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segunda-feira, 2 de julho de 2018

DIÁRIO DE VIAGEM - Francisco Benício dos Santos (11)


BORDO DO Pedro II

31º DIA


Um mês de viagem.
Malas arrumadas.
Passaporte visado.
Cartas de apresentação.
Despedida.

Embarco na “Ferro Carril Transandina” para Valparaíso, no Chile.
Em frente, os Andes, maciços, imponentes – a divisa natural entre Argentina e o Chile.
Eternamente coberto de neve e povoado pelos condores e vulcões.
Ao sul a terra do fogo e ao fim o cabo Horn, onde o Pacífico e o Atlântico se digladiam eternamente sem nenhum dos pugilistas cederem na luta de milhões de séculos.
Lembra-me a coragem e a inteligência  do luso Magalhães, que num assomo de paciência, persistência e intrepidez doou ao mundo a passagem do estreito que tomou o seu nome, cujo epílogo  de tão arriscada e temerosa jornada, foi a sua morte inglória numa ilha selvagem do Pacífico, numa peleja com os nativos.
Triste destino de tão alto personagem.
Pobre Fernão de Magalhães! Viveu somente para o sofrimento, legando o seu nome e a sua descoberta a humanidade que a deixou no mesmo estado até hoje.
Nem valeu a pena o sacrifício.
Aquela passagem pequena, estreita, sinuosa e cheia de escolhos e perigos, é ainda considerada temerosa para os navios que a tentam cruzar, arrastando a raiva e a fúria dos dois oceanos, sempre hostis.

Atravesso regiões maravilhosas  e cidades importantes, e os vários túneis, viadutos e paisagens  da cordilheira.
Afinal Valparaíso, estou no Chile.
Cidade sorriso, cidade encanto, cidade dum povo bom, acessível e, sobretudo, amigo do Brasil e dos brasileiros.
Es brasileno, es Hermano”.

Avenida Brasil, belíssima, artéria cujo nome lembra o meu país distante.
Estamos na costa e porta do oceano Pacífico.
Do outro lado da cordilheira andina, o Brasil...
Indústrias de salitre e de nitratos, riqueza mineral e principal fonte de receita do Chile.
Santiago.
A grande capital e principal cidade do país, tão importante como São Paulo, Porto Alegre  e Montevidéu, apenas inferior ao Rio e Buenos Aires.
Sede do governo e das escolas superiores e universitárias. Centro cultural importantíssimo. Comércio notável.
Demoro-me pouco aqui. Estou atrasado e preciso chegar ao México e a distancia a percorrer é enorme...
Amanhã viajo para a República do Peru.

Já perdi a cronologia deste diário. Agora as notas serão contínuas.
Os incômodos, as viagens, as mudanças, prejudicaram  a continuidade.

Bordo do navio “Hudson” transoceânico norte americano da linha Pacífico Atlântico, via canal do Panamá-Valparaíso-New York.
A costa do Pacífico no Peru é desnuda e desprovida de vegetação; uma desolação!
Verdadeiro contraste com as costas magníficas do Brasil.
A viagem é monótona e aborrecidíssima.

Quatro dias de Valparaíso a Calau. Passei todo esse tempo em leituras. Não fiz camaradagem com os passageiros, na maioria, norte-americanos, ingleses e japoneses, poucos sul-americanos. Apenas dois rapazes peruanos e um casal chileno que se destinavam à Venezuela.

Fiz relações ligeiras com um peruano, muito simpático, mas que nada sabia do Peru e da sua história. Foi criado no Chile.
Chegamos a Calau, o principal porto do Peru, espécie de subúrbio de Lima.
Desembarco só. O navio descarrega mercadorias e ruma ao seu destino.
As dificuldades aduaneiras aqui não existem, especialmente para os brasileiros que são aqui queridos e estimados.
Estou encantado com os peruanos, tal a sua cativante bondade.
E as mulheres, verdadeiros tipos de beleza. A mestiçagem entre fidalgos espanhóis e fidalgos incas deu em resultado o belo tipo moreno das mulheres peruanas.

