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terça-feira, 14 de março de 2023

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: 14 DE MARÇO - DIA DE CASTRO ALVES

NAVIO NEGREIRO

Tragédia no mar



I

’Estamos em pleno mar. Doido no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm, cansam
Como turba de infantes inquieta.

’Estamos em pleno mar. Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro.

’Estamos em pleno mar. Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dois é o céu? qual o oceano?

’Estamos em pleno mar. Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas.

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode Nesta hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar, em cima — o firmamento!
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…
………………………………………………….

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doido cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviatã do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
Às vagas que deixa após.

Do espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga iônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu,
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu!

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais, inda mais, não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí? Que quadro de amarguras!
Que canto funeral!  Que tétricas figuras!
Que cena infame e vil! Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros, estalar de açoite,
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar.

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doidas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos, o chicote estala.
E voam mais e mais.

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!”

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doidas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?
Ó mar, por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão…

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus …
… Adeus, ó choça do monte,
… Adeus, palmeiras da fonte,
… Adeus, amores, adeus!

Depois, o areal extenso…
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai pra não mais se erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas da amplidão!
Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… cúmulo de maldade,
Nem são livres pra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoite… Irrisão!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?
Ó mar, por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

VI

E existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e cobardia!
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu na vaga,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

 

Antonio de Castro Alves, natural de Cabaceiras, Estado da Bahia, nasceu em 14/03/1847 e faleceu aos 24 anos em 06/07/1871. Suas poesias, quase todas elas do mais espontâneo lirismo, foram enfeixadas num volume que denominou Espumas Flutuantes, cuja primeira edição saiu em 1870. Deixou ainda A Cachoeira de Paulo Afonso em 1876. Deste mesmo ano é o drama histórico Gonzaga ou a Revolução de Minas. Suas obras completas foram editadas em 1921 e contam inúmera reedições, sendo possivelmente o mais lido dos nossos poetas Juntamente com Tobias Barreto inaugurou uma nova fase na poesia brasileira – o condoreirismo.

* * *

sexta-feira, 1 de julho de 2022

ODE AO DOIS DE JULHO – Castro Alves

 


Clique o vídeo abaixo:





Ode ao Dois de Julho

Castro Alves

 

Era no Dois de Julho. A pugna imensa

Travara-se nos serros da Bahia…

O anjo da morte pálido cosia

Uma vasta mortalha em Pirajá.

“Neste lençol tão largo, tão extenso,

“Como um pedaço roto do infinito …

O mundo perguntava erguendo um grito:

“Qual dos gigantes morto rolará?!…

 

Debruçados do céu... a noite e os astros

Seguiam da peleja o incerto fado…

Era tocha — o fuzil avermelhado!

Era o Circo de Roma — o vasto chão!

Por palmas — o troar da artilharia!

Por feras — os canhões negros rugiam!

Por atletas — dois povos se batiam!

Enorme anfiteatro — era a amplidão!

 

Não! Não eram dois povos que abalavam

Naquele instante o solo ensanguentado…

Era o porvir — em frente do passado,

A liberdade — em frente à escravidão.

Era a luta das águias — e do abutre,

A revolta do pulso — contra os ferros,

O pugilato da razão — com os erros,

O duelo da treva — e do clarão!…

 

No entanto a luta crescia indômita...

As bandeiras – como águias eriçadas —

Se abismavam com as asas desdobradas

Na selva escura da fumaça atroz…

Tonto de espanto, cego de metralha

O arcanjo do triunfo vacilava…

E a glória desgrenhada acalentava

O cadáver sangrento dos heróis!...

 

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Mas quando a branca estrela matutina

Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras

No verde leque das gentis palmeiras

Foram cantar os hinos do arrebol,

Lá do campo deserto da batalha

Uma voz se elevou clara e divina:

Eras tu — liberdade peregrina!

Esposa do porvir — irmã do Sol!…

 

Eras tu que, com os dedos ensopados

No sangue dos avós mortos na guerra,

Livre sagravas a colúmbia Terra,

Sagravas livre a nova geração!

Tu que erguias, subida na pirâmide

Formada pelos mortos do Cabrito,

Um pedaço de gládio — no infinito…

Um trapo de bandeira — n’amplidão!...

 

                                   (São Paulo, junho de 1868)

 

......................


