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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

RENAN TORNOU SENADO UMA ALAGOAS HIPERTROFIADA - Josias de Souza

Renan tornou Senado uma Alagoas hipertrofiada
Josias de Souza
06/12/2016 

O réu Renan Calheiros transformou sua ruína judicial num processo de desmoralização do Senado da República. Com a cumplicidade da volante que faz as vezes de Mesa Diretora, Renan peitou Marco Aurélio Mello, o ministro da Suprema Corte que o havia expulsado da linha sucessória da Presidência da República. Ao se recusar a cumprir a ordem, Renan fabricou uma crise institucional a partir de um processo nascido no leito de um relacionamento extraconjugal. E o Senado virou uma espécie de Alagoas hipertrofiada.

Ou a banda muda do Senado faz barulho ou os cangaceiros da Mesa Diretora darão à maioria dos senadores uma péssima reputação. O processo que levou o Supremo Tribunal Federal a converter Renan em réu mistura o que há de mais nefasto na política brasileira. Renan teve uma filha fora do casamento. Até aí, problema dele e da patroa. Acusado de pagar a pensão da criança com dinheiro recebido da Mendes Júnior, enrolou-se nas explicações. E o problema passou a ser do contribuinte, que já não suporta fazer o papel de bobo.

Os senadores tiveram a oportunidade de se livrar de Renan em 2007, quando as pulsões do senador ganharam as manchetes. Em troca da renúncia à presidência do Senado, preservaram-lhe o mandato. Mais tarde, devolveram-lhe a poltrona de presidente mesmo sabendo que o caso resultara em denúncia da Procuradoria. Deitando-se ao lado de Renan na mesma cama pela terceira vez, o Senado levará seu desembaraço moral às fronteiras do paroxismo, humilhando-se de forma inédita. O Brasil não merece.

Com atraso de quase uma década, Renan vive o seu ocaso. Afora o caso em que virou réu, responde a outros 11 inquéritos, oito dos quais relacionados à Lava Jato. Cedo ou tarde, terá o mesmo destino de Eduardo Cunha, hoje um hóspede do PF’Inn de Curitiba. Já se sabia que o Congresso brasileiro tem um comportamento de alto risco. Mas não se imaginou que os senadores iriam para o suicídio abraçado ao cangaço.

Segundo a cultuada concepção de Churchill, a democracia é o pior regime com exceção de todos os outros. Pois o Senado parece decidido a dar razão a todos os que defendem as alternativas piores. Para usar as mesmas palavras de Renan: ''A democracia, mesmo no Brasil, não merece esse fim.'' Resta agora saber como reagirá o plenário do Supremo.




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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

ROMPER COM O DISCURSO POÉTICO NÃO É COMO ROMPER COM O PROCESSO SOCIAL- Ferreira Gullar

Romper com o discurso poético não é como romper com o processo social

Mudar é próprio da existência. Tanto muda a natureza como mudamos nós, a sociedade e a cultura; e, se há o que muda independentemente da nossa vontade, há o que mudamos nós, por nossa própria determinação.

Naturalmente, dentre essas mudanças por nós mesmos realizadas, há as que decorrem de determinantes que mal controlamos e as que resultam de nossa opção consciente.

Fui levado a refletir sobre esses fenômenos ao me deparar com os problemas que enfrentamos, sobretudo na época moderna em face da necessidade de mudar a sociedade em que vivemos, que se impôs a partir da revolução industrial e do desenvolvimento do regime capitalista.

Em função disso, a partir da segunda metade do século 19, em praticamente todos os setores da sociedade, mudanças radicais se impuseram. Agravou-se uma visão crítica do modo de produção capitalista que iria culminar, em começos do século 20, com a revolução comunista de 1917.

É também no final do século 19 que, no terreno das artes, surge um movimento renovador que culminará com a eclosão cubista no início do século 20. Tais eclosões revolucionárias, tanto do campo de produção industrial quanto da criação artística, não são meras coincidências, mas, sim, resultantes das complexas relações que condicionam essas distintas manifestações da criatividade humana.

Um século depois de deflagradas, essas mudanças radicais, tanto no campo político-econômico como no plano estético, ambas, após as mudanças que provocaram, esgotaram-se.

No campo artístico, após uma série de movimentos realmente inovadores, chegou-se à desintegração das linguagens e, finalmente, a uma espécie de vale-tudo. Isso porque, quando se afirma que será arte "tudo o que se disser que é arte", é decretado o fim da arte.

No campo político não chegamos a esse niilismo, nem poderíamos chegar, pelo fato de que a política não lida apenas com metáforas, mas com a realidade concreta da vida.

E aqui chegamos ao ponto que me levou a estas considerações: se é verdade que a mudança é um fator decisivo da existência e, portanto, também da realidade social, inovar, neste campo, não é o mesmo que inovar no campo das artes, pelo fato de que este é um terreno particularmente complexo, pois envolve desde o pão de cada dia até o custo das aposentadorias e o índice de desemprego.

A Revolução Soviética de 1917 deu início a mudanças radicais na sociedade russa, mas também no processo político mundial, fomentando, sobretudo na intelectualidade e na juventude, a luta por uma sociedade anticapitalista, justa e revolucionária.

Essa utopia não se realiza plenamente em razão mesma da complexidade dos problemas nela implicados. Marx subestimou a importância decisiva da iniciativa privada no processo econômico e, com isso, perdeu a disputa com o regime capitalista.

Em consequência disso, aquela ideologia perdeu força, mas a luta pelas mudanças sociais ainda se mantém, seja na versão do populismo latino-americano, seja no projeto de alguns partidos que pregam um socialismo moderado em diversos países europeus.

Há, ainda, também na Europa, países que praticam um capitalismo sensato, em que a diferença de renda é compensada com a prestação, pelo Estado, de serviços eficientes no campo da saúde e da educação, sobretudo.

Em países como o nosso, esses serviços são muito mais precários não só porque os recursos são insuficientes, mas porque o número de pessoas carentes é muito maior.

