Total de visualizações de página

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

DETESTÁVEL PRECONCEITO! - Antonio Nunes de Souza

Lamentavelmente, estamos todos passivos do abominável sentimento denominado “preconceito”!

Quando se fala sobre isso, vem logo na mente o mais conhecido e, imaginável por muitos, que somente é exorbitante quando se refere a cor. Um monstruoso e ledo engano. Esse podre sentimento é, tranquilamente, bastante forte com a etnia negra e suas derivações, como também e fortemente, com a classe social menos privilegiada, além dos homossexuais!

Época atrás chegava-se a dizer que os quatro Ps eram as classes mais combatidas: “Pretos, Pobres, Putas e Pederastas”. E, lamentavelmente, não mudou absolutamente nada!

Apenas, pela força dos desempenhos em algumas, ou todas atividades, portas foram abertas na sociedade, principalmente pelo poderio econômico, e com a benevolência interesseira da mídia.

Hoje, inegavelmente, com o bruto sucesso dos negros no futebol, literatura, danças, músicas, teatro, televisão e, praticamente em todas as modalidades esportivas, que, conhecidamente, são agraciados com salários astronômicos, são tolerados em grandes eventos sociais públicos e particulares! Entretanto, verdadeiramente, são tolerados porque dão “Ibope”, mas, no íntimo, não são aceitos. Nas fotos que a “sociedade organizada” tira com eles, são somente para aproveitar, pois, sabem que circularão em todas as revistas. Essa é uma parte conhecida da asquerosa hipocrisia social!

Temos todos, que são conscientes e bons observadores, segurar essa triste situação, se conformando constrangidos com as novas nomenclatura para os quatro “Ps”, que atualmente são chamados, em função das suas posses e famas de: Negro é “moreno escuro”, Pobre é “povo brasileiro”, Puta é “garota de programa” e Pederasta é “gay e trans”.

Como disse acima, as tolerâncias são baseadas exclusivamente nas famas e nas posses financeiras. Eu sou do tempo que preto era “negão”, pobre era “coitado”, prostituta era “puta” e pederasta era “viado”. O preconceito era muito mais acirrado. Também, essas classes, geralmente, eram de baixa renda, a não ser a homossexual que, há milhares de anos, sempre atingiu todas as classes sociais.

Eu, sinceramente, respeito todos eles, tenho o maior carinho e jamais discriminei alguém, pois, para mim, somos iguais e com direito de proceder da maneira que mais nos apraz!


Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL



* * *

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO - O Casamenteiro

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
(Bahia, 1965 - O Casamenteiro)

           
            Fomos padrinhos, Zélia e eu, do casamento de João Gilberto com Astrud, o casal se separou nos Estados Unidos para onde Joãozinho viajara a fim de participar de um show, obteve tamanho sucesso que ficou por lá anos a fio.

            No dia de seu embarque, indo para o aeroporto passou por nosso apartamento para o abraço de despedida, vestia roupa leve, própria para o verão carioca, em new York a crueza do inverno era manchete nos jornais. Ao vê-lo tão desagasalhado retirei do guarda-roupa um sobretudo usado: vista-o ao desembarcar do avião senão vai morrer de frio, pegar pneumonia. Essa a minha contribuição para o êxito do cantor nos States, o sobretudo que o salvou da pneumonia dupla.

            Contribuí também para seu casamento com Miúcha*: do primeiro matrimônio fui testemunha, no segundo funcionei de casamenteiro. Um dia recebi na Bahia telefonema de Joãozinho, ligava de New York, aflito como sempre, não mudara, continuava o mesmo.

            - Jorginho, você é muito amigo de Sérgio Buarque de Holanda, não é?
           
            - Sou, sim, Joãozinho, por quê?

