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sexta-feira, 17 de março de 2017

LUZIA - Marília Benício dos Santos (Parte Final)

Luzia



... a conversa do vigário com seu pai deu em nada. Severino, o pai de Luzia, ficou furioso e disse para o vigário:

            - Me admira o senhor dar ouvido a uma maluqueira desta.

            - Severino, as coisas mudaram, não são mais com o nosso tempo.

            - Para mim, não. Enquanto for vivo ela não sai da minha casa.

            - Ela ia ficar trabalhando em casa de minha irmã. Ia ganhar mais do que aqui e ter um trabalho mais suave.

            - Ela tem que trabaiar é comigo no roçado.

            Depois deste dia, o relacionamento de Luzia com os pais ficou muito difícil. Não deixaram mais ela ir à vila. Começaram a pressioná-la para aceitar o Antonio como namorado. Luzia, para voltar a ter a liberdade que tinha antes, resolveu enfrentar o namoro. O Antonio era apaixonado por ela. Ela, porém, não lhe dava confiança. Apenas tinha um pouco de carinho por ele. Não desistiu da idéia de ir morar no Rio. Estava planejando sua fuga. Alice, uma companheira sua, ia voltar para lá por aqueles dias a fim de reassumir o emprego. Combinou de ir com ela. Acertaram tudo. Luzia tinha algum dinheiro e providenciou para comprar a passagem, deveria viajar na terça feira. Naquele sábado, depois de ajudar a mãe, chegou até a porta, olhou para o céu, olhou para o rio que passava em frente, viu as baronesas enfeitando as águas. As galinhas d’água passeando por cima daquele tapete lindo que mão nenhuma é capaz de bordar. Elas pulavam de folha em folha. Com muito cuidado para não machucar as flores que estavam desabrochando. Sentiu-se culpada. Foi até a beira do rio. Sentou-se em uma pedra. Chorou muito. Quase que se arrependeu. Mas foi apenas por alguns segundos. Saiu andando por dentro do rio. Parecia dar adeus e despedir-se daquela água tão gostosa. Criou-se na beira daquele rio, ora com um anzol tentando pescar alguma piaba, ora com o gererê a cata de camarão. Seu coração parecia partir-se ao meio. Realmente era assim que se encontrava naquele momento. Dividida. Uma parte dela ansiosa para partir. Sair para bem longe. Conhecer o Rio de Janeiro. Conhecer o Pão de Açúcar, os artistas do rádio. Namorar com os rapazes da Cidade Maravilhosa. Ganhar dinheiro. Outra parte dela estava presa àquela região. Seus irmãos, seus pais, principalmente sua mãe. Chorou mais uma vez.

            O céu tão bonito, tão azul! O sol tão forte com os raios dourados confundia-se com os seus cabelos, como se quisesse presenteá-la na sua despedida. Ela passou as mãos pelos cabelos e os sentiu muito quentes. Pensou: como estão quentes os meus cabelos! Vou molhá-los. Sentou-se em uma pedra, passou a mão molhada no rosto e depois nos cabelos. Voltou para casa mais tranquila. No caminho, encontrou Antonio que voltava do roçado. Ficou assustada ao vê-lo, parecia que ele estava adivinhando o seu pensamento.

            - Luzia, você por aqui?

            - Fui até a beira do rio. Tava muito quente.

            - É, Tá um calor danado. Hoje é lua cheia. Vamos dar um passeio hoje à noite? Vamos ver a lua dentro do rio? É uma beleza.

            - Tá certo. Passe lá em casa pro me pegar. Antonio estava ansioso. Luzia nunca tinha ido a um passeio à noite com ele. Sempre arranjava uma desculpa. Mas naquele momento, Luzia achou que devia compensá-lo. Era uma maneira de descarregar a sua culpa. Na hora combinada, lá estava Antonio, com a camisa mais nova. O cabelo encharcado de brilhantina, muito usada naquela época. Só que dado ao entusiasmo de parecer mais bonito, exagerou. Luzia também se fez bonita para agradar Antonio. Este quando a viu, exclamou:

           - Que boniteza! Como você está linda!

            - Vamos, senão fica tarde. O pai não quer que eu chegue tarde.

            Saíram abraçados. Luzia queria ao menos, naquela noite, fazê-lo feliz. Parece que conseguiu. Passearam ao longo do rio. A lua parecia ter sido encomendada. Com todo o seu encanto, derramava raios de luz sobre aqueles jovens. Tentava assim fazer um milagre. Um milagre de amor: encantar Antonio aos olhos de Luzia. Fazer dele o seu amado. Mas, coitada da lua! Não pôde realizar o milagre.

            - Não sei como tu pensou em deixar a nossa terrinha, disse Antonio, olhando com muito amor para sua amada, que não lhe correspondia.

