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quarta-feira, 21 de junho de 2017

DE REFÚGIO E ACOLHIDA...

De Refúgio e Acolhida...


Tu és refúgio fecundo
E acolhedor do meu sonho;
Longe de ti o meu mundo
É nevoento, tristonho!...

Eglê S Machado
Academia Grapiúna de Letras-AGRAL


* * *

SAUDADES... Júlia Ferraz Benício

Saudades

Oi, Eglê!


De volta a esta terra
onde reina a solidão
tão longe de quem me quer
tão longe do coração

Tão longe das minhas tias,
dos amigos, dos parentes;
saudades que não contenho
saudades da terra ardente

Terra ardente pelo sol
pela poesia do povo
Itabuna da infância
Bahia de tudo que é novo

Aqui, o Rio é bonito
terra linda de se ver
no entanto a solidão
aperta e faz doer

Ninguém lhe telefona
nem convida pra lanchar
passo o final de semana
sem ter com quem conversar

Por isso e outras coisas
quero voltar pra lá
pra Bahia dos carinhos
pra morrer longe de cá.


Resolvi te escrever em forma de poema. Bem vagabundinho, mas, pelo menos, volto à tentar. Bjks, Júlia.



Júlia Benício 

* * *

ITABUNA CENTENÁRIA, REFLETINDO: A Cruz

Foto:  Blog Ka Entre Nós

A CRUZ


Certa vez, um homem cheio de fé cristã fez um pedido e prometeu que carregaria uma cruz sobre os ombros, até a cidade mais próxima, para que o pedido fosse atendido.

Pois bem, nosso personagem fez uma cruz e iniciou sua jornada. Aproximadamente na metade do seu trajeto, em um pequeno vilarejo, ele já sem forças e com os ombros quase sangrando, avistou uma pequena fábrica de cruzes e perguntou ao proprietário:

- "O senhor trabalha com troca?"

O fabricante sem pensar:

- "Sim, trabalho."

O cristão:

- "Então vou 'experimentar' algumas pois já não estou aguentando o peso da minha... Passado um bom tempo "experimentando" cruzes e mais cruzes (pois uma era muito grande, outra muito pesada, outra, muito pequena...), o cristão grita:

- "Achei! Finalmente encontrei uma cruz na medida certa!!! Quanto lhe devo, meu nobre amigo???"

O fabricante com um pequeno sorriso, suavemente respondeu:

- "Você não me deve nada, meu amigo...", já sendo interrompido pelo cristão, ainda eufórico:

- "Como não devo, o senhor teve trabalho e tenho que remunerá-lo por isso!!!"

O fabricante ainda com um sorriso em seu rosto:

- "Amigo, cada um tem a sua cruz a ser carregada e Deus sabe bem o peso que cada um deve ter."

O cristão:
- "Não estou entendendo..."

O fabricante:

- "É simples: quando você começou a experimentar as cruzes, você deixou de lado a sua cruz e no meio da bagunça feita em meu estabelecimento, você optou por esta cruz que é simplesmente a mesma que entrou apoiada em seus ombros..."



* * *

JUNHO - MÊS DE MACHADO DE ASSIS (XIV)

21 de Junho: Dia de Machado de Assis!
Última Folha


Musa, desce do alto da montanha 

Onde aspiraste o aroma da poesia, 
E deixa ao eco dos sagrados ermos 
          A última harmonia. 

Dos teus cabelos de ouro, que beijavam 
Na amena tarde as virações perdidas, 
Deixa cair ao chão as alvas rosas 
          E as alvas margaridas. 

Vês? Não é noite, não, este ar sombrio 
Que nos esconde o céu. Inda no poente 
Não quebra os raios pálidos e frios 
          O sol resplandecente. 

Vês? Lá ao fundo o vale árido e seco 
Abre-se, como um leito mortuário; 
Espera-te o silêncio da planície, 
          Como um frio sudário. 

Desce. Virá um dia em que mais bela, 
Mais alegre, mais cheia de harmonias, 
Voltes a procurar a voz cadente 
          Dos teus primeiros dias. 

Então coroarás a ingênua fronte 
Das flores da manhã, — e ao monte agreste, 
Como a noiva fantástica dos ermos, 
          Irás, musa celeste! 

Então, nas horas solenes 
Em que o místico himeneu 
Une em abraço divino 
Verde a terra, azul o céu; 

Quando, já finda a tormenta 
Que a natureza enlutou, 
Bafeja a brisa suave 
Cedros que o vento abalou; 

E o rio, a árvore e o campo, 
A areia, a face do mar, 
Parecem, como um concerto, 
Palpitar, sorrir, orar; 

Então sim, alma de poeta, 
Nos teus sonhos cantarás 
A glória da natureza, 
A ventura, o amor e a paz! 

Ah! mas então será mais alto ainda; 
          Lá onde a alma do vate 
          Possa escutar os anjos, 
E onde não chegue o vão rumor dos homens; 

Lá onde, abrindo as asas ambiciosas, 
Possa adejar no espaço luminoso, 
Viver de luz mais viva e de ar mais puro, 
          Fartar-se do infinito! 

Musa, desce do alto da montanha 
Onde aspiraste o aroma da poesia, 
E deixa ao eco dos sagrados ermos 
          A última harmonia! 