            Figura das mais fascinantes da comparsaria intelectual, Sérgio concedeu-me o privilégio de sua intimidade, coloquei-o de personagem em “O Capitão de Longo Curso”, assim homenageio aqueles que mais estimo e prezo, pondo-os nas páginas dos meus romances. Juntos, durante um congresso de literatura em Recife, fundamos uma Igreja de São Pedro dos Clérigos a Benemérita e Venerável Ordem do Hipopótamo Azul, dedicada ao trato das donzelas, e criamos a teoria das baquianas, as balzaquianas quando baqueiam, baseada na agitação das literatas locais que cortejavam Eduardo Portela, o sedutor. Na época do telefonema o mestre historiador se vangloriava de ser o pai de Chico Buarque, compositor que estourara nas paradas de sucesso.

            - Jorginho, estou apaixonado pela filha dele, a Miúcha, irmã do Chico. Miúcha anda por aqui, ela também gosta de mim, queremos nos casar, mas temos medo que Sérgio se oponha, você sabe como é, deve ter ouvido horrores a meu respeito. Queria que  você falasse com ele, pedisse a mão de Miúcha em casamento, para mim. Diga a ele que não sou tão ruim como dizem por aí.

            Habituado a me envolver com a vida de Joãozinho, prometo interferir - depressa, daqui a uma hora telefono de novo para saber o resultado. Desligara agoniado, eu ainda procuro o número de Sérgio no caderno de telefones, Joãozinho volta a ligar: eu ‘tava vexado que não mandei um beijo para Zelinha. Vexado, Joãozinho.

            Disco o número paulista, Amélia atende, trocamos gentileza, desejo falar com o vosso ilustre consorte, Sérgio vem ao telefone, sabendo que sou eu, começa a imitar sotaque holandês, é de morrer de rir, mas eu me punho sério para lhe informar:

            - Te telefonei para pedir a mão de tua filha Miúcha em casamento.

            - Hem? Que história é essa? - Abandona o acento batavo, coloca-se em posição de defesa, que peça estou querendo lhe pregar?

            - Não é para mim, é para João Gilberto, estão apaixonados, querem se casar, ele pediu que te dissesse que não é tão ruim assim, tão má pessoa como consta por aí, não deves acreditar nas más línguas...

            - Que me contas? É brincadeira ou falas a sério?

            Falo a sério, relato a conversa de Joãozinho, telefonema em dólares de New York, repetida, esquecera o beijo para Zélia. Empolga-me a paixão dos dois cantores, coisa linda, faço o elogio do candidato a genro e o faço com amor. De Joãozinho sei o direito e o avesso, do menino de Juazeiro nas barrancas do São Francisco ao músico ainda desconhecido, lutando no Rio em dias de aperto, sou seu parceiro, fiz a letra do Lamento de Marta, composto para o filme de Alberto D’Aversa**. Quando solteiro, Joãozinho aparecia à noite no apartamento da Rodolfo Dantas, trazia o violão, ficava até a madrugada, cantando. Acontecia que Zélia e eu, cansados, íamos dormir, Joãozinho prosseguia em companhia de João Jorge, menino ainda, privilegiado. João Gilberto tocava, cantava, tendo como ouvintes apenas o moleque e o pássaro sofrê: vivia solto na sala e assobiava as músicas que Joãozinho dedilhava ao violão.

            Sérgio escuta em silêncio minha lenga-lenga, a proclamação das virtudes de Joãozinho, gênio musical, amigo terno, pessoa amorável. No dia seguinte toma o avião para New York, vai estudar o assunto in locum, apaixona-se pelo candidato, só podia acontecer.

            Para terminar, um post-scriptum: já levava João Gilberto vários anos residindo nos Estados Unidos quando um dia me apareceu em casa um portador trazendo encomenda enviada pelo músico: um sobretudo novo em folha, soberbo, eu o usei longo tempo, ainda o tenho. Ou será que o dei a João Jorge, o ouvinte solitário, o privilegiado?


*Miúcha Heloísa Buarque de Holanda, cantora.
**Alberto d’Aversa, diretor de teatro de origem italiana.

(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
.............
            “Os radicais da negritude nacional são mulatos brasileiros, uns mais escuros, outros mais claros, cujo único ideal na vida é serem negros norte-americanos, de preferência ricos.”
.............
JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes. 

