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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

ACADÊMICO E POETA GERALDO CARNEIRO É O PALESTRANTE DA SEGUNDA CONFERÊNCIA DO CICLO “CADEIRA 41”


A Academia Brasileira de Letras dá continuidade ao seu Ciclo de Conferências intitulado Cadeira 41, com palestra do Acadêmico, poeta e letrista Geraldo Carneiro. O tema será No bar, com Tom Jobim, com a coordenação geral da Acadêmica Ana Maria Machado. O evento está programado para quinta-feira, dia 12 de setembro, às 17h30, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203 - Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.
A intitulação Cadeira 41 remonta aos tempos de fundação da ABL, em 20 de julho de 1897. Criada nos mesmos moldes da Academia Francesa, o número máximo de Acadêmicos era de 40, o que continua até os dias de hoje. Este Ciclo, no entanto, pretende apresentar quatro nomes que poderiam ocupar, em suas épocas, uma dessas Cadeiras e, que, por razões diferentes e individuais, não se tornaram membros da Academia.
A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora geral dos Ciclos de Conferências de 2019.
Os Ciclos de Conferências, com transmissão ao vivo pelo Portal da ABL, têm o patrocínio da Light.
Serão fornecidos certificados de frequência.
Cadeira 41 terá mais duas palestras, às quintas-feiras, no mesmo local e horário, com os seguintes dias, conferencistas e temas, respectivamente: dia 19, Marisa Lajolo, Na classe, com Mestre Candido; e dia 26, Acadêmico Cacá Diegues, Com Jorge de Lima no coração
O Acadêmico
Geraldo Carneiro é poeta, letrista e roteirista de televisão, teatro e cinema.
É autor dos livros de poesia Em busca do Sete-EstreloVerão vagabundoPiquenique em Xanadu (prêmio Lei Sarney de melhor livro do ano), PandemônioFolias metafísicasPor mares nunca dantesLira dos cinquent’anos e Balada do impostor.
Publicou também Vinicius de Moraes: A Fala da Paixão Leblon: A Crônica dos Anos Loucos, além de alguns sonetos traduzidos de William Shakespeare, na coletânea Sonhos da Insônia (Impressões do Brasil, 97), publicada em parceria com Carlito Azevedo.
Escreveu letras para canções com diversos parceiros, tais como, Egberto Gismonti, Astor Piazzolla, John Neschling, Francis Hime, Wagner Tiso. Além de textos para cinema, teatro e TV. Pelo último roteiro escrito, a adaptação da novela O Astro, em parceria com Alcides Nogueira, recebeu o prêmio Emmy. 
No cinema, assinou os roteiros dos filmes Eternamente Pagu (1987), de Norma Bengell, e O judeu (1996), escrito com Millôr Fernandes, Gilvan Pereira e o diretor do filme, Jom Tob Azulay.
Teve diversos textos teatrais encenados, originais e traduções, entre os quais A Tempestade, As You Like It e Antonio & Cleópatra, de William Shakespeare; A Bandeira dos Cinco Mil Réis (encenada em 86, publicada em 92), Manu Çaruê (ópera pós-tudo com música de Wagner Tiso, encenada em 88).
Leitura complementar
Biblioteca Rodolfo Garcia disponibiliza seu acervo para pequisa e leitura de obras relacionadas ao tema desta conferência, como "João Ubaldo Ribeiro ou o banquete da linguagem""Poemas reunidos" e "Discurso de posse do Sr. Geraldo Carneiro e resposta do Sr. Antonio Carlos Secchin".
Para consultar mais materiais como os citados, acesse o link abaixo e visite os "Levantamentos bibliográficos" realizados para este evento.



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terça-feira, 4 de setembro de 2018

ABL: DIRETOR E ROTEIRISTA JORGE FURTADO ABRE NA ABL O CICLO DE CONFERÊNCIAS ‘CINEMA E LITERATURA’


A Academia Brasileira de Letras abre seu ciclo de conferências do mês de setembro de 2018, intitulado Cinema e Literatura, com palestra do diretor e roteirista Jorge Furtado. A coordenação será do Acadêmico e poeta Geraldo Carneiro e o tema escolhido é Imagens e sons por escrito: a arte do roteiro. O evento está programado para quinta-feira, dia 6 de setembro, às17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.

Serão fornecidos certificados de frequência.

A Acadêmica Ana Maria Machado é a Coordenadora-Geral dos ciclos de conferências de 2018.

Jorge Furtado adiantou um resumo sucinto do que será sua conferência: “Vou falar sobre a transposição da literatura para a linguagem audiovisual. Tenho duas profissões, sou diretor e roteirista, portanto conheço bem de perto as dificuldades para transformar palavras escritas em imagens e sons, pensamentos e emoções em ações e palavras. Vou comentar o assunto do modo mais prático e objetivo possível, baseado em minha experiência pessoal em trinta e seis anos de profissão. Como roteirista, eu adaptei para o cinema ou para a televisão mais de trinta autores. Em cada um desses trabalhos me deparei com problemas diferentes e experimentei, com maior ou menor sucesso, diferentes soluções. Pretendo dividir com os ouvintes aquilo o que tenho de mais valioso: minhas dúvidas”.

