Os Egípcios inventaram a múmia para conservarem o cadáver
através dos séculos. Assim a matéria não desapareceria na morte; triunfava
dela, do que temos alguns exemplos ainda.
Mas não existiu só lá esse fato. O empregado público não se
aniquila de todo na aposentadoria; vai além, sob uma forma curiosa,
antediluviana, indefinível; o que chamamos empregado público aposentado.
Espelho à rebours, só reflete o passado, e por ele chora
como uma criança. É a elegia viva do que foi, salgueiro do carrancismo,
carpideira dos velhos sistemas.
Reforma, é uma palavra que não se diz diante do empregado
público aposentado. Há lá nada mais revoltante do que reformar o que está
feito? Abolir o método! Desmoronar a ordem!
Atado assim ao poste do carreirismo, eterno lábaro do que é
moderno, o empregado público aposentado é um dos mais curiosos tipos da
sociedade. Representa o lado cômico das forças retroativas que equilibram os
avanços da civilização nos povos.
É o tipo que hoje trago à minha tela. São variáveis o
caráter e a feição desta individualidade, mas eu procurarei dar-lhe os traços
mais finos, os mais vivos.
Conceber um aposentado sem caixa de rapé é conceber o sol
sem luz, o oceano sem água. Uma pertence ao outro, como a alma pertence ao
corpo; são inseparáveis. E têm razão! O que vale uma caixa de rapé, não o compreende
qualquer profano. É o adubo oportuno de uma conversa árida e suada sobre qualquer
reforma de governo. É o meio de conhecimento com um potentado de quem se espera
alguma coisa. É a caixa de Pandora. É tudo, quase tudo.
E não parece. Aquele utensílio tão mesquinho, em outro
qualquer, está circunscrito na estreita esfera do nariz; nas mãos do
aposentado, transforma-se; em vez de se transformar o depósito de um vício,
torna-se o instrumento de certos fatos políticos que muitas vezes parecem
nascer de causas mais altas.
Este prestígio do empregado público aposentado não para só
na caixa, estende-se por todos os acessórios daquele curioso indivíduo. Na gravata,
na presilha, na bengala, há certo ar, uma nuança especial, que não está ao
alcance de qualquer.
Ou natureza, ou estudo, a aposentadoria traz ao empregado
público esses dotes, como um presente de núpcias.
Ora, apesar deste metódico das formas, não estão limitadas
aí as vistas do aposentado. Há naquele cérebro alguma finura para se não
entregar exclusivamente a essas ninharias. E a política? A política lá o
espera; lá o espera o governo; lá o espera o teatro, as modas, os jornais, tudo
o espera.
Não é maledicente, mas gosta de cortar o seu pouco sobre as
coisas do país. Não é um vício, é uma virtude cívica: o patriotismo.
O governo, não importa a sua cor política, é sempre o bode
expiatório das doutrinas retrógradas do empregado público aposentado. Tudo
quanto tende ao desequilíbrio das velhas usanças é um crime para esse viúvo da
secretária, arqueólogo dos costumes, antiga vítima do ponto, que não compreende
que haja nada além das raias de uma existência oficial.
Todos os progressos do país estão ainda debaixo da língua
fulminante deste cometa social. Estradas de ferro! É uma loucura do modernismo!
Pois não bastavam os meios clássicos de transporte que até aqui punham em
comunicação localidades afastadas? Estradas de ferro?
Desta sorte todas as instituições que respiram revolução na
ordem estabelecida das coisas — podem contar com um contra do empregado público
aposentado. Este meio mesmo de retratar a pena, como faço atualmente,
revoltaria o espírito tradicional da grande múmia do passado. Uma inovação de mau
gosto, dirá ele. É verdade; não representa apenas a superfície da epiderme, vai
às camadas mais íntimas da matéria organizada.
O empregado público aposentado poderá deixar de comer, mas
lá perder um jornal, lá perder um jubileu político ou sessão do parlamento, é
tarefa que não lhe está nas forças.
O jornal é lido, analisado com toda a finura de espírito de
que ele é capaz. Devora-o todo, anúncios e leilões; e se não vai ao folhetim, é
porque o folhetim é frutinha do nosso tempo.
