Total de visualizações de página

sábado, 24 de junho de 2017

SÃO PEDRO VEM AÍ - Antonio Nunes de Souza


São Pedro vem aí!


Depois dos foguetórios de hoje a noite 24/06, as esfregações nos forrós, licores e bebidas quentes, dias adiante teremos festa similar em homenagem ao velho Pedro, grande escudeiro de Jesus Cristo, porteiro do céu, meio confuso operador das estações climáticas e, para coroar as suas diversas funções, é também o maravilhoso padroeiro da viúvas!

As festas de tão parecidas que são, pode ser considerada a festa de Pedro, como se fosse um “micareta”, pois, normalmente sendo animada, sempre é menor que a de João, mesmo sendo ele um ministro de Deus dos mais conceituados e eficientes! Isso é para que vejamos, nem sempre os mais trabalhadores, são agraciados pelo povo. Mas, como a tradição da fogueira pertence ao nascimento de João (não havia internet e as fogueiras eram sempre os avisos entre os distantes moradores do passado), o privilégio do evento sempre será dele, Pedro apenas pegando a rebarba!

Que todos os santos estejam abençoando os profanos devotos que, pelas estradas a fora, estarão se dirigindo para as cidades que comemoram com expressividade o dia do barbudo Santo, chamado e bendito Pedro!

Quanto as maravilhosas quadrilhas, essas abrangentes aos doze meses do ano, vamos deixar para os políticos de Brasília, esperando todos nós para ver os que vão dançar!

Se a nossa justiça for mole como canjica, tudo vai virar “pamonha” ou a costumeira PIZZA!


Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras- AGRAL



* * *

FESTEJANDO O SÃO JOÃO - Eglê S Machado

Festejando o São João


Acendi minha fogueira,
Compartilhei a canção
Mais bonita e altaneira
Que me veio ao coração!

E dancei a noite inteira
Forró, xaxado, baião,
- Roupa de chita, brejeira,
Licor, canjica e quentão!

Convidei a rezadeira
Mais rica de devoção,
Para entoar certeira
A mais brilhante oração!

LOUVAÇÃO ALVISSAREIRA
AO QUERIDO SÃO JOÃO!...


Eglê S Machado
Academia Grapiúna de Letras-AGRAL

* * *

DOS LARANJAIS DE SERGIPE E DAS MONTANHAS DO LÍBANO – Helena Borborema

Dos laranjais de Sergipe e das montanhas do Líbano


            O pequeno vapor apitou na entrada da barra.

            A maré alta já lhe permitia navegar até o cais depois de quase duas horas de espera fundeado ao largo.

             Do lado da cidade, muita gente apinhada ao longo da ponte de madeira: eram carregadores a espera de bagagens, comerciantes que aguardavam mercadorias encomendadas, moleques desocupados frequentadores habituais da beira do cais, meretrizes à cata de marinheiros, homens de diferentes condições sociais à espera de parentes ou amigos que chegavam, ou simplesmente de notícias.

            A pequena cidade de São Jorge dos Ilhéus movimentava-se naquele momento com o seu cais, onde desembarcava gente e de onde partiam barcaças carregadas de cacau e piaçaba, sem falar no vai-e-vem de canoas e saveiros de pesca nas imediações.

            Mas, era no vapor que apitava e, balançando, ia se aproximando do cais, que se concentravam todas as atenções e interesse. Era ele um dos que, de mês em mês, chegavam a Ilhéus vindo de Salvador. A sua chegada era sempre ansiosamente esperada por todos e pelos mais variados motivos.

            Colocada a escada, depois de atracado, a descida dos passageiros era um espetáculo especial: como sempre, mulheres amarelas de cara enjoadas e roupa amarrotada agarradas às suas crianças, homens de todas as idades, uns vestidos modestamente com seu baú sob o braço, outros endomingados. Os carregadores que logo subiam a bordo, já desciam atravancados das mais variadas bagagens: malas de couro, algumas bem apresentadas, outras amarradas de corda, baús, espreguiçadeiras, caixotes, sacos de viagem, embrulhos e mais embrulhos.