Cinema e literatura terá mais três palestras nas quintas-feiras de setembro, no mesmo local e horário, com os seguintes dias, conferencistas e temas, respectivamente: dia 13, Aderbal Freire Filho, Romance-em-sena: questão de gênero; 20, Maria Adelaide Amaral, Literatura e Teledramaturgia: diferenças e confluências; 27, Cacá Diegues, Letras e Imagens: a literatura no cinema.


O CONFERENCISTA

Diretor e roteirista dos longas Houve uma vez dois verões (2002), O homem que copiava (2003), Meu tio matou um cara(2005), Saneamento Básico, o filme (2007), O mercador de notícias (2014), Real Beleza (2015) e Quem é Primavera das Neves (2017), Jorge Furtado dirigiu, também, diversos curtas-metragens premiados no Brasil e no exterior, como: O dia em que Dorival encarou o guarda (1986), Barbosa (1988), Ilha das Flores (1989), Esta não é sua vida (1991) e O sanduíche (2000).

Para a TV Globo, Jorge Furtado dirigiu a série Cena aberta (2003), a minissérie Luna callente (1998), Decamerão(2010), as três temporadas de História do amor (2011/ 2012/2013), e os telefilmes Homens de bem (2011) e Doce de mãe (2012). Este último, originou a série em 14 episódios Doce de mãe (2014) e rendeu dois prêmios Emmy Internacional: Melhor atriz, para Fernanda Montenegro, em 2013, e Melhor Série de Comédia, em 2015.

Os últimos de seus trabalhos para televisão são as séries Mister Brau e Sob pressão, as duas da TV Globo. O mais novo filme, Rasga coração, uma adaptação da peça de Oduvaldo Vianna Filho, será lançado em outubro de 2018. Jorge Furtado é um dos sócios-fundadores da Casa de Cinema de Porto Alegre.

31/08/2018

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sexta-feira, 22 de junho de 2018

ACADÊMICO GERALDO CARNEIRO COORDENA NA ABL O SEMINÁRIO BRASIL, BRASIS DE JUNHO, INTITULADO ‘LITERATURA E MISCIGENAÇÃO’



A Academia Brasileira de Letras dá continuidade à série de Seminários “Brasil, brasis” de 2018 com o tema Literatura e Miscigenação, sob coordenação do Acadêmico e poeta Geraldo Carneiro (sexto ocupante da cadeira 24, eleito em 27 de outubro de 2016) e a participação do professor Eduardo de Assis Duarte. O coordenador-geral dos Seminários “Brasil, brasis” de 2018 é o Acadêmico e professor Domício Proença Filho. O seminário está programado para o dia 26, terça-feira, às 17h30, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro.

O Seminário Brasil, brasis, com entrada franca e transmissão ao vivo pelo Portal da ABL, tem patrocínio do Bradesco.

O CONVIDADO

Eduardo de Assis Duarte possui graduação em Letras pela UFMG (1973), mestrado em Literatura Brasileira pela PUC do Rio de Janeiro (1978) e doutorado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela USP (1991). Cumpriu programas de Pós-doutorado na UNICAMP e na UFF. Aposentado em 2005, mantém vínculo voluntário com a UFMG, atuando como professor colaborador do Programa de Pós-graduação em Letras: Estudos Literários. Participa do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade (Neia). Trabalha, em especial, com os seguintes temas: literatura e alteridade; literatura afro-brasileira; romance, história, sociedade; Machado de Assis; Jorge Amado. Coordena o grupo de pesquisa “Afrodescendências na Literatura Brasileira” (CNPq)  e o literafro “Portal da Literatura Afro-brasileira”, com informações biobibliográficas, críticas e excertos de mais de 100 autores.

20/06/2018

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domingo, 26 de novembro de 2017

O BEM CONTRA O MAL - Geraldo Carneiro

O bem contra o mal


Talvez você ande horrorizada (o) com os últimos acontecimentos políticos do Brasil. Talvez esteja achando que nasceu no país errado, ou até pensando em se mudar para Portugal ou para a Cochinchina. No entanto, como este almanaque dominical pretende trazer alegria ao coração das leitoras e dos leitores, afirmo que os males que nos afligem poderiam ser piores. Duvida? Pois vou lhe contar uma pequena fábula.

Certa vez, estava eu na casa de meu amigo João Ubaldo Ribeiro e, numa pausa entre nossos afazeres profissionais, decidimos, por distração, escalar a Seleção do Mal.

No gol, escalamos Torquemada, o Grande Inquisidor espanhol, terror de judeus e muçulmanos. Dizem que, na dúvida, torturava e queimava também cristãos, na certeza de que Deus, lá em cima, havia de fazer a triagem. Felizmente, não me lembro quem era o lateral direito, mas sei que, para a lateral esquerda, Ubaldo sugeriu Mao Tsé Tung. Discordei: “Mas o Mao é nosso!” O João, peremptório, argumentou: “Dezenas de milhões de mortos.” E restabeleceu-se a concórdia: Mao tornou-se titular absoluto.

No meio de campo, só escalamos volantes botinudos: Bokassa, Pol Pot e Idi Amin Dada, todos genocidas. E, para completar o time, armamos o ataque com Josef Stálin na esquerda, Calígula no meio, e Adolf Hitler na ponta-direita. Só faltava o número 10, o gênio, o Zinedine Zidane, que fosse o cérebro do time. Não me lembro qual de nós dois sugeriu o nome terrível: o Marquês de Sade.

