Total de visualizações de página
quinta-feira, 21 de maio de 2020
quarta-feira, 20 de maio de 2020
UM HOMEM DE SERIEDADE – Nídia Maria Costa Reis
Um Homem de Seriedade
Nídia Maria Costa Reis
Agora, o professor tinha melhorado de vida. Tinha casa
própria, filhos empregados e crédito fácil no comércio porque, apesar dos
miseráveis proventos de professor aposentado que, mensalmente, caíam em seu
bolso, ele sempre pagava o que devia, a trancos e barrancos, mas pagava. Andava
até muito saliente com um fusquinha azul, bem conservado, presente que ele
havia dado a si mesmo quando ganhou na loteria, num rasgo benevolente da sorte.
Mesmo sem carteira de motorista, ele aventurava-se pelas estradas de terra de
seu município, sempre acompanhado de sua esposa, em busca de lagoas e peixes
ariscos.
Certa vez, numa dessas pescarias improdutivas, viram-se numa
enrascada dos diabos. Foi num cenário poético, junto à ponte da rodovia. Uma
colina de cada lado, o rio no meio, barulhento, sobre um leito de rochas.
Estacionaram o fusquinha em um pequeno acostamento e aproveitaram a parada para
um cafezinho quente, já antegozando o “tête à tête” com os peixes. Eram três
horas da tarde e fazia muito calor. O sol, inclinado, castigava-os sem dó nem
piedade e aquecia excessivamente a atmosfera. De repente, surgiram cabriolando
e atacando de rijo as primeiras abelhas. Umas tantas ferroadas aqui e ali, e,
depois, o dilúvio do zumbido de asas malignas, dos golpes certeiros de ferrões
aguçados e venenosos. O pobre professor e sua esposa precipitaram-se por
barrancos e capinzais, desferindo taponas e esfregadelas na cabeça e no
pescoço. Com o rosto coalhado de abelhas, tropeçando nas pedras e nas touceiras
de capim, finalmente avistaram, à margem da rodovia, uma casinha onde se
refugiaram e receberam os primeiros socorros.
Sua esposa jurou por tudo que é sagrado jamais voltar a
pescar, mas o professor, que enfrentara o desafio de inserir a tabuada na
cabeça de seus alunos, durante vinte e cinco anos, não ia desistir tão
facilmente. Passado o susto e a recuperação, voltaram às pistas, aos peixes e
às abelhas.
Certa manhã de domingo, o Dorneles voltava da missa todo
enfatiotado, aflito para chegar a seu sítio e apartar as vacas. Para aproveitar
a viagem, resolveu dar uma passadinha diante da casa do professor. Encontrou-o,
como de costume, assentado no canto da varanda.
- Bom dia, professor! Pegando um solzinho, né? Até que é
bão, mas escuta, professor, queria ter um malemaleque com o senhor, posso?
- Que história é essa, homem? Quanta falta de respeito!
- Deus me livre, professor. Sou um homem de seriedade. É só
um dedinho de prosa, gente! Só isso! Olhe, professor, fim do mês tá chegando.
Aqueles quinhentos com mais sete por cento... fico preocupado. E o senhor? Ah!,
mudando de assunto, outro dia eu ouvi a banda tocar na procissão uma música
animada pra caramba. O Roque, aquele que toca prato, disse que foi o senhor que
fez, é verdade? Eu sempre tive vontade de tocar um instrumento na banda. Se eu
pudesse queria aquele fininho e preto. É bacana.
- Deve ser a clarineta. Você tem bom gosto, mas, antes, é
preciso aprender teoria musical e solfejo.
- Quem me dera! Sou meio turrão, professor. Só alisei o
banco da escola.
Aproveitando a deixa, o professor animou-se com o assunto,
falou bastante sobre música e a conversa parou por aí. O Dorneles seguiu
caminho e deixou o coitado do professor bastante preocupado com a história dos
quinhentos reais. Mais dia, menos dia, ele teria de barrar a escalada da dívida
antes de recorrer ao FMI. O pior é que não sobrava nem um centavo depois de
pagar o açougue, a padaria, a farmácia...
Apesar da preocupação, o professor Avelar achou interessante
aquele sujeito rude, sovina e ignorante ser sensível à arte de Euterpe. O
Dorneles não era assim tão bronco como pensava. Ele gostava de música e
apreciara seu último dobrado que, aliás, era mesmo uma criação de mestre. Homem
culto, violinista, poeta, compositor e maestro, o professor, naquele momento,
preferia uma carteira recheada a tantos dotes intelectuais. Na verdade, estava
mesmo numa boa enrascada. Foi, então, que lhe veio a feliz ideia de trocar
lições de solfejo pelos juros da dívida. Seria um bom negócio para os dois.
Proposta feita, proposta aceita. Nos fins de semana, o Dorneles passou a vir
religiosamente ao bangalô do professor Avelar para as lições de solfejo e
teoria musical. O professor cada vez mais se entusiasmava com o talento e a
notável aplicação de seu aluno que seguia, à risca, seus ensinamentos em troca
dos juros dos quinhentos reais.
Alguns meses se passaram e, após as lições sobre “andamento
e ornamentos”, o professor, a contragosto, deu por encerradas as aulas e
admitiu o recomeço do pagamento dos juros. A não ser que...
- Desistiu da clarineta, Dorneles?
- Eu? Quá! Quem sou eu, professor? Nem clarineta eu tenho.