Machado de Assis, in 'Crisálidas' 



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Citações:
Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.
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Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.
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Eu não sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem à alma e até ao corpo. As melhores digestões da minha vida são as dos jantares em que sou brindado.
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Está morto: podemos elogiá-lo à vontade.
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Não levante a espada sobre a cabeça de quem te pediu perdão.
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As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos.
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O tempo é um químico invisível, que dissolve, compõe, extrai e transforma todas as substâncias morais.
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A arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal.
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Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução, alguns dizem que assim é que a natureza compôs as suas espécies.
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Lágrimas não são argumentos.
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Não se ama duas vezes a mesma mulher.
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Não há decepções possíveis para um viajante, que apenas vê de passagem o lado belo da natureza humana e não ganha tempo de conhecer-lhe o lado feio.
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A mentira é muita vez tão involuntária como a respiração.
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Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar...
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Descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência.
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O amor é o egoísmo duplicado.
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O coração é a região do inesperado.
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O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento.
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Porque não há raciocínio nem documento que nos explique melhor a intenção de um acto do que o próprio autor do acto.
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A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente.





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terça-feira, 20 de junho de 2017

JUNHO - MÊS DE MACHADO DE ASSIS (XIII)

O Desfecho



Prometeu sacudiu os braços manietados
E súplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.

Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilião,
Uns cingidos de luz, outros ensanguentados...
Súbito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a água em cima os olhos espantados.

Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.

Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;
Acabara o suplício e acabara o homem.


Machado de Assis



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Machado de Assis

Diálogo Epistolar entre José de Alencar e Machado de Assis
 
Carta de José de Alencar
 

Tijuca [Rio de Janeiro], 18 de fevereiro de 1868.

 
Ilmo Sr. Machado de Assis.