          Antônio de Castro Alves nasceu na comarca de Cachoeira, Estado da Bahia, a 14 de abril de 1847, sendo filho do médico Antônio Alves e de sua mulher, D. Clélia Brasília da Silva Castro. Faleceu na cidade do Salvador a 6 de julho de 1871. Na expressão de Afrânio Peixoto Castro Alves “Pôs suas ideias à frente do seu sentimento e, num tempo em que a miséria da escravidão não comovia ninguém,  despertou com os seus poemas arrebatadores, piedosos ou indignados, a sensibilidade humana e patriótica da geração que, vinte anos mais tarde, viria a conseguir a liberdade. Por isso lhe deram o nome invejável de Poeta dos Escravos. Das alturas do seu gênio compreendera que não há grande homem sem uma grande causa social a que tenha servido, e não aspirava a outra glorificação que a dessa obra realizada. A morte, depois, não importaria...

* * *

sábado, 4 de junho de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: O Laço de Fita - Castro Alves



O Laço de Fita

Castro Alves


 

Não sabes, criança? ‘Stou louco de amores...

Prendi meus afetos, formosa Pepita.

Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!

Não rias, prendi-me

            Num laço de fita.

 

Na relva sombria das tuas madeixas,

Nos negros cabelos de moça bonita,

Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem,

Formoso enroscava-se

            O laço de fita.

 

Meu ser, que voava nas luzes da festa,

Qual o pássaro bravo, que os ares agita,

Eu vi de repente cativo, submisso

Rolar prisioneiro

            Num laço de fita.

 

E agora enleada na tênue cadeia

Debalde minh’alma se embate, se irrita...

O braço, que rompe cadeias de ferro,

Não quebra teus elos,

            O laço de fita.

 

Meu Deus! As falenas têm asas de opala,

Os astros se  libram na plaga infinita.

Os anjos repousam nas penas brilhantes...

Mas tu... tens por asas

            Um laço de fita.

 

Há pouco voavas na célere valsa,

Na valsa que anseia, que estua e palpita.

Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...

Beijava-te apenas...

            Teu laço de fita.

 

Mas ai! Findo o baile, despindo os  adornos

N’alcova onde a vela ciosa... crepita,

Talvez da cadeia libertes as tranças

Mas eu... fico preso

            No laço de fita.

 

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale

Abrirem-me a cova... formosa Pepita!

Ao menos arranca meus louros da fronte,

E dá-me por c’roa...

            Teu laço de fita.

 

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Antônio de Castro Alves
 nasceu na comarca de Cachoeira, Estado da Bahia, a 14 de abril de 1847, sendo filho do médico Antônio Alves e de sua mulher, D. Clélia Brasília da Silva Castro. Faleceu na cidade do Salvador a 6 de julho de 1871. Na expressão de Afrânio Peixoto Castro Alves “Pôs suas ideias à frente do seu sentimento e, num tempo em que a miséria da escravidão não comovia ninguém,  despertou com os seus poemas arrebatadores, piedosos ou indignados, a sensibilidade humana e patriótica da geração que, vinte anos mais tarde, viria a conseguir a liberdade. Por isso lhe deram o nome invejável de Poeta dos Escravos. Das alturas do seu gênio compreendera que não há grande homem sem uma grande causa social a que tenha servido, e não aspirava a outra glorificação que a dessa obra realizada. A morte, depois, não importaria...

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domingo, 3 de abril de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: As duas Ilhas-Castro Alves



As Duas Ilhas

Castro Alves

 

(Sobre uma página de poesia de Victor Hugo com o mesmo título)

 

Quando à noite – às horas mortas –

O silêncio e a solidão

 - Sob o dossel do infinito –

Dormem do mar n’amplidão,

Vê-se, por cima dos mares,

Rasgando o teto dos ares,

Dois gigantescos perfis...

Olhando por sobre as vagas,

Atentos, longínquas plagas

Ao clarear dos fuzis.

 

Quem os vê, olha espantado

E a sós murmura: “O que é?

Ai! Que atalaias gigantes,

São essas além de pé!...”

Adamastor de granito

Coa testa roça o infinito

E a barba molha no mar;

E de pedra a cabeleira

Sacodindo a onda ligeira

Faz de medo recuar...

 

São – dois marcos miliários,

Que Deus nas ondas plantou,

Dois rochedos, onde o mundo

Dois Prometeus amarrou!...

- Acolá... (Não tenhas medo...)

É Santa Helena – o rochedo

Desse Titã, que foi rei!...

- Ali... (Não feches os olhos!...)

- Ali... aqueles abrolhos

São a ilha de Jersey!...

 

São eles – os dois gigantes

No século de pigmeus.

São eles que a majestade

Arrancam das mãos de Deus.

- Este concentra na fronte

Mais astros – que o horizonte,

Mais luz – do que o sol lançou!...

- Aquele – na destra alçada

Traz segura sua espada

- Cometa, que ao céu roubou!...

