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quarta-feira, 5 de julho de 2017

CHEGA DE RATOS - Ferreira Gullar


Chega de ratos


Hoje, em vez de falar de ratos, vou falar de gatos. Pois bem, modéstia à parte, tenho duas gatas: a gata chamada Cláudia Ahimsa, musa minha e poeta autora de preciosos livros de poemas. Ela diz que não faz poemas e, sim, livros de poesia, o que é verdade. Por isso mesmo, não faz apenas o objeto livro, onde eles são editados; a capa do livro, o tema dos poemas e sua distribuição nas páginas, o formato do livro, tudo é por ela inventado. Por essa razão, não mora comigo, mesmo porque dois poetas não cabem numa mesma casa.

Já a outra gata, a que mora comigo e se chama Gatinha, é siamesa como o finado Gatinho, que me inspirou um livro de poemas engraçados, lindamente ilustrado por Ângela Lago. Essa gatinha não apenas mora comigo como dorme na minha cama. Se disser que nossa intimidade se limita a isso, estarei mentindo, pois vai muito além, uma vez que ela, todos os dias, vem para a sala onde trabalho e sobe na mesa para que eu a acarinhe.

Sobe na mesa e, como quem não quer nada, deita-se à minha frente para que eu lhe faça carinhos. Se não estou ali escrevendo ou lendo, vai à minha procura e, encontrando-me, começa a roçar-se em minhas pernas, que é o seu modo de dizer-me que está na hora de lhe fazer carinhos.

Entendo, largo o que esteja fazendo e vou sentar-me à mesa da sala, onde ela imediatamente sobe e se estende, de barriga à mostra. Ela já se habituou ao carinho que lhe faço, passando a mão em sua barriguinha de pluma.

Quando meu gatinho morreu, fiquei traumatizado e decidi não mais ter gatos em casa. Na verdade, um outro gato, fosse qual fosse, jamais o substituiria e, além do mais, me faria lembrar dele a toda hora.

Mas eis que um dia, sem saber desse meu trauma, surge aqui em casa Adriana Calcanhotto e, logo depois de entrar, abre a capa com que se cobria e me entrega sorrindo, de presente, uma gatinha siamesa. Levei um susto, mas era tal a alegria da Adriana por me trazer aquele presente que não tive coragem de lhe dizer que decidira não mais criar gatos.

Não foi, porém, só isso. Quando a gatinha me mirou nos olhos e miou, rendi-me instantaneamente e abracei Adriana, sinceramente agradecido. E mais agradecido estou agora, depois de alguns poucos anos de convívio com a companheirinha que ela me trouxe de presente.

Esta gatinha tem, porém, um comportamento peculiar: tocou a campainha da porta, esteja ela dormindo na poltrona ou brincando em cima da mesa, larga tudo e sai disparada para se esconder em algum dos quartos da casa. E se, não estando ela na sala, chegar alguém ali, ela, esteja onde estiver, lá ficará, certamente mais escondida que antes. E se esconde tal modo que, eu mesmo, se tentar localizá-la, não o conseguirei.

Se depois, tendo ido embora o intruso, dado um tempo, claro, ela reaparecerá mesmo assim desconfiada, farejando o ar para evitar qualquer surpresa. Basta dizer que a própria Adriana, quando aqui esteve e tentou revê-la, não o conseguiu.

Por que ela se espanta desse jeito, não sei. O Gatinho, ao contrário dela, era tranquilo; se chegava alguma visita, pouco ligava; quando muito, erguia a cabeça, dava uma olhada e voltava a cochilar.

Isso sem falar nos gatos de rua, que andam entre as pernas dos transeuntes, sem nada temer, nem mesmo cachorro.

Desconfio que o comportamento de minha gatinha se deve à sua origem social: ela é fruto do pet shop, ou seja, pertence a uma nova geração de bichos que o mundo moderno está produzindo.

Criada em pet shop, numa pequena gaiola, sem contato com outros animais, o bicho adquire personalidade neurótica, que o torna incapaz de conviver com os outros bichos. Mas, como é próprio dos gatos o convívio com as pessoas, a minha gatinha felizmente me aceitou como uma companhia confiável e, mais que isso, afetuosa.

Quanto à minha outra gata, a Cláudia, não diria que seja tão arredia quanto a gatita, mas não é para qualquer um que ela aparece quando lhe tocam a campainha da porta ou tentam contatá-la pelo telefone. Também, neste caso, eu constituo uma exceção. Mas nem sempre, diga-se a verdade. 

Folha de São Paulo, 17/04/2016


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Ferreira Gullar - Sétimo ocupante da cadeira nº 37 da ABL, eleito em 9 de outubro de 2014, na sucessão de Ivan Junqueira, e recebido em 5 de dezembro de 2014, pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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sábado, 25 de março de 2017

ITABUNA CENTENÁRIA: UM POEMA - Ferreira Gullar

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte? 


Ferreira Gullar - Sétimo ocupante da cadeira nº 37 da ABL, eleito em 9 de outubro de 2014, na sucessão de Ivan Junqueira, e recebido em 5 de dezembro de 2014, pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin. Faleceu  no dia 4 de dezembro de 2016.