Quando acabamos de escalar a Seleção do Mal, trememos nas bases, assombrados com o poder de fogo dessa reunião de criaturas malévolas. Nossa sorte foi a chegada da dona da casa, Berenice Batella Ribeiro, musa e patroa do João Ubaldo. Ao nos ver com a aparência lamentável que ostentávamos, ela nos perguntou: “Que cara é essa, meninos?” Explicamos que havíamos acabado de escalar a Seleção do Mal.

E ela, com a sabedoria que lhe é peculiar, recomendou: “Pois escalem a Seleção do Bem.”

Esperançosos, escalamos Jesus Cristo no gol, de braços abertos. São Francisco de Assis na lateral direita, Buda na lateral esquerda, tirando proveito de seu porte físico para barrar os atacantes do Mal.

Não me lembro qual era o meio de campo, mas tinha craques como José de Anchieta, volante moderno, capaz de catequizar, apoiar o ataque e ainda marcar gol. Se não me falha a memória, o time tinha Gandhi, Zoroastro e Tomás de Aquino. Só faltava o gênio, o camisa 10. Quando nos ocorreu o nome de William Shakespeare, ficamos aliviados. Aleluia.

Moral da fábula: apesar das vicissitudes do presente, podemos nos consolar com a ideia de que nossos vilões, graças aos céus, são de terceira categoria. Não servem nem para a reserva da Seleção do Mal. Em breve ficaremos livres deles. Ou será que me engano?

O Globo, 19/11/2017
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Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

NOTÍCIAS DO CAOS - Geraldo Carneiro

Notícias do caos


Aconteceu uma pequena catástrofe aqui em casa: meu escritório foi vítima de uma pintura.

Imagino que, na vida de uma pessoa razoável, seria apenas um transtorno temporário. Mas, dessa vez, a pintura das paredes tornou meu habitat uma sucursal do caos, pelo menos aos meus olhos.

O único benefício do desastre é que fui obrigado a passar em revista alguns de meus pontos cardeais.
A primeira coisa que pendurei de volta na parede foram os desenhos de Millôr Fernandes. Antigos, do início da década de 60, quando ele se assinava Vão Gogo e escrevia uma coluna chamada Pif-Paf, na revista “O Cruzeiro”, na qual meus companheiros de geração e eu tivemos o privilégio de ser alfabetizados. Ou melhor, fomos refinadamente analfabetizados, porque o Millôr nunca respeitou os cânones.

Depois me deparei com um quadro de minha querida Marília Kranz, que, depois do furacão da pintura, ficou de pernas para o ar.
O que não me espantou, porque Marília sempre teve a aptidão de virar o mundo de cabeça para baixo — chegou a morar na Cidade do Vaticano, em circunstâncias que não posso revelar aqui, por impróprias para menores de 69 anos. E ai do mundo se não fizer o que ela manda! É uma generala. Perto dela, Napoleão Bonaparte parece o Toni Ramos.

Atrás de mim, entre meus poucos troféus, ficou um que, por acaso ou não, se chama Ana Cristina César, minha ex-colega da PUC. Sempre fomos felizes em nossa amizade, até que ela resolvesse pôr fim à sua vida de pássara e poeta.

No mesmo lado da estante fica a imagem de William Shakespeare, sorrindo, carregando a caveira mais famosa do teatro mundial. E uma coleção de figuras literárias: Dom Quixote, Shakespeare de novo, James Joyce, Mark Twain e Edgar Allan Poe — sendo este o mais doido de todos, mais doido do que todos nós, o que já é um consolo. Se não me engano, o quarteto me foi trazido por minha querida Edna Palatnik.

Do outro lado do escritório há uma estante com retratos românticos e um pequeno álbum de família. Havia também uma galeria de fotos de amigos, mas acho que não vou pendurá-la de novo, porque, ao vê-la, sinto saudades dos outros e de mim.

Há também uma aquarela que comprei no Quilombo da Marambaia, onde fui a bordo de um saveiro, em missão poético-cultural. Como tinha quebrado a perna e estava usando muletas, atolei no caminho, que era um verdadeiro areal. Fui içado e salvo pelos quilombolas, como se eu fosse um Indiana Jones depois da tuberculose.

Ainda falta pendurar os álbuns de Flash Gordon e Príncipe Valente, heróis de minha infância. E também a reprodução de “O jardim das delícias terrenas” — pintado por Hieronymus Bosch, no século XV —, antes que algum pastor ou autoridade eclesiástica venha aqui em casa confiscá-lo, em nome da moral e dos bons costumes.

O Globo, 22/10/2017


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Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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domingo, 8 de outubro de 2017

‘NÃO ME ESQUECI DE VOCÊ’ - Geraldo Carneiro

‘Não me esqueci de você’


Meu amigo João Ubaldo Ribeiro era das pessoas mais generosas do mundo — ou pelo menos do balneário do Rio de Janeiro.

Meu escritório é cheio de lembranças dele. Não me refiro só a livros, que estão em toda a parte, mas a presentes que ele comprava na esquina ou trazia de viagens, entre os quais uma lamparina made in Bahia, um canivete suíço, comprado na livraria Letras & Expressões, e uma caneta Lamy, modelo standard, que veio da Alemanha e se tornou meu talismã.