            Mas, desses vapores desciam também senhoras elegantes, de chapéu e luvas, roupa requintada, brincos e anéis de brilhantes, de braço dado com o marido, algum coronel ou doutor de Ilhéus, vindos da capital, ou moços bem vestidos da cidade, que a negócio ou estudo estavam em Salvador.

            Mas, em geral,  os passageiros eram na maioria pessoas simples, vindas de Sergipe, que se destinavam a Tabocas. O novo Eldorado era uma tentação irresistível; atraídos por ele, deixavam suas cidades e lugarejos e partiam via Salvador para a enfadonha viagem de mar, para a mata e a lama do arraial.

            Depois de desembarcarem em Ilhéus, tinham ainda pela frente o desconforto e peripécias de um percurso a ser feito de canoa e outro no lombo de burro, quando não a pé,  durante dois e até três dias. O Banco da Vitória era um pouso obrigatório antes que atingissem Tabocas. Naquele lugarejo era que se arranjava montaria ou simplesmente se descansava antes de enfrentar a segunda etapa da viagem.

            Aqueles sergipanos desembarcados traziam, além da força de seus braços para o manejo do machado, a vontade de prosperar,  sangue bom para a nova terra adotiva, tenacidade e, sobretudo, capacidade de trabalho. E aqui chegando, lutavam e iam crescendo com a Itabuna que surgia. Enfrentaram a mata, abriram picadas, expondo-se às investidas de índios e ataques das onças, correram o perigo das cobras venenosas e da febre mortal. Enfrentando a violência do meio, plantaram cacau. Outros, dedicando-se ao comércio, abriram suas vendolas ou “tabocas” como eram chamadas, suas pequenas oficinas de trabalho onde, com afinco, labutaram. Todos queriam prosperar. À nova terra iam facilmente integrando-se e compartilhando de suas alegrias e dissabores, dificuldades e vitórias e, acima de tudo, de suas elevadas aspirações.

            Implantados na boa terra Grapiúna, criaram raízes fortes e profundas que sustentaram com vigor uma grande árvore que fizeram crescer.

            Dos fortes braços sergipanos, de seu trabalho inteligente e tenaz, nasceram fazendas de cacau, empórios comerciais; foram muitos os que fizeram fortuna. Famílias pioneiras geraram filhos e demais descendentes que são, hoje, ramos vigorosos daqueles velhos troncos ancestrais.

            Daqueles tempos mais distantes, além dos Oliveira, dos Alves e Pinheiro, chegaram a essa terra Ramiro Nunes de Aquino, Paulino Vieira, Tertuliano Guedes de Pinho,  Rodolfo Cunha, José Lúcio da Silva, Nilo Santana. Com o tempo vieram ainda Francisco Fontes, José Fontes Torres, Daniel Rebouças, Francisco Benício dos Santos, Oscar Marinho Falcão, Nicodemos Barretto, Francisco Briglia e tantos e tantos outros que lutaram no incipiente comércio ou nas roças, com espírito forte, na perseverança de quem quer vencer.

            A vida dos pioneiros não foi fácil. Muitos homens dos que se embrenharam na mata, levaram vida dura, muitas vezes atolados na lama, sem meios de transporte, buscando na terra virgem a realidade com a qual sonhavam. Comiam do que plantavam ou caçavam. Alguns nem podiam dispor de mão-de-obra suficiente a ajudá-los. Por isso mesmo, muitas esposas compartilharam com o marido de todas as durezas do trabalho da mata. De manhãzinha muito cedo, sem esperar que o sol se levantasse de todo, ainda no lusco-fusco da madrugada, marido e mulher deixavam a casa ou o rancho em busca do roçado. Marchavam com os pés molhados do orvalho, quando não o corpo transido do frio da manhã úmida e chuvosa. Abnegadas mulheres, aquelas companheiras decididas e corajosas que de volta a casa, no cair da tarde, depois dia de labuta, ainda buscavam energia para ir ao ribeirão limpar a caça pegada no mundéu, preparar de noite o almoço para, no outro dia, antes de romper o sol, partir com o seu companheiro para o trabalho na mata. A caminhada que enfrentavam todo dia era grande;  por isso o almoço já ia preparado no alforje: feijão verde, carne de caça moqueada e farinha de mandioca ou aipim cozido. No vasto pedaço de terra já limpo, as sementes eram plantadas. No dia seguinte, aquele trabalho se renovaria adiante, sempre adiante em busca de uma realidade pela qual achavam válidos todos os sacrifícios – a roça de cacau. A duras penas iam eles ampliando suas plantações, amealhando o produto de seu trabalho para novos empreendimentos. Assim nasceram fortunas e se fizeram grandes patrimônios que iriam, mais tarde, enriquecer a região. Não era fácil vencer as vicissitudes do meio rude, quando o homem dispunha unicamente de sua iniciativa e inteligência. Sem estradas, sem eletricidade e meios de comunicação, sem transporte a não ser lerdas bestas de carga, só a vontade de vencer podia dar força necessária para as arrancadas a que se propuseram com destemor aqueles lutadores.