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

PAPO FURADO - Ferreira Gullar

Papo furado

Vou dizer aqui uma coisa que você talvez não acredite: nunca pensei em me tornar conhecido, muito menos famoso.

É verdade que sempre fui atrevido, pensando por minha conta e risco. Quando ainda adolescente, afirmei, certa vez, na presença de um padre, que não acreditava em Deus e passei a enumerar argumentos, o padre, escandalizado, afastou-se exclamando: "Ih, filósofo, filósofo!".

É claro que quem defende ideias polêmicas termina chamando atenção para si, mas não era esse o meu propósito: só queria afirmar meu ponto de vista, o que, aliás, faço até hoje.

O leitor, porém, poderia alegar, contra minha suposta modéstia: não queria ser conhecido, mas seu primeiro emprego foi o de locutor de rádio... É verdade, mas não o busquei, fui levado por um amigo que trabalhava na Rádio Timbira do Maranhão. Fiz o teste, fui aceito e, modestamente, adotei um pseudônimo: Afonso Henrique.

Aliás, o que mais tive na vida foram pseudônimos, em parte para fugir da polícia, é verdade. Nada mais coerente, uma vez que, se não desejava ser conhecido, muito menos queria que o fosse pelos agentes do DOI-Codi.

Estou certo de que, à mente do leitor, ocorrerá uma indagação inevitável: se eu não sonhava em ser famoso, por que me tornei poeta?

Sei que você não vai acreditar, mas a verdade é que jamais havia pensado em me tornar poeta, nem mesmo sabia que isso me tornaria conhecido. Veja bem, eu tinha 13 anos, nascido na família do quitandeiro Newton Ferreira, com dez irmãos e numa casa onde não havia livros; só havia exemplares da revista "Detective", leitura predileta de meu pai, enquanto eu e meus irmãos líamos histórias em quadrinhos. Talvez por isso, quando, pela primeira vez, li um poema, levei um susto.

Um susto bom, tão bom que tive vontade de escrever coisas bonitas como aquelas. Era uma ideia de jerico, sem muito propósito, já que, na minha infundada opinião, todos os poetas já haviam morrido (Camões, Bocage, Gonçalves Dias, Castro Alves) e, ainda assim, decidi entregar-me àquela atividade de defuntos.

A maior prova de que não queria ser conhecido foi trocar meu nome verdadeiro por um pseudônimo. Por isso mesmo, até hoje, quando alguém me pergunta se sou eu o poeta Ferreira Gullar, respondo: "Às vezes". Sim, porque, às vezes, sou José de Ribamar Ferreira; aliás, na maioria das vezes.

Mas o famoso não é ele, é o outro, o Gullar. E veja você, embora o subversivo fosse o Gullar e não o Ribamar, no final das contas, para minha surpresa, era este e não o outro que a polícia da ditadura buscava.

Só soube disso, mais tarde, aliás, tarde demais, depois que retornara do exílio, dado como absolvido pelo STM (Superior Tribunal Militar).

Ao receber o documento do STM informando-me da absolvição, não era o Gullar nem o José de Ribamar Ferreira que tinham sido processados e julgados, mas outro Ribamar, também maranhense, de quem nunca ouvira falar.

Soube depois que ele aderira à luta armada, na certeza de que, juntamente com Marighella e mais meia dúzia de revolucionários, ia derrotar o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, além de todas as polícias militares do país. Eu, o Ribamar, filho de dona Zizi e do Newton Ferreira, era menos insensato.

A verdade, porém, é que, querendo ou não, me tornei conhecido e, mais ainda, agora, ao ser eleito para a ABL (Academia Brasileira de Letras).

Mal sabia eu o que estava perdendo, negando-me a candidatura à ABL. Nunca fui tão cumprimentado e saudado nas ruas do bairro quanto agora. Descobri, assim, que, se a consagração erudita é dada pela crítica literária, a consagração popular é dada pela ABL.

Agora sou saudado pelo vendedor de picolé, pelo barraqueiro da feira, pela moça do caixa do supermercado. Não há um dia em que saia de casa, para ir à farmácia ou à banca de jornais, que não seja cumprimentado por numerosos e simpáticos desconhecidos.

Não resta dúvida de que boa parte dessa popularidade se dá graças à televisão. Ainda assim, como explicar que um mendigo, imundo e seminu, murmure ao me ver passar: "Poeta Gullar, imortal!".

No fundo, todos repetem aquela mesma frase do cara, também bêbado, que, anos atrás, quando me viu atravessando a rua, gritou: "Ferreira Gullar, famoso e eu não sei quem é!". Nem eu, tampouco.

Para Susana de Moraes, meu adeus carinhoso.

Folha de S. Paulo, 01/02/2015



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Ferreira Gullar - Sétimo ocupante da cadeira nº 37 da ABL, eleito em 9 de outubro de 2014, na sucessão de Ivan Junqueira, e recebido em 5 de dezembro de 2014, pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

METADE - Ferreira Gullar

Metade  




Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade...
também.





Ferreira Gullar - Sétimo ocupante da cadeira nº 37 da ABL, eleito em 9 de outubro de 2014, na sucessão de Ivan Junqueira, e recebido em 5 de dezembro de 2014, pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin. Morreu no dia 4 de dezembro de 2016.

