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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

UMA VISÃO DO FUTURO E O POEMA DO BOI - José Pereira da Costa

          
Dizem os entendidos que a salvação de Itabuna é Itapé, aproveitando a fúria das águas do rio Cachoeira, está na futura barragem a ser construída em Itapé, neste mencionado rio. Se, efetivamente, isto vier acontecer, como ficará aquele município sem suas melhores terras e sem as rendas destas, vez que grande parte daquele município ficar é submersa, indenizada pelo governo. Por outro lado, a futura barragem não é a solução, visto a existência de vários rio afluentes que desembocam no Cachoeira após Itapé, como o Piabanha Seca, o Jequitibá, o Ribeirão Grande, o Banco dos Cachorros, o, Catuló que oferece também perigo para Itabuna. Deste modo, mil vezes a continuação de cais nas duas cidades para maior sossego popular, está a minha opinião. Pena que amanhã apareçam aquelas enchentes de 1914, 1947, 1968 e 1969 e encontrem ainda estas duas cidades desprovidas de segurança, onde o trabalho popular e progresso destas duas cidades venham desaparecer. Assim como os esforços  dos proprietários dos bairros em franca prosperidade como João Mangabinha, Zildo Guimarães e outros, frutos do trabalho de tantos anos daqueles que deram toda a sua parcela de trabalho a bem da grandeza desta grande cidade. Isto para o futuro mas, se indaga: Cadê Itabuna e Itapé? E com tristezas estampadas nas faces não termos o que responder. O Cachoeira levou-as para Ilhéus.

            Meus amigos leitores, terminando a exposição desta minha história, quero aproveitar o ensejo e, juntamente com todos vocês que leram este livro, que lancemos um apelo às autoridades do nosso país de ser decretada, irrevogavelmente, a proibição de matanças de vacas prestáveis para criação. Quando me entendi, só se matava uma vaca se ela estivesse com os seu quatro peitos perdidos ou caduca pela idade. Sendo que a carne e os demais produtos derivados, nunca subiram de preço. Porém agora estamos assustados em ver uma alta desenfreada dos produtos do boi e sua carne amanhã  passar a ser objeto de luxo que o pobre jamais poderá adquirir. Deste modo, só há um meio: é ,o povo em massa protestar a matança de vacas para depois de certo tempo a carne tornar com um preço estável e chegar para todos. 
A propósito da minha exposição temos:

Convém aproveitarmos  a presença do nosso
presidente Médici, homem da justiça e
entregar este apelo, última solução
deste grave problema. Porquê:

O chifre para a indústria
a unha é exportada
é mesmo um lamber de beiços
um cozido de rabada
 Para fazer saudade aos velhos
e fogo à rapaziada.

A vaca nos dá o leite
o queijo e o requeijão
os filhos para o trabalho
a manteiga para o pão
o couro para o sapato
carne pra alimentação.

O rabo dá o sedem
pra fazer corda de luxo
a sola dá todo arreio
ou folgado ou com repuxo
e o reio é procurado
pra todo negócio apuxo.

O doce de mocotó
pra quem está com fraqueza
língua e beiço no feijão
é mesmo uma grandeza
fato cozido e assado
é comida da pobreza.

Da vaca nada se perde
todos sabem quanto eu sei
que até sua caveira
se brinca em noites de Reis.

O osso dá o tutano
a farinha pra adubo
a moqueca de miolos
esta acima de tudo
o sebo para o sabão
vejam como serve ao mundo.

Diante de tanta utilidade deste
animal que reputo sagrado vamos
então agradecer a Deus a sua vinda
a terra mãe de criação de todos
os animais lhe poupando a existência
pelo menos enquanto ela estiver
sendo útil à coletividade.

