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segunda-feira, 25 de novembro de 2019
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
ACADÊMICO E POETA GERALDO CARNEIRO É O PALESTRANTE DA SEGUNDA CONFERÊNCIA DO CICLO “CADEIRA 41”
A Academia Brasileira de Letras dá
continuidade ao seu Ciclo de Conferências intitulado Cadeira 41,
com palestra do Acadêmico, poeta e letrista Geraldo Carneiro. O
tema será No bar, com Tom Jobim, com a coordenação geral da
Acadêmica Ana Maria Machado. O evento está programado para
quinta-feira, dia 12 de setembro, às 17h30, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida
Presidente Wilson 203 - Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.
A intitulação Cadeira 41 remonta aos tempos
de fundação da ABL, em 20 de julho de 1897. Criada nos mesmos moldes da
Academia Francesa, o número máximo de Acadêmicos era de 40, o que continua até
os dias de hoje. Este Ciclo, no entanto, pretende apresentar quatro nomes que
poderiam ocupar, em suas épocas, uma dessas Cadeiras e, que, por razões
diferentes e individuais, não se tornaram membros da Academia.
A Acadêmica e escritora Ana Maria
Machado é a coordenadora geral dos Ciclos de Conferências de 2019.
Os Ciclos de Conferências, com
transmissão ao vivo pelo Portal da ABL, têm o patrocínio da Light.
Serão fornecidos certificados de
frequência.
Cadeira 41 terá mais duas
palestras, às quintas-feiras, no mesmo local e horário, com os seguintes dias,
conferencistas e temas, respectivamente: dia 19, Marisa Lajolo, Na
classe, com Mestre Candido; e dia 26, Acadêmico Cacá Diegues, Com
Jorge de Lima no coração.
O Acadêmico
Geraldo Carneiro é poeta,
letrista e roteirista de televisão, teatro e cinema.
É autor dos livros de poesia Em
busca do Sete-Estrelo, Verão vagabundo, Piquenique em
Xanadu (prêmio Lei Sarney de melhor livro do ano), Pandemônio, Folias
metafísicas, Por mares nunca dantes, Lira dos
cinquent’anos e Balada do impostor.
Publicou também Vinicius de
Moraes: A Fala da Paixão e Leblon: A Crônica dos Anos Loucos,
além de alguns sonetos traduzidos de William Shakespeare, na coletânea Sonhos
da Insônia (Impressões do Brasil, 97), publicada em parceria com
Carlito Azevedo.
Escreveu letras para canções com
diversos parceiros, tais como, Egberto Gismonti, Astor Piazzolla, John
Neschling, Francis Hime, Wagner Tiso. Além de textos para cinema, teatro e TV.
Pelo último roteiro escrito, a adaptação da novela O Astro, em
parceria com Alcides Nogueira, recebeu o prêmio Emmy.
No cinema, assinou os roteiros dos
filmes Eternamente Pagu (1987), de Norma Bengell, e O
judeu (1996), escrito com Millôr Fernandes, Gilvan Pereira e o diretor
do filme, Jom Tob Azulay.
Teve diversos textos teatrais
encenados, originais e traduções, entre os quais A Tempestade, As You
Like It e Antonio & Cleópatra, de William
Shakespeare; A Bandeira dos Cinco Mil Réis (encenada em 86,
publicada em 92), Manu Çaruê (ópera pós-tudo com música de
Wagner Tiso, encenada em 88).
Leitura
complementar
A Biblioteca
Rodolfo Garcia disponibiliza seu acervo para pequisa e leitura de
obras relacionadas ao tema desta conferência, como "João Ubaldo Ribeiro ou o banquete da linguagem", "Poemas reunidos" e "Discurso de posse do Sr. Geraldo Carneiro e resposta do
Sr. Antonio Carlos Secchin".
Para consultar mais
materiais como os citados, acesse o link abaixo e visite os "Levantamentos
bibliográficos" realizados para este evento.
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terça-feira, 4 de setembro de 2018
ABL: DIRETOR E ROTEIRISTA JORGE FURTADO ABRE NA ABL O CICLO DE CONFERÊNCIAS ‘CINEMA E LITERATURA’
Serão fornecidos certificados de frequência.
A Acadêmica Ana Maria Machado é a Coordenadora-Geral dos
ciclos de conferências de 2018.
Jorge Furtado adiantou um resumo sucinto do que será
sua conferência: “Vou falar sobre a transposição da literatura para a linguagem
audiovisual. Tenho duas profissões, sou diretor e roteirista, portanto conheço
bem de perto as dificuldades para transformar palavras escritas em imagens e
sons, pensamentos e emoções em ações e palavras. Vou comentar o assunto do modo
mais prático e objetivo possível, baseado em minha experiência pessoal em
trinta e seis anos de profissão. Como roteirista, eu adaptei para o cinema ou
para a televisão mais de trinta autores. Em cada um desses trabalhos me deparei
com problemas diferentes e experimentei, com maior ou menor sucesso, diferentes
soluções. Pretendo dividir com os ouvintes aquilo o que tenho de mais valioso:
minhas dúvidas”.
Cinema e literatura terá mais três palestras nas
quintas-feiras de setembro, no mesmo local e horário, com os seguintes dias,
conferencistas e temas, respectivamente: dia 13, Aderbal Freire Filho, Romance-em-sena:
questão de gênero; 20, Maria Adelaide Amaral, Literatura e
Teledramaturgia: diferenças e confluências; 27, Cacá Diegues, Letras e
Imagens: a literatura no cinema.