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

NESTE LEITO DE AUSÊNCIA – Ferreira Gullar

Neste leito de ausência


Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho — o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.

Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.


Ferreira Gullar



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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

UM MOZART AFÔNICO - Marco Lucchesi

Um Mozart Afônico


Lembro-me do susto e da alegria, da viva emoção na primeira leitura de Poema sujo, adolescente ainda, quando a descoberta do mundo, dentro e fora dos livros, era uma demanda feroz, uma correnteza impiedosa e selvagem. Lembro-me do céu azul, naquela tarde de sábado. Lembro da livraria, em Niterói, da segunda estante do lado esquerdo. E o coração, que batia forte, e do mesmo lado, não me deixava fechar o livro, que continua, desde a década de setenta, vertiginosamente aberto.

Porque se “muitos dias há num dia só”, naquele poema havia uma enormidade de poemas. Foi o “Navio negreiro” de minha geração, o “Y-Juca Pirama” da segunda metade do século XX. Mesmo à vista desarmada, dos meus olhos meninos, não errei. Porque não se tratava apenas de um poema. Era também, sobretudo, uma poética de exílio e rebelião, esperança e enfrentamento, eis o que sentíamos, então, os brasileiros, os que estávamos  do mesmo lado. Mas sem que o laboratório de Gullar perdesse um milímetro de sua dinâmica do espaço, mudanças de escala, dimensões cruzadas entre o corpo e o mundo, a História e a subjetividade.

Como se houvesse uma fina camada, ou película, esticada até o limite, fina e transparente, ao longo de todo Poema sujo, dentro de um lirismo que se revela em alternância: ora explosivo, com força inusitada, generoso, radical; ora discreto, líquido, latente, como um obstinado rumor de fundo. Música sem melodia, sagazmente desafinada. Apenas ritmo, com ampla variação mozartiana. Um Mozart impuro e afônico, revisto por Villa-Lobos, tal como Gullar revisitou a poesia brasileira, de Castro Alves a Drummond, passando pelas ferrovias de Jorge de Lima ou de Manuel Bandeira.

Não se deve perder a cosmologia no Poema sujo, porque ela existe e aclara perfeitamente a densidade das coisas, dos conflitos sociais, do corpo-galáxia, da vida dos insetos, da liquefação dos corpos a céu aberto. Poema longo, que devora a si mesmo e renasce, com a vitória de uma espécie de zangada visibilidade. Tenho uma palavra para traduzir minha ligação com o Poema sujo, e não encontro outra que não seja o de um entusiasmo, como somente as grandes obras são capazes de criar.

Somente agora me dou conta, menos de uma semana depois de sua morte, que Gullar não foi apenas um dos poetas fundamentais do século XX, mas dou quase como certo de que foi, e o confesso com emoção, um dos grandes heróis no cenário de meu quarto adolescente. 

Comunità Italiana , 14/12/2016




Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha.

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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A ESTANTE – CONTO DE FERREIRA GULLAR

A ESTANTE
 March 26, 2013


Naquele novo apartamento da Rua Visconde de Pirajá pela primeira vez teria um escritório para trabalhar. Não era um cômodo muito grande, mas dava para armar ali a minha tenda de reflexões e leitura: uma escrivaninha, um sofá e os livros. Na parede da esquerda ficaria a grande e sonhada estante que caberia todos os meus livros. Tratei de encomendá-la a seu Joaquim, um marceneiro que tinha oficina na Rua Garcia D’Avila com Barão da Torre.

O apartamento não ficava tão perto da oficina. Era quase em frente ao prédio onde morava Mário Pedrosa, entre a Farme de Amoedo e a antiga Montenegro, hoje Vinicius de Moraes. 

Estava ali há uma semana e nem decorara ainda o número do prédio. Tanto que, quando seu Joaquim, ao preencher a nota da encomenda, perguntou-me onde seria entregue a estante, tive um momento de hesitação. Mas foi só um momento.

Pensei rápido: “Se o prédio do Mário é 228, o meu, que fica quase em frente, deve ser 227. “Mas lembrei-me de que, ao ir ali pela primeira vez, observara que, apesar de ficar em frente ao do Mário, havia uma diferença na numeração.

— Visconde de Pirajá 127 — respondi, e seu Joaquim desenhou o endereço na nota.

— Tudo bem, seu Ferreira. Dentro de um mês estará lá sua estante.

— Um mês, seu Joaquim! Tudo isso? Veja se reduz esse prazo.

— A estante é grande, dá muito trabalho… Digamos, três semanas.

Contei as semanas. Não via chegar o momento de ter no escritório a estante sonhada, onde enfim poderia arrumar os livros por assunto e autores. E, mais que isso, sentir-me um escritor de verdade, um profissional, cercado de livros por todos os lados. No dia da entrega, voltei do trabalho apressado para ver minha estante.

— Como é, veio? — perguntei ao entrar.

— Veio o quê?

— Como o quê? A estante!

Não viera. Seu Joaquim não cumprira com a palavra empenhada, ah português filho de… Telefonei para ele sem dissimular, no tom da voz, minha irritação. E ele:

— Como não cumpri? Andei com dois homens de cima para baixo da rua e não encontrei o tal número que o senhor me indicou. Não existe na Rua Visconde de Pirajá o número 127, senhor Ferreira.