            Luzia, pela primeira vez, se emocionou. Pôde constatar naquele momento, quanto ia maltratar o pobre coitado. Mas, nem assim, se arrependeu do que havia planejado. Ficou firme. Desmanchou-se em ternura. Sentados em uma pedra, próximo ao rio, ela colocou a cabeça dele no colo. Com muito carinho, passava as mãos pelos cabelos encharcados de brilhantina. Nem se preocupava de lambuzar as mãos. Trocaram beijos. Ela percebendo que as manifestações de carinho estavam aumentando, tratou de fugir.

            - Vamo nego, o pai deve está com o olho na estrada. Deixaram o rio. A lua, porém, os acompanhou, tentando mais uma vez abrandar o coração de Luzia. No meio da estrada, Antonio deu um abraço cheio de paixão que foi correspondido pela sua amada. Continuaram abraçados até em casa. Severino estava na porta esperando pelos noivos. Não ficou nada satisfeito. Não reclamou. Disse apenas para Luzia:

            - Entra pra dentro, menina, sua mãe e seus irmãos já estão dormindo. Boa noite, Antonio. Amanhã nós tá lhe esperando.

            - Inté manhã, seu Severino.

            - Inté amanhã, meu fio. Vá com Deus.

            Antonio foi para casa muito contente. Luzia, pelo menos, naquela noite, fizera-o feliz. Ela, no entanto, estava triste. Não conseguiu dormir. Estava muito ansiosa.

            Naquele domingo, Antonio foi almoçar em casa da noiva. Durante o almoço, marcaram o casamento. Deveria ser daí a dois meses. Antonio saiu da casa de Luzia muito contente. O pobre não podia avaliar o que lhe aguardava. Luzia foi dormir cedo. No outro dia, iria à cidade, já havia avisado ao Antonio. Desta vez, levou uma sacola cheia de roupa. Ficou o tempo necessário para tomar conhecimento de tudo sobre a viagem. Deveria ser daí a dois dias. Voltou o mais rápido possível. Na hora que Antonio chegou do campo, Luzia foi esperá-lo. Voltaram conversando e ela avisou-o que precisaria voltar à cidade. Ele concordou, pois confiava na noiva. Não podia imaginar nunca o que ela estava planejando. Na véspera, ela quase não dormiu. Mesmo assim levantou cedo. Antes de sair, fez o café e encheu os potes d’água. Sua mãe perguntou-lhe:

            - Pruquê este madrugueiro, menina?

            - Tenho que chegar bem cedo, vou voltar cedo.

            - É mesmo, fia. Faz bem, mode não aborrecer Antonio.

            Chegou rápido em casa de Alice. Antes da hora, as duas já estavam na parada do ônibus. Apesar de estar realizando um desejo muito antigo, ia com o coração despedaçado.. Chorou a viagem toda. Sua amiga reclamava:

            Não sei por que motivo você chora tanto.

            - Estou com pena da mãe. Fui muito má. Não sei como pode fazer tanta maldade. E o pobre do Antonio?

            - Agora não adianta mais. Vamos pra diante. Foi isto que fizeram. Seguiram em frente. Rumo à Cidade Maravilhosa. Chegaram às 12 horas. Nesta época, a Rodoviária era na praça Mauá. Luzia, nesta altura, já não chorava. Os olhos muito abertos assombrados, admirava aquele cinema ao vivo em sua frente.

            - Vamos, muié, pegue a sacola. Vamos pegar o ônibus.

            - Outro ônibus? ! Já tô cansada de tanto andar de ônibus.

             - Você quer ir de pé? É longe, disse Alice, rindo de sua amiga. Depois de Alice ter chegado a seu destino, tratou de levar sua amiga na casa onde Luzia ia trabalhar. Deixou-a aí, e foi cuidar da vida. Luzia, depois de ter conversado com sua patroa, entrou para o quarto onde deveria dormir. Enfrentou a realidade. Chorou. Sentiu saudades do quarto onde dormia. Pobrezinho, mas muito melhor do que aquele. Era bem maior. Tinha uma janela que vivia sempre aberta. Olhou para as paredes daquele pequeno cubículo, não tinha janela. Tinha um basculante que ela não conhecia. Subiu na cama para descobrir o que havia em frente. Deu com a parede cinzenta do prédio vizinho. Sentou-se na cama e chorou.

            - Meu Deus, que arrependimento! Se meu pai me perdoasse, voltaria para casa. O que vai ser de mim?

            Resolveu arrumar a roupa no pequeno armário do quarto. Ainda com a porta fechada, deitou-se e adormeceu. Acordou com a patroa chamando:

            - Você não quer tomar banho? Tome banho e depois coma alguma coisa. Deve estar muito cansada. Hoje não, precisa fazer nada. Amanhã a gente conversa. Temos tempo bastante.

           Luzia ficou animada. Tomou banho. Era a primeira vez que tomava banho de chuveiro. Mas não disse nada. A patroa mostrou-lhe como abrir a bica. Não quis comer. Deitou-se e dormiu profundamente.