Itabuna, 20 de julho de 1973
José Ferreira da Costa
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(TERRA, SUOR E SANGUE – LEMBRANÇA DO PASSADO – HISTÓRIA DA REGIÃO CACAUEIRA - Cap. XXII)

José Pereira da Costa
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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

OS DESBRAVADORES DO SUL - José Pereira da Costa

Os desbravadores do Sul


           Desbravada com amor e sangue, a região do cacau tem sido a maior entre as demais do nosso Estado através das rendas, basta dizer que ela contribui com 70% da receita estadual. Desta região sai a maior parcela de divisas para os cofres da Nação, através da exportação do cacau. Foi desta região que partiram as sementes do cacau para outros estados de nossa federação e o Espírito Santo está produzindo cerca de 500.000 arrobas deste produto nascido na Bahia, através dos municípios de Linhares, São Mateus e Colatina, daquelas sementes levadas daqui no ano de 1918, pelos colonos Filigônio Peixoto e Antonio Negreiro Pego,  onde será muito breve  a cifra elevada para um milhão de arrobas, ou seja, 250.000 sacas, visto a existência ali de grande área de terra, ainda devolutas, prestável para o cultivo do cacau, e mais ainda com a ajuda financeira da Ceplac.

            É de se esperar também que para o crescimento da lavoura cacaueira naquele estado, se acaba uma vez por todas com aquela hereditária questão de limites com Minas Gerais, para sossego dos colonos que tanto têm sido prejudicados. Quanto a nós, os colonos do passado, como hoje os de Vitória do Espírito Santo, fomos também bafejados por esta entidade de crédito, embora já bem tarde poucos dos desbravadores fossem beneficiados em suas propriedades, entretanto gozarão em nosso os nossos sucessores. A meu ver, se o cacau não desaparecer com as estações incertas como estamos vendo, será amanhã a Ceplac  a maior casa bancária do país, com esta renda fabulosa de 15% entre uma produção de 3.500.000 sacas de cacau por ano, ou seja, de sete em sete anos, 3.500.000 sacas de cacau, livres de todas as despesas, esta entidade receberá de mãos beijadas produto do cacau nestes últimos setenta anos nas terras incultas da antiga capitania do São Jorge dos Ilhéus, que estiveram em sua maioria, cerca de quatro séculos em franco abandono inclusive a cidade de Ilhéus apontada como tapera pelo coronel Antonio Pessoa da Costa e Silva no seu discurso de posse na Intendência naquela cidade em 2 de janeiro de 1900, hoje, cidade modelo bem como mais cidades, vilas, 12 arraias uma cidade de primeira grandeza, Itabuna, com cerca de 150 mil habitantes, vila da espécie de Jussari, e a arraias como São José não falando da produção de cacau que naqueles tempos passados estava estagnada em 250 mil sacas de 60 quilos. Tudo isso devemos à guerra de Canudos que, por sua causa, abriram-se os caminhos para esta região onde o povo dos demais estados do Brasil se avizinharam, principalmente os de Sergipe, hoje a colônia de maiores possibilidades.

            Entre os desbravadores estava João Pedro de Sousa Leão. João Pedro aportou em Tabocas no ano 1906 onde se estabeleceu como negociante grossista em molhados e grande comprador de cacau, dentre todos os compradores de cacau existente na época, fora João Pedro de Sousa Leão o mais destacado, no que diz respeito ao capital como Antônio Soledade, Astério Rebouças, Everaldino Assis, Manoel Ferreira Carneiro, João Pestana Branca, Antônio Emídio, João franco e Ambrosino. Seu poderio monetário junto com o seu irmão padre Olímpio, e do usineiro Tomé Dantas da Costa, seu genro, ajudavam a triplicar a sua fortuna adquirindo muitas propriedades rurais e vários prédios da cidade. Honestamente aqui viveu  até 1930 voltando depois para Sergipe, sua terra natal, para construir uma Igreja Católica Apostólica Romana na cidade onde nasceu. Depois que inaugurou a obra em 1940 veio a falecer. Sua grande família aqui residente a esta hora, é homenageadas por esta minha história, recordando o grande amigo de Itabuna e de todos os que o conheceram, principalmente a sua freguesia.