O CONFERENCISTA
Diretor e roteirista dos longas Houve uma vez dois
verões (2002), O homem que copiava (2003), Meu tio matou um
cara(2005), Saneamento Básico, o filme (2007), O mercador de
notícias (2014), Real Beleza (2015) e Quem é Primavera das
Neves (2017), Jorge Furtado dirigiu, também, diversos
curtas-metragens premiados no Brasil e no exterior, como: O dia em que
Dorival encarou o guarda (1986), Barbosa (1988), Ilha das Flores (1989), Esta
não é sua vida (1991) e O sanduíche (2000).
Para a TV Globo, Jorge Furtado dirigiu a
série Cena aberta (2003), a minissérie Luna callente (1998), Decamerão(2010),
as três temporadas de História do amor (2011/ 2012/2013), e os
telefilmes Homens de bem (2011) e Doce de mãe (2012). Este
último, originou a série em 14 episódios Doce de mãe (2014) e rendeu
dois prêmios Emmy Internacional: Melhor atriz, para Fernanda Montenegro, em
2013, e Melhor Série de Comédia, em 2015.
Os últimos de seus trabalhos para televisão são as
séries Mister Brau e Sob pressão, as duas da TV Globo. O mais
novo filme, Rasga coração, uma adaptação da peça de Oduvaldo Vianna Filho,
será lançado em outubro de 2018. Jorge Furtado é um dos
sócios-fundadores da Casa de Cinema de Porto Alegre.
31/08/2018
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sexta-feira, 22 de junho de 2018
ACADÊMICO GERALDO CARNEIRO COORDENA NA ABL O SEMINÁRIO BRASIL, BRASIS DE JUNHO, INTITULADO ‘LITERATURA E MISCIGENAÇÃO’
A Academia Brasileira de Letras dá continuidade à série de
Seminários “Brasil, brasis” de 2018 com o tema Literatura e Miscigenação, sob
coordenação do Acadêmico e poeta Geraldo Carneiro (sexto ocupante da cadeira
24, eleito em 27 de outubro de 2016) e a participação do professor Eduardo de
Assis Duarte. O coordenador-geral dos Seminários “Brasil, brasis” de 2018 é o
Acadêmico e professor Domício Proença Filho. O seminário está programado
para o dia 26, terça-feira, às 17h30, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida
Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro.
O Seminário Brasil, brasis, com entrada franca e transmissão
ao vivo pelo Portal da ABL, tem patrocínio do Bradesco.
O CONVIDADO
Eduardo de Assis Duarte possui graduação em Letras pela
UFMG (1973), mestrado em Literatura Brasileira pela PUC do Rio de Janeiro
(1978) e doutorado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela USP
(1991). Cumpriu programas de Pós-doutorado na UNICAMP e na UFF. Aposentado em
2005, mantém vínculo voluntário com a UFMG, atuando como professor colaborador
do Programa de Pós-graduação em Letras: Estudos Literários. Participa do Núcleo
de Estudos Interdisciplinares da Alteridade (Neia). Trabalha, em especial, com
os seguintes temas: literatura e alteridade; literatura afro-brasileira;
romance, história, sociedade; Machado de Assis; Jorge Amado. Coordena o grupo
de pesquisa “Afrodescendências na Literatura Brasileira” (CNPq) e o
literafro “Portal da Literatura Afro-brasileira”, com informações
biobibliográficas, críticas e excertos de mais de 100 autores.
20/06/2018
domingo, 26 de novembro de 2017
O BEM CONTRA O MAL - Geraldo Carneiro
O bem contra o mal
Talvez você ande horrorizada (o) com os últimos
acontecimentos políticos do Brasil. Talvez esteja achando que nasceu no país
errado, ou até pensando em se mudar para Portugal ou para a Cochinchina. No
entanto, como este almanaque dominical pretende trazer alegria ao coração das
leitoras e dos leitores, afirmo que os males que nos afligem poderiam ser
piores. Duvida? Pois vou lhe contar uma pequena fábula.
Certa vez, estava eu na casa de meu amigo João Ubaldo
Ribeiro e, numa pausa entre nossos afazeres profissionais, decidimos, por
distração, escalar a Seleção do Mal.
No gol, escalamos Torquemada, o Grande Inquisidor espanhol,
terror de judeus e muçulmanos. Dizem que, na dúvida, torturava e queimava
também cristãos, na certeza de que Deus, lá em cima, havia de fazer a triagem.
Felizmente, não me lembro quem era o lateral direito, mas sei que, para a
lateral esquerda, Ubaldo sugeriu Mao Tsé Tung. Discordei: “Mas o Mao é nosso!”
O João, peremptório, argumentou: “Dezenas de milhões de mortos.” E
restabeleceu-se a concórdia: Mao tornou-se titular absoluto.
No meio de campo, só escalamos volantes botinudos: Bokassa,
Pol Pot e Idi Amin Dada, todos genocidas. E, para completar o time, armamos o
ataque com Josef Stálin na esquerda, Calígula no meio, e Adolf Hitler na
ponta-direita. Só faltava o número 10, o gênio, o Zinedine Zidane, que fosse o
cérebro do time. Não me lembro qual de nós dois sugeriu o nome terrível: o
Marquês de Sade.
Quando acabamos de escalar a Seleção do Mal, trememos nas
bases, assombrados com o poder de fogo dessa reunião de criaturas malévolas.