— Recebi ontem a visita de um poeta. 
— O Rio de Janeiro não o conhece ainda; muito breve o há de conhecer o Brasil. Bem entendido, falo do Brasil que sente; do coração e não do resto. 
— O Sr. Castro Alves é hóspede desta grande cidade, alguns dias apenas. Vai a S. Paulo concluir o curso que encetou em Olinda. 
— Nasceu na Bahia, a pátria de tão belos talentos; a Atenas brasileira que não cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros. 
— Podia acrescentar que é filho de um médico ilustre. Mas para quê? A genealogia dos poetas começa com o seu primeiro poema. E que pergaminhos valem estes selados por Deus? 
— O Sr. Castro Alves trouxe-me uma carta do Dr. Fernandes da Cunha, um dos pontífices da tribuna brasileira. Digo pontífice, porque nos caracteres dessa têmpera o talento é uma religião, a palavra um sacerdócio. 
— Que júbilo para mim! Receber Cícero que vinha apresentar Horácio, a eloquência conduzindo pela mão a poesia, uma glória esplêndida mostrando no horizonte da pátria a irradiação de uma límpida aurora! 
— Mas também quanto, nesse instante, deplorei minha pobreza, que não permitia dar a tão caros hóspedes régio agasalho. Carecia de ser Hugo ou Lamartine, os poetas-oradores, para preparar esse banquete da inteligência. 
— Se, ao menos, tivesse nesse momento junto de mim a plêiade rica de jovens escritores, à qual pertencem o senhor, o Dr. Pinheiro Guimarães, Bocaiúva, Múzio, Joaquim Serra, Varela, Rozendo Moniz, e tantos outros!... 
— Entre estes, por que não lembrarei o nome de Leonel de Alencar, a quem o destino fez ave de arribação na terra natal? Em literatura não há suspeições: todos nós, que nascemos em seu regaço, não somos da mesma família? 
— Mas a todos o vento da contrariedade os tem desfolhado por aí, como flores de uma breve primavera. Um fez da pena espada para defender a pátria. Alguns têm as asas crestadas pela indiferença; outros, como douradas borboletas, presas da teia d'aranha, se debatem contra a realidade de uma profissão que lhes tolhe os vôos. 
— Felizmente estava eu na Tijuca. O senhor conhece esta montanha encantadora. A natureza a colocou a duas léguas da Corte, como um ninho para as almas cansadas de pousar no chão. 
— Aqui tudo é puro e são. O corpo banha-se em águas cristalinas, como o espírito na limpidez deste céu azul. 
— Respira-se à larga, não somente os ares finos que vigoram o sopro da vida, porém aquele hálito celeste do Criador, que bafejou o mundo recém-nascido. Só nos ermos em que não caíram ainda as fezes da civilização, a terra conserva essa divindade do berço. 
— Elevando-se a estas eminências, o homem aproxima-se de Deus. A Tijuca é um escabelo entre o pântano e a nuvem, entre a terra e o céu. O coração que sobe por este genuflexório, para se prostrar ao pés do Onipotente, conta três degraus; em cada um deles, uma contrição. 
— No alto da Boa Vista, quando se descortina longe, serpejando pela várzea, a grande cidade réptil, onde as paixões pululam, a alma que se havia atrofiado no foco do materialismo, sente-se homem. Embaixo era uma ambição; em cima contemplação. 
— Transposto esse primeiro estádio, além, para as bandas da Gávea, há um lugar que chamam Vista Chinesa. Este nome lembra-lhe naturalmente um sonho oriental, pintado em papel de arroz. É uma tela sublime, uma decoração magnífica deste inimitável cenário fluminense. Dir-se-ia que Deus entregou a algum de seus arcanjos o pincel de Apeles, e mandou-lhe encher aquele pano de horizonte. Então o homem sente-se religioso. 
— Finalmente, chega-se ao Pico da Tijuca, o ponto culminante da serra, que fica do lado oposto. Daí os olhos deslumbrados vêem a terra como uma vasta ilha a submergir-se entre dois oceanos, o oceano do mar e o oceano do éter. Parece que estes dois infinitos, o abismo e o céu, abrem-se para absorver um ao outro. E no meio dessas imensidades, um átomo, mas um átomo-rei, de tanta magnitude. Aí o ímpio é cristão e adora o Deus verdadeiro. 
— Quando a alma desce destas alturas e volve ao pá da civilização, leva consigo uns pensamentos sublimes, que do mais baixo remontam à sua nascença, pela mesma lei que faz subir ao nível primitivo a água derivada do topo da terra. 
— Nestas paragens não podia meu hóspede sofrer jejum de poesia. Recebi-o dignamente. Disse à natureza que pusesse a mesa, e enchesse as ânforas das cascatas de linfa mais deliciosa que o falerno do velho Horácio. 
— A Tijuca esmerou-se na hospitalidade. Ela sabia que o jovem escritor vinha do Norte, onde a natureza tropical se espaneja em lagos de luz diáfana, e, orvalhada de esplendores, abandona-se lasciva como uma odalisca às carícias do poeta. 
— Então a natureza fluminense, que também, quando quer, tem daquelas impudências celestes, fez-se casta e vendou-se com as alvas roupagens de nuvens. A chuva a borrifou de aljôfares; as névoas resvalavam pelas encostas como as fímbrias da branca túnica roçagante de uma virgem cristã. 
— Foi assim, a sorrir entre os nítidos véus, com um recato de donzela, que a Tijuca recebeu nosso poeta. 
— O Sr. Castro Alves lembrava-se, como o senhor e alguns poucos amigos, de uma antiguidade de minha vida; que eu outrora escrevera para o teatro. Avaliando sobre medida minha experiência neste ramo difícil da literatura, desejou ler-me um drama, primícia de seu talento. 
— Essa produção já passou pelas provas públicas em cena competente para julgá-la. A Bahia aplaudiu com júbilos de mãe a ascensão da nova estrela de seu firmamento. Depois de tão brilhante manifestação, duvidar de si, não é modéstia unicamente, é respeito à santidade de sua missão de poeta. 
— Gonzaga é o título do drama que lemos em breves horas. O assunto, colhido na tentativa revolucionária de Minas, grande manancial de poesia histórica ainda tão pouco explorado, foi enriquecido pelo autor com episódios de vivo interesse. O Sr. Castro Alves é um discípulo de Vítor Hugo, na arquitetura do drama, como no colorido da ideia. O poema pertence à mesma escola do ideal; o estilo tem os mesmos toques brilhantes. 
— Imitar Vítor Hugo só é dado às inteligências de primor. O Ticiano da literatura possui uma palheta que em mão de colorista medíocre mal produz borrões. Os moldes ousados de sua frase são como os de Benvenuto Cellini; se o metal não for de superior afinação, em vez de estátuas saem pastichos. — Não obstante, sob essa imitação de um modelo sublime desponta no drama a inspiração original, que mais tarde há de formar a individualidade literária do autor. Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da pátria, que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos. — Não se admire de assimilar eu o cidadão e o poeta, duas entidades que no espírito de muitos andam inteiramente desencontradas. O cidadão é o poeta do direito e da justiça; o poeta é o cidadão do belo e da arte. 
— Há no drama Gonzaga exuberância de poesia. Mas deste defeito a culpa não foi do escritor; foi da idade. Que poeta aos vinte anos não tem essa prodigalidade soberba de sua imaginação, que se derrama sobre a natureza e a inunda? 
— A mocidade é uma sublime impaciência. Diante dela a vida se dilata, e parece-lhe que não tem para vivê-la mais que um instante. Põe os lábios na taça da vida, cheia a transbordar de amor, de poesia, de glória, e quisera estancá-la de um sorvo. — A sobriedade vem com os anos; é virtude do talento viril. Mais entrado na vida, o homem aprende a poupar sua alma. Um dia, quando o Sr. Castro Alves reler o Gonzaga, estou convencido que ele há de achar um drama esboçado, em cada personagem desse drama. Olhos severos talvez enxerguem na obra pequenos senões. 
— Maria, achando em si forças para enganar o governador em um transe de suprema angústia, parecerá a alguns menos amante, menos mulher, do que devera. A ação, dirigida uma ou outra vez pelo acidente material, antes do que pela revolução íntima do coração, não terá na opinião dos realistas, a naturalidade moderna. 
— Mas são esses defeitos da obra, ou do espírito em que ela se reflete? Muitas vezes já não surpreendeu seu pensamento a fazer a crítica de uma flor, de uma estrela, de uma aurora? Se o deixasse, creia que ele se lançaria a corrigir o trabalho do supremo artista. Não somos homens debalde: Deus nos deu uma alma, uma individualidade. 
— Depois da leitura do seu drama, o Sr. Castro Alves recitou-me algumas poesias. "A Cascata de Paulo Afonso", "As Duas Ilhas" e "A Visão dos Mortos" não cedem às excelências da língua portuguesa neste gênero. Ouça-as o senhor, que sabe o segredo desse metro natural, dessa rima suave e opulenta. 
— Nesta capital da Civilização brasileira, que o é também de nossa indiferença, pouco apreço tem o verdadeiro mérito quando se apresenta modestamente. Contudo, deixar que passasse por aqui ignorado e despercebido o jovem poeta baiano, fora mais que uma descortesia. Não lhe parece? 
— Já um poeta o saudou pela imprensa; porém, não basta a saudação; é preciso abrir-lhe o teatro, o jornalismo, a sociedade, para que a flor desse talento cheio de seiva se expanda nas auras da publicidade. 
— Lembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos títulos. Para apresentar ao público fluminense o poeta baiano, é necessário não só ter foro de cidade na imprensa da Corte, como haver nascido neste belo vale do Guanabara, que ainda espera um cantor. 
— Seu melhor título, porém, é outro. O senhor foi o único de nossos modernos escritores, que se dedicou sinceramente à cultura dessa difícil ciência que se chama crítica. Uma porção de talento que recebeu da natureza, em vez de aproveitá-lo em criações próprias, teve a abnegação de aplicá-lo a formar o gosto e desenvolver a literatura pátria. 
— Do senhor, pois, do primeiro crítico brasileiro, confio a brilhante vocação literária, que se revelou com tanto vigor. 
— Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento.