- Isto a gente dá um jeito. Posso ajudar.
- É, mas quem vai me ensinar? O Roque não sabe. Ele só toca
prato.
- Eu ensino, se quiser. Acho que aprende em pouco tempo.
- O senhor sabe tocar clarineta também? Puxa! O senhor é
danadinho, professor.
As aulas recomeçaram, desta vez ao som de uma clarineta
emprestada. O aprendizado ia de vento em popa enquanto os juros permaneciam
estacionados para a felicidade do professor Avelar. No início, eram só os
primeiros sopros desafinados, seguidos das notas soltas e de escalas
ascendentes e descendentes. Depois, o professor compunha umas lições fáceis,
com mínimas e semínimas, diversificava os compassos, introduzia colcheias,
semicolcheias e pausas. Dorneles assimilava tudo com a maior facilidade, a
ponto de o professor escrever para ele uma valsinha cheia de quiálteras e
apogiaturas, valsinha que foi digerida num átimo. O aluno tinha parte com o
sopro e a palheta.
Nada mais havendo para ser ensinado e aprendido, para a
alegria do aluno e a tristeza do professor, encerraram-se as atividades
musicais. Poucos dias depois, o Dorneles apareceu na porta do bangalô do
professor com a finalidade de reativar os juros dos quinhentos reais. Apesar de
todos os benefícios recebidos, ele não estava disposto a perdoar um centavo
sequer. Conversa vai, conversa vem, o Dorneles deixou transparecer sua
desilusão com a clarineta. O estudo fora perda de tempo, pois não tinha músicas
para executar em seu instrumento e não conseguia tocar sem ver as notas na
pauta, com compasso e tudo mais. O professor, imaginando uma proposta
interessante, arriscou:
- Não seja por isso. Tenho algumas partituras de valsa,
dobrados e marchas fúnebres que compus e nunca foram executados por aí. Se
quiser aproveitá-las, posso emprestar-lhe algumas se ...
- Aceito. Dois meses sem os juros, conforme a quantidade.
O professor não esperou mais nada. Saiu às pressas para o
quartinho da sala onde guardava o violino, o trompete, aposentado por falta de
fôlego, e as benditas partituras musicais de sua autoria, um calhamaço de fazer
inveja a J Strauss, a J F Sousa, e a João da Mata, uma preciosidade.
Quando voltou, tratou de apresentar a obra, exagerando nos
elogios e atenuando as dificuldades. O Dorneles, de queixo caído diante daquele
precioso acervo, não teve dúvidas de que se tratava de um negócio da China.
Afinal, ele jamais compraria tamanha coleção pelos juros de dois meses, uns
setenta reais.
Feliz da vida, o Dorneles se foi, levando consigo três
valsas, dois dobrados e duas marchas fúnebres, obras inéditas da melhor
qualidade. Foi-se e desapareceu por algum tempo. O professor, assentado em sua
cadeira, na varanda do bangalô, respirava aliviado por ter feito o melhor
negócio de sua vida. Mas a felicidade durou apenas alguns meses. Um belo dia,
ou melhor, um dia sinistro, o Dorneles apareceu com as mãos nos bolsos da calça
e um sorriso maroto de quem havia levado a melhor em alguma transação.
- Oi, professor, que tempão, hem? Tomei chá de sumiço, não
tomei? O senhor, com certeza, achou que eu morri, não achou?
- Morrer? Você não morre assim tão fácil, meu amigo. É jovem
e cheio de vida. Eu é que já estou na fila... Mas, que aconteceu? Ah, já sei.
Os quinhentos, não é?
- Que nada! é só um malemaleque sem importância. Eu vim
passando e... Ah, quer saber? pra falar a verdade é sobre eles mesmo. Só que o
negócio agora é outro.
- Aumentou os juros. Eu já esperava. Coitado de quem pede
dinheiro a qualquer um.
- Que é isso, professor? Sou um homem de seriedade. Pra
provar que sou um sujeito sério, fiz um negocião pra nós dois. Pra mim e pro
senhor.
- Negocião? Bom para mim?
- Não é, professor? Escute. Eu não sou bobo nem nada. Já
percebi, há muito tempo, que o senhor nunca vai me pagar os quinhentos que me
deve. Então, resolvi tomar minhas providências.
- Providências?
- É isso mesmo. Outro dia, fui levar umas encomendas lá em
Brojocó e fiquei sabendo que a cidade tinha uma bandinha de música, uma
bandinha de nada, muito mixuruca. Aí, eu procurei o músico maestro e fiz a
oferta.
- Oferta?
- Ele topou na hora. Vendi as partituras do senhor por
seiscentos reais e ainda me convidou para tocar clarineta na banda dele. Tirei
meus quinhentos e vim trazer o troco de cem pro senhor. Aqui, tome. Cem reais.
Tudo resolvido. Um negocião! Sou ou não sou um homem de seriedade?
.................
Nídia Maria da Costa Reis - Educadora, escritora, soma mais
de cem pequenas histórias e poemas catalogados, além da coleção 12
provérbios e suas histórias, que chegou à quarta edição e concorreu ao
Prêmio Jabuti de Literatura. Aventuras de Gui Omar é seu trabalho mais recente.