            Enquanto isso, os seus pais depois de procurarem em todos os lugares, foram até a delegacia. Deram queixa. Queriam que o delegado providenciasse a volta de Luzia. Nada conseguiram, Luzia era maior de idade. Severino quis culpar o vigário. Saiu reclamando da Igreja:

            - Se o senhor não tivesse dado atenção, ela não tinha feito o que fez. É isto que dá muita leitura. Não pensei que minha fia fizesse uma coisa desta com nós. Nunca mais quero botar os óio nela.

            Quem mais sofreu foi o Antonio. Fazia pena vê-lo. Não falava com ninguém. Cabisbaixo. Fumando o seu cigarrinho de palha, olhava para o céu, como se este pudesse informar alguma coisa. Se fosse hoje, diríamos que estava deprimido. Naquela época, não se falava em depressão. E Antonio não tinha tempo para isto. Cedo, com a foice no ombro, seguia para o campo. Chorava às escondidas. Era feio um homem chorar. Nas noites de luar, ia sozinho para a beira do rio. Ali sentado onde tinha estado com Luzia algum tempo atrás, tendo como companhia a lua, curtia a sua dor. A lua também chorava com ele. Mas ele não via as lágrimas dela. Ela estava muito distante. Antonio, porém, compreendia que os seus sentimentos eram percebidos pela rainha da noite. Consolava-se ao pensar nisto. Não sabia fazer poesia. Mas dentro dele havia muita poesia. Naquele momento, olhava para a lua refletindo sua luz dentro da água. Lembrava-se da última noite, quando com Luzia admirava aquela mesma lua. Não havia ninguém ali, por isso pôde dar vazão aos seus sentimentos. Chorou muito. Chorou como uma criança. Como foi bom chorar. Sentiu-se leve. Voltou para casa bem melhor. Triste, mas confortado.

            O tempo passou. Antonio aos poucos foi superando o sofrimento. Casou-se, teve filhos. Tentava ser feliz e fazer sua companheira feliz. Mas sempre tinha a lembrança de Luzia presente em sua memória, e naquele dia esta lembrança estava mais viva.

            Luzia ao enfrentar a morte não teve medo. Não estava só. Um grupo de pessoas conhecidas veio visitá-la naquela madrugada: seu pai, seus avós e alguns amigos. Pôde perceber que estava partindo para bem longe dali.

            Nos momentos de lucidez, rezava muito. Lembrava daquilo que aprendera nas aulas de catecismo, em sua terra, quando menina. No seu encontro com a morte sentiu-se lúcida. Rezou. Apesar de ter perdido a voz e não pronunciar nenhuma palavra, em seu pensamento veio as palavras pronunciadas pelo Cristo na hora da morte. “Em vossas mãos entrego o meu espírito”.

            Deus, que é Pai e justo, recebeu realmente o seu espírito. Naquele momento, ela foi escolhida pelo Criador. Quando as suas vizinhas chegaram, há muito não estava ali, apenas o seu corpo deformado pela fome e sofrimento estava ali presente.

            Enquanto as pessoas discutiam e planejavam o que fazer, Luzia resolveu dar um passeio, rever as amigas. Foi até a sua terra. Todas com filhos já crescidos. Luzia sentou-se na pedra em que costumava ficar. Teve vontade de comunicar-se com elas, mas não foi possível. Pensou tanto que conseguiu transmitir a uma das amigas o seu desejo.

            - Gente parece que vi Luzia ali, sentada naquela pedra. Quem sabe não morreu! ? Luzia saiu dali e foi até a sua casa. Avistou sua mãe bastante envelhecida, cheia de netos. Ficou feliz em saber que ela estava bem. Depois resolveu procurar Antonio. Ele ia saindo para o roçado. Achou graça quando o viu com uma mulher e os filhos. Resolveu puxar-lhe os cabelos como costumava fazer.

           - Maria, você puxou meu cabelo?

           - Tá doido? Eu não. Tô tão longe de você.

            - Credo. Senti o cheiro de Luzia. Será que morreu? Resolveu voltar para o Rio. Ria e ria muito ao constatar a confusão que todos faziam em torno de sua morte. As suas amigas lamentavam:

            - Coitada! Morreu tão só! Como vamos enterrá-la? Josefa lembrou-se de avisar ao antigo vigário que, durante alguns anos, pagara sua luz, todas as vezes, que era cortada. Atualmente Luzia vivia no escuro. Nunca mais achou quem lhe pagasse a conta de luz.

            O padre assim que soube do ocorrido providenciou o enterro. Ali, junto ao corpo, celebrou a missa em sua memória. Na homilia foi muito feliz. Em sua mensagem disse:

            - Meus amigos tenho certeza que a nossa amiga descansa junto ao Pai. Aquela, que viveu durante 6 anos sem a luz dos homens está sendo iluminada pela luz divina. Peço-lhe, Luzia, que me perdoe e, aí junto a Deus, peça perdão também por mim. Pela minha omissão. Nunca mais a procurei. Não sabia o que era feito de você. Interceda junto ao Pai por todos nós. Que sejamos iluminados pela luz da fé. Que a luz elétrica não atrapalhe a luz interior. – “Vós sois a luz do mundo”, diz o Cristo. Esta luz da qual o Cristo fala é a luz interior, é a luz que está dentro de nós. Precisamos mantê-la acesa. Os homens não podem cortá-la. Não custa dinheiro.             Luzia, apesar da loucura, não deixou que ela se apagasse. Esta missa é por ação de graça. Ela não precisa mais de nossas orações. Peça, Luzia, que os homens que ainda não conseguiram ter esta luz acesa em seu interior, que a tenham agora. Que sejam iluminados. Só assim, poderão aliviar o sofrimento de nossos irmãos. Quantas ‘Luzias’ existem precisando de um pouco de conforto. Dê-lhes um pedaço de pão.

