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quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Um homem lúcido

Ignácio de Loyola Brandão

 


Havia naquela cidade uma mulher que prometera nunca se casar se isso fosse bom para a humanidade a fim de conter o aumento populacional. Não eram poucos os pretendentes, ela era bonita. Não dessas belezas estonteantes, inatingíveis, de comerciais de tevê, principalmente os que vendem cervejas. Aliás, até hoje me pergunto a relação entre cerveja e mulher bonita. Porque? Ao olhar para uma você sente sede? Mas, sede você mitiga com água. E neste mundo corretamente político pergunto: uma mulher feia não inspira a pessoa a tomar cerveja? Preconceito? Machismo? Uma cerveja geladíssima pede paisagem deserta, sem fim, extensão super escaldante. Um lugar onde você precisa caminhar aos pulinhos para não queimar os pés pede o que? Cerveja geladíssima na mente publicitária.

Faz semanas que isto me intriga. Penso tanto que meu cérebro ferve, e com os neurônios queimados o pensamento se torna impossível para mim, preciso me refrescar, fico desesperado em busca de um oásis, com palmeiras, ou tamareiras, porque me parece, ou melhor, parece-me que as tâmaras se dão bem em regimes quentes.

O que, pensando racionalmente, se é que alguém no mundo pensa racionalmente, a não ser os Inteligentes Artificias que entraram em moda. No entanto, confesso que tenho 87 anos e ainda não encontrei nenhum Inteligente Artificial e me alertaram que se eu for procurar entre os políticos, aí é que ficarei desiludido. É um desastre.

Súbito, minha esposa me chama a atenção. Que elocubrações são essas que vejo como legendas na sua testa? No futuro haverá legendas nas nossas testas. Como pensar que em meio a um deserto ardente (nada a ver com a Sarça Ardentes bíblica) uma pessoa apareceria com um isopor cheio de garrafas de cerveja? Para vender a quem? Imaginou o preço que este ambulante cobraria? Uma exorbitância e ninguém reclamaria. Claro, sentado em uma duna no deserto, solão ardendo, você recusaria aquele liquido gelado por causa de uns reais. Uns? Não! Nem dezenas. Centenas. Milhares. Porque, reconheçamos, vale. Mas talvez pudesse pagar em Drex. A nova moeda que o Brasil inventou. Sim, mas espere, para sentar-se na areia fervente, será bom levar uma almofada climatizada, gelada. Ou será catastrófico para o traseiro? Drex. Já vivi a época do conto de reis, do mil reis, do cruzeiro, do cruzado, do cruzado novo, do real, da bitcoin. Mas estas serão outras considerações menos complexas. Não, não tomei ácido, estou lúcido. Como qualquer brasileiro.

Estado de São Paulo, 09/08/2023

 https://www.academia.org.br/artigos/um-homem-lucido

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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domingo, 14 de maio de 2023

Aprendi em Paraitinga

Ignácio de Loyola Brandão

 


Carmem e Marcelo Mercadante, médicos e amigos, ligaram: 'Aqui, em São Luiz do Paraitinga, começa uma feira literária, a primeira. Passem o fim de semana conosco'. Nem tinham desligado, estávamos lá com o compositor Hélio Ziskind e Carla, influencer, minha cunhada.

Nesse meio tempo, o casal tinha entrado em contato com Suzana Salles, a cantora, que se comunicou com Alexandre Gennari e outros curadores, de modo que cheguei como autor-surpresa. A Feira. Pequena, impecável. Quando se quer, se faz, não chora.

A prefeita Ana Lúcia Bilard Sicherle presente na primeira fila. Terceiro mandato de uma mulher. Três dias com Marcelino Freire, Penélope Martins, Leusa Araujo, Rubia Konstantyn, Alice Ruiz, Milton Hatoum, Tati Bernardi e eu. Mais escritores da região, essenciais.

Sei disso, saí do interior. Auditórios lotados - gente espalhada pelo chão - em todas as sessões. Professores das proximidades. O antigo clima de alegria das festas literárias recomposto.

A cidade é conhecida por sua resiliência desde a enchente de 2010, catástrofe vencida pela população. Na fala de Milton Hatoum, sujeito sóbrio, corajoso, o mediador fez uma pergunta complexa sobre tempos atuais, inteligência artificial, redes sociais, GPT, etc. Milton, tranquilo: 'Não sei responder'. Foi aplaudido.

Aos 86 anos, aprendi uma lição. Aprende-se em qualquer idade, estando disposto. Posso responder não sei. Mas, e a vaidade? A coragem? Admitir a incapacidade ou tentar enrolar?

Vi em São Luiz que a plateia gosta de sinceridade. Marcelino Freire e Tati Bernardi corajosamente falaram de suas famílias, mães e pais, e tias, amigos, tocaram pela coragem de admitir neuras, loucuras, esquizofrenices. Porque na plateia sempre tem uma história esquisita igual à nossa.

Alice Ruiz revelou como é fácil escrever um poema e uma letra de música. Mas vá fazer sua letra, seu poema. Dureza, sensibilidade.

Esteve tão bem e encantadora a Festa Literária de São Luiz que até os cães gostaram. Em todas as sessões, um vira-lata entrou, passeou pela primeira fila, achou um lugar, se acomodou ficou até o final. Compenetrado. Disseram-me que acompanha todas as procissões da cidade, que é lindinha. O cão só não tinha crachá!

Abh, cães! Quase me esqueço. Carmem e Marcelo abrigam em seu sítio duas cadelas, Pitanga e Canela. No dia em que chegamos, as duas tiveram um entrevero, Pitanga caiu de um deck, machucou-se. Marcelo, que é ortopedista, já tratei a lombar com ele, cuidou, enfaixou. Pitanga passou a mancar e todo mundo a agradava com afagos e comidas. Duas horas depois, Canela também estava mancando, esperando agrados. Cães são iguais a nós.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'.

Jornal O Estado de S. Paulo, 07/05/2023

https://www.academia.org.br/artigos/aprendi-em-paraitinga

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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segunda-feira, 10 de abril de 2023

O corrimão

Ignácio de Loyola Brandão

 


Depois de um intervalo de três anos, voltei às palestras pelo interior do Brasil. Alegria ao reencontrar o público, principalmente os professores. Tive um companheiro especial pelo interior mineiro, Campos Altos, São Gotardo e Ibiá. Mauro Ventura, escritor e jornalista, filho de Zuenir Ventura, meu colega na Academia Brasileira de Letras. Ele seguiu como mediador, mas funcionou principalmente como meu 'cuidador'. Aos 86 anos, me veio um leve desequilíbrio físico ao andar. Adotei uma bengala, que, às vezes, me parece elegante. Outras, me deixa constrangido, expondo minha fragilidade. Vaidades. Também, vez ou outra, me vem a vontade de dar bengaladas. Contenho-me, as pessoas estão em ponto de bala, pisando nos cascos, não se sabe o que pode acontecer.