No parlamento, é um espectador sério e atencioso. Com a
cabeça enterrada nas paredes mestras de uma gravata colossal ouve com toda a
atenção, até os menores apartes, vê os
pequenos movimentos, como profundo investigador das coisas políticas.
Ao sair dali, o primeiro amigo que encontra tem de levar um
aguaceiro de palavras e invectivas contra a marcha dos negócios mais
interessantes do país.
De ordinário o aposentado é compadre ou amigo dos ministros,
apesar das invectivas, e então ninguém recheia as pastas de mais memoriais e
pedidos. Emprega os parentes e os camaradas, quando os emprega, depois de uma
longa enfiada de rogativas importunas.
É sempre assim!
No sarau o empregado público aposentado é pouco cortês com
as damas; vai procurar emoções nas alternativas de um lindo baralho de cartas.
Mas para não faltar ao programa, lá vi tachando de imoral aquele divertimento
que tanto dinheiro absorve; fica-lhe a consciência.
Onde poderemos encontrar ainda o aposentado? Ele vai por
toda a parte onde é lícito rir e discutir sem ofensa pública.
O leitor conhece decerto a individualidade de que lhe falo,
é muito vulgar entre nós, e de qualidades tão especiais que a denunciam entre
mil cabeças. Que lhe acha? Quanto a mim é inofensiva como um cordeiro.
Deixem-no mirar-se no espelho dos velhos usos, falar em política, discutir os
governos; não faz mal.
Em uma comédia do nosso teatro, há uma reprodução deste
tipo, o Sr. Custódio do Verso e Reverso. Mirem-se ali, e verão que, apesar do
estreito círculo em que se move, faz pálidos e mirrados estes ligeiros e mal
distintos lineamentos.
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Aquarelas
Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de Assis,
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.
Publicado originalmente em O Espelho, Rio de Janeiro, 11 e
18/09 e 9, 16 e 30/10/1859.
Solenidade da Santíssima Trindade - Domingo 11/06/2017
Anúncio do Evangelho (Jo 3,16-18)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus
Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.
Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para
que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus
não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo
seja salvo por ele. Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já
está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. André
Teles:
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TRINDADE: do Triângulo ao Ícone
A festa da Trindade nos mobiliza para uma nova maneira de
viver e de nos relacionar com o Deus Comunhão de Pessoas, cuja presença
preenche o cosmos, irrompe na vida, habita decididamente no interior de cada um
de nós e é vivido em comunidade.
A Trindade “desvela” a maneira de ser de Deus, como Amor que
se expande, em si e fora de si, de uma maneira “redentora”, inserindo-se na
história da humanidade. Deus é Amor e só amor. Diante da presença e da
ação do Deus Trinitário, afogam-se as palavras, desfalecem as imagens e mor-rem
as especulações. Só nos restam o silêncio, a ado-ração e a contemplação.
Para facilitar tal atitude, vamos ativar nossos sentidos
interiores para que se deixem impactar pelo Icone de Rublev: da Trindade
pensada à Trindade adorada.
A Trindade não é fácil de ser representada. Aqui o artista
representou-a na figura de três anjos peregrinos, assentados à mesa de
Abraão. O quê vemos neste ícone? Três anjos, reconhecidos por suas asas,
estão assentados em torno de uma mesa. Os três sustentam um cajado na mão
(Trindade Peregrina).
Trata-se de uma representação do relato da hospitalidade de
Abraão, que se encontra em Gen. 18, quando o Senhor apareceu ao patriarca na
planície de Mambré, sob a forma de três jovens. Abraão os convidou a
descansar e lhes ofereceu uma refeição. A tradição patrística viu nesses
visitantes uma figura das três pessoas divinas.
Podemos nos aproximar do ícone a partir da beleza; num
primeiro olhar, a divindade aparece revelando-se como uma grande luz que atrai
e purifica. A ausência de sombras no ícone quer fazer refletir a luz
divina em tudo, situa-nos diante da santidade de Deus e nos convida a
participar da luz da vida trinitária. Tudo está no mesmo plano, o plano
celestial; e, num olhar de fé, detrás da beleza de sua realidade sensível, o
ícone nos remete mais além do visível, para a beleza das realidades divinas que
representa e transmite; a razão emudece, o coração admira. Ou seja, não é a
imagem em si mesma que nos eleva pelo que representa, mas aquilo para o qual
ela aponta: o mistério trinitário ou o “excesso de Deus”.