            Luzia, ironizando, disse: - Precisei morrer pra ser lembrada.

            Você ainda depois de morta foi lembrada, Luzia. Há aqueles que morrem como viveram, no anonimato.

            - “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.

            Mas, voltando à terra de Luzia. Sua visita, depois de morta, causou confusão. Pensando no que acontecera naquela manhã, Antonio foi até a casa de D. Antonia, mãe de Luzia.

            - Tarde, D. Antonia.

            - Tarde, meu fio. Vamos cume um feijãozinho?

            - Não, brigado. Maria tá me esperando. Vim té aqui porque aconteceu umas coisas esquisitas comigo.

            - Que foi, meu fio? Conte logo.

            - Quando ia pra o roçado, senti alguém puxá meu cabelo. Acho que era Luzia. Era como fazia pra me assustar. Penso que morreu e veio-me avisá.

            - Sabe que hoje de manhã, parecia que tava aqui em casa. As menina, no rio, também parecia que viram mia fia. Vieram té qui me contá. Agora vem você com esta conversa. Acho que morreu memo. Agora só vou vê mia fia depois que morrê.

            Ficou triste. Pensativa por alguns minutos. Depois olhou para o céu e disse:

            - Deus lhe dê o céu!

            - Amém! Respondeu Antonio.


(O CORAÇÃO NÃO ENVELHECE)
Marília Benício dos Santos

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Clique nos links abaixo e leia as partes I e II

Parte II:



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ROLANDO BOLDRIN, O POETA CAIPIRA

Eli Boscatto

 Uma personalidade que é a cara do sertão, da terra, do mato, um “caipira” com muito orgulho.

Pouco lembrado pela mídia, Rolando Boldrin tornou-se um ícone da cultura nacional que, muito provavelmente, só será devidamente lembrado depois da sua morte. Uma personalidade que é a cara do sertão, da terra, do mato, um “caipira” com muito orgulho. Mas, acima de tudo, ele nos transmite uma autenticidade de propósitos, uma paixão pelo que faz e acredita...tanto que fica difícil não admirá-lo num país tão carente de boas intenções...as verdadeiras, claro.
Gosto de vários estilos musicais e alguns que, confesso, não costumo ouvir com frequência, mas tenho grande respeito. São as canções de raiz, ou MPB regional . Aí estão incluídos, além de outros, Almir Sater, Renato Teixeira e Rolando Boldrin. Ele representa o homem simples do campo, um pouco ingênuo, um tanto crente e, talvez, por causa disso, feliz e hospitaleiro.

Rolando Boldrin é cantor, ator, compositor, e parece dotado daquela sabedoria das coisas da terra, é um poeta caipira, mas não é um personagem que vende qualquer produto, nem é procurado pelos holofotes.

O programa Sr.Brasil, na TV Cultura, e o projeto cultural “Vamos Tirar o Brasil da Gaveta!” fazem parte de seu currículo. Como ator, no passado, já participou de muitas novelas, peças e filmes.

“Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter – não é o dinheiro, não são os aplausos – é a esperança de poder rir todos os risos e poder chorar todos os prantos” Plínio Marcos.

Boldrin nasceu na pequena cidade interiorana de São Joaquim da Barra, no estado de São Paulo. Desde pequeno, aos sete anos, já tocava a viola e começou já uma empreitada musical junto com seu irmão, aos 12 anos de idade, formando a dupla Boy e Formiga que era bem sucedida na rádio do município.

Devido a incentivos por parte de seu pai, Boldrin foi, aos dezesseis anos, para São Paulo - de carona em um caminhão. Lá, antes de finalmente emplacar na carreira de cantor, foi sapateiro, frentista, carregador, garçom e ajudante de farmacêutico. Aos 18 anos, serviu o exército em Quitaúna e nos anos que seguiram dedicou-se à atividade musical.

Assim, Boldrin debutou em 1960 como um participante do disco de sua futura esposa, que tornou-se sua produtora na época, Lurdinha Pereira. Lançou seu primeiro disco solo, pela Continental, O Cantadô, em 1974.

Em 2010, foi tema do desfile da escola de samba Pérola Negra, no carnaval de São Paulo, com o enredo "Vamos tirar o Brasil da gaveta". O seu empenho em ressaltar a cultura nacional foi um dos pontos centrais do desfile.