Nossa sorte foi a chegada da dona da casa, Berenice Batella Ribeiro, musa e
patroa do João Ubaldo. Ao nos ver com a aparência lamentável que ostentávamos,
ela nos perguntou: “Que cara é essa, meninos?” Explicamos que havíamos acabado
de escalar a Seleção do Mal.
E ela, com a sabedoria que lhe é peculiar, recomendou: “Pois
escalem a Seleção do Bem.”
Esperançosos, escalamos Jesus Cristo no gol, de braços
abertos. São Francisco de Assis na lateral direita, Buda na lateral esquerda,
tirando proveito de seu porte físico para barrar os atacantes do Mal.
Não me lembro qual era o meio de campo, mas tinha craques
como José de Anchieta, volante moderno, capaz de catequizar, apoiar o ataque e
ainda marcar gol. Se não me falha a memória, o time tinha Gandhi, Zoroastro e
Tomás de Aquino. Só faltava o gênio, o camisa 10. Quando nos ocorreu o nome de
William Shakespeare, ficamos aliviados. Aleluia.
Moral da fábula: apesar das vicissitudes do presente,
podemos nos consolar com a ideia de que nossos vilões, graças aos céus, são de
terceira categoria. Não servem nem para a reserva da Seleção do Mal. Em breve
ficaremos livres deles. Ou será que me engano?
O Globo, 19/11/2017
Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL,
eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31
de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.
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segunda-feira, 30 de outubro de 2017
NOTÍCIAS DO CAOS - Geraldo Carneiro
Notícias do caos
Aconteceu uma pequena catástrofe aqui em casa: meu
escritório foi vítima de uma pintura.
Imagino que, na vida de uma pessoa razoável, seria apenas um
transtorno temporário. Mas, dessa vez, a pintura das paredes tornou meu habitat
uma sucursal do caos, pelo menos aos meus olhos.
O único benefício do desastre é que fui obrigado a passar em
revista alguns de meus pontos cardeais.
A primeira coisa que pendurei de volta
na parede foram os desenhos de Millôr Fernandes. Antigos, do início da década
de 60, quando ele se assinava Vão Gogo e escrevia uma coluna chamada Pif-Paf,
na revista “O Cruzeiro”, na qual meus companheiros de geração e eu tivemos o
privilégio de ser alfabetizados. Ou melhor, fomos refinadamente
analfabetizados, porque o Millôr nunca respeitou os cânones.
Depois me deparei com um quadro de minha querida Marília
Kranz, que, depois do furacão da pintura, ficou de pernas para o ar.
O que não
me espantou, porque Marília sempre teve a aptidão de virar o mundo de cabeça
para baixo — chegou a morar na Cidade do Vaticano, em circunstâncias que não
posso revelar aqui, por impróprias para menores de 69 anos. E ai do mundo se
não fizer o que ela manda! É uma generala. Perto dela, Napoleão Bonaparte
parece o Toni Ramos.
Atrás de mim, entre meus poucos troféus, ficou um que, por
acaso ou não, se chama Ana Cristina César, minha ex-colega da PUC. Sempre fomos
felizes em nossa amizade, até que ela resolvesse pôr fim à sua vida de pássara
e poeta.
No mesmo lado da estante fica a imagem de William
Shakespeare, sorrindo, carregando a caveira mais famosa do teatro mundial. E
uma coleção de figuras literárias: Dom Quixote, Shakespeare de novo, James
Joyce, Mark Twain e Edgar Allan Poe — sendo este o mais doido de todos, mais
doido do que todos nós, o que já é um consolo. Se não me engano, o quarteto me
foi trazido por minha querida Edna Palatnik.
Do outro lado do escritório há uma estante com retratos
românticos e um pequeno álbum de família. Havia também uma galeria de fotos de
amigos, mas acho que não vou pendurá-la de novo, porque, ao vê-la, sinto
saudades dos outros e de mim.
Há também uma aquarela que comprei no Quilombo da Marambaia,
onde fui a bordo de um saveiro, em missão poético-cultural. Como tinha quebrado
a perna e estava usando muletas, atolei no caminho, que era um verdadeiro
areal. Fui içado e salvo pelos quilombolas, como se eu fosse um Indiana Jones
depois da tuberculose.
Ainda falta pendurar os álbuns de Flash Gordon e Príncipe
Valente, heróis de minha infância. E também a reprodução de “O jardim das
delícias terrenas” — pintado por Hieronymus Bosch, no século XV —, antes que
algum pastor ou autoridade eclesiástica venha aqui em casa confiscá-lo, em nome
da moral e dos bons costumes.
O Globo, 22/10/2017
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Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL,
eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31
de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.
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domingo, 8 de outubro de 2017
‘NÃO ME ESQUECI DE VOCÊ’ - Geraldo Carneiro
‘Não me esqueci de você’
Meu amigo João Ubaldo Ribeiro era das pessoas mais generosas
do mundo — ou pelo menos do balneário do Rio de Janeiro.
Meu escritório é cheio de lembranças dele. Não me refiro só
a livros, que estão em toda a parte, mas a presentes que ele comprava na
esquina ou trazia de viagens, entre os quais uma lamparina made in Bahia, um
canivete suíço, comprado na livraria Letras & Expressões, e uma caneta
Lamy, modelo standard, que veio da Alemanha e se tornou meu talismã.
O problema é que Ubaldo cobrava sempre o uso do presente.