Lima é uma cidade bem diferente das suas congêneres sul-americanas. Aqui o cunho andaluz é proeminente,  na terra dos vice-reis da Espanha onde a fidalgaria espanhola deixou largos traços da sua característica, nos edifícios, nos costumes,  no povo e na sua aristocracia.
A todo passo encontram-se  edifícios notáveis ao gosto e ao estilo andaluz, em contraste com os mais belos edifícios do estilo moderno e de traços arquitetônicos deslumbrantes e suntuosos, tais como o palácio presidencial que é, sem contestação, um dos mais suntuosos das Américas, tal a imponência da sua arquitetura.
Lima está cercada de tradições históricas, do passado da civilização inca.

A trinta quilômetros está localizado o célebre Pacha-lanec, local onde se encontram os vestígios da milenária civilização incaica, que os espanhóis destruíram com a conquista do nefasto “Cortez”.
Ruínas de cidadelas, fortes, fortalezas, além do vasto depósito de ossos humanos descobertos e desenterrados pelos terremotos periódicos que assolam aquela região.
Disseram-me que em Cuzco (contou-me o Panchito, meu companheiro de viagem de Valparaíso a Calau), que ali é onde está a magnificência do passado inca.
Lá estão os templos do Sol, as ruínas de Machu-Pichu.
Até foi a milênios, o centro e a metrópole do vasto império que se estendia da Colômbia à Argentina.
É um país de tradição, de um passado único na América.
Lima é a cidade aristocrática da América.
Sua cultura científica, artística, literária é importantíssima.
E quanto à bondade, a gentileza e a hospitalidade dos seus habitantes, só é comparável à brasileira.
A encantadora Lima é o centro cultural e aristocrático por excelência.
Aqui deste lado do Pacífico, tem o Brasil um povo amigo que o admira e venera.

De estrada de ferro vou ao afamado lago Titicaca.
Lá está trepado nos Andes, a oitocentos metros de altura e com cerca de oitocentos metros quadrados de águas salobras. Um verdadeiro espetáculo da natureza!
Água, céu e nuvens formam um todo.
Lhamas mansas, domesticadas a serviço do homem, e lhamas selvagens, vivem à beira do  lago numa sociedade com os indígenas, restos de uma raça de fortes que se definha  e se confunde com seu próprio desaparecimento.

Deixo o Peru saudoso e Lima vai ficar na minha mente com a sua paisagem típica, a sua sociedade culta, a sua hospitalidade à brasileira e a sua bondade inata. (Continua na próxima postagem).


(AQUARELAS E RECORDAÇÕES  Capítulo XXII)
Francisco Benício dos Santos

* * *

02 DE JULHO: INDEPENDÊNCIA NA BAHIA - A lenda da princesa negra que incendiou o mar – Geraldo Maia


A lenda da princesa negra que incendiou o mar


Maria Felipa é uma heroína negra
A poderosa Princesa da Bica
Uma Iabá guerreira pela liberdade
Que pôs fogo no mar de Itaparica
Incendiou os navios da escravidão


Era uma princesa negra poderosa
E simples como o mar e a liberdade
A mesma liberdade arrancada de seu povo
A mesma liberdade que brigava na baía
O mar de Kirimurê era o cais da liberdade


Kirimurê tingida de sangue negro
Fez-se resoluta pela Rua do Cais
Até os confins da África Mãe
Onde viviam livres em suas tribos
Com seus Reis e Rainhas e Guerreiros


E Príncipes e Princesas os mais belos
E livres antes do veneno da cizânia
Atiçada pelos invasores de além-mar
Foi lançado povo contra povo
E alimentada a cobiça pelo ouro negro


As cortes de além-mar estavam famintas
Sua cupidez arrasava os horizontes
Em busca de ouro de todas as cores
O cobiçado ouro negro feito de sangue
De negros e negras escravizados


Traficados como peças de um negócio
Onde seres humanos foram reduzidos
A uma mercadoria de alto lucro
A África foi transformada em celeiro
E seu povo negociado nos mercados


Lançaram reinos contra reinos
Irmãos contra irmãos
Pela força da mentira e da desídia
Caíram os mais fracos nos porões
Os súditos da Rainha África dizimados


Pela febre da escravidão arrancados
Da história de suas famílias e terras
Engolidos pelo mar da escravidão
Esquecidos nos navios infectados
Mas mantidos na memória de suas lendas


Dos guerreiros e princesas reis e orixás
Das danças e cantigas dos parentes
Agora presos nos ferros dos pelourinhos
Uivam nos troncos na chibata na senzala
Gemem nas prisões embrutecidas


