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segunda-feira, 18 de maio de 2020

GRANDE EMBATE EM CIDADE GAÚCHA - Paulo Henrique Américo de Araújo

·        17 de maio de 2020

Túmulo do Servo de Deus Pe. João Batista Reus [Fotos Paulo Américo]

·         Paulo Henrique Américo de Araújo


Em janeiro, integrando a caravana de voluntários do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, tive a oportunidade de visitar a cidade de São Leopoldo (RS), onde se encontra o Santuário do Sagrado Coração de Jesus. Ali o conhecido Pe. João Batista Reus (pronuncia-se Róis), jesuíta nascido na Alemanha e grande místico, exerceu boa parte de seu frutuoso apostolado. Falecido em 1947, seu corpo jaz numa capela ao lado da igreja, e atrai durante todo o ano multidões de fiéis.
Não é minha intenção descrever neste artigo a vida do Pe. Reus,1 mas sim focalizar alguns aspectos da atmosfera do santuárioe dos peregrinos que para lá acorrem.
Há duas realidades contrastantes no santuário: de um lado, a piedade verdadeira — na aparência débil — do povinho que se ajoelha junto ao túmulo do Servo de Deus; e de outro lado as manifestações do progressismo, como um monstro disforme e esmagador, que impregnam todo o ambiente. A impressão é a de um embate entre dois inimigos irreconciliáveis, dotados de forças extremamente desproporcionais. Uma luta entre Davi e Golias, dir-se-ia. Tudo indica que o gigante vencerá, porém a História nos afirma o contrário.
Após concluir minhas orações, detive-me para observar as pessoas que se aproximavam do túmulo do Pe. Reus. A “capela” – mais propriamente um galpão – não possui qualquer ornato, nem beleza. Bem poderia servir de garagem para automóveis. Nas paredes, alguns vitrôs simplórios deixam penetrar a luz direta do sol. Apenas um quadro estilizado da face do Pe. Reus quebra um pouco a monotonia que ali domina.
Invariavelmente os visitantes se apresentavam com expressões de veneração e respeito, cabeças baixas, lábios em movimento indicador de orações silenciosas. Alguns se ajoelhavam a poucos metros de distância, e nesta posição prosseguiam até chegar diante do túmulo. Homens e mulheres, jovens e velhos num fluxo contínuo, mas sem exasperação nem pressa. Em volta do túmulo, o frenesi de um domingo de verão desaparecia, como que por um passe de mágica; ou melhor, pela ação de uma graça impalpável, mas real.
Um dos nossos caravanistas notou naquele povinho uma atitude pitoresca, talvez fruto de um costume tornado natural. Alguns visitantes traziam flores e as tocavam na cruz que contém a figura incrustada do venerável sacerdote, e as depositavam sobre o túmulo. Outros peregrinos colhiam e levavam consigo algumas dessas mesmas flores, que pouco antes haviam sido ali depositadas. Expressivo símbolo da comunhão dos santos, confirmando que os oferecimentos ou méritos de alguns fiéis concorrem para o benefício de outros fiéis.
Ressalto com tristeza que tal devoção popular, carregada de muitos sinais de sinceridade, vinha acompanhada da degradação e imodéstia dos trajes. Não encontrei qualquer exceção a essa verdadeira ditadura das roupas imorais, tanto nos homens quanto nas mulheres. Entre eles um casal, aparentando idades entre 25 e 30 anos, veio para rezar, mas sua imoralidade no trajar mostrava-se ainda mais agressiva. Pareciam ter acabado de sair de uma academia de ginástica, como seus trajes o denunciavam. Com tatuagens aparentes, ambos se ajoelharam e rezaram ao Servo de Deus!
Como se conciliam, na mente dessas pessoas, a piedade e os trajes próprios à imoralidade? Falta de instrução? Maldade ostensiva? Não sei dizer. Mas sou tendente a concluir que, embora o processo de destruição dos costumes cristãos tenha alcançado no Ocidente todas as vitórias em matéria de imoralidade, paradoxalmente não conseguiu apagar no comum das pessoas o sentimento religioso.
Saindo pelos fundos do “galpão-capela”, encontrei-me em um jardim com grandes cruzes brancas. Trata-se, na verdade, de um cemitério com as sepulturas de dezenas de padres e irmãos leigos jesuítas, sinal impressionante do antigo florescimento da Companhia de Jesus na região. Mas naquele jardim não encontrei qualquer túmulo de padres mais novos, falecidos recentemente. Todas as sepulturas pertencem a jesuítas nascidos até a década de 50, todos com mais de 70 anos. Tudo indica não haver ali padres jovens.
Alguém poderá argumentar que só há sepulturas de padres velhos porque é comum os velhos morrerem! Argumento lógico, sem dúvida, mas todos os cemitérios demonstram ser ele apenas parcialmente verdadeiro. Pergunto se não seria normal, no meio dos falecidos ultimamente, encontrar ao menos um padre jovem. Por exemplo, com 40 ou 50 anos de idade. Por que não os há? A resposta é simples: praticamente não existem vocações recentes. A Companhia de Jesus e todas as Ordens religiosas vão definhando, numa inexorável crise de vocações, desde o início da era pós-conciliar. Qualquer um pode ver a prova disso naquele cemitério de cruzes brancas.
Escrivaninha, paramentos, breviário, altar e até um violino que pertenceram ao Pe. Reus