Mas descobri um lado que ainda existe, a cordialidade. Pessoas que me estendem a mão, abrem portas, levam a bengala enquanto subo a escada do avião, apoiado ao corrimão. Ah, sim, aqui está onde queria chegar, ao corrimão. Certo dia, perguntei a uma plateia de jovens: 'Qual foi a melhor invenção, ou descoberta, do mundo?'. Responderam o celular, o computador, o motor flex, a lâmpada elétrica, o picolé, o Instagram. Eu disse: 'Nada disso! É o corrimão. Mas é preciso viver para entender'. Quantos percebem a presença do corrimão? Este suporte low profile, grudado em uma parede, demora anos para ser considerado essencial. Só se percebe que é fundamental no dia em que, ao colocarmos o pé no primeiro degrau, descobrimos a dificuldade para levar o pé ao segundo, ao terceiro e assim por diante.

Quando entro e vejo o corrimão, agradeço ao gênio que intuiu a função que ele teria. Estou há décadas nesta vida e nunca notei a ausência do corrimão. Porque não precisava. Subia lépido de dois em dois degraus. Subia 13 andares fácil. Depois, percebi que havia corrimão, mas ignorava. Até o dia em que cheguei e não havia energia no prédio. Decidi: vou de escada. Subi o primeiro degrau, o segundo e, antes do terceiro, senti a coisa complicar, estava caindo para trás. Aí vi! Grudadinho na parede, humilde, o corrimão. Agarrei-me a ele com volúpia.

Agradeci ao altíssimo que alguém tenha tido essa inspiração. No dicionário de inventos, o corrimão não está relacionado. Injustiça ou ignorância? Pesquisei, não se sabe quem o inventou. Mas quem o criou deveria ser homenageado com uma estátua, ou com ingressos por toda a vida para a peça Eu de Você, da Denise Fraga. Tem coisa mais simples que um corrimão? Não passa de uma barra de ferro afixada à parede. Que bem nos faz. Ele aguarda lugar no Museu das Grandes Ideias Para o Bem-Estar da Humanidade.

Estava caindo para trás. Aí vi! Grudadinho na parede, humilde, o corrimão. Agarrei-me a ele com volúpia.

Jornal O Estado de S. Paulo, 09/04/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/o-corrimao

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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quinta-feira, 16 de março de 2023

O espelho biseautê

Ignácio de Loyola Brandão

 


Para Paulo Caruso, amigo de uma vida. Abri o e-mail de Raquel Naveira, escritora mato-grossense, veio uma poética crônica. Ela, assim que publica na sua terra, envia aos amigos. Fui atraído pela frase: 'Restaurou a antiga penteadeira, com o espelho de cristal bisotado e a banqueta de couro, que ficava no quarto dela, a sua mãe'. Bisotado. Há quanto, quanto tempo não lia, sentia, esta palavra?

Vi dona Maria do Rosário, diante da penteadeira - também se dizia psyché - com espelho bisotado, às vezes chamado de bisotê. Depois, Fanny Marracini ensinaria que em francês é biseauté. O que significava? Por mais que olhasse para o espelho, não entendia, só via mamãe feliz. Papai me dizia, 'não sei o que é, mas sua mãe quando se senta na penteadeira, fica tão bonita'. Seria o biseautê? Mas o que era aquilo?

Perguntava, não respondiam. Desconfiei que não soubessem, ou fosse coisa que criança não podia saber. Quantas vezes eu entrava na sala, todos murmuravam 'tem criança' e se calavam.

Custava me explicarem o que era biseautê? Ou bisotado? Essa coisa que fazia mamãe bonita, feliz quando saía para o cinema, para a reza na matriz, para uma festa? Mal ela saía, eu ia para o quarto e ficava a olhar para o espelho, para meu rosto, a fim de saber se eu estava mudado, era mais bonito. Não, não estava, era feio. Esquisito, me condenavam.

Um dia, percebi que na margem do espelho havia um pequena região diferente. Um mínimo rebaixo. Chanfrado, disse vovô Vital. Quando me olhei nele, me vi bonito. Somente naquela moldura. Assim descobri o que era biseautê. Beleza. Cada vez que entrava no quarto, me olhava naquele estreito território, onde eu era bonito. Seria o mesmo com mamãe?

Um dia, vi mamãe pentear o cabelo, passar ruge, apanhar uma bola de vidro com quatro letras, Coty, passar o perfume, meu pai entrou: 'Você está mais linda do que nunca!'. Seria também aquele perfume?

Um dia, dia mais horrível, a funcionária que ajudava na faxina deixou cair o cabo do escovão que dava brilho no assoalho, e o espelho partiu-se em mil. A dor de mamãe. 'Meu espelho, me fazia tão linda.' Ajudei a pegar os cacos, encontrei pedaços do bisotado. E se eu guardasse um pedacinho dele, poderia mudar minha cara quando estivesse sozinho? Mudando a cara, as meninas da classe sorririam para mim, afilhado dono do bar me daria um naco do lanche dela, tão apetitoso. Um dia, a professora leu minha redação, chamava-se composição, e disse: 'Nota cem. A melhor redação do ano. Quero que todo mundo leia para saber como se faz'. Tirei meu espelho do bolso, olhei, ouvi: 'Você é o menino mais bonito da classe', dito pela Neuce, irmã da professora Lourdes.


É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'.

O Estado de S. Paulo, 12/03/2023

 

https://www.academia.org.br/academicos/ignacio-de-loyola-brandao

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Entre 90 e 190

Ignácio de Loyola Brandão

 


Mil Yanomami subnutridos, mais 700 mil mortos pela covid. Não é genocídio?

Difícil não foi ter descoberto a doença, mas sim ter dado com ela tardiamente, obrigando-me a mudar rotinas, vícios, hábitos aos 86 anos. Principalmente vícios, manias. Dizem que tudo se ajeita com boa vontade. Apontem um ser humano que tenha a noção absoluta de boa vontade. Ou não acredito na humanidade?

Agora, com a diabete, ou o diabetes - acho pernóstico este modo de dizer - tive de me adaptar a um aparelhinho que fica grudado em mim, a fim de

medir os níveis de glicemia. O médico me deu os limites considerados normais e recomendou a medição pela manhã, antes do almoço, antes do jantar, no final da noite. Ao menos nos primeiros tempos. Os amigos Vera e Márcio, garantiram ser uma tranquilidade, pode-se viver uma vida normal com diabete. O que é vida normal? Aquele aparelho grudado em minha pele é um dedo-duro do bem. Mudou meu ritmo. E virou vício. Todos lemos livros distópicos em que seres humanos são controlados pela tecnologia. Assim me considero vivendo, comandado por um pequeno círculo, quase uma tatuagem.

