser encantada pela Comunicação e pelo enriquecimento proveniente da troca de ideias e da interação entre as pessoas. É Petropolitana de nascimento e alma, mas, pelo fato de viver na cidade do Rio de Janeiro há um bom tempo, já se considera Carioca de coração!

* * *

segunda-feira, 8 de março de 2021

MULHER – Maria Irene Frieza




MULHER

Maria Irene Frieza

 

 Mulher

Mãe presente 

Por vezes ausente

Tens que trabalhar 

Teus filhos amamentar... 

Mulher és força da natureza!

Por Ela foste escolhida...

Para pores no mundo a vida.

Por vezes és maltratada,

Como objeto utilizada...

Como mãe és sofredora 

És rocha quando é preciso...

Hoje desgastada, tua pele dilacerada!

Por vezes até, por quem te maltrata...

Mulher nunca te esqueças!

Das vidas que um dia em teu ventre,

Carregaste, com doçura as amaste...

Teu sorriso ilumina o mundo... 

Com esse teu amor tão profundo.

 

Maria Irene Frieza



Bom dia amizades! Como se comemora o dia da mulher, embora para mim, essa consciência deva estar presente todos os dias das nossas vidas e em todos os seres humanos, aqui vos deixo a contribuição, para lembrar o que ainda é muito esquecido

* * *

terça-feira, 2 de junho de 2020

SAÚNA - Catulo da Paixão Cearense



Saúna
Catulo da Paixão Cearense


A Albino Forjaz de Sampaio

De todas as fazendolas
que nos sertões conheci,
a do Monte da Espinhela
foi a Fazenda mais bela
e a mais alegre que eu vi.

O dono daquela joia,
o major Felix Lindóia,
tinha garbo em ser o tipo
da lealdade suprema.

Cavalheiroso e gentil,
era um filho do Brasil,
um brasileiro da gema.

No entanto o major Lindóia,
com alma sempre propensa
para o amor e a caridade,
era cego de nascença!

Delicado, mas austero,
na sua boca sanguínea
nunca um sorriso abrolhou!

E todos assim diziam
que se o major não sorria,
o major nunca chorou!

Constava a sua família
da mulher – dona Benvinda –
e de sua filha – a Beatriz.

Cego embora, esse homem santo
proclamava-se feliz.

No mundo cheio de escolhos,
que importa que Deus tivesse
lhe apagado a luz dos olhos?!

Os bigodinhos canoros,
os cebites, os cronquís,
os curiós, os bentevis
e os mais lindos cardeais,
faziam dos bambuais
os seus palcos de folhagens,
onde, a brincar nas ramagens,
ruflando as suas plumagens,
vinham dar seus recitais.

A olência dos benjoeiros,
o aroma dos cajueiros,
das odorosas limeiras,
das flóreas mexiriqueiras...
o perfume dos cajás,
a essência dos laranjais
e o cheiro verde do mato,
era uma luz que lhe entrava
pelos dois olhos do olfato.

Se não via com os seus olhos
a sua nédia boiada,
 a valente cavalhada
e os seus rebanhos luzidos,
pelos olhos dos ouvidos,
nas tardes harmoniosas
e nas manhãs extremosas,
enxergava a sinfonia
dos seus agrestes gemidos.

Não creio que Adão e Eva
no seu olimpo cheiroso
possuíssem mais cantores
do que os célebres tenores
daquele Éden verdoso.

A Fazenda tinha fama
pelo infindo panorama
dos horizontes azuis!

Naquelas florestas bravas,
em sua idade infantil,
numa tarde pastoril,
com certeza andou Jesus.

Naquele Éden formoso,
o major Felix Lindóia
era um feliz, um ditoso!

Numa noite eu e o major
estávamos palestrando
de coisas já repassadas
de um outro tempo melhor.
E como tinha a meu lado
um pinho bem afinado,
preludiando uns gemidos
nas cordas desse violão,
eu comecei a cantar
o meu Luar do Sertão.

Enquanto a voz derramava
por toda a amplidão sonora,
extasiado eu fitava,
(no encanto daquela hora...)
o doce e sublime encanto
do céu, que mais se estrelava
e até parecia o manto
azul de Nossa Senhora!

Pois bem: dolorosamente,
no fundo do coração,
sentindo a grande piedade
daquela infelicidade
de ele cego ter nascido,
carinhosa e bruscamente,
interrompendo a canção,
eu lhe disse, comovido:

“o senhor não faz ideia
deste cenário estrelado,
desta esplêndida epopeia
que estou contemplando agora,
vendo o céu, maravilhado,
pontilhado de amarelo,
aberto, como um flabelo,
na sua glória divina!”

E o major, em voz cadente,
olhando-me cegamente,
respondeu: “Não é mais belo
do que minh’alma imagina!”

E notando o meu silêncio,
acrescentou: “Continue,
que a sua canção à lua
é de um efeito estupendo!

Com os olhos do meu espírito,
vejo a beleza da noite,
como o senhor está vendo!...

O que eu não sei, meu amigo,
- assim me disse, sorrindo –
é se o senhor sente n’alma
o turbilhão de saudades,
que estou agora sentindo!!”

                        ***

Mas deixemos o major
e aquela noite tão bela,
e falemos de Saúna,
d’uma pequena cadela,
que era a imagem da desgraça
naquela rica Fazenda.

Entre os cachorros de raça,
a pobre era desprezada
por todos lá da vivenda.

Mártir, velha, escorraçada,
quase no extremo da vida,
andava sempre escondida,
e não morria esfomeada,
porque às vezes, lhe tocava
um frangalho de comida,
que a outro cão sobejava.