Mas, não foi só aos laranjais de Sergipe que chegou o cheiro gostoso do cacau sulbaiano. Ele se espalhou para muito, muito mais além. Atravessou oceanos e chegou a outros continentes. Subiu as montanhas do Líbano e lá encantou a muitos com a sua magia. Famílias libanesas, também atraídas, desembarcaram nas terras ricas do Sul e fizeram delas a sua terra. Rijos como os velhos cedros de seu país de origem, esses imigrantes vindos de outra parte do mundo também labutaram no comércio e na lavoura da nova terra, a amaram e aqui fizerem descendência. Entre os primeiros, chegaram os Maron, os Hagge, os Midlej, os Agle, Abdon e Habib.

            Acreditavam aqueles sírio-libaneses não só no cacau, mas no futuro de todo aquele chão que pisavam. E, nas ruas lamacentas da nascente vila de Tabocas, abriram alguns deles suas pequenas e sortidas lojas.

            Aqueles gringos de fala embolada e modos corteses despertavam atenção especial da parte de muitos velhos e rudes moradores, e traziam com seu trabalho inovador, um novo aspecto ao incipiente comércio da recém-criada vila de Itabuna. Nomes pomposos, antes nunca vistos naquelas ruas tortuosas de casinhas modestas, apareceram então pintados em tabuletas, como Parc Royal, Palácio Central, Empório Americano. Acreditavam eles que nas terras enlameadas da turbulenta vila, estava a riqueza. A prova era o ativo movimento de tropas carregadas de sacos de cacau na época da safra a despejar fortunas nos grandes depósitos dos armazéns, nas boiadas cada vez maiores que passavam beirando o rio para abastecer a população crescente.

            Disposição para o trabalho não faltava àqueles imigrantes libaneses que trocaram a sombra dos vetustos cedros e oliveiras da terra natal pelas promessas dos jovens cacaueiros. Com otimismo aprenderam e substituir a terna carne de cabrito montanhês pelo charque bem curtido vindo do sertão de Conquista.

            As árvores de frutos dourados plantadas pelas mãos calosas de homens destemidos, foram regadas com suor e até com sangue. Mas cada pé foi plantado com o idealismo e tenacidade daqueles que querem vencer e defendido com a coragem dos fortes.

            Outros migrantes vieram do próprio estado e de outros, que não plantaram cacau, mas ideias e valores espirituais. E foi pelo trabalho, idealismo e coragem desses que aqui chegaram, que se consolidou uma comunidade consciente de sua força, herança dos bravos pioneiros.

(TERRAS DO SUL)

Helena Borborema

* * *

sexta-feira, 23 de junho de 2017

APESAR DE VOCÊS - Rosiska Darcy de Oliveira

Apesar de vocês


A recusa pelo TSE a cassar a chapa Dilma-Temer pode ter sido a gota d’água que transbordou o pote de mágoas dos brasileiros. Nas redes sociais, recorrente, uma indignação sofrida.

Apesar das caras e bocas que com lábios frouxos pronunciam com desprezo a palavra povo; da frieza com que provocam a repulsa da sociedade; da vaidade tragicômica que atinge píncaros do ridículo; apesar de vocês, juízes que comprometem a Justiça, há no país um genuíno desejo de decência.

