Marília
Benício dos Santos, a querida Julinha, nos presenteia com seu livro de crônicas
– CARROSSEL. Filigrana em termos de pureza, simplicidade e ternura!
Prefaciando, Lígia Moog diz que a autora “escreve como quem canta”. Eu
completaria: como quem canta uma canção de ninar.
Devagarinho, carinhosamente, Marília vai se pronunciando através de
monólogos, reflexões ou diálogos com Deus e as criaturas – sobre vários temas
que o dia-a-dia lhe sugere, num estilo descontraído e fluente como águas
límpidas de um regato. Em textos breves, coloca, sutilmente, críticas às injustiças sociais, às vaidades humanas,
à hipocrisia e aos preconceitos, com graça e bom humor, com leveza de
expressões que nos faz rir e admirar o teor de sabedoria e equilíbrio. Usa a
síntese e, muitas vezes, o silêncio, como alavancas propulsoras do nosso
pensamento.
Julinha dá
seu recado de amor assumindo-se maravilhosamente como mulher e cristã, nas
emoções que descreve ao defrontar-se com pessoas e fatos triviais, perceptíveis
só pelo radar privilegiado de sua sensibilidade. Vai destilando o âmago das
coisas mais singelas e, num milagre de sua ternura, trazendo para fora luz e
sombra, dor e prazer, com que tece o universo místico de CARROSSEL, onde trata,
com igual atenção e carinho, o velho e a criança, o mar e o céu, o rico e o
pobre, a vida e a morte, o passarinho e o “Cristo Torcido”, o hotel de cinco estrelas
e o banco do jardim que ela chama, com muita graça, de “Pensão Estrela”.
Se o
cristianismo fosse ópio, como afirmam os ímpios, ainda assim seria válido, pela
saúde espiritual, otimismo e alegria que consegue transmitir.
Marília:
“Todos nós
temos um rio. Um rio dentro de nós que ninguém percebe, somente Deus”. E,
adiante, concluindo – “O mar lembra o infinito. Fomos criados para ser mar. É
importante não sufocarmos este rio. O tempo passa, se não deixarmos o nosso rio transformar-se em mar, chegaremos
ao fim da vida, sem ter realizado aquilo que Deus planejou para nós: A alegria
de viver”.
Em outra
crônica:
“Seguindo o exemplo da estrela, quero derramar sobre todos
tudo de bom que tenho dentro de mim: amor, ternura, alegria, gratidão...”
E na
crônica que ela intitula de Felicidade:
“Perguntaram ao João, um garoto de sete anos:
- João, o
que é felicidade?
-
Felicidade é o jardim. Felicidade é minha mãe.
Ao ouvir
esta resposta, aqueles jovens deram muitas risadas”.
... “Ele
deu uma grande resposta, talvez tenha ensinado para aqueles jovens que a
felicidade não deve ser discutida. A felicidade precisa ser sentida. Às vezes
ela está pertinho, mas não a percebemos porque estamos preocupados em
procura-la, correndo atrás. Se prestássemos atenção, se ficássemos observando,
veríamos a felicidade como João a viu no jardim. As crianças são sensíveis, por
isso são felizes.
... “Façamos
da vida um jardim e seremos felizes, mesmo sabendo que no jardim há espinhos, é
que, atrás dos espinhos, há rosas”.
Assim,
Marília nos traz a chave da felicidade que ela conhece, numa bandeja, como quem
traz, gentilmente, um cafezinho quente, coado na hora! Nesta hora em que o
mundo tanto precisa do calor estimulante de pensamentos puros e honestos!
Admitamos que alguém não goste do “cafezinho” servido no CARROSSEL. Será uma
pena! Afinal, muitos não gostam e outros, coitados, já não podem tomar café...
Mas, que este da Julinha é bom, é! Cheiroso, natural, autêntico, sem as
camuflagens que medram por aí, com rótulos de “para exportação”. No CARROSSEL
serve-se o “café” da nossa Bahia, preparado por baiana competente que ainda
sabe cantar canções de ninar, contar histórias com ternura e rezar com
esperança e fé, enquanto a “água” ferve na chaleira...
-------------
*Publicado em “A Tarde”, de 22-01-1985
.................
Contracapa do Livro ARCO-ÍRIS de Marília Benício dos Santos
Solenidade da Epifania do Senhor – Domingo 07/01/2018
Anúncio do Evangelho (Mt 2,1-12)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judeia, no tempo
do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando:
“Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no
Oriente e viemos adorá-lo”.
Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado, assim como
toda a cidade de Jerusalém.
Reunindo todos os sumos sacerdotes e os mestres da Lei,
perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer. Eles responderam: “Em
Belém, na Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra
de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque
de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo”.
Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber
deles cuidadosamente quando a estrela tinha aparecido. Depois os enviou a
Belém, dizendo: “Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E,
quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo”. Depois
que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia
adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino.
Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria
muito grande.
Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe.
Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe
ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra.
Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram
para a sua terra, seguindo outro caminho.
“E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles,
até parar sobre o lugar onde estava o menino” (Mt 2,9)
Teilhard de Chardin, paleontólogo jesuíta, manifestou,
repetidas vezes, o desejo de que a solenidade da Epifania mudasse de nome, ou
ao menos de prefixo. A solenidade de hoje deveria denominar-se “dia-fania” em
lugar de “epi-fania”, para ressaltar que festejamos o dia em que Nosso Senhor
Jesus Cristo se revela em plena transparência, como fundamento de tudo e de
todos, fonte e fim, alfa e ômega.
Teilhard não vê o relato dos Magos como uma “verdade
fotogrática”, mas como uma verdade que nos ilumina sobre Aquele que enche o
universo com sua presença dinâmica, sobre Aquele que dá sentido à nossa
história, tornando-a “diá-fana” (transparente). Porque, neste mistério, não se
trata propriamente de uma repentina irrupção de quem é o Salvador, senão muito
mais de uma misteriosa e silenciosa “dia-fania”, mediante a qual o
recém-nascido em Belém deixa “transparecer” o verdadeiro rosto do Deus
misericordioso e compassivo. Nele, Deus se humaniza para também des-velar
(tirar o véu) e deixar trans-parecer a verdadeira e divina identidade de cada
ser humano, escondida na interioridade de cada um.
Nosso eu profundo é habitado por “magos” e “herodes”:
impulsos de vida e impulsos de morte, busca da verdade interior e busca do
poder, caminho de “saída de si” e caminho de “auto-centramento”... O Nascimento
de Jesus desvela e ilumina nosso interior e nos coloca diante deste desafio:
qual dos dois dinamismos nós alimentamos? Qual caminho marca a nossa vida? O
caminho dos Magos ou o medo de Herodes?
Continuam acontecendo atualmente as famosas peregrinações
que levam a Meca, a Santiago de Compostela, a Jerusalém, a Roma..., mas, na
verdade, segundo o evangelho de hoje, a primeira e mais importante de todas é a
peregrinação dos Magos que vão até Jesus, guiados pelo canto e pelo chamado de
sua Estrela (a Estrela de Deus, a Estrela de cada um).
Os Magos consultavam os astros do céu para compreender o
caminho da humanidade na terra.
Examinando os céus, descobriram uma estrela brilhante como nenhuma
outra. E ficaram fascinados com o seu fulgor. Deixaram-se conduzir por
inquietações e buscas, talvez não oficialmente “religiosas”, mas sim
profundamente humanas, que pulsam no interior de cada pessoa; perguntaram,
comunicaram o que tinham visto, seguiram adiante em tempos de obscuridade e,
como recompensa de sua busca, “encontraram o Menino com Maria sua mãe”.
Foi assim a longa jornada dos Magos, seguindo o caminho que
a luz da estrela lhes indicava. E ao final de longa peregrinação chegaram ao
lugar procurado. Eles, então, ficaram iluminados, não pela luz da estrela, mas
pela luz da criança, pois é na simplicidade e pobreza dela que resplandece a
Luz de Deus.
Os Magos retornaram, depois, a seus países, agora
convertidos em portadores da Nova Luz. O encontro com o Senhor os transformou.
Todo encontro com Jesus era e é um encontro que transforma radicalmente. Alguns
encontros são fundantes, são como uma pedra angular sobre a qual podemos
começar a construir algo novo; outros encontros reavivam e ativam os
fundamentos de nossa vida.
Hoje também estamos vendo sinais. Em nossas vidas sempre há
alguma estrela que nos guia até Belém. Podemos nos assustar e permanecer
paralisados, olhando as estrelas, mas os sinais não nos são dados para ficarmos
pasmados, mas para nos deixar interpelar e responder. Algumas vezes nos
convidarão à interioridade e outras nos mobilizarão a fazer caminho, mas sempre
nos tirando da acomodação e nos abrindo horizontes. Os sinais nos comprometem e
nos dinamizam. Precisamos ler e interpretar para onde as “estrelas”, que
aparecem no horizonte da vida, nos conduzem.
Esta é a Grande Peregrinação que os profetas haviam
prometido, como um caminho que leva para a Nova Jerusalém da Paz e da vida.
Mas, segundo o evangelho de Mateus, essa Peregrinação da Luz não leva a
Jerusalém (cidade dominada pelo Rei Herodes e pelos sacerdotes cumplices da
morte), mas a Belém, que é a “Casa do Pão”, a “Casa da Lua”, pois alimenta e
ilumina homens e mulheres que, na noite da existência, buscam um sentido para a
própria vida. Por isso, uma peregrinação que continua sempre aberta.
