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sábado, 29 de outubro de 2016

A ESCRITA INSULAR_ AÇORES, REGIÃO HOMENAGEADA PELA 62ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE

Casas na Ilha Terceira
A escrita insular
Região homenageada pela 62ª Feira do Livro de Porto Alegre, o Arquipélago dos Açores guarda um passado e uma cultura cuja familiaridade aos porto-alegrenses transcende os livros de História.

Isolamento, melancolia e identidade. Questões de natureza pungente aproximam os povos gaúcho e açoriano. Região homenageada pela 62ª Feira do Livro de Porto Alegre, o Arquipélago dos Açores guarda um passado e uma cultura cuja familiaridade aos porto-alegrenses transcende os livros de História e atinge o caráter mais subjetivo de um povo. Lá, como cá, há preocupação com a identidade coletiva e a forma como ela diferencia esse povo mais isolado daquele que habita o grande centro (o Sudeste brasileiro aqui, o continente europeu lá).
A melancolia provocada pela insularidade açoriana, sentimento próximo do distanciamento cultural dos gaúchos em relação ao país localizado ao Norte do Rio Mampituba, convida à reflexão sobre seu lugar no mundo. Essa perspectiva, aliada a um isolamento forçado — geográfico para açorianos, cultural para os gaúchos —, cria uma visão de mundo que será celebrada na 62ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Monte Brasil em Angra do Heroísmo
Oito escritores açorianos integram a programação especial do evento e apresentam para o público gaúcho as tradicionais e as novas questões da literatura açoriana. Nuno Costa Santos, Madalena San-Bento, Urbano Bettencourt, Joel Neto, Vasco Pereira da Costa, Eduíno de Jesus, Francisco Cota Fagundes e Paula de Sousa Lima trazem consigo, além das histórias de sujeitos que emigraram e partiram para o mundo, o vigor da literatura açoriana. Autores que situam a moderna escrita do arquipélago num lugar de dinamismo e contemporaneidade, compromissado com as questões do sujeito e da literatura atual.
Diferentes editoras da Região mostrarão, ainda, o melhor da literatura açoriana que inclui alguns dos mais importantes nomes da cultura portuguesa, como Antero de Quental, Vitorino Nemésio e Natália Correia, entre outros. E diferentes momentos musicais, de dança e mostras, que decorrerão ao longo dos dias, trarão à 62ª Feira do Livro de Porto Alegre um pouco mais de outras dimensões da rica cultura açoriana.

Ilhéu Maria Vaz em Ponta Delgada
Novo velho destino
O Brasil inexiste na perspectiva migratória do açoriano contemporâneo, embora sejam muitos os movimentos, oficiais ou não, de aproximação às comunidades açorianas existentes no Sul do nosso país. Há um esforço permanente de resgate da História da geração que partiu para povoar tanto o Rio Grande do Sul no século XVIII quanto muitas outras regiões em diferentes épocas.
Esse movimento repete-se agora, em 2016. Na bagagem, a comitiva de escritores traz consigo as impressões de um povo que olha para si e para o mundo e tenta redescobrir sua identidade diante das novas fronteiras contemporâneas. O instrumento dessa redescoberta é a escrita. Pela escrita, Porto Alegre e os Açores se aproximam, se reconhecem e resgatam um vínculo nascido no século XVIII. A 62ª Feira do Livro de Porto Alegre é o território desse novo povoamento. Bem-vindo, Açores.