publicada no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 1868 

  


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Machado de Assis

Resposta de Machado de Assis

 

Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 1868.

 
Exmo. Sr. — É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebê-lo das mãos de V. Exa, com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter mais feliz introito na vida literária. Abre os olhos em pleno Capitólio. Os seus primeiros cantos obtêm o aplauso de um mestre. — Mas se isto me entusiasma, outra coisa há que me comove e confunde, é a extrema confiança, que é ao mesmo tempo um motivo de orgulho para mim. De orgulho, repito, e tão inútil fera dissimular esta impressão, quão arrojado seria ver nas palavras de V. Exa. mais do que uma animação generosa. 
— A tarefa da crítica precisa destes parabéns; é tão árdua de praticar, já pelos estudos que exige, já pelas lutas que impõe, que a palavra eloquente de um chefe é muitas vezes necessária para reavivar as forças exaustas e reerguer o ânimo abatido. 
— Confesso francamente, que, encetando os meus ensaios de crítica, fui movido pela ideia de contribuir com alguma coisa para a reforma do gosto que se ia perdendo, e efetivamente se perde. Meus limitadíssimos esforços não podiam impedir o tremendo desastre. Como impedi-lo, se, por influência irresistível, o mal vinha de fora, e se impunha ao espírito literário do país, ainda mal formado e quase sem consciência de si? Era difícil plantar as leis do gosto, onde se havia estabelecido uma sombra de literatura, sem alento nem ideal, falseada e frívola, mal imitada e mal copiada. Nem os esforços dos que, como V. Exa, sabem exprimir sentimentos e ideias na língua que nos legaram os mestres clássicos, nem esses puderam opor um dique à torrente invasora. Se a sabedoria popular não mente, a universalidade da doença podia dar-nos alguma consolação quando não se antolha remédio ao mal. 
— Se a magnitude da tarefa era de assombrar espíritos mais robustos, outro risco havia: e a este já não era a inteligência que se expunha, era o caráter. Compreende V. Ex.a que, onde a crítica não é instituição formada e assentada, a análise literária tem de lutar contra esse entranhado amor paternal que faz dos nossos filhos as mais belas crianças do mundo. Não raro se originam ódios onde era natural travarem-se afetos. Desfiguram-se os intentos da crítica, atribui-se à inveja o que vem da imparcialidade: chama-se antipatia o que é consciência. Fosse esse, porém, o único obstáculo, estou convencido que ele não pesaria no ânimo de quem põe acima do interesse pessoal o interesse perpétuo da sociedade, porque a boa fama das musas o é também. — Cansados de ouvir chamar bela à poesia, os novos atenienses resolveram bani-la da república. 
— O elemento poético é hoje um tropeço ao sucesso de uma obra. Aposentaram a imaginação. As musas, que já estavam apeadas dos templos, foram também apeadas dos livros. A poesia dos sentidos veio sentar-se no santuário e assim generalizou-se uma crise funesta às letras. Que enorme Alfeu não seria preciso desviar do seu curso para limpar este presepe de Augias? 
— Eu bem sei que no Brasil, como fora dele, severos espíritos protestam com o trabalho e a lição contra esse estado de coisas: tal é, porém, a feição geral da situação, ao começar a tarde do século. Mas sempre há de triunfar a vida inteligente. Basta que se trabalhe sem trégua. Pela minha parte, estava e está acima das minhas posses semelhante papel, contudo. entendia e entendo — adotando a bela definição do poeta que V. Exa dá em sua carta — que há para o cidadão da arte e do belo deveres imprescritíveis, e que, quando uma tendência do espírito o impele para certa ordem de atividade, é sua obrigação prestar esse serviço às letras. 
— Em todo o caso não tive imitadores. Tive um antecessor ilustre, apto para este árduo mister, erudito e profundo, que teria prosseguido no caminho das suas estreias, se a imaginação possante e vivaz não lhe estivesse exigindo as criações que depois nos deu. Será preciso acrescentar que aludo a V. Ex.a? 
— Escolhendo-me para Virgílio do jovem Dante que nos vem da pátria de Moema, impõe-me um dever, cuja responsabilidade seria grande se a própria carta de V. Exa não houvesse aberto ao neófito as portas da mais vasta publicidade. A análise pode agora esmerilhar nos escritos do poeta belezas e descuidos. O principal trabalho está feito. 
— Procurei o poeta cujo nome havia sido ligado ao meu, e, com a natural ansiedade que nos produz a notícia de um talento robusto, pedi-lhe que me lesse o seu drama e os seus versos. 
— Não tive, como V. Exa, a fortuna de os ouvir diante de um magnífico panorama. Não se rasgavam horizontes diante de mim: não tinha os pés nessa formosa Tijuca, que V. Exa chama um escabelo entre a nuvem e o pântano. Eu estava no pântano, em torno de nós agitava-se a vida tumultuosa da cidade. Não era o ruído das paixões nem dos interesses; os interesses e as paixões tinham passado a vara à loucura: estávamos no carnaval. 
— No meio desse tumulto abrimos um oásis de solidão. — Ouvi o Gonzaga e algumas poesias. 
— V. Exa já sabe o que é o drama e o que são os versos, já os apreciou consigo, já resumiu a sua opinião. Esta carta, destinada a ser lida pelo público, conterá as impressões que recebi com a leitura dos escritos do poeta. 