Por fim dirigi-me à igreja. Na cripta do Santíssimo Sacramento, no subsolo, um memorial do Pe. Reus exibe seus objetos pessoais: escrivaninha, paramentos, breviário, altar, e até um violino. Os visitantes tinham o olhar encantado ao vê-los. Nesse pequeno museu percebe-se, a um só tempo, a vida de piedade e a obra de apostolado do Servo de Deus. A esses objetos simples, mas com muita dignidade, se opõem outros aspectos modernizados da cripta: um gélido e monótono altar-mesa circundado pelas estações da Via-sacra, cujos Personagens disformes parecem ter sofrido ainda mais após a crucifixão. Ninguém demonstrava encantar-se com elas.
De todas as carrancas com que o progressismo se manifesta no santuário, a mais escandalosa e grotesca é sem dúvida a do altar principal. Um verdadeiro monstro de metal, mistura de ficção-científica e pós-modernismo de face hedionda. Tremo e hesito ao constatar que aquela figura pretende ser uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Pareceu-me verdadeira blasfêmia considerá-la como tal. Como conseguirá alguém, diante daquela imagem, elevar a mente ao dulcíssimo Jesus, Filho da Virgem Santíssima? Impossível! Vi-me impelido a sair depressa dali.
Em São Leopoldo, o progressismo dito católico se imiscuiu nas expressões de piedade e devoção provenientes da vida exemplar do Pe. Reus. A catolicidade verdadeira, terna e singela sobrevive ali, mas sufocada pelas patas repugnantes da pseudo-arte moderna e do neopaganismo progressista. Uma análise apressada nos faria temer que as pequenas devoções não consigam resistir ao poderio massacrante desse monstro anti-católico. Se foi essa a conclusão de uma análise apressada, devemos ter em mente o jovem Davi combatendo contra Golias. O pequeno, tido por mais débil, pode perfeitamente derrotar o atual gigante!
O venerável jesuíta escreveu, ao partir da Alemanha: “Ó Maria, Mãe minha, fazei que chegue ao Brasil são e salvo, para lucrar muitas almas para Vós e para o Sagrado Coração de Jesus!”.3 Como o Pe. Reus veio para cá com essa santa intenção, peçamos que do Céu ele interceda agora junto a Nossa Senhora para a derrota do monstro progressista, que tanto afasta as almas de Deus.
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Notas
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 833, Maio/2020.
1.      Uma boa biografia do jesuíta foi escrita por Ferdinand Bauman, S.J.: Um Apóstolo do Coração de Jesus, Publicações Avulsas de História, UNISINOS, S. Leopoldo, 1987.
2.      O Santuário do Sagrado Coração de Jesus, sob a influência da arte modernista, foi construído entre os anos de 1958 e 1968, após a morte do Pe. Reus.
3.      Op. cit. pág. 81.

http://www.abim.inf.br/grande-embate-em-cidade-gaucha/

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domingo, 17 de maio de 2020

PALAVRA DA SALVAÇÃO (183)

6º Domingo da Páscoa – 17/05/2020

Anúncio do Evangelho (Jo 14,15-21)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Se me amais, guardareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis. Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós. Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.


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Ligue o vídeo abaixo a acompanha a reflexão do Padre Roger Araújo:

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A arte de cinzelar palavras de vida através da conversa

  
“O Espírito da Verdade..., vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e está em vós” (15,17)

O Evangelho deste domingo faz parte de uma longa conversa de Jesus com os seus amigos, durante a Última Ceia, e que João recolhe nos capítulos 13 a 17.

Era uma conversa amiga, que ficou na memória do discípulo amado. Jesus, assim parece, queria prolongar ao máximo esse último encontro, momento de muita intimidade. Para João, a conversa de Jesus tem uma conotação de profundidade e trato, de certa familiaridade e ternura.

Nesta interação Jesus-discípulos, tanto os conteúdos expressos como os aspectos relacionais ganham uma grande importância: as palavras, os gestos, o olhar, a maneira de falar, o tom da voz, os silêncios, o contexto onde acontece a conversação...; tudo isso forma parte da diversidade e riqueza da revelação de Jesus aos seus mais íntimos. Jesus extrai palavras significativas, previamente cinzeladas e incorporadas no seu interior, onde elas revelam dinamismo, sentido e alteridade; sua conversa brota de uma vida interior fecunda e conduz a uma vida comprometida. Trata-se de um verdadeiro “testamento espiritual” 

conversação constitui, portanto, o núcleo diferencial de qualidade de trato próximo e fraterno daqueles(as) que, além de viverem juntos, compartilham a vida com um projeto comum.

No entanto, há conversa e conversa. Há conversa superficial que gasta palavras à toa e revela o vazio das pessoas. E há conversa que toca fundo no coração e fica na memória. Todos nós, de vez em quando, temos esses momentos de convivência amiga, que dilatam o coração e vão ser força na hora das dificuldades. Ajudam a ter confiança e a vencer o medo.