 

E olham os velhos rochedos

O Sena, que dorme além...

E a França, que entre a caligem

Dorme em sudário também...

E o mar pergunta espantado:

“Foi deveras desterrado

Buonaparte – meu irmão?...

Diz o céu astros chorando:

“E Hugo?...” E o mundo pasmando

Diz: “Hugo... Napoleão!...”

 

Como vasta reticência

Se estende o silêncio após...

És muito pequena, ó França,

Pra conter estes heróis...

Sim! que estes vultos augustos

Para o leito de Procustos

Muito grandes Deus traçou...

Basta os reis tremam de medo

Se a sombra de algum rochedo

Sobre eles se projetou!...

 

Dizem que quando alta noite,

Dorme a terra – e vela Deus,

As duas ilhas conversam

Sem temor perante os céus.

- Jersey curva sobre os mares

À Santa Helena os pensares

Segreda ao velho Hugo...

- E Santa Helena no entanto

No Salgueiro enxuga o pranto

E conta o que ele falou...

 

E olhando o presente infame

Clamam: “Da turba vulgar

Nós – infinitos de pedra –

Nós havemos-los vingar!...”

E do mar sobre as escumas,

E do céu por sobre as brumas,

Um ao outro dando a mão...

Encaram a imensidade

Bradando “Posteridade!...”

Deus ri-se e diz: “Inda Não!...”

 

Castro Alves (Antônio Frederico), nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.

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segunda-feira, 14 de março de 2022

14 DE MARÇO - Dia Nacional da Poesia

 


Pelas Sombras

Castro Alves

                                Ao padre Francisco de Paula

                                            C’est que je suis frappé du doute.

                                            C’est que l’étoile de la foi

                                            N’éclaire plus ma notre route:

                                            Tout est abime autor de moi!

                                 

                                                                        LA MORVONNAIS

                                

 

Senhor, a noite é brava... a praia é toda escolhos.

Ladram na escuridão das Circes as cadelas...

As lívidas marés atiram, a meus olhos,

Cadáveres, que riem à face das estrelas!

 

Da garça do oceano as ensopadas penas

O mórbido suor enxugam-me da testa,

Na aresta do rochedo o pé se firma apenas,

No entanto ouço do abismo a rugidora festa!...

 

Nas orlas de seu manto o vendaval se enrola

Como invisível destra, açoita as faces minhas

Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola...

“Quem foi?” perguntam rindo as solidões marinhas.

 

Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante,

A treva me assoberba... Ó Deus! Dá-me um clarão!

E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:

“Acende, ó Viajor! – o facho da razão!”

 

.......................................

Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma

Pode a flama subir brilhante, loura, eterna;

Mas quando os vendavais, rugindo, passam n’ alma,

Quem pode resguardar a trêmula lanterna?

 

Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada

Bateu-me contra o rosto, e se abismou na treva,

Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada

A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva.

 

Quem fez a gruta – escura, o pirilampo cria!

Quem fez a noite – azul, inventa a estrela clara!

Na fronte do oceano – acende uma ardentia!

Com o floco do Santelmo – a tempestade aclara!

 

Mas ai! Que a treva interna – a dúvida constante –

Deixaste assoberbar-me em funda escuridão!...

E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:

“Acende, ó Viajor! A Fé no coração!...

 

Castro Alves (Antônio Frederico), nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.

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domingo, 14 de novembro de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: O Adeus de Teresa - Castro Alves


 

O Adeus de Teresa

Castro Alves

 

A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus...

E amamos juntos... E depois na sala

“Adeus” eu disse-lhe a tremer co' a fala...

 

E ela, corando, murmurou-me: “Adeus.”

 

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...

e da alcova saía um cavalheiro

Inda beijando uma mulher sem véus...

Era eu... Era a pálida Teresa!

“Adeus” lhe disse conservando-a presa...

 

E ela entre beijos murmurou-me: “Adeus!”

 

Passaram tempos... séc’los de delírio

Prazeres divinais...gozos de Empíreo...

Mas um dia volvi ao lares meus.

Partindo eu disse – “Voltarei!... descansa!...”

Ela, chorando mais que uma criança.

 

Entre soluços murmurou-me: “Adeus!”

 

Quando voltei... era o palácio em festa!...

E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra

Preenchiam de amor o azul dos céus.

Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!

Foi a última vez que vi Teresa!...

 

E ela arquejando murmurou-me: “Adeus!”