Observe, em primeiro lugar, o ritmo ou movimento circular
que parece invadir todos os elementos do ícone, convidando-nos a entrar no
mistério de Deus. O movimento que, partindo do Pai, passa pelo Filho e se
consuma no Espírito, é um movimento de amor sem fim. Aqui, o ícone deixa
transparecer o amor que une às três Pessoas divinas. Trindade é mistério de
comunhão. É uma comunidade perfeita.
O ícone, através da reciprocidade dos olhares, evoca o
eterno movimento de amor que une as três Pessoas divinas, no sentido de que nenhuma
delas esgota em si mesma a existência, nem vive por si mesma, senão que
subsiste num mistério de total compenetração que ao mesmo tempo as une e as
diferencia. Isso é sugerido também pelo movimento circular do rosto
inclinado dos 3 anjos, eternamente jovens, sentados à mesa do universo, em
torno ao alimento divino; rostos que são semelhantes sem ser realmente
idênticos. A linha triangular dos rostos e o círculo dos corpos estilizados
indicam um mistério de diversidade na unidade. Fundidos num êxtase que
fala de unidade e de harmonia, os três rostos já dizem tudo.
Pouco importa se o Pai é sugerido pelo anjo do centro ou se,
antes, há um movimento que vai da esquerda à direita: o personagem da esquerda
indica ser o Pai; o do centro, o Filho; e o da direita, o Espírito Santo. As
figuras do centro e da direita olham com rosto respeitoso e humilde para a da
esquerda, que se mantém mais erguida que as outras duas, posto que o Pai é
origem e princípio de tudo. Os três, com efeito, tem a mesma atitude de
abertura, de respeito, de súplica e de invocação. Deles emana um mistério
de eternidade, de amor, de quietude, de paz, de serenidade.
Esse movimento se manifesta igualmente ao fundo do quadro. A
árvore se inclina para a esquerda do orante como se fosse submetida ao sopro de
um vento forte. Ainda à esquerda se inclinam os planos cortados do teto do
edifício. Tudo está em movimento, porque a vida é sair de si mesmo, é
doar-se. Esse ritmo exprime a circulação e a comunhão da mesma Vida divina
entre as Três pessoas.
Mas a Trindade não se fecha em si mesma. O movimento
expansivo expressa adoção, efusão, dom, generosidade e graça, que admite,
convida o ser humano ao círculo divino. Tudo se orienta, na fé, para o
mistério, para o encontro D’Aquele que vem. Curvando a árvore, o movi-mento
circular da vida divina atinge a natureza. Inclinando o teto do edifício,
atinge a humanidade orante, a humanidade no que ela tem de mais elevado. O
mundo todo constitui, de certo modo, a periferia; as Três Pessoas divinas permanecem
no centro.
Fixemo-nos, agora, nos traços das três pessoas. Elas não tem
idade e, no entanto, transmitem uma im-pressão de juventude. Elas não tem
gênero, no entanto elas unem o vigor à graciosidade. As fisionomias e os gestos
não foram “construídos” em vista do charme e, no entanto o charme que se
desprende é imenso. Rublev soube expressar de uma maneira única a eterna
juventude e a eterna beleza das três pessoas.
Cada um dos três anjos leva nas mãos um cajado alongado e
muito fino. É que cada pessoa divina é um viajante, um peregrino. O quadro
ressalta a participação de toda a Santíssima Trindade no mistério da salvação.
Os três cajados constituem uma declaração e uma promessa. Eles declaram que os
três já vie-ram fazer morada na humanidade. Eles prometem que os três
continuam, através da presença expansiva, a conduzir tudo para a plenitude. O
quadro evoca, pois, o conselho das Três Pessoas divinas em vista da redenção do
gênero humano.
O artista, com sua obra, não pretendia sugerir pensamentos,
mas uma oração. A perspectiva do ícone é orante, pois nos predispõe para
“entrar” no mistério de Deus; também nos convida a abandonar a lógica cotidiana
do útil, para poder entrar na lógica da gratuidade, do espaço místico e
cultual, do diálogo com Deus, até os cumes da adoração.