Conversar constitui uma das experiências humanas mais antigas e configuradoras de nosso ser. Ela não se reduz a um mero intercâmbio de palavras; é um processo essencialmente ativo, inerente à nossa natureza relacional, cuja finalidade última é viver a experiência do encontro.

Conversar é uma das aprendizagens vitais que não tem data de vencimento.

A arte da conversação é um caminho pedagógico, um processo gradual que requer uma capacidade de escuta, de acolher e deixar-se afetar pelo que o outro é, não só pelo que diz; uma capacidade de olhar com profundidade para reconhecer uma história santa, um caminho de salvação. É reconhecer no outro o que há de verdadeiro, bom e belo e descobrir como o dinamismo de Deus atua no coração dele. É ajudá-lo a descobrir, na trama de sua vida, as motivações profundas que o levam a ser e a agir de uma maneira muito pessoal.

conversação é uma experiência profundamente humana de proximidade, de conhecimento, de inter-câmbio, de ternura..., um encontro entre pessoas que vão compartilhando histórias de vida, esperanças e frustrações, vontade de construir e sonhar... Na conversação, o que importa é a pessoa do outro e não os problemas que apresenta...; ela é o lugar privilegiado de encontro e descoberta misteriosa do Outro (Deus).

“Conversar” e “converter”, etimologicamente, vem da mesma raiz. Em seu sentido mais radical e profundo “conversar” é “converter-se” ao mistério do outro, é converter-se à alteridade. A conversação reforça os laços, criando a comunidade de “amigos no Senhor”.

Sair dos corredores do próprio claustro interior e de seus mecanismos de defesa para converter-se em um servidor do outro, com a mediação mais humana, mais sutil, mais imediata e universal, mais iluminadora e mais reveladora da própria maturidade: a palavra.

Mesmo “isolados socialmente” devido à pandemia, a conversação nos liberta da solidão e do fechamento, fazendo-nos crescer na transparência. As inúmeras possibilidades de conversar são encontros que nos reconciliam com a vida, nos movem a crescer e a sair de nosso isolamento. Ela nos permite sentir que formamos parte da vida de outros e nos ajuda a levantar-nos quando as perdas, os fracassos, as enfermidades... tornam difícil nosso caminhar.

Para chegar a conversações mais profundas e íntimas precisamos percorrer o caminho que se inicia no cotidiano e no aparentemente superficial. Encontrar-nos com os outros é uma experiência que requer seu tempo, seu espaço, seu ritmo. Nossa natureza relacional continuamente nos oferece oportunidades para conversar; depende de nós fazê-las banais ou convertê-las em experiência de vida. 

Segundo Jesus, o protagonista principal da conversação é o Espírito, que gera em nosso interior palavras de vida e criatividade. Numa conversação profunda deixamos transparecer nossa verdadeira identidade, nossa verdade original. Mas é o Espírito, que nos habita, Aquele que cava em nós palavras de vida.

Quando Ele encontra liberdade para atuar em nós, faz brotar das entranhas das palavras sua riqueza escondida. Por isso, Ele é o “Espírito da Verdade”: não a verdade racional, dogmática, doutrinária...

Refere-se à “verdade profunda” que nos diz que fomos criados para uma Vida plena e para contribuir a que cada ser humano participe de tal Vida. Ele é a “verdade íntima” que nos diz que, no mais profundo de nós mesmos, não só pulsa um coração, mas também um Deus que inspira em todos nós uma maneira original de ser mais humano. Ele é a “verdade autêntica”: somos filhos(as), irmãos(ãs) e somos chamados(as) a viver como tais.

Mais ainda: o “Espírito da verdade” nos convida a viver na “verdade” de Jesus em meio a uma sociedade onde a mentira é considerada estratégia, a manipulação é vista como bom negócio, a irresponsabilidade é confundida com a tolerância, a injustiça é identificada com a ordem estabelecida, a arbitrariedade é propagada como ato de liberdade, a falta de respeito e a violência verbal como expressões de sinceridade...

Para além das imagens e símbolos, é decisivo re-descobrir a presença do Espírito de Deus que, dentro de cada um de nós, provoca movimentos, ativa as brasas escondidas no coração, nos faz fortes, alegres, valentes, apaixonados(as), audazes e sábios(as). Devemos acolhê-lo com coração simples e confiado, abrindo espaço para que Ele atue com liberdade, inspirando-nos e fazendo-nos mais criativos. É Ele que dá sabor e sentido à nossa existência e nos enraíza no modo de ser e de viver de Jesus.

Conduzidos(as) pelo Espírito de Jesus, mergulhamos em nosso mundo com os olhos abertos, com os ouvidos atentos, com o coração sensível para ter acesso à verdade profunda de toda a realidade. Tudo é perpassado por essa presença alentadora, que “faz novas todas as coisas”.