O problema é que Ubaldo cobrava sempre o uso do presente. Certa vez me deu um par de binóculos. No dia seguinte, telefonou: “Já usou o binóculo que eu lhe dei?” Eu, que moro na selva do Jardim Botânico, diante de uma pedreira, não sabia onde usá-lo. Ubaldo telefonou de novo, insistindo, e me vi obrigado a ir até a rua para acompanhar, de binóculos, um ciclista, que ficou preocupadíssimo: desconfiou que eu era detetive particular.

Ubaldo me confessou que cultivava uma prática que aprendera com Dorival Caymmi: o “não me esqueci de você”. Explico: sempre que voltava de viagem, Caymmi trazia uma caixa cheia de bugigangas, caixa essa que era uma espécie de baú da felicidade. Quando um amigo chegava de surpresa, Caymmi abria a caixa, pescava algum objeto dentro dela — um brinquedo, um chaveirinho, a réplica de um monumento — e dava-o ao visitante, acompanhado da frase-chave: “Não me esqueci de você.” O visitante ficava encantado.

Um dia Ubaldo voltou da Europa. Assim que fui visitá-lo, ele desobedeceu a receita de Caymmi e abriu diante de mim a caixa do “não me esqueci de você”. Por preguiça de distribuir presentes, pediu que eu escolhesse mais de uma lembrança. Hesitei. Então ele me entregou, mais ou menos ao acaso, os que lhe pareceram mais extravagantes: uns óculos de leitura vermelhos; uma pequena escultura que reproduzia um casal de namorados; um preservativo alemão feito de material triplamente resistente. Por quê? Não sei.

Cheguei em casa e espalhei os mimos pelos cômodos: o preservativo na mesa de cabeceira, o casal de namorados num armário perto da cozinha, os óculos vermelhos na escrivaninha.
Esqueci de dizer que minha musa estava fora da cidade e, quando chegou, ao se deparar com tais objetos, supôs que uma sirigaita — como se dizia em séculos passados — teria se introduzido no outrora sacrossanto recesso do lar.

Imagino que ela deve ter feito fantasias sanguinárias a meu respeito. Mas quando se deparou com o suposto criminoso — isto é, eu —, com a cara mais inocente do mundo, ela percebeu que não precisava levar adiante o inquérito. Só perguntou: “De onde surgiram esses objetos?” Respondi: “Foi o João Ubaldo que trouxe.
Já ouviu falar no ‘não me esqueci de você’?” Ela sorriu, cúmplice, e vivemos felizes para sempre.

O Globo, 01/10/2017



Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

HISTÓRIAS DE AMOR, por Geraldo Carneiro

Histórias de amor


Perguntaram a uma menina inglesa se ela conhecia Shakespeare e, caso o conhecesse, quais eram suas peças favoritas. A menina respondeu que eram duas: “Uma, Romeu; a outra, Julieta.”

O desencontro trágico de dois namorados cujas famílias são rivais não é apenas uma história bem arquitetada: é uma história universal. Pode se passar em lugares tão estranhos como Cabul, Istambul ou Rio Grande do Sul.

Nem todo mundo sabe, contudo, que Shakespeare não inventou a trama: ele a adaptou de um poema inglês, que se baseou num texto francês, que era a adaptação de um conto italiano, escrito por Luigi da Porto. Que, por sua vez, se inspirou em textos anteriores. Em suma, parafraseando o filósofo Chacrinha, quase nada se cria, quase tudo se copia.

Shakespeare, no entanto, compreendeu a força dramática do conto.
Reproduziu a trama nos mínimos detalhes e ainda teve o cuidado de mudar o sobrenome de Julieta para Capuleto, e não Capeletti, como em da Porto, o que a tornaria demasiado comestível. Já imaginou uma heroína chamada Julieta Capeletti?

A grande sacada de Shakespeare foi escrever os três primeiros atos de “Romeu e Julieta” como uma comédia romântica, tendo ao fundo a guerra pelo poder entre as famílias de Verona. As falas dos asseclas dos Capuletos e Montéquios parecem extraídas de um filme do Tarantino. Essa violência serve como contraponto para o trunfo maior de Shakespeare: as palavras de amor. Romeu se esconde diante do balcão de Julieta. E ao vê-la, diz para si mesmo:

Romeu: “Que luz é essa que irrompe na janela?
Será o nascente, e Julieta é o sol?
Levanta, sol, e mata a lua ciumenta,
Que já está pálida com a dor da inveja
Por seres tão mais bela do que ela.
E Julieta, ainda sem vê-lo, sonha em voz alta:
Julieta Ó Romeu, Romeu... Por que és Romeu?
Nega teu pai, recusa esse teu nome;
Senão, é só jurar-me o teu amor,
E eu já não mais serei uma Capuleto.”

Romeu escuta as palavras de Julieta e, quando ela confessa seu amor por ele, se revela para a amada. Julieta, entre a perplexidade e o êxtase, se declara. Só faz uma pequena restrição:

Julieta: “Embora eu tenha em ti minha alegria,
Não me alegra essa aliança em meio à noite,
Tão brusca, repentina e tão imprevista,
Como um relâmpago que logo apaga
Antes que alguém proclame a sua luz.
Boa noite, amor. Que o sopro do verão
Transforme esse botão de amor em flor
Quando nos encontrarmos outra vez.
Boa noite, e que tenhamos toda a calma
Tanto em teu coração quanto em minha alma.”