** *
terça-feira, 19 de maio de 2020
TRÊS EDITORAS NO SUL DA BAHIA – Cyro de Mattos
Três Editoras no Sul da Bahia
Cyro de Mattos
Há pouco mais de cinquenta anos, o
romancista Otávio de Faria perguntou na Biblioteca Nacional ao amigo Adonias
Filho o que era que o sul da Bahia produzia além do cacau. Respondeu sem
hesitar o consagrado escritor Adonias Filho que produzia artistas da
palavra. E citou os nomes de Jorge
Amado, Sosígenes Costa, Emo Duarte,
Jorge Medauar e Hélio Pólvora. Acrescentou que mais escritores estavam
chegando, como Telmo Padilha, Florisvaldo Mattos, Marcos Santarrita, Ildásio
Tavares, Sonia Coutinho e este cronista.
A publicação de escritores do sul
baiano naqueles idos que já vão longe acontecia
de fora para dentro. Depois que a Universidade Estadual de Santa Cruz
foi implantada há pouco mais de duas
décadas, a publicação de escritores sulinos do Estado passou
a ser realizada de dentro para fora.
Como usina educativa e cultural, a UESC vem fornecendo o
instrumental teórico necessário, que serve como estímulo e lapidação das
vocações dos escritores no sul do
Estado.
Formado o poderoso corpo literário, fazia necessário a criação da editora
para publicar os livros de tantos autores nascidos ou residentes no sul da
Bahia. Surgiu primeiro a Editus, editora da Universidade Estadual de Santa
Cruz, sediada na rodovia Jorge Amado,
entre Ilhéus e Itabuna. Dirigida hoje pela
doutora Rita Virgínia Argolo, passa por fase difícil em virtude da falta de verba estadual. Presta-se às publicações de natureza universitária, além de prestigiar
a edição de autores regionais,
selecionados pelo seu conselho consultivo.
A impressão de seus livros, sob
o ponto de vista de confecção artística e gráfica, para não se falar do
conteúdo, é de excelente nível. Circulam em ambiência nacional, com a
vantagem de que a Editus integra a Associação Brasileira de Editoras Universitárias, marcando presença em feiras de livros e eventos,
inclusive nas bienais de São Paulo e Rio de Janeiro.
A
segunda de nossas editoras é a Via Litterarum,
sediada em Ibicaraí, já com dezenas de títulos em seu catálogo. Seu diretor é o incansável Agenor Gaspareto, dublê de editor guerreiro e professor universitário.
A caçula é a Mondrongo, regida sob a batuta do poeta e cronista Gustavo Felicíssimo, localizada em Itabuna. Possui
livros premiados em concurso literário cobiçado, de âmbito nacional, como A Dimensão Necessária, de João Filho, Prêmio
de Poesia da Biblioteca Nacional, e Natal de Herodes, Prêmio de Poesia da
Academia Pernambucana de Letras.
Qualquer escritor que seja publicado por uma das três editoras está
em boas mãos.
Até
hoje essas editoras não receberam por sua iniciativa o reconhecimento e o abono merecido de um projeto
das secretarias de educação e da cultura de Itabuna e Ilhéus, como
incentivo à edição de livro do autor regional.
Lamentável. A literatura é útil ao próximo na compreensão do mundo. Fala à imaginação e ao sentimento. É a
expressão mais completa do homem na leitura do mundo. Cometem omissão incompatível com a sua finalidade de órgão público
educativo quando deixam de elaborar
projeto de reconhecimento e incentivo à
editora no sul do Estado. O
patrimônio formado pela literatura é valioso,
serve para apresentar a vinculação da vida no seu processo histórico ao percurso
espiritual de um povo. Nunca é
demais lembrar o que nos disse o genial poeta Castro Alves.
Oh! Bendito o que
semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n'alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n'alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!
*Cyro de Mattos é poeta e escritor. Primeiro Doutor Honoris
Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro do Pen Clube do Brasil,
Academias de Letras da Bahia, Ilhéus e Itabuna. É também editado em Portugal,
Itália, França, Alemanha e Espanha. Seus livros são também editados pela Editus, Via Litterarum e Mondrongo.
* * *
segunda-feira, 18 de maio de 2020
GRANDE EMBATE EM CIDADE GAÚCHA - Paulo Henrique Américo de Araújo
· 17 de maio de 2020
Túmulo do Servo de Deus Pe. João Batista Reus
[Fotos Paulo Américo]
·
Paulo Henrique Américo de Araújo
Em janeiro, integrando a caravana de voluntários do Instituto
Plinio Corrêa de Oliveira, tive a oportunidade de visitar a cidade de São
Leopoldo (RS), onde se encontra o Santuário do Sagrado Coração de Jesus. Ali o
conhecido Pe. João Batista Reus (pronuncia-se Róis), jesuíta nascido na Alemanha e grande místico, exerceu boa parte de seu
frutuoso apostolado. Falecido em 1947, seu corpo jaz numa capela ao lado da
igreja, e atrai durante todo o ano multidões de fiéis.
Não é minha intenção descrever neste artigo a vida do Pe. Reus,1 mas sim focalizar alguns aspectos da
atmosfera do santuário2 e dos peregrinos que para lá acorrem.
Há duas realidades contrastantes no santuário: de um lado, a piedade
verdadeira — na aparência débil — do povinho que se ajoelha junto ao túmulo do
Servo de Deus; e de outro lado as manifestações do progressismo, como um
monstro disforme e esmagador, que impregnam todo o ambiente. A impressão é a de
um embate entre dois inimigos irreconciliáveis, dotados de forças extremamente
desproporcionais. Uma luta entre Davi e Golias, dir-se-ia. Tudo indica que o
gigante vencerá, porém a História nos afirma o contrário.