— Não podiam ser melhores as impressões. Achei uma vocação literária, cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro. Achei um poeta original. O mal da nossa poesia contemporânea é ser copista — no dizer, nas ideias e nas imagens. Copiá-las é anular-se. A musa do Sr. Castro Alves tem feição própria. Se se adivinha que a sua escola é a de Vítor Hugo, não é porque o copie servilmente, mas porque uma índole irmã levou-o a preferir o poeta das Orientais ao poeta das Meditações. Não lhe aprazem certamente as tintas brancas e desmaiadas da elegia; quer antes as cores vivas e os traços vigorosos da ode. 
— Como o poeta que tomou por mestre, o Sr. Castro Alves canta simultaneamente o que é grande e o que é delicado, mas com igual inspiração e método idêntico a pompa das figuras, a sonoridade do vocábulo, uma forma esculpida com arte, sentindo-se por baixo desses lavores o estro, a espontaneidade, o ímpeto. Não é raro andarem separadas estas duas qualidades da poesia: a forma e o estro. Os verdadeiros poetas são os que as têm ambas. Vê-se que o Sr. Castro Alves as possui; veste as suas ideias com roupas finas e trabalhadas. O receio de cair em um defeito, não o levará a cair no defeito contrário? Não me parece que lhe haja acontecido isso; mas indico-lhe o mal, para que fuja dele. É possível que uma segunda leitura dos seus versos me mostrasse alguns senões fáceis de remediar; confesso que os não percebi no meio de tantas belezas. 
— O drama, esse li-o atentamente; depois de ouvi-lo, li-o, e reli-o, e não sei bem se era a necessidade de o apreciar, se o encanto da obra, que me demorava os olhos em cada página do volume. 
— O poeta explica o dramaturgo. Reaparecem no drama as qualidades do verso; as metáforas enchem o período; sente-se de quando em quando o arrojo da ode. Sófocles pede as asas a Píndaro. Parece ao poeta que o tablado é pequeno; rompe o céu de lona e arroja-se ao espaço livre e azul. 
— Esta exuberância que V. Exa com justa razão atribui à idade, concordo que o poeta há de reprimi-la com os anos. Então conseguirá separar completamente a língua lírica da língua dramática; e do muito que devemos esperar temos prova e fiança no que nos dá hoje. 
— Estreando no teatro com um assunto histórico, e assunto de uma revolução infeliz, o Sr. Castro Alves consultou a índole do seu gênio poético. Precisava de figuras que o tempo houvesse consagrado; as da Inconfidência tinham além disso a auréola do martírio. Que melhor assunto para excitar a piedade? A tentativa abortada de uma revolução, que tinha por fim consagrar a nossa independência, merece do Brasil de hoje aquela veneração que as raças livres devem aos seus Espártacos. O insucesso fê-los criminosos; a vitória tê-los-ia feito Washingtons. Condenou-os a justiça legal; reabilita-os a justiça histórica. 
— Condensar estas ideias em uma obra dramática, transportar para a cena a tragédia política dos Inconfidentes, tal foi o objeto do Sr. Castro Alves, e não se pode esquecer que, se o intuito era nobre, o cometimento era grave. O talento do poeta superou a dificuldade; com uma sagacidade que eu admiro em tão verdes anos, tratou a história e a arte por modo que, nem aquela o pode acusar de infiel, nem esta de copista. Os que, como V. Exa, conhecem esta aliança, hão de avaliar esse primeiro merecimento do drama do Sr. Castro Alves. 
— A escolha de Gonzaga para protagonista foi certamente inspirada ao poeta pela circunstância dos seus legendários amores, de que é história aquela famosa Marília de Dirceu. Mas não creio que fosse só essa circunstância. Do processo resulta que o cantor de Marília era tido por chefe da conspiração, em atenção aos seus talentos e letras. A prudência com que se houve desviou da sua cabeça a pena capital. Tiradentes, esse era o agitador; serviu à conspiração com uma atividade rara; era mais um conspirador do dia que da noite. A justiça o escolheu para a forca. Por tudo isso ficou o seu nome ligado ao da tentativa de Minas. 
— Os amores de Gonzaga traziam naturalmente ao teatro o elemento feminino, e de um lance, casavam-se em cena a tradição política e a tradição poética, o coração do homem e a alma do cidadão. A circunstância foi bem aproveitada pelo autor; o protagonista atravessa o drama sem desmentir a sua dupla qualidade de amante e de patriota; casa no mesmo ideal os seus dois sentimentos. Quando Maria lhe propõe a fuga, no terceiro ato, o poeta não hesita em repelir esse recurso, apesar de ser iminente a sua perda. Já então a revolução expira; para as ambições, se ele as houvesse, a esperança era nenhuma; mas ainda era tempo de cumprir o dever. Gonzaga preferiu seguir a lição do velho Horácio corneiliano: entre o coração e o dever a alternativa é dolorosa. Gonzaga satisfaz o dever e consola o coração. Nem a pátria nem a amante podem lançar-lhe nada em rosto. 
— O Sr. Castro Alves houve-se com a mesma arte em relação aos outros conjurados. Para avaliar um drama histórico, não se pode deixar de recorrer à história; suprimir esta condição é expor-se a crítica a não entender o poeta. 