Como todos sabem, os dois se casaram em segredo e foram felizes por três dias. Dirá você que a felicidade não durou muito. Pois é.
Mas três dias de amor já são um pouquinho de eternidade.

O Globo, 17/09/2017

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Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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domingo, 17 de setembro de 2017

NOMES PRÓPRIOS, por Geraldo Carneiro


Nomes próprios

Sempre fui fascinado por nomes. Quando era criança, me lembro que os jornais e revistas volta e meia publicavam listas de nomes incomuns. E sempre constavam Um Dois Três de Oliveira Quatro, Rolando Escadabaixo de Andrade e Restos Mortais de Catarina, entre outros nomes, próprios ou impróprios.

Outro dia procurei na internet a lista do TSE e descobri outras pérolas, como Deusa do Amor Divino Tortieri, Danúbio Tarada Duarte, Esparadrapo Clemente de Sá, Felicidade do Lar Brasileiro, Faraó do Egito Souza, Fraternidade Nova York Rocha, Frankstein Júnior, Gêngis Khan Camargo e Graciosa Rodela.

Mas a capacidade de criar nomes não parou por aí. Na lista há outros eleitores também notáveis, como a Sra. Talvez Aberta Demais de Oliveira, o Sr. Ácido Acético Etílico da Silva, o Dr. Alfredo Prazeroso Texugueiro, Dr. Antônio Morrendo das Dores, Dona Defuntina de Souza Cruz, Dr. Himineu Casamentício das Dores Conjugais e a Dona Ambrísia Estilingue Morretes.

O curioso é que esses nomes raros surgem às vezes por acaso. Como muita gente sabe, meu amigo Millôr Fernandes foi batizado Milton Viola Fernandes. Só que o escrivão do Méier, por criatividade ou analfabetismo, deixou de grafar o tracinho horizontal da letra “t”, e, como se não bastasse, sapecou um circunflexo no “o”. Assim, o Milton virou Millôr. Só aos 16 anos Millôr descobriu sua nova velha identidade. Ficou felicíssimo.

Já a avó materna de minha musa e patroa chamava-se Violina — pelo menos até ser matriculada na escola e ouvir pela primeira vez a lista de chamada, quando descobriu que se chamava Deolinda. É que seu pai era português e, ao pronunciar o nome da filha no cartório, o escrivão confundiu alhos com bugalhos.

Há experiências ainda mais triviais. Meu filho mais velho, Joaquim Pedro, nasceu três dias depois de Alexandre, primogênito de Egberto Gismonti, meu parceiro de canções, em 1981. Fomos juntos batizá-los no <SW,26>cartório da Rua Djalma Ulrich, em Copacabana. Lá chegando, encontramos um admirador de música, que ficou feliz ao deparar conosco. Combinamos que cada um de nós seria testemunha no registro dos filhos dos outros. Para adiantar a burocracia, perguntei ao colega: “Qual é o nome do seu filho?” E ele me respondeu: “Raôni”, com acento no o.”

Com muito jeito, procurei esclarecer que havia um cacique indígena chamado Raoni, com acento no i. Mas o colega insistiu: “O meu é Raôni, com acento no o.”

Só então percebi que, em matéria de nomes, não há o que discutir: o que manda é a convicção dos pais. Se a cidadã ou cidadão quiser batizar o filho com outros nomes que constam da lista do TSE, como Colapso Cardíaco da Silva ou Maria Regina do Pinto Magro, tudo bem, tem todo o direito. Mas pode ter certeza de que vai fazer a festa dos cronistas do futuro.

O Globo, 10/09/2017

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Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

BARCAROLA - Geraldo Carneiro

Barcarola

Tenho ouvido muita gente dizer horrores sobre o tempo em que vivemos. Não é a primeira vez. Em 1979, me lembro que o Brasil também nos parecia insuportável, com ditadura e recessão. E não só o Brasil. John Lennon havia decretado o fim do sonho, no início da década, e a ambição havia vencido as utopias. Nós, sonhadores, estávamos mais por fora do que poupança de chacrete.

Como sempre, busquei consolação na poesia. Encontrei um poema de Ezra Pound, chamado “The Lake Island”, que traduzi assim:

“Ó Deus, ó Vênus, ó Mercúrio, protetor dos ladrões,
Emprestai-me uma pequena tabacaria,
Ou estabelecei-me em qualquer profissão,
exceto essa maldita profissão de escritor,
na qual a gente precisa do cérebro o tempo todo.”

Para completar, Antônio Callado tinha publicado alguns anos antes seu livro “Bar Don Juan”, inspirado nas histórias do Antonio’s, o bar mitológico que morava em certa esquina do Leblon. Na epígrafe do livro, Callado citava um texto de W.H Auden: “Quando se interrompe o processo histórico (...), quando a necessidade se associa ao horror e a liberdade ao tédio, a hora é boa para se abrir um bar.”

Inspirado em tão admiráveis exemplos, resolvi levá-los à prática. Meu bar se chamava Barcarola, em homenagem a um livro de Neruda. Ficava num pequeno terreno à beira-mar, em Rio das Ostras. Havia nele dois palcos, restos cenográficos do musical “Lola Moreno”, que eu escrevera com Bráulio Pedroso e John Neschling. Um deles deveria ser reservado à música, o outro, ao teatro. Em tese, seria um bar dedicado às artes. Um centro cultural alcoolizado.