Homi Não Chora – Rolando Boldrin

Hoje aqui, oiando pra vancê meu pai, To me alembrando quanto tempo faz Que pela primeira vez na vida eu chorei. Não foi quando nasci pru que sei que vim berrando...

E disso ninguém se alembra, não. Foi quando um dia eu caí...levei um trupicão, Eu era criança. Me esfolei, a perna me doeu, Quis chorá, oiei pra vancê, que esperança. Vancê não correu pra do chão me alevanta.

Só me oiô e me falô: - Que isso, rapaz ? Alevanta já daí... 
HOMI NÃO CHORA.

Aquilo que vancê falô naquela hora, Calou bem fundo, pru que vancê era o maió homi do mundo. Não sabia menti nem pra mim nem pra ninguém... O tempo foi passando...cresci também... Mas sempre me alembrando..

HOMI NÃO CHORA. Foi o que vancê falô. O mundo foi me dando os solavanco, Ia sentindo das pobreza os tranco... Vendo as tristezas vorteá nossa famía, E as vêiz as revorta que eu sentia era tanta Que me vinha um nó cego na garganta, Uma vontade de gritá... berrá, chorá... mas quá... Tuas palavra, pai, não me saía dos ouvido... HOMI NÃO CHORA.

Intão, mesmo sentido, eu tudo engolia E segurava as lágrima que doía... E elas não caía, nem com tamanho de Quarqué uma dô...

Veio a guerra de 40... e eu tava lá... um homi feito, Pronto pra defendê o Brasí. Vancê e a mãe foram me acompanhá pra despedi. A mãe, coitada, quando me abraçô, chorô de saluçá. Mas, nóis dois, não. Nóis só se oiêmo, se abracêmo e despedimo Como dois Homi. Sem chorá nem um pingo. Ah, me alembro bem... era um dia de domingo. Também quem é que pode esquecê daquele tempo ingrato ? Fui pra guerra, briguei, berrei feito um cachorro do mato, A guerra é coisa que martrata... Fiquei ferido... com sodade de vancês... escrevi carta. Sonhei, quase me desesperei, mas chora, memo que era bão Nunca chorei... Pruque eu sempre me alembrava daquilo que meu pai falô: - HOMI NÃO CHORA.

Agora, vendo vancê aí... desse jeito... quieto... sem fala, Inté com a barbinha rala, pru que não teve tempo de fazê.. Todo mundo im vorta, oiando e chorando pru vancê... Eu quero me alembrá... quero segurá... quero maginá Que nóis dois sempre cumbinemo de HOMI NÃO CHORÁ... quero maginá que um dia vancê vorta pra nossa casa Pobre... e nóis vai podê de novo se vê ansim, pra conversá. Intão vem vindo um desespero, que vai tomando conta... A dô de vê vancê ansim é tanta... é tanta, pai, Que me vorta aquele nó cego na garganta e uma lágrima Teimosa quase cai... Óio de novo prôs seus cabelo branco... e arguém me diz Agora pra oiá pela úrtima vez..que tá na hora de vancê Embarcá.

Passo a minha mão na sua testa que já não tem mais pensamento... e a dô que tô sentindo aqui dentro, Vai omentando...omentando, quase arrebentando Os peito...e eu não vejo outro jeito senão me descurpá. O sinhô pediu tanto pra móde eu não chorá... HOMI NÃO CHORA... o sinhô cansô de me falá...mas, pai, Vendo o sinhô ansim indo simbora... me descurpe, mas, Tenho que chorá.

Fonte: http://www.rolandoboldrin.com.br/home.asp#
ELI BOSCATTO
Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta...


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PARCERIAS INGÊNUAS: HISTÓRIA DE ANGEL, VERSOS DE MIRIAN WARTTUSCH

Lembranças de criança


Ah, quanto eu queria, encontrar-te um dia,
No encanto, no brilho da estrela fulgente
Na força do vento, nos versos das luas,
No cheiro da relva com o cheiro da gente.


Vencer o vazio, quebrando o silêncio,
Do tempo que passa como atroz algoz
Ficar no passado? que triste destino,
Memórias não calam e falam de nós.


Ao som eloquente dos versos que outrora
Eu disse a você, sem pejo, sem medo...
Crianças ingênuas... Paixão inocente,
Tecendo uma história, contando um enredo.


Correr como antes, crianças serenas
Um sonho impossível de pura euforia
Tal qual o fizemos infância saudosa,
Retornar no tempo, que lindo seria!


A bola, a boneca, menina e menino,
Ficou no passado, não volta jamais.
Correr, pega-pega, com tal alegria,
Estar com você, eu gostava demais.


Assim, de mãos dadas, ciranda a rodar,
O mundo era lindo, com tal colorido,
Seria melhor se eu tudo esquecesse
Do nosso futuro não tivesse sabido!


A distância separa, e se dói a saudade
Atada nos laços de um algo sublime.
Vivência isso tudo, que nos tange a alma,
Nos torna passíveis do mais lindo crime.


Amar sem fronteiras, crianças ou não,
O encanto não cessa... Nos traz prisioneiros.
Você não entende? Então não sentiu,
O encanto que mora nesse amor primeiro.