Certa vez me deu um par de binóculos. No dia seguinte, telefonou: “Já usou o
binóculo que eu lhe dei?” Eu, que moro na selva do Jardim Botânico, diante de
uma pedreira, não sabia onde usá-lo. Ubaldo telefonou de novo, insistindo, e me
vi obrigado a ir até a rua para acompanhar, de binóculos, um ciclista, que
ficou preocupadíssimo: desconfiou que eu era detetive particular.
Ubaldo me confessou que cultivava uma prática que aprendera
com Dorival Caymmi: o “não me esqueci de você”. Explico: sempre que voltava de
viagem, Caymmi trazia uma caixa cheia de bugigangas, caixa essa que era uma
espécie de baú da felicidade. Quando um amigo chegava de surpresa, Caymmi abria
a caixa, pescava algum objeto dentro dela — um brinquedo, um chaveirinho, a
réplica de um monumento — e dava-o ao visitante, acompanhado da frase-chave:
“Não me esqueci de você.” O visitante ficava encantado.
Um dia Ubaldo voltou da Europa. Assim que fui visitá-lo, ele
desobedeceu a receita de Caymmi e abriu diante de mim a caixa do “não me
esqueci de você”. Por preguiça de distribuir presentes, pediu que eu escolhesse
mais de uma lembrança. Hesitei. Então ele me entregou, mais ou menos ao acaso,
os que lhe pareceram mais extravagantes: uns óculos de leitura vermelhos; uma
pequena escultura que reproduzia um casal de namorados; um preservativo alemão
feito de material triplamente resistente. Por quê? Não sei.
Cheguei em casa e espalhei os mimos pelos cômodos: o
preservativo na mesa de cabeceira, o casal de namorados num armário perto da
cozinha, os óculos vermelhos na escrivaninha.
Esqueci de dizer que minha musa estava fora da cidade e,
quando chegou, ao se deparar com tais objetos, supôs que uma sirigaita — como
se dizia em séculos passados — teria se introduzido no outrora sacrossanto
recesso do lar.
Imagino que ela deve ter feito fantasias sanguinárias a meu
respeito. Mas quando se deparou com o suposto criminoso — isto é, eu —, com a
cara mais inocente do mundo, ela percebeu que não precisava levar adiante o
inquérito. Só perguntou: “De onde surgiram esses objetos?” Respondi: “Foi o
João Ubaldo que trouxe.
Já ouviu falar no ‘não me esqueci de você’?” Ela
sorriu, cúmplice, e vivemos felizes para sempre.
O Globo, 01/10/2017
Geraldo Carneiro
- Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na
sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico
Antonio Carlos Secchin.
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sexta-feira, 22 de setembro de 2017
HISTÓRIAS DE AMOR, por Geraldo Carneiro
Histórias de amor
Perguntaram a uma menina inglesa se ela conhecia Shakespeare e, caso o conhecesse, quais eram suas peças favoritas. A menina respondeu que eram duas: “Uma, Romeu; a outra, Julieta.”
Perguntaram a uma menina inglesa se ela conhecia Shakespeare e, caso o conhecesse, quais eram suas peças favoritas. A menina respondeu que eram duas: “Uma, Romeu; a outra, Julieta.”
O desencontro trágico de dois namorados cujas famílias são
rivais não é apenas uma história bem arquitetada: é uma história universal.
Pode se passar em lugares tão estranhos como Cabul, Istambul ou Rio Grande do Sul.
Nem todo mundo sabe, contudo, que Shakespeare não inventou a
trama: ele a adaptou de um poema inglês, que se baseou num texto francês, que
era a adaptação de um conto italiano, escrito por Luigi da Porto. Que, por sua
vez, se inspirou em textos anteriores. Em suma, parafraseando o filósofo
Chacrinha, quase nada se cria, quase tudo se copia.
Shakespeare, no entanto, compreendeu a força dramática do
conto.
Reproduziu a trama nos mínimos detalhes e ainda teve o cuidado de mudar
o sobrenome de Julieta para Capuleto, e não Capeletti, como em da Porto, o que
a tornaria demasiado comestível. Já imaginou uma heroína chamada Julieta
Capeletti?
A grande sacada de Shakespeare foi escrever os três
primeiros atos de “Romeu e Julieta” como uma comédia romântica, tendo ao fundo
a guerra pelo poder entre as famílias de Verona. As falas dos asseclas dos
Capuletos e Montéquios parecem extraídas de um filme do Tarantino. Essa
violência serve como contraponto para o trunfo maior de Shakespeare: as
palavras de amor. Romeu se esconde diante do balcão de Julieta. E ao vê-la, diz
para si mesmo:
Romeu: “Que luz é essa que irrompe na janela?
Será o nascente, e Julieta é o sol?
Levanta, sol, e mata a lua ciumenta,
Que já está pálida com a dor da inveja
Por seres tão mais bela do que ela.
E Julieta, ainda sem vê-lo, sonha em voz alta:
Julieta Ó Romeu, Romeu... Por que és Romeu?
Nega teu pai, recusa esse teu nome;
Senão, é só jurar-me o teu amor,
E eu já não mais serei uma Capuleto.”
Romeu escuta as palavras de Julieta e, quando ela confessa
seu amor por ele, se revela para a amada. Julieta, entre a perplexidade e o
êxtase, se declara. Só faz uma pequena restrição:
Julieta: “Embora eu tenha em ti minha alegria,
Não me alegra essa aliança em meio à noite,
Tão brusca, repentina e tão imprevista,
Como um relâmpago que logo apaga
Antes que alguém proclame a sua luz.
