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quinta-feira, 1 de junho de 2017

ADEUS, EDUARDO - Marco Lucchesi

Adeus, Eduardo


Não direi de minha amizade por Eduardo Portella. Não encontro forças, abalado pela sua partida. Direi apenas do crítico, do pensador, que vivo permanece, como um dos maiores poetas do ensaio em língua portuguesa.

Eduardo Portella poderia figurar nas páginas de Walter Benjamin como um anjo em meio às ruínas, levado pelos ventos da História, quando começa a reunir as partes de um todo disperso. Poderia flanar igualmente nos versos de Baudelaire no limes de uma cidade infinita, um Wanderer na espessura da superfície. Portella fez de sua condição peregrina uma autêntica forma mentis, congenial ao tempo que nos desafia, para lidar com a astúcia da incerteza, na genealogia do fragmento. Sua leitura passa de um regime vertical para um trâmite radial, como um saber que se move a contrapelo das formas transitivas. Não aceita horizonte prévio, como a euclidiana geometria de Kant, mas segue uma perene reinvenção dos sistemas, como queria Sloterdijk, cuja trilogia mais de uma vez discutimos, à sombra das estantes da Biblioteca Nacional, levando à cena o jogo da Parte e do Todo, dramatis personae do repertório ocidental.

Portella desistiu de escrever uma história de para exorcizar uma rima conceitual que considerou perigosa, de um todo totalitário, mais inclinado, muito embora, a um todo totalizável, no corte do fragmento, como Wittgenstein, para atingir uma história em. Portella optou por um percurso intensivo mais que extensivo, denso, rarefeito. A qualidade do pensamento não se mede por léguas de sesmaria ou latifúndio, sua métrica não se quantifica por testadas, mas de acordo com a potência qualitativa de expansão conceitual, no conteúdo crescente de Popper, ou na leitura de Heidegger sobre Hölderlin.

Eduardo Portella sente a demanda do sistema que elabora em horizonte fértil. Como quem parte de uma norma fractal. Como quem reclama a vastidão da parte sobre o todo, assim como da síntese sob suspeita, como desejo de futuro, sem veleidades sintáticas, alquimista que não se limita à busca da pedra, uma enciclopédia que indaga as malhas de um verbete inacabado, onde lateja uma sinergia multidirecional.

Nesse drama da parte com o todo, movem-se as máquinas do ensaio de Portella, que coincide com o círculo hermenêutico, sem um deus ex machina. Sob a estética do risco, o ensaio patrocina uma fratura, um elemento descontínuo. Portella não admite as tautologias, os determinismos sublimados e escondidos. Imerso nos desafios da “baixa modernidade”, Portella optou nos últimos anos pela dissonância, distanciando-se da síntese hegeliana, acolhendo a paralaxe de Žižek. Falamos do céu astronômico, de quanto meu corajoso telescópio captura nas noites de Itacoatiara.

A partir daí o sentido e a regra, a demanda e o percurso, o fluxo e a permanência operam, cada qual a seu modo, como instrumentos de abordagem do real. Portella segue um processo livre e vigoroso, ao mesmo tempo ficcionista e poeta, elemento-chave de sua obra esse hibridismo, como quem flutua, com Claudio Magris, sobre um Danúbio de conceitos convergentes da política e da poética, que se nutre de uma terceira margem. Portella é um nômade do pensamento sem endereço fixo para não se aprisionar dentro de uma província. É inquilino da complexidade de Morin e do pensamento fractal de Mandelbrot, contradança da parte com o todo.

Nos últimos anos, o baricentro de Eduardo Portella migrou da crítica para a metacrítica e a novos pontos de fuga. Suas páginas se tornaram espantosamente híbridas e abertas, como um hermeneuta da suspeita, de quem realiza uma biografia indireta, a partir de sua intensa noosfera. Uma memória futura, bem entendido, atravessada por um tempo que não fecha.

Jornal de Letras (Lisboa), 26/05/2017


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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha.