Mas no culto de seus antepassados
A união de povos desunidos
Pelas mentiras dos comerciantes
Descobrem que a união é o poder
Que precisam para voltar à liberdade


Reúnem-se nos cantos dos xirês
E assentados nas pedras invisíveis
Cultivam seus deuses e deusas
Firmam a memória de liberdade
E fincam a rebeldia nos gestos


E a voz da liberdade se faz ouvir
De um grito onde ecoa independência
E esse grito ressoa além da fala
É a luta que se trava aguerrida
É o sonho em sua plena possibilidade


A batalha se faz ouvir na voz do povo
Com suas cores e vestes destroçadas
Mas decidido a deixar "nossa pátria 
Hoje livre dos tiranos não será"
Espoca a independência encarniçada


E as lutas travadas em terra e mar
Pelas mãos heroicas do povo
Garantem que "nunca mais o despotismo 
Regerá nossas ações, com tiranos 
não combinam brasileiros corações"


E lá na praia do convento em Itaparica
surge Felipa a princesa negra e sua coragem
Em seu coração o sangue de liberdade
luta feito vulcão quando perde a paciência
É Maria Felipa e sua força guerreira


"Nasce o sol a 2 de julho"
Brilha mais que o primeiro
É sinal que neste dia
Até o sol é brasileiro"


Seu nome para que todos saibam
É Maria Felipa de Oliveira
A heroína negra da independência da Bahia
A heroína negra da independência do Brasil
Negra alta forte e desaforada


Contra a opressão dos invasores
De saia rodada, bata, torço e chinela
A princesa negra que tocou fogo no mar
Auxiliada por um grupo de mulheres negras
Incendiou quarenta e dois navios portugueses
Na lendária Batalha de Itaparica


Ocorrida na praia do convento
Em sete de janeiro de mil oitocentos e vinte e três
Na Ilha de Itaparica que fica na baía de Kirimurê
A baía de todos os santos na Bahia
Onde o povo negro, índio, caboclo e sertanejo


Lutou para garantir a vitória da independência
"havemos de comer/marotos com pão/dar-lhe 
uma surra/de bem cansanção/fazendo as marotas/
morrer de paixão/português, bicho danado/
arrenegado, arrenegado"


E o mar foi incendiado com vitórias
O povo negro, índio, caboclo, sertanejo
Chamou para si a luta nas ruas
Onde se fez vitorioso e obrigou
A fuga dos portugueses que pensaram


Tomar Itaparica outra vez
Depois e a terem desdenhado
O plano era abastecer homens e naus
E rumar fortalecidos sobre o recôncavo
Onde esperavam manter a opressão


Mas na fazenda trinta e sete Maria Felipa
Costumava ficar bem lá no alto
Vigiando os barcos que chegavam
E à noite em romaria pela praia
Com seu grupo de mulheres guerreiras


Invadia os navios com suas tochas
Para atear fogo no mar de Kirimurê
Essa é a história da coragem 
e da força de uma princesa negra
Uma mulher guerreira vitoriosa


Uma linda princesa negra Iabá baiana
Heroína das lutas da independência
Impôs ao invasores cruel derrota
Seus navios incendiados e afundados
Como os corpos negros jogados ao mar


Pela força da cobiça e da usura
Agora ardiam os navios da exploração
E o povo triunfante inicia sua marcha
Desde Santo Amaro, Cachoeira, Pirajá
Onde o corneteiro ao invés de recuar


Tocou "avançar cavalaria degolando"
Estava consolidada a independência do Brasil
A força do grito tornou necessária a luta
O povo é o responsável pela vitória
do Brasil em terra de todos nós


"Cresce, oh filho de minha´alma
Para a pátria defender
O Brasil já tem jurado
Independência ou morrer"


Terra da princesa africana Maria Felipa
A guerreira que tocou fogo nos navios
Para garantir a independência do país
E contribuir decisivamente
Na luta pela liberdade do seu povo


Geraldo Maia
Poeta na Praça


Contribuem:
Hino ao "Dois de Julho"
Ladislau dos Santos Titara
José dos Santos Barreto