(TERRA, SUOR E SANGUE – LEMBRANÇA DO PASSADO – HISTÓRIA DA REGIÃO CACAUEIRA - Cap. XVIII)
José Pereira da Costa


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sábado, 4 de novembro de 2017

A FAMÍLIA AMADO - José Pereira da Costa

A família Amado


            O progresso da região cacaueira e sua fama deram lugar aos comentários, promovendo a presença de várias famílias de outros estados, de linhagem, porém empobrecidas, a virem residir nessa região, tal como vieram os flagelados da seca nordestina, e da Guerra de Canudos. Dentre outras está a família Amado, com cerca de 18 membros. Os primeiros aqui aportados foram os srs. João e Álvaro Amado, os quais passaram a residir em Ferradas, onde começaram a vida com o ramo de vendagem de leite adquirido nos produtores  dos distritos e vendido em Itabuna. Mais tarde tornaram-se  conhecidos pela alcunha de “Leite com Água”. Desta ou daquela maneira, não tardou que “Leite com Água” se tornassem senhores do mercado do produto.

            Quando em 9 de abril de 1909, o estudante Gileno Amado aqui chegou, já foi recebido por seus tios, não mais como simples homens do povo, e sim por dois caudilhos políticos, pertencentes ao grupo Leonista, tanto assim que deles nasceu sua acolhida  junto a Olintho Leone sendo aproveitado através de sua inteligência para servir no seu júri, como promotor “ad-hoc”, em vista da falta  do promotor de Ilhéus. Leone absolvido, em sinal de gratidão lhe nomeou secretário da Intendência de Itabuna, da qual era o atual intendente. Dali saiu em 1910, para o Rio de Janeiro, para concluir seus estudos à custa da Intendência de Itabuna, onde formou-se em fins de 1911, voltando a Itabuna.

            Graças ao prestígio político de Olintho foi eleito, em 1912, deputado estadual. Com a morte do Dr. Olintho e do Cel. Fernando Dourado, seu sucessor, a estrela do Dr. Gileno apagou um pouco, mas teve tempo de trazer de Itaporanga, em Sergipe, todos os restantes da sua família. Voltando a política novamente para suas mãos,  nomeou logo o Cel. Melquisedeque, seu pai, como 2º Tabelião de Notas de Itabuna, e seus irmãos em cargos diversos. Em 1918, elegeu-se deputado federal e, em 22, intendente de Itabuna, onde montou sua máquina na política, que só o acaso lhe levou ao chão. Isto porque não se conformando com as atitudes do Dr. Seabra quando escolheu  Dr. Calmon para lhe suceder no governo do Estado, daí seu rompimento com aquele governador e seu afastamento imediato das posições políticas de Itabuna, passando a residir no Rio de Janeiro, em verdadeiro ostracismo.

            Mesmo assim precisou voltar a residir em Itabuna, para estar ao lado de seus amigos, daí sua volta à política onde após a vitória da Revolução de 1930, foi ele aproveitado pelo interventor Juracy Magalhães assumindo as diretrizes políticas de Itabuna, com seus amigos chegando a ser secretário da Fazenda, e mais tarde, no governo constituído do Sr. Juracy Magalhães, em 1958, foi escolhido para o cargo de secretário sem pasta, no quatriênio (1958 a 1961) e distinguiu-se nesta região, através dos seus atos.

            O mais admirado em tudo isso é que tendo o Dr. Gileno e todos os seus parentes residido em Itabuna, tendo a melhor acolhida, deles até se capitalizando como João, Álvaro e Gileno Amado, não existe ninguém que aponte qualquer pedra assentada em Itabuna por alguém desta família quando era dirigente. Dirá o adágio: “Aí está a ação fraternal!...” Puro engano. A Ação Fraternal é obra de dona Amélia. Dona Amélia Amado, apesar de ter nascido do lado do Cel. Misael e casada com um Gileno Amado, deu notícia ao mundo que pertence a qualquer casa da divindade, daí sua obra, Ação Fraternal. Não quero com isso dizer que eles fossem indesejáveis, falo apenas que foram pessoas ingratas e que viveram para  a vida lucrativa, haja vista que se ouviu falar por muito tempo que quando Misael morreu seus parentes pagaram a várias pessoas para chorar a sua morte. Na morte de Dr. Gileno, nem mesmo pago pelo Alcântara, seu parceiro, o povo conseguiu chorar e levá-lo a sua última morada.