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“CHEGA DE IGUALDADE! MULHER NÃO DÁ PARA SOLDADO!” – DIZ CAPITÃ DOS MARINES



“Chega disso! Nós não fomos criados todos iguais”

“Chega de igualdade! Mulher não dá para soldado!” – diz capitã dos Marines
 24 May 2017 


“Mulher nunca deveria ser soldado de infantaria”, escreveu a capitã dos Marines Katie Petrônio na revista “Marine Corps Gazette”, segundo informou a agência LifeSiteNews.

No artigo intitulado “Chega disso! Nós não fomos criados todos iguais”, a capitã defende que a anatomia feminina não é capaz de resistir às asperezas de uma longa carreira militar que envolve operações de infantaria.

Ela adverte que os Fuzileiros Navais (Marines) vão sofrer “um aumento colossal no número de mulheres incapacitadas e obrigadas a concluir sua carreira por causas médicas”.

Katie Petronio se baseia na experiência pessoal, adquirida em situação de combate. Esta acabou lhe causando sérios danos físicos, malgrado um promissor começo na elite da oficialidade da arma.

A capitã escreveu que “preenchia todas as condições” para ser uma mulher-soldado ideal quando começou a carreira.
“Eu era uma estrela no hóquei sobre gelo no Bowdoin College, pequena escola de elite em Maine, com um título em Direito e Administração”.

“Cinco anos depois, eu não sou a mulher que uma vez fui”

Ela também tirou resultados “de longe acima da média em todos os testes físicos de capacidade para mulheres”, embora não completasse todo o treino prévio.
“Cinco anos depois, eu não sou fisicamente a mulher que uma vez fui, e meus pontos de vista a respeito de a mulher ser bem sucedida numa carreira duradoura na infantaria mudaram muito”, escreveu Petronio.

“Eu posso dizer, com base na minha experiência pessoal direta no Iraque e no Afeganistão, e não é apenas uma impressão, que nós ainda não começamos a analisar e a compreender as questões específicas de saúde do gênero e os danos físicos nas mulheres por causa de contínuas operações de combate”.

Corpo da mulher não aguenta o esforço que homem pode fazer

Petronio “participou em numerosas operações de combate” que por vezes duravam semanas, sofrendo stress e falta de sono.

Suas pernas começaram a se atrofiar, perdeu a mobilidade, perdeu peso, parou de produzir estrógeno e desenvolveu uma síndrome no ovário que a deixou estéril.

Ela completou seu período com bons resultados, mas percebeu que lhe seria impossível aguentar o esforço que um homem é capaz de fazer e pediu para se retirar por motivos de saúde.

Petronio manifestou sua preocupação diante da pressão dos grupos que impulsionam a integração de mulheres no corpo de infantaria.
Dinamitando árvore, foto de Katie Petronio

“Quem está promovendo essa agenda? Eu pessoalmente não vejo Marines femininas, recrutas ou oficiais, batendo às portas do Congresso, queixando-se de que sua impotência para servir na infantaria viola o direito à igualdade” escreve ela.

Kate diz que essa pressão está sendo aplicada pelo “pequeno comitê de civis nomeado pelo Secretário de Defesa” denominado Comitê Consultivo em Defesa para as Mulheres em Serviço (Defense Advisory Committee on Women in the Service – DACOWITS).

Embora alguns deles tenham experiência militar, nenhum de seus membros “estão no serviço ativo ou têm qualquer tipo de experiência recente em combate ou em operações relevantes sobre as realidades que eles estão tentando modificar”, observou Petronio.


Luís Dufaur
Escritor, jornalista, conferencista de política internacional,
sócio do IPCO, webmaster de diversos blogs

NA ESCOLA - Francisco Benício dos Santos


Na escola


            Ao completar o meu quarto aniversário, morando com minha madrinha Olímpia, fui mandado à escola do professor João da Matta, em Cristina, onde nada aprendi, nem as letras do alfabeto.

            Passava o tempo todo na aula de boca aberta chupando o dedo, despreocupado e indiferente ao ABC, cuja carta, um suplício para mim, vivia amarrotada entre as minhas mãos sujas e suadas.