E uma canção de domínio público 

...........
Geraldo Maia Santos - Nasceu em Itabuna (Ba), no dia sete de outubro de 1951. Começou a escrever aos seis anos e ainda se considera um aprendiz repetente da escrita numa sociedade ágrafa com forte ascendência oral. Tem nove livros publicados, seis de poesia Triste Cantiga de Alguma Terra (esgotado) é seu livro de estréia, em 1978, Kanto de Rua (esgotado) (1986), Em Cantar a Mulher (esgotado) (1996), Sangue e palavra (1998), O chão do meu destino (2000), ÁGUA (2004) (esgotado) e dois de ficção Atol ou o mar que se perdeu de amor  por um farol (esgotado) (1991) e PUNHAL, prosa de cangaceiro (esgotado) (1992). Todos os livros editados de forma independente, exceto Sangue e Palavra, editado pelo Selo Bahia. E um de cordel: "CORDEL DO MENSALÃO".

* * *

domingo, 1 de julho de 2018

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Ata, em teu coração, os meus ais – Paulo Bezerra


Ata, em teu Coração, os meus Ais

Ata, em teu coração,
Meus ais enormes.
Caminha, e serei, para ti
a mão que ampara.
Deita, e guardarei teu ser
enquanto dormes.
Dorme, e velarei teu sono
que espia.

Canta, e te porei na boca
o doce canto.
Luta, e guardarei, por ti
as armas tuas.
Chora, e secarei de ti
o denso pranto.
Fala, e colherei de ti
verdades nuas.

Fica, e estarei sentado
ao lado teu.
Vence, e terei teus louros
em minhas mãos.
Vive, e cada instante findo
será meu.
Planta, e colherei pra ti
frutos e grãos.

(O ESTRO QUE ILUMINA O SER)
Paulo Bezerra
..................

Paulo Bezerra – Juiz do Trabalho da 19ª Região – AL
Presidente da Vara de União dos Palmares - AL


* * *

AS TRÊS PRIORIDADES - Rodrigo Constantino


29/jun/18
As três prioridades


Estive no Brasil nas últimas semanas, rodando por São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Nesse não pisava há mais de ano. A deterioração é visível, especialmente do espírito. O clima é o pior possível. Com todos que conversei, desde motoristas e cabeleireiros até grandes empresários, a sensação é de derrota, cansaço e desesperança. Se pudesse, a maioria se mudava ontem.

As três prioridades identificadas são: segurança, emprego e resgate de valores morais. Ninguém aguenta mais ser refém dos bandidos, mas como não é possível se enclausurar e deixar de viver, as pessoas se adaptam, ainda que com medo. No dia em que fui embora, três senhoras foram assaltadas por um motoqueiro e seu cúmplice. Basta ver uma moto com alguém na garupa para sentir calafrios. Isso não é normal, mas o carioca se esquece.

Já a economia é o básico: a condição de vida está ruim para todos, com 13 milhões mergulhados no desemprego. Motoristas de Uber têm rodado mais tempo para compensar, e muitos sequer conseguem pagar as contas. Diversos reclamaram que a situação vem piorando. Dois me disseram que pretendem arriscar uma ida para Portugal ou Estados Unidos.

A corrupção generalizada e a degradação de valores morais também jogam lenha na fogueira da revolta. A turma não aguenta mais os políticos do establishment e a mídia “progressista”, que distorce a realidade e ignora as demandas do povo em troca de pautas sem sentido, produzidas por figuras estranhas que querem “lacrar” nas redes sociais. O anseio por algum “outsider” durão que confronte “isso tudo que está aí” e coloque ordem na bagunça vem crescendo.

Em palestras para empresários, não foi difícil identificar o pavor que produz a ideia de um retorno da esquerda radical, por meio de Ciro Gomes ou do PT. Esse pânico, totalmente legítimo, e a fragmentação de um “centrão” que não decola, tem feito muita gente esclarecida flertar com a candidatura de Jair Bolsonaro, como uma alternativa menos pior.

Quando lembram que o liberal Paulo Guedes poderá ser seu ministro da Fazenda, os riscos são mitigados pelo selo de qualidade, ainda que o candidato seja o capitão, não o economista. Mas o desespero tem feito com que o desejo por mudança fale mais alto do que qualquer cautela. Basta andar pelo País para entender como a “análise” de que Bolsonaro vai desidratar não passa de pura torcida. O fenômeno é real e bastante significativo, pois ele já se tornou um símbolo de uma reação a esse caos todo, não importa se com ou sem fundamento.