Ilhéus das Cabras e Angra do Heroísmo.
Saiba mais: Região Autônoma dos Açores
É um arquipélago formado por nove ilhas vulcânicas de perímetros distintos (Corvo, Flores, Faial, Pico, São Jorge, Graciosa, Terceira, São Miguel e Santa Maria) localizado no Atlântico Norte, entre 37º e 40º de latitude Norte e 25º e 31º de longitude Oeste — no meio do caminho entre o Velho e o Novo Mundo.
O governo descentralizado espalha-se por diferentes ilhas, tendo a sua sede na ilha de São Miguel, cidade de Ponta Delgada. A Assembleia Legislativa, com 57 deputados, situa-se na cidade da Horta, ilha do Faial, e a Diocese, com o Bispo das Ilhas dos Açores, tem a sua sede em Angra do Heroísmo, cidade patrimônio mundial, na ilha Terceira.
Oficialmente, o arquipélago foi descoberto em inícios do século XV e ainda nesse século começou a ser povoado por pequenos grupos de famílias provenientes de diferentes partes do Reino de Portugal, da Bretanha e Flandres, bem como, em menor número, de outros países europeus. Seus quase 250 mil habitantes desfrutam, hoje, de uma economia estável, um alto índice de desenvolvimento humano e de uma sociedade segura e igualitária. Os Açores são parte integrante também da União Europeia e a sua Autonomia Política e Legislativa celebra este ano o 40º aniversário da sua consagração na Constituição da República Portuguesa de 1976.
 
Fotos: visitazores.com e Governo dos Açores.


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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

CONHEÇA A OBRA DO MESTRE HM. - Kleber Galveas

Conheça a obra do mestre HM.

Homero Massena fez sua última exposição em 1968. Não havia nenhuma galeria no Espírito Santo. Ela aconteceu na entrada do Carlos Gomes. O teatro estava caindo aos pedaços. Uma reforma completa foi iniciada logo após, e Massena foi convidado a pintar o teto. Ele tinha 84 anos, subiu escadas íngremes altíssimas e retocou o seu trabalho. Após serem fixadas as dezoito placas de compensado naval, que havia pintado em Jucutuquara.
Massena revolucionou nossa pintura. Até 1951, data da inauguração da Escola de Belas Artes do ES, preponderava aqui a escola da Irmã Tereza Monteiro Novaes, no Colégio do Carmo. Ela estudou pintura com Carlos Reis em Vitória e com acadêmicos famosos no Rio. Foi mestra dedicada por mais de meio século. Com suas discípulas produziu obras para culto das igrejas católicas, eventos cívicos e decoração de residências. Iniciou centenas de capixabas na pintura. Uma dessas foi minha mãe, de quem tenho dois óleos de 1938. A Escola do Carmo era de maneiristas: o desenho bem acabado e as figuras representadas com contornos bem definidos recebiam a cor como complemento. Faziam, na verdade, belíssimos desenhos coloridos.
Na escola do Massena a pintura se liberta. O desenho continua a ser feito com rigor de perspectiva, claro–escuro, com definição de espaços e equilíbrio. Perde a sua função de contorno e ganha importância como estrutura, orientando a cor aplicada com pinceladas soltas, tintas diluídas, criando veladuras ricas em matizes. É a pintura com suas tintas cozinhadas na paleta e texturas representando a natureza dos materiais, o movimento, a luminosidade local e a emoção. Tudo isso com fatura (resultado pictórico) original e extrema economia de materiais, até no tema. Sua sensibilidade e habilidade nos coloca em comunhão com a natureza capixaba.
Impressionista ciente das transformações provocadas pela luz na forma e na cor dos objetos, certo de que o branco puro e o preto inexistem na natureza e de que a linha do horizonte é abstração, Massena pesquisa ao ar livre, ganhando dimensão como antropofágico. Digerida a técnica que absorveu nos grandes centros, como Rio e Paris, ele foi capaz de criar um estilo próprio e inconfundível, representando nossa natureza com elegância. O artista perenizou trechos da nossa terra, nossa gente, nossos costumes, e nos emociona. 
Massena viveu de 1885 a 1974. Assistiu ao nascimento da República e ao homem pisar na lua. Acompanhou a evolução dos transportes, do cavalo para os carrões e aviões; o aparecimento do radio, TV... Viu a interação entre sua obra e a arquitetura moderna quando Juscelino quis uma tela sua, para inaugurar o gabinete da presidência, no Palácio do Planalto.
Nós, capixabas, depositários da pintura mais antiga exposta nas Américas (Convento da Penha) e da pintura mais antiga feita no Brasil (Reis Magos em Nova Almeida), passamos a ter, com Massena, a sétima escola oficial de Belas Artes no Brasil, hoje, CA da Ufes.
Rever a sua obra, na hora em que acontecem profundas transformações na paisagem e no estilo de vida dos capixabas, pode nos proporcionar reflexões muito interessantes, para ajudarmos a construir o futuro. 
No dia 30 de outubro de 2016, o Museu Atelier Homero Massena completa 30 anos com portas abertas. Você é bem-vindo.