O ícone da Trindade de Rublev nos recorda que não se trata
de entender, ou de pensar e estudar o Misté-rio da Santa Trindade. O decisivo é
viver o mistério a partir da adoração e da partilha fraterna. É Deus quem
toma a iniciativa de se aproximar dos seres humanos. Como foram até Abraão, a
Trindade quer se aproximar também de cada um de nós. Dentro de nós habitam um
Abraão e uma Sara.
Que a contemplação deste quadro nos coloque em contato mais
profundo com as Três pessoas divinas para poder repetir, prostrados, as
palavras de Abraão aos divinos visitantes na planície de Mambré:
“Meu
Senhor, se mereci teu favor, peço-te, não prossigas viagem sem parar junto a
mim, teu servo”.
E se acolhermos as Três pessoas de todo coração, poderemos,
como Abraão, receber de sua boca a certeza de que essa experiência abençoada,
longe de ser um episódio isolado, nos será concedida de novo: “passarei de novo
pela tua casa”. Só assim sentiremos Vida brotar em nossas vidas, como irrompeu
no seio de Sara. Não mais seremos velhos, estéreis e infecundos. A fé faz
rejuvenescer.
Que a contemplação do belo e do Santo faça brotar em nós a
imagem de Deus que é Pai-Filho-Espírito. Amem!
Uma das plantas europeias que dificilmente se têm aclimatado
entre nós, é o folhetinista.
Se é defeito de suas propriedades orgânicas, ou da
incompatibilidade do clima, não o sei eu. Enuncio apenas a verdade.
Entretanto, eu disse — dificilmente — o que supõe algum caso
de aclimatação séria. O que não estiver contido nesta exceção, vê já o leitor
que nasceu enfezado, e mesquinho de formas.
O folhetinista é originário da França, onde nasceu, e onde
vive a seu gosto, como em cama no inverno. De lá se espalhou pelo mundo, ou
pelo menos por onde maiores proporções tomava o grande veículo do espírito
moderno; falo do jornal.
Espalhado pelo mundo, o folhetinista tratou de acomodar a
economia vital de sua organização às conveniências das atmosferas locais. Se o
têm conseguido por toda a parte, não é meu fim estudá-lo; cinjo-me ao nosso
círculo apenas.
Mas comecemos por definir a nova entidade literária.
O folhetim, disse eu em outra parte, e debaixo de outro
pseudônimo, o folhetim nasceu do jornal, o folhetinista por consequência do
jornalista. Esta íntima afinidade é que desenha as saliências fisionômicas na
moderna criação.
O folhetinista é a
fusão admirável do útil e do fútil, o parto curioso e singular do sério,
consorciado com o frívolo. Estes dois elementos, arredados como polos,
heterogêneos como água e fogo, casam-se perfeitamente na organização do novo
animal.
Efeito estranho é este, assim produzido pela afinidade
assinalada entre o jornalista e o folhetinista. Daquele cai sobre este a luz
séria e vigorosa, a reflexão calma, a observação profunda. Pelo que toca ao
devaneio, à leviandade, está tudo encarnado no folhetinista mesmo; o capital
próprio.
O folhetinista, na sociedade, ocupa o lugar de colibri na
esfera vegetal; salta, esvoaça, brinca, tremula, paira e espaneja-se sobre
todos os caules suculentos, sobre todas as seivas vigorosas. Todo o mundo lhe
pertence; até mesmo a política.
Assim aquinhoado pode
dizer-se que não há entidade mais feliz neste mundo, exceções feitas. Tem a
sociedade diante de sua pena, o público para lê-lo, os ociosos para admirá-lo,
e a bas-bleus para aplaudi-lo.
Todos o amam, todos o admiram, porque todos têm interesse de
estar de bem com esse arauto amável que levanta nas lojas do jornal a sua aclamação
de hebdomadário.
Entretanto, apesar dessa atenção pública, apesar de todas as
vantagens de sua posição, nem todos os dias são tecidos de ouro para os
folhetinistas. Há-os negros, com fios de bronze; à testa deles está o dia...
adivinhem? O dia de escrever!