Por fim, retornei para minha casa na Flórida. Passei pela imigração com toda a documentação em dia. O Trump “malvadão” não me separou dos meus filhos. Os brasileiros esquecem que em países sérios os crimes costumam ser punidos. Por isso são sérios…



Rodrigo Constantino é economista, escritor e um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”

* * *

DE ESTADO SOBERANO A ESTADO CLIENTE - Péricles Capanema


1 de julho de 2018
  Péricles Capanema

Mike Pence, vice-presidente dos Estados Unidos, desembarcou em Brasília na 3ª feira, 26 de junho [foto]. De lá foi para Manaus. No aeroporto manauara, não o esperavam nem o governador nem o prefeito da cidade. Ficou dois dias entre nós.

O presidente Donald Trump ainda não veio ao Brasil. Em quase dois anos de governo, visitou a Itália (duas vezes), o Vaticano, Bélgica, Canadá, China, França, Alemanha, Israel, Japão, Filipinas, Polônia, Arábia Saudita, Cingapura, Coreia do Sul, Suíça, Vietnã.

Ampliando, até agora não visitou apenas o Brasil, de fato não pôs os pés em nenhum país da América Latina, coalhada de tradicionais aliados. A situação reflete deprimente realidade, nem é preciso comentar — para ambos os lados. Os fatos urram. De passagem, está marcada para 30 de novembro próximo visita de Donald Trump a Buenos Aires para a reunião do G-20.

Em boa parte, política é símbolo. Em certo sentido, é sobretudo símbolo. Que a constatação leve a um trabalho sério para aumentar objetivamente a importância da América Latina.

Repito, Mike Pence desembarcou em Brasília. A primeira gestão do mandatário, tentou coordenar com as autoridades brasileiras atitude mais enérgica em relação a Caracas. Mais que mera gestão, veio para isso. Deveria ter sido recebido com entusiasmo por tal objetivo.

Fracassou redondamente. O chanceler Aloysio Nunes Ferreira [à esquerda de Mike Pence]jogou um balde de água fria na esperança do norte-americano que, no caso, só queria mais efetividade e menos lero-lero na compaixão que sentimos do povo venezuelano e maior consciência das ameaças pelas quais passa o Brasil. Disse o vice-presidente dos Estados Unidos: “O Brasil liderou esforços para expulsar a Venezuela do Mercosul, uniu-se aos EUA para suspender a Venezuela da OEA. Agora, chegou a hora de agir com mais firmeza, e os EUA pedem ao Brasil e às outras nações mais atitudes contra o regime de Maduro”.

O recado era direto: chegou a hora de atuar com mais firmeza, de resolver o caso. A resposta brasileira foi também direta: chegou nada, não vamos proceder com mais firmeza, vai continuar o lero-lero, azar do povo venezuelano. Sublinhou o chanceler, ao frisar que a posição dos EUA sobre a Venezuela não coincide totalmente com a do Brasil. “Somos contra qualquer iniciativa unilateral em matéria de sanções. Para nós, o tema da Venezuela está colocado onde deveria estar colocado: na OEA, a Organização dos Estados Americanos”.

Quem de momento mais sofre com as atitudes lenientes do Brasil com a ditadura de Maduro? O povo venezuelano. Quem poderia estar se deliciando com a frieza e o distanciamento do Brasil em relação aos Estados Unidos? A esquerda em geral, claro, em especial a China comunista. Pode ter dividendos amazônicos, é o que veremos.

Quem sofrerá duramente no futuro, se o rumo não for mudado? Nós. Volto a assunto que nenhum brasileiro esclarecido deveria situar fora de suas preocupações. Michel Temer não visitou Washington. Donald Trump não visitou Brasília. Michel Temer visitou Pequim. Xi Jingping, presidente da China, já visitou Brasília. Lembro, política é símbolo.

Política é realidade. Estamos nos lances iniciais de uma gigantesca disputa comercial entre Estados Unidos e China que pode degenerar em guerra comercial generalizada e daí, sabe Deus, em embates até piores. Em tais choques, a China, perdendo mercado dentro dos Estados Unidos, pela força das circunstâncias buscará novos fornecedores e novas parcerias.