Doce ilusão. O Barcarola foi um sucesso tão grande que jamais encenamos as peças e shows que pretendíamos. Já na inauguração, meus amigos beberam todo o estoque — confesso que com minha modesta colaboração. Meu sócio Manoel Reis e eu só fazíamos carregar caixas de cerveja, comprar vodca, tomar providências.
Minha irmã Elizabeth, que aceitara o cargo de gerente e que dividia as tarefas mais pesadas conosco, sabiamente pediu rebaixamento para garçonete.

Pior é que os bêbados desrespeitavam nossas funcionárias. E eu era o segurança, com meu corpinho de pré-tuberculoso. Apareciam bandidos municipais e estaduais perguntando: “Quem é o dono desta espelunca?” Eu tinha que dar uma de John Wayne, embora não tivesse o armamento, nem a valentia, nem o physique du rôle.
Quando me livrei do Barcarola, logo depois do carnaval, suspirei aliviado. Dali por diante, só entraria num bar como sócio-atleta.

Que lições extraí do Experimento Barcarola? Não sei. Talvez todo tempo tenha o seu horror e a sua graça. Pelo menos retrospectivamente. Ou, como disse Guimarães Rosa, viver é muito perigoso. E seja qual for o motivo, mesmo nas piores circunstâncias, precisamos comemorar a vida.

O Globo, 03/09/2017


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Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24, eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

ROMANCISTA CRISTOVÃO TEZZA FAZ NA ABL A PALESTRA DE ENCERRAMENTO DO CICLO “REALISMO EM QUESTÃO’” SOB COORDENAÇÃO DO ACADÊMICO GERALDO CARNEIRO

A Academia Brasileira de Letras encerra seu Ciclo de Conferências do mês de agosto de 2017, intitulado Realismo em questão, com palestra do romancista Cristovão Tezza. A coordenação será do Acadêmico e poeta Geraldo Carneiro.

A conferência, intitulada “Literatura e autorrepresentação”, está programada para o dia 29 de agosto, terça-feira, às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.

A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado, Primeira-Secretária da ABL, é a Coordenadora-Geral dos ciclos de conferências de 2017.

Serão fornecidos certificados de frequência.

Acadêmico Geraldo Carneiro convida para o Ciclo de 
conferências "Realismo em questão"

 “De que forma as máscaras de autor e narrador se confundem na obra de ficção? A chamada "autoficção" é um fenômeno contemporâneo ou tem raízes profundas na história literária? O que está em jogo na separação gramatical entre primeira e terceira pessoas e na fronteira subjetiva entre realidade e ficção?”. Estas são algumas das questões centrais que serão abordadas, de acordo com Cristovão Tezza, em sua palestra.

Saiba mais

Cristovão Tezza é autor dos romances Trapo, O fotógrafo, Breve espaço, Um erro emocional, O fantasma da infância, O professor e A tradutora, entre outros. Seu livro O filho eterno, de 2007, recebeu os mais importantes prêmios literários do Brasil, foi publicado em uma dezena de países e adaptado para o cinema. É colunista quinzenal da Folha de S. Paulo. Lançou duas coletâneas de crônicas: Um operário em férias e A máquina de caminhar. Em 2012, publicou O espírito da prosa, sua autobiografia literária.
23/08/2017



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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

SONHO DOURADO – Por Geraldo Carneiro

Sonho dourado

 Sempre cultivei um sonho dourado: quando eu ficasse velho, queria ser guia turístico do Jardim Botânico.

Mas meu sonho, como tantos outros, fracassou. O Jardim Botânico está cheio de plaquinhas em português e inglês, explicando quase tudo. E, como se não bastasse, é dirigido por Sérgio Besserman Vianna, que é muito culto, sabe esclarecer os visitantes sobre os babados da chegada de Dom João VI ao Rio, fugindo das tropas de Napoleão.

Só me restaria explorar alguns detalhes, como o merecido prestígio da Caesalpinia echinata — ou pau-brasil, para os íntimos. Dizem que o pau-brasil tinha uma resina da qual se extraía uma tinta de cor avermelhada, muito em moda na Europa. Por isso portugueses e franceses — que sempre foram fashionistas — vieram saquear nossa Mata Atlântica. Segundo os estudiosos, havia cerca de 70 milhões dessas árvores na costa do Brasil. Hoje é raro encontrar uma única por aí, a não ser na poesia de Oswald de Andrade. Com o perdão do trocadilho, é uma árvore ex-tinta.

Se eu fosse guia, indicaria para refúgio dos namorados o Mirante da Imprensa — até o nome é sugestivo —, espécie de coreto construído diante do Lago Frei Leandro, de onde se pode enxergar as vitórias-régias, o Cristo Redentor e, conforme a voltagem da paixão, uma boa parte do infinito.

De volta às maravilhas do mundo real, o visitante achará a Fonte de Eco e Narciso, cuja história completa não consta da plaquinha. As duas figuras, inspiradas num personagem da mitologia grega que se apaixona por si mesmo — o que é muito comum hoje —, foram esculpidas para o Passeio Público, por Mestre Valentim, no fim do século XVIII. Depois removidas para o Jardim Botânico, mas mantidas uma distante da outra. Só mais tarde foram reunidas, por campanha promovida pelo admirável Antonio Callado, glória da literatura brasileira, que está completando cem anos de nascimento.