Mirian Warttusch

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quinta-feira, 16 de março de 2017

SÉRGIO PEZZA E ZANZA OLIVER SEXTA (17) NA AABB ITABUNA

Cantores se apresentam mais próximos do público na AABB Itabuna


Quem ainda não viu como Sérgio Pezza e Zanza Oliver (em pé na foto) interagem com a plateia vai poder ver de perto na Cabana do Tempo da AABB Itabuna nessa sexta, 17/01, a partir das 20h00.

A apresentação do casal é na noite em que o clube libera a entrada para sócios e não sócios. Toda sexta-feira os interessados em curtir boa música podem também estacionar dentro do clube levando os amigos, a família e até as crianças, que contam com um parque (playground) e com área verde para brincar à vontade.

“A Cabana do Tempo tem bar e restaurante próprios do clube”, informa Raul Vilas Boas, vice-presidente social da AABB. Os garçons servem à mesa pratos tradicionais, além de tira-gostos e bebidas. “E é mais em conta que em outras casas de nível de Itabuna já que, além dos preços serem menores, não cobramos couvert artístico nem 10% de gorjeta”, observa João Xavier, vice-presidente administrativo.


A AABB Itabuna fica na Rua Espanha s/n, travessa da Avenida Europa Unida, no São Judas. Quem vem do litoral, o acesso é pela Ponte Calixto Midlej (Vila Zara). E quem vem do interior, o caminho é pela Beira-Rio, via Shopping e Conceição. Os telefones do clube são (73) 3211-4843 e 3211-2771 (Oi fixo).

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Contato – Raul Vilas Boas: (73) 9.8888-8376 (Oi) / (73) 9.9112-8444 (Tim)


Assessoria de Imprensa – Carlos Malluta: (73) 9.9133-4523 (Tim) / (73) 9.8877-7701 (Oi)

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ITABUNA CENTENÁRIA ONTEM: O HISTORIADOR DANTINHAS


Mais uma de Dantinhas


No ano 1991 foi publicada entrevista com o historiador JOSÉ DANTAS DE ANDRADE, intitulada “Dantinhas: Alegria de Itabuna está de Volta”.

ITABUNA CENTENÁRIA posta esta entrevista adquirida das mãos da filha do historiador, Maruse Dantas Xavier, através de um recorte de jornal que, infelizmente, não o identifica. Deixa, portanto, o tal jornal à vontade para reivindicar seus créditos
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DANTINHAS: ALEGRIA DE ITABUNA ESTÁ DE VOLTA

Aos 81 anos de idade, José Dantas de Andrade, o “Zé das Antas”, pioneiro das letras em Itabuna, com livros e artigos publicados sobre história e humorismo, está relançando “Troças das ruas e das roças”, uma coletânea de seus melhores “causos”, trovas e piadas. Ao lado do escritor, conviveu (está aposentado, “recolhido” à estância de Olivença) o homem prático: presidente da LIDA, funcionário ( e gerente) do Banco Rural durante mais de 40 anos e figura pública de Itabuna, lugar que escolheu para morar em 1927.

Como era a Itabuna dos anos 20?
“Em 1927, quando eu cheguei, só existia os bairros da Mangabinha, Berilo e Jaqueira, mais nada. A cidade era Tabocas. Para você ter uma ideia, para chegar ao trabalho eu atravessava um ribeirão que ficava bem no meio da atual Praça Camacã. Eu botava a calça na cabeça e lá vamos nós...”

O Senhor sempre foi ligado aos jornais...
“Eu acompanhei o progresso de Itabuna e acho que contribuí com esse progresso, tanto no banco quanto nos esportes e também no jornalismo, publicando crônicas. Naquele tempo, só havia o Jornal de Itabuna, O Intransigente e O Gladiador. Só mais tarde, em 1946, começaram a surgir outros jornais”.

E como era a luta política da época?
“Era o tempo do coronelismo. É notável o período em que as paixões se dividiam entre Firmino Alves e Henrique Alves. Mas havia respeito entre os opositores. Tanto assim que quando Firmino Alves morreu, seu rival Henrique Alves compareceu ao enterro, levando condolências à família. Não havia as brigas de hoje, quando os homens públicos parecem que perderam o respeito entre si”.

E Dantinhas escritor, como surgiu?
“Meu primeiro livro chamava-se “Espírito da Roça” e foi publicado em 1937. Depois vieram “Arranca Toco” e “Estica Toco”. Em 1968, reuni tudo que havia escrito e fiz uma coletânea com o título de “Troças da rua e da roça”, o que vai ser reeditado agora”.

Como surgiu esta vontade de escrever?
“Eu não sei bem qual a minha influência. Acho que já nasci assim brincalhão. Quando chegava um circo na cidade, eu bancava o palhaço, participava dos ‘dramas’, subia no picadeiro. Às vezes, o público me preferia ao palhaço. Quase cheguei a desempregar um palhaço uma vez, porque eu fui mais engraçado do que ele, segundo a opinião do público do circo”.