               Por falar em José de Almeida Alcântara, preciso também relatar este fenômeno. Foi nos idos de 1930, que aqui chegou esse moço de boa aparência, procedente da cidade de Caravelas, neste estado, nomeado coletor estadual da vila de Itaúna, hoje cidade de Itapé, tornando-se em pouco tempo estimado, dado à sua popularidade. Pôde por em prática a sua intenção. Alcântara foi um daqueles que desejava ser grande e para isto ele teve um plano – ser útil à humanidade. Como coletor, tudo fazia em favor do cliente, desprezando muitas vezes até seu interesse e do Estado para facilitá-lo. Sua mão sempre se encontrava estendida a todos os necessitados. Neste dilema constituiu família, desprezando muitas vezes suas necessidades para atender ao próximo. Sem outros recursos  para atender a falanges de precisados foi lançando mão do dinheiro da coletoria sob sua guarda, até que caiu em insolvência. Foi surpreendido por uma denúncia do seu próprio escrivão ao Tesouro do Estado. Com a denúncia, veio a fiscalização e esta apurou os desvios de cerca de 700 contos de réis, e, como ele não tivesse esse dinheiro em mãos para cobrir os desvios, foi afastado do cargo e lhe dado um prazo de 30 dias para recolher aquela importância, sob pena de ser demitido e processado por peculato. Nesta altura, dizem que o seu sogro lhe emprestou a importância e ele pagou ao Estado e voltou ao seu lugar. Acontece que Alcântara, em vez de se abster daquele modo de proceder, continuou a mesma vida e quanto mais os dias se passavam mais aumentava o número de pedintes e sua fama crescia. Foi ameaçado de ser afastado do cargo, por mais outro desfalque de cerca de 3.000 contos de réis, e como não tivesse dinheiro para pagar ao Tesouro do Estado, fora demitido e processado, passando a viver nos esconderijos e perseguido pelos políticos para lhe tirarem a fama e o prestígio popular. Acontece que mesmo processado e perseguido. Acontece que mesmo processado e perseguido, o eleitorado lhe dava preferência para os seus apresentados. Daí os políticos lhe temerem. Certa feita, houve um derrame de selos falsificados do Tesouro do Estado, Alcântara foi caluniado em ser conivente, sendo pedida a sua prisão vivo ou morto. Sendo preso e posto na geladeira por 12 horas, e solto sob fiança pessoal do Dr. Vieira de Melo. Apurado o ‘derrame’ Alcântara nada tinha com aquele caso. Deste modo passou ele 10 anos vivendo dias e noites sem muito sossego, quando certo político lhe procurou e disse: “Trabalhe por minha candidatura e se for eleito lhe absolverei”, efetivamente aquele candidato foi eleito com estrondosa votação pelo município de Itabuna, e a promessa de Alcântara foi cumprida. Alcântara no próximo quatriênio se candidatara a prefeito de Itabuna levando a melhor, fruto de seus trabalhos e de sua perseverança, tornando-se um ídolo do povo de Itabuna. Após seu mandato de prefeito, foi eleito deputado estadual, onde se distinguiu, sendo novamente eleito prefeito de Itabuna em cujo cargo, após dois anos de governo, viera a falecer. Se isto não tivesse acontecido era de se esperar sua votação novamente na câmara Estadual ou Federal, e talvez até ao governo do Estado.

            O sul do estado da Bahia deu o maior líder político já visto. Sonho realizado de um gênio que atravessando os maiores impasses de sua vida através do sofrimento, tornou-se o maior líder popular de todo o estado da Bahia. Após sua morte, seu prestígio político conseguiu eleger mais dois prefeitos em Itabuna, o primeiro em sua substituição para o término do seu mandato e o segundo o Dr. Simão Fitermann  para completar sua obra.