O ponto alto de minha visita guiada, no entanto, seria a fachada da Escola Imperial de Belas Artes. Quando eu era menino, pensava que aquilo fosse um palácio fantasma. Depois descobri que aquele misterioso portal fora desenhado pelo arquiteto Grandjean de Montigny. Ele veio ao Brasil com a Missão Francesa, para ensinar nossos artistas a imitar o estilo mais moderninho da época, o neoclassicismo. Com a demolição da escola, sua fachada foi transferida para o JB.

Segundo cronistas, Grandjean de Montigny acabou por radicar-se no Rio e adotar os costumes locais. Botou pra quebrar durante o entrudo de 1850, em que os foliões arremessavam uns nos outros baldes d’água, limões de cheiro, ovos, lama, o diabo. Graças à brincadeira, o francês contraiu uma infecção e faleceu pouco depois, no início de março. Em suma, Grandjean tornou-se tão carioca que morreu de carnaval.
O Globo, 13/08/2017

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Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

TURISTA DE QUINTA - Geraldo Carneiro

Turista de quinta


Sou um turista de quinta categoria. Sempre me identifiquei com uma frase atribuída a Nelson Rodrigues, que, segundo seus amigos, declarava: “Quando atravesso o Túnel Rebouças, sinto uma enorme nostalgia do Brasil.”

Na verdade, não sou tão radical. Adoro o Rio além e aquém túnel. E é claro que viajo pelo planeta, quando é inevitável, fingindo que estou me divertindo horrores. Às vezes até me divirto mesmo.

Semana passada cheguei de Bariloche, onde fui a convite de meus sogros, Inabel e Paulo. Um hotel belíssimo. A companhia? Magnífica. Mas fiquei contemplando aquela neve toda e me sentindo como um pinguim em Copacabana. Poderia alegar que houve contratempos: minha musa torceu o joelho descendo de esquibunda — não se pode confiar num esporte com tal nome; eu, pelo menos, não confio. A verdade, porém, é que sou sempre aquele brasileiro anedótico, que compara as maravilhas do universo com as trivialidades de sua terra natal.

Quarenta anos atrás, por exemplo, morei alguns meses no centro histórico de Roma, e só fui ao Vaticano 20 anos depois. Claro que tinha curiosidade de conhecer a cúpula do Michelangelo, as esculturas de Bernini etc. A preguiça turística, no entanto, não me permitia atravessar o Rio Tibre.

Se meus anfitriões, Amelita Baltar e Astor Piazzolla, me mostravam a silhueta do Coliseu, visto de uma varanda da burguesia socialista, eu declarava solenemente: “Prefiro o Diagonal.” Se me apresentavam outra maravilha, como a Fontana di Trevi, eu dizia: “É bonita. Mas prefiro o Diagonal.”

Um parêntese. O Diagonal, para quem não sabe, era o epicentro do Baixo Leblon, conjunto de botequins do bairro, frequentados pela fina flor da arte e da boemia. Quase todas as pessoas interessantes do Rio apareciam por lá, de Nelson Cavaquinho a Tom Jobim. Em matéria de atmosfera, o Diagonal dos anos 70 era a versão carioca do Café de Flore, 20 anos antes, em Paris. Embora concretamente fosse um barzinho mixuruca, com um cheirinho nauseabundo e algumas baratas quase sempre de plantão.

Hoje, graças à mudança dos tempos e à saúde pública, melhorou muito. Fecha o parêntese.

Alguns meses depois, Piazzolla veio ao Brasil para fazer shows, como fazia quase todos os anos.

Assim que chegou, me pediu, com seu sotaque indefectível: “Llevame a Diagonal!” Obedeci. Quando lá chegamos e ele se deparou com a precariedade daquele templo da boemia, emitiu uma exclamação tão pejorativa que não posso reproduzi-la neste almanaque dominical.

Depois ele compreendeu que toda cidade é uma invenção da memória sentimental de seus moradores.

Cada cidade é uma Troia, mesmo que não guarde a memória de sua tragédia. E é também um Tivoli Parque, onde nossa imaginação será feliz para sempre.

Em suma, o mundo inteiro não vale o meu bar.

O Globo, 06/08/2017


Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.


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domingo, 30 de julho de 2017

O REINO ANIMAL - Geraldo carneiro


O reino animal 

Nunca tive um animal de estimação. A não ser meus amigos — que são animais relativamente racionais.

Quando eu era criança, durante o breve período em que moramos em Brasília, ganhei um casal de coelhos, Lico e Lica. A Lica teve um destino trágico: foi devorada pelo cachorro do vizinho. Já o Lico, quando nos mudamos de volta para o Rio, ficou em Brasília, foi adotado por um jornalista amigo da família e virou comentarista político de TV.

Você não acredita? Pois o Lico trabalhava num programa chamado “O coelho e eu”, no qual o jornalista Aluísio Chaves lhe fazia perguntas sobre a atualidade política. Por exemplo: “O que você acha do governo Temer?” A câmera cortava para o focinho do Lico, sempre em movimento, parecia que estava falando. E o Aluísio fingia reproduzir sua fala: “Segundo o Lico, o governo Temer é digno de uma República de Bananas.”