Esta é também a nossa peregrinação em direção à nossa Belém
interior; a vida mesma é entendida como caminho de desvelamento de nossa
verdadeira identidade e de descoberta da nossa própria verdade (o que é mais
divino em nós). No encontro com Aquele que é a Luz e que ilumina todo ser
humano, ativa-se a “faísca de luz” que todos levamos em nosso coração.
Epifania, portanto, é a festa da “estrela de Deus”, que não
só ilumina o caminho da humanidade; ela é a grande Festa de Iniciação, de
“descobrimento da própria luz”, ou seja, da Luz do Deus de Jesus em nossa
própria vida. Por isso, no sentido mais
profundo, todos somos “phos-phoros” (fós-foro) ou “phos-phorantes”, portadores
de luz, lamparinas de Deus neste mundo envolto em trevas; cada um de nós é uma
estrela de Deus no imenso mar de constelações. Somos luz de Deus, porque Deus é
nossa luz, a lâmpada de sete luzes que é a única Luz de verdade em nossa
existência.
Por isso, Epifania não é só hoje, epifania é sempre, é nossa
vida. Frente ao Rei Herodes e frente a todos os Reis e Sacerdotes do poder
estabelecido, que só buscam o domínio sobre os outros (que são capazes de
matar, porque não tem outra riqueza), emergem, no relato de Mateus, os “magos e
magas”, que realizam o caminho de iniciação, que os leva à verdade de sua
própria vida, a verdade do Deus dos pobres, a verdade de Belém.
Todos somos “magos-magas”, homens e mulheres que buscam a
Deus, em gratuidade, em reverência, em constante surpresa... Por isso, desde a
Idade Média, os Magos aparecem como sinal de reverência amorosa, no caminho de
iniciação que temos de fazer para o encontro de nossa verdade original. A
Estrela dos magos é o mesmo Jesus, cuja luz brotou em Belém, para iluminar, a
partir dali, a todos os homens e mulheres. Por isso, os magos nos ajudam a
descobrir Aquele que é a Luz, para que, a partir do encontro com Ele, nós
mesmos sejamos luz, sejamos Cristo, feito epifania (manifestação) e diafania
(transparência) de Deus na terra. Nós somos os “magos e as magas”, milhares de
homens e mulheres de luz, estrelas de Deus espalhadas pela imensidão do
universo do Criador.
O presente dos magos (ouro, incenso e mirra) é nossa própria
vida, que se faz dom de Deus, para nós mesmos e para os demais. Somos ouro, o
de maior valor, mas não em forma de capital monetário para comprar e vender,
mas como beleza da vida que se faz dom-presente para ser compartilhado. Somos
incenso, o melhor odor do Natal, o perfume mais precioso, para exalar
santidade, amor, compaixão… em meio a um ambiente fétido de morte e exclusão.
Somos mirra, unguento do amor, como o que usavam os noivos, unguento da vida
com o qual se despedia dos mortos, esperando a ressurreição.
Nossa vida mesma é um presente que viemos oferecer a Deus e
aos outros, no transcurso da noite luminosa de nossa existência, dirigida para
Jesus.
Texto bíblico: Mt
2,1-12
Na oração: O relato dos Magos nos convida a ir ao encontro
do ano novo por outro caminho. Depois do encontro com o Menino Jesus, não
deveríamos regressar à nossa terra pelo mesmo caminho pelo qual viemos.
Transitar por um caminho novo é que deveria caracterizar o começo deste novo
ano. E esta mudança de estratégia deveria ser criativa, buscando alternativas
desconhecidas e novas para enfrentar os desafios que a realidade na qual
vivemos nos apresenta. A criatividade não está em dizer ou fazer coisas raras
ou extraordinárias, mas em saber dizer e fazer o mesmo com outra motivação, com
outra inspiração, de maneira que o resultado seja sempre melhor.
Somos chamados a reler muitas vezes nossas vidas, à luz das
experiências que tivemos, e tomarmos consciência de que cada encontro nos vai
configurando, até chegarmos a uma identificação mais profunda com Jesus.
Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
03/01/2018
(Passaram festas natalinas, euforia do fim do ano. O Ano
Novo está em curso. A todos os que me mandaram mensagem natalina e do fim do
ano, agradeço de coração. Que Deus lhes retribua, em dobro, as lindas palavras
e o bom coração).
..................
Estamos vivendo o ano do laicato.
Iniciamos as nossas
reflexões sobre a dignidade do leigo que lhe vem do batismo e sobre a sua
missão. Pensamos retomar e continuar estas reflexões para tomar consciência da
nossa missão e responsabilidade pelo mundo que é a nossa casa.