Alcântara levava milhares à praça em seus comícios, passeatas, etc. seu lema era De colher.


(TERRA, SUOR E SANGUE – HISTÓRIA DA REGIÃO CACAUEIRA, Cap. XX)

José Pereira da Costa

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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O CANDOMBLÉ QUE VIROU CIDADE - José Pereira da Costa


O candomblé que virou cidade 

            Sobre Anastácia e seu candomblé em Estreito D’ Água quero informar ao leitor que foi devido aquela casa de feiticeiros que ali se aglomeravam grande número de pessoas, uns para procurar remédio para si, ou pessoas suas, outros para saber de sua sorte e ainda fazer e desmanchar feitiço, casamentos e separações de corpos. Anastácia precisou fazer um enorme barracão dentro da mata para os casos de esconderijo de moças roubadas, mulheres casadas, etc. o volume de negócios e lucros cresceu a ponto de haver quem se lembrasse de construir casinha à beira da estrada perto daquele candomblé, para aluguel, para abrigar centenas de pessoas que para ali afluíam pela fama do candomblé. Para tanto, foi preciso que o capitão Caboclo cedesse a beira do rio, terreno de sua propriedade. Não tardou para o terreno se encher de casas, começando o arraial de Estreito D’ Água

            Foi também edificado um casarão aberto para pouso de quem subia ou descia com tropas, com o nome de rancharia. Surgiu o comércio local de madeira tal que os produtos vindos do sertão eram ali vendidos em larga escala, como carne-de-sol, toucinho, farinha, feijão, requeijão, manteiga, por ser um centro de grande população. Não tardou para os poderes constituídos instalarem suas cobranças de impostos dos transeuntes comerciais através de coletoria estadual e das subprefeituras municipais.

            Em 1927, o Cel. Henrique Alves, intendente de Itabuna, teve notícias de fatos deprimentes praticados pelo candomblé de Anastácia e mandou acabar com aquele feiticismo. Anastácia, para não ser presa, teve que fugir para Salvador, de onde jamais voltou. Entretanto, Estreito D’ Água não parou o seu crescimento e desenvolvimento. Após a retirada de Anastácia, Temístocles Lisboa, mais conhecido como capitão, tomou a si  o desejo de tornar aquele arraial numa próspera cidade. Para isto facilitava terras e material de construção a todo aquele que quisesse construir,  e aproveitando uma Santa Missão que ali foi realizada, em 1928. Caboclo e demais representantes daquele arraial mudaram seu nome para Vila de Itaúna.

            Vila de Itaúna, lendária,  foi no passado o maior centro de malfeitores e assassinos de todas as espécies. Foi ali que Edwirgem Kanassu instalou o seu último quartel-general onde foi assassinado por Thedorinho. Local, onde Quintino Marques, general-em-chefe das forças armadas do Dr. Gileno Amado, residia e distribuía ordens. Ali o Ferreira e sua mulher matara Joãozinho, seu maior amigo para roubarem dele 15 contos de réis e depois o enterram dentro de um quarto da casa. Mais tarde, aquele mau cheiro tomou conta da casa e eles tiveram que arrancar aquele corpo já putrefeito, e foram enterrá-lo novamente na beiro do rio. Nesta oportunidade, um pé do morto largou com  sapato, e pela manhã foi encontrado por um menino e daí a pista para se encontrar Joãozinho há 15 dias desaparecido.  Descobertos os criminosos, mulher e marido foram interrogados e confessaram que mataram Joãozinho para lhe roubarem 15 contos de réis que ele tinha amarrado na cintura em uma lona. Com aquele dinheiro eles comprariam material para fazer dinheiro. Perguntado: “Que dinheiro vocês fabricam?”.  “Nós fabricamos os cinco mil réis da asas do avião de santos Dumont”. “existem alguns prontos?”. “Temos já prontos para passar cem moedas”. “Onde estão?”. “Estão guardados em casa”. A esta altura a polícia leva-os em casa, e ali estavam cem moedas prontas, ipsis verbis, que “junto às verdadeiras não havia nenhuma diferença”. Presos e processados pela Justiça de Itabuna, vão a júri e ele pega 30 anos de prisão celular e ela é absolvida porque seu amigo dissera que ela não tinha ajudado a matar Joãozinho, apenas sabia do plano e ajudou a sepultá-lo. Dizem que após certos tempos, aquele sentenciado especializou-se tanto em inventos que foi comutada a sua pena e retirado para trabalhar em setores industrializados.