Boa noite, amor. Que o sopro do verão
Transforme esse botão de amor em flor
Quando nos encontrarmos outra vez.
Boa noite, e que tenhamos toda a calma
Tanto em teu coração quanto em minha alma.”
Como todos sabem, os dois se casaram em segredo e foram
felizes por três dias. Dirá você que a felicidade não durou muito. Pois é.
Mas
três dias de amor já são um pouquinho de eternidade.
O Globo, 17/09/2017
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Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL,
eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31
de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.
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domingo, 17 de setembro de 2017
NOMES PRÓPRIOS, por Geraldo Carneiro
Nomes próprios
Sempre fui fascinado por nomes. Quando era criança, me
lembro que os jornais e revistas volta e meia publicavam listas de nomes
incomuns. E sempre constavam Um Dois Três de Oliveira Quatro, Rolando
Escadabaixo de Andrade e Restos Mortais de Catarina, entre outros nomes,
próprios ou impróprios.
Outro dia procurei na internet a lista do TSE e descobri
outras pérolas, como Deusa do Amor Divino Tortieri, Danúbio Tarada Duarte,
Esparadrapo Clemente de Sá, Felicidade do Lar Brasileiro, Faraó do Egito Souza,
Fraternidade Nova York Rocha, Frankstein Júnior, Gêngis Khan Camargo e Graciosa
Rodela.
Mas a capacidade de criar nomes não parou por aí. Na lista
há outros eleitores também notáveis, como a Sra. Talvez Aberta Demais de
Oliveira, o Sr. Ácido Acético Etílico da Silva, o Dr. Alfredo Prazeroso
Texugueiro, Dr. Antônio Morrendo das Dores, Dona Defuntina de Souza Cruz, Dr.
Himineu Casamentício das Dores Conjugais e a Dona Ambrísia Estilingue Morretes.
O curioso é que esses nomes raros surgem às vezes por acaso.
Como muita gente sabe, meu amigo Millôr Fernandes foi batizado Milton Viola
Fernandes. Só que o escrivão do Méier, por criatividade ou analfabetismo,
deixou de grafar o tracinho horizontal da letra “t”, e, como se não bastasse,
sapecou um circunflexo no “o”. Assim, o Milton virou Millôr. Só aos 16 anos
Millôr descobriu sua nova velha identidade. Ficou felicíssimo.
Já a avó materna de minha musa e patroa chamava-se Violina —
pelo menos até ser matriculada na escola e ouvir pela primeira vez a lista de
chamada, quando descobriu que se chamava Deolinda. É que seu pai era português
e, ao pronunciar o nome da filha no cartório, o escrivão confundiu alhos com
bugalhos.
Há experiências ainda mais triviais. Meu filho mais velho,
Joaquim Pedro, nasceu três dias depois de Alexandre, primogênito de Egberto
Gismonti, meu parceiro de canções, em 1981. Fomos juntos batizá-los no
<SW,26>cartório da Rua Djalma Ulrich, em Copacabana. Lá chegando,
encontramos um admirador de música, que ficou feliz ao deparar conosco.
Combinamos que cada um de nós seria testemunha no registro dos filhos dos
outros. Para adiantar a burocracia, perguntei ao colega: “Qual é o nome do seu
filho?” E ele me respondeu: “Raôni”, com acento no o.”
Com muito jeito, procurei esclarecer que havia um cacique
indígena chamado Raoni, com acento no i. Mas o colega insistiu: “O meu é Raôni,
com acento no o.”
Só então percebi que, em matéria de nomes, não há o que
discutir: o que manda é a convicção dos pais. Se a cidadã ou cidadão quiser
batizar o filho com outros nomes que constam da lista do TSE, como Colapso
Cardíaco da Silva ou Maria Regina do Pinto Magro, tudo bem, tem todo o direito.
Mas pode ter certeza de que vai fazer a festa dos cronistas do futuro.
O Globo, 10/09/2017
Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL,
eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31
de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.
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quarta-feira, 6 de setembro de 2017
BARCAROLA - Geraldo Carneiro
Barcarola
Tenho ouvido muita gente dizer horrores sobre o tempo em que
vivemos. Não é a primeira vez. Em 1979, me lembro que o Brasil também nos
parecia insuportável, com ditadura e recessão. E não só o Brasil. John Lennon
havia decretado o fim do sonho, no início da década, e a ambição havia vencido
as utopias. Nós, sonhadores, estávamos mais por fora do que poupança de
chacrete.
Como sempre, busquei consolação na poesia. Encontrei um
poema de Ezra Pound, chamado “The Lake Island”, que traduzi assim:
“Ó Deus, ó Vênus, ó Mercúrio, protetor dos ladrões,
Emprestai-me uma pequena tabacaria,
Ou estabelecei-me em qualquer profissão,
exceto essa maldita profissão de escritor,
na qual a gente precisa do cérebro o tempo todo.”
Para completar, Antônio Callado tinha publicado alguns anos
antes seu livro “Bar Don Juan”, inspirado nas histórias do Antonio’s, o bar
mitológico que morava em certa esquina do Leblon. Na epígrafe do livro, Callado
citava um texto de W.H Auden: “Quando se interrompe o processo histórico (...),
quando a necessidade se associa ao horror e a liberdade ao tédio, a hora é boa
para se abrir um bar.”
Inspirado em tão admiráveis exemplos, resolvi levá-los à
prática. Meu bar se chamava Barcarola, em homenagem a um livro de Neruda.