Após concluir minhas orações, detive-me para observar as pessoas que se
aproximavam do túmulo do Pe. Reus. A “capela” – mais propriamente um galpão –
não possui qualquer ornato, nem beleza. Bem poderia servir de garagem para
automóveis. Nas paredes, alguns vitrôs simplórios deixam penetrar a luz direta
do sol. Apenas um quadro estilizado da face do Pe. Reus quebra um pouco a
monotonia que ali domina.
Invariavelmente os visitantes se apresentavam com expressões de
veneração e respeito, cabeças baixas, lábios em movimento indicador de orações
silenciosas. Alguns se ajoelhavam a poucos metros de distância, e nesta posição
prosseguiam até chegar diante do túmulo. Homens e mulheres, jovens e velhos num
fluxo contínuo, mas sem exasperação nem pressa. Em volta do túmulo, o frenesi
de um domingo de verão desaparecia, como que por um passe de mágica; ou melhor,
pela ação de uma graça impalpável, mas real.
Um dos nossos caravanistas notou naquele povinho uma atitude pitoresca,
talvez fruto de um costume tornado natural. Alguns visitantes traziam flores e
as tocavam na cruz que contém a figura incrustada do venerável sacerdote, e as
depositavam sobre o túmulo. Outros peregrinos colhiam e levavam consigo algumas
dessas mesmas flores, que pouco antes haviam sido ali depositadas. Expressivo
símbolo da comunhão dos santos, confirmando que os oferecimentos ou méritos de
alguns fiéis concorrem para o benefício de outros fiéis.
Ressalto com tristeza que tal devoção popular, carregada de muitos
sinais de sinceridade, vinha acompanhada da degradação e imodéstia dos trajes.
Não encontrei qualquer exceção a essa verdadeira ditadura das roupas imorais,
tanto nos homens quanto nas mulheres. Entre eles um casal, aparentando idades
entre 25 e 30 anos, veio para rezar, mas sua imoralidade no trajar mostrava-se
ainda mais agressiva. Pareciam ter acabado de sair de uma academia de
ginástica, como seus trajes o denunciavam. Com tatuagens aparentes, ambos se
ajoelharam e rezaram ao Servo de Deus!
Como se conciliam, na mente dessas pessoas, a piedade e os trajes
próprios à imoralidade? Falta de instrução? Maldade ostensiva? Não sei dizer.
Mas sou tendente a concluir que, embora o processo de destruição dos costumes
cristãos tenha alcançado no Ocidente todas as vitórias em matéria de imoralidade,
paradoxalmente não conseguiu apagar no comum das pessoas o sentimento
religioso.
Saindo pelos fundos do “galpão-capela”, encontrei-me em um jardim com
grandes cruzes brancas. Trata-se, na verdade, de um cemitério com as sepulturas
de dezenas de padres e irmãos leigos jesuítas, sinal impressionante do antigo
florescimento da Companhia de Jesus na região. Mas naquele jardim não encontrei
qualquer túmulo de padres mais novos, falecidos recentemente. Todas as
sepulturas pertencem a jesuítas nascidos até a década de 50, todos com mais de
70 anos. Tudo indica não haver ali padres jovens.
Alguém poderá argumentar que só há sepulturas de padres velhos porque é
comum os velhos morrerem! Argumento lógico, sem dúvida, mas todos os cemitérios
demonstram ser ele apenas parcialmente verdadeiro. Pergunto se não seria
normal, no meio dos falecidos ultimamente, encontrar ao menos um padre jovem.
Por exemplo, com 40 ou 50 anos de idade. Por que não os há? A resposta é
simples: praticamente não existem vocações recentes. A Companhia de Jesus e
todas as Ordens religiosas vão definhando, numa inexorável crise de vocações,
desde o início da era pós-conciliar. Qualquer um pode ver a prova disso naquele
cemitério de cruzes brancas.
Escrivaninha, paramentos, breviário, altar e até um
violino que pertenceram ao Pe. Reus
Por fim dirigi-me à igreja. Na cripta do Santíssimo Sacramento, no subsolo,
um memorial do Pe. Reus exibe seus objetos pessoais: escrivaninha, paramentos,
breviário, altar, e até um violino. Os visitantes tinham o olhar encantado ao
vê-los. Nesse pequeno museu percebe-se, a um só tempo, a vida de piedade e a
obra de apostolado do Servo de Deus. A esses objetos simples, mas com muita
dignidade, se opõem outros aspectos modernizados da cripta: um gélido e
monótono altar-mesa circundado pelas estações da Via-sacra, cujos Personagens
disformes parecem ter sofrido ainda mais após a crucifixão. Ninguém demonstrava
encantar-se com elas.
De todas as carrancas com que o progressismo se manifesta no santuário,
a mais escandalosa e grotesca é sem dúvida a do altar principal. Um verdadeiro
monstro de metal, mistura de ficção-científica e pós-modernismo de face
hedionda. Tremo e hesito ao constatar que aquela figura pretende ser uma imagem
do Sagrado Coração de Jesus. Pareceu-me verdadeira blasfêmia considerá-la como
tal. Como conseguirá alguém, diante daquela imagem, elevar a mente ao dulcíssimo
Jesus, Filho da Virgem Santíssima? Impossível! Vi-me impelido a sair depressa
dali.