Kleber Galvêas, pintor. Tel. (27) 3244 7115 www.galveas.com outubro, 2016

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REMINISCÊNCIAS – Oscar Benício dos Santos

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Reminiscências


Agradáveis ou más reminiscências
são rosas da existência colhidas:
Umas – alegres, exalando essências! 
Outras – murchas, de pétalas despidas!

Flores amanhadas e recolhidas:
Lúgubres – como da dor o lamento!
Ou vivas – rosas, dálias, margaridas!
Benfazejas, se nos servem d’alento.

Pinçadas do passado pro presente:
alegrias, amores, decepções...
Flores sutis do jardim da mente,

cultivadas nos invernos e verões
da vida passada e assim ausente,
do presente, das nossas sensações!
 

Oscar Benício Dos Santos
Salvador, 28/ 10/ 03


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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

GERALDO CARNEIRO É ELEITO PARA A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

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Geraldo Carneiro foi eleito para a ABL (Foto: Globo News)

Ele ocupará a cadeira deixada pelo acadêmico e teatrólogo Sábato Magaldi. Dos 34 votos dos acadêmicos, o poeta recebeu 33.

Do G1 Rio
27/10/2016
O poeta, compositor e roteirista mineiro Geraldo Carneiro, de 64 anos, foi eleito na tarde desta quinta-feira (27) para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele ocupará a cadeira 24, que pertencia ao acadêmico e teatrólogo Sábato Magaldi. A eleição aconteceu na sede da instituição, no Centro do Rio. Dos 34 votos dos acadêmicos, o poeta recebeu 33, com uma abstenção.
“Estou muito feliz. Já havia uma expectativa pelo que os acadêmicos me disseram. Desde que soube, já estava muito feliz. Mas na hora que acontece é diferente. Vira realidade mesmo, deixa de ser promessa. Tenho muita admiração por vários acadêmicos, que guardo com muito respeito em minhas estantes. Agora terei a honra de consultá-los pessoalmente,” afirmou Geraldo.
Biografia
Geraldo Eduardo Ribeiro Carneiro nasceu em Belo Horizonte em 11 de junho de 1952. Ele começou a manifestar interesse pelas artes ainda jovem, influenciado pelos artistas que frequentaram a casa de seus pais.
Em 1968, iniciou uma parceria com o músico Egberto Gismonti que durou 12 anos e rendeu mais de 60 músicas. Ao longo da carreira, também foi parceiro de outros músicos, como Astor Piazolla, Tom Jobim, Wagner Tiso e Francis Hime.
Como escritor, Geraldo estreou na televisão em 1976, como colaborador do autor Bráulio Pedroso na minissérie “Parabéns pra você,” exibida pela TV Globo. Três anos depois começou a trabalhar na TV Manchete.
Em 1989, voltou à Globo e escreveu roteiros de especiais, seriados e novelas como a minissérie “O sorriso do lagarto”, “Terça Nobre”, e “Brasil Especial”.
No teatro, escreveu roteiros de peças de sucesso, como “Elas por ela,” estrelado por Marília Pêra, “Lola Moreno”, “Folias do coração” e “Apenas bons amigos”, em parceria com Miguel Falabella; A bandeira dos cinco mil réis e Manu Çaruê. Também assinou traduções de peças de Shakespeare como “A tempestade”.
É autor dos livros de poesia: “Em busca do Sete-Estrelo”, “Verão vagabundo”, “Piquenique em Xanadu”, “Pandemônio”, “Folias metafísicas”, “Por mares nunca dantes”, “Lira dos cinquent’anos” e “Balada do impostor”. Com Carlito Azevedo, lançou “Sonhos da insônia”, com a tradução de sonetos de William Shakespeare. Também publicou, em prosa, os livros “Vinícius de Moraes: a fala da paixão” e “Leblon: a crônica dos anos loucos”.
No cinema, assinou os roteiros dos filmes “Eternamente Pagu”, de Norma Bengell; e “O judeu”, escrito com Millôr Fernandes, Gilvan Pereira e o diretor do filme, Jom Tob Azulay.
Em 2011, recebeu o prêmio Emmy Internacional, pela adaptação de “O astro”, escrita no ano anterior, em parceria com Alcides Nogueira.
Dois anos depois, em 2013, publicou “O discurso do amor rasgado”, com traduções de poemas, fragmentos e cenas de Shakespeare, organizado em parceria com Ana Paula Pedro. O livro ficou entre os finalistas do Prêmio Jabuti.
Em 2014, escreve, para Juca de Oliveira, uma adaptação de “Rei Lear”, de Shakespeare. Nesse mesmo ano, 27 de seus poemas, traduzidos para o inglês por Charles Perrone, são publicados pela Machado de Assis Magazine, da Biblioteca Nacional.