Na América Latina surgiram alguns governos populistas que tentaram explorar politicamente essa desigualdade, implantando programas que excluíam a possibilidade real de colocá-los em prática. A consequência disso foi o agravamento da situação econômica geral e a estagnação do crescimento, que resultou no fracasso desse populismo nos países que tentaram implantá-lo.

Então, volto à tese que já expus aqui: uma coisa é romper com a lógica do discurso poético; outra coisa, muito diversa, é romper com a lógica do processo social. Dá em Venezuela, por exemplo. 

Folha de São Paulo, 20/11/2016




FERREIRA GULLAR 
Sétimo ocupante da cadeira nº 37 da ABL, eleito em 9 de outubro de 2014, na sucessão de Ivan Junqueira, e recebido em 5 de dezembro de 2014, pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.
Ferreira Gullar nasceu em 10 de setembro de 1930, em São Luís do Maranhão – MA e faleceu  em 4 de dezembro de 2016, no Rio de Janeiro.

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NÍDIA COSTA REIS & EGLÊ S MACHADO: BRINCANDO COM AS EXPRESSÕES

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
Dueto: Nídia Costa Reis & Eglê S Machado


Nídia Maria da Costa Reis:
Peço licença para invadir sua página e enviar-lhe outra "brincadeira" que já publiquei no Facebook tempos atrás. Você pediu e aí vai:
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Há alguns anos, escrevi esta história empregando expressões populares muito conhecidas. Ela foi bastante comentada e apreciada, e tema de um programa na rádio São João del-Rei, do qual participei ao vivo, como convidada.

 Um rapaz nasceu onde Judas perdeu as botas e sempre andou de déu em déu. Sua vida foi difícil. Comeu o pão que o diabo amassou, mas nunca entregou a rapadura.
 Certa vez, arranjou um emprego, mas foi fogo de palha. O patrão despediu-o e ele saiu com uma mão na frente e outra atrás. O rapaz continuou seu caminho. Encontrou um homem assentado debaixo de uma árvore com cara de quem comeu e não gostou. Quis puxar conversa. O homem não estava disposto e, diante da insistência do rapaz, perdeu as estribeiras e partiu para a ignorância. O rapaz deu no pé
Ao longe, viu uma fazenda e resolveu pedir pousada. Ao chegar, achou que ia tirar a barriga da miséria porque a cozinha estava sortida. A dona da casa era uma unha de fome e dizia que as coisas estavam pela hora da morte. Deu-lhe uma xicrinha de café puro e mandou-o picar a mula. Ele não gostou e começou a xingar a dona que ouviu cobras e lagartos
Nesse instante, apareceu o dono da fazenda e resolveu mostrar ao rapaz com quantos paus se faz uma canoa. Olhou para ele e começou a rir de sua boca de chupar ovo. Disse-lhe que ganharia comida só no dia em que na galinha nascesse dente. A única coisa que poderia ganhar era um pouco de água que o passarinho não bebe. O rapaz respondeu que não era seu irmão de opa e que ele estava chorando de barriga cheia. O dono nem abanou o rabo e saiu
O rapaz pensou: “É, desse mato não sai coelho. Vou cantar em outra freguesia.
Chegou a uma cidade depois de uma longa caminhada. Ele tinha mesmo fôlego de sete gatos. Aproximou-se de um mercadinho e entrou. Começou a examinar as mercadorias porque não podia levar gato por lebre. Ele achou que as mercadorias estavam na bacia das almas e ficou com água na boca. Perguntou ao dono se podia comprar fiado. Alguém gritou de longe: “Não vende não porque ele não apaga nem fogo na roupa”. Era um leva-e-traz que ele conhecia e gostava de fazer tempestade num copo d'água. O dono do mercadinho era um água morna e deixou-o escolher alguma coisa para comer. Aí, caiu a sopa no mel. O rapaz pensou: “Vou aproveitar enquanto Braz é o tesoureiro”. Encheu a sacolinha e foi saindo. A moça do caixa disse-lhe que ele devia vinte reais. “Eu sei. Você quer ensinar o Pai Nosso ao seu vigário?”, respondeu ele. A moça disse: ”Vá pagando e vá saindo. Aqui é assim: tretou, relou, o pau cantou”. 
O dono chegou e pôs água na fervura. Dirigindo-se ao rapaz, disse: ”Você quer ir para a cidade dos pés juntos ou quer ficar para semente?” E continuou: ”Sabe de uma coisa? Dê-me esta sacola. Você é muito atrevido e vai ficar a ver navios. Se ficar cheio de nove horas, vou chamar a polícia e você vai ver o sol nascer quadrado.
O rapaz, que estava com a orelha pegando fogo, respondeu. “Não quer receber os vinte, não é? Sua alma, sua palma. Não vou me vender caro, nem meter os pés pelas mãos. Não adianta remar contra a corrente. Vou sair desta espelunca antes que esta história termine em pizza...”

Nídia costa Reis

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Eglê S Machado:

Amiga Nídia Costa Reis, esse rapaz é meu conhecido:

O ADEMAR! 