Não parece? Pois é verdade puríssima. Passam-se séculos nas
horas que o folhetinista gasta à mesa a
construir a sua obra.
Não é nada, é o cálculo e o dever que vêm pedir da abstração
e da liberdade — um folhetim! Ora, quando há matéria e o espírito está
disposto, a coisa passa-se bem. Mas quando, à falta de assunto se une aquela
morbidez moral, que se pode definir por um amor ao farniente, então é um
suplício...
Um suplício, sim.
Os olhos negros que saboreiam essas páginas coruscantes de
lirismo e de imagens, mal sabem às vezes o que custa escrevê-las.
Para alguns não procede este argumento; porque para alguns
há provimento de matéria, certos livros a explorar, certos colegas a
empobrecer...
Esta espécie é uma aberração do verdadeiro folhetinista; exceções
desmoralizadoras que nodoam as reputações legítimas.
Escritas, porém, as suas tiras de convenção, a primeira hora
depois é consagrada ao prazer de desforrar-se de uma maçada que passou. Naquela
noite é fácil encontrá-lo no primeiro teatro ou baile aparecido.
A túnica de Néssus caiu-lhe dos ombros por sete dias.
Como quase todas as coisas deste mundo o folhetinista
degenera também. Algumas das entidades que possuem essa capa esquecem-se de que
o folhetim é um confeito literário sem horizontes vastos, para fazer dele um
canal de incenso às reputações firmadas, e invectivas às vocações em flor, e
aspirações bem cabidas.
Constituindo assim cardeal-diabo da cúria literária, é
inútil dizer que o bom senso e a razão friamente o condenam e votam ao ostracismo
moral, ausência de aplausos e de apoio.
Não é este o único abuso que se dá. É costume de outros
levantarem o folhetim como a chave de todos os corações, como a foice de todas
as reputações indeléveis.
E conseguem...
Na apreciação do folhetinista pelo lado local temo talvez
cair em desagrado negando a afirmativa. Confesso apenas exceções. Em geral o
folhetinista aqui é todo parisiense; torce-se a um estilo estranho, e
esquece-se, nas suas divagações sobre o boulevard e café Tortoni, de que está
sobre um mac-adam lamacento e com uma grossa tenda lírica no meio de um
deserto.
Alguns vão até Paris estudar a parte fisiológica dos colegas
de lá; é inútil dizer que degeneraram no físico como no moral.
Força é dizê-lo: a cor nacional, em raríssimas exceções, tem
tomado o folhetinista entre nós. Escrever folhetim e ficar brasileiro é na
verdade difícil.
Entretanto, como todas as dificuldades se aplanam, ele podia
bem tomar mais cor local, mais feição americana. Faria assim menos mal à
independência do espírito nacional, tão preso a essas imitações, a esses
arremedos, a esse suicídio de originalidade e iniciativa.
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Aquarelas
Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de Assis,
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.
Publicado originalmente em O Espelho, Rio de Janeiro, 11 e
18/09 e 9, 16 e 30/10/1859.
O Dia da Língua Portuguesa é comemorado no dia 10 de junho, dia em que a morte de Luiz Vaz de Camões é lembrada. Autor de obras memoráveis como “Os Lusíadas”, Luis de Camões é considerado um dos maiores poetas da história lusitana.
A língua portuguesa é nosso patrimônio comum, além de ser a matéria-prima para nossa literatura e poesia, por isso a importância da comemoração da data. Vale lembrar, que o idioma tem sua origem no latim vulgar – o latim falado, que os romanos introduziram na Lusitânia, região situada ao sudoeste da Península Ibérica, a partir de 218 a.C.
Atualmente, segundo dados da ONU, pelo menos 235 milhões de pessoas têm o português como primeira língua, em oito países que vão das Américas à Ásia. Mais de 80% desses falantes são brasileiros. Entretanto, muitos falantes do português vivem fora dos países lusófonos em nações da Europa e nos Estados Unidos. Não oficialmente, o português é falado por uma pequena parte da população em Macau, no estado de Goa, na Índia, e na Oceania.