Ficava num pequeno terreno à beira-mar, em Rio das Ostras. Havia nele dois
palcos, restos cenográficos do musical “Lola Moreno”, que eu escrevera com
Bráulio Pedroso e John Neschling. Um deles deveria ser reservado à música, o
outro, ao teatro. Em tese, seria um bar dedicado às artes. Um centro cultural
alcoolizado.
Doce ilusão. O Barcarola foi um sucesso tão grande que
jamais encenamos as peças e shows que pretendíamos. Já na inauguração, meus
amigos beberam todo o estoque — confesso que com minha modesta colaboração. Meu
sócio Manoel Reis e eu só fazíamos carregar caixas de cerveja, comprar vodca,
tomar providências.
Minha irmã Elizabeth, que aceitara o cargo de gerente e que
dividia as tarefas mais pesadas conosco, sabiamente pediu rebaixamento para
garçonete.
Pior é que os bêbados desrespeitavam nossas funcionárias. E
eu era o segurança, com meu corpinho de pré-tuberculoso. Apareciam bandidos
municipais e estaduais perguntando: “Quem é o dono desta espelunca?” Eu tinha
que dar uma de John Wayne, embora não tivesse o armamento, nem a valentia, nem
o physique du rôle.
Quando me livrei do Barcarola, logo depois do
carnaval, suspirei aliviado. Dali por diante, só entraria num bar como
sócio-atleta.
Que lições extraí do Experimento Barcarola? Não sei. Talvez
todo tempo tenha o seu horror e a sua graça. Pelo menos retrospectivamente. Ou,
como disse Guimarães Rosa, viver é muito perigoso. E seja qual for o motivo,
mesmo nas piores circunstâncias, precisamos comemorar a vida.
O Globo, 03/09/2017
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Geraldo Carneiro
- Sexto ocupante da Cadeira 24, eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de
Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos
Secchin.
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sexta-feira, 25 de agosto de 2017
ROMANCISTA CRISTOVÃO TEZZA FAZ NA ABL A PALESTRA DE ENCERRAMENTO DO CICLO “REALISMO EM QUESTÃO’” SOB COORDENAÇÃO DO ACADÊMICO GERALDO CARNEIRO
A Academia Brasileira de Letras encerra seu Ciclo de
Conferências do mês de agosto de 2017, intitulado Realismo em questão, com
palestra do romancista Cristovão Tezza. A coordenação será do Acadêmico e
poeta Geraldo Carneiro.
A conferência, intitulada “Literatura e autorrepresentação”,
está programada para o dia 29 de agosto, terça-feira, às 17h30min, no Teatro R.
Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro. Entrada
franca.
A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado,
Primeira-Secretária da ABL, é a Coordenadora-Geral dos ciclos de conferências
de 2017.
Serão fornecidos certificados de frequência.
Acadêmico Geraldo Carneiro convida para o Ciclo de
conferências "Realismo em questão"
Saiba mais
Cristovão Tezza é autor dos romances Trapo, O
fotógrafo, Breve espaço, Um erro emocional, O fantasma da infância, O
professor e A tradutora, entre outros. Seu livro O filho eterno,
de 2007, recebeu os mais importantes prêmios literários do Brasil, foi
publicado em uma dezena de países e adaptado para o cinema. É colunista
quinzenal da Folha de S. Paulo. Lançou duas coletâneas de
crônicas: Um operário em férias e A máquina de caminhar. Em
2012, publicou O espírito da prosa, sua autobiografia literária.
23/08/2017
* * *
sexta-feira, 18 de agosto de 2017
SONHO DOURADO – Por Geraldo Carneiro
Sonho dourado
Mas meu sonho, como tantos outros, fracassou. O Jardim
Botânico está cheio de plaquinhas em português e inglês, explicando quase tudo.
E, como se não bastasse, é dirigido por Sérgio Besserman Vianna, que é muito
culto, sabe esclarecer os visitantes sobre os babados da chegada de Dom João VI
ao Rio, fugindo das tropas de Napoleão.
Só me restaria explorar alguns detalhes, como o merecido
prestígio da Caesalpinia echinata — ou pau-brasil, para os íntimos. Dizem que o
pau-brasil tinha uma resina da qual se extraía uma tinta de cor avermelhada,
muito em moda na Europa. Por isso portugueses e franceses — que sempre foram
fashionistas — vieram saquear nossa Mata Atlântica. Segundo os estudiosos,
havia cerca de 70 milhões dessas árvores na costa do Brasil. Hoje é raro
encontrar uma única por aí, a não ser na poesia de Oswald de Andrade. Com o
perdão do trocadilho, é uma árvore ex-tinta.
Se eu fosse guia, indicaria para refúgio dos namorados o
Mirante da Imprensa — até o nome é sugestivo —, espécie de coreto construído
diante do Lago Frei Leandro, de onde se pode enxergar as vitórias-régias, o
Cristo Redentor e, conforme a voltagem da paixão, uma boa parte do infinito.
De volta às maravilhas do mundo real, o visitante achará a
Fonte de Eco e Narciso, cuja história completa não consta da plaquinha. As duas
figuras, inspiradas num personagem da mitologia grega que se apaixona por si
mesmo — o que é muito comum hoje —, foram esculpidas para o Passeio Público,
por Mestre Valentim, no fim do século XVIII. Depois removidas para o Jardim
Botânico, mas mantidas uma distante da outra. Só mais tarde foram reunidas, por
campanha promovida pelo admirável Antonio Callado, glória da literatura brasileira,
que está completando cem anos de nascimento.