Fiquei sem ação. Dera a ele o número errado.

— Diga-me o número certo e sua estante estará em sua casa amanhã mesmo.

Fiquei sem palavra. Se não era 127, qual número seria? Não era 227, disso tinha certeza… E o Joaquim ao telefone:

— Qual o número, seu Ferreira?

— É 217, seu Joaquim… É isso, 217.

— Muito bem, 217. Já anotei. Amanhã terá sua estante.

Não tive. Ao chegar em casa e verificar que a estante não estava lá, conclui que havia dado de novo o número errado ao marceneiro. E corri para o telefone a fim de me desculpar.

— Seu Joaquim, é o senhor Ferreira… da estante.

— O senhor está querendo brincar comigo?
Fui tomado por um frouxo de riso, enquanto seu Joaquim, indignado, dizia que não ia mais entregar estante nenhuma, que eu fosse buscá-la, pois já era a segunda vez que subira e descera a Visconde de Pirajá, carregando aquela estante enorme, etc. etc…


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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

ROMPER COM O DISCURSO POÉTICO NÃO É COMO ROMPER COM O PROCESSO SOCIAL- Ferreira Gullar

Romper com o discurso poético não é como romper com o processo social

Mudar é próprio da existência. Tanto muda a natureza como mudamos nós, a sociedade e a cultura; e, se há o que muda independentemente da nossa vontade, há o que mudamos nós, por nossa própria determinação.

Naturalmente, dentre essas mudanças por nós mesmos realizadas, há as que decorrem de determinantes que mal controlamos e as que resultam de nossa opção consciente.

Fui levado a refletir sobre esses fenômenos ao me deparar com os problemas que enfrentamos, sobretudo na época moderna em face da necessidade de mudar a sociedade em que vivemos, que se impôs a partir da revolução industrial e do desenvolvimento do regime capitalista.

Em função disso, a partir da segunda metade do século 19, em praticamente todos os setores da sociedade, mudanças radicais se impuseram. Agravou-se uma visão crítica do modo de produção capitalista que iria culminar, em começos do século 20, com a revolução comunista de 1917.

É também no final do século 19 que, no terreno das artes, surge um movimento renovador que culminará com a eclosão cubista no início do século 20. Tais eclosões revolucionárias, tanto do campo de produção industrial quanto da criação artística, não são meras coincidências, mas, sim, resultantes das complexas relações que condicionam essas distintas manifestações da criatividade humana.

Um século depois de deflagradas, essas mudanças radicais, tanto no campo político-econômico como no plano estético, ambas, após as mudanças que provocaram, esgotaram-se.

No campo artístico, após uma série de movimentos realmente inovadores, chegou-se à desintegração das linguagens e, finalmente, a uma espécie de vale-tudo. Isso porque, quando se afirma que será arte "tudo o que se disser que é arte", é decretado o fim da arte.

No campo político não chegamos a esse niilismo, nem poderíamos chegar, pelo fato de que a política não lida apenas com metáforas, mas com a realidade concreta da vida.

E aqui chegamos ao ponto que me levou a estas considerações: se é verdade que a mudança é um fator decisivo da existência e, portanto, também da realidade social, inovar, neste campo, não é o mesmo que inovar no campo das artes, pelo fato de que este é um terreno particularmente complexo, pois envolve desde o pão de cada dia até o custo das aposentadorias e o índice de desemprego.

A Revolução Soviética de 1917 deu início a mudanças radicais na sociedade russa, mas também no processo político mundial, fomentando, sobretudo na intelectualidade e na juventude, a luta por uma sociedade anticapitalista, justa e revolucionária.

Essa utopia não se realiza plenamente em razão mesma da complexidade dos problemas nela implicados. Marx subestimou a importância decisiva da iniciativa privada no processo econômico e, com isso, perdeu a disputa com o regime capitalista.

Em consequência disso, aquela ideologia perdeu força, mas a luta pelas mudanças sociais ainda se mantém, seja na versão do populismo latino-americano, seja no projeto de alguns partidos que pregam um socialismo moderado em diversos países europeus.

Há, ainda, também na Europa, países que praticam um capitalismo sensato, em que a diferença de renda é compensada com a prestação, pelo Estado, de serviços eficientes no campo da saúde e da educação, sobretudo.

Em países como o nosso, esses serviços são muito mais precários não só porque os recursos são insuficientes, mas porque o número de pessoas carentes é muito maior.

Na América Latina surgiram alguns governos populistas que tentaram explorar politicamente essa desigualdade, implantando programas que excluíam a possibilidade real de colocá-los em prática. A consequência disso foi o agravamento da situação econômica geral e a estagnação do crescimento, que resultou no fracasso desse populismo nos países que tentaram implantá-lo.

Então, volto à tese que já expus aqui: uma coisa é romper com a lógica do discurso poético; outra coisa, muito diversa, é romper com a lógica do processo social. Dá em Venezuela, por exemplo. 