Eis que o caldo engrossou para o Ademar!
Porém já que água mole em pedra dura tanto bate até que fura, ele,  teimoso igual uma mula acabou se arranjando. A sorte que não tá nem aí para os errados  lhe deu uma mãozinha. E ele conseguiu  se mancar e procurar fazer da natureza força  depois de concluir que santo de casa não faz milagre  e resolveu  sair de fininho  rumo a outra fazenda bem distante desta, com muita fartura de trabalho e alimento.
Como quem é do chão não quer colchão demorou para acostumar-se com a nova vida, para depois   passar a dar duro confiando que de grão em grão a galinha enche o papo.  Afoito, sempre agiu como seu pai, pois quem sai aos seus não degenera. A velha Benta vivia afirmando: tal pai, tal filho!
Conseguiu fazer boas amizades, é belo, veste-se bem e é admirado. 
Como  em  terra de cego quem tem um olho é rei, ele começou  um novo tempo. Chegou à conclusão de que águas passadas não movem moinhos, e começou a sonhar com uma companheira para formar família. Logo estaria enfeitiçado por alguma das muitas moças da fazenda e redondezas; o tempo inteiro observava as meninas pensando em fazer a melhor escolha, já que macaco velho não mete a mão em cumbuca. Detesta a solidão embora afirme que antes só do que mal acompanhado.
Nos vilarejos vizinhos sua intenção de casar-se deixou em polvorosa as mocinhas casadoiras, e os mancebos invejosos. Dom Juan do pedaço, Jaime, tropeiro de profissão nota a animação da Ritinha, sua fã que suspirava pela sua pessoa e agora nem lhe olha e vive em constantes cochichos com as amigas. Lembrando-se da sua avó que dizia cochilou, cachimbo cai tratou de ser mais delicado com a Ritinha e no seu coração ameaçava o intruso apelidava-o de tucano rico de pena e bico e não entendia o que sua apaixonada esperava do forasteiro, se nem ao menos o conhecia. Enfim, pensou, cada cabeça, uma sentença e decidiu que no final da semana falaria com os pais da menina, assumiria compromisso de noivado, já que mais vale um pássaro na mão do que dois voando
Sorriu   prometendo que na primeira oportunidade diria na cara do rival: quando você ia buscar os cajus, eu já vinha com as castanhas.
O nosso Ademar que conseguiu economizar alguns reais resolveu deixar a fazenda para montar um comércio de artigos femininos, ou um armarinho, a fim de melhor manter contato com as moças, saber sobre suas famílias e quem sabe encontrar sua cara metade.
Encontrou um pequeno ponto comercial na rua principal da vila de Mutuns, que, se o dono estivesse disposto a fazer uma pequena reforma e cobrar um aluguel justo, o alugaria até conseguir seu próprio imóvel. Qual não foi o seu espanto ao descobrir que Lucilo, seu amigo de adolescência e lupanares há cinco anos, era o proprietário do imóvel. 
Lucilo ficou contente por vê-lo, mas lamentou estar de viagem para  João Pessoa. Iria encontrar uma rica paraibana  que estava enrabichada por ele e lhe enviara uma passagem de avião exigindo sua presença. Como o costume do cachimbo é que põe a boca torta Lucilo estava de malas prontas, disposto a mais uma aventura, desta vez com uma mulher de cabelo nas ventas que lhe prometia chamego, diversão e tripa forra todos os dias; segredou ao amigo: mulher de bigode nem o diabo pode
Ademar ainda tentou dissuadi-lo: rapaz,  cuidado, em terra que eu não vou, feijão bota na raiz, lá é muito seco, terra que filho chora e mãe não vê...  No que o amigo, retrucou: ham, quem desdenha quer comprar... Não se avexe não   que vaso ruim não se quebra. Cê fica com minha casa, monta seu armarinho, não me paga nada e ainda assino documento de doação, tudo em nome dos nossos bons tempos.
Ademar  viu que teria de gastar algum dinheiro com a reforma, mas ficou contente e concluiu que de cavalo dado não se olha a muda
Lucilo partiu (a bem da verdade pesaroso por deixar a vila e os amores). Já no avião decolando deu um muxoxo e pensou: ora, vão-se os anéis ficam os dedos...
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Casa reformada, armarinho montado, freguesia conquistada, sem concorrente à altura, o Ademar já planejava adquirir o terreno baldio ao lado, onde construiria uma boa casa assim que escolhesse a mulher que se tornaria sua  cara metade. Já observara e se informara de vida pessoal, familiar e financeira da maioria das moças da vila, seu coração ora pendia para uma, ora para outra, mas permanecia ainda pulando de galho em galho.
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O tropeiro Jaime já montara casa, a Ritinha já estava com o enxoval pronto, faltando alguns detalhes de acabamento. O noivo lhe pedira para acompanha-la quando fosse comprar algo para o enxoval e sempre a levava ao armarinho  de um amigo que um dia lhe ajudara e assim uma mão lavada lava a outra, explicava. 
Na Capelinha da Assunção corriam os proclamas, toda a Vila se engalanava para o evento.
Ademar não estranhava não ter sido convidado, pois há poucos  meses o noivo esteve no armarinho jogando conversa fora e falou do seu casamento próximo. Quando lhe foi oferecido crédito para alguma compra respondeu irônico palavras sem nexo sobre buscar cajus e trazer castanhas, deu-lhe as costas por resposta  e afastou-se dizendo que ri melhor quem ri por último.  Ademar não entendeu tal reação e comentou consigo mesmo: cada doido com a sua mania...
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Ritinha, meio desanimada estava diante da sua mãe que lhe tirava as medidas para a confecção do seu vestido de noiva. Dona Lara já escolhera o tecido branco e junto com a filha escolhiam o modelo com cauda não muito longa para economizar tecido, mangas compridas  e decote discreto, com enfeites que deveriam escolher  em um dos  armarinhos da Vila. 
Como  o noivo não pode tomar conhecimento de detalhes do vestido da noiva ou vê-lo antes do dia do casamento, dona Lara resolveu acompanhar a filha para as compras dos aviamentos e já a caminho optou pelo armarinho do Ademar por ser o seu estoque de qualidade sabidamente superior ao do concorrente. Ritinha lembrou à mãe que o Jaime sempre fez questão de comprar no armarinho do amigo, mas dona Lara pensou um pouco e disse à filha: aí é que a porca torce o rabo, quero o que há de melhor na vila para  seu vestido de noiva e várias vezes já fiz compras no armarinho do seu Ademar que é muito educado e sempre me dá um bom desconto.  Vamos para lá, pois quem muito dorme pouco aprende oxente!
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Três anos depois, a vila novamente em polvorosa, a Capelinha da Assunção  engalanada, proclamas já corridos, a casa construída vizinha ao armarinho do Ademar  pintada de branco com janelas verdes parecia cenário de contos de fadas, Lucilo e a sua Paraíba mais uma bela  pré-adolescente convidados  especiais.  Até a Bandinha da escola foi escolhida para tocar a marcha nupcial no casamento da Ritinha, a professora mais querida com Ademar, o maior comerciante da Vila.
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E os amigos do Jaime até hoje não entenderam como o tropeiro teve a coragem de picar a mula, abandonando a tropa na estrada, desistindo de um casamento praticamente aos pés do altar.
Alguém comentou que um estradeiro muito parecido com o Jaime  foi  visto na feira livre de uma cidade distante lendo suas histórias de Cordel. Uma boa plateia  às gargalhadas aplaudia o poeta, principalmente quando  ele repetia sem cansar que:  fogo ladeira acima, água ladeira abaixo e mulher quando quer, não tem quem segure!...