Diga, embora, uma heresia,
mas eu confesso que, um dia,
vendo os olhos de Saúna,
lembrei-me dos santos olhos
da Santa Virgem Maria!

A sua melancolia
era saudosa e macia,
como a sombra do luar!
Quanta dor, quanta poesia
e quanta filosofia
chorava naquele olhar.

A morte é sempre bondosa
com os deserdados da sorte!

Por isso é que eu acho a vida
muito mais misteriosa
e indecifrável que a morte.

Mas, suavizando os acúleos
de toda aquela paixão,
Saúna tinha a piedade
De um piedoso coração.

Entre os bichos prediletos
que o major mais estimava,
tinha o primeiro lugar
um papagaio faceiro,
que levava o dia inteiro
e a noite inteira a falar.

Tudo o que se lhe dizia,
coçando a rósea cabeça,
de pronto reproduzia.

Pois ouvi: o belo Louro,
o inestimável tesouro,
de pescoço todo de ouro
e o corpo de verde mar,
era o amigo singular
de Saúna, a cachorrinha,
que, inocente, se entretinha,
ouvindo-o tagarelar.

Quando, às vezes, lhe faltava
um osso para o jantar,
era belo, era sublime,
ver aquele papagaio,
como quem comete um crime,
às ocultas, lhe ofertar
alguns bocados gostosos
do seu gostoso manjar.

O Louro sabia o nome
de toda a raça canina,
e chamava, pela tarde,
os cachorros, um por um!...
Chamava todos por ordem,
sem se esquecer de nenhum!

Mas o nome de Saúna
era o que mais lhe sabia!
Pela manhã, de tardinha,
a todo o instante do dia,
aquele nome tão doce
vinte vezes proferia!

Mas diz um velho ditado:

“Não há mal que sempre dure,
nem bem que não tenha fim”.

Pois foi assim, foi assim,
que um dia a mártir leprosa,
desdentada, cancerosa,
os olhos tristes, fechou,
e, mais feliz, descansou!

Sim!... Foi Deus quem a levou!

Saúna foi encontrada
com a barriga toda inchada,
junto à porta do curral.

E morta, rígida e fria,
nos seus olhos inda eu lia
aquela filosofia
da dor irracional!

E só porque já fedia,
foi que o vaqueiro Zé Marco
enterrou a pobrezinha
ao pé d’um velho Pau d’Arco.

Pois bem: nesse mesmo dia
em que Saúna expirou,
(quem sabe?! Talvez de fome!...)
o bondoso papagaio
chamando pelo seu nome,
com aquela doce meiguice,
e me olhando de soslaio,
a cabecinha inclinou.

- Saúna morreu! – lhe disse.

- “Morreu?!” – ele perguntou!

E depois de eu repetir-lhe
esta palavra importante,
as suas penas ruflando,
pôs-se, alegre, assobiando
uns cantos sentimentais!

Mas, desde aquele momento,
pelo nome de Saúna
não chamou! Não chamou mais!!

Meu Deus!... Porque não fizeste
os homens irracionais...



POEMAS BRAVIOS
Catulo da Paixão Cearense
                
 * * * 





sábado, 11 de abril de 2020

SÚPLICA – Cyro e Mattos


Súplica
Cyro de Mattos




Se te pus nesse calvário,

 Coroei com cuspe e escárnio,

Ofendi com agudo cravo,

Nada me disse o teu sangue,

Não te vi olhando-me no alto,

Vesti com roxo o dia claro,

A mim atendei, ó pai
  
Derramai o teu perdão

No meu coração abandonado.



Cyro de Mattos escreve crônica, conto, poesia, ensaio e literatura infantojuvenil. Tem no prelo da Editus, editora da UESC, Nada Era Melhor, romance da infância, Pequenos Corações, contos, e O Discurso do Rio, poesia.


* * *

domingo, 3 de março de 2019

OSCAR BENÍCIO DOS SANTOS falando de amizade


  
Nem só a fé move montanha,
A amizade também o faz;
Principalmente se há paz
E nada mesmo a arranha.
Você que cultua o Perdão,
Fala pelo coração:
Perdoando, Deus a ganha!


(As entrelinhas falam mais que o texto vivo)

Oscar Benício dos Santos, 
Poeta
*1926 / +2019


* * *

domingo, 30 de dezembro de 2018

POEMA DE CYRO DE MATTOS FIXADO EM MONUMENTO AO MONSENHOR MOISÉS COUTO


“A gente se sente útil quando nosso fazer literário repercute nos outros”. (Cyro de Mattos).
Poema do Cyro de Mattos fixado no monumento que homenageia o monsenhor Moysés Couto, fundador da Santa Casa de Misericórdia de Itabuna /BA.


Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

* * *

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

FELIZ – Antonio Baracho


Feliz 

Para Helena Baracho (In memoriam)

Sinto-me feliz
Ao vê-la dizendo:
Eu te amo muito,
Meu filho,
Seja feliz, feliz, feliz...
Dádiva do céu,
Boníssima como a luz,
Que transluz,
Ergo-a perene
No pedestal dos mártires
E heroínas, majestosa
Como uma estrela,
Mas ainda vacilante
Na quintessência
Da sua amabilidade.
Na síntese  do seu olhar sublime,
Uma vida, com tantas vidas,
O querer ser útil
Para doar e ajudar
A todos que a cercam.
Por tudo isso, minha mãe,
Nesse momento,
Ainda sou pequeno,
Pra dizer que te amo.
   
                                             Antônio Baracho
Membro da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL), ocupante da cadeira nº 11.
E-mail: antoniobaracho@hotmail.com.


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