* * *

quarta-feira, 31 de julho de 2019

O REALEJO ESTRIDENTE - Péricles Capanema


20 de dezembro de 2018
♦  Péricles Capanema

Faz anos que das ruas anda quase sumido o realejo, por isso é mais seguro — atenção, jovens! — rápido lembrete. Observado por alguns, o tocador gira a manivela e o ambiente em volta se recreia do som de poucas e repetidas músicas. No Velho Mundo tem mais prestígio a representação; compõe, peça valiosa, paisagens urbanas da cultura popular. O “orgue de Barbarie” [fotos] faz parte da cena pitoresca da Paris sonhada por multidões (lá, sem o irrequieto papagaio tirador da sorte). Uma das explicações para a origem da expressão “órgão de Barbárie” seria a sonoridade tosca do realejo que lembraria, entretanto, os grandes órgãos das catedrais. Entre nós, o realejo e o papagaio por gerações encantaram crianças e seduziram adultos.

Viro a página. Na linguagem comum, realejo tem emprego pejorativo, bastante usado: a repetição monótona de um mesmo tema: “Aquele sujeito é um realejo”.

Entre realejo e avestruz, fico com o primeiro. Diz a lenda (é lenda mesmo), o avestruz enfia a cabeça na areia quando pressente o perigo. À vera, a ave encosta o pescoço e a cabeça no chão, escuta melhor algum predador e fica menos exposta. Contudo, o uso consagrou a frase, diante do perigo, o avestruz enfia a cabeça no chão.

De novo, escolho ser tocador de realejo a fechar os olhos diante do felino que avança contra o avestruz (no caso, todos nós). Vou apenas sublinhar e, quem sabe, ampliar coisas que já disse. “Ideia dita uma só vez, morre inédita”, avisava Nelson Rodrigues.

São duas matérias dos últimos dias. Em 15 de dezembro, Taís Hirata na “Folha de S. Paulo” descreveu novas possibilidades de aplicação de capitais chineses no Brasil em minucioso artigo intitulado “Após investir em energia, chineses miram saneamento básico no Brasil”.

De outro modo, segundo o texto, chineses, melhorando grupos chineses, vão comprar empresas estatais do setor de fornecimento de água e coleta de esgoto (aqui, também, o tratamento de resíduos). Ou comprar obras paralisadas, terminá-las e explorar comercialmente os serviços.

Um dos grupos chineses interessados é o Fosun, gigantesco conglomerado econômico. Segundo informações coletadas na rede (minha maior fonte), tem maioria de capital privado. Um dos proprietários, Guo Guangchang [foto], às vezes chamado de Warren Buffett chinês, faz parte do Conselho Político Consultivo do Povo Chinês, uma espécie de Senado dominado pelo Partido Comunista Chinês. De outro modo, é empresa próxima do governo. Preocupa. A matéria da Folha nada traz da proximidade do grupo com a tirania imperialista de Pequim.

Três outros grupos chineses, informa Taís Hirata, têm interesse em comprar empresas ligadas ao saneamento básico. O primeiro deles é o CCCC (China Communications Construction Company), sociedade anônima, com faturamento anual de aproximadamente 70 bilhões de dólares. É estatal chinesa; de outro modo, está em sintonia com as diretrizes do Partido Comunista Chinês (PCC). Nenhum diretor é indicado sem a anuência do partido. O segundo grupo é o Datang, outra estatal chinesa, com faturamento anual em torno 30 bilhões de dólares. O terceiro grupo é o CGGC (China Gezhouba Group Company Limited), também empresa estatal, com receitas anuais em torno de 15 bilhões de dólares. O artigo nada diz que dos quatro grupos, três pertencem ao governo chinês, de outro modo, agem em sintonia com as diretrizes políticas do Partido Comunista Chinês. Desde há anos, esse é o padrão usual da imprensa brasileira, esconde informações essenciais para o juízo equilibrado e objetivo do leitor.