A língua portuguesa é a quinta língua mais falada do planeta e a terceira mais falada entre as línguas ocidentais, ficando atrás somente do inglês e do castelhano. Por toda a importância dada à língua portuguesa, seu ensino agora é bastante valorizado nos países que compõem o Mercosul, e é a língua oficial em diversos países como: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe e, ainda, Timor-Leste após sua independência.
Após assumir sua nova comarca, o magistrado foi convidado
pelas autoridades locais para almoçar em um hotel. De início pensou em declinar
do convite, pois, a seu juízo, não ficava bem aparecer em público acompanhado
de pessoas até então desconhecidas e comprometer, de certo modo, sua
autoridade. Eram, em sua maioria, políticos.
Foi dissuadido pelo Pároco local. E lá se foi a comitiva. Chegando ao hotel foi
calorosamente recepcionado pelo Gerente e funcionários do estabelecimento.
Entre uma conversa e outra, um drink e outro, percebeu a simplicidade daquelas
pessoas, daquela gente humilde. Servidos foram frutos do mar e pratos exóticos.
Ao se servir, observou do outro lado o Presidente da Câmara colocando em seu
prato um pouco de tudo (moqueca de peixe, carne, camarão, feijão, arroz,
salada) que se avolumava à medida que ia se servindo. A certa altura já se
encontrava ele na parte da sobremesa. Quando ia colocar um pouco de farinha
sobre o macarrão, o gerente dele se aproximou e disse-lhe discretamente: Presidente,
é açúcar! Ao que ele respondeu disfarçando: lá em casa eu só como macarrão com
açúcar! O juiz fingiu nada ter presenciado. Depois do almoço, a comitiva
retornou. O tempo foi passando e novas pessoas foram conhecendo. Ficou
familiarizado com os jurisdicionados, sem perder a sua autoridade. Era muito
respeitado. Certa feita, o Delegado de Polícia o convidou para almoçar em um
restaurante pitoresco da cidade. Lá foi apresentado a “Capado”, o proprietário
do estabelecimento. Era uma figura engraçadíssima.
O Delegado, apesar de boa gente, era cismado. Para se ter uma ideia, cismava
até da própria sombra. E “Capado” sabia disso. Num dia de sábado, o delegado
comprou um cambiasse de cerca de 8 quilos e levou o bicho para “Capado” fazer
uma moqueca que seria servida, no dia seguinte, aos seus convidados. Na manhã
de domingo, o juiz antes de viajar para cidade vizinha onde iria almoçar com
seus pais, resolveu passar no quiosque de “Capado”. Lá chegando, viu alguns
tururins assando, ardendo na brasa e um cheiro gostoso se espalhava pelo ar.
Pediu-lhe que lhe fosse servido um pouco para experimentar da iguaria.
“Capado”, então, virou-se e disse: “Dotô, não compre a carne, porque eu fiz uma
moqueca de peixe para o sinhô almoçar com seus pais”. O juiz aceitou o presente
e seguiu viagem. Afinal, não podia fazer uma desfeita ao amigo diante de
tamanha gentileza.
Mais tarde, chega o Delegado e seus convidados. Uns dez.
Todos sedentos e famintos. Passaram a comer churrasco, regado a cerveja e
outros aperitivos.
Lá para às tantas, felizes e alcoolizados, o Delegado pediu a “Capado” para
servir a esperada moqueca, ao que “Capado”, malandramente, respondeu: “olha, o
juiz esteve aqui e disse que cambriassú é peixe de autoridade e que ia levá-la,
e assim o fez. Não podia fazer nada”... E rematou: “ele é quem manda, não é?”.
O delegado ficou embrabecido. O ocorrido se espalhou pela cidade. Houve
resenhas e deboches que irritavam o delegado cada vez mais. Queria prender
qualquer pessoa que comentasse o assunto, inclusive a “Capado”.
“Capado” para
se livrar das garras do Delegado procurou o juiz e lhe contou a verdade. O Juiz
sorriu e em seguida chamou o Delegado. Esclarecida a pegadinha, deram o assunto
por encerrado.
Antônio Carlos de Souza Hygino
Juiz de Direito titular da 5ª Vara Cível da Comarca de
Itabuna – Bahia.