Tomei um suco. Pode? Levo o sensor ao braço, 111. Posso. Alívio. Como um lanche na padaria com pão branco. O sensor acusa 176. Epa! Próximo ao limite de 190 que o doutor Ophir recomendou.

Doce? Passo longe. Nunca mais comi doce de leite de Viçosa, doce de abóbora ou batata doce de lanchonete de estrada, manjar branco com calda, pão de ló, bolo de rolo que a Maria Eduarda Brennand me manda do Recife, cocada branca. Foi comer e o sensor bater no 240 e tantos. Paniquei.

Como este sensor é caro, uso dois por mês, recorro a outro mais barato, que me pica o dedo, transfiro o sangue para uma plaquinha que revela o Índice. Entre um e outro há sempre uma diferença. O do sangue é sempre mais alto. E. . . ?

Vivo na gangorra. Medi, deu 78, ameaça de hipoglicemia, desmaio, como uma barrinha. Outra vez, deu 65, pavor, comi um chocolatinho. Normalizou. Poder comer para combatera hipoglicemia devia me dar prazer. Ao contrário, angustia. Mas este mundo é louco mesmo. Nunca mais comi massa, o que adoro, principalmente um Carbonara. Numa revolta, outro dia comi. Bebi duas taças de vinho. Depois medi. 122. Impossível. Desconfiei do reloginho. Não se pode viver desconfiado. Troquei o aparelho. Igual. Consulto ene vezes por dia, mas vivo bem. Sonho com números, 132, 176, 192, 214, 98, 76, 149 - aliás dá tanto 149, que não sei explicar. Nem são números para apostar na Mega Sena. Números.

Lembrei-me de O Homem Que Calculava, de Malba Tahan, ainda um livro curioso. Ele era feliz. Só estou feliz entre 90 e 190. Mas, e se der pane no aparelho. . . ? Mas estou vivo, e bem. Reclamar do quê?

O Estado de S. Paulo, 29/01/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/entre-90-e-190

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.


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segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Jô 2: Ser H na vida

Ignácio de Loyola Brandão



As noites de nosso grupinho com Jô Soares começavam com um rabo de galo no 'Jeca', esquina da Ipiranga com São João, ainda não tanto celebrada. Aperitivo para diminuir o estresse do dia, se é que aquilo era estresse, adorávamos a tensão jornalística. Prosseguíamos com uma parada num banco da Praça da República para decidir onde ir. Ficávamos ali entre oito e meia e nove. Parece loucura, o tempo era outro. Hoje não atravesso praça ao meio-dia.

A decisão era a mesma, jantar no Clubinho, o Clube dos Artistas e Amigos da Arte, no porão do Instituto dos Arquitetos, na Rua Bento Freitas. Durou de 1945 aos anos 70. Bebida e comida baratas e um picadinho imbatível (que reencontrei agora no Bar da Dona Onça, da Janaína Rueda). Ali estavam, sempre, Polera, pianista - que, se não me engano, era irmão de Joubert de Carvalho, autor da canção Maringá -, Rebolo, Mario Gruber e Clovis Graciano, Sérgio Milliet, Arnaldo Pedroso d'Horta, Marcos Rey e seu irmão e Mário Donato, cujo romance Presença de Anita tinha sido best-seller fenomenal, o que levava Jô a dizer, 'o melhor pornô que já li, dá tesão e é boa literatura'.

Ali circulava Maiza Strang da Rocha, jovenzinha, autora de um romance, Incerteza, de 1959, que deu uma entrevista ao nosso Dorian Jorge Freire dizendo coisas como 'o homem esquece que a mulher tem direito de ter sexo' - ou seja, foi pioneira do feminismo. Pela entrevista, Jô, naquela noite, pagou o jantar de todos e, imenso, redondo, abraçou apertado o Dorian, que pequenino, magérrimo, quase foi sufocado.

As noites eram longas e os lugares, muitos. Vinha o roteiro dos 'inferninhos', designação estranha, nunca definida. Eram bares onde rolava prostituição disfarçada. Ali as mulheres ficavam à espera do chamado dos homens para uma bebida e o acerto do quantum pelo programa. A região era a boca de luxo. Aquelas mulheres deviam ter sempre ao lado um homem que era um falso noivo, falso marido, etc. Este acompanhante era chamado de 'H' e era pago pelo dono da boate para fingir companhia. Não era um cafetão. Jô, Gilberto di Pierro - antes de ser o célebre colunista Giba Um -, Marco Antonio Rocha - depois editorialista deste jornal - , o jornalista José Roberto Pena, um dos criadores da revista Quatro Rodas, David Aierbach, comentarista político, e eu, algumas vezes consideramos a possibilidade de, tendo fracassado na vida, quando velhos, lá pelos 60 anos, sermos um H, sem nada a fazer, sentados num bar, ganhando um uísque, talvez obtendo uma graça de graça de uma daquelas jovens. Dorian e Pena morreram há muito anos, Marco e eu sobrevivemos, Jô tornou-se um gênio que deixou um vazio no ar. Lamento, continuarei.

O Estado de S. Paulo, 28/08/2022

 https://www.academia.org.br/academicos/ignacio-de-loyola-brandao

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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quarta-feira, 3 de agosto de 2022

PURCINA MERGULHADA EM TREVAS - Ignácio de Loyola Brandão



É um volume pequeno, mas impacta e comove. Atualíssimo. Dona Purcina, a Matriarca dos Loucos, da Oficina da Palavra de Teresina, foi escrito com dor por Cineas Santos, filho desta matriarca nordestina, acolhedora e generosa. Por que a produção do Norte e Nordeste não chega a São Paulo e ao Rio? Há um vácuo e perdemos momentos de emoção. Purcina, figura complexa, autoritária, doce e feita de certezas. Diz Cineas que ela, simples doceira do sertão, 'com sua lógica enviesada, encontrava solução para os problemas mais complexos'. Acrescenta: 'Para os muitos que a amavam foi extremamente doloroso vê-la no final da vida, ausente de si mesma, sequestrada pelo mal de Alzheimer'.

Este livro se encontra ao lado de quatro volumes que considero fundamentais no gênero. O Álbum Branco, em que Joan Didion estuda o luto, e Noites Azuis, em que a mesma autora fala do envelhecimento e da senilidade; De Profundis, de José Cardoso Pires que sofreu um AVC, com perda total de memória; e Perto das Trevas, de William Styron, que mergulhou em profunda crise de depressão.