 Eglê S Machado



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domingo, 4 de dezembro de 2016

JANOT: "O PAÍS EM MARCHA A RÉ NO COMBATE À CORRUPÇÃO"

Rodrigo Janot acaba de divulgar nota sobre o AI-5 da ORCRIM:
Brasil 30.11.16 

"Foram mais de dois milhões de assinaturas. Um apoio maciço da sociedade brasileira, que também por outros meios se manifestou. Houve o apoio de organismos internacionais. Foram centenas de horas de discussão, de esclarecimento e de um debate sadio em prol da democracia brasileira. Foram apresentadas propostas visando a um Brasil melhor para as futuras gerações.
No entanto, isso não foi o suficiente para que os deputados se sensibilizassem da importância das 10 Medidas de Combate à Corrupção. O resultado da votação do PL 4850/2016, ontem, colocou o país em marcha a ré no combate à corrupção. O Plenário da Câmara dos Deputados desperdiçou uma chance histórica de promover um salto qualitativo no processo civilizatório da sociedade brasileira.
A Casa optou por excluir diversos pontos chancelados pela Comissão Especial que analisou as propostas com afinco. Além de retirar a possibilidade de aprimorar o combate à corrupção – como a tipificação do crime de enriquecimento ilícito, mudanças na prescrição de crimes e facilitação do confisco de bens oriundos de corrupção –, houve a inclusão de proposta que coloca em risco o funcionamento do Ministério Público e do Poder Judiciário, a saber, a emenda que sujeita promotores e juízes à punição por crime de responsabilidade.
Ministério Público e Judiciário nem de longe podem ser responsabilizados pela grave crise ética por que passa o país. Encareço aos membros do Ministério Público Brasileiro que se mantenham concentrados no trabalho de combate à corrupção e ao crime. Que isso não nos desanime; antes, que nos sirva de incentivo ao trabalho correto, profissional e desprovido de ideologias, como tem sido feito desde a Constituição de 1988. Esse ponto de inflexão e tensão institucional será ultrapassado pelo esforço de todos e pelo reconhecimento da sociedade em relação aos resultados alcançados.
Um sumário honesto da votação das 10 Medidas, na Câmara dos Deputados, deverá registrar que o que havia de melhor no projeto foi excluído e medidas claramente retaliatórias foram incluídas. Cabe esclarecer que a emenda aprovada, na verdade, objetiva intimidar e enfraquecer Ministério Público e Judiciário.
As 10 Medidas contra a Corrupção não existem mais. O Ministério Público Brasileiro não apoia o texto que restou, uma pálida sombra das propostas que nos aproximariam de boas práticas mundiais. O Ministério Público seguirá sua trajetória de serviço ao povo brasileiro, na perspectiva de luta contra o desvio de dinheiro público e o roubo das esperanças de um país melhor para todos nós.
Nesse debate, longe de qualquer compromisso de luta contra a corrupção, vimos uma rejeição violenta e irracional ao Ministério Público e ao Judiciário. A proposta aprovada na Câmara ainda vai para o Senado. A sociedade deve ficar atenta para que o retrocesso não seja concretizado; para que a marcha seja invertida novamente e possamos andar pra frente.
O conforto está na Constituição, que ainda nos guia e nos aponta o lugar do Brasil. Que seja melhor do que o que vimos hoje.

Rodrigo Janot
Procurador-Geral da República
Presidente do Conselho Nacional do Ministério Público"


http://www.oantagonista.com/posts/janot-o-pais-em-marcha-a-re-no-combate-a-corrupcao?utm_medium=email&utm_campaign=NL-Antagonista-2016-12-04&utm_content=NL-Antagonista-2016-12-04+CID_9fb405fd0cc0a5a6fbae2ff4a92cf8ac&utm_source=Email%20Antagonista&utm_term=Janot%20O%20pas%20em%20marcha%20a%20r%20no%20combate%20%20corrupo

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DORMIR DE CONCHINHA, por Mirian Warttusch

Dormir de conchinha




Não é privilégio dos humanos não...

Os animais nos imitam em nossa relação,

Quando assim, felizes, nos abandonamos...

- Ou será que nós é quem os imitamos?



Dormir de conchinha eu digo, sim senhor,

É um deleite, depois de se fazer amor.

Os animais, em nada deixam a desejar,

A quem dorme dessa forma singular.



Variações de quem se dá a quem se ama,

E sabe repartir o amor em sua cama.

É terno e amoroso, de um encaixe tal,

E seja lá quem inventou, foi genial!




Mírian Warttusch


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POETA FERREIRA GULLAR MORRE DE PNEUMONIA AOS 86 ANOS NO RIO

Poeta Ferreira Gullar morre de pneumonia aos 86 anos no rio

PAULO WERNECK

ESPECIAL PARA A FOLHA

04/12/2016
  
Ferreira Gullar, poeta, ensaísta, crítico de arte, tradutor, biógrafo e colunista da Folha desde 2005, morreu por volta das 10h deste domingo (4), aos 86 anos. Sua neta, Celeste, confirmou a morte. Ele estava internado no hospital Copa D'Or, no Rio de Janeiro, há cerca de 20 dias devido a insuficiência respiratória.

Segundo Maria Amélia Mello, amiga e editora de Gullar na José Olympio e também de seu último livro, "Autobiografia Poética e Outros Textos" (Editora Autêntica), o poeta morreu de pneumonia.

Com grande independência, quase sempre remando contra a corrente no poder, Gullar frequentou diferentes regiões de um amplo espectro ideológico. Renovador da linguagem poética e teórico da vanguarda, anos mais tarde ele enxergaria com olhos severos os rumos da arte contemporânea. Militante comunista, fez-se um rigoroso tribuno contra a esquerda no poder desde os primeiros momentos do governo Lula.