Folha de São Paulo, 20/11/2016




FERREIRA GULLAR 
Sétimo ocupante da cadeira nº 37 da ABL, eleito em 9 de outubro de 2014, na sucessão de Ivan Junqueira, e recebido em 5 de dezembro de 2014, pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.
Ferreira Gullar nasceu em 10 de setembro de 1930, em São Luís do Maranhão – MA e faleceu  em 4 de dezembro de 2016, no Rio de Janeiro.

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domingo, 4 de dezembro de 2016

POETA FERREIRA GULLAR MORRE DE PNEUMONIA AOS 86 ANOS NO RIO

Poeta Ferreira Gullar morre de pneumonia aos 86 anos no rio

PAULO WERNECK

ESPECIAL PARA A FOLHA

04/12/2016
  
Ferreira Gullar, poeta, ensaísta, crítico de arte, tradutor, biógrafo e colunista da Folha desde 2005, morreu por volta das 10h deste domingo (4), aos 86 anos. Sua neta, Celeste, confirmou a morte. Ele estava internado no hospital Copa D'Or, no Rio de Janeiro, há cerca de 20 dias devido a insuficiência respiratória.

Segundo Maria Amélia Mello, amiga e editora de Gullar na José Olympio e também de seu último livro, "Autobiografia Poética e Outros Textos" (Editora Autêntica), o poeta morreu de pneumonia.

Com grande independência, quase sempre remando contra a corrente no poder, Gullar frequentou diferentes regiões de um amplo espectro ideológico. Renovador da linguagem poética e teórico da vanguarda, anos mais tarde ele enxergaria com olhos severos os rumos da arte contemporânea. Militante comunista, fez-se um rigoroso tribuno contra a esquerda no poder desde os primeiros momentos do governo Lula.

Sua fisionomia angulosa, cheia de vincos expressivos, fez a alegria dos designers gráficos, que a reproduziram ampliada em inúmeras capas de livros e revistas. Ao vivo, o corpo magro e frágil contrastava com o vigor escuro do olhar, o nariz proeminente que lhe dava um perfil de índio andino, os óculos metálicos dominando o rosto de fora a fora, a espessura das sobrancelhas, o gesto constante de levar as mãos à cabeça e ajeitar os cabelos muito lisos, brancos e compridos, ou então enxugar com o canto dos dedos a saliva acumulada nos lábios grossos.

Nascido em 10 de setembro de 1930, o maranhense José Ribamar Ferreira se espraiou em praticamente todos os campos da cultura, da poesia de vanguarda à canção popular, da teoria estética ao jornalismo, da ilustração de livros infantis à teledramaturgia. Quase sempre, com forte ênfase política. Para se distrair, entregava-se à reprodução de quadros de Mondrian e outros de seus mestres europeus, fazia colagens com recortes de revistas ou traduzia poesia. Está entre os primeiros nomes da extensa lista de biografias que ainda precisam ser escritas no Brasil.

Filho do comerciante José Ribamar Ferreira e da dona de casa Alzira Goulart, que lhe inspiraria o nome literário, Gullar publicou seu primeiro livro em edição do autor em sua São Luís natal, em 1949. "Um Pouco Acima do Chão" não teria lugar nas futuras edições de obra completa organizadas pelo poeta: trata-se, diz ele, de "um tateio inicial", "um livro ingênuo".

O seu segundo trabalho, de 1954, também saiu em edição do autor, mas de ingênuo não tinha absolutamente nada. "A Luta Corporal" foi a fagulha de um novo tipo de escrita que nos anos seguintes mudaria as noções tradicionais de verso, página, livro de poesia —em resumo, a própria poesia, tal como a entendíamos até então.

Escrito solitariamente, quando o autor já vivia no Rio (desde 1951), mas ainda tinha poucas conexões com o mundo literário, o livro soava como um salto radical em todas as dimensões —sonoras, gráficas, semânticas— e todas as possibilidades que a palavra impressa poderia oferecer.

"Diagramado e editado por mim, ele refletia a preocupação com a utilização do espaço em branco na estruturação espacial dos poemas, como também na titulagem e no uso da página em branco, feito camadas de silêncio acumuladas nas páginas", recordaria Gullar, anos mais tarde, em seu livro "Experiência Neoconcreta" (Cosac Naify), volume que recupera os seus anos heroicos do neoconcretismo, ao lado dos artistas plásticos Lygia Clark, Hélio Oiticica e outros amigos. Segundo ele, "A Luta Corporal" se encerrava com a "implosão da linguagem". "Mu gargantu / FU burge / MU guêlu, Mu / Tempu - PULCI", escreve ele numa das passagens mais cheias de escombros.

"Naquele tempo eu não tinha família, nem uma vida regular, vivia sozinho num quarto perto da praça da Cruz Vermelha [no Rio]", contaria o autor, anos mais tarde, à equipe dos "Cadernos de Literatura Brasileira". "Era uma vida desligada da realidade comum de todos. Eu vivia, então, 'num clima de aventura'."

Entre seus primeiros leitores, estava o escritor Oswald de Andrade, que apareceu de surpresa para cumprimentar Gullar no dia de seu aniversário, em 1953. O autor de "Poesia Pau-Brasil" tinha lido "A Luta Corporal" ainda nos originais e se impressionou pelo vigor daquele jovem poeta maranhense.
O livro também o aproximou de dois personagens-chave: os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Decio Pignatari. 