Deixo para trás as informações do artigo de Tais Hirada, planos para o futuro, e me detenho em editorial do Estadão, 9 de dezembro, intitulado “O peso da China”, análise do presente. Nos primeiros onze meses de 2018, o Brasil acumulou superávit comercial de 51,7 bilhões de dólares. Desse total, 26,2 bilhões de dólares vieram do comércio com a China, 50,7%. Em 2017, 30,7% do saldo comercial vieram das trocas com a China. Dos 220 bilhões exportados nos onze primeiros meses de 2018, 58,8 bilhões foram para a China, 28,8% do total. Constata o editorial: “Só esses números bastariam para mostrar a crescente influência da China sobre a economia brasileira”.

A situação é mais preta: “Há outro aspecto que resulta em laços econômicas mais fortes. É a presença cada vez maior do capital chinês nos investimentos estrangeiros.” Capital chinês (sic!). Desde 2003 até hoje, segundo a Secretaria de Assuntos Internacionais (SEAIN) do Ministério do Planejamento em 269 projetos houve investimentos chineses anunciados e confirmados de 124 bilhões de dólares. Desse total, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, 87% foram de origem estatal, 13% de origem privada.

Vou, de novo, escrever o que ninguém ou quase ninguém põe no papel com clareza: esses 87% é dinheiro de empresas estatais chinesas, que trabalharão pelos objetivos do PCC, e cujos diretores se alinham sempre com a estratégia do partido. Os 13% restantes, via de regra, são de empresas que acertam o passo com o governo chinês. Não custa lembrar, de momento, a China luta com os Estados Unidos por áreas de influência, situação que está se refletindo em disputas comerciais e, na América Latina, apoia ativamente Cuba, Venezuela e Bolívia.

A própria linguagem eufemística da imprensa (investimento chinês, grupos chineses, capitais da China), que atenua a realidade bruta (dinheiro cujo dono é o governo chinês, longa manus do PCC), é triste indício de que o Brasil já experimenta incipientes reações de protetorado. A esquerda não dá um chiadinho contra a avalanche das estatais chinesas na economia brasileira; ela, agora, silenciosa, mas historicamente tão barulhenta nas diatribes contra o capital estrangeiro. Não adianta fechar os olhos para a realidade. Ela é o realejo estridente, óbvio ululante.



* * *

terça-feira, 30 de julho de 2019

ITABUNA: RUY PÓVOAS EMITE NOTA DE REPÚDIO PELO “DESCONVITE” PARA A INAUGURAÇÃO DO TEATRO



O Professor, escritor e babalorixá, Ruy Póvoas emitiu nota de repúdio pelo “desconvite” que recebeu pra inauguração do Teatro Candinha Dória em Itabuna.
Na nota, um dos ícones da cultura Itabunense, disse que nunca viu e nem ouviu falar de “desconvite”. Veja abaixo o Desconvite recebido por Ruy Póvoas e sua nota de repúdio:


DESconvite do cerimonial oficial do Teatro Municipal Candinha Dória

Prezado Senhor Ruy Povoas , em nome do Prefeito Fernando Gomes, informamos que não foi possível confirmar sua cadeira no dia 26/07/2019, em razão da capacidade do Teatro ser inferior ao número de convidados confirmados. Orientados pelo corpo de Bombeiro que se preocupa sempre com a segurança de todos os cidadãos, lamentamos profundamente a não confirmação de vossa ilustre presença. Diante do exposto informamos que temos disponibilidade para a data 28/07/2019 às 17:00 horas onde será realizado a entrega da Comenda Firmino Alves. Gratos pela compreensão cerimonial oficial do Teatro Municipal Candinha Doria.
———————————-
Gente, nunca vi, nem ouvi falar em DESCONVITE. Mas a vida é assim: Quem do pouco se admira corra o mundo que vê mais. Foi necessário que eu vivesse 76 anos para descobrir que DESCONVITE é um lexema que também faz parte do dicionário da “língua” antediluviana da Região Grapiúna.
Eu não sabia que sou uma ameaça, a ponto de ser necessária a intervenção do Corpo de Bombeiros, que instruiu os responsáveis pelo evento a lançar mão do DESCONVITE.