O novo Brasil que está nascendo falou, no julgamento do TSE, pela voz do ministro Herman Benjamin, que se recusou a ser coveiro da verdade. A verdade ficou ali, gritante, reiterada por dois ministros do STF, Luiz Fux e Rosa Weber.

Apesar de vocês, políticos canastrões no papel de estadistas, com seus peitos estufados, suas gravatas espaventosas, apesar dos seus porões noturnos, seus sussurros e maquinações escabrosas, suas mesadas milionárias, seus empresários tão amigos, apesar da venda do país e de nós todos ao longo de décadas, todos rindo muito, trocando de cúmplices como de sapatos, nessa omertà insultuosa aos brasileiros que lhes sustentam com seu trabalho. Apesar de vocês, contra vocês e mais forte do que vocês, um outro Brasil já existe como querer coletivo.

À decisão do TSE, à profunda revolta que provocou, veio se somar, dias depois, o suicídio político do PSDB. O partido que se demarcara do PMDB em nome da ética, contra todas as evidências de corrupção no governo decide continuar a apoiá-lo e protege seu próprio presidente enredado em gravações espantosas. O que põe a nu uma nova clivagem que não se pode chamar de política, já que os partidos esvaziaram o sentido dessa palavra. Uma clivagem que não é sequer ideológica, é moral.

A verdadeira clivagem é entre corrupção e honestidade. De um lado, a corrupção que contamina todos os grandes partidos em um gigantesco esquema de cumplicidade, entre si e com empresas bandidas; do outro, a população, ofendida, para quem honestidade na vida pública é meio e fim de um Brasil refundado. Que quer ver desaparecer da vida pública esses homens e mulheres que já não representam posição política alguma, apenas os seus próprios interesses de poder ou de dinheiro.

O desprezo é um sentimento quase sempre recíproco. A população despreza quem a despreza, o que em si já é parte do novo Brasil. Os partidos sabem disso. Daí quererem impedir candidaturas independentes, restringindo a escolha do eleitorado ao seu círculo incestuoso, onde jogam o jogo do toma lá dá cá, um abraço de afogados. Fingem não saber que o problema não é mais de política, e sim de polícia. Inútil, mais cedo ou mais tarde as sentenças virão.

A trama criminosa que se instalou no Brasil e que não tem paralelo no mundo continua viva e atuante, tentando a todo custo neutralizar a Lava-Jato e, se possível fosse, destruí-la. Esta persistência no crime fere a democracia e deixa uma cicatriz. E ainda nos expõe ao risco real e iminente de enfunar as velas de uma abominável extrema-direita pronta para aproveitar-se do vazio de poder aberto pela derrocada do sistema político.

Para além da luta contra a corrupção, da afirmação do fato moral, é urgente vertebrar a sociedade que queremos. Novas lideranças conquistarão o seu lugar na medida em que apresentem ideias e propostas para reconstruir o país, refundando a política e a democracia sobre os escombros que herdamos.

Ponto nevrálgico desse legado maldito avulta, entre outras misérias, a violência. A tragédia de jovens pobres e negros que se matam entre si, sem saber quem são nem por que vivem, a quem foi negada mínima chance de uma verdadeira escola, capacidades e valores, jogados no colo dos traficantes. Os que não morrem adolescentes vão agonizar em prisões concentracionárias, as mãos entre as grades em gestos de pedintes ou loucos. Políticos desonestos, que lhes roubaram a possibilidade de outro destino, também são culpados de seus crimes, da guerra nas ruas que está levando tanta gente a abandonar o Brasil. Também roubaram o futuro dessas crianças transformadas em exilados. E continuam dando a todos os jovens o pior dos exemplos, o da insensibilidade moral.

Vocês são hoje fantasmas, sentados em suas nobres cadeiras. Seu tempo acabou. Porque se o poder vem de cima, e se negocias nos porões, a confiança vem de baixo, e essa confiança vocês perderam.