Em São Leopoldo, o progressismo dito católico se imiscuiu nas expressões
de piedade e devoção provenientes da vida exemplar do Pe. Reus. A catolicidade
verdadeira, terna e singela sobrevive ali, mas sufocada pelas patas repugnantes
da pseudo-arte moderna e do neopaganismo progressista. Uma
análise apressada nos faria temer que as pequenas devoções não consigam
resistir ao poderio massacrante desse monstro anti-católico. Se foi essa a
conclusão de uma análise apressada, devemos ter em mente o jovem Davi combatendo
contra Golias. O pequeno, tido por mais débil, pode perfeitamente derrotar o
atual gigante!
O venerável jesuíta escreveu, ao partir da Alemanha: “Ó Maria,
Mãe minha, fazei que chegue ao Brasil são e salvo, para lucrar muitas almas
para Vós e para o Sagrado Coração de Jesus!”.3 Como o Pe. Reus veio para cá com essa santa
intenção, peçamos que do Céu ele interceda agora junto a Nossa Senhora para a
derrota do monstro progressista, que tanto afasta as almas de Deus.
_____________
Notas
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 833, Maio/2020.
1. Uma boa biografia do jesuíta foi
escrita por Ferdinand Bauman, S.J.: Um Apóstolo do Coração de Jesus,
Publicações Avulsas de História, UNISINOS, S. Leopoldo, 1987.
2. O Santuário do Sagrado Coração de
Jesus, sob a influência da arte modernista, foi construído entre os anos de
1958 e 1968, após a morte do Pe. Reus.
3. Op. cit. pág. 81.
* * *
domingo, 17 de maio de 2020
PALAVRA DA SALVAÇÃO (183)
6º Domingo da Páscoa – 17/05/2020
Anúncio do Evangelho (Jo 14,15-21)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Se me
amais, guardareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará
um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da
Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós
o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. Não
vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. Pouco tempo ainda, e o mundo não mais
me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis. Naquele dia sabereis
que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós. Quem acolheu os meus
mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu
Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
---
Ligue o vídeo abaixo a acompanha a reflexão do Padre Roger
Araújo:
---
A arte de cinzelar palavras de vida
através da conversa
“O
Espírito da Verdade..., vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e
está em vós” (15,17)
O Evangelho deste domingo faz parte de uma longa conversa de Jesus
com os seus amigos, durante a Última Ceia, e que João recolhe nos capítulos 13
a 17.
Era uma conversa amiga,
que ficou na memória do discípulo amado. Jesus, assim parece, queria prolongar
ao máximo esse último encontro, momento de muita intimidade. Para João, a
conversa de Jesus tem uma conotação de profundidade e trato, de certa
familiaridade e ternura.
Nesta interação Jesus-discípulos, tanto os conteúdos expressos
como os aspectos relacionais ganham uma grande importância: as palavras, os
gestos, o olhar, a maneira de falar, o tom da voz, os silêncios, o contexto
onde acontece a conversação...; tudo isso forma parte da diversidade e riqueza
da revelação de Jesus aos seus mais íntimos. Jesus extrai palavras significativas,
previamente cinzeladas e incorporadas no seu interior, onde elas revelam
dinamismo, sentido e alteridade; sua conversa brota de uma vida interior fecunda e
conduz a uma vida comprometida. Trata-se de um verdadeiro “testamento
espiritual”
A conversação constitui,
portanto, o núcleo diferencial de qualidade de trato próximo e fraterno
daqueles(as) que, além de viverem juntos, compartilham a vida com um projeto
comum.
No entanto, há conversa e conversa. Há conversa superficial que
gasta palavras à toa e revela o vazio das pessoas. E há conversa que toca
fundo no coração e fica na memória. Todos nós, de vez em quando, temos esses
momentos de convivência amiga, que dilatam o coração e vão ser força na hora
das dificuldades. Ajudam a ter confiança e a vencer o medo.
Conversar constitui
uma das experiências humanas mais antigas e configuradoras de nosso ser. Ela
não se reduz a um mero intercâmbio de palavras; é um processo essencialmente
ativo, inerente à nossa natureza relacional, cuja finalidade última é viver a
experiência do encontro.
Conversar é
uma das aprendizagens vitais que não tem data de vencimento.
A arte da conversação é
um caminho pedagógico, um processo gradual que requer uma capacidade de escuta, de acolher e deixar-se afetar pelo que o outro
é, não só pelo que diz; uma capacidade de olhar com profundidade para reconhecer uma
história santa, um caminho de salvação. É reconhecer no outro o que há de verdadeiro, bom e belo e descobrir
como o dinamismo de Deus atua no coração dele. É ajudá-lo a descobrir, na trama
de sua vida, as motivações profundas
que o levam a ser e a agir de uma maneira muito pessoal.
A conversação é
uma experiência profundamente humana de proximidade, de conhecimento, de inter-câmbio, de ternura..., um encontro entre pessoas que vão compartilhando
histórias de vida, esperanças e frustrações, vontade de construir e sonhar...
Na conversação, o
que importa é a pessoa do outro e não os problemas que apresenta...; ela é o
lugar privilegiado de encontro e descoberta misteriosa do Outro (Deus).
“Conversar” e “converter”, etimologicamente,
vem da mesma raiz. Em seu sentido mais radical e profundo “conversar” é
“converter-se” ao mistério do outro, é converter-se à alteridade. A conversação
reforça os laços, criando a comunidade de “amigos no Senhor”.