À primeira vista, situação favorável para o Brasil. Poderá substituir os Estados Unidos no fornecimento de numerosas commodities e apresentar oportunidades de aplicação de capitais. É, aliás, o que já divulgam setores ligados aos interesses chineses no Brasil. E vão continuar procurando criar clima de simpatia pela posição chinesa, por apresentar reflexo favorável aos interesses brasileiros. De parceiros comerciais seríamos alçados à condição de aliados estratégicos. Balela, soft powerdiplomacia.

Recolho repercussões iniciais de fenômeno perigoso com potencial gigantesco de expansão. “Para o chinês, o investimento não é resultado de uma parceria geopolítica, ele é parte dessa parceria”, declarou Eduardo Centola, sócio do Banco Modal, instituição parceira da estatal CCCC (China Communications Construction Company). Aliás, a bem dizer todo o investimento chinês no Brasil provém de estatais chinesas.

Talvez o Sr. Centola não tenha percebido, mas parceria geopolítica, por ele tanto elogiada, o que é? Geopolítica. Obviamente, favorecer interesses chineses nessa parte do mundo. Qual deles salta logo à vista? Sitiar os Estados Unidos. Aqui está tarefa à qual se prestaria o Brasil.

Vamos adiante. “A China olha o Brasil como um país onde pode escoar capital, tecnologia e capacidade ociosa”, corrobora Kevin Tang, diretor-executivo da Câmara de Comércio Brasil-China.

Satisfeita pelo novo quadro, constata Marianna Waltz, diretora da agência de risco Moody’s; “o Brasil faz parte da estratégia global [da China] de garantir acesso à matéria-prima e de construir a infraestrutura necessária para importá-la”. De novo, houve noção da envergadura do que disse? Pois esse é o papel que desempenhavam as regiões colonizadas em relação às metrópoles nos séculos XIX e XX. Forneciam matéria-prima, as potências colonizadoras construíam sua base.

Com esse quadro de conjunto, para qual situação o Brasil vai sendo empurrado? Para a de Estado cliente. Estado cliente, para quem anda desmemoriado, é Estado econômico, política, às vezes militarmente subordinado a outro. Sinônimos da expressão, Estado finlandizado, Estado satélite, Estado vassalo, Estado tributário, protetorado.

Fascinado por bruxedos aliciantes, passo pesado, o Brasil bambaleia atordoado numa estrada cujo ponto de chegada — Estado cliente — vem sendo escondido. À vera, a estação de destino ainda está pouco clara até mesmo para muitos de seus setores mais responsáveis. Recorro a Mike Pence, chegou a hora de acordar.


* * *

PALAVRA DA SALVAÇÃO (85)


Solenidade de São Pedro e São Paulo – Domingo 01/07/2018


Anúncio do Evangelho (Mt 16,13-19)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós!
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem? ”Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”.
Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?”
Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM:

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Quando Jesus é "rocha" em nosso interior...

“Tu és Pedro, e sobre esta rocha edificarei a minha igreja...” (Mt 16,18)

Há indicações históricas de que já no séc. IV se celebrava uma festa em honra de S. Pedro e S. Paulo. Não é fácil descobrir as razões que levaram aqueles primeiros cristãos a unir em uma mesma celebração litúrgica duas figuras humanas tão diferentes. O mais provável é porque os dois foram martirizados em Roma durante a perseguição de Nero e quase ao mesmo tempo. Pode ser também porque suas sepulturas estivessem juntas durante muito tempo. É também provável que muito cedo se descobriu a complementariedade desses dois homens. De qualquer forma, são um claro exemplo de que personalidades tão diferentes, que inclusive discutiram duramente aspectos importantes da primitiva fé cristã, pudessem ser dois seguidores autênticos de Jesus. 

Mas, desde sempre, Pedro e Paulo foram considerados como as colunas da Igreja. No caso de Paulo é tão evidente que alguns estudiosos chegaram a dizer que ele foi o verdadeiro fundador da Igreja, enquanto organização. Pedro é o personagem mais destacado em todo o NT. Mesmo assim, sabemos muito pouco de sua vida. Pelo contrário, Paulo é a pessoa melhor documentada. É o único apóstolo do qual podemos fazer uma biografia quase completa. 

O texto do Evangelho da festa de hoje nos ajuda a reler nossa vida. Ali afirma-se nossa identidade: temos um nome, que carrega algo sólido, firme, resistente, que não se desfaz com as adversidades existenciais (crises, fracassos...). A identidade de uma pessoa é dada por aquilo que é consistente, seguro... no seu interior e não pelo nome em si.