Conta Gullar que os três poetas entraram em contato com ele por carta, depois de terem lido "A Luta Corporal". Augusto foi ao Rio para um encontro com Gullar, no qual teria manifestado insatisfação com o estado da poesia brasileira naquele momento.

A correspondência inaugurada ali gestou uma das mais importantes revoluções artísticas do século 20 no Brasil, e também uma curta, porém fértil, colaboração entre o grupo dos paulistas e o dos cariocas. Não demorou a nascer também uma das mais duradouras disputas intelectuais do país, que começou em torno da paternidade da abolição do verso tradicional. Isto é, quem foi o primeiro a afirmar que um poema já não precisava mais ser organizado em linhas para ser um poema?

Gullar e os paulistas estavam juntos, na 1ª Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada em São Paulo em dezembro de 1956. Em fevereiro de 1957, quando foi inaugurada no Rio, Gullar publicou no "Suplemento Dominical do Jornal do Brasil" um artigo em resposta a um manifesto de Haroldo de Campos em que explicitava as diferenças que enxergava entre o seu grupo, o dos "cariocas", e os dos paulistas. Para Gullar, Haroldo defendia a subordinação da poesia a equações matemáticas. 
"Considerando que aquilo era inviável", registraria Gullar, anos mais tarde, "telefonei a Augusto, dizendo que não podia subscrever semelhante teoria. Sua resposta foi que eu então procedesse como me parecesse melhor, pois eles não desistiriam daquela tese."

Agora conhecidos respectivamente como os "neoconcretos" e os "concretos", os dois grupos passariam a reivindicar o pioneirismo na dissolução do verso e na exploração das dimensões concretas da palavra. A disputa, que acompanharia os contendores ao longo da vida inteira, não é facilmente explicável, mas influenciou as gerações de artistas subsequentes e ecoou, por exemplo, no Tropicalismo de Caetano Veloso.

"Lembro-me que defendia a tese de que a questão fundamental da nova poesia não era 'criar um novo verso' (como escrevera Haroldo na ocasião) e, sim, 'superar o caráter unidirecional da linguagem, rompendo com a sintaxe verbal'", rememora Gullar em "Experiência neoconcreta". "Esta tese foi aceita por eles e de algum modo contribuiu para que buscasse solução no poema visual, construído geometricamente no espaço da página."

Mais adiante, o poeta reconhece: "Sem qualquer dúvida, o contato com Augusto de Campos e com suas experiências poéticas me ajudou a sair do impasse a que chegara com 'A Luta Corporal'".

Aquele encontro no Rio, em 1955, ainda renderia, quase 60 anos depois, uma agressiva troca de farpas entre Gullar e Augusto de Campos, relativa às afirmações do maranhense de que foi ele quem apresentou aos irmãos Campos a poesia de Oswald de Andrade, referência central para os concretos. Em artigos publicados na Folha, ambos reconstituíram em minúcias o encontro, realizado no restaurante Spaghettilândia.

SUPLEMENTO DOMINICAL DO JB

Seja como for, a influência mútua entre os concretos e os neoconcretos é inegável e teve importantes desdobramentos na poesia e na teoria estética brasileira. Pignatari e os Campos deram prosseguimento à poesia concreta no grupo Noigandres; Gullar ganhou destaque como crítico e teórico do grupo carioca, em seus artigos publicados no "SDJB".
Desde 1955, Gullar estava engajado no projeto do "Suplemento Dominical" do "Jornal do Brasil", considerado um marco do jornalismo cultural brasileiro tanto em termos de design gráfico —quem fazia a diagramação e ilustrava era o artista plástico Amilcar de Castro— como de texto. A turma do "SDJB" era o correspondente, no jornalismo e na arte de vanguarda, do ímpeto criativo de João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes na criação da Bossa Nova.

O caderno levou a sensibilidade da vanguarda carioca para as páginas de um jornal dos mais tradicionais: era uma espécie de protetorado do grupo neoconcreto, com Gullar e pesos-pesados como Janio de Freitas, Reinaldo Jardim, Franz Waissman, Lygia Clark e Lygia Pape.

No "SDJB" Gullar publicou textos centrais como o "Manifesto Neoconcreto" e a "Teoria do Não Objeto" (1959), pequeno ensaio que alguns colegas de Gullar coassinaram, no qual são antecipadas questões centrais da arte contemporânea nas décadas vindouras, não apenas no Brasil, mas em nível mundial: a obra de arte que só se torna arte com a participação ativa do espectador, o "não objeto".

Naquele ano, nasceram obras que ilustram o pioneirismo de seu autor: os livros-poema, os poemas espaciais e o "Poema enterrado" -um buraco cavado no terreno da casa do pai do artista Hélio Oiticica, com cubos de diferentes cores e tamanhos que o espectador podia manipular. Debaixo do menor dos cubos, havia um quadrado com a palavra "rejuvenesça". Uma inundação, porém, inviabilizou a inauguração do "Poema enterrado", que jamais seria exibido ao público.