E seu humor já fez algum inimigo?
“Só me lembro que ficou meu inimigo foi o ex-prefeito Félix Mendonça, devido a uma crítica que eu fiz a ele: Numa ocasião, ele mandou o comércio enfeitar as lojas para o Natal e construiu na Praça Adami uma árvore de Natal. Os operários da Prefeitura, com má vontade, pegaram um mastro e encheram de gambiarras, armando uma árvore de Natal bastante estranha. Na minha coluna ‘Beliscando’, que eu assinava no jornal, contei que um menino perguntou ao seu pai o que era aquela armação na praça e o pai respondeu:
‘Nem no norte nem no sul
Eu nunca vi coisa igual
Pau de sebo iluminado
Como árvore de Natal’.

Quando Félix soube, mandou consertar a tal árvore, mas foi pior: o encarregado da obra tirou as gambiarras e deixou o pau, sem as lâmpadas, sem mais nada. Foi aí que um engraçado escreveu este verso à máquina e pregou lá:
‘O povo não gostou
Do meu pau iluminado
Tirei a luz do meu pau
Deixei o meu pau pelado’.  Assinado Félix Mendonça, prefeito da cidade.
Félix mandou me chamar, me deu um esporro desgraçado e ficou meu inimigo”.

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MANIFESTO DE DESAGRAVO DA ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA


Manifesto de desagravo da
Academia de Letras de Itabuna


          Os membros da Academia de Letras de Itabuna – ALITA, signatários desta nota pública, vêm manifestar seu repúdio às atitudes injuriosas e difamatórias do acadêmico e blogueiro Rilvan Batista de Santana contra a instituição e seus diretores atuais, sendo ele um dos integrantes do quadro associativo da entidade.
            Entendemos que uma academia de letras deva pautar-se pela postura ética de seus membros, afetividade e lealdade, promoção e defesa da liberdade de expressão como uma de suas metas principais. Se a ALITA não está sendo eficiente nas suas funções, merece a crítica da sociedade, do formador de opinião, mas em um julgamento pautado em princípios éticos, antes de tudo, com base em elementos verdadeiros e construtivos.
            O membro que renega seu perfil acadêmico e vai ao público para difamar sua entidade, melhor faria se, por coerência, pedisse o afastamento e, desligado da instituição, emitisse sua opinião agressiva sobre a atuação dos demais membros, ou mesmo da instituição como um todo.
            É inadmissível que a crítica nutrida na aleivosia, ressentimento e perseguição seja levada ao público por um dos seus membros contra a própria instituição e os integrantes de sua Diretoria, pessoas honradas, que vêm prestando serviços positivos à sociedade local ao longo dos anos. O plantel de membros da Academia de Letras de Itabuna é constituído de expressivos escritores e poetas, comunicadores, juristas, competentes professores universitários, valorosos atores, gestores culturais.
            Desprovida do bem, a crítica insensata, praticada reiteradas vezes por um dos membros da Academia de Letras de Itabuna à própria instituição, da qual o ofensor faz parte, não merece crédito, levando-se em conta vários aspectos. Quando usa seu blog, o acadêmico em foco o faz no afã de difundir o terrorismo cultural, ferindo a ética, maltratando a verdade, tornando a vida tumultuada e feia. Demonstra, com isso, a natureza de alguém que, na condição de órfão do mundo, quer aparecer a qualquer custo e enganar os incautos.
            Desde 2011, quando foi instalada, até a presente data, a instituição vem prestando serviços relevantes à comunidade. O registro da memória das atividades desenvolvidas faz parte do noticiário local e dos assentamentos arquivados na ALITA, inteiramente à disposição de quem queira consultá-los.
            A Academia de Letras de Itabuna foi criada pelo idealismo do promotor Carlos Eduardo Lima Passos, dos juízes de Direito Antonio Laranjeira e Marcos Bandeira, do professor universitário e escritor Ruy Póvoas e do escritor Cyro de Mattos. Não surgiu para abrigar figuras inexpressivas em seu quadro, nem ser um clube de serviço onde circule o elogio fácil e o alimento da vaidade. Não se trata de um valhacouto de idosos como ofende injustamente o acadêmico inconformado e blogueiro Rilvan Batista de Santana.
            Em razão dos fatos expostos, os signatários desta nota pública, de maneira constrangida, vêm manifestar seu repúdio geral e irrestrito às acusações inconsequentes e infundadas do confrade Rilvan Batista de Santana contra a Academia de Letras de Itabuna e sua diretoria atual.

Itabuna, 10 de março de 2017

Sônia Carvalho de Almeida Maron, Ruy do Carmo Póvoas, Lurdes Bertol Rocha, João Otávio de Oliveira Macedo, Cyro Pereira de Mattos, Carlos Eduardo Passos, Marcos Antonio Bandeira, Sione Porto, Janete Ruiz Macedo, Silmara Santos Oliveira, Maria Delile Miranda de Oliveira, Maria Palma de Andrade, Raquel Rocha, Margarida Cordeiro Fahel, Ary Quadros Teixeira, Maria de Lourdes Netto Simões, Carlos Valder do Nascimento, Maria Luísa Nora.