     - - - x - - -

Registro aqui minha repulsa à agressão sofrida pela jornalista Míriam Leitão. A intolerância dos agressores atingiu não só a ela, também à liberdade de imprensa.
O Globo, 17/06/2017

Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL. Eleita em 11 de abril de 2013, é escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo, falecido em 23 de dezembro de 2012.




* * *

SÃO JOÃO DA VELHA BAHIA – Oscar Benício dos Santos

 São João da velha Bahia


Aquele, Antigo São João,
com sua noite alegre e fria 
Iluminava o céu a balão;
no chão, a fogueira aquecia,


os terreiros da Bahia.
Bombas, foguetes, rojão
o estampido se ouvia
a perder-se na amplidão.


No São João do Pelourinho
perto do Carmo, vizinho,
ao Largo de São Francisco,


lembrava a escravidão,
com seu Poeta do então
e o inumano obelisco.



Oscar Benício Dos Santos
Faz. Guanabara



* * *

quinta-feira, 22 de junho de 2017

COISAS DA VIDA - Clarice Lispector


Coisas da vida 


Já escondi um amor com medo de perdê-lo, já perdi um amor por escondê-lo.

Já segurei nas mãos de alguém por estar com medo, já tive tanto medo ao ponto de não sentir minhas mãos.

Já expulsei pessoas que amava da minha vida, já me arrependi por isso....

Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos...

Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem....

já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amavam...

Já passei horas na frente do espelho, tentando descobrir quem sou, já tive certeza de mim, ao ponto de querer sumir ...

Já menti e me arrependi... já falei a verdade e também me arrependi...

Já fingi não dar importância as pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto...

Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir...

Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam...

Já tive crises de risos quando não podia...

Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros. Já fingi ser o que não sou para desagradar outros...

Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.

Já gritei quando devia calar, já calei quando devia gritar...

Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz...

Já inventei histórias de final feliz, para dar esperança a quem precisava...

Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade...

Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali"...

Já caí inúmeras vezes, achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes, achando que não cairia mais...

Já liguei para quem não queria, apenas para não ligar para quem realmente queria...

Já corri atrás de um carro, por ele levar alguém que eu amava embora.

Já chamei pela mãe no meio da noite, fugindo de um pesadelo, mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda...

Já chamei pessoas próximas de "amigo", e descobri que não eram, algumas pessoas nunca precisei chamar de nada, e sempre foram e serão especiais para mim...

Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!...

Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!...

Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras.

Não sei voar com os pés no chão...

Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre...

Com o tempo aprendi que o que importa não é o que você tem na vida, mas QUEM você tem na vida...

E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Gosto de cada um de vocês de um jeito especial e único...

Clarice Lispector
-------


Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, de pais russos, no ano de 1925 e emigrou com a família para o Brasil no ano seguinte, nunca mais voltaria à pequena aldeia de Tchetchenillk em que nascera. Fixaram-se no Recife, onde a escritora passou a infância. Depois da morte de sua mãe, quanto tinha 12 anos, ela mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, já tendo esboçado seus primeiros contos.
Ingressou no curso de direito, formou-se e começou a colaborar em jornais cariocas. Em 1943 casou-se com um colega de faculdade e, no ano seguinte ao de seu casamento, publicava seu primeiro livro, “Perto do coração selvagem” e, com apenas 19 anos de idade, pode assistir a enorme repercussão com o público e com a crítica de seu estilo, diferente de tudo o que se fizera até então. Sendo seu marido diplomata de carreira, Clarice viveu fora do Brasil por cerca de quinze anos, onde pôde dedicar-se exclusivamente a escrever.
Depois de separar-se do marido, já de volta ao Brasil e morando no Rio de Janeiro soube que sofria de câncer generalizado. Morreu em dezembro de 1977, na véspera de seu aniversário, como uma das mais importantes vozes da literatura brasileira.