“Tu és Pedro e sobre esta rocha edificarei minha Igreja..." 

E sobre ela, ao longo dos séculos, se assentou a fé dos cristãos de todos os tempos. Mas a Pedra da qual Cristo fala não é Pedro, pois a pedra da sua presunção, de sua segurança, de seu orgulho se transformou em cacos com suas negações na noite da Paixão. Mais tarde, Pedro, estará em condição de entender que a Pedra é unicamente Jesus. Somente Ele oferece toda a segurança. Pedro nos alenta na fé: confirma os seus irmãos, mas a fé é em Jesus Cristo.

O fundamento da Igreja é Jesus Cristo. Quem é decisivo na Igreja é Ele. O papa, os bispos, a clero tem sua missão e sua importância, mas a pedra angular é o Senhor. Igualmente decisivo é o Reino de Deus, não a Igreja. A Igreja é aquela que trabalha em favor do Reino de Deus, mas o fundamento último é o Reino de Deus. Um Reino de justiça, de amor e de paz.

Mateus, no evangelho deste domingo, nos situa diante de um jogo de palavras entre “petros” (pedregulho, pedra sem estabilidade e que se esfarela) e “petra” (rocha firme, consistente). Simão é, por si mesmo, um “petros”, mas através de sua confissão messiânica, acolhendo a revelação de Deus e confessando Jesus como o Cristo, Filho de Deus vivo, alargou sua interioridade para que o mesmo Jesus ali se fizesse “petra” (Rocha – fundamento). Pedro chega ao grau máximo de identificação com Jesus, que mais tarde Paulo afirmará: “Não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim”. Pedro é proclamado bem-aventurado porque na sua fragilidade (petros) Jesus se faz presença solidificada (petra). A Igreja se fundamenta na misericórdia de Deus, não na força dos homens. A Igreja é a comunidade dos pecadores perdoados, não a comunidade dos perfeitos. 

A primeira coisa que estes dois personagens, Pedro e Paulo, nos ensinam é que não é nada fácil aceitar a mensagem de Jesus e segui-lo. Precisamente, os dois foram os mais resistentes, cada um à sua maneira, na hora de dar o passo e aceitar o verdadeiro Jesus. Tanto Pedro como Paulo eram pessoas muito religiosas e que se encontravam muito confortáveis dentro do judaísmo. O encontro com Jesus desbaratou essa segurança e os fez entrar na dinâmica de uma autêntica relação com o Mestre galileu. Pedro, com toda espontaneidade, não perde ocasião de manifestar sua oposição àquilo que o Mestre dizia.  Paulo foi um fanático na defesa de sua religião. Por defender o judaísmo se converteu em perseguidor de todos aqueles que seguiam a maior heresia surgida dentro do judaísmo: “os seguidores do caminho”.

Mais ainda: pode-se perceber claramente nos evangelhos os obstáculos que eles tiveram de superar para passar do conhecimento de Jesus à vivência de tudo o que Ele pregou. Seria muito interessante descobrir que somente a partir da vivência pessoal alguém pode se lançar à missão de comunicar uma fé. Isto explica como um punhado de pessoas, em pouco tempo, foram capazes de transformar o mundo até então conhecido.

Essa dificuldade que Pedro e Paulo tiveram para seguir Jesus, pode ser de muita ajuda para nós hoje. Pedro, antes da experiência pascal, seguia a um Jesus que se encaixava em seus ideais e interesses de bom judeu. Paulo, antes da queda a caminho de Damasco, servia ao Deus do AT que estava a anos-luz do Deus de Jesus.

Não serve para nada seguir a Jesus sem conhecê-Lo a fundo, identificando-nos com seu modo de ser e viver. Só depois de termos superado os nossos pré-juízos, estaremos preparados para despertar nos outros o desejo de viver o mesmo seguimento. Todos temos de passar pelo doloroso processo de maturação na fé, pelo qual passaram Pedro e Paulo. No caso deles, a dificuldade se agravou porque os dois tiveram que dar o salto de uma religião centrada na Lei a uma experiência interior de seguimento, o que não é em nenhum caso, algo cômodo.