— Quem vê o Tiradentes do drama não reconhece logo aquele conjurado impaciente e ativo, nobremente estouvado, que tudo arrisca e empreende, que confia mais que todos no sucesso da causa, e paga enfim as demasias do seu caráter com a morte na forca e a profanação do cadáver? E Cláudio, o doce poeta, não o vemos todo ali, galhofeiro e generoso, fazendo da conspiração uma festa e da liberdade uma dama, gamenho no perigo, caminhando para a morte com o riso nos lábios, como aqueles emigrados do Terror? Não lhe rola já na cabeça a ideia do suicídio, que praticou mais tarde, quando a expectativa do patíbulo lhe despertou a fibra de Catão, casando-se com a morte, já que se não podia casar com a liberdade? Não é aquele o denunciante Silvério, aquele o Alvarenga, aquele o padre Carlos? Em tudo isso é de louvar a consciência literária do autor. A história nas suas mãos não foi um pretexto; não quis profanar as figuras do passado, dando-lhes feições caprichosas. Apenas empregou aquela exageração artística, necessária ao teatro, onde os caracteres precisam de relevo, onde é mister concentrar em pequeno espaço todos os traços de uma individualidade, todos os caracteres essenciais de uma época ou de um acontecimento. — Concordo que a ação parece às vezes desenvolver-se pelo acidente material. Mas esses raríssimos casos são compensados pela influência do princípio contrário em toda a peça. 
— O vigor dos caracteres pedia o vigor da ação, ela é vigorosa e interessante em todo o livro; patética no último ato. Os derradeiros adeuses de Gonzaga e Maria excitam naturalmente a piedade, e uns belos versos fecham este drama, que pode conter as incertezas de um talento juvenil, mas que é com certeza uma invejável estréia. 
— Nesta rápida exposição das minhas impressões, vê V. Exa que alguma coisa me escapou. Eu não podia, por exemplo, deixar de mencionar aqui à figura do preto Luís. Em uma conspiração para a liberdade, era justo aventar a ideia da abolição. Luís representa o elemento escravo Contudo o Sr. Castro Alves não lhe deu exclusivamente a paixão da liberdade. Achou mais dramático pôr naquele coração os desesperos do amor paterno. Quis tornar mais odiosa a situação do escravo pela luta entre a natureza e o fato social, entre a lei e o coração. Luís espera da revolução, antes da liberdade a restituição da filha; é a primeira afirmação da personalidade humana; o cidadão virá depois. Por isso, quando no terceiro ato Luís encontra a filha já cadáver, e prorrompe em exclamações e soluços, o coração chora com ele, e a memória, se a memória pode dominar tais comoções, nos traz aos olhos a bela cena do rei Lear, carregando nos braços Cordélia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo: vê o homem. 
— Cumpre mencionar outras situações igualmente belas. Entra nesse número a cena da prisão dos conjurados no terceiro ato. As cenas entre Maria e o governador também são dignas de menção, posto que prevalece no espírito o reparo a que V. Exa aludiu na sua carta. O coração exigira menos valor e astúcia da parte de Maria; mas, não é verdade que o amor vence as repugnâncias para vencer os obstáculos? Em todo o caso uma ligeira sombra não empana o fulgor da figura. 
— As cenas amorosas são escritas com paixão: as palavras saem naturalmente de uma alma para outra, prorrompem de um para outro coração. E que contraste melancólico não é aquele idílio às portas do desterro, quando já a justiça está prestes a vir separar os dois amantes! — Dir-se-á que eu só recomendo belezas e não encontro senões? Já apontei os que cuidei ver. Acho mais — duas ou três imagens que me não parecem felizes: e uma ou outra locução suscetível de emenda. Mas que é isto no meio das louçanias da forma? Que as demasias do estilo, a exuberância das metáforas, o excesso das figuras devem obter a atenção do autor, é coisa tão segura que eu me limito a mencioná-las: mas como não aceitar agradecido esta prodigalidade de hoje, que pode ser a sábia economia de amanhã? 
— Resta-me dizer que, pintando nos seus personagens a exaltação patriótica, o poeta não foi só à lição do fato, misturou talvez com essa exaltação um pouco do seu próprio sentir. É a homenagem do poeta ao cidadão. Mas, consorciando os sentimentos pessoais aos dos seus personagens, é inútil distinguir o caráter diverso dos tempos e das situações. Os sucessos que em 1822 nos deram uma pátria e uma dinastia, apagaram antipatias históricas que a arte deve reproduzir quando evoca o passado. 
— Tais foram as impressões que me deixou este drama viril, estudado e meditado, escrito com calor e com alma. A mão é inexperiente, mas a sagacidade do autor supre a inexperiência. Estudou e estuda; é um penhor que nos dá. Quando voltar aos arquivos históricos ou revolver as paixões contemporâneas, estou certo que o fará com a mão na consciência. Está moço, tem um belo futuro diante de si. Venha desde já alistar-se nas fileiras dos que devem trabalhar para restaurar o império das musas. 
— O fim é nobre, a necessidade é evidente. Mas o sucesso coroará a obra? É um ponto de interrogação que há de ter surgido no espírito de V. Exa. Contra estes intuitos, tão santos quanto indispensáveis, eu sei que há um obstáculo, e V. Exa. o sabe também: é a conspiração da indiferença. Mas a perseverança não pode vencê-la? Devemos esperar que sim. — Quanto a V. Exa, respirando nos degraus da nossa Tijuca o hausto puro e vivificante da natureza, vai meditando, sem dúvida, em outras obras-primas com que nos há de vir surpreender cá embaixo. Deve faze-lo sem temor. Contra a conspiração da indiferença, tem V. Exa um aliado invencível: é a conspiração da posteridade.