POEMA SUJO

Se o "clima de aventura" de sua vida no Rio tinha sido determinante para escrever "A Luta Corporal", as aventuras solitárias do exílio devolveram Gullar à criação poética radical, sem as amarras da poesia engajada. Em 1975, ele publicou "Dentro da Noite Veloz", um dos mais importantes livros de poesia da década. No ano seguinte, Gullar compõe o "Poema Sujo", seu poema mais conhecido e ícone da resistência à ditadura.

O momento não era exatamente propício à publicação de poesia no país —a nova poesia brasileira passava a ser divulgada na praia, em edições caseiras, impressas a mimeógrafo (sistema de reprodução a álcool). E foi num meio heterodoxo —uma fita cassete levada de Buenos Aires na mala do poeta Vinicius de Moraes, em abril de 1976— que um dos grandes poemas brasileiros da década de 70 chegou aos leitores.

Quem definiu o impacto daqueles 40 minutos de gravação foi o portador da fita, que não mediu palavras para descrevê-lo em carta para o amigo Calasans Neto: "Cem páginas da mais alta poesia; um troço, pai, de arrepiar os cabelinhos do cu". Gullar, exilado, e Vinicius, em turnê com Toquinho e Miúcha, agitavam as baladas dos brasileiros exilados na Argentina. Foi numa dessas festinhas regadas a caipirinha e feijoada que o maranhense leu o "Poema Sujo" para os amigos. "A emoção foi tanta, quando ele o leu para nós, que quase todo mundo chorava", lembraria Vinicius.

Gullar dava uma resposta ao clima de repressão que dominava a América Latina, explicou Vinicius: "A oportunidade do poema é total, para mostrar a esses cínicos de merda que a poesia, longe de ter morrido, está mais viva do que nunca, quando agarrada assim pelos cornos por um verdadeiro poeta." Ainda em 1976, o "Poema Sujo" seria publicado em livro pela Civilização Brasileira, num lançamento apinhado, mas sem a presença do autor.

Escaldado pelo golpe no Chile, Gullar percebeu sua permanência na Argentina se tornava cada vez mais arriscada. O país vizinho já estava sob sua mais sangrenta ditadura: num episódio jamais elucidado, naquela mesma temporada o pianista de Vinicius, Tenorinho, acabaria sendo sequestrado por agentes da repressão ao sair para comprar cigarros - seu cabelo e suas roupas bastaram para que se tornasse alvo da direita radical, entrando para a conta dos "desaparecidos" políticos da ditadura que se instalava na Casa Rosada.

Afastado pelo regime militar de sua carreira no Itamaraty, Vinicius tornou-se um embaixador de Gullar e de seu poema: promoveu audições da fita em sua casa no Rio, convidando Chico Buarque, Francis Hime, Tom Jobim, Carlos Heitor Cony, Ênio Silveira e quem mais pudesse ajudar a divulgá-lo.
Fez publicar o livro em espanhol, cavou reportagens e entrevistas com o autor. A agitação promovida por Vinicius era uma deixa para que Gullar tentasse voltar ao Brasil - seria bem menos arriscado, naquele momento em que mal se esboçava a abertura política, chegar acompanhado de uma estridente claque, cobertura da imprensa, festejos e quanto barulho fosse possível fazer.

A missão diplomática em favor de Gullar também contou com a ajuda dos jornalistas Zuenir Ventura e Elio Gaspari. Diretor-adjunto na "Veja", Gaspari, lembraria Gullar, deu ao homem forte do governo, o general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Militar da Presidência da República, um exemplar do recém-publicado "Poema Sujo". "Golbery achou-o obsceno, mas nem por isso se opôs à minha volta ao país", recordaria Gullar. "Já o general João Figueiredo, chefe do SNI, era de opinião diferente. 'Não quero esse comunista aqui', teria declarado ele, segundo Golbery."

No embalo do "Poema Sujo", do sinal verde de Golbery e de sua absolvição no processo policial-militar que o levara a deixar o Brasil, Gullar decidiu se arriscar a retornar -não sem tomar algumas precauções, como convocar a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Sindicato dos Jornalistas para acompanhar seu desembarque. "Essas medidas visavam despojar o meu gesto de qualquer traço conspiratório ou clandestino, neutralizar a ação arbitrária dos órgãos de repressão e, ao mesmo tempo, responsabilizar o governo pelo que ocorresse", explicaria o poeta em suas memórias.

Alardear o retorno nas maiores revistas de São Paulo e do Rio também fez parte da estratégia. Uma entrevista que Rui Lima publicou nas "Páginas Amarelas" da "Veja" ajudou a pavimentar o caminho de volta, apresentando os argumentos conciliatórios do poeta: "Gullar nunca foi um asilado - saiu legalmente do país e legalmente vai voltar, inclusive porque foi absolvido por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal no processo dos intelectuais, em 1974. Vários motivos o trazem de volta, além do fato de 'não suportar mais viver fora do Brasil'-entre eles um filho doente que sempre reclama sua presença, no Rio". Carlos Heitor Cony o entrevistou para a "Manchete".