Anos depois, um veterinário descobriu que o Lico era Lica. Parece que o sexo dos coelhos, tal como o dos anjos, é matéria complicada. E creio que Lico/Lica se tonou o primeiro transgênero celebrizado pela TV dos anos 60.

No capítulo dos felinos, tive duas gatas. A primeira se chamava Teresa. Levei-a para morar lá em casa contra a vontade de meu pai, que tinha trauma de infância provocado pela morte involuntária de uma gatinha. Como era um coração democrático, porém, papai aceitou provisoriamente a coabitação com Teresa. Até a noite em que chegou em casa meio embriagado e, quando foi respirar fundo, na penumbra da sala, sentou-se no sofá em cima dela. Saíram os dois miando e gritando, cada qual para o seu lado. Acabei forçado a levar Teresa para o apartamento do historiador Hélio Silva, que não só a adotou como chegou a exibi-la no colo, na capa da “Veja”.

A segunda se chamava Eleanor Rigby, mais conhecida por Lelê.
Lelê e eu vivíamos em completa felicidade conjugal. Só que um dia meu filho mais velho, Joaquim Pedro, partiu para Tiradentes, para gravar uma minissérie. Lelê apaixonou-se pela ausência dele.
Desolada, ela se deitava todas as noites sobre os tênis de Joaquim.
Me lembrei de Drummond: a falta que ama. Logo percebi que Lelê me abandonaria, em companhia de meu filho. Tiro e queda. Aconteceu.

Nos últimos anos tivemos aqui em casa a Dáwa — que significa Lua em tibetano — , uma cachorrinha que nos abandonou há cerca de dois anos. A arte de perder é difícil de dominar, ao contrário do que diz a poeta americana Elizabeth Bishop, com dolorosa ironia.

Há duas décadas, meu amigo Millôr Fernandes perdeu seu Igor, um poodle simpático. Nunca o vi tão triste, ficou jururu durante um ano. E agora minha amiga Nélida Piñon perdeu o seu amado Gravetinho. Aqui vai o meu carinho para acalentá-la.

Na próxima encadernação espero merecer o amor dos animais.

O Globo, 23/07/2017

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Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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quarta-feira, 12 de julho de 2017

PROJETO APOLLO - Geraldo Carneiro

Projeto Apollo


Meu filho mais moço, Vinicius, acaba de chegar à avançada idade de 6 anos. Entre seus presentes de aniversário, ganhou um foguete Apollo de isopor, com propulsão a vento, invenção de um provável camelô da China.

Não sou dado a recordações proustianas, mas esse episódio me devolveu à infância. Ali pelos 9 de idade, no princípio dos anos 60, também ganhei uma réplica de foguete Apollo, trazida de presente dos Estados Unidos pelo único amigo próspero de meu pai — porque nós, os pais e filhos da classe média, raramente íamos muito além de Tribobó.

Como eu não tinha habilidade para montar as centenas de peças de meu foguete, recorri a um amigo mais velho, Ricardo, um ancião de cerca de 17 anos. Ele passou uma tarde inteira montando as peças do meu sonho.

Um parêntese. O Projeto Apollo começou nessa época, com o propósito de conquistar o espaço para os americanos. Eles já haviam levado uma surra dos russos, que tinham posto em órbita o satélite Sputnik, depois a cadela Laika, e por fim o primeiro astronauta, Yuri Gagárin. Em resposta, os americanos lançaram o Projeto Apollo, para chegar à Lua antes dos soviéticos. Fecha o parêntese.

O Ricardo montou com perícia e paciência todas as pecinhas do meu foguete. Fiquei ali, ao seu lado, pensando nos voos que faria no futuro, na Nasa da imaginação.

Fiz muitos planos para o meu foguete. Pensei em levá-lo ao colégio para exibi-lo aos colegas. Eu era apenas um menino latino-americano, sem parentes importantes e vindo do interior, mas imaginei que, graças ao meu foguete, ganharia prestígio com os amigos da beira-mar.

Quem sabe até eu conquistasse a simpatia de certa colega de turma, carioca da gema que, como supremo charme, usava precocemente aparelho nos dentes. Esclareço que tinha especial atração pelas meninas de aparelho, e não sabia que elas, meninas com ou sem aparelho, em geral não tinham interesse pelos foguetes. Enfim, me lembro de ter passado a noite em claro, ao lado do meu troféu, sonhando acordado.

O único problema é que eu era um menino arteiro, muito chegado a travessuras. Numa das manhãs seguintes, aprontei alguma. Não me lembro qual foi meu malfeito, mas devo ter implicado com meus irmãos, ou dito alguma coisa inconveniente, compulsão da qual nunca me livrei. Minha mãe era uma mulher dulcíssima, porém obstinada na educação dos filhos. Fez menção de me sapecar um corretivo.
Como eu tinha know-how de apanhar, me escondi atrás do sofá. Com isso, me tornei inalcançável para minha mãe. Em represália, ela passou a mão no primeiro objeto ao seu alcance —que, desgraçadamente, era o meu foguete —, e o atirou nas minhas costas. E meu sonho se despedaçou em mil caquinhos de plástico.

Foi assim que abandonei o Projeto Apollo.

O Globo, 09/07/201



Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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