Sua fisionomia angulosa, cheia de vincos expressivos, fez a alegria dos designers gráficos, que a reproduziram ampliada em inúmeras capas de livros e revistas. Ao vivo, o corpo magro e frágil contrastava com o vigor escuro do olhar, o nariz proeminente que lhe dava um perfil de índio andino, os óculos metálicos dominando o rosto de fora a fora, a espessura das sobrancelhas, o gesto constante de levar as mãos à cabeça e ajeitar os cabelos muito lisos, brancos e compridos, ou então enxugar com o canto dos dedos a saliva acumulada nos lábios grossos.

Nascido em 10 de setembro de 1930, o maranhense José Ribamar Ferreira se espraiou em praticamente todos os campos da cultura, da poesia de vanguarda à canção popular, da teoria estética ao jornalismo, da ilustração de livros infantis à teledramaturgia. Quase sempre, com forte ênfase política. Para se distrair, entregava-se à reprodução de quadros de Mondrian e outros de seus mestres europeus, fazia colagens com recortes de revistas ou traduzia poesia. Está entre os primeiros nomes da extensa lista de biografias que ainda precisam ser escritas no Brasil.

Filho do comerciante José Ribamar Ferreira e da dona de casa Alzira Goulart, que lhe inspiraria o nome literário, Gullar publicou seu primeiro livro em edição do autor em sua São Luís natal, em 1949. "Um Pouco Acima do Chão" não teria lugar nas futuras edições de obra completa organizadas pelo poeta: trata-se, diz ele, de "um tateio inicial", "um livro ingênuo".

O seu segundo trabalho, de 1954, também saiu em edição do autor, mas de ingênuo não tinha absolutamente nada. "A Luta Corporal" foi a fagulha de um novo tipo de escrita que nos anos seguintes mudaria as noções tradicionais de verso, página, livro de poesia —em resumo, a própria poesia, tal como a entendíamos até então.

Escrito solitariamente, quando o autor já vivia no Rio (desde 1951), mas ainda tinha poucas conexões com o mundo literário, o livro soava como um salto radical em todas as dimensões —sonoras, gráficas, semânticas— e todas as possibilidades que a palavra impressa poderia oferecer.

"Diagramado e editado por mim, ele refletia a preocupação com a utilização do espaço em branco na estruturação espacial dos poemas, como também na titulagem e no uso da página em branco, feito camadas de silêncio acumuladas nas páginas", recordaria Gullar, anos mais tarde, em seu livro "Experiência Neoconcreta" (Cosac Naify), volume que recupera os seus anos heroicos do neoconcretismo, ao lado dos artistas plásticos Lygia Clark, Hélio Oiticica e outros amigos. Segundo ele, "A Luta Corporal" se encerrava com a "implosão da linguagem". "Mu gargantu / FU burge / MU guêlu, Mu / Tempu - PULCI", escreve ele numa das passagens mais cheias de escombros.

"Naquele tempo eu não tinha família, nem uma vida regular, vivia sozinho num quarto perto da praça da Cruz Vermelha [no Rio]", contaria o autor, anos mais tarde, à equipe dos "Cadernos de Literatura Brasileira". "Era uma vida desligada da realidade comum de todos. Eu vivia, então, 'num clima de aventura'."

Entre seus primeiros leitores, estava o escritor Oswald de Andrade, que apareceu de surpresa para cumprimentar Gullar no dia de seu aniversário, em 1953. O autor de "Poesia Pau-Brasil" tinha lido "A Luta Corporal" ainda nos originais e se impressionou pelo vigor daquele jovem poeta maranhense.
O livro também o aproximou de dois personagens-chave: os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Decio Pignatari. 

Conta Gullar que os três poetas entraram em contato com ele por carta, depois de terem lido "A Luta Corporal". Augusto foi ao Rio para um encontro com Gullar, no qual teria manifestado insatisfação com o estado da poesia brasileira naquele momento.

A correspondência inaugurada ali gestou uma das mais importantes revoluções artísticas do século 20 no Brasil, e também uma curta, porém fértil, colaboração entre o grupo dos paulistas e o dos cariocas. Não demorou a nascer também uma das mais duradouras disputas intelectuais do país, que começou em torno da paternidade da abolição do verso tradicional. Isto é, quem foi o primeiro a afirmar que um poema já não precisava mais ser organizado em linhas para ser um poema?

Gullar e os paulistas estavam juntos, na 1ª Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada em São Paulo em dezembro de 1956. Em fevereiro de 1957, quando foi inaugurada no Rio, Gullar publicou no "Suplemento Dominical do Jornal do Brasil" um artigo em resposta a um manifesto de Haroldo de Campos em que explicitava as diferenças que enxergava entre o seu grupo, o dos "cariocas", e os dos paulistas. Para Gullar, Haroldo defendia a subordinação da poesia a equações matemáticas. 
"Considerando que aquilo era inviável", registraria Gullar, anos mais tarde, "telefonei a Augusto, dizendo que não podia subscrever semelhante teoria. Sua resposta foi que eu então procedesse como me parecesse melhor, pois eles não desistiriam daquela tese."

Agora conhecidos respectivamente como os "neoconcretos" e os "concretos", os dois grupos passariam a reivindicar o pioneirismo na dissolução do verso e na exploração das dimensões concretas da palavra. A disputa, que acompanharia os contendores ao longo da vida inteira, não é facilmente explicável, mas influenciou as gerações de artistas subsequentes e ecoou, por exemplo, no Tropicalismo de Caetano Veloso.

"Lembro-me que defendia a tese de que a questão fundamental da nova poesia não era 'criar um novo verso' (como escrevera Haroldo na ocasião) e, sim, 'superar o caráter unidirecional da linguagem, rompendo com a sintaxe verbal'", rememora Gullar em "Experiência neoconcreta". "Esta tese foi aceita por eles e de algum modo contribuiu para que buscasse solução no poema visual, construído geometricamente no espaço da página."

Mais adiante, o poeta reconhece: "Sem qualquer dúvida, o contato com Augusto de Campos e com suas experiências poéticas me ajudou a sair do impasse a que chegara com 'A Luta Corporal'".