...............
Comentário: Houve muitos “desconvites”. Aconteceram porque, de repente, o Governador Rui Costa resolveu trazer muito mais gente na sua comitiva. Bem feito para os filhos de Itabuna que dão apoio a um prefeito e um governador que vivem fechando hospitais. O corpo de bombeiros está no seu papel de não recomendar que se coloque pessoas além da capacidade do teatro.(ICAL)

* * *

DOCUMENTÁRIO “ALBERTO DA COSTA E SILVA - FILHO DA ÁFRICA”, QUE EXALTA A TRAJETÓRIA DO HISTORIADOR, EMBAIXADOR E ACADÊMICO, ESTREIA NA ABL

Aos 88 anos, o historiador, embaixador e Acadêmico Alberto da Costa e Silva recebe os produtores Stéphanie Malherbe e Ricardo Vilas para “abrir o livro de sua vida e trajetória”. Com a discrição do diplomata e o humor fino do poeta, Alberto da Costa e Silva fornece neste filme um depoimento único sobre sua carreira, suas viagens a importância da África no Brasil.

Percurso

Acadêmico Alberto da Costa e Silva conta sobre sua infância em Fortaleza, quando ia para a escola montado num carneiro, as brincadeiras com as crianças do bairro e pelo mundo imaginário encarnado por seu pai, o poeta Antônio da Costa e Silva. Relata a força de sua mãe, que trazia a marca das mulheres da sua família.

O documentário também aborda a adolescência no Rio de Janeiro, na Tijuca, onde a família se instala, pois sua mãe acredita que essa mudança propiciaria um futuro melhor para o filho. E trata, ainda, da escolha de Alberto pela carreira diplomática para “vingar seu pai”, que, antes dele, teve seu ingresso recusado na diplomacia. Mas essa escolha também foi justificada por seu gosto pela aventura, pelo desconhecido e pelo distante.

"É uma alegria falar sobre Alberto da Costa e Silva, um homem incomum, singular... Eu diria que é um mestre. Um mestre da cultura, do pensamento... Um mestre da vida."
- Fala da Acadêmica Nélida Piñon para o filme "Alberto da Costa e Silva - Filho da África".

Alberto da Costa e Silva e a África

O Acadêmico Alberto da Costa e Silva é, reconhecidamente, no Brasil, o maior especialista em África, em razão de sua sede insaciável de procurar e entender as raízes do Brasil. Aos 14 anos, sendo um jovem branco e de classe média, tomou um choque ao ler Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, descobrindo que nós, brasileiros, éramos negros. “Mas, então, de onde viemos?” - perguntava-se, pois todos os escritos que encontrava traziam relatos mencionando negros já chegados ao Brasil, como se nascessem no próprio navio negreiro e não tivessem um passado, uma história ou uma cultura por trás de cada um. Era como se a África, de onde vinham, não existisse.
  
Alberto vai pesquisar, sem descanso, a História das Áfricas, porque “sem a África não existiria o Brasil”, tornando-se, assim, um pioneiro no Brasil dos estudos africanos.

O documentário

Além dos depoimentos de Alberto da Costa e Silva, o filme conta com testemunhos de intelectuais e pesquisadores, como Nélida Piñon, Franklin Martins, Muniz Sodré e Lilia Schwarcz, e de artistas, como Haroldo Costa, Nei Lopes e Martinho da Vila.

“Alberto da Costa e Silva - Filho da África” terá sua primeira exibição pública no dia 6 de agosto, às 15h30, no Teatro R. Magalhães Jr., na Academia Brasileira de Letras. O evento contará com a participação do cineasta e Acadêmico Carlos Diegues, que coordena as ações de cinema na ABL. A Entrada é franca, limitada à capacidade do teatro. Faça sua reserva abaixo!