Gostaria inicialmente de falar sobre o tema, um tanto pouco
refletido, que é o sacerdócio comum dos fiéis. Falamos e muito do sacerdócio
ministerial, que exercem diáconos, padres e bispos. Mas dos fiéis, não se fala.
São Pedro na primeira carta diz: “Mas vós sois uma raça
eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo da sua particular
propriedade, a fim de proclameis as excelências daquele que vos chamou das
trevas a sua luz maravilhosa” (1 Ped.2,9).
Com estas palavras animadoras somos: “uma nação santa”
iniciemos o ano novo com confiança de que o mundo vai melhorar se compreendamos
esta declaração de Deus sobre quem somos. Com a benção especial e a oração.
Dom Ceslau.
---
04/01/2018
O que é o sacerdócio
Em qualquer religião o sacerdócio e a mediação são
categorias afins. Então se poderia dizer que o sacerdócio é o serviço de
mediação.
O povo do Antigo Testamento que havia feto do culto a Deus o
ápice da sua vida, valorizava altamente a função mediadora dos sacerdotes. Até
instituiu uma categoria do povo que só se dedicava a este serviço. Era a classe
dos Levitas.
E quando o povo de Deus já se assentou na terra de Canaã,
sacerdotes cumprem a sua missão nos santuários, como guardas. O Santuário
para eles era considerado o sinal da presença de Deus e então os sacerdotes
estavam a serviço desta presença de Deus.
O sacerdócio é a mediação entre Deus e o seu povo. Deus
criou tudo o que existe. Criou para participarem da sua gloria. E o Rei da
Criação é a pessoa humana. Deus escolhe algumas pessoas para se tornarem
mediadores e estiverem a serviço desta mediação dentro do povo.
Como Deus nos valoriza!
Um grande abraço e a benção com a minha humilde oração
por você e sua família.
Dom Ceslau.
---
05/01/2018
O Sacerdócio e a mediação entre Deus e a humanidade, se
realiza, segundo a tradição do Povo de Deus no A. Testamento, em várias
funções.
No Antigo Testamento vemos isto assim:
Em primeiro lugar cabe aos sacerdotes consultar a Deus,
sobre a sua vontade para com o povo (Num. 20, 6 ss), e transmitir-lhe
está vontade (Ex. 34,29 ss).
Segundo lugar, ensinar as suas normas e seus mandamentos. Os
sacerdotes são peritos da interpretação da Lei do Senhor. Eles explicam qual
deve ser o comportamento das pessoas, segundo a vontade de Deus, e o que está
certo ou errado; discernem o que está puro ou profano.
No terceiro lugar celebrar o culto, oferecendo os
sacrifícios no altar para a glória de Deus.
Finalmente a tarefa dos sacerdotes é abençoar em nome de
Deus (Num 6,22-27).
Em todas as funções, seja transmitindo a lei de Deus e
interpretando-a, seja levando ao altar os dons oferecidos pelo povo e
presidindo as orações, fazem-no em nome do povo. Com esta dupla mediação:
ascendente e descendente, o sacerdote é a recordação viva da aliança de Deus
com o seu povo. Então, todas as atividades do sacerdócio do Antigo Testamento
tendem criar a comunhão entre Deus e o povo.
Pedindo a Deus a benção especial para você e sua família,
com a minha oração.
Dom Ceslau.
--------
Dom Ceslau Stanula – Bispo Emérito da Diocese de
Itabuna-BA, escritor, Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL
Ele estava internado no Hospital Samaritano, no Rio, e causa
da morte foi falência múltipla de órgãos, segundo a Academia Brasileira de
Letras.
Por G1
06/01/2018
O jornalista e escritor Carlos Heitor Cony morreu, por volta
das 23h desta sexta-feira (5), aos 91 anos. A informação foi confirmada
ao G1 pela assessoria da Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual
ele era membro desde 2000. Cony estava internado desde 26 de dezembro no
Hospital Samaritano, no Rio. A causa da morte foi falência múltipla dos órgãos.
Com uma longa carreira de jornalista iniciada nos anos 1950
e atuação nos principais jornais e revistas do país, Cony escreveu diversos
romances, como "O ventre" (1958), "Pilatos" (1973),
"Quase memória" (1995), que vendeu mais de 400 mil cópias, e "O
piano e a orquestra" (1996). Com os dois últimos, ganhou o prêmio Jabuti.
Também foi autor de livros de crônicas, coletâneas de contos
e novelas para a TV, além de comentarista de rádio, função que exerceu até o
fim da vida, na rádio CBN.