O ponto alto de minha visita guiada, no entanto, seria a
fachada da Escola Imperial de Belas Artes. Quando eu era menino, pensava que
aquilo fosse um palácio fantasma. Depois descobri que aquele misterioso portal
fora desenhado pelo arquiteto Grandjean de Montigny. Ele veio ao Brasil com a
Missão Francesa, para ensinar nossos artistas a imitar o estilo mais moderninho
da época, o neoclassicismo. Com a demolição da escola, sua fachada foi
transferida para o JB.
Segundo cronistas, Grandjean de Montigny acabou por
radicar-se no Rio e adotar os costumes locais. Botou pra quebrar durante o
entrudo de 1850, em que os foliões arremessavam uns nos outros baldes d’água,
limões de cheiro, ovos, lama, o diabo. Graças à brincadeira, o francês contraiu
uma infecção e faleceu pouco depois, no início de março. Em suma, Grandjean
tornou-se tão carioca que morreu de carnaval.
O Globo, 13/08/2017
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Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL,
eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31
de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.
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segunda-feira, 7 de agosto de 2017
TURISTA DE QUINTA - Geraldo Carneiro
Turista de quinta
Sou um turista de quinta categoria. Sempre me identifiquei
com uma frase atribuída a Nelson Rodrigues, que, segundo seus amigos,
declarava: “Quando atravesso o Túnel Rebouças, sinto uma enorme nostalgia do
Brasil.”
Na verdade, não sou tão radical. Adoro o Rio além e aquém
túnel. E é claro que viajo pelo planeta, quando é inevitável, fingindo que
estou me divertindo horrores. Às vezes até me divirto mesmo.
Semana passada cheguei de Bariloche, onde fui a convite de
meus sogros, Inabel e Paulo. Um hotel belíssimo. A companhia? Magnífica. Mas
fiquei contemplando aquela neve toda e me sentindo como um pinguim em
Copacabana. Poderia alegar que houve contratempos: minha musa torceu o joelho
descendo de esquibunda — não se pode confiar num esporte com tal nome; eu, pelo
menos, não confio. A verdade, porém, é que sou sempre aquele brasileiro
anedótico, que compara as maravilhas do universo com as trivialidades de sua
terra natal.
Quarenta anos atrás, por exemplo, morei alguns meses no
centro histórico de Roma, e só fui ao Vaticano 20 anos depois. Claro que tinha
curiosidade de conhecer a cúpula do Michelangelo, as esculturas de Bernini etc.
A preguiça turística, no entanto, não me permitia atravessar o Rio Tibre.
Se meus anfitriões, Amelita Baltar e Astor Piazzolla, me
mostravam a silhueta do Coliseu, visto de uma varanda da burguesia socialista,
eu declarava solenemente: “Prefiro o Diagonal.” Se me apresentavam outra
maravilha, como a Fontana di Trevi, eu dizia: “É bonita. Mas prefiro o
Diagonal.”
Um parêntese. O Diagonal, para quem não sabe, era o
epicentro do Baixo Leblon, conjunto de botequins do bairro, frequentados pela
fina flor da arte e da boemia. Quase todas as pessoas interessantes do Rio
apareciam por lá, de Nelson Cavaquinho a Tom Jobim. Em matéria de atmosfera, o
Diagonal dos anos 70 era a versão carioca do Café de Flore, 20 anos antes, em
Paris. Embora concretamente fosse um barzinho mixuruca, com um cheirinho
nauseabundo e algumas baratas quase sempre de plantão.
Hoje, graças à mudança dos tempos e à saúde pública,
melhorou muito. Fecha o parêntese.
Alguns meses depois, Piazzolla veio ao Brasil para fazer
shows, como fazia quase todos os anos.
Assim que chegou, me pediu, com seu sotaque indefectível:
“Llevame a Diagonal!” Obedeci. Quando lá chegamos e ele se deparou com a
precariedade daquele templo da boemia, emitiu uma exclamação tão pejorativa que
não posso reproduzi-la neste almanaque dominical.
Depois ele compreendeu que toda cidade é uma invenção da
memória sentimental de seus moradores.
Cada cidade é uma Troia, mesmo que não guarde a memória de
sua tragédia. E é também um Tivoli Parque, onde nossa imaginação será feliz
para sempre.
Em suma, o mundo inteiro não vale o meu bar.
O Globo, 06/08/2017
Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL,
eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31
de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.
domingo, 30 de julho de 2017
O REINO ANIMAL - Geraldo carneiro
O reino animal
Nunca tive um animal de estimação. A não ser meus amigos —
que são animais relativamente racionais.
Quando eu era criança, durante o breve período em que
moramos em Brasília, ganhei um casal de coelhos, Lico e Lica. A Lica teve um
destino trágico: foi devorada pelo cachorro do vizinho. Já o Lico, quando nos
mudamos de volta para o Rio, ficou em Brasília, foi adotado por um jornalista
amigo da família e virou comentarista político de TV.
Você não acredita? Pois o Lico trabalhava num programa
chamado “O coelho e eu”, no qual o jornalista Aluísio Chaves lhe fazia
perguntas sobre a atualidade política. Por exemplo: “O que você acha do governo
Temer?” A câmera cortava para o focinho do Lico, sempre em movimento, parecia
que estava falando. E o Aluísio fingia reproduzir sua fala: “Segundo o Lico, o
governo Temer é digno de uma República de Bananas.”