INSCRIÇÕES
Garanta sua participação gratuita para esta sessão exclusiva. Lugares limitados.
INSCREVA-SE AGORA


 * * *

segunda-feira, 29 de julho de 2019

COMEÇO A FICAR INTOLERANTE COM OS QUE SE ALEGRAM COM O FRACASSO DO PAÍS


24 de julho de 2019

Por Ives Gandra da Silva Martins*

            Toda manhã, ao ler os jornais, hábito que os mais jovens criticam como próprio da velhice, consumo minha dose de irritação com o desenvolver dos acontecimentos e por ver que a periferia do que é relevante é sempre a matéria de maior destaque nas manchetes jornalísticas.

            Leia-se, por exemplo, o caso do ex-presidente Lula. Toda a defesa daquele ex-mandatário concentra-se em ter, o julgador, conversado de forma inapropriada com os promotores federais, o que, de rigor, não alterou o amplo direito de defesa que lhe foi assegurado durante todo o processo nas quatro instâncias. As provas, todavia, constantes dos autos, que serviram à condenação nas quatro instâncias, não são objeto das manchetes, tendo-se, inclusive, a impressão de que os diálogos criminosamente obtidos e conivente e convenientemente veiculados, se verdadeiros, valeriam mais que o fato material objeto da condenação. Como advogado há 61 anos, sempre entendi que a advocacia não tem sido bem tratada por magistrados, imprensa e população, que não percebem a importância do direito de defesa numa democracia.

            No caso, todavia, o que menos se discute na imprensa é se haveria ou não prova material condenatória, o que levou um juiz, três desembargadores, cinco ministros do STJ e seis do STF a entender que haveria crime na conduta do ex-presidente.
Outra das minhas irritações reside nas turbulências destes primeiros meses. Aspectos positivos não têm repercussão na mídia, como o da maior safra de grãos, o da entrada do capital estrangeiro na casa de quase US$ 100 bilhões, a existência de saldos altos na balança comercial, a inflação abaixo da média estabelecida, a possibilidade de queda dos juros, o fato de as reservas serem superiores a US$ 380 bilhões, o relatório favorável do FMI sobre o estado das contas públicas, o sucesso nas programações de infraestrutura, a assinatura de um acordo emperrado há 20 anos entre Mercosul e União Europeia, o avanço e a liderança entre as nações na defesa dos valores familiares, a manutenção do combate à corrupção, inclusive até no que demonstra, na linguagem popular, ser pé quente, a vitória da seleção brasileira na Copa América, após anos de insucesso internacional. Até a boicotada reforma previdenciária avança.

            Reconheço que a equipe presidencial, sem o traquejo político da anterior, está aprendendo a “andar de bicicleta andando”, mas a busca, da imprensa, por desacertos em cada um dos menores incidentes, que ganham, assim, proporções descomunais, parecem torná-los mais importantes do que alguns dos aspectos relevantíssimos da evolução do país. De longe, para tais caçadores de insucessos, vale mais o que vale menos e vale menos o que vale mais.

            Começo a ficar intolerante com os que se alegram com o fracasso do país e que se vangloriam em ver a nação afundar por força de suas, quase sempre, infundadas críticas.

            Outra das minhas irritações diz respeito à fantástica cobertura que se dá ao crime cibernético. Um gangster digital invade a privacidade das pessoas, regiamente financiado, utiliza-se do sigilo da fonte para que um jornalista, a conta-gotas, vá revelando o produto de seu crime e tal crime e tal parceiro do criminoso são alcandorados pelos que dizem que a mídia vive das más notícias, pois as boas não vendem jornal. De tal maneira, nenhuma cobertura se dá à investigação dos delinquentes da privacidade alheia. Não compartilho da teoria de que os fins justificam os meios, pois gera uma enorme insegurança jurídica, e o ideal de justiça, que é o desiderato maior do Direito, fica pisoteado, transformando-se em uma briga mesquinha pelo poder entre amigos e inimigos.

            Tudo isso para um velho advogado de 84 anos gera desconforto, pois, neste final de vida, percebo que o país terá ainda que evoluir muito para viver a democracia que desde os bancos acadêmicos minha turma almejava para o Brasil.