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RETA FINAL DO FUTEBOL INTEREMPRESAS NA AABB ITABUNA

Itabuna e Buerarema fazem as semifinais do Citadino da AABB

Aragão Plásticos, Clínica COTEF e Drogarias Velanes, de Itabuna, mais Thumy Gás, de Buerarema, são as quatro equipes semifinalistas do XII Campeonato Citadino de Futebol MiniCampo da AABB Itabuna. Os jogos de ida são neste sábado (29) à tarde, com os seguintes encontros:
15h00 – Clínica COTEF x Drogarias Velanes
16h10 – Aragão Plásticos x Thumy Gás
Os jogos de volta, exatamente com os mesmos times e na mesma ordem, acontecem no sábado seguinte (05/11). Sempre nos campos de grama natural e grama sintética da AABB.
De acordo com o regulamento, não existe vantagem prévia (resultados iguais) para nenhum dos quatro times. Vale a soma dos resultados dos dois jogos. Persistindo o empate, não haverá prorrogação: a disputa vai direto para a cobrança de pênaltis, decidindo-se assim quem serão os finalistas. 
O Citadino é o maior campeonato entre empresas do sul da Bahia. Conta com jogadores que já disputaram vários campeonatos pelo País, inclusive por clubes da Série A (1ª Divisão) do Campeonato Brasileiro.
No horário dos jogos, a entrada e o estacionamento dentro do clube estão liberados. A AABB disponibiliza serviços de lanchonete e bar ao lado do campo, além de oferecer parque infantil e áreas verdes para as crianças brincarem enquanto os pais assistem aos jogos.

Foto:
João e Rodrigo Xavier, mais Marcos Lima (dir. p/ esq.), são os organizadores.
Contatos (DDD 73) – João Xavier: 9.9138-3444 (Tim), Rodrigo Xavier: 9.8853-4607 (Oi) e Marcos Lima: 9.9152-6360 (Tim).
Assessoria de Imprensa – Carlos Malluta: (DDD 73) 9.8877-7701 (Oi) / 9.9133-4523 (Tim)

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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

LEMBRANÇAS DOS MEUS AVÓS PATERNOS – Eglê S Machado

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Lembranças dos meus avós paternos