            Deixavam-me crescer os cabelos e sobre eles, davam um laço de fita adornando-os. Isto me valeu a alcunha de “Chico Muié”, com a qual eu ficava furioso.

            Um dia, estava na escola sentado no banco de lado da parede, de costas para a rua, com a boca aberta, como de costume, e com a terrível carta de ABC machucada entre os dedos das mãos suadas, quando uma mosca vadia e malandra, sem mais cerimônia, encontrando-a escancarada, embarafustou por ela adentro, e lá se foi ao estômago. Vomitei a valer.

            O professor mandou-me, por um dos colegas, à casa, onde recebi tremenda vaia, e me crismaram com um novo apelido: “boca aberta”.

            Prometi a mim mesmo corrigir-me. Nessa escola nada aprendi, e dela guardo breves recordações, apenas traços da minha passagem.

            Com a minha saída da escola do professor Matta, mandaram-me para o professor Juvenal José de Souza, onde já estavam os irmãos Pio e Manoel, como alunos internos.

            Nessa fase da minha vida, minha avó Justina tinha se mudado de Chapada e morava no caminho, no Engenho D’água, em casa feita para ela especialmente, por meu pai. Olímpia, porém, residia com minha família.

            Na escola do professor Juvenal  também fiz muito pouco progresso. Era péssimo estudante, e, quando recriminavam a minha moleza e falta de inteligência, Olímpia tomava a minha defesa dizendo:

            - Os sentenciados são os que Deus favorece.

            O futuro ia confirmar a profecia do refrão.

            Nessa escola, deu-se um fato que provocou reprovações: num dia de aulas, o professor exasperou-se com Pio, e batendo-lhe com a palmatória nas mãos, também o fez nas nádegas, dando lugar ao protesto imediato de Manoel, que se achava presente, e já era rapaz.

            Meu pai soube do ocorrido, ficou furioso e se não fosse a intervenção de pessoas amigas e prestigiosas, o casa teria degenerado em sério conflito.

            Saímos os três da escola e fomos para a de dona Amância Francisca da Paixão, Manoel, Pio e eu, porque era muito pequeno, fui para a escola de dona Adelina Freire de Melo.

            Ali passei dois anos sem fazer nenhum progresso, a professora, muito carola, passava a maioria do tempo em rezas e na igreja. Todos os dias,  ia com os alunos internos à missa da manhã.

            Frequentando missa, cheguei a aprender trechos inteiros do latim.

            Era vigário o meu padrinho, Antonio Marcelino de Souza Leal, velhinho muito simpático e limpo, acumulava funções de pároco e de delegado escolar, instrutor  das crianças da escola, que lhe tinham um respeito real.

            Era aluno interno desse colégio, quando se deu a revolução do coronel Valadão, que assumindo o governo de Sergipe, derrubou a facção política do padre  Olímpio de Campos, chefe supremo da política sergipana, que gozava, em Vila Cristina, de real e indiscutível prestígio.

            Meu pai era seu correligionário e, com ele, a maioria dos senhores de engenho, inclusive, o célebre caudilho “Guinô da Furada”, em cujos limites soldados não penetravam sem a sua prévia licença.

            O major Ernesto, pai do meu amigo Zacarias, era o chefe político de Itabaianinha, cabeça da comarca, da qual dependia Cristina.

            O Valadão, coronel do Exército, para lá mandou cem praças, a fim de, pelo terror, manter a sua própria política, e liquidar a do Padre Olímpio.

            O principal visado era o major Ernesto, chefe político e irmão do padre, que se viu na contingência de fugir à perseguição da tropa, exilando-se em Vila Cristina, sob a proteção de Guinô, seu amigo político e com real influência na política da Bahia.

            Data dessa época o meu conhecimento com o amigo Zacarias Freire, por se haver hospedado na casa do professor Adelino Freire, de quem a mãe de Zacarias era parente, o major Ernesto com toda a família.

            Serenados os ânimos, volta para Itabaianinha, deixando três filhos internos no colégio.

            Daí saí, coma volta da minha avó Justina e de Olímpia, para Cristina, onde retomaram a sua casa.