Cineas, em linguagem seca, fala da própria mãe com angústia, mas sem melodrama. Os momentos de apagão e lucidez. O dia em que ela gritou por socorro, estava com uma onça dentro do quarto. Na verdade, ela via a própria figura refletida em um espelho. Cobriram todos espelhos da casa. Ou quando, logo após negar água a um moleque, ela aconselhou o filho a jamais deixar de dá-la a um sedento. Outra vez, Cineas chegou: 'A bênção dona Purcina! Ela: Deus lhe dê vergonha. Cineas: A senhora sabe que dia é hoje? Ela: Não sou dona de dia nenhum. Cineas: 20 de setembro, dona Purcina, dia do aniversário de seu filho mais querido. Ela: Que filho? Ele: Eu. Ela: E quem lhe disse que você é meu filho? Cineas: Quer dizer que resolveu me desfilhar? Sou um sem mãe, sem rumo, sem tudo, um maior abandonado? Quem vai querer me adotar? Ela: Deixe de bestagem, você não é meu filho, é meu irmão. E devia dar graças a Deus. Cineas: Irmão? E que ganho isso? Ela: Se fosse meu filho, era obrigado a cuidar de mim, sendo irmão, cuida se quiser'. Percorremos instante a instante a agonia de uma memória que mergulha nas trevas.

Purcina é cuidada pela filha. 'Cuidar de alguém com Alzheimer é meio caminho para a loucura', diz o filho. E a mãe pirava, inquieta, agressiva, ansiosa. Não reconhecia mais a própria casa. Colocava três vestidos, um sobre o outro, para que não a roubassem, tomava sorvete e cuspia, dizendo que estava quente demais. Médicos deveriam ler esse livro, poético, humano. Quando romperemos esta muralha invisível que atravessa o meio do Brasil? E o Alzheimer? Terá cura um dia?

Um dia, gritou por socorro, tinha uma onça no quarto. Na verdade, ela via sua imagem no espelho.


Folha de S. Paulo, 31/07/2022

https://www.academia.org.br/artigos/purcina-mergulhada-em-trevas


Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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quarta-feira, 4 de maio de 2022

A MORTE O QUE É? - Ignácio de Loyola Brandão



A morte o que é?

Ignácio de Loyola Brandão


Para quem prega programação para tudo, a vida desmente. Tudo determinado, muda-se em um instante. Um mês atrás tive um encontro com Marco, pri-mo-irmão, mais irmão que primo, ele parecia ter vencido um câncer. Ao sair, combinamos nos revermos logo. Dez dias atrás estávamos com tudo pronto para irmos a Minas, queríamos o silêncio e o verde. íamos descer para o carro, veio a notícia, Marco tinha morrido.

Em vez de irmos para Minas, fomos para Araraquara. Estava desnorteado. Os primos Zezé e Marco tomaram-se irmãos de coração e mente. Breves insights.

Em 1966, eu tinha 30 anos e Marco 14. A Ferroviária disputava a primeira divisão, após ter caído da Especial. Na sexta, em São Paulo, eu terminava meu expediente na Última Hora e seguia para a Estação da Luz, entrava em meu leito do vagão-dormitó-rio (coisa boa que acabou) da Companhia Paulista e seguia: 5 da manhã, em Araraquara, meu tio José me esperava com o Marco. Seguíamos, agora no vagão-restaurante, para Rio Preto, onde naquele sábado havería jogo da AFE contra o América. Certa vez, no vestiário, intervalo de jogo, Marco e eu vimos umas laranjas, avançamos, o roupeiro adverbe depois. Outra vez em Franca, vimos Tião Macalé colocando um martelo na sunga e entrando em campo. Felizmente, não usou. Em Batatais levamos uma surra de sombrinha da torcida feminina, senhoras de meia-idade. Em Taquaritinga, os carros de Araraquara tinham pneus furados. Não se brincava, era guerra. Curtos episódios pitorescos de uma vida cheia deles, nas relações entre o Marco e eu. Ele era marido de Valéria, pai de Isado-ra, Júlia e Carol, esta a chef do Las Chicas, após ter feito carreira com Carla Pernambuco. Caravana para a formatura da Carol no Senac, em Aguas de São Pedro, mostrava a união dos Brandão. Quando tomei posse na Brasileira de Letras, lá estavam o Marco e Zezé à frente do clã em peso, os de Araraquara e os de Bauru. Meu último encontro com Marco se deu um mês atrás na casa de Carol. Conversamos por horas, tomando um litro de Campari. Ele morria de rir de uma excursão em navio de cruzeiro, fracassada por causa da pandemia e da revolta de passageiros que saqueavam comida e estocavam nos camarotes. Comédia pura não fosse tragédia. Os Brandão traduziam e traduzem tudo em riso. Última aventura hilariante em vida. Marco se foi. Perdi um irmão. Araraquara lotou o velório, até o prefeito Edinho estava. A amizade levou aquela multidão em sábado de céu azul. Sei, a morte é certeza. Uma coisa me obceca: no instante final sabemos que estamos morrendo? Como fica nossa mente? Apaziguada ou ansiosa? Enigma que me obceca. ?

Uma coisa me obceca: no instante final, sabemos que estamos morrendo? Como fica nossa mente?

O Estado de S. Paulo , 01/05/2022

 https://www.academia.org.br/artigos/morte-o-que-e

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 d ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

COM VERA FISCHER E GRACE JONES - Ignácio de Loyola Brandão

 


No final do espetáculo São Paulo, no Teatro Unimed (não percam), Regina Braga dá um grito: Eu sou São Paulo. Parte da plateia fez eco: Eu sou São Paulo. Vivi 21 anos em Araraquara e 64 em São Paulo. Sou paulistano, ainda que seja araraquarense. Digo mais, há uma terceira cidade à qual pertenço, Berlim. A gente pertence aos lugares onde é ou foi feliz.

Em Araraquara, ainda sinto o cheiro de coqueiros do Jardim Público, a estação ferroviária, os olhos negros de Marilia Caldas, os verdes de Cleia Honaim, o sapato vermelho de dona Odete, o trem das 6h10 que ia para São Paulo, ou a chegada do trem azul às 19h nas vésperas de férias, feriados, carnaval, semana santa.

Não esqueço o relógio da torre da Lupo, marcando a hora do cinema, o fim do footing, a entrada do Ieba. Quando morrer, que minhas cinzas sejam jogadas daquela torre, se a Liliana permitir. O relógio está no final do meu romance Dentes ao Sol.

São Paulo me desmentiu quando, ao partir de minha cidade, disse: não sei o que fazer da vida, vou ser nada. Tudo que não queria era ser nada. Jornal, revistas, fazer cinema, arranhacéus, Yvonne Fellman, abertura da cabeça, vi Sartre, fui amigo de Cacilda Becker (hoje sou de Fernanda Montenegro), aprendi sobre a vida com Fernando de Barros, vivi a noite, vivi a periferia, adorava fazer reportagem sobre bairros, eu ia feliz, conheci a cidade de cabo a rabo. Entrevistei JK (aquele era um presidente), Giulietta Masina, Jane Russel, Janet Leigh, Jânio (um louco menos louco do que o atual louco), vi os joelhos de Nara Leão ao vivo, aqui conheci as duas mulheres com quem me casei (Marcia, é de Araraquara; entenda a vida). Vi Yashin, o Aranha Negra, jogar no Pacaembu e decidi: serei goleiro.