Sair dos corredores do próprio claustro interior e de seus
mecanismos de defesa para converter-se em um servidor do outro, com a mediação
mais humana, mais sutil, mais imediata e universal, mais iluminadora e mais
reveladora da própria maturidade: a palavra.
Mesmo “isolados socialmente” devido à pandemia, a conversação nos
liberta da solidão e do fechamento, fazendo-nos crescer na transparência. As
inúmeras possibilidades de conversar são encontros que nos reconciliam com a
vida, nos movem a crescer e a sair de nosso isolamento. Ela nos permite sentir
que formamos parte da vida de outros e nos ajuda a levantar-nos quando as perdas,
os fracassos, as enfermidades... tornam difícil nosso caminhar.
Para chegar a conversações mais profundas e íntimas precisamos
percorrer o caminho que se inicia no cotidiano e no aparentemente superficial.
Encontrar-nos com os outros é uma experiência que requer seu tempo, seu espaço,
seu ritmo. Nossa natureza relacional continuamente nos oferece oportunidades
para conversar; depende de nós fazê-las banais ou convertê-las em experiência
de vida.
Segundo Jesus, o protagonista principal da conversação é o Espírito, que gera
em nosso interior palavras de
vida e criatividade. Numa conversação profunda deixamos transparecer nossa
verdadeira identidade, nossa verdade original. Mas é o Espírito, que nos
habita, Aquele que cava em nós palavras de vida.
Quando Ele encontra liberdade para atuar em nós, faz brotar das
entranhas das palavras sua riqueza escondida. Por isso, Ele é o “Espírito da Verdade”: não
a verdade racional, dogmática, doutrinária...
Refere-se à “verdade
profunda” que nos diz que fomos criados para uma Vida plena e para contribuir a
que cada ser humano participe de tal Vida. Ele é a “verdade íntima” que nos diz
que, no mais profundo de nós mesmos, não só pulsa um coração, mas também um
Deus que inspira em todos nós uma maneira original de ser mais humano. Ele é a
“verdade autêntica”: somos filhos(as), irmãos(ãs) e somos chamados(as) a viver
como tais.
Mais ainda: o “Espírito da verdade” nos convida a viver na “verdade” de Jesus em
meio a uma sociedade onde a mentira é considerada estratégia, a manipulação é
vista como bom negócio, a irresponsabilidade é confundida com a tolerância, a
injustiça é identificada com a ordem estabelecida, a arbitrariedade é propagada
como ato de liberdade, a falta de respeito e a violência verbal como expressões
de sinceridade...
Para além das imagens e símbolos, é decisivo re-descobrir a
presença do Espírito
de Deus que, dentro de cada um de nós, provoca movimentos, ativa
as brasas escondidas no coração, nos faz fortes, alegres, valentes,
apaixonados(as), audazes e sábios(as). Devemos acolhê-lo com coração simples e
confiado, abrindo espaço para que Ele atue com liberdade, inspirando-nos e
fazendo-nos mais criativos. É Ele que dá sabor e sentido à nossa existência e
nos enraíza no modo de ser e de viver de Jesus.
Conduzidos(as) pelo Espírito de Jesus, mergulhamos em nosso
mundo com os olhos abertos, com os ouvidos atentos, com o coração sensível para
ter acesso à verdade profunda de toda a realidade. Tudo é perpassado por essa
presença alentadora, que “faz
novas todas as coisas”.
Este Espírito de Vida
subsiste em tudo e em todos, embora muitas vezes nos tornamos traidores(as)
do Seu sopro com nossos exclusivismos, condenações e rejeição do
pluralismo fomentado pelo mesmo Espírito.
Nenhuma
espiritualidade e nenhuma igreja tem o monopólio do Espírito de Cristo, que
sopra onde quer, como e quando quer, sem que o controlemos; para o Sopro, não
há barreiras e nem fronteiras.
Todos e todas estamos
em caminho, envolvidos no dinamismo contínuo desse Espírito Pascal.
Texto
bíblico: Jo 14,15-21
Na oração: Pela conversa a pessoa
manifesta quem ela é. “Onde está sua conversa, aí está seu coração”.
- Quais
são suas conversas? Elas
animam os outros, eleva-os, “aquecem
seus corações?...
- Aguce
seus sentidos, abra o coração; há tantos que não podem mais esperar, pois
ansiosos aguardam uma presença que acolha e uma palavra que os anime.
Pe.
Adroaldo Palaoro sj
* * *
sábado, 16 de maio de 2020
LIMITES E RESPONSABILIDADES – Antônio Hamilton Martins Mourão
Nenhum país do mundo vem causando tanto mal a si mesmo como
o Brasil. Um estrago institucional, que agora atingiu as raias da insensatez,
está levando o País ao caos. Há tempo para reverter o desastre. Basta que se
respeitem os limites e as responsabilidades das autoridades constituídas.
A esta altura, está claro que a pandemia de covid-19 não é
só uma questão de saúde: por seu alcance, sempre foi social; pelos seus
efeitos, já se tornou econômica; e por suas consequências pode vir a ser de
segurança. A crise que ela causou nunca foi, nem poderia ser, questão afeta
exclusivamente a um ministério, a um Poder, a um nível de administração ou a
uma classe profissional. É política na medida em que afeta toda a sociedade e
esta, enquanto politicamente organizada, só pode enfrentá-la pela ação do
Estado.