            “The last but not the least”, impressiona-me a crítica cerrada de determinada imprensa a ter o presidente declarado que não financiará um filme que enaltece a prostituição como meio de vida, por entender que a família é a base da sociedade e o filme ser corrosivo e deletério aos valores da família. Ora, o que o presidente declarou é o que está na Constituição, ao dizer que a família é a base da sociedade (artigo 226 caput) e que os meios de comunicação deverão ser utilizados para a defesa dos valores éticos da família e da sociedade (artigo 221, inciso IV). Não tem o menor sentido gastar dinheiro do povo para divulgar prostituição. É de se lembrar que a queda das grandes civilizações deu-se quando os costumes se deterioraram, com as mulheres prostituindo-se nos templos da Babilônia para conseguirem dotes para seus casamentos, assim como com o relaxamento dos costumes em Atenas, que terminou perdendo a guerra do Peloponeso para Esparta, e com a degradação familiar no Império Romano Ocidental, como Políbio referiu-se em seus escritos. Ora, ao cumprir o que determina a Constituição, valorizando a família — criou, inclusive, uma Secretaria Nacional da Família —, está o governo cumprindo rigorosamente a lei suprema. É preferível gastar dinheiro do povo com a saúde e educação do que com filmes dessa natureza.

            Concluo estas linhas afirmando que em nenhum momento defendo preferências de magistrados pelos membros do Ministério Público ou desequilíbrio de tratamento entre o parquet e advocacia, como demonstrei no livro que coordenei com Marcos da Costa, intitulado A Importância do Direito de Defesa para a Democracia e a Cidadania, com a colaboração de ilustres advogados e juristas brasileiros. Toda a verdade deve ser apurada. Entendo, todavia, que os brasileiros deveriam dar aos fatos conhecidos a sua devida relevância, sem riscos de manipulação, seja pelos criminosos cibernéticos, seja pelas autoridades dos Três Poderes, pela mídia, por partidos políticos ou pelos formadores de opinião. Só assim poderemos entregar a nossos filhos e netos um país melhor do que o que recebemos de nossos ancestrais.
.............
*Ives Gandra da Silva Martins é advogado, professor emérito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio-SP e fundador e presidente honorário do Centro de Extensão Universitária do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS).
Revista Consultor Jurídico, 24 de julho de 2019



* * *

domingo, 28 de julho de 2019

CRISE DE FÉ, CRISE DE COSTUMES - Padre David Francisquini


22 de julho de 2019
Padre David Francisquini*

            A quebra dos valores morais e religiosos ao longo das últimas décadas vem causando não poucos estragos em todos os setores da sociedade, levando-nos a exprobrar em diversas ocasiões o comportamento inescrupuloso de muitos de nossos representantes que ocupam cargos públicos.

            Como já expliquei em outras ocasiões e volto a insistir, a raiz da questão encontra-se na crise de fé que atinge todos os homens deste início de século, na base da qual estão o orgulho e a sensualidade, como apontou o pensador católico Plinio Corrêa de Oliveira.

            Como essa crise tem como campo de ação o próprio homem com os seus defeitos e vícios decorrentes do pecado original, os quais vêm sendo alimentados artificialmente há mais de meio milênio por meios revolucionários, hoje ela atingiu um clímax. A essa situação podem ser aplicadas as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo quando se referiu ao profeta Isaías:

            “Este povo honra-me com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me presta culto; a doutrina que ensina são preceitos humanos” (Mt 5, 5-7). E o divino Mestre chama esse povo de hipócrita exatamente por aparentar em seu coração uma coisa e fazer o contrário. Finge prestar culto a Deus, mas na verdade se ocupa das pequenas vantagens terrenas.

            Ao se jactar de cultuar a Deus, essas pessoas na verdade se encontram bem longe d’Ele, pois seus corações não são retos e não praticam o que é justo diante de Deus. Honram pela boca, exigem de Nosso Senhor sinais e milagres, mas não querem reconhecer a sua divindade, nem recebê-Lo. Ademais, procuram armar traições e ciladas para poder apanhá-Lo em contradição.