Não fui, não fui comediante de teatro-revista, cantor da Nacional, comandante da Varig, amigo do Mário Lago, era confidente de Jacqueline Arrrarrrauqarrra Myrna. Se elencássemos o que não fomos, daria uma lista que faria a volta na Terra várias vezes. Lembrar frustrações diverte. Mas desejei e sonhei, como sonho ainda hoje, o que me leva para a frente.

Berlim, fui feliz nos parques, nos lagos, nos bosques. Vi o Muro, die Mauer, andei ao longo dele, atravessei-o, comi salsicha com curry-wurst, vi Juliette Binoche em um festival, vi Fassbinder, David Bowie, escrevi dois livros. Quantos saberão o que é, ao lado de Vera Fischer, atravessar um parque deserto num fim de tarde em Berlim sob a chuva, ouvindo Grace Jones cantando I've Seen that Face Before, ou seja Libertango. Sou São Paulo e nada tenho a reclamar. Não sou nostálgico, adoro cada momento vivido e a viver, só me entristece demais aquele lá, sabem qual é.

Lembrar frustrações diverte. Mas desejei e sonhei, como sonho ainda hoje, o que me leva para a frente.

O Estado de S. Paulo, 06/02/2022

 https://www.academia.org.br/artigos/com-vera-fischer-e-grace-jones

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

MILA, SEI, FIQUEI DEVENDO - Ignácio de Loyola Brandão


Noite de março de 2010. Na posse de Maria Adelaide Amaral na Academia Paulista de Letras, vi aquela mulher deslumbrante em pé, lá atrás. Corri e abracei Mila Moreira, que me cobrou: 'Quando vai escrever minha história, me conhece tanto. Quantas vezes falamos sobre isso?'. Foi a última vez que nos vimos. Continuava a mesma mulher magra, alta, bonita, sensual: 'Acho que tenho bastante coisa do mundo da moda e da televisão. Ainda me lembro quando à tarde eu ia ao jornal, você estava escrevendo, eu ficava olhando, perguntando, achava incrível ser jornalista. Eu te dizia: ainda vou ser muita coisa. Veja só, eu tinha 15 anos'. Lembrei, anos 1960, ela era pura malícia, riso.

Acabara de ser eleita Miss Luzes da Cidade, um concurso original criado pelo jornal Última Hora por Samuel Wainer para conquistar o público da periferia. Cada clube ou associação de bairro elegia sua miss. Depois, em grande festa no Clube Pinheiros, era eleita a Miss Luzes da Cidade. Vendia jornal, ajudava os bairros a terem visibilidade e força nas reivindicações. Mila, então Marilda Moreira, era filha de um funcionário do Banco do Brasil. Morava em um modesto apartamento no centro, na Rua Brigadeiro Tobias. Ela era da equipe de patinadoras da Associação Atlética Banco do Brasil, AABB, que na época ganhava todas as competições.

No dia seguinte à eleição, fui à casa dela fazer uma matéria de capa. Encantei-me, fomos conversando, pai e mãe juntos, criamos um perfil. Ela era sagaz (sempre quis usar esta palavra). Ganhou foto de página inteira, coisa rara em jornal. Às vezes, aparecia no jornal, a redação era no Anhangabaú, a algumas quadras da casa dela. Ia de mesa em mesa, conversava, sentava-se junto a mim na máquina de escrever, palpiteira. Sonhei em casar com ela, um dos milhões de sonhos que viajaram pela minha cabeça.

Acabamos amigos de uma vida. Em 1963, descoberta por Livio Rangan, entrou para o belíssimo grupo de moda da Rhodia, que viajou o mundo. Encontramo-nos em Roma, fomos a Spoletto, Pisa, Veneza, Beirute, ela brilhava ao lado de Lucia Curia, Paula Peixoto, Malu, Lilian. No grupo, Sergio Mendes e seu conjunto com o gênio Raul de Souza. Ela foi tudo na moda, fez novelas, enfrentou preconceitos ('como? Uma modelo?'), amou muitos homens, viveu a vida que queria viver, foi o que desejou ser. De repente, o coração dela parou. Assim como não liguei, não visitei, não encontrei, não jantei com amigos chegados, acrescento uma dívida em minha vida: a biografia prometida à Mila, mito que Vi nascer e crescer. 

Ela amou muitos homens, viveu a vida que queria viver, foi o que desejou ser. E o coração parou.

O Estado de S. Paulo, 12/12/2021

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https://www.academia.org.br/artigos/mila-sei-fiquei-devendo

 

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

A DESCOBERTA DO CAJU - Ignácio de Loyola Brandão


Não via plateia há ano e meio. 

Agora, terceira vacina tomada, 

estou pronto para tirar o atraso


Para Edna e Tom Torres, 

irmãos e anfitriões

 

Quando cheguei ao Santo Orégano, na Praia do Riacho Doce, em Maceió, vi que o “velho” Prata, como seu filho Antonio o designa, apesar de ele ter dez anos menos do que eu, veio com um sorriso e uma fruta na mão. Prata ou Pratinha, fizemos carreiras paralelas, invejei quando ele se tornou telenovelista. Cronistas somos. Em um momento namoramos a mesma mulher. Coisas passadas. 

– Veja só, maravilha. Um caju. Conhece?

– Pratinha, quem não conhece um caju? Ainda mais você sendo de Lins e eu de Araraquara. Tinha cajueiro no meu quintal.

– Os de Araraquara são assim, lá tem tudo. Caju como este? Perfumado, sensual? 

– Pratinha, cajus são vendidos nos cruzamentos em São Paulo. 

Então percebi que meu amigo de 50 anos estava extasiado. Por que destruir aquele deslumbramento? Há coisas que descobrimos tardiamente. Pior seria não descobri-las. Vi o mar aos 23 anos, em Santos. Meu tio José tinha 50 ao ver a praia, ficou tão feliz que entrou no mar de sapatos e terno, cheio de júbilo. Naquele bar alagoano, naquela noite, o cajueiro estendia seus galhos sobre nossa mesa, ali tínhamos sido levados pelos professores Tázio (como em Morte em Veneza) e Susana, a mulher dele, professora que fez correta mediação na minha conversa presencial no Teatro Deodoro. Como é bom ver de novo as pessoas à nossa frente, perguntando, rindo, murmurando.