Aquele encontro no Rio, em 1955, ainda renderia, quase 60 anos depois, uma agressiva troca de farpas entre Gullar e Augusto de Campos, relativa às afirmações do maranhense de que foi ele quem apresentou aos irmãos Campos a poesia de Oswald de Andrade, referência central para os concretos. Em artigos publicados na Folha, ambos reconstituíram em minúcias o encontro, realizado no restaurante Spaghettilândia.

SUPLEMENTO DOMINICAL DO JB

Seja como for, a influência mútua entre os concretos e os neoconcretos é inegável e teve importantes desdobramentos na poesia e na teoria estética brasileira. Pignatari e os Campos deram prosseguimento à poesia concreta no grupo Noigandres; Gullar ganhou destaque como crítico e teórico do grupo carioca, em seus artigos publicados no "SDJB".
Desde 1955, Gullar estava engajado no projeto do "Suplemento Dominical" do "Jornal do Brasil", considerado um marco do jornalismo cultural brasileiro tanto em termos de design gráfico —quem fazia a diagramação e ilustrava era o artista plástico Amilcar de Castro— como de texto. A turma do "SDJB" era o correspondente, no jornalismo e na arte de vanguarda, do ímpeto criativo de João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes na criação da Bossa Nova.

O caderno levou a sensibilidade da vanguarda carioca para as páginas de um jornal dos mais tradicionais: era uma espécie de protetorado do grupo neoconcreto, com Gullar e pesos-pesados como Janio de Freitas, Reinaldo Jardim, Franz Waissman, Lygia Clark e Lygia Pape.

No "SDJB" Gullar publicou textos centrais como o "Manifesto Neoconcreto" e a "Teoria do Não Objeto" (1959), pequeno ensaio que alguns colegas de Gullar coassinaram, no qual são antecipadas questões centrais da arte contemporânea nas décadas vindouras, não apenas no Brasil, mas em nível mundial: a obra de arte que só se torna arte com a participação ativa do espectador, o "não objeto".

Naquele ano, nasceram obras que ilustram o pioneirismo de seu autor: os livros-poema, os poemas espaciais e o "Poema enterrado" -um buraco cavado no terreno da casa do pai do artista Hélio Oiticica, com cubos de diferentes cores e tamanhos que o espectador podia manipular. Debaixo do menor dos cubos, havia um quadrado com a palavra "rejuvenesça". Uma inundação, porém, inviabilizou a inauguração do "Poema enterrado", que jamais seria exibido ao público.

POEMA SUJO

Se o "clima de aventura" de sua vida no Rio tinha sido determinante para escrever "A Luta Corporal", as aventuras solitárias do exílio devolveram Gullar à criação poética radical, sem as amarras da poesia engajada. Em 1975, ele publicou "Dentro da Noite Veloz", um dos mais importantes livros de poesia da década. No ano seguinte, Gullar compõe o "Poema Sujo", seu poema mais conhecido e ícone da resistência à ditadura.

O momento não era exatamente propício à publicação de poesia no país —a nova poesia brasileira passava a ser divulgada na praia, em edições caseiras, impressas a mimeógrafo (sistema de reprodução a álcool). E foi num meio heterodoxo —uma fita cassete levada de Buenos Aires na mala do poeta Vinicius de Moraes, em abril de 1976— que um dos grandes poemas brasileiros da década de 70 chegou aos leitores.

Quem definiu o impacto daqueles 40 minutos de gravação foi o portador da fita, que não mediu palavras para descrevê-lo em carta para o amigo Calasans Neto: "Cem páginas da mais alta poesia; um troço, pai, de arrepiar os cabelinhos do cu". Gullar, exilado, e Vinicius, em turnê com Toquinho e Miúcha, agitavam as baladas dos brasileiros exilados na Argentina. Foi numa dessas festinhas regadas a caipirinha e feijoada que o maranhense leu o "Poema Sujo" para os amigos. "A emoção foi tanta, quando ele o leu para nós, que quase todo mundo chorava", lembraria Vinicius.

Gullar dava uma resposta ao clima de repressão que dominava a América Latina, explicou Vinicius: "A oportunidade do poema é total, para mostrar a esses cínicos de merda que a poesia, longe de ter morrido, está mais viva do que nunca, quando agarrada assim pelos cornos por um verdadeiro poeta." Ainda em 1976, o "Poema Sujo" seria publicado em livro pela Civilização Brasileira, num lançamento apinhado, mas sem a presença do autor.

Escaldado pelo golpe no Chile, Gullar percebeu sua permanência na Argentina se tornava cada vez mais arriscada. O país vizinho já estava sob sua mais sangrenta ditadura: num episódio jamais elucidado, naquela mesma temporada o pianista de Vinicius, Tenorinho, acabaria sendo sequestrado por agentes da repressão ao sair para comprar cigarros - seu cabelo e suas roupas bastaram para que se tornasse alvo da direita radical, entrando para a conta dos "desaparecidos" políticos da ditadura que se instalava na Casa Rosada.

Afastado pelo regime militar de sua carreira no Itamaraty, Vinicius tornou-se um embaixador de Gullar e de seu poema: promoveu audições da fita em sua casa no Rio, convidando Chico Buarque, Francis Hime, Tom Jobim, Carlos Heitor Cony, Ênio Silveira e quem mais pudesse ajudar a divulgá-lo.
Fez publicar o livro em espanhol, cavou reportagens e entrevistas com o autor. A agitação promovida por Vinicius era uma deixa para que Gullar tentasse voltar ao Brasil - seria bem menos arriscado, naquele momento em que mal se esboçava a abertura política, chegar acompanhado de uma estridente claque, cobertura da imprensa, festejos e quanto barulho fosse possível fazer.

A missão diplomática em favor de Gullar também contou com a ajuda dos jornalistas Zuenir Ventura e Elio Gaspari. Diretor-adjunto na "Veja", Gaspari, lembraria Gullar, deu ao homem forte do governo, o general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Militar da Presidência da República, um exemplar do recém-publicado "Poema Sujo". "Golbery achou-o obsceno, mas nem por isso se opôs à minha volta ao país", recordaria Gullar. "Já o general João Figueiredo, chefe do SNI, era de opinião diferente. 'Não quero esse comunista aqui', teria declarado ele, segundo Golbery."