Ou:  “Oh! Que saudade que tenho da aurora da minha vida...” *
             Emocionantes! São minhas lembranças relacionadas aos meus avós paternos José Pedro e Hercília Melgaço, essas duas criaturas que me tocaram o coração, e levam-me a sentir como se ainda hoje estivesse vivendo  o passado, anos atrás.
             Ela, a ternura em pessoa, abençoava os netos um a um, quando entrávamos na sua casa sempre asseada e aconchegante, todos nós carregando feixes de lenha para abastecer sua cozinha. Ele, olhar sério e firme, mas demonstrando muita bondade e paz. Éramos oito netos, às vezes mais um ou dois amiguinhos que iam conosco. A diferença de idade era sempre entre 1 a 2 anos de um para outro.
             Passávamos por um pequeno corredor entre a sala de visitas e a copa (chamada sala de janta). No meio desse corredor um quarto sempre aberto porque não havia uma porta para fechá-lo, onde o vovô ficava deitado ou sentado na cama. Um por um, entrávamos na sala de visitas que era mantida aberta o dia todo, passávamos pelo tal corredor  em fila indiana forçada porque o espaço era bem estreito, dávamos uma leve  paradinha em frente do quarto, saudávamos  o vovô dizendo: bença vovô?  Ele respondia: çoe!... Um por um: Bença vovô? – çoe!... Bença vovô? – çoe!... Bença vovô? –Çoe!...
             Chegávamos à sala de jantar e logo adentrávamos a cozinha: Bença vovó? – Deus abençoe!... Um por um: Bença vovó? – Deus abençoe!... Bença vovó? - Deus abençoe!...
            A vovó Hercília sorria para nós, terna e carinhosamente. Inesquecíveis aqueles cabelos branquinhos, o vestido de fustão justo na cintura,  com a saia franzida... Tão limpinho... Justamente o oposto das nossas vestes cheias de nódoas de bananas e amarrotadas por causa das nossas estripulias.
            No grande fogão a lenha o café fumegava perfumado, seu feijão  tinha um aroma sem igual.            
            Passávamos da cozinha para uma pequena área e ali  jogávamos os feixes de lenha ( bráááááh), no  canto da parede abaixo de uma janela que trazia iluminação solar  para  a sala de refeições e para o corredor; essa parede era toda descascada e esburacada de tanto receber lenha. Nessa mesma área, mais perto do degrau que descia para o quintal havia um banquinho baixo onde o vovô sentava-se quando não estava no quarto. Aí ele tocava sua viola, interrompendo apenas quando a vovó lhe servia uma fumegante xícara de café. Eu sempre ficava impressionada com o vovô Zé Pedro por dois fatos infalíveis: se estava tomando café, ao final emborcava a xícara no pires; se tocava viola, era sempre a mesma canção formada por nove notas, repetindo-as sempre no mesmo tom. Sua música não tinha letra, não tinha fim... Nunca o ouvi cantar, só tocar... Tocar... Tocar... O vovô falava tão pouco com a gente!... Mas tocava viola e para mim até hoje sua voz era o som da viola.
            Também me impressionavam as camisas do vovô: tecido claro listradinho, com gola de padre, todas parecidas.
            Vovô José Pedro e vovó Hercília moraram por alguns anos, na Fazenda Poço Fundo que era administrada pelo papai; acho que de três a quatro anos. À época eu teria talvez sete ou oito anos e já observava  tratar-se de um acordo, uma espécie de rodízio entre papai e seus irmãos que também administravam fazendas; os vovós ficavam por um tempo com um dos filhos, iam para outro, até completar  a estadia com os oito filhos. Aí começava tudo de novo. E eles, os vovós eram felizes. E eles nos faziam felizes!
             Era uma festa quando os irmãos se reuniam em casa de um deles. Reuniam-se sempre na mesma fazenda em que vovó e vovô se encontravam.  Era fascinante vê-los chegando pouco a pouco, como heróis nas suas elegantes e  lustrosas montarias. Trajavam uma vestimenta para montaria que se chamava “culote”, botas e chapéus de qualidade. Acompanhava-os suas esposas e um ou dois dos filhos mais velhos. Era uma felicidade para os vovós e uma grande farra para as crianças. Após o jantar cujo prato principal era sempre galinha ao molho pardo, ou pato, se recolhia os pratos e a toalha da mesa e  seguiam as conversas e risadas animadas até altas horas. Até a hora de irem para a cama, as crianças participavam de tudo, sentadas no chão da grande sala, quietas e admiradas da sabedoria dos adultos. As visitas duravam quase sempre da sexta feira até o amanhecer da segunda feira.
            E eles partiam  deixando nos corações aquela saudade feliz. Antes da partida já se planejava para quando e onde seria o próximo encontro. Ao se despedirem os tios ofereciam algumas moedas para as crianças, as tias afagavam-lhes os cabelos. Tios e tias, um por um tomavam-lhes a mão direita, as abençoavam e delas se despediam com grande afeto.
            Voltava-se à normalidade,  se é que se pode chamar de normal a vida maravilhosa e sempre cheia de  novidades sem fim que se levava na fazenda, à atenção responsável dos nossos pais e, principalmente à terna benevolência de vovô José Pedro e vovó Hercília, a luta dos dois para  serem felizes e praticarem esta arte a cada dia. Ao recordá-los, após tantos anos revivo emocionada a companhia doce e fortalecedora dos meus avós e os classifico como “os raros santos da terra, que até hoje me levam a cultivar a felicidade, a despeito dos contratempos da vida”.