Este Espírito de Vida subsiste em tudo e em todos, embora muitas vezes nos tornamos traidores(as)  do Seu sopro com nossos exclusivismos, condenações e rejeição do pluralismo fomentado pelo mesmo Espírito.
Nenhuma espiritualidade e nenhuma igreja tem o monopólio do Espírito de Cristo, que sopra onde quer, como e quando quer, sem que o controlemos; para o Sopro, não há barreiras e nem fronteiras.
Todos e todas estamos em caminho, envolvidos no dinamismo contínuo desse Espírito Pascal.

Texto bíblico:  Jo 14,15-21 
Na oração: Pela conversa a pessoa manifesta quem ela é.  “Onde está   sua conversa, aí está seu coração”.
Quais são suas conversas? Elas animam os outros, eleva-os, “aquecem seus corações?...
Aguce seus sentidos, abra o coração; há tantos que não podem mais esperar, pois ansiosos aguardam uma presença que acolha e uma palavra que os anime.

Pe. Adroaldo Palaoro sj


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sábado, 16 de maio de 2020

LIMITES E RESPONSABILIDADES – Antônio Hamilton Martins Mourão


Nenhum país do mundo vem causando tanto mal a si mesmo como o Brasil. Um estrago institucional, que agora atingiu as raias da insensatez, está levando o País ao caos. Há tempo para reverter o desastre. Basta que se respeitem os limites e as responsabilidades das autoridades constituídas.

A esta altura, está claro que a pandemia de covid-19 não é só uma questão de saúde: por seu alcance, sempre foi social; pelos seus efeitos, já se tornou econômica; e por suas consequências pode vir a ser de segurança. A crise que ela causou nunca foi, nem poderia ser, questão afeta exclusivamente a um ministério, a um Poder, a um nível de administração ou a uma classe profissional. É política na medida em que afeta toda a sociedade e esta, enquanto politicamente organizada, só pode enfrentá-la pela ação do Estado.

Para esse mal nenhum país do mundo tem solução imediata, cada qual procura enfrentá-lo de acordo com a sua realidade. Mas nenhum vem causando tanto mal a si mesmo como o Brasil. Um estrago institucional que já vinha ocorrendo, mas agora atingiu as raias da insensatez, está levando o País ao caos e pode ser resumido em quatro pontos.

O primeiro é a polarização que tomou conta de nossa sociedade, outra praga destes dias que tem muitos lados, pois se radicaliza por tudo, a começar pela opinião, que no Brasil corre o risco de ser judicializada, sempre pelo mesmo viés. Tornamo-nos assim incapazes do essencial para enfrentar qualquer problema: sentar à mesa, conversar e debater. A imprensa, a grande instituição da opinião, precisa rever seus procedimentos nesta calamidade que vivemos.

Opiniões distintas, contrárias e favoráveis ao governo, tanto sobre o isolamento como a retomada da economia, enfim, sobre o enfrentamento da crise, devem ter o mesmo espaço nos principais veículos de comunicação. Sem isso teremos descrédito e reação, deteriorando-se o ambiente de convivência e tolerância que deve vigorar numa democracia.

O segundo ponto é a degradação do conhecimento político por quem deveria usá-lo de maneira responsável, governadores, magistrados e legisladores que esquecem que o Brasil não é uma confederação, mas uma federação, a forma de organização política criada pelos EUA em que o governo central não é um agente dos Estados que a constituem, é parte de um sistema federal que se estende por toda a União.

Em O Federalista – a famosa coletânea de artigos que ajudou a convencer quase todos os delegados da convenção federal a assinarem a Constituição norte-americana em 17 de setembro de 1787 –, John Jay, um de seus autores, mostrou como a “administração, os conselhos políticos e as decisões judiciais do governo nacional serão mais sensatos, sistemáticos e judiciosos do que os Estados isoladamente”, simplesmente por que esse sistema permite somar esforços e concentrar os talentos de forma a solucionar os problemas de forma mais eficaz.

O terceiro ponto é a usurpação das prerrogativas do Poder Executivo. A esse respeito, no mesmo Federalista outro de seus autores, James Madison, estabeleceu “como fundamentos básicos que o Legislativo, o Executivo e o Judiciário devem ser separados e distintos, de tal modo que ninguém possa exercer os poderes de mais de um deles ao mesmo tempo”, uma regra estilhaçada no Brasil de hoje pela profusão de decisões de presidentes de outros Poderes, de juízes de todas as instâncias e de procuradores, que, sem deterem mandatos de autoridade executiva, intentam exercê-la.

Na obra brasileira que pode ser considerada equivalente ao Federalista, Amaro Cavalcanti (Regime Federativo e a República Brasileira, 1899), que foi ministro de Interior e ministro do Supremo Tribunal Federal, afirmou, apenas dez anos depois da Proclamação da República, que “muitos Estados da Federação, ou não compreenderam bem o seu papel neste regime político, ou, então, têm procedido sem bastante boa fé”, algo que vem custando caro ao País.