            Mas Nosso Senhor desmascarou os fariseus mostrando-lhes o que se passava em seus corações. O que mancha o homem são os homicídios, as glutonarias, os adultérios, a fornicação, as rixas e as contendas, isso é o que mancha o homem; não o que entra bela boca, mas o que sai da boca.

            Não é bem a isso que assistimos nos parlamentos modernos de muitas nações, mais particularmente o nosso parlamento, do qual podemos falar como testemunhas? O Brasil, afundado tanto moral quanto economicamente por malversação do dinheiro público, viveu — talvez anestesiado — uma crise sem precedentes até há pouco.

            É difícil imaginar o nível de degradação moral e religiosa que chegou o nosso Brasil. Creio ter sido obra de uma graça enorme o fato de ele ter acordado dessa letargia e encher-se de indignação diante do comportamento indecoroso, desleal, mentiroso e túmido de malefícios, ódio e rancor de nossos governantes e ir para as ruas exigindo justiça.

            Ainda hoje subsistem alguns remanescentes que nos deixam pasmos em alguns debates ou inquirições no nosso parlamento, como as sabatinas que muitos deputados e senadores fizeram recentemente ao Ministro Sergio Moro, nas quais faltou gravidade e decoro por parte dos inquiridores que se prevaleceram da chamada imunidade parlamentar para provocar, humilhar e ofender alguém que luta por valores morais.

            As ideias revolucionárias e contestatárias proliferaram como pragas e a elas se aplica o que o profeta Isaías vaticinou: “A vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá a planta, na qual ele tinha as suas delícias; esperei que praticassem a retidão, e eis que há só iniquidade, e que praticasse a justiça, e eis que somente se ouvem clamores” (Is 5, 7).

            E mais adiante Ele afirma, no versículo 29: “Ai de vós que ao mal chamais bem e ao bem mal, que tomais as trevas por luz e a luz por trevas, que tendo o amargo por doce, e o doce por amargo. Ai de vós que sois sábios aos vossos olhos e segundo vós mesmos, prudentes… Vós que justificais o ímpio pelas dádivas, e aos justos tirais o seu direito”.

            Quem é prudente procura edificar sua casa sobre a rocha firme, que vai enfrentar as tempestades, o transbordamento dos rios e a impetuosidade dos ventos, como alerta Nosso Senhor. O insensato edifica sua casa na areia, “cai a chuva, transbordam os rios, sopram os ventos e investem contra aquela casa, e ela cai e sendo grande a sua ruína” (Mt 10, 27).

            É o que o Brasil viveu nesse longo período de governos da esquerda, que aparelharam a máquina do Estado a serviço de sua ideologia.

            É elucidativo quando Santo Tomás de Aquino diz ter sido o diabo quem edificou sua casa por meio de homens ímpios, na areia. Isto é, na inconstância e na infidelidade de homens carnais, chamados de areia devido à sua esterilidade e por não estarem unidos entre si, mas divididos por uma multidão de opiniões.

            A chuva, diz ele, é o ensinamento que rega o homem e as nuvens são de onde sai a chuva. Alguns são despertados pelo Espírito Santo, são os profetas e os apóstolos; os outros pelo espírito do diabo, são os hereges.

            Os bons ventos são os espíritos de diversas virtudes que operam de maneira invisível no sentido dos homens e os inclinam a operar o bem. Já os maus ventos são os espíritos imundos que levam os homens a operar o mal; os bons rios são os evangelistas e mestres do povo; os rios maus são os homens cheios de espírito imundo e instruídos de verbosidade, das profundezas de cujos corações nascem os erros e as mentiras.

            O que se passa no Brasil ocorre mais ou menos em todas as nações, que se encontram na mesma encruzilhada. Por outro lado, também há uma minoria grande que reage para colocar o Brasil nos trilhos. No fundo dos corações nasce uma esperança, uma certeza da vitória dos bons, porque existe a promessa de Nosso Senhor de que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja.

__________________
* Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).


* * *