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quarta-feira, 15 de março de 2017

A LISTA ESCONDE - Merval Pereira

A lista esconde


Proibida a doação eleitoral por empresas pelo Supremo Tribunal Federal, e inviabilizada pelos escândalos que estão sendo revelados desde o mensalão e que agora, no petrolão, ganharam detalhes perversos de utilização dos mecanismos institucionais da democracia para lavar o dinheiro das propinas oriundas de verba pública, a política ficou sem meios de se financiar. E fazer campanha eleitoral custa caro em qualquer lugar do mundo.

Somente os candidatos a deputado federal nas últimas eleições declararam doações no valor total do Fundo Partidário para todos os partidos, o que significa que faltaria dinheiro para financiar os demais candidatos a todos os cargos eletivos, inclusive presidente da República.

É essa constatação que está levando à conclusão de que somente uma escolha com lista fechada de candidatos, financiada por verba pública, pode viabilizar a eleição de 2018 que, sem isso, ficaria à mercê do dinheiro ilegal, venha de onde vier.

O sistema de lista fechada, no qual os candidatos são elencados pelos partidos, mas os eleitores votam apenas na legenda partidária, era o sonho do PT na época do pós-mensalão, e, com maior razão ainda, nos dias de hoje. Um detalhe sintomático aparece nas propostas em estudo: a garantia das “candidaturas natas” aos atuais detentores de mandato legislativo em todos os níveis, privilégio que foi suspenso pelo Supremo Tribunal Federal em 2002 para garantir a isonomia aos candidatos.

Hoje, quando a maioria dos atuais parlamentares está envolvida por delações de corrupção de empreiteiras, ter a garantia de concorrer a uma vaga acobertado pela sigla partidária vale ouro para os parlamentares, com trocadilho.

Essa proposta de lista fechada, no entanto, já foi derrotada dentro do próprio Congresso, quando ela parecia mais favorável ao PT do que aos demais partidos. O ambiente político mudou, e a solidariedade entre os acusados, sem diferenciação partidária, faz com que a proposta tenha boa chance de ser aprovada.

Ela traz em si uma contradição fundamental, a de fortalecer as direções partidárias no mesmo momento em que os partidos políticos brasileiros estão desmoralizados às vistas da Nação. Na primeira tentativa, foi relevante para que não fosse aprovada ressaltar que os eleitores não escolheriam seus candidatos diretamente, mas votando em uma lista previamente preparada pelos partidos.

Hoje, essa especificidade é justamente o que faz a proposta ser palatável a uma maioria parlamentar que quer se esconder do eleitor. A reação à proposta pode vir apenas das manifestações populares, mas na situação atual os senhores parlamentares já não se assustam com a voz rouca das ruas, mas com a possibilidade de cair na lista do Janot.

Não que, em isso acontecendo, temam ser condenados pela Justiça e impedidos de disputar as eleições, sabem que não haverá tempo para tal. Mas temem ser rejeitados pelos eleitores caso tenham que fazer campanhas individuais. No bolo partidário, têm mais chance de passar no teste eleitoral.

Outro foco

O depoimento de Emilio Odebrecht ao juiz Sérgio Moro pode ter sido um alívio para os lulistas, e uma frustração para os anti-Lula, mas nenhuma das partes tem razões para tal.

Emílio era testemunha de defesa de seu filho Marcelo, e foi em tal condição, e não na de delator, que falou a Moro.
Tentou minimizar a atuação do filho como grande corruptor dos políticos e mesmo como o idealizador do tal Departamento de Ações Estrturadas, onde eram contabilizadas as corrupções da empreiteira.

Disse que desde o tempo de seu pai Norberto o Caixa 2 político existia, o que deve ser verdade. Mas na sua delação premiada, ele revelou os detalhes que diferenciam as ações atuais das anteriores.

Não falou de Lula agora por que não lhe foi perguntado. E não lhe foi perguntado por que Moro já tem informações de sobra sobre o tema.

Depende
      
Nem todo Caixa 2 é crime, lembra um advogado amigo. E dá dois exemplos: no tempo da ditadura militar, financiar o PMDB na oposição era perigoso. O empresário que se dispusesse a tal, e eram poucos, não queriam seus nomes revelados com receio de represálias políticas e econômicos.

Outro caso: a burocracia exige tamanha papelada para registrar qualquer doação, por menor que seja, que às vezes é melhor doar informalmente do que preencher os formulários. 
Isso, é claro, justifica o Caixa 2 de pequenas quantias, até, digamos, R$ 10 mil reais.

O Globo, 15/03/2017


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Merval Pereira - Oitavo ocupante da cadeira nº 31 da ABL, eleito em 2 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, falecido em 27 de fevereiro de 2011, foi recebido em 23 de setembro de 2011, pelo Acadêmico Eduardo Portella.

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