            Passei, como aluno externo, para a escola de dona Amância, de onde já se haviam retirado, prontos e aptos das primeiras letras, Pio e Manoel.

            Pio empregou-se em Alagoinhas, onde foi residir, e Manoel foi cursar as aulas do seminário em Salvador.

            As esperanças de meu a vô paterno, que o criara, cresceram, e, de novo queria ter o segundo padre na família.

            Neste colégio, afamado merecidamente, a professora dona Amância dedicava-se, de corpo e alma, à educação dos seus alunos. A fama já tinha transposto os limites do estado, tendo vindo da Bahia, inúmeros meninos ali cursar aulas.

            Fiz muito e rápido progresso nesse colégio, a ponto de ser considerado um dos melhores dos seus alunos.

            Todavia, de vez em quando, fazia má criação.

            De uma feita não sei por que fui castigado e preso, e, iludindo a vigilância, fugi.

            De outra, (o país estava autorizando os comerciantes a emitirem “ficha”, espécie de vale, moeda papel particular, nos valores de cem, duzentos, trezentos e quinhentos réis, as quais eram resgatadas, em moeda, a quem as apresentasse), achei no barracão da feira, uma delas de trezentos réis, emissão de Joaquim Amâncio, Monte Alegre. Foi uma alegria. Embrulhei-a num papel atado com linha, e escrevi, por fora do invólucro, o valor do conteúdo. Encerrei-a numa caixa de presente vazia, que também foi embrulhada com o mesmo cuidado e precaução, e, como se fosse um relógio, prendi-a numa corrente de barbante, amarrando-a na casa do botão do casaco, depositando-a no bolso de cima.

            Esses cuidados despertaram a atenção dos colegas de classe, avisados ainda pela notícia que lhes dera do meu tesouro (o dinheiro nosso era vinte e quarenta réis, no máximo). Trezentos réis equivale, hoje, a cinquenta contos.

            Os colegas ficaram lívidos e invejosos, era dinheiro demais e sorte imensa.

            Precisando ir fazer necessidades fisiológicas, tomei a “pedra-licença” e, com receio de perder o tesouro, ocultamente guardei-o no baú de flandres, onde trazia os livros escolares, e, por baixo deles, escondi,  com mil precauções, a caixa com os trezentos réis.

            De volta, com o coração a sair-me pela boca, fui desenterrar o tesouro.

            Oh! Céus! Lá não estava!

            Um suor frio percorreu-me o corpo, a vista escureceu-se-me.

            Ao recobrar os sentidos, lancei a vista e descobri o ladrão.

            Fui-lhe às goelas e, aos murros na luta em que me empenhava, caímos sobre o banco, fazendo um barulho enorme.

            A professora interveio escandalizada.

            Fomos chamados ao inquérito e o resultado foi que tomamos bolos e ambos ficamos presos. Eu, por que fui insubordinado, e ele por que foi gatuno.

            De outra vez, levei à escola os bolsos cheio de pipoca, e ao distribuí-la com a classe inteira, daí a pouco, só se ouvia o matraquear dos dentes no milho.

            Toda a classe foi castigada, e eu preso.

            Em dois anos de estágio neste magnífico colégio, verdadeira academia de bom proceder, aprendi o que sei, que nada é, e, ao término, a mestra disse ao meu pai:

            - O Chiquinho está prontinho para ingressar na vida prática, ou para ir cursar escola mais adiantada...


(MEMÓRIAS DE CHICO BENÍCIO)

Francisco Benício dos Santos

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quarta-feira, 31 de maio de 2017

AABB ITABUNA APRESENTA MEMÉ DIAS 02 E 12/06 COM ACESSO LIVRE

Memé Santana na AABB sexta-feira e no Dia dos Namorados

Memé Santana dias 2 e 12 de junho na AABB Itabuna.


O cantor e instrumentista Memé Santana vai se apresentar duas vezes na AABB Itabuna nos próximos dias, em dois eventos com acesso liberado a todos, sócios e não sócios:

Sexta Super Musical – 02/06, na Cabana do Tempo, a partir das 8 da noite, no já tradicional encontro musical promovido pelo clube todas as sextas-feiras.