Fazia ano e meio que eu não enfrentava público. Levado pelos Diálogos Contemporâneos, realizados pela Associação e Secretaria de Cultura e Economia Criativa de Brasília junto aos Amigos do Cinema e da Cultura – há quem resiste –, passei por Brasília, Goiânia, Curitiba (ciceroneado por Aurea, filha de Leminski, poesia e privilégio) e enfim Porto Alegre, onde revi Luis Fernando Verissimo, em plena recuperação. Até riu. Não via plateia há ano e meio. Agora, terceira vacina tomada, estou pronto para tirar o atraso. Pedi camarão refogado com cebola, hortelã e Cointreau, arroz branco e legumes salteados e a conversa rolou. Alunos tinham nos acompanhado. Foi um gostoso encerramento para o ciclo. Mais tarde, já na Pousada Flor de Lis, Prata e eu comentamos: aqueles alunos devem ter se decepcionado, ao nos ouvir. Esperavam que falássemos de processo de criação, indicássemos livros, contássemos os próximos romances. Mal sabem que coisa que nos dá sono é um colega contar o que está escrevendo, dando detalhes e esperando que a gente diga: genial. Quanto ao caju, a última vez que vi estava na mão do Prata entrando no quarto. 

Folha de S. Paulo, 28/11/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/descoberta-do-caju

 

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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sábado, 18 de setembro de 2021


SE PRECISAR, CHAME O AFONSO PENA

 Ignácio de Loyola Brandão


Encontrei Afonso Pena tomando suco de mamão com laranja na CPL. Nos encontramos todos ali, aos domingos de manhã. Antes da pandemia éramos oito, a ler jornal, trocar ideias, bem cedinho. Tinha quem emendava para o chopinho antes do almoço em dias quentes. Agora, somos quatro. Gradualmente os pequenos encontros cotidianos começam a ser reativados. Estava feliz, comuniquei: - Finalmente, de sorte, encontrei uma podóloga ótima aqui no bairro. Há tempos precisava dar um tratamento nos pés. A gente muda a vida, fica leve, solto.

- Podóloga? Por que não me disse?

Há tempos conheço uma ótima e aqui no bairro. Não tem melhor. Vou te dar o telefone.

-Não preciso marcar, a minha me deixa bem contente. A gente precisa ficar feliz e uma das maneiras é um bom trato nos pés.

- Não, você vai mudar. Nem imagina como a Rosanilce é incrível. Os aparelhos que têm. . .

-A minha tem todos, de última geração, impressionante a suavidade dela, as carícias que me faz com as mãos. Às VEZES, durmo.

- E que você não conhece a Rosanilce. A massagem dela é daquelas de harém de filme chinês.

Você cochila, tem sonhos celestiais. Vai, anote aí o celular dela. Aliás, vou fazer outra coisa. Eu chamo e aviso que você vai. Para que tenha tratamento especial.

- Não precisa se incomodar. Já agendei encontro coma minha para todos os meses. Não fizesse isso, não conseguiria vaga, há uma baita fila.

- Você não sabe o que está perdendo, mas é problema teu, cada um sabe o que os pés precisam. Azar o seu!

Passadas semanas, encontrei Afonso Pena na mesma mesa da padaria. Desta vez foi na calçada, o tempo estava ameno. Contei que vinha tendo uns engasgos esquisitos, talvez fosse o tempo seco, a poeira das sete construções em torno de nós na mesma quadra. Mas que iria ao médico naquela mesma tarde.

Médico? E quem é teu médico?

- José Eduardo de Lorenzo, filho do meu médico em Araraquara quando eu era jovem. O pai, Syrtes, o único Syrtes que conheci na vida, nome bom para personagem, era muito considerado.

- Qual a especialidade dele?

- Clínico-geral. . .

- Pare, pare, você tem que ir a um especialista. Tenho um impressionante. Tive o mesmo problema, achei queia morrer. Fui ao Pasetinho, cara superlegal, resolveu tudo.

-Mas o De Lorenzo é ótimo, engasgo é sua especialidade.

- Não é igual ao Pasetinho. Ele é tão bom que tem fila para agendar consulta. Fez cursos na Universidade de Illinois, em Nanterre, até salvou um xeque dos Emirados. Vou dar um jeito, você tem de se tratar com o Pasetinho, sujeito como figura humana.

Infelizmente o Pasetinho só tinha consulta livre para daqui a dois anos, andava tratando uma paciente superespecial chamada Tatiana, das maiores assistentes da Unesp. Deixei para lá.

Quarta-feira passada subia a pé para a Avenida Doutor Arnaldo onde ficam as floriculturas, uma atrás da outra, coisa bonita de se ver, vale passar a pé por ali para repousar a vista e a mente. Com quem dei? Com Afonso Pena. Toques de mão. Ele: - O que faz aqui?

- O que se faz aqui? Vim comprar flores.

- Escute! Venha cá! Sei de um lugar muito melhor para comprar flores. Você nunca mais vai comprar em outro lugar. Consegui me desvencilhar do Afonso, mas tenho um conselho a dar a vocês.

Se alguém tiver problemas com febre reumática, lumbago, coqueluche, falta de ar, dor na lombar, enxaqueca, refluxo, pressão baixa, labirintite, desequilíbrio, pedra no rim, precisa de uma costureira para emergência, um dentista, me avise, chamo o Afonso Pena. Ele conhece alguém melhor que o seu profissional.

O Estado de S. Paulo, 27/08/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/se-precisar-chame-o-afonso-pena

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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terça-feira, 3 de agosto de 2021

O INVENCÍVEL BATE-ESTACAS? - Ignácio de Loyola Brandão


Meu pai ao voltar do escritório comunicou: 'Este mês vocês irão comigo para São Paulo'. De tempos em tempos ele participava na capital de uma reunião com chefes de Contadoria das ferrovias brasileiras. O aviso era recebido com alvoroço por mim e meu irmão Luis Gonzaga. Aquela era uma viagem encantada. Só quem nasceu no interior viveu a experiência arrepiante de chegar de trem na Estação da Luz, passando por baixo da rede de fios elétricos de uma super aranha acima de nossas cabeças. Havia a expectativa na capital de outra viagem dentro da viagem. Pegar o bonde Penha-Lapa, ida e volta, o que nos ocupava meia-tarde atravessando a cidade.

As reuniões dos chefes eram na Estação da Sorocabana, e Luis e eu ficávamos em um jardim interno à espera até o final, quando meu pai nos apanhava para almoçar no Hotel das Bandeiras, ou do Giuseppino, na Rua da Conceição. O prediozinho foi sacrificado pelo metrô. Ah, aquele jardim hoje é a Sala São Paulo. No restaurante, sentávamos e começava o desfile de travessinhas, uma com ovo, outras com bife, linguiça, abobrinha, berinjela, jiló, chuchu, ervilhas, couve, saladinha, arroz, feijão, macarrão. Também visitaríamos a Catedral da Sé em construção, e eu achava inacreditável ver um bonde que entrava na igreja com material de construção.