O quarto ponto é o prejuízo à imagem do Brasil no exterior decorrente das manifestações de personalidades que, tendo exercido funções de relevância em administrações anteriores, por se sentirem desprestigiados ou simplesmente inconformados com o governo democraticamente eleito em outubro de 2018, usam seu prestígio para fazer apressadas ilações e apontar o País “como ameaça a si mesmo e aos demais na destruição da Amazônia e no agravamento do aquecimento global”, uma acusação leviana que, neste momento crítico, prejudica ainda mais o esforço do governo para enfrentar o desafio que se coloca ao Brasil naquela imensa região, que desconhecem e pela qual jamais fizeram algo de palpável.

Esses pontos resumem uma situação grave, mas não insuperável, desde que haja um mínimo de sensibilidade das mais altas autoridades do País.

Pela maneira desordenada como foram decretadas as medidas de isolamento social, a economia do País está paralisada, a ameaça de desorganização do sistema produtivo é real e as maiores quedas nas exportações brasileiras de janeiro a abril deste ano foram as da indústria de transformação, automobilística e aeronáutica, as que mais geram riqueza. Sem falar na catástrofe do desemprego que está no horizonte.

Enquanto os países mais importantes do mundo se organizam para enfrentar a pandemia em todas as frentes, de saúde a produção e consumo, aqui, no Brasil, continuamos entregues a estatísticas seletivas, discórdia, corrupção e oportunismo.

Há tempo para reverter o desastre. Basta que se respeitem os limites e as responsabilidades das autoridades legalmente constituídas.

Antônio Hamilton Martins Mourão

VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA



FONTE: O Estadão
opinião.estadao.com.br

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Antônio Hamilton Martins Mourão é um general da reserva do Exército brasileiro e vice-presidente da República. Elegeu-se para a Vice-Presidência em 2018

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sexta-feira, 15 de maio de 2020

QUANDO UM HOMEM SE SENTE TRAÍDO – Ignácio de Loyola Brandão


Lembrando de Nirlando Beirão, a pessoa mais gentil que conheci na vida e cujo texto fará falta na imprensa e na literatura. Agora a morte está vindo de batelada. Juntos, o músico Aldir Blanc e o ator Flávio Migliaccio.

Todos nós, diariamente, ligamos para amigos para saber como estão de saúde e suportando a quarentena. Uma dessas ligações foi para Humberto, amigo que faz vídeos de todos os gêneros, alertando que um dia assombrarão. Não sei quem, mas ele jura que assombrarão. Tomara sobreviva, quero ser assombrado.

“Você está bem, Beto? Resistindo?”

“Bem? Bem mal, isso sim! Faz três dias que minha mulher me ignora”.

“Está sendo traído?”

“Não sei se chega a isso, mas agora pareço não existir. Dói.”

“Celeste tem um caso? Não me diga. Vocês são vistos como o casal mais apaixonado, fiel. Loucos um pelo outro. Não estou entendendo.”

Quando digo grupo, refiro-me aos amigos próximos e parentes, não a esses grupos de redes sociais que têm milhares de seguidores e vivem azucrinando os outros.

“Pois é, a Celeste...”

“Conta, conta tudo. Deve ser coisa da sua cabeça. A Celeste? Vamos nos encontrar. Trocar figurinhas. Mas é sério?”

“Esqueceu que não podemos sair? Celeste, ah, que triste. Não liga mais para mim, me esquece, só tem olhos para o outro, vive o dia inteiro atrás dele.”

“Como sabe? Como descobriu? Olhando o celular? Coisa que não se deve fazer. O sujeito mandou flores, bilhetes, joias? Alguém viu e te abriu os olhos?”

“Nada disso, é tudo claro. O outro está aqui? Dentro de casa”

“O quê? Dentro de casa? Você viu? Sabe quem é? Falou com ele?”

“Vi. Não adianta falar com ele. É indiferente, fica na dele! Não responde, nada diz, nada comenta. Fica por aqui, vai para lá volta para cá, indiferente.”

“Minha Nossa Senhora Desatadora de Nós, parece Nelson Rodrigues. Não será efeito do tédio do confinamento? Não dá para peitá-lo? Dizer qual é a tua, bicho?

“Bicho? Gíria de nossa juventude. Nada adianta. Ele circula pela casa, ela vai atrás. Não adianta dizer uma palavra, nem ameaçá-lo. Ele não ouve, me desdenha, ignora, ele vira as costas.”

“Celeste surtou? Nessa quarentena, tem gente pirando, perdendo o controle, ficando paranoica. Eu mesmo tenho feito besteiras que me preocupam. Hoje, ao colocar a mesa para o almoço, minha tarefa doméstica (uma delas, claro), percebi que coloquei em lugar de garfo e faca, duas facas. Ontem saí perguntando: você viu meu relógio? Não encontro. Você não usa relógio, garantiu minha mulher. Não quer dizer celular? Era. Quantas vezes, com o celular, faço uma ligação e o meu fone fixo toca, estava ligando para mim mesmo. Pior foi no dia em que estava escrevendo anotações com uma BIC. Você conhece o poder das canetas, elas podem tudo. A carga acabou, apanhei um tinteiro – porque tenho caneta tinteiro também, sonho de adolescência. E me vi mergulhando a BIC no tinteiro. Não estou louco, divirto comigo mesmo. Se for preciso, tenho um amigo terapeuta, o Uchikusa, peço, ele me atende, bom sujeito. Qualquer dia escrevo a história dele.”