Carlos Heitor Cony nasceu no Rio em 14 de março de 1926. Era
filho do jornalista Ernesto Cony Filho e de Julieta Moraes Cony. Cursou
humanidades e filosofia no Seminário de São José.
Começou a carreira de jornalista em 1952, como redator do
"Jornal do Brasil" – e entre 1958 e 1960 colaborou no
"Suplemento Dominical" do mesmo veículo, escrevendo contos, ensaios e
fazendo traduções.
Carlos Heitor Cony veste o fardão de membro da Academia
Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Ao fundo, sua mulher, Bia (Beatriz
Lajta) segura o chapéu. Foto de maio de 2000 (Foto: Antônio
Gaudério/Folhapress/Arquivo)
Seu primeiro romance foi "O ventre" (1958), que
havia sido escrito em 1955, quando o autor tinha 29 anos, para um concurso
promovido pela ABL. Depois, vieram "A verdade de cada dia" e
"Tijolo de segurança", com os quais ganhou, por duas vezes
consecutivas, o prêmio Manuel Antônio de Almeida.
Já em 1961, entrou para o "Correio da Manhã", nas
funções de redator, cronista, editorialista e editor. Em 1964, após o Golpe
Militar, chegou a ser preso em diversas ocasiões e se exilou na Europa e em
Cuba.
Mais tarde, trabalhou por mais de 30 anos na revista
"Manchete" e foi diretor de "Fatos & Fotos",
"Desfile" e "Ele Ela".
Entre 1985 e 1990, dirigiu o setor de teledramaturgia da
Manchete, tendo sido autor das novelas "A Marquesa de Santos",
"Dona Beija" e "Kananga do Japão".
Em 1993, substituiu Otto Lara Resende como cronista da
"Folha de S.Paulo". Também entrou para o conselho editorial do mesmo
jornal.
Em 23 de março de 2000, foi eleito para a cadeira número 3
da ABL.
Carlos Heitor Cony foi casado por 40 anos com Beatriz Latja
e tinha três filhos: Regina, Verônica e André.
Veja, abaixo, prêmios recebidos por Carlos Heitor Cony:
Duas vezes o Prêmio Manucel Antônio de Almeida, pelos
romances "A verdade de cada dia", em 1957, e "Tijolo de
segurança", em 1958;
Prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto da obra, em
1996;
Prêmio Jabuti em 1996, pelo romance "Quase
memória";
Prêmio Jabuti em 1997, pelo romance "O piano e a
orquestra";
Prêmio Jabuti em 2000, pelo romance "Romance sem
palavras";
Ordre des Arts et des Lettres, em 1998, concedido pelo
governo da França.
O ex-ministro do Planejamento da Venezuela (1992-1993) e
ex-economista-chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Ricardo
Hausmann, que é diretor do Centro para Desenvolvimento Internacional da
Universidade Harvard, escreveu um polêmico artigo para a Project Syndicate esta semana considerando
uma intervenção militar estrangeira na Venezuela como uma alternativa, uma vez
que a ditadura socialista de Maduro vem destruindo o país e jogou a população
no completo caos social. Diz ele:
No que se refere a soluções, por que não considerar a
seguinte: a Assembleia Nacional poderia declarar o impedimento de Maduro e do
vice-presidente Tareck
El Aissami, narcotraficante e sancionado pelos EUA.
A Assembleia poderia indicar constitucionalmente um novo
governo, que por sua vez poderia pedir ajuda militar a uma coalizão de países
dispostos, incluindo latino-americanos, norte-americanos e europeus.
Essa força libertaria a Venezuela, assim como canadenses,
australianos, britânicos e americanos libertaram a Europa em 1944-45. Mais
perto de nós, seria como quando os
EUA libertaram o Panamá da opressão de Manuel Noriega, instalando a
democracia e o mais rápido crescimento econômico da América Latina.
Segundo o direito internacional, nada disso exigiria a
aprovação do Conselho de Segurança da ONU (o que a Rússia e a China poderiam
vetar), porque a força militar seria convidada por um governo legítimo buscando
apoio para o cumprimento da Constituição do país. A existência dessa opção
poderia até melhorar as perspectivas das atuais negociações na República
Dominicana.
Uma implosão na Venezuela não é do interesse da maioria dos
países. E as condições lá constituem um crime contra a humanidade que deve ser
detido por razões morais.
O fracasso da Operação Mercado Jardim em setembro de 1944,
imortalizada no livro e no filme “Uma Ponte Longe Demais”, levou à penúria nos
Países Baixos no inverno de 1944-45. A fome na Venezuela hoje já é pior.
Quantas vidas devem ser destruídas antes que chegue a salvação?