No embalo do "Poema Sujo", do sinal verde de Golbery e de sua absolvição no processo policial-militar que o levara a deixar o Brasil, Gullar decidiu se arriscar a retornar -não sem tomar algumas precauções, como convocar a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Sindicato dos Jornalistas para acompanhar seu desembarque. "Essas medidas visavam despojar o meu gesto de qualquer traço conspiratório ou clandestino, neutralizar a ação arbitrária dos órgãos de repressão e, ao mesmo tempo, responsabilizar o governo pelo que ocorresse", explicaria o poeta em suas memórias.

Alardear o retorno nas maiores revistas de São Paulo e do Rio também fez parte da estratégia. Uma entrevista que Rui Lima publicou nas "Páginas Amarelas" da "Veja" ajudou a pavimentar o caminho de volta, apresentando os argumentos conciliatórios do poeta: "Gullar nunca foi um asilado - saiu legalmente do país e legalmente vai voltar, inclusive porque foi absolvido por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal no processo dos intelectuais, em 1974. Vários motivos o trazem de volta, além do fato de 'não suportar mais viver fora do Brasil'-entre eles um filho doente que sempre reclama sua presença, no Rio". Carlos Heitor Cony o entrevistou para a "Manchete".

Por volta de oito horas da noite do dia 10 de março de 1977, o poeta pousou no aeroporto do Galeão, no Rio. "Ao chegarmos ao guichê da polícia, onde devíamos apresentar os documentos, vi escrito numa folha presa à parede: 'Ferreira Gullar ou José Ribamar Ferreira - detê-lo". Recebido por uma multidão de amigos e jornalistas, não foi detido - mas no dia seguinte seria intimado pela Polícia Marítima. Passou o fim de semana nas mãos de policiais, foi levado de um porão da repressão para outro, tiraram-lhe a roupa e o pressionaram a responder sobre "a escola de subversão" que frequentara em Moscou. Foi libertado após uma forte mobilização de amigos.
Pouco depois, ao pedir a seu advogado que sacramentasse no Superior Tribunal Militar a extinção do processo movido contra si, Gullar descobriu que, nos autos, o José Ribamar Ferreira procurado era outro: um líder camponês, também maranhense, que, ao contrário do seu homônimo poeta, abraçara a luta armada.

CONSAGRAÇÃO

Se é certo que Ferreira Gullar, após cair na clandestinidade em 1970, percebendo que mais cedo ou mais tarde iria parar na cadeia, voltou ao país na condição de artista consagrado, ele só pode desfrutar a consagração com a abertura política, a partir de 1978, quando o AI-5 perdeu a validade, e 1979, quando passa a valer a Lei de Anistia. Naquele mesmo ano, sua voz anasalada e metálica ganhou a forma de LP no álbum "Antologia Poética", com música de Egberto Gismonti, e Bibi Ferreira montou a primeira peça que Gullar assinou sozinho, "Um Rubi no Umbigo". Em 1980, quando fez 50 anos, teve sua obra poética reunida pela primeira vez na edição "Toda Poesia" e lançou "Na Vertigem do Dia", sua primeira coletânea de poemas desde "Poema Sujo".

A convite de Dias Gomes, seu ex-camarada de Partidão, Gullar passou a integrar o núcleo de teledramaturgia da TV Globo, tendo escrito roteiros para séries como "Carga Pesada" e para a novela "Araponga". Nos anos 1980 e 90, o trabalho na TV dividiria o tempo do poeta com a publicação de livros de poemas, ensaios, traduções e crônicas. Escreveu letras para uma dúzia de canções: tem parcerias com Caetano Veloso ("Onde Andarás"), Milton Nascimento ("Bela bela") e Fagner (o hit "Borbulhas de Amor"). Entre 1992 e 1995, presidiu o Instituto Brasileiro de Artes e Cultura (Ibac), nome que Gullar trocaria pela antiga denominação do órgão, Funarte.

O retorno a uma intervenção permanente no debate cultural e político viria com força em 2005, quando passou a assinar uma coluna na "Ilustrada". Relida hoje, a coluna de estreia, "Resmungos", revela uma impressionante coerência do colunista nos mais de 11 anos que viriam pela frente. O autodeclarado "cronista bissexto" anuncia que vai escrever sobre política, "que não exige muita especialização", e arte, assunto sobre o qual "até já escrevi livros", ironiza. E, logo de saída, fustiga críticos e obras de arte contemporânea. De fato, espezinhar os governos petistas, ainda no auge do lulismo, e implicar com artistas, curadores e críticos seriam seus esportes prediletos nas páginas da Ilustrada.

(A coluna ainda serviria, de vez em quando, como um raro espaço confessional: Gullar valeu-se dela para combater causas que eram consenso nos meios de esquerda, como a lei que dificultou a internação de doentes mentais e as campanhas pela legalização de drogas. Dois filhos do escritor, Marcos, morto em 1993, e Paulo, tinham esquizofrenia grave, atribuída pela família ao abuso de drogas, nos anos 1970, durante o exílio. Gullar e sua mulher, Thereza Aragão, morta em 1994, ainda tiveram uma filha, Luciana.)

Transformados em livro, os resmungos de Gullar ganharam o Prêmio Jabuti de 2007. Aquela era uma temporada de prêmios —o Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, veio em 2005, quando o poeta fez 75 anos. Em 2010, a mais alta distinção da língua portuguesa, o Prêmio Camões, foi de Ferreira Gullar. Em 2011, os Jabutis de poesia e de Livro do Ano foram para os poemas de "Em Alguma Parte Alguma". Em 2014, foi eleito para a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, depois de passar anos afirmando que jamais aceitaria a imortalidade.

Na Flip, Gullar disse uma frase que viralizou nas redes sociais: "Não quero ter razão, quero é ser feliz!". Outra máxima criada por Gullar, "a crase não foi feita para humilhar ninguém", publicada em 1955 no "Diário de Notícias", mais tarde seria citada até em anúncios de computadores IBM, para deleite do autor.