publicada no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 1 de março de 1868



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SE TRUMP AJUDAR CUBA A LIVRAR-SE DO COMUNISMO, MERECERÁ O NOBEL DA PAZ

19 de junho de 2017
Por Ricardo Bordin, publicado pelo Instituto Liberal


O ex-presidente Barack Hussein venceu o Prêmio Nobel da Paz na edição 2009, quando mal havia pisado na Casa Branca, por conta, segundo o comitê norueguês, de seus apelos pelo desarmamento nuclear e “por seu trabalho pela paz mundial”. Conforme declarado na época pela turma de Oslo, “muito raramente uma pessoa com a influência de Obama capturou a atenção do mundo e deu às pessoas a esperança de um futuro melhor.”

Muito raramente também, por certo, um líder do mundo livre despeja tantos milhares de mísseis sobre o Oriente Médio, enquanto incentiva a desastrosa Primavera Árabe; fornece tantas armas e recursos logísticos para milícias armadas da Síria – que compõem, vejam só, o Estado Islâmico; retira as tropas americanas do Iraque no pior momento possível, contribuindo para desestabilizar a região; semeia tanto ódio racial e divisão entre as pessoas de seu próprio país; faz tanta força para desarmar os cidadãos honestos de sua nação; e o gran finale: decreta a revogação da política do “pé molhado, pé seco”, a qual garantia residência aos cubanos que conseguissem pisar em território americano (fugindo da ditadura caribenha) sem o visto.

Apressado come cru mesmo – e concede honrarias àquele que pôs a (relativa) estabilidade da civilização ocidental em grave risco com sua postura pusilânime frente aos inimigos da liberdade (especialmente terroristas muçulmanos) e sua cumplicidade para com globalistas que buscam minar as soberanias nacionais e governar (e enriquecer) à distância – além, claro, de ter flertado com o regime sanguinário implantado na ilha mais admirada (a partir do conforto capitalista) pela esquerda caviar, visando dar nova vida ao regime opressor dos Castro, que vinha cambaleante após o afastamento de Fidel de seu posto de “comandante”.

Convenhamos que não dá para considerar tal estapafúrdio uma surpresa, visto que o falecido terrorista Yasser Arafat – que declarou abertamente que a OLP planejava “eliminar o Estado de Israel e estabelecer um Estado puramente palestino” – foi agraciado com o Nobel da Paz em 1994. E como esquecer do presidente colombiano Juan Manuel Santos levando a premiação em 2016 após empurrar goela abaixo de seu povo um acordo de leniência com a organização guerrilheira terrorista de inspiração comunista – autoproclamada guerrilha revolucionária marxista-leninista – conhecida como FARC?

A imagem do Nobel da Paz poderia restar menos arranhada depois de tantos episódios insensatos, todavia, se seus encarregados prestassem atenção no anúncio feito por Donald Trump em Miami esta semana:

Donald Trump anunciou nesta sexta (16) que o acordo feito entre Barack Obama e a ditadura cubana está cancelado.

“Eu estou cancelando o acordo completamente unilateral da última administração [Obama] assinado com Cuba”, disse Trump em um comício realizado em Little Havana, na cidade de Miami, tradicional polo de exilados cubanos nos Estados Unidos.

Ele ainda lembrou que reforçará o embargo contra a ilha e que seu governo adotará novas restrições a viagens de americanos para Cuba e a proibição para empresas norte-americanas de fazer negócios com empresas cubanas controladas pelas Forças Armadas do país latino-americano.

Em posição diametralmente oposta à indiferença desumana de Obama, Trump denunciou o que chamou de “natureza brutal” do regime de Raúl Castro em Cuba. “Em breve alcançaremos uma Cuba livre”, afirmou o presidente.
Acompanhado pelo vice-presidente Mike Pence, por vários membros de seu gabinete, pelo governador da Flórida, Rick Scott, por congressistas de origem cubana como Marco Rubio, Mario Diaz Balart e Carlos Curbelo e representantes de da comunidade de exilados cubanos, Trump disse que os dissidentes José Daniel Ferrer e Berta Soler, que não foram autorizados a viajar para Miami, “estão aqui com a gente.”