Para esse mal nenhum país do mundo tem solução imediata,
cada qual procura enfrentá-lo de acordo com a sua realidade. Mas nenhum vem
causando tanto mal a si mesmo como o Brasil. Um estrago institucional que já
vinha ocorrendo, mas agora atingiu as raias da insensatez, está levando o País
ao caos e pode ser resumido em quatro pontos.
O primeiro é a polarização que tomou conta de nossa
sociedade, outra praga destes dias que tem muitos lados, pois se radicaliza por
tudo, a começar pela opinião, que no Brasil corre o risco de ser judicializada,
sempre pelo mesmo viés. Tornamo-nos assim incapazes do essencial para enfrentar
qualquer problema: sentar à mesa, conversar e debater. A imprensa, a grande
instituição da opinião, precisa rever seus procedimentos nesta calamidade que
vivemos.
Opiniões distintas, contrárias e favoráveis ao governo, tanto
sobre o isolamento como a retomada da economia, enfim, sobre o enfrentamento da
crise, devem ter o mesmo espaço nos principais veículos de comunicação. Sem
isso teremos descrédito e reação, deteriorando-se o ambiente de convivência e
tolerância que deve vigorar numa democracia.
O segundo ponto é a degradação do conhecimento político por
quem deveria usá-lo de maneira responsável, governadores, magistrados e
legisladores que esquecem que o Brasil não é uma confederação, mas uma
federação, a forma de organização política criada pelos EUA em que o governo
central não é um agente dos Estados que a constituem, é parte de um sistema
federal que se estende por toda a União.
Em O Federalista – a famosa coletânea de artigos que ajudou
a convencer quase todos os delegados da convenção federal a assinarem a
Constituição norte-americana em 17 de setembro de 1787 –, John Jay, um de seus
autores, mostrou como a “administração, os conselhos políticos e as decisões
judiciais do governo nacional serão mais sensatos, sistemáticos e judiciosos do
que os Estados isoladamente”, simplesmente por que esse sistema permite somar
esforços e concentrar os talentos de forma a solucionar os problemas de forma
mais eficaz.
O terceiro ponto é a usurpação das prerrogativas do Poder
Executivo. A esse respeito, no mesmo Federalista outro de seus autores, James
Madison, estabeleceu “como fundamentos básicos que o Legislativo, o Executivo e
o Judiciário devem ser separados e distintos, de tal modo que ninguém possa
exercer os poderes de mais de um deles ao mesmo tempo”, uma regra estilhaçada
no Brasil de hoje pela profusão de decisões de presidentes de outros Poderes,
de juízes de todas as instâncias e de procuradores, que, sem deterem mandatos
de autoridade executiva, intentam exercê-la.
Na obra brasileira que pode ser considerada equivalente ao
Federalista, Amaro Cavalcanti (Regime Federativo e a República Brasileira,
1899), que foi ministro de Interior e ministro do Supremo Tribunal Federal,
afirmou, apenas dez anos depois da Proclamação da República, que “muitos
Estados da Federação, ou não compreenderam bem o seu papel neste regime
político, ou, então, têm procedido sem bastante boa fé”, algo que vem custando
caro ao País.
O quarto ponto é o prejuízo à imagem do Brasil no exterior
decorrente das manifestações de personalidades que, tendo exercido funções de
relevância em administrações anteriores, por se sentirem desprestigiados ou
simplesmente inconformados com o governo democraticamente eleito em outubro de
2018, usam seu prestígio para fazer apressadas ilações e apontar o País “como
ameaça a si mesmo e aos demais na destruição da Amazônia e no agravamento do
aquecimento global”, uma acusação leviana que, neste momento crítico, prejudica
ainda mais o esforço do governo para enfrentar o desafio que se coloca ao
Brasil naquela imensa região, que desconhecem e pela qual jamais fizeram algo
de palpável.
Esses pontos resumem uma situação grave, mas não
insuperável, desde que haja um mínimo de sensibilidade das mais altas
autoridades do País.
Pela maneira desordenada como foram decretadas as medidas de
isolamento social, a economia do País está paralisada, a ameaça de
desorganização do sistema produtivo é real e as maiores quedas nas exportações
brasileiras de janeiro a abril deste ano foram as da indústria de
transformação, automobilística e aeronáutica, as que mais geram riqueza. Sem
falar na catástrofe do desemprego que está no horizonte.
Enquanto os países mais importantes do mundo se organizam
para enfrentar a pandemia em todas as frentes, de saúde a produção e consumo,
aqui, no Brasil, continuamos entregues a estatísticas seletivas, discórdia,
corrupção e oportunismo.
Há tempo para reverter o desastre. Basta que se respeitem os
limites e as responsabilidades das autoridades legalmente constituídas.
Antônio Hamilton Martins Mourão
VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA
FONTE: O Estadão
opinião.estadao.com.br
Antônio Hamilton Martins Mourão é um
general da reserva do Exército brasileiro e vice-presidente da República.
Elegeu-se para a Vice-Presidência em 2018
* * *
sexta-feira, 15 de maio de 2020
QUANDO UM HOMEM SE SENTE TRAÍDO – Ignácio de Loyola Brandão
Lembrando de Nirlando Beirão, a pessoa mais gentil que
conheci na vida e cujo texto fará falta na imprensa e na literatura. Agora a
morte está vindo de batelada. Juntos, o músico Aldir Blanc e o ator Flávio
Migliaccio.