Eglê S Machado
Academia Grapiúna de Letras-AGRAL


*Casimiro de Abreu

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JOÃO UBALDO RIBEIRO: UMA REFERÊNCIA – Sione Porto

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João Ubaldo Ribeiro: Uma referência

Não somos brancos, negros ou índios; somos baianos. Não pertencemos, no maior rigor da palavra, a nenhuma religião, nem mesmo somos ateus; somos baianos. Não pretendemos ser melhores que ninguém. Mas somos baianos. (Trecho do discurso de posse na Academia Baiana de Letras).
À exceção de Nélson Rodrigues, Fernando Sabino e Millôr Fernandes, o escritor e jornalista João Ubaldo Ribeiro foi um dos maiores cronistas, crítico/sátiro, da literatura brasileira.
Não queria ser lembrado com um mito, e sim companheiro de pessoas comuns e humildes, a exemplo dos velhos conhecidos com que se encontrava nas manhãs ensolaradas e nas tardes amenas na Ilha de Itaparica, Bahia, onde nasceu em 23 de janeiro de 1941, local em que se refugiava nas férias de janeiro e ali escreveu boa parte de uma das mais importantes obras: Viva o povo brasileiro (1984), considerada obra máxima, um clássico da literatura, romance histórico, conteúdo da ocupação portuguesa – Estado Novo e a Ditadura, trama passada também em outros cenários como o Rio de Janeiro, São Paulo e Lisboa, no período de 1647 a 1977.
Era comum ver o mago literário João Ubaldo Ribeiro no bar e restaurante Tio Sam, no Leblon, tomando o seu chope em tulipa, onde jogava fora conversa fiada e distraída, com velhos conhecidos daquele bairro carioca, onde residia, e seus admiradores, sempre solícito, com seu vasto bigode já grisalho e sorriso largo, idêntico ao seu pai, o ilustre professor Manoel Ribeiro, sempre aos sábados, domingos e feriados.
A influência do cotidiano brasileiro e do sociopolítico foi retratada em toda sua vasta produção literária, deixando um legado inexorável para os amantes da literatura e estudantes que tentam ingressar nas universidades brasileiras – uma referência.
O escritor baiano João Ubaldo Ribeiro revolucionou a literatura, com seu jeito crítico, sátiro, espirituoso, social e jornalístico.
O seu grande saber jurídico foi adquirido através do incentivo do seu pai Manoel Ribeiro, o qual era advogado, professor, jurista, político (deputado estadual em Sergipe, vereador e procurador de Salvador), além de ter feito parte da cúpula da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do estado baiano.
Não obstante bacharel em Direito, João Ubaldo lecionou Ciências Políticas em Salvador (BA), mas não quis seguir carreira de advogado, como o pai e o irmão Manoel Ribeiro Filho, renunciando a tudo para se tornar um escritor.
Multifacetado, amante da liberdade e das coisas simples, obteve sucesso, tornando-se um grande romancista, além de escrever livros infantis, com sabedoria e ironia, estilo singular, encontrando também em sua obra o lado lírico, telúrico e pornográfico, como no romance A casa dos budas ditosos, publicado em 1999, que inclusive foi proibido em alguns estabelecimentos.