Hoje, a folha publicou dois textos em resposta. O primeiro
foi a coluna de Matias Spektor, que considerou a proposta
“estapafúrdia”. Ele apresenta três motivos: a falta de alternativa de poder, a
limitação geopolítica de quem poderia realizar tal intervenção, e a falta de
legalidade ou legitimidade a ela. Diz ele:
A Venezuela encontra-se em seu pior momento, mas ir à guerra
contra o chavismo no que seria a primeira intervenção na América do Sul no
século 21 não é solução. Há alternativas para lidar com o problema que não
trazem o risco embutido de uma aventura militar questionável e de resultado
incerto.
Resta perguntar: quais? Que alternativas são essas, se até
hoje só vemos a Venezuela afundar mais e mais no caos ditatorial? Vamos
acreditar em “diálogo” ainda? Há algo menos legítimo do que o regime
atual? Gostaria de saber quais alternativas concretas o especialista apresenta,
pois não consigo nem imaginar quais sejam.
O segundo texto é de Xabier Coscojuela, resposta direta ao
original, e que rotula a proposta de Hausmann como “desesperada”. De fato. Mas
a situação na Venezuela não é de desespero? “Os males desesperados são
aliviados com remédios desesperados ou, então, não têm alívio”, disse
Shakespeare em Hamlet. Coscojuela, porém, rejeita a ideia, e diz:
Considero-a uma alternativa totalmente inconveniente para o
país. Uma possibilidade que só geraria mais anos de instabilidade para a
Venezuela.
O sensato, o conveniente, é que as negociações que estão
sendo realizadas na República Dominicana terminem com acordos nos quais se
inclua a eleição presidencial com garantias de respeito à vontade popular ali
expressada e que também se eliminem ou se imponham limites, muito precisos, à
atuação da Assembleia Nacional Constituinte.
Não tenho nenhuma dúvida de que os que governam a Venezuela
não são democratas, que utilizaram e utilizarão todas as alternativas ao seu
alcance para manter-se no poder, sem importar a opinião da maioria dos
venezuelanos, mas é preciso tirá-los do poder mediante o voto e constituir um
governo de muita amplitude porque a crise nacional é das mais graves que a Venezuela
teve em toda a sua história.
Se o próprio autor reconhece que Maduro não vai sair por
livre e espontânea vontade, como ele será retirado por meio do voto? Se ele
manipula as “eleições”, como os votos vão derruba-lo? Entendo o argumento dele,
e também de Colette Capriles, de que propor essa intervenção já serve como arma
para Maduro justificar a intensificação da opressão. Mas não é por isso que
será um erro considerar esta opção.
Não sei se a ideia é exequível, se há como colocá-la em
prática mesmo, se haveria coordenação de vários países, ou se o governo
americano tomaria uma decisão dessas de forma unilateral. Só sei que o
“diálogo” não vai resolver nada, e acreditar nisso é uma quimera perigosa,
típica de românticos pacifistas, os mesmos que vibraram quando Chamberlain
assinou um pacto com Hitler, ou quando Obama assinou um pacto com o Irã.
A Venezuela vive um grande impasse. Não há saída fácil. É
sempre assim com experimentos socialistas: todos terminam em miséria, terror e
escravidão. E a imensa maioria só caiu com luta, com intervenção externa, com
muita pressão. Com “diálogo” realmente não temos caso na história para contar…
Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC,
trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros,
entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré
vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com,
jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto
Liberal.
Desbravada
com amor e sangue, a região do cacau tem sido a maior entre as demais do nosso
Estado através das rendas, basta dizer que ela contribui com 70% da receita
estadual. Desta região sai a maior parcela de divisas para os cofres da Nação,
através da exportação do cacau. Foi desta região que partiram as sementes do
cacau para outros estados de nossa federação e o Espírito Santo está produzindo
cerca de 500.000 arrobas deste produto nascido na Bahia, através dos municípios
de Linhares, São Mateus e Colatina, daquelas sementes levadas daqui no ano de
1918, pelos colonos Filigônio Peixoto e Antonio Negreiro Pego, onde será muito breve a cifra elevada para um milhão de arrobas, ou
seja, 250.000 sacas, visto a existência ali de grande área de terra, ainda
devolutas, prestável para o cultivo do cacau, e mais ainda com a ajuda
financeira da Ceplac.