Todos nós, diariamente, ligamos para amigos para saber como
estão de saúde e suportando a quarentena. Uma dessas ligações foi para
Humberto, amigo que faz vídeos de todos os gêneros, alertando que um dia
assombrarão. Não sei quem, mas ele jura que assombrarão. Tomara sobreviva,
quero ser assombrado.
“Você está bem, Beto? Resistindo?”
“Bem? Bem mal, isso sim! Faz três dias que minha mulher me
ignora”.
“Está sendo traído?”
“Não sei se chega a isso, mas agora pareço não existir.
Dói.”
“Celeste tem um caso? Não me diga. Vocês são vistos como o
casal mais apaixonado, fiel. Loucos um pelo outro. Não estou entendendo.”
Quando digo grupo, refiro-me aos amigos próximos e parentes,
não a esses grupos de redes sociais que têm milhares de seguidores e vivem
azucrinando os outros.
“Pois é, a Celeste...”
“Conta, conta tudo. Deve ser coisa da sua cabeça. A Celeste?
Vamos nos encontrar. Trocar figurinhas. Mas é sério?”
“Esqueceu que não podemos sair? Celeste, ah, que triste. Não
liga mais para mim, me esquece, só tem olhos para o outro, vive o dia inteiro
atrás dele.”
“Como sabe? Como descobriu? Olhando o celular? Coisa que não
se deve fazer. O sujeito mandou flores, bilhetes, joias? Alguém viu e te abriu
os olhos?”
“Nada disso, é tudo claro. O outro está aqui? Dentro de
casa”
“O quê? Dentro de casa? Você viu? Sabe quem é? Falou com
ele?”
“Vi. Não adianta falar com ele. É indiferente, fica na dele!
Não responde, nada diz, nada comenta. Fica por aqui, vai para lá volta para cá,
indiferente.”
“Minha Nossa Senhora Desatadora de Nós, parece Nelson
Rodrigues. Não será efeito do tédio do confinamento? Não dá para peitá-lo?
Dizer qual é a tua, bicho?
“Bicho? Gíria de nossa juventude. Nada adianta. Ele circula
pela casa, ela vai atrás. Não adianta dizer uma palavra, nem ameaçá-lo. Ele não
ouve, me desdenha, ignora, ele vira as costas.”
“Celeste surtou? Nessa quarentena, tem gente pirando,
perdendo o controle, ficando paranoica. Eu mesmo tenho feito besteiras que me
preocupam. Hoje, ao colocar a mesa para o almoço, minha tarefa doméstica (uma
delas, claro), percebi que coloquei em lugar de garfo e faca, duas facas. Ontem
saí perguntando: você viu meu relógio? Não encontro. Você não usa relógio,
garantiu minha mulher. Não quer dizer celular? Era. Quantas vezes, com o
celular, faço uma ligação e o meu fone fixo toca, estava ligando para mim
mesmo. Pior foi no dia em que estava escrevendo anotações com uma BIC. Você
conhece o poder das canetas, elas podem tudo. A carga acabou, apanhei um
tinteiro – porque tenho caneta tinteiro também, sonho de adolescência. E me vi
mergulhando a BIC no tinteiro. Não estou louco, divirto comigo mesmo. Se for
preciso, tenho um amigo terapeuta, o Uchikusa, peço, ele me atende, bom
sujeito. Qualquer dia escrevo a história dele.”
Ele me ouviu com paciência, sabe que preciso desabafar.
“Pois é a Celeste. Estou em casa, e ela some. Chamo, procuro
e descubro, lá está ela junto dele.”
“A coisa é grave. Quem é esse homem? Foi de repente?
“Faz três dias. Desde que ele chegou fui esquecido. Ela está
encantada. Passa o dia para lá e para cá. Preocupa-se com ele, ri dele, ajuda-o
com ternura. Não sei o que fazer.”
“Mas quem é esse homem?
“Não é homem, ela está apaixonada pelo robozinho que limpa a
casa. Redondinho como se fosse a base de uma antiga enceradeira. Programado,
solto, ele vai em frente, bate em um obstáculo, vira, tem sensores que o
orientam, é até assustador, vira, vem, avança, parece inteligente, acho que
pensa, é pacifico, obcecado, vê uma poeirinha vai lá. Até me deu até saudades
daquele robô simpático da série Perdidos no Espaço – só idosos vão se
lembrar – ou o R2-D2 do Guerra nas Estrelas. Limpa, e como limpa! Não fica
um cisquinho. Penso o que vamos fazer com a diarista da limpeza quando tudo
voltar ao normal. A Celeste feliz, disse: agora estou livre, há anos sonho com
isso. E vai atrás, feliz, quando ele tenta entrar embaixo de um móvel e fica
preso, ela corre e desenrosca. Claro que ela contou às amigas, mandou vídeos,
deu uma epidemia, de compra. Todas encomendaram. Tem uma amiga dela, cheia da
grana que pesquisa na Amazon, à procura de um robozão que cuide da casa
inteira, limpe janelas, lave banheiro, cozinhe, lave roupa, faça as unhas,
massageie os pés, atenda telefone, ligue a tevê, faça o café, faça massagem,
pratique ioga, corra na esteira, faça compras de supermercado, dê conselhos,
jogue na Mega Sena. E principalmente faça amor.”
Pera?
O Estado de S. Paulo, 08/05/2020
.............
Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da
ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.
* * *
Assinar:
Postagens (Atom)