            Falando ainda sobre a vila lendária de Itaúna, quero dizer aos leitores de minha história que os fatos acontecidos ali, não foram somente os aqui citados. Temos mais os de Antônio Mineiro, Pedro Dantas e Bigode de Ouro e a registrar a vinda para aquela sinistra vila da Chapada de Dimas, aquele que roubava para dar aos pobres e que ressuscitou em Itaúna. Nomeado coletor estadual, Dimas de Itaúna, continuou naquela vila que passou para cidadania de Itapé e por duas vezes foi às urnas livres de Itaúna, sendo eleito prefeito, não obstante sua lenda através do seu passado. Com a morte do seu parceiro que a eternidade precisava de sua presença, lá se foi Dimas atrás do amigo para formar sua diretriz política na eternidade, traçando um plano para subirem até o céu ou voltaram à terra com as honrarias do passado. (É tarde, lá eu quero vê-lo carregando macadame* para encher caminhões).

            De referência ainda a Itapé, continua sem solução o crime do Atola Tamanco, do vendião de pão. Em Itapé, em dias de matança de gado, primeiro sai a vaca ou o boi laçado e na rua lhe são furados os dois olhos de ferrão. Depois cortam-se as orelhas, os beiços e até a língua da rês. Certo dia estava ali o fiscal da Lei de Proteção ao Animal que vendo aquilo, perguntou a um vaqueiro: “Por que fazem assim com o animal?”. Responderam: “É cinema para os pobres assistir, já que eles não pode ir assistir o cinema, vê aqui de graça”. Aquele fiscal indignado, voltou a Itabuna, esteve com o Dr. Fontes, o juiz da Comarca e lhe narrou aquele fato, tendo aquele juiz, mandado tomar todo o ferrão daqueles indesejáveis magarefes, em número de 10 e detê-los.

            Um certo prefeito de Itapé ao assumir o cargo ordenou a seus fiscais: “Todo animal que vocês encontrarem solto na rua, prenda-o a minha ordem, e ponha-o no curral do Conselho, quando aparecer o dono cobre-se 50 cruzeiros, e os que não forem procurados por invalidez deixe-o por lá morrer”. Aquele fiscal da Lei de Proteção  do Animal teve notícia da ordem, foi ao curral, e lá o funcionário lhe confirmou: “Ontem morrerem seis jegues e uma jega com o jeguinho, de fome e sede”. O fiscal procurou o prefeito e lhe perguntou se sabia que os animais presos à sua ordem, o Curral do Conselho estavam morrendo de fome  e sede. Respondeu: “Sei”. “E o senhor ignora a Lei de Proteção ao Animal?”. Respondeu: “Venha em termos”, e deu as costas ao fiscal. O fiscal foi a Itabuna tomar providências para por termo naquela injustiça, quando é procurado por um vereador que se propôs resolver o despotismo do prefeito e acabar com o suplício aos animais. “Vejam só, quando é que Itapé toma o caminho da civilização?”. Desse modo, Deus, vendo que aquele lugar não devia continuar, mandou que o rio Cachoeira o destruísse, e assim, em 67, foi mais da metade da cidade destruída, com outra enchente igual a de 68 e 69. Porque aquilo foi começado mal e será acabado pelo mal!
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*Macadame - mistura de areia e cimento usada para pavimentar ruas.


(TERRA, SUOR E SANGUE – LEMBRANÇA DO PASSADO – HISTÓRIA DA REGIÃO CACAUEIRA - Cap. XIV)

José Pereira da Costa

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