* * * 

BAIRRO PERNAMBUÉS: TERRITÓRIO FUNDADO PELOS QUILOMBOLAS DO CABULA

Por Davi Nunes 

Talvez o mar de casas com blocos nus, sem reboco, com telhas de Eternit, ou laje, em confluir de vielas e ruas não tenham mais o conforto dos mocambos passados, os quais tinham em seus quintais as árvores soprando a sabedoria dos antepassados divinizados no ouvido. Talvez a periferia com seu fluir frenético de aglomeração de multidões, com meninos perdidos por força da opressão nos enrolos sistemáticos do tráfico, não tenha a força política e revolucionária que havia no quilombo, mas ainda sei que há o germe, o afã inicial dos guerreiros quilombolas que bateram de frente com a escravidão. Por isso escrevo para tentar restaurar, isso, nesse breve ensaio sobre aspectos da história do bairro Pernambués, que segundo dados do IBGE (2010) possui a maior população negra declarada – com 53.580 habitantes – da cidade do Salvador.

O Pernambués é mais um bairro que está localizado no território correspondente à área que foi o Quilombo do Cabula no século XIX, no miolo de Salvador. Tem ligações com avenidas importantes da cidade – a Paralela e a ACM. Além disso, se encontra próximo à Estação Rodoviária da cidade. Seus marcos geográficos podem ser definidos com uma parte ligada ao Cabula, ao norte; à Avenida Paralela, ao sul; à Avenida Luís Eduardo Magalhães e a área Federal do 19° Batalhão de Caçadores, ao leste; e com a comunidade de Saramandaia, à oeste.

O nome do bairro tem origem indígena, cujo significado é “mar feito à parte” ou “tanque de água”. Na verdade, existia um rio chamado Pernambués no local, que acabou nomeando toda a comunidade. Atualmente ainda há resquícios desse rio preservado no interior do 19 BC.

O lugar onde se encontra hoje o Pernambués abrigava várias chácaras e fazendas, as quais se formaram no Cabula em fins do século XIX e se desenvolveram durante toda a primeira metade do século XX. Assim, entre as varias fazendas que tinha, existia uma bastante importante, produtora de laranja, chamada Santa Clara. No entanto, com a sua dissolução, em 1956, os quilombolas retomaram as terras e deram origem ao bairro.

A territorialidade recuperada em 1956 fez com que a comunidade fosse construindo uma estrutura social baseada numa dinâmica de organização africana, uma arquitetura de divisão do espaço que podemos dizer neo-quilombola. Ela se formou e ainda possuía uma ordem formal no desenvolvimento do bairro; e esse espírito quase perdido de coordenação pode se ver notado até hoje na formar como os lideres e associações comunitárias tentam organizar minimamente a comunidade. Porem, isso se desmantelou no inicio da década de 80, com a construção do Shopping Iguatemi e da Estação Rodoviária. Uma nova dinâmica social se formara com o “desenvolvimento” ocorrido na própria Cidade do Salvador. As obras que desde a década de 70 tomavam o Cabula também trouxe um grande contingente de pessoas do interior do estado para trabalharem nas construções, o que fez aumentar consideravelmente o número populacional da comunidade.

Atualmente, o bairro se encontra numa localização estratégica, próximo de três grandes shoppings: Iguatemi, Salvador e Bela Vista.  Não que isso signifique muito, pois só possibilita a alguns moradores trabalharem no serviço informal, na periferia dessas instituições comerciais; como também terem um acesso fragilizado a alguns serviços e consumo. Na verdade, conseguem se influírem na lógica do comércio e constituírem a sobrevivência.

No bairro também há muitos condomínios, prédios. Eles foram construídos para setores médios e brancos da sociedade morarem, o que destruiu muito da mata atlântica que existia e desapropriou os quilombolas que eram donos das terras, levando-os a morarem em lugares mais escantilhados da comunidade e socialmente desguarnecidos.

A grande quantidade de negros(as) existentes no Pernambués – homens e mulheres de ascendência africana que sobrevivem nessa diáspora de desespero, chamada Salvador – constituem a paisagem humana do bairro, a sua dinâmica cotidiana, a forma como se modela e se estrutura. No entanto, se faz necessário restaurar a força, o axé dos ancestrais quilombolas, que constituíram com muita resistência a socioexistência do local, para se resgatar  o espírito de unidade e saber qual a batalha que se tem que travar nessa terra, cujo trajetória histórica – para o povo negro – fora sempre de luta e conquista da liberdade.
  

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil



* * *