                                     São Paulo, 28 de agosto de 1868

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Antônio de Castro Alves
 nasceu na comarca de Cachoeira, Estado da Bahia, a 14 de abril de 1847, sendo filho do médico Antônio Alves e de sua mulher, D. Clélia Brasília da Silva Castro. Faleceu na cidade do Salvador a 6 de julho de 1871. Na expressão de Afrânio Peixoto Castro Alves “Pôs suas ideias à frente do seu sentimento e, num tempo em que a miséria da escravidão não comovia ninguém, despertou com os seus poemas arrebatadores, piedosos ou indignados, a sensibilidade humana e patriótica da geração que, vinte anos mais tarde, viria a conseguir a liberdade. Por isso lhe deram o nome invejável de Poeta dos Escravos. Das alturas do seu gênio compreendera que não há grande homem sem uma grande causa social a que tenha servido, e não aspirava a outra glorificação que a dessa obra realizada. A morte, depois, não importaria...

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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

MURMÚRIOS DA TARDE – Castro Alves

 


Murmúrios da Tarde

Castro Alves

 

                    Rosa! Rosa de amor purpúrea e bela.

                                                                            Garret

 

Ontem à tarde, quando o sol morria,

A natureza era um poema santo,

De cada moita a escuridão saía,

De cada gruta rebentava um canto,

Ontem à tarde, quando o sol morria.

 

Do céu azul na profundeza escura

Brilhava a estrela, como um fruto louro,

E qual a foice, que no chão fulgura,

Mostrava a lua o semicírculo d’ouro,

Do céu azul na profundeza escura.

 

Larga harmonia embalsamava os ares!

Cantava o ninho – suspirava o lago...

E a verde pluma dos sutis palmares

Tinha das ondas o murmúrio vago...

Larga harmonia embalsamava os ares.

 

Era dos seres a harmonia imensa,

Vago concerto de saudade infinda!

“Sol – não me deixes”, diz a vaga extensa,

”Aura – não fujas”, diz a flor mais linda;

Era dos seres a harmonia imensa!

 

“Leva-me! Leva-me em teu seio amigo”

Dizia às nuvens o choroso orvalho,

“Rola que foges”, diz o ninho antigo,

“Leva-me ainda para um novo galho...”

“Leva-me! Leva-me em teu seio amigo.”

 

“Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!

“Inda um calor, antes que chegue o frio...”

E mais o musgo se conchega à penha

E mais às penha se conchega o rio...

“Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!”

 

E tu no entanto no jardim vagavas,

Rosa de amor, celestial Maria...

Ai! Como esquiva sobre o chão pisavas,

Ai! Como alegre a tua boca ria...

E tu no entanto no jardim vagavas.

 

Eras a estrela transformada em virgem!

Eras um anjo que se fez menina!

Tinhas das aves a celeste origem.

Tinhas da lua a palidez divina,

Eras a estrela transformada em virgem!

 

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,

Que bela rosa! Que fragrância meiga!

Dir-se-ia um riso no jardim aberto,

Dir-se-ia um beijo que nasceu na veiga...

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!...

 

E eu que escutava o conversar das flores,

Ouvi que a rosa murmurava ardente:

“Colhe-me, ó virgem, - não terei mais dores,"

“Guarda-me, ó bela, no teu seio quente...”

E eu escutava o conversar das flores,

 

“Leva-me! Leva-me, ó gentil Maria!”

Também então eu murmurei cismando...

“Minh’alma é rosa, que a geada esfria...

“Dá-lhe em teus seios um asilo brando...

“Leva-me! Leva-me, ó gentil Maria!...”

 

                    Rio de Janeiro, 12 de outubro de 1869

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Antônio de Castro Alves nasceu na comarca de Cachoeira, Estado da Bahia, a 14 de abril de 1847, sendo filho do médico Antônio Alves e de sua mulher, D. Clélia Brasília da Silva Castro. Faleceu na cidade do Salvador a 6 de julho de 1871. Na expressão de Afrânio Peixoto Castro Alves “Pôs suas ideias à frente do seu sentimento e, num tempo em que a miséria da escravidão não comovia ninguém,  despertou com os seus poemas arrebatadores, piedosos ou indignados, a sensibilidade humana e patriótica da geração que, vinte anos mais tarde, viria a conseguir a liberdade. Por isso lhe deram o nome invejável de Poeta dos Escravos. Das alturas do seu gênio compreendera que não há grande homem sem uma grande causa social a que tenha servido, e não aspirava a outra glorificação que a dessa obra realizada. A morte, depois, não importaria...

 

De tumba da infâmia erguer um povo

Fazer de um verme – um rei.

Depois morrer... que a vida está completa

- Rei ou tribuno. César ou poeta,

Que mais quereis, depois?

Basta escutar do fundo lá da cova

Dançar em vossa lousa a raça nova

Libertada por vós...”

* * *