“Negociaremos um acordo melhor [com Cuba]”, avisou Trump, salientando, todavia, que isso será possível somente no caso ocorram avanços democráticos “concretos”, e a realização de “eleições livres” e a “libertação de prisioneiros políticos”.
“Quando os cubanos realizarem medidas concretas, estaremos prontos, dispostos e capazes de voltar à mesa de negociação do acordo, que será muito melhor “, disse Trump.

“É importante que haja liberdade em Cuba e na Venezuela”, declarou. Por fim, o presidente agradeceu a comunidade de exilados cubanos por ser a “voz dos sem voz” e disse que eles fazem a diferença na luta para parar a perseguição do regime contra os dissidentes e para acabar com a “ideologia depravada” que existe em Cuba.

Difícil antecipar os desdobramentos de tal medida, mas uma coisa é certa: os Estados Unidos não mais compactuam nem tampouco fazem vista grossa para as atrocidades cometidas a poucas milhas de sua costa, e que motivam seres humanos sedentos por liberdade a arriscarem a vida em embarcações improvisadas durante fugas desesperadas para longe da “igualdade” socialista.

É esperado, obviamente, que diante da retomada do embargo comercial, voltarão as mesmas malas de sempre a afirmar que a miséria em Cuba é “culpa dos Ianques capitalistas” – falácia que pode ser facilmente refutada, da mesma forma que vão por terra os mitos dos exemplares serviços públicos de Saúde e Educação no país com 11 milhões de escravos.

Que fique claro, porém, que deixar de prestar apoio ao governo tirânico de Cuba e ainda, de lambuja, deixar Nicolas Maduro com as orelhas em brasa, é atitude que não se via partindo da Casa Branca desde que Ronald Reagan findou seu segundo mandato. Se tal atitude servir de estopim para, quem sabe, destronar os líderes comunistas da Força Armada Revolucionária e forçar uma transição para um sistema econômico e político menos controlado pelo Estado, além de restaurar a democracia, Trump já deveria receber um Nobel da Paz no ato.

A probabilidade que isso ocorra é mínima, com certeza, levando em conta que a esquerda hegemônica na mídia e na academia não vão deixar barato nem mesmo uma eventual indicação de Donald Trump.

Mas que seria merecido, isso seria. Não traria de volta à vida todas aqueles que padeceram sob o jugo dos revolucionários filhinhos de papai Che e Fidel, nem tampouco devolveria a dignidade daqueles que foram sob suas ordens torturados, mas honraria sua memória e seu sacrifício, e ainda lograria referendar aquele que pode ser o primeiro passo do povo cubano rumo a uma “Revolução Gloriosa” (quando pela primeira vez, na Inglaterra, foram colocadas rédeas institucionais no poder do Estado) em plena América Central.

Não será esta a primeira vez, todavia, que um presidente americano irá engajar-se no embate a regimes comunistas mundo afora, e nem será a última oportunidade em que tal iniciativa será alvo de críticas vindas daqueles “preocupados com o avanço dos imperialistas”.

Destacam-se, entre eles, Ronald Reagan e seu programa apelidado de “Guerra nas Estrelas” (que consistia, basicamente, em um significativo aumento dos gastos com Defesa, o que induziu o regime soviético ao colapso derradeiro);  Harry Truman, que interveio na Guerra da Coreia – mesmo sob o risco de um possível conflito na região contra as potências China e URSS – e evitou que o os coreanos do sul amargassem uma dominação do vizinho do norte comunista, fomentando um crescimento econômico sem precedentes naquele país asiático; e Lyndon Johnson, que tentou, sem sucesso (devido a influência negativa da cobertura da imprensa americana e a decorrente pressão popular contrária à participação dos Estados Unidos no conflito), impedir o que viria a ocorrer após a retirada das tropas americanas do Vietnã: um massacre do vizinho do sul, com um número de mortes três vezes superior ao registrado durante o confronto entre vietnamitas e EUA.

Enfim, combater o comunismo, ainda que em terras longínquas, equivale a tratar um câncer ainda nos estágios iniciais, aos primeiros sintomas: mais vale prevenir do que remediar, pois com esta ideologia que ceifou tantos milhões de vida não se brinca nem quando ela ainda está em outro hemisfério – o que dirá quando ela, em pleno ano de 2017, ainda viceja no mesmo continente do país notório pela liberdade. Não faz sentido mesmo: que Trump mostre para Raul Castro que não esta de pilhéria. E se o comitê do Nobel da Paz não reconhecer a importância de seu ato, whatever: nós o faremos.

Em Tempo: é de se indagar como seria a vida em uma eventual Cuba capitalista – e como ela seria retratada para o mundo. Nos moldes atuais, ela nos serve de eterno alerta de quão terrível é a vida sem liberdade, e de que não vale a pena, pois, investir em utopias igualitaristas – muito embora alguns “historiadores” prefiram distorcer fatos e criar narrativas fraudulentas. Após a queda do comunismo, porém, como seria mostrada esta nova Cuba, pelas lentes calibradas ideologicamente à esquerda da imensa maioria de jornalistas, documentaristas, fotógrafos e escritores? Assunto para o próximo artigo.





Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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