Os livros que Gullar publicou nessa temporada de prêmios sugerem que o octogenário cheio de vitalidade não estava dando muita bola para aquelas honrarias - e provavelmente estava feliz. Em "Zoologia Bizarra" (2010) e "Bichos do Lixo", com um prosaico hobby doméstico, a colagem de papéis coloridos, ele se fez ilustrador de literatura infantil - evidentemente, compôs poemas para acompanhar os bichos de papel. Já em "Bananas Podres" (2012) Gullar retoma uma imagem recorrente em sua obra poética - o amadurecimento das frutas - em poemas manuscritos por ele mesmo e ilustrações a guache sobre jornais velhos.

Gullar deixa a companheira Claudia Ahimsa, dois filhos e oito netos.

PAULO WERNECK é editor de livros e ex-curador da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) 



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sábado, 3 de dezembro de 2016

GENTE QUE AMA ITABUNA: PROFESSORA NILDINHA, por Eglê S Machado

Professora Nildinha 


          Se perguntarem, na cidade de Itabuna, sobre Ivanildes dos Santos Dominguez talvez uma ou outra pessoa saiba de quem se trata; mas, perguntem quem é a PROFESSORA NILDINHA!... E Itabuna inteira saberá quem é.

          Nildinha, esta criatura de beleza serena, expressão inabalável, coração terno é amada por todos porque todos a conhecem. É conceituada entre professores e todos os que, de alguma forma, estão ligados à educação.

          Nascida no Município de Itajuípe cursou o ensino primário no Colégio General Osório, em Ilhéus. Prestou o Exame de Admissão ao Ginásio no Colégio Baiano de Ensino, em Salvador onde cursou a 5ª série quando passou para o Colégio Nossa Senhora do Carmo, também na capital do Estado e cursou da 6ª à 8ª series do curso ginasial.

          O 2º grau foi feito também em Salvador, no Colégio Sete de Setembro onde se formou professora primária (Magistério) em 1966. Logo no início do ano 1967 voltou para Itabuna onde residia sua família, e foi nomeada, pelo então Prefeito José de Almeida Alcântara, para lecionar na rede municipal de ensino, no Instituto Municipal de Educação (IMEAM).

          Em 1969 foi contratada pela Professora Rita Fontes, para ensinar no Colégio Gato de Botas, onde permaneceu até 1971. Teve de deixar o Gato de Botas quando precisou de mais tempo para estudar já que fora aprovada no exame Vestibular para o curso de Ciências Físicas e Biológicas, da UESC.

          Em 1974, ao concluir o curso Superior, logo prestou concurso para ingressar na Rede Estadual de Ensino. Aprovada, passou a lecionar Ciências no Centro Integrado Oscar Marinho Falcão (CIOMF), onde atuou por 27 anos, tendo se aposentado no ano 2001. 
Aposentou-se, mas não parou, porque Nildinha não é pessoa de ficar quieta. Passou a trabalhar na Secretaria Municipal de Educação na gestão do então Prefeito Geraldo Simões assumindo a função de Coordenadora de Acompanhamento da Pessoa, permanecendo nesse cargo de confiança por quatro anos, sendo que retornou em 2007 a convite do Secretário Adeum Sauer, agora assumindo o cargo de Coordenadora de Organização e Atendimento à Rede Escolar (COARE) na Direc 07 Itabuna.

          Quando concorreu à eleição para Presidente do Sindicato dos Professores de Itabuna (API) foi eleita com maioria dos votos. Presidiu a API por quase três anos.

          Bom, com esse Curriculum Nildinha poderia conquistar o lugar que quisesse na vida de Itabuna, sua cidade, mãe adotiva que acolheu e amou toda a família do seu querido pai Pedro Marques dos Santos, seu maior fã e incentivador por cuja memória Nildinha tem uma enorme ternura e gratidão.

          Filiada a um grande partido político é militante que vai à luta sem medo de ser feliz, atuante, fidelíssima, íntegra, ferrenha defensora de causas nobres. Nildinha é amiga dos amigos, da cidade que escolheu para trabalhar, a cidade mãe do seu esposo Sr. Nicodemus Dominguez, dos seus filhos Nicola e Vinícius e dos netos Bruno e João Gabriel, tesouros da sua alma.

          É membro efetivo do Movimento de Cursilhos de Cristandade (MCC) da Diocese de Itabuna. Coordenou o movimento pelo período de três anos e permanece integrada no NÚCLEO DE EDUCAÇÃO onde continua a lutar por educação de qualidade.

          Ama receber amigos e familiares na sua casa de praia no Jardim Atlântico, em Ilhéus.
           
          Enfim, a educadora Nildinha é uma filha adotiva da qual Itabuna, a Mãe Centenária, se orgulha, com certeza. E ela, que não é mulher de ficar parada pelos cantos da vida, ainda tem muito a oferecer à cidade que, por todo esse tempo, lhe acolheu e dengou.

          ITABUNA CENTENÁRIA-ICAL afirma com convicção: NILDINHA É UM EXEMPLO DE VIDA A SER IMITADO.


Eglê S Machado
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O professor Rilvan Santana reproduziu esta crônica  no seu blog "Saber Literário" e no final acrescentou a seguinte Nota Editorial:

“Estimada poetisa Egle:
Dentre muitas pessoas que serei eternamente grato, a professora Nildinha encabeça a lista, ela terá um lugar reservado para sempre em meu coração, porque foi ela que me deu suporte moral para o enfrentamento da doença de minha filha Ana Paula, que veio a óbito, um ano depois, no Hospital das Clínicas de São Paulo.
Peço-lhe vênia para ratificar sua homenagem, também, ser signatário de sua crônica: 'GENTE QUE AMA ITABUNA: PROFESSORA NILDINHA' . Pois, será uma oportunidade única de lhe dizer, publicamente, quanto eu a aprecio e quanto lhe sou grato.
 Fraternalmente, Rilvan.
Itabuna, 04 de dezembro de 2016.”
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