Ele me ouviu com paciência, sabe que preciso desabafar.

“Pois é a Celeste. Estou em casa, e ela some. Chamo, procuro e descubro, lá está ela junto dele.”

“A coisa é grave. Quem é esse homem? Foi de repente? 

“Faz três dias. Desde que ele chegou fui esquecido. Ela está encantada. Passa o dia para lá e para cá. Preocupa-se com ele, ri dele, ajuda-o com ternura. Não sei o que fazer.”

“Mas quem é esse homem?

“Não é homem, ela está apaixonada pelo robozinho que limpa a casa. Redondinho como se fosse a base de uma antiga enceradeira. Programado, solto, ele vai em frente, bate em um obstáculo, vira, tem sensores que o orientam, é até assustador, vira, vem, avança, parece inteligente, acho que pensa, é pacifico, obcecado, vê uma poeirinha vai lá. Até me deu até saudades daquele robô simpático da série Perdidos no Espaço – só idosos vão se lembrar – ou o R2-D2 do Guerra nas Estrelas. Limpa, e como limpa! Não fica um cisquinho. Penso o que vamos fazer com a diarista da limpeza quando tudo voltar ao normal. A Celeste feliz, disse: agora estou livre, há anos sonho com isso. E vai atrás, feliz, quando ele tenta entrar embaixo de um móvel e fica preso, ela corre e desenrosca. Claro que ela contou às amigas, mandou vídeos, deu uma epidemia, de compra. Todas encomendaram. Tem uma amiga dela, cheia da grana que pesquisa na Amazon, à procura de um robozão que cuide da casa inteira, limpe janelas, lave banheiro, cozinhe, lave roupa, faça as unhas, massageie os pés, atenda telefone, ligue a tevê, faça o café, faça massagem, pratique ioga, corra na esteira, faça compras de supermercado, dê conselhos, jogue na Mega Sena. E principalmente faça amor.” 

Pera?

O Estado de S. Paulo, 08/05/2020


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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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quinta-feira, 14 de maio de 2020

A POESIA DESCUIDADA DE IOLANDA COSTA – Cyro de Mattos



A Poesia Descuidada de Iolanda Costa                           
Cyro de Mattos


Iolanda Costa faz sua estreia com Poemas sem nenhum cuidado (2004), editora da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania, com prefácio de Jorge de Souza Araújo, em livro duplo, no qual figura Ricardo Dantas como o outro poeta estreante, com a obra Lembrança de uma infância.  O seu segundo livro é Amarelo por dentro (2009), com prefácio de Florisvaldo Mattos. Ela publicou ainda a plaqueta Alguns poemas,  reunidos em pequeno conjunto,  do  período compreendido entre 2004 e 2015.

           Embora o título do livro seja de Poemas sem nenhum cuidado, dando a impressão de elenco poético estruturado no exercício de estética fácil, o que neles se observa é a aptidão de conduta lúdica com as palavras gravadas no jogo dialético da vida. O anúncio que apregoa o título desconcerta-se face a intimidade de uma estética transgressiva, que se serve do lúdico nos   cantos breves. A dicção   transmuda os instantes do mundo em “água rasa de palavras cheias.”
 
           Iolanda Costa é um poeta experimental, mas que não despreza a emoção, o momento sensível que decorre da metáfora, com figurações, analogias, relações do tempo e passagem,   soluço e abafo,  ternuras que oscilam na mão com a perda, presença  do sol e referências da noite que tudo apaga.  Traçado  o poema com poesia, fruto que se quer comunicativo com o componente  lúdico,  no sistema verbal transgredido,   configuram-se então  o tempo e o modo de  peixes e flores, que hão de nascer da boca entreaberta de ideias.
 
           Anote-se que há poesia na vida, sem  poema. Há poema, vazio de significado, sem poesia. A poesia é essa energia que ilumina o ser  e alcança nossa harmonia no mundo. Diz de  sonho acordado, do sentimento  germinado no onírico,  como feixe de  brilhos na visão que absorve  beleza e encantamento dos seres e coisas ante o efêmero e o eterno.  Já o poema resulta da experiência do sentir e do pensar, que se atreve ser  na aventura da  palavra  com  múltiplas faces.   Constituído de tremores,  mora    na asa do ser. Sua capacidade devolve  à existência o que é apenas um momento, um curto  prelúdio  a que  segue o desencanto ou de novo  um outro som ou cor.

        Em Iolanda Costa desprende-se  o poema com poesia aglutinada em ritmos livres, cada verso dá-nos a impressão de total espontaneidade, apenas a impressão. A  ideia que  inaugura proposições novas  vem  com o vocábulo no jogo da semântica,  que se reconhece no instante e desnuda o todo, espraia a sensação de que o enunciado não tem  margens, princípio,  nem fim. Nessa poética do  jogo e apuro da palavra,  a cor e o som  são inscritos numa faixa de presságio, inauguram-se na  benevolência dos contatos,  da carícia que a ave  traz no bico como  sentimento forte do amor. Testemunho de vida, tábua de surpresas,  essa poética  sem a  métrica e a sonoridade da rima  confronta com facilidade,  em nível de  mimese, o eu de um lado e o objeto do outro, mas também faz seus mergulhos no pensamento, transmuda a emoção em ritmos que soam entrecortados de alusões, frente a  mudanças e nudez das linhas.