Jantar dos Namorados – 12/06, no Salão Social, a partir de 7 da noite, na 2ª edição do evento em pleno Dia dos Namorados. Nesse dia haverá a participação especial da cantora internacional Dani Carrapeiro.

A Sexta Super Musical da AABB Itabuna vem se firmando cada vez mais como o melhor point da noite na cidade. Além de poder ir com a família e os amigos, ainda é o único programa possível de se fazer à noite em Itabuna levando as crianças, já que elas têm um parque (playground) bem equipado e muita área verde para brincar.

Tanto a Cabana do Tempo como o Salão Social contam com serviço de bar e restaurante próprios do clube. Nas mesas são servidos tira-gostos, pratos, bebidas prontas e preparadas na hora por equipes de cozinha/bar e garçons.

Nestes chamados tempos de crise, a economia conta muito para quem prefere a AABB: a casa não cobra couvert artístico nem 10% de gorjeta. “Na relação custo/benefício, é o lugar que mais vantagem oferece”, garante o vice-presidente social Raul Vilas Boas.

Quem vem do litoral chega ao clube pela Av. Juracy Magalhães, Ponte Nova, Vila Zara. E quem vem do interior, pela Beira-Rio, Shopping e bairro Conceição. O endereço da AABB Itabuna é Rua Espanha s/n – São Judas. Telefones: (73) 3211-2771 / 3211-4843 (Oi fixo).
  

Contato – Raul Vilas Boas: tels. (73) 9.9112-8444 (Tim) / 9.8888-8376 (Oi)


Assessoria de Imprensa – Carlos Malluta: tels. (73) 9.8877-7701 (Oi) / (73) 9.9133-4523 (Tim)

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O VELÓRIO DE UM RIO – Helena Borborema


O velório de um rio




          Ele vem de longe. Nasce em outras plagas, ao pé de uma serra no Município de Vitória da Conquista. Vem magrinho. Começa a crescer depois de alimentado pelo seu afluente rio Salgado. Torna-se forte, passando a ser chamado Colônia em grande parte do seu trajeto, e depois, Cachoeira.


          Como rio Cachoeira, ele atravessa a cidade de Itabuna. Apesar do seu nome, as suas águas são tranqüilas, correndo calmamente em busca do seu destino, o oceano azul, onde se lança num abraço discreto, sem grandes cenas, até desfazer-se nas profundezas do abismo marinho. A sua paisagem nem sempre foi a mesma da atual; o tempo, as enchentes, o trabalho do homem a modificaram em parte. Há tempos recuados, pequenas ilhas cobertas de arbustos enfeitavam a sua superfície, bem como grandes lajedos escuros que emergiam para quebrar o monótono branco das águas.


          Formador de civilização, o Cachoeira indicou aos pioneiros o caminho das terras férteis, serviu-lhes de guia e até de estrada. Ao seu redor, surgiram povoados. A primeira casa do então futuro arraial de Tabocas e as primeiras lavouras de subsistência surgiram nas suas margens. Mais tarde, grandes fazendas de pecuária com extensas e férteis pastagens foram sendo formadas em terras por ele generosamente banhadas. Do primeiro arraial de Tabocas, nascido às suas margens, resultou uma grande cidade, hoje embelezada pela sua paisagem de pontes e luzes.


          Mas o calmo Cachoeira vez por outra fez explodir o seu ímpeto selvagem em demonstrações de força e poder de destruição, desafiando os que habitam nas suas imediações. Num furor inesperado, já invadiu casas, lojas, ruas, carregando de roldão tudo o que encontrava. Já chegou a causar estragos enormes, já matou. Nas suas explosões de violência, quem ousava mergulhar no turbilhão de suas águas? Ficava preso nas garras dos seus “sumidouros”. Quando enfurecido, expandindo a sua força, qual o nadador que ousava desafiá-lo? Seria vencido irremediavelmente.


          A adversidade chegou um dia ao Cachoeira, quando as nuvens suspenderam a sua colaboração, chuvas deixaram de cair na sua cabeceira, o homem devastou as suas margens, areeiros mudaram-lhe o perfil, plantas aquáticas obstruíram o seu curso.