Maravilha das maravilhas sempre foi o anúncio luminoso de um café (seria o Paraventi?), em cima do prédio da Light, vizinho ao Mappin. Em uma animação (pensem, eram os anos 1940), o bule se inclinava e derramava o líquido na xícara. Para mim, havia um mistério. Por que as lojas mantinham luzes acesas durante o dia? No interior, luzes só eram acesas depois de seis da tarde. Isso significava o que era para mim a cidade grande, luzes acesas durante o dia.

Mas São Paulo era a cidade dos prédios, dos arranha-céus. Araraquara não tinha ainda nenhum. Meu pai, Luis e eu nos instalávamos na calçada, do outro lado da rua, a contemplar elevadores de madeira periclitantes que subiam e desciam, levando carrinhos com pedras, concreto, cal, tijolos. Víamos pedreiros se equilibrando nos andaimes sem nenhum medo. Homens dos ares, dizíamos arrepiados. Os prédios subiam lentos, muitas vezes ao voltarmos, meses depois, eles tinham crescido pouco. Para tudo há um ritmo, dizia seu Totó, não adianta ter pressa ou o prédio cai. Não existiam ainda os caminhões de concreto com betoneiras girando, girando. Assim se constrói uma grande cidade, murmurava meu pai, aquilo era progresso.

Em 1957 vim morar aqui. Os prédios subiam velozes. O encantamento continuava, havia cinemas, teatros, livrarias, eu trabalhava em jornal, tinha um único medo, ser demitido, mas se você perdia a vaga, em uma semana estava empregado de novo. Agora, não tenho mais medo de demissões, me demiti, aposentei, e trabalho mais do que antes. Continuei fascinado pelas construções, cada vez mais velozes. Um dia era um buraco, vinha o bate-estacas ruidoso, pram, bum, tcham, tchum, logo anunciavam o apartamento decorado, abriam o showroom. Piscou um dia, no dia seguinte edifício pronto. Passei por muitas fases da história da construção. Agora chegamos aos tempos de aceleração total. Um tapume, um buraco, um andar hoje, outro amanhã, no final da semana tem mais não sei quantos caminhões de todos os tipos. Concreteiras mandam o cimento armado por tubos a alturas inacreditáveis.

Porém, há um mistério indecifrável. Pensem bem. Vejam se não tenho razão. A revolução industrial avançou, veio a tecnologia de ponta, a informática, o celular, o computador, os robôs, a descoberta do DNA, implantes substituem as dentaduras, transplantamse corações, fígados, rins, um dia transplantarão almas. O homem foi à lua, a Marte, os trens (europeus, claro) correm a 500 por hora, usa-se a energia solar, criaram-se os games, a internet, o Twitter, a revolução digital, as fake news, os caminhões gigantescos, os treminhões, o radar, o laser, a corrupção.

No entanto, quem me explica, esclarece, justifica, encontra uma única razão para a existência dos bateestacas ruidosos como tiros de canhão que continuam a nos atormentar desde 7 da manhã? A cada pancada, vibram os edifícios todos em volta. Há silenciadores de armas, mas não se criou um para o bate-estacas. De Newton a Darwin, de Niels Bohr a Pauling, de Einstein a Fleming a Osvaldo Cruz, de Madame Curie e Steve Jobs, de Salk a Mendel, sempre tivemos pessoas querendo o bem-estar da humanidade. Mas nenhum se colocou frente a esse tormento primitivo, rompedor de tímpanos e mentes. Mistérios.

Só quem nasceu no interior viveu a experiência arrepiante de chegar de trem na Estação da Luz.

O Estado de S. Paulo, 30/07/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/o-invencivel-bate-estacas

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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sábado, 19 de junho de 2021

A VOLTA DA CASA 842 - Ignácio de Loyola Brandão

 


Para Maurice Capovilla, 

cujo primeiro filme eu escrevi, 

amizade de uma vida


Rita Mazzoni, parente minha e neta de Sebastião Bandeira, contou que Mário de Andrade, certa tarde em que esteve em Araraquara, em uma de suas visitas à chácara de Pio Lourenço, desceu a Avenida Guaianases, hoje Djalma Dutra. Foi visitar Sebastião Bandeira, famoso por estar desenvolvendo um moto-contínuo. Ao chegar, Mário deu com Sebastião a conversar com José Maria Brandão. Entrou na conversa e foram confirmar os progressos de Sebastião. Assim teria sido o encontro de meu avô com um dos mais célebres intelectuais brasileiros. Vovô Gegé, como dizia vovó Branca, vindo de Matão, morou até o final da vida na esquina da rua 8, número 842. Aquela casa faz parte da memória afetiva de gerações. Ali vivi o episódio que me angustiou a vida inteira até que, 60 anos depois, consegui escrever Os Olhos Cegos do Cavalos Loucos, um dos cinco Jabutis que ganhei.

Esta casa voltou a fazer parte de minha vida depois de 40 anos. Há décadas ela desligou-se da família e de repente ressurge. Acabou de chegar um e-mail de dois jovens, Flávia e Gabriel Paduan, contando que se casaram e compraram a casa. Souberam que ela tinha pertencido ao meu avô e gostariam de saber o que o lugar significa para mim. “Que espaço é este em que vamos morar?”, indagaram. Aquela casa ainda tem para mim a fragrância das madeiras amontoadas na marcenaria de meu avô. O cheiro dos pudins que vovó Branca assava no fogão a lenha com brasas na tampa. O aroma espesso do “virado” de banana e farinha de milho, no qual tia Maria era tão craque quanto Rita Lobo. O cheiro de licor de abacaxi, criado a partir da casca da fruta fermentada, e também o dos pães quentinhos trazidos pela carrocinha do Pasetto. O perfume de tia Ignácia, minha madrinha, flutuando pela casa, quando ela saia domingo para a sessão de cinema. O verde transparente e mágico dos olhos de tia Terezinha, mulher do tio José. As arruaças dos netos vindos de Bauru ou de alguma cidade da Araraquarense, ansiosos por ouvir tia Margarida ler os contos da Carochinha. Os perfumes diferentes (franceses?) de tia Inez, mais bela que Rita Hayworth, mulher do tio Geraldo, quando vinham encontrar a família, para irem a um teatro, cinema ou reza solene. Tio Geraldo, conhecido como Celso Davila, foi dos melhores atores das novelas da PRD-4 Rádio Cultura. 