Da aprendizagem de uma doutrina à vivência do seguimento de uma Pessoa, há um grande percurso que todos devemos fazer. Sem essa passagem a fé se converte em pura teoria, que torna estéril nossa vida e nem desperta sedução nos outros. Talvez esteja aqui a causa de muitos fracassos no caminho da evangelização. Estamos mais preocupados em “passar” uma doutrina, uma moral, uma religião... e não deixamos transparecer em nossas vidas que somos seguidores d’Aquele que é Rocha em nosso interior.

Na origem do discipulado e da igreja está sempre presente a consciência de termos sido chamados. A vontade e a decisão de cada um são imprescindíveis, mas são despertadas pela chamado e testemunho de outros, pelo chamado de Jesus e, em último termo, pelo chamado do próprio Deus. Isso é o que significa originariamente o termo “igreja” (ekklesia): “comunidade de chamados”. No chamado de Jesus, Pedro e Paulo reconheceram o chamado de seu próprio interior, o chamado do povo sofredor, o chamado dos tempos difíceis e, em última instância, o chamado do Deus grande e próximo que lhes convidava à identificação com seu Filho e ao compromisso com o Reino. 

Texto bíblico:  Mt 16,13-19 

Na oração: É o Espírito que, guiando-nos pelo caminho da escuta de nosso “eu interior”, nos faz sentir originais, únicos, sagrados...

A oração é a chave interior que abre caminho  para chegarmos até o “eu original”, aquele lugar sólido, a rocha sobre a qual construímos nossa vida. Este é o nível da graça, da gratuidade, da abundância, onde mergulhamos  no silêncio, à escuta de todo o nosso ser. 

Nossa própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa sobre a qual encontramos segurança para caminhar na vida, superando as dificuldades e as inevitáveis resistências na vivência do Reino.

- Dê nomes aos seus recursos internos, valores e capacidades, sonhos e desejos... que dão solidez à sua vida.

Pe. Adroaldo Palaoro sj



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sábado, 30 de junho de 2018

7x1 PARA A ALEMANHA! - Harry Oliveira



Quem é o vitorioso mesmo?


Sobre o Brasil não preciso escrever porque você já conhece, mas quero falar um pouco sobre a "Alemanha que foi para casa!"

Há 10 anos moro e trabalho na Alemanha que ontem foi eliminada da copa do mundo. Vivo em um país com uma economia forte, juros baixos, mercado imobiliário em constante crescimento, setor de transportes funcionando a todo vapor, crianças estudando em escola pública e que podem escolher como segundo idioma o inglês, francês além de estudar latim como opção. Há vagas de trabalho em todos os setores que você possa imaginar.

É um país onde as pessoas respeitam as regras, onde pedestres, ciclistas e motoristas obedecem ao semáforo quando está vermelho,  A Alemanha é um lugar onde as pessoas não jogam lixo no chão e tudo é reciclado.

Nos domingos ninguém corta a grama do jardim e também não coloca aquela música alta, porque é o "dia do descanso" e ele precisa ser respeitado.

O país dos 7x1 é um lugar onde o pobre e o rico podem frequentar o mesmo supermercado e ambos conseguem viajar e tirar férias. Esse país é um lugar onde há um calendário escolar de férias diferente em cada região para que as estradas não fiquem sobrecarregadas pelo fato de todos saírem para viajar ao mesmo tempo.

A lista de coisas na "Alemanha eliminada" é interminável, claro que ela não é perfeita e também tem os seus problemas, porém resolvi escrever esse pequeno texto depois de ver as redes sociais inundadas de mensagens dos patrióticos brasileiros, mensagens do tipo: "Alemanha, chupa essa manga; vão pra casa; todo mundo tenta, mas só o Brasil e penta."

Para os tais brasileiros fica aqui a dica: A Alemanha volta para casa e continuará sendo a mesma Alemanha, com uma economia forte, uma população que sabe respeitar as leis e os limites do próximo, continuará sendo um país onde ordem e progresso apesar de não estar escrito na bandeira, é real. Continuará sendo um país onde corrupto não tem vez porque cada cidadão é um fiscal.

 Infelizmente a Alemanha marcou 7x1 novamente, já o Brasil continuará sofrendo e padecendo nas mãos de pessoas inescrupulosas e a mercê de uma classe política irresponsável e corrupta que na sua maioria está no poder por causa de eleitores que se orgulham em dizer:

"Ele rouba, mas faz!" 


Harry Oliveira

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