Por volta de oito horas da noite do dia 10 de março de 1977, o poeta pousou no aeroporto do Galeão, no Rio. "Ao chegarmos ao guichê da polícia, onde devíamos apresentar os documentos, vi escrito numa folha presa à parede: 'Ferreira Gullar ou José Ribamar Ferreira - detê-lo". Recebido por uma multidão de amigos e jornalistas, não foi detido - mas no dia seguinte seria intimado pela Polícia Marítima. Passou o fim de semana nas mãos de policiais, foi levado de um porão da repressão para outro, tiraram-lhe a roupa e o pressionaram a responder sobre "a escola de subversão" que frequentara em Moscou. Foi libertado após uma forte mobilização de amigos.
Pouco depois, ao pedir a seu advogado que sacramentasse no Superior Tribunal Militar a extinção do processo movido contra si, Gullar descobriu que, nos autos, o José Ribamar Ferreira procurado era outro: um líder camponês, também maranhense, que, ao contrário do seu homônimo poeta, abraçara a luta armada.

CONSAGRAÇÃO

Se é certo que Ferreira Gullar, após cair na clandestinidade em 1970, percebendo que mais cedo ou mais tarde iria parar na cadeia, voltou ao país na condição de artista consagrado, ele só pode desfrutar a consagração com a abertura política, a partir de 1978, quando o AI-5 perdeu a validade, e 1979, quando passa a valer a Lei de Anistia. Naquele mesmo ano, sua voz anasalada e metálica ganhou a forma de LP no álbum "Antologia Poética", com música de Egberto Gismonti, e Bibi Ferreira montou a primeira peça que Gullar assinou sozinho, "Um Rubi no Umbigo". Em 1980, quando fez 50 anos, teve sua obra poética reunida pela primeira vez na edição "Toda Poesia" e lançou "Na Vertigem do Dia", sua primeira coletânea de poemas desde "Poema Sujo".

A convite de Dias Gomes, seu ex-camarada de Partidão, Gullar passou a integrar o núcleo de teledramaturgia da TV Globo, tendo escrito roteiros para séries como "Carga Pesada" e para a novela "Araponga". Nos anos 1980 e 90, o trabalho na TV dividiria o tempo do poeta com a publicação de livros de poemas, ensaios, traduções e crônicas. Escreveu letras para uma dúzia de canções: tem parcerias com Caetano Veloso ("Onde Andarás"), Milton Nascimento ("Bela bela") e Fagner (o hit "Borbulhas de Amor"). Entre 1992 e 1995, presidiu o Instituto Brasileiro de Artes e Cultura (Ibac), nome que Gullar trocaria pela antiga denominação do órgão, Funarte.

O retorno a uma intervenção permanente no debate cultural e político viria com força em 2005, quando passou a assinar uma coluna na "Ilustrada". Relida hoje, a coluna de estreia, "Resmungos", revela uma impressionante coerência do colunista nos mais de 11 anos que viriam pela frente. O autodeclarado "cronista bissexto" anuncia que vai escrever sobre política, "que não exige muita especialização", e arte, assunto sobre o qual "até já escrevi livros", ironiza. E, logo de saída, fustiga críticos e obras de arte contemporânea. De fato, espezinhar os governos petistas, ainda no auge do lulismo, e implicar com artistas, curadores e críticos seriam seus esportes prediletos nas páginas da Ilustrada.

(A coluna ainda serviria, de vez em quando, como um raro espaço confessional: Gullar valeu-se dela para combater causas que eram consenso nos meios de esquerda, como a lei que dificultou a internação de doentes mentais e as campanhas pela legalização de drogas. Dois filhos do escritor, Marcos, morto em 1993, e Paulo, tinham esquizofrenia grave, atribuída pela família ao abuso de drogas, nos anos 1970, durante o exílio. Gullar e sua mulher, Thereza Aragão, morta em 1994, ainda tiveram uma filha, Luciana.)

Transformados em livro, os resmungos de Gullar ganharam o Prêmio Jabuti de 2007. Aquela era uma temporada de prêmios —o Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, veio em 2005, quando o poeta fez 75 anos. Em 2010, a mais alta distinção da língua portuguesa, o Prêmio Camões, foi de Ferreira Gullar. Em 2011, os Jabutis de poesia e de Livro do Ano foram para os poemas de "Em Alguma Parte Alguma". Em 2014, foi eleito para a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, depois de passar anos afirmando que jamais aceitaria a imortalidade.

Na Flip, Gullar disse uma frase que viralizou nas redes sociais: "Não quero ter razão, quero é ser feliz!". Outra máxima criada por Gullar, "a crase não foi feita para humilhar ninguém", publicada em 1955 no "Diário de Notícias", mais tarde seria citada até em anúncios de computadores IBM, para deleite do autor.

Os livros que Gullar publicou nessa temporada de prêmios sugerem que o octogenário cheio de vitalidade não estava dando muita bola para aquelas honrarias - e provavelmente estava feliz. Em "Zoologia Bizarra" (2010) e "Bichos do Lixo", com um prosaico hobby doméstico, a colagem de papéis coloridos, ele se fez ilustrador de literatura infantil - evidentemente, compôs poemas para acompanhar os bichos de papel. Já em "Bananas Podres" (2012) Gullar retoma uma imagem recorrente em sua obra poética - o amadurecimento das frutas - em poemas manuscritos por ele mesmo e ilustrações a guache sobre jornais velhos.

Gullar deixa a companheira Claudia Ahimsa, dois filhos e oito netos.

PAULO WERNECK é editor de livros e ex-curador da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) 



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