É de se
esperar também que para o crescimento da lavoura cacaueira naquele estado, se
acaba uma vez por todas com aquela hereditária questão de limites com Minas
Gerais, para sossego dos colonos que tanto têm sido prejudicados. Quanto a nós,
os colonos do passado, como hoje os de Vitória do Espírito Santo, fomos também
bafejados por esta entidade de crédito, embora já bem tarde poucos dos
desbravadores fossem beneficiados em suas propriedades, entretanto gozarão em
nosso os nossos sucessores. A meu ver, se o cacau não desaparecer com as
estações incertas como estamos vendo, será amanhã a Ceplac a maior casa bancária do país, com esta renda
fabulosa de 15% entre uma produção de 3.500.000 sacas de cacau por ano, ou
seja, de sete em sete anos, 3.500.000 sacas de cacau, livres de todas as
despesas, esta entidade receberá de mãos beijadas produto do cacau nestes
últimos setenta anos nas terras incultas da antiga capitania do São Jorge dos
Ilhéus, que estiveram em sua maioria, cerca de quatro séculos em franco
abandono inclusive a cidade de Ilhéus apontada como tapera pelo coronel Antonio
Pessoa da Costa e Silva no seu discurso de posse na Intendência naquela cidade
em 2 de janeiro de 1900, hoje, cidade modelo bem como mais cidades, vilas, 12
arraias uma cidade de primeira grandeza, Itabuna, com cerca de 150 mil
habitantes, vila da espécie de Jussari, e a arraias como São José não falando
da produção de cacau que naqueles tempos passados estava estagnada em 250 mil
sacas de 60 quilos. Tudo isso devemos à guerra de Canudos que, por sua causa,
abriram-se os caminhos para esta região onde o povo dos demais estados do
Brasil se avizinharam, principalmente os de Sergipe, hoje a colônia de maiores
possibilidades.
Entre os
desbravadores estava João Pedro de Sousa Leão. João Pedro aportou em Tabocas no
ano 1906 onde se estabeleceu como negociante grossista em molhados e grande
comprador de cacau, dentre todos os compradores de cacau existente na época, fora
João Pedro de Sousa Leão o mais destacado, no que diz respeito ao capital como
Antônio Soledade, Astério Rebouças, Everaldino Assis, Manoel Ferreira Carneiro,
João Pestana Branca, Antônio Emídio, João franco e Ambrosino. Seu poderio
monetário junto com o seu irmão padre Olímpio, e do usineiro Tomé Dantas da
Costa, seu genro, ajudavam a triplicar a sua fortuna adquirindo muitas propriedades
rurais e vários prédios da cidade. Honestamente aqui viveu até 1930 voltando depois para Sergipe, sua
terra natal, para construir uma Igreja Católica Apostólica Romana na cidade
onde nasceu. Depois que inaugurou a obra em 1940 veio a falecer. Sua grande
família aqui residente a esta hora, é homenageadas por esta minha história,
recordando o grande amigo de Itabuna e de todos os que o conheceram,
principalmente a sua freguesia.
(TERRA, SUOR E SANGUE – LEMBRANÇA DO PASSADO – HISTÓRIA DA REGIÃO CACAUEIRA -
Cap. XVIII)
Caminhava
livre pelas ruas do arraial, uma vaca muito bonita, que atendia pelo nome de
“Beleléu”.
Era um
animal arisco, de propriedade de Manoel Ramos, e andava pregando susto, dando
carreira em quem encontrasse pela frente. Todos temiam aquela “fera”. As
crianças saíam às ruas sob as recomendações dos pais: “Tenham cuidado com Beleléu!” O povo vivia revoltado com aquela
situação. Um dia, encetaram um movimento, que visava pedir a prisão da vaca.
Homens,
mulheres e criança, reuniram-se na casa de Manoel Ramos e fizeram ver a ele o
quanto era prejudicial a permanência de “Beleléu” vagando solta no arraial.
Haveria de se dar um jeito no problema, o que não podia continuar era aquele
clima de pavor que se instalara ali, simplesmente por causa de uma vaca.
Sentindo-se pressionado, Manoel Ramos caçou a cabeça e diante do povo fez o seguinte
juramento:
- Calma,
minha gente! Eu exijo apenas que vocês me deem um tempo, para que eu
providencie um lugar onde prender minha vaquinha. Dentro de vinte e quatro
horas, todos estarão livres da Beleléu. Eu prometo.
Agora, sozinho,
Manoel Ramos se pôs a matutar, procurando uma solução. A quem recorrer? Eis que
de repente, lembrou-se do seu compadre Valmir Félix, um dos filhos de Manoel
Félix Cardoso, somente ele poderia solucionar o problema, aceitando “Beleléu”
na sua propriedade. Tudo foi feito conforme Manoel pensou. Foi ter com o compadre que o
autorizou colocar a vaca junto ao seu
gado. Tudo voltou ao normal, o povo passou a ter tranquilidade, Manoel Ramos
também se viu livre da pressão popular e,
melhor para Beleléu, que agora tinha outras condições de vida, na
pastagem verdejante de Valmir Félix.
Naquela
ocasião, eu e meu irmão Alfredo, que morreria afogado aos vinte anos de idade,
no Rio Cachoeira, estudávamos na Escola Aloísio de Carvalho, em terras de
Manoel Félix Cardoso.