Anos depois, um veterinário descobriu que o Lico era Lica.
Parece que o sexo dos coelhos, tal como o dos anjos, é matéria complicada. E
creio que Lico/Lica se tonou o primeiro transgênero celebrizado pela TV dos
anos 60.
No capítulo dos felinos, tive duas gatas. A primeira se
chamava Teresa. Levei-a para morar lá em casa contra a vontade de meu pai, que
tinha trauma de infância provocado pela morte involuntária de uma gatinha. Como
era um coração democrático, porém, papai aceitou provisoriamente a coabitação
com Teresa. Até a noite em que chegou em casa meio embriagado e, quando foi
respirar fundo, na penumbra da sala, sentou-se no sofá em cima dela. Saíram os
dois miando e gritando, cada qual para o seu lado. Acabei forçado a levar
Teresa para o apartamento do historiador Hélio Silva, que não só a adotou como
chegou a exibi-la no colo, na capa da “Veja”.
A segunda se chamava Eleanor Rigby, mais conhecida por Lelê.
Lelê e eu vivíamos em completa felicidade conjugal. Só que um dia meu filho
mais velho, Joaquim Pedro, partiu para Tiradentes, para gravar uma minissérie.
Lelê apaixonou-se pela ausência dele.
Desolada, ela se deitava todas as noites
sobre os tênis de Joaquim.
Me lembrei de Drummond: a falta que ama. Logo
percebi que Lelê me abandonaria, em companhia de meu filho. Tiro e queda. Aconteceu.
Nos últimos anos tivemos aqui em casa a Dáwa — que significa
Lua em tibetano — , uma cachorrinha que nos abandonou há cerca de dois anos. A
arte de perder é difícil de dominar, ao contrário do que diz a poeta americana
Elizabeth Bishop, com dolorosa ironia.
Há duas décadas, meu amigo Millôr Fernandes perdeu seu Igor,
um poodle simpático. Nunca o vi tão triste, ficou jururu durante um ano. E
agora minha amiga Nélida Piñon perdeu o seu amado Gravetinho. Aqui vai o meu
carinho para acalentá-la.
Na próxima encadernação espero merecer o amor dos animais.
O Globo, 23/07/2017
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Geraldo Carneiro
- Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na
sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico
Antonio Carlos Secchin.
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quarta-feira, 12 de julho de 2017
PROJETO APOLLO - Geraldo Carneiro
Projeto Apollo
Meu filho mais moço, Vinicius, acaba de chegar à avançada
idade de 6 anos. Entre seus presentes de aniversário, ganhou um foguete Apollo
de isopor, com propulsão a vento, invenção de um provável camelô da China.
Não sou dado a recordações proustianas, mas esse episódio me
devolveu à infância. Ali pelos 9 de idade, no princípio dos anos 60, também
ganhei uma réplica de foguete Apollo, trazida de presente dos Estados Unidos
pelo único amigo próspero de meu pai — porque nós, os pais e filhos da classe
média, raramente íamos muito além de Tribobó.
Como eu não tinha habilidade para montar as centenas de
peças de meu foguete, recorri a um amigo mais velho, Ricardo, um ancião de
cerca de 17 anos. Ele passou uma tarde inteira montando as peças do meu sonho.
Um parêntese. O Projeto Apollo começou nessa época, com o
propósito de conquistar o espaço para os americanos. Eles já haviam levado uma
surra dos russos, que tinham posto em órbita o satélite Sputnik, depois a
cadela Laika, e por fim o primeiro astronauta, Yuri Gagárin. Em resposta, os
americanos lançaram o Projeto Apollo, para chegar à Lua antes dos soviéticos.
Fecha o parêntese.
O Ricardo montou com perícia e paciência todas as pecinhas
do meu foguete. Fiquei ali, ao seu lado, pensando nos voos que faria no futuro,
na Nasa da imaginação.
Fiz muitos planos para o meu foguete. Pensei em levá-lo ao
colégio para exibi-lo aos colegas. Eu era apenas um menino latino-americano,
sem parentes importantes e vindo do interior, mas imaginei que, graças ao meu
foguete, ganharia prestígio com os amigos da beira-mar.
Quem sabe até eu conquistasse a simpatia de certa colega de
turma, carioca da gema que, como supremo charme, usava precocemente aparelho
nos dentes. Esclareço que tinha especial atração pelas meninas de aparelho, e
não sabia que elas, meninas com ou sem aparelho, em geral não tinham interesse
pelos foguetes. Enfim, me lembro de ter passado a noite em claro, ao lado do
meu troféu, sonhando acordado.
O único problema é que eu era um menino arteiro, muito
chegado a travessuras. Numa das manhãs seguintes, aprontei alguma. Não me
lembro qual foi meu malfeito, mas devo ter implicado com meus irmãos, ou dito
alguma coisa inconveniente, compulsão da qual nunca me livrei. Minha mãe era
uma mulher dulcíssima, porém obstinada na educação dos filhos. Fez menção de me
sapecar um corretivo.
Como eu tinha know-how de apanhar, me escondi atrás do
sofá. Com isso, me tornei inalcançável para minha mãe. Em represália, ela
passou a mão no primeiro objeto ao seu alcance —que, desgraçadamente, era o meu
foguete —, e o atirou nas minhas costas. E meu sonho se despedaçou em mil
caquinhos de plástico.
Foi assim que abandonei o Projeto Apollo.
O Globo, 09/07/201
Geraldo Carneiro
- Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na
sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico
Antonio Carlos Secchin.
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