        Esse jogo usual dos instantes, em conversa constante com a vida, essa ideia de ternura da mão que oscila, entre sons e cores, está dentro de Iolanda Costa. Ressurge nas letras,  fixa-se na escrita gravada por  linhas e situações obtusas, captadas pela  vocação autêntica da  poeta, que sabe armar a brincadeira do poema no ser–estar do mundo  com o fácil, mas  que é sério. Intercala-se respeitável no  interior do mundo, diz de  homens tristes,  desaparecidos no horizonte. A poesia apreendida  nessa música vocabular  está presente em tudo, valoriza-se entre  luzes e sombras, duvidosa não sabe que cor estará vestindo na próxima estação.

        Transforma a  emoção com a forma  de  letras descuidadas,  determinantes do ânimo que impinge no   poema, cunha representações como “sinos, sorrisos, santuários e sendas.”  Entreabertas de sonhos, em espelhos  raros, de madrugada quando são contumazes segredos,  no  vento de amanhecer quando sopram a face órfã das claves  agudas,  ou  quando  desaparecem como objetos nas  sombras.  A fatura do poema revestido de jogo vocabular  dá-se com competência,  torna-se instigante nessas normas inversas  de criatividade. Apresentam-se com a  feição de lúdicas invenções   para com sinais novos  imprimir na pele   segredos e efingies/ impressões  partituras e notas/ de antigos altares.

         Às vezes, o poema que   nasce com os objetos é como um facho  aceso no instante  e  desaparece na sombra, toma forma fugitiva    com  o  seu jeito de breve observação do sentimento.  É emoção e  forma em síntese, reprodução de clima anímico  liricamente coeso no instante. Está no poema “Distância” que “a felicidade/ titubeia / entre o / amor e a / saudade.”
                           
            O exercício qualificado  desses poemas, sinalizados pelo poeta  sem nenhum cuidado, surge também  com os vazios nas linhas,  que servem  como reforço das associações e sugestões do caráter do verso,  composto de  sutilezas determinantes,   nuances  de  ritmo e significado. Poemas sem nenhum cuidado  é livro de poeta estreante com resultados positivos na   estrutura inovadora.  Sua  clara funcionalidade moderna forma o canto  capaz de  atrair o leitor paciente   para  escutar o som interior do mundo,  testemunhar “o fervilhar das cores na disputa dos matizes.”

          Iolanda Costa é graduada em Filosofia e especialista em História Regional pela Universidade Estadual de Santa  Cruz. Participou da antologia Poetas Novos da Região Cacaueira. Sua dissertação no curso de mestrado intitula-se Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense.

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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quarta-feira, 13 de maio de 2020

A QUARENTENA FALIU - Guilherme Fiuza


A quarentena faliu
por: Guilherme Fiuza

Das redes sociais aos telejornais, a patrulha viral está em pé de guerra – recitando números de mortos para dizer que mortos não são números. E quem é que pensa que mortos são números? Você! (segundo eles). A mensagem é clara: quem não se converter à Seita da Terra Parada é desumano e está brincando com vidas. Aí aconteceu o que ninguém esperava.

O governador de Nova York, Andrew Cuomo, adversário de Donald Trump e adepto do isolamento horizontal, deu uma entrevista bombástica. Nota rápida: governadores e prefeitos em várias partes do mundo hoje em dia passam a vida dando entrevistas bombásticas – e intermináveis, porque com recordes sucessivos de audiência não se brinca. Frequentemente são entrevistas macabras, como aquela do prefeito de São Paulo enumerando urnas funerárias, sacos para cadáveres e abertura de valas. Mas essa de Andrew Cuomo mudou tudo.

Segundo o governador do estado americano mais atingido pela epidemia de coronavírus, 84% das pessoas que estão hoje hospitalizadas com Covid-19 estavam cumprindo as medidas de confinamento. Vamos repetir, porque você está achando que leu errado: apenas 16% dos pacientes de coronavírus internados hoje na rede hospitalar de Nova York não estavam na quarentena horizontal. Andrew Cuomo, que é adepto fervoroso do “fique em casa”, informou com todas as letras, “chocado” (nas palavras dele mesmo), que a imensa maioria dos doentes de Covid-19 estava em casa.

E agora?

Agora é o seguinte: você aí, militante furibundo da Seita da Terra Parada, que passa o dia patrulhando os outros nessa sua obsessão doentia de apontar assassinos, vai ter que se virar. Abrir a porta de casa e botar o pé na calçada, querido caçador de bruxas, não pode mais ter tipificado por você e seus capangas ideológicos como tentativa de homicídio. Que pena, né? Tava tão bom brincar de bancar o herói da ética humanitária contra o genocida da esquina, não tava? Pois é, mas agora acabou.