Um dia, eu
tive que ir sozinho à escola, porque o meu irmão estava doente. O dia
amanhecera muito lindo, e o sol matinal rutilava pelas castanheiras. Peguei os
livros e segui rumo à escola, temendo tão somente o encontro com Beleléu: eram
exatamente sete horas da manhã, e ao abrir a cancela que dava acesso à fazenda,
logo vi que eu seria o primeiro aluno a chegar, mas pude ver, também, que o meu
caminho estava obstruído pelo gado que se concentrava no meio da estrada.
Um pouco mais distante estava a vaca
de Manoel Ramos, vigilante, pois havia dado cria a um lindo bezerro. E agora, o
que fazer? Retornar para casa, ou aguardar que o gado se dispersasse? Eu teria
que encontrar uma solução, pois passar por ali era impossível, seria realmente
uma grande aventura.
Estava eu
absorto nos meus pensamentos quando, de súbito,
surgiu de dentro do mata uma figura esquálida, portando um estilingue,
pendurado no pescoço, e uma capanga do lado. Era meu compadre Valdir – compadre
de fogueira -, pelo qual, ainda hoje,
tenho profunda admiração. Ele se
aproximou de mim e, ao perceber a minha preocupação, foi logo indagando:
- O que é
que há, compadre; algum problema? Compadre, já faz quase meia hora que estou
aqui, esperando que o gado saia da estrada para que eu possa passar. E o pior
de tudo, é que o diabo da Beleléu está parida, e deve estar virado no demônio!
- “Mas que
bobagem, meu compadre! - disse-me ele –
já viu homem ter medo de vaca? Venha comigo...” Com uma pedra na mão, ele
seguiu na frente, e eu o acompanhava um tanto desconfiado, morrendo de
medo, tinha certeza da grande carreira
que íamos levar. Ao aproximar-nos, o gado levantou-se e “Beleléu”, que já
estava de prontidão, ergueu o rabo, baixou a cabeça, e investiu com fúria demoníaca, querendo
acabar com a gente. Eu, que me mantinha à distância, saí em desabalada carreira
e, em poucos segundos, pude alcançar a cerca, preferindo trepar na cancela para
maior segurança. Quando corri, ouvi um
estalo seco, e fiquei mais apavorado, ao imaginar que “Beleléu” tivesse
quebrando os ossos do meu compadre. Enganei-me, porque foi tudo ao contrário: Valdir havia arremessado uma
pedra certeira, e tal foi o ímpeto com
que o fizera, que a vaca não conseguira
o seu intento, pois ficara com a perna balançando no ar.
Ainda
trêmulo, desci da cancela e fui procurar os livros que haviam caído durante a
carreira. Enquanto os procurava, ouvia as lamentações do “super-homem”. Olhei
nos seus olhos, vi que as lágrimas escorriam pela face pálida do magricela,
enquanto fazia um apelo patético:
- “Pelo
amor de Deus, meu compadre! Ninguém pode saber do acontecido. Se os meus pais
souberem de uma desgraça dessas, eles me
matam”.
Prometi
não revelar nada para ninguém, pois,
apesar de ter repudiado o comportamento perverso do meu compadre, também fui
capaz de reconhecer que ele agira daquela maneira na tentativa de proteger-me.
No dia
seguinte, a confusão estava generalizada. Manoel Ramos, ao tomar conhecimento
do incidente, ficou indignado, e logo atribuiu a culpa a Valmir Félix; foi à sua casa e deu-lhe uma
xingadela, exigindo indenização, sob a alegação de que ele quebrara a perna da
sua vaca, ao tentar ordenhá-la.
Originou-se
uma grande confusão. Manoel Ramos e Valmir Félix ficaram inimigos por muitos
anos. Com a perna quebrada e ainda amamentando, Beleléu foi aos poucos perdendo
a beleza de vaca saudável que era, e Manoel Ramos, desgostoso, resolveu vendê-la a Zé Barcaceiro que ainda a aproveitou para o
abate.
Assim,
desaparecia para sempre a vaca mais famosa que já “pintou” na história do
Salobrinho. Houve quem gostasse do
seu desaparecimento, pois com a sua morte,
acabaria de uma vez por todas o pavor
daquela gente, que muitas vezes ficara impossibilitada de andar nas ruas.
Manoel Ramos,
depois deste episódio, ainda viveu muitos anos no Salobrinho. Fez as pazes com
Valmir Félix, nunca mais teve dúvidas quanto à culpa do compadre no caso “Beleléu”,
e morreu tendo a certeza de que foi ele o responsável direto por tão grande prejuízo.../
(Salobrinho - ENCANTOS E DESENCANTOS DE UM POVOADO)