O número 842 ficava na frente da casa de Cristina Machado, Iaia, minha primeira professora. Ela vendeu sua escola para Lourdes Prado, que ficava na esquina oposta. Lourdes me ensinou redação. Naquela esquina, aos 11 anos, durante o ano inteiro de 1947, no começo da noite de quarta-feira, eu esperava por Carmem de Paula. Ela assinava o Diário de São Paulo e me entregava o suplemento juvenil que trazia os quadrinhos de Drago, clássico de Burne Hogart (um dos criadores de Tarzan nos gibis) e de Brick Bradford, de William Ritt e Clarece Day. Incendiavam minha imaginação. Sôfrego, eu lia sentado na sarjeta à luz do poste e tremia com vilões como o assassino Stiletto, o nazista Barão Zodiac e a bela Tosca. 

Na esquina da rua 8, em frente à escolinha da Lourdes, ficava o ônibus circular à gasogênio do Braz Pirolla, que tinha uma oficina mecânica. Brincávamos dentro, até que Braz aparecia e fim da festa. “Dirigi” tanto aquele ônibus que nunca mais dirigi na vida. Poucos souberam que na esquina oposta a de vovô, na avenida 7 de Setembro, morou uma mulher vinda de Santa Rita do Passa Quatro, de nome Branca, paixão de Zequinha de Abreu, o compositor de Tico-tico no Fubá. Para ela, Zequinha escreveu a valsa que leva seu nome, um clássico. Branca foi vivida no cinema por Tônia Carrero em filme de 1952 dirigido por Adolfo Celli e produzido por um dos melhores amigos que tive, Fernando de Barros. Vizinhos, os Carmona, produziam macarrão eu ia lá buscar letrinhas de massa para fazer sopa, mas eu preferia escrever frases colando-as em papel.

Nos finais de tarde, vizinhos e amigos sentavam-se na calçada para a roda de conversas e café, encontro que seguia até 10 da noite, quando a sirene da Meias Lupo tocava, para o novo turno de funcionários. Alguém alertava: “A sereia da Lupo tocou, vamos entrar”. A cidade ia dormir. Sereia era a sirene. Este costume foi retratado por Zé Celso Martinez Corrêa em sua primeira peça teatral Cadeiras na Calçada.

Agora, vejam só, Flávia é bisneta de Vicente Gullo, imigrante italiano que montou seu açougue na esquina da rua 6 com a avenida Sete. Vicente e Domingas, dona Didi, são avós de Marcia, minha mulher. Dona Didi foi das melhores amigas de minha mãe, Maria do Rosario, unidas pela devoção a São José. De vestido preto e fitas amarelas iam juntas para a Matriz, no começo da noite. Morando na casa 842, o que é a vida? Pontos soltos se encontram. Acaso, ou simultaneidade? 

O Estado de S. Paulo, 04/06/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/volta-da-casa-842

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

MARICAS É QUEM ME XINGA – Ignácio de Loyola Brandão



Quando criança, lá em minha terra, um dos piores xingamentos era o de maricas. Significava que você era covarde, fraco, desprezível. O maricas – ou mariquinha – era ninguém, via-se isolado, fora do grupo. Naquela época ainda não existia o politicamente correto, os machões dominavam, ser macho era ser mandão, prepotente, dono do território, do falar e pensar, líder, chefe. Quanto mais arrogante alguém era, mais admirado. Ninguém queria ser maricas, homem-mulher. 

Para um menino, ser chamado de mariquinha era um terror. Carimbava. Fosse hoje seria demolido pela rede social, imaginem um efeminado, bicha, pederasta, guaxeba, boneca, jiló, gobira, viado, 3x8. O 24 era o viado no jogo de bicho. Todos tinham pavor de ser o 24 na lista de chamada da escola, virava motivo para bullying, era pior do que ter tuberculose, lepra ou gonorreia. Era ser humilhado com o riso das jovens, levava surra dos pais, ouvia o choro das mães. Fosse religioso, não obtinha a absolvição na confissão, não podia comungar. Ser maricas era um pecado.

Ser maricas ou mariquinha era tormento, a vida tornava-se um inferno. Tive vários amigos assim rotulados. Alguns deixaram a cidade, formaram-se, fizeram carreira. Outros foram destruídos, “carimbados” que estavam. O mundo masculino era implacável. Entre os machões estava um de apelido Chola. Nunca soube seu nome. O pai tinha abandonado a mãe, ele fora expulso da escola. Sua avó comandava o jogo do bicho no bairro. Feroz, mandão, humilhava o tempo inteiro. Ele tinha determinado dezenas de garotos como maricas, dizia que não servem para nada, não enfrentam uma briguinha de fim de aula, se pegam sarampo ou resfriadinho se apavoram com medo de morrer. Certo dia, quando a situação chegou ao insuportável, uniram-se os maricas e os supostamente mariquinhas, porque muitos dos não maricas assim tinham sido rotulados em algum momento de suas curtas vidas. A quadrilha do ódio era ativa. O grupo se armou com pedras, estilingues, cabos de vassoura com pregos e folhas serrilhadas de abacaxi, que cortam dolorosamente. Cercaram Chola no jardim. Intimidado, ele “pulou” para trás, deu o falado por não falado. Chola era conhecido, dizia sim, depois dizia não. Falava pau e depois dizia que era pedra, galo virava galinha. Dizia e desdizia. Atemorizado, ele negou:

“Vocês maricas? Que isso? São machos pra valer. Não! Nessa turma ninguém é maricas. Quem disse que eu disse isso?”. 

“Você disse, xingou. Escorraçou tanto que a gente nem podia sair na rua.”

Atemorizado com a folha de abacaxi ameaçadora diante do rosto, Chola saltou de banda, como se dizia, tirou da seringa.

“Vocês sabem! Me conhecem! Sabem até o que minha mãe diz? Que eu falar e um burro cagar é a mesma coisa. É assim mesmo, sou mentiroso.”

“Mas hoje você apanha ou ...”

“Ou o quê?”

“Vai tomar um vidro de sal amargo.

“Ou uma concha de óleo de rícino”, sugeriu Josué, de todos o mais tímido.

Para quem nunca ouviu falar, sal amargo e óleo de rícino eram os piores purgantes. Gosto horroroso, resultados tenebrosos. Era tomar, esperar um pouco, correr para o banheiro. Às vezes, vergonha, nem dava tempo de tirar a calça.

“Um vidro? Não, um vidro, não. Uma colherinha! Só uma. Uma, uma...”

“Uma para cada um que você xingou.”

E assim aconteceu. Nem calculam. Foram três dias passados na casinha. Depois Chola foi transferido para a Santa Casa onde o bondoso doutor Koury, santo homem, conseguiu estancar a cachoeira malcheirosa e nos garantiu:

“Como médico gástrico, em meus 87 anos, tenho visto que todos aqueles que posam de valentes, corajosos, machões, prepotentes, no fundo não passam de maricões camuflados, enrustidos, envergonhados. Na hora H se borram. Borram e negam tudo”. 

O Estado de S. Paulo, 20/11/2020

 

https://www.academia.org.br/artigos/maricas-e-quem-me-xinga

 

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.


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