O seu pretexto covarde, que nunca teve nada de científico (mas você fingia que tinha) se desmanchou ao vivo na televisão – logo ela, que tanto te serviu para perseguir os outros. E veja que coisa curiosa: a revelação do governador de Nova York sumiu – simplesmente sumiu – do noticiário. Uma informação que demarca absolutamente todo o conjunto de premissas no combate à pandemia caiu na clandestinidade – ao menos nas primeiras 48 horas, o que é uma eternidade para quem vive gritando que cada minuto é precioso para salvar vidas enfiando todo mundo em casa.

A própria OMS – principal referência de vocês, os falsos seguidores da ciência, para a política do trancamento geral – já tinha alertado sobre a migração das frentes de contágio para dentro das casas. E não era culpa do velhinho que foi à padaria – como vocês, sempre covardemente, tentavam alegar para manter o seu dogma. Era culpa do vírus. Ele é que foi à padaria, ao banheiro, ao quarto, à sala e a todos os lugares de carona com humanos que nem sabiam dele.

Mas vocês, os científicos oniscientes, sempre souberam onde estava cada covid, e mandaram a humanidade se trancar em casa que o vírus ia morrer de fome do lado de fora. Mas ele fez a festa no aconchego dos lares, e será eternamente grato a vocês, os talibãs da quarentena burra (e devastadora).

Agora vamos ver como as vítimas do sequestro consentido farão para recuperar a liberdade – aquela que é muito fácil perder e muito difícil conquistar. Os tiranetes de São Paulo, João Dória e Bruno Covas, estão soldando as portas do comércio, numa boa, como se estivessem na União Soviética. Os tiranetes do Rio de Janeiro, Wilson Witzel e Marcelo Crivella, querem o lockdown total – para que o cidadão só possa ir à farmácia pedindo a autorização deles.

Nunca se viu tanta estupidez e covardia per capita. Acordem, antes que a noite se instale de vez.


Guilherme Fiuza - (Rio de Janeiro30 de maio de 1965


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UM MANTO DE LUZ QUE ATRAVESSA O MUNDO A PARTIR DE FÁTIMA


Antoine Mekary | ALETEIA

Redação da Aleteia | Maio 12, 2020

Celebrações do dia de Nossa Senhora de Fátima não terão a presença dos fiéis no seu santuário, em Portugal. Mas será possível acompanhar tudo pela internet


Pela primeira vez na sua história, o Santuário de Fátima vai celebrar os dias 12 e 13 de maio sem peregrinos nos seus espaços. Isso devido às decisões sanitárias impostas pelas autoridades por causa da pandemia provocada pela Covid-19.

“Este é um momento doloroso: o Santuário existe para acolher os peregrinos e não o podermos fazer é motivo de grande tristeza; mas esta decisão é igualmente um ato de responsabilidade para com os peregrinos, defendendo a sua saúde e o seu bem-estar”, disse o reitor do Santuário de Fátima.

“Não podemos contar com a vossa presença física, mas gostaríamos de poder contar convosco. Porque não se peregrina só com os pés, mas também com o coração, propomos-vos que façais conosco uma peregrinação pelo coração, em que o caminho não é físico, mas interior”, afirma ainda o padre Carlos Cabecinhas, desafiando os peregrinos a acenderem, na noite do dia 12 de maio, a partir das 21h30 (horário local), nas janelas de suas casas, uma vela, repetindo assim um dos gestos mais icônicos de Fátima.

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“Neste maio, o Santuário de Fátima é do tamanho do mundo. Celebraremos, em festa, a primeira Aparição de Nossa Senhora neste lugar, aonde veio para deixar uma mensagem de esperança, num tempo que também era marcado por tantas tribulações. ‘Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus’, disse Nossa Senhora a Lúcia. Que esta esperança , que deve ser marca presente em cada cristão, nos dê alento e nos guie até ao dia em que vamos, por certo, voltar a poder estar todos reunidos na Cova da Iria para, juntos, celebrarmos a nossa fé” afirmou o padre Carlos Cabecinhas.

Como assistir às celebrações

As celebrações destes dias 12 e 13 de maio decorrerão no Recinto de Oração, que estará fechado ao público. No entanto, os peregrinos de Fátima podem acompanhar as celebrações através da internet, nomeadamente no canal do Youtube, no site ou no Facebook do Santuário.

As celebrações, sem a presença física de peregrinos e apenas com a presença das pessoas diretamente implicadas nos diferentes momentos celebrativos, começam no dia 12, às 21h30 (horário local), com o Lucernário, na Capelinha das Aparições; segue-se a oração do Rosário e Procissão de Velas, num trajeto mais curto até ao Altar do Recinto. Aí haverá uma celebração da Palavra, regressando depois a Imagem de Nossa Senhora à Capelinha das Aparições.

No dia 13, a habitual oração do Rosário começa às 9h00, na Capelinha das Aparições e às 10h00 (horário local) será celebrada a Missa da Solenidade de Nossa Senhora de Fátima, presidida pelo cardeal D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima. As celebrações terminam com a Procissão do Adeus.



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