Conheci indiretamente João Ubaldo Ribeiro através de seu pai Manoel Ribeiro, quando tive a honra de ser sua aluna, em 1980, no curso de Direito Administrativo da UCSAL (Universidade Católica de Salvador). Embora mestre rígido, exigente e sério, apresentava um humor inigualável, causando uma empatia mútua entre professor e aluna.
Criado esse elo carinhoso com o mestre Manoel Ribeiro, fumante inveterado e apreciador de um bom uísque, passamos a manter conversas sobre literatura, filosofia, economia e história, daí o seu desejo que eu viesse a conhecer o filho João Ubaldo, o qual teria afirmado o desejo de conhecer esta então estudante, a quem seu pai dedicara um carinho diferenciado, em razão de, com membro do Diretório Acadêmico da UCSAL, em 1979, termos lançado a coletânea de poema Poejusto, como também de lhe ter ofertado o meu primeiro livro editado, Mulher: poesias inéditas (1979), cujo prefácio foi do professor de Direito Internacional Público, seu conterrâneo Jayme Messeder de Suárez, exemplar esse que vi carregando várias vezes e ter me dito, pessoalmente, que o poema de folhas 29, tinha muita identificação com o seu pensamento, o que me deixou muito feliz e lisonjeada, com a certeza que está bem guardada em sua biblioteca.
Nas conversas entre aulas, aconselhava-me a seguir na carreira literária e me orientava ao hábito da leitura como aprendizado.
O desejo de Manoel Ribeiro em que eu conhecesse seu filho não foi realizado por outras circunstâncias, além de o mesmo morar em outro estado, com várias viagens pelo mundo afora. Todavia, como o destino tem os seus desígnios, através do encontro de Tadeu Ribeiro, sobrinho de João Ubaldo, com meu filho Maurício Pimenta, no Colégio Anchieta, pude manter contato com a família Ribeiro.
Traduzir João Ubaldo Ribeiro como cidadão comum é muito simples. Trabalhou na Prefeitura de Salvador como office-boy, até chegar à vaga da cadeira 34 na Academia Brasileira de Letras (ABL), antes ocupada por Carlos Alberto Castelo Branco.
Do mesmo modo, citar suas obras é perda de tempo, porque todos as conhecem. Mas vale destacar que muitas delas inspiraram outras artes como o cinema (Sargento Getúlio, 1983; Tieta do Agreste, 1996; Deus é brasileiro, 2003), a televisão (O sorriso do lagarto, 1991).
Todas e quaisquer homenagens ao grande escritor são justas, como as feitas no carnaval carioca, pela escola de samba Império da Tijuca, no desfile do ano de 1987, e o Bloco Areia, ano passado, além de lhe ser concedidos prêmios de tamanha importância, como o Prêmio Camões, em 2008.
Por tudo isso, Viva o povo brasileiro na pessoa de João Ubaldo Ribeiro, o grande, senão o maior brasileiro em seu gênero.

Sione Maria Porto de Oliveira, poetisa.

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

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