          Nessas tragédias, o rio ficou só, entregue à própria sorte. E hoje está ele aí, doente, moribundo, vendo os seus peixes morrendo, plantas aquáticas, as baronesas tirando-lhe a respiração, sufocando-o, dando-lhe uma morte lenta, penosa, sem que os homens a quem tanto serviu e serve dele se apiedem. As pedras que se escondiam em suas entranhas, agora estão expostas ao sol; suas águas já não correm livres para o mar, seu destino: estão paradas e lodosas, exalando miasmas. Rio amado, rio desprezado. As lavadeiras já não o procuram mais. Os antigos banhos de folguedo que foram a alegria da meninada acabaram; ele hoje é olhado como um doente contagioso.


          A tristeza do Cachoeira comove. E hoje, quando passo por ele e o vejo tão doente, tão triste e abandonado, sinto o mesmo confrangimento de quem vê um amigo em agonia. A sua companhia hoje são os bandos de garças alvas e tristonhas pousadas nos seus lajedos, parecendo fazer o seu velório, enquanto baronesas em profusão, qual coroas mortuárias, completam o quadro fúnebre.


(RETALHOS)



Helena Borborema

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A TERRA POSSUI 467 MILHÕES DE HECTARES DE FLORESTAS A MAIS DO QUE SE SUPUNHA

31 de maio de 2017
Luis Dufaur

Floresta de baobás em região considerada árida no Senegal


Descoberta que deixa o movimento ecologista (composto de eco-terroristas) sem face, e sem argumentos sólidos para suas campanhas demagógicas contra o desmatamento

Uma equipe internacional de pesquisadores revelou na prestigiosa revista “Science” que a superfície da Terra coberta por florestas é 10% mais extensa do que se supunha. A deficiente medição anterior não considerou as florestas das zonas áridas, distorcendo o cômputo global.

As florestas ocupam 4 bilhões de hectares ou 30% da superfície das terras acima do nível dos mares. Normalmente se imaginam luxuriantes florestas tropicais, rústicas florestas boreais ou penteados bosques de regiões temperadas.

Tinha-se passado por cima dos bosques existentes em zonas áridas — onde a evaporação é maior que a precipitação anual. Essas zonas representam algo superior a 40% da superfície continental e não estão desprovidas de florestas. Elas se encontram em contextos climáticos muito diversos no Sudão, na América do Sul, nas estepes da Europa Oriental e no sul da Sibéria, bem como no Canadá.

Uma trintena de cientistas de treze países analisou imagens de satélites fornecidas pelo Google Earth. Elas abarcavam mais de 210.000 parcelas de meio hectare repartidas pelo globo.

O principal autor do estudo, Jean-François Bastin, pesquisador associado à Universidade Livre de Bruxelas e consultor na Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) explicou que agora sua equipe pode utilizar imagens de alta resolução com um grau de precisão inferior a um metro, do que resultou o cálculo de cerca de 1,1 bilhão de hectares de florestas de regiões áridas.

Essa é uma extensão comparável à das florestas úmidas tropicais, como a amazônica. Dois terços dessa enorme área estão recobertos de formações vegetais densas — florestas “fechadas” —, onde a frondescência cobre pelo menos 40% do solo. Essas florestas aparecem em todos os continentes, inclusive no oeste da América Latina, no leste do Brasil e no norte da Venezuela e da Colômbia, por exemplo.



Floresta de eucaliptos na região árida de Pilbara, Austrália ocidental

O cálculo mais exato acrescentou 467 milhões de hectares de florestas da Terra, elevando o total a mais de 4,3 bilhões de hectares.

A preocupação da confraria verde-vermelha era de afastar a ideia de um planeta mais verdejante do que parecia, pois isso poderia desmoralizar suas campanhas demagógicas contra o desmatamento.

Segundo a FAO, perto de 2 bilhões de pessoas vivem nesses territórios florestais até agora desconsiderados. Neles as árvores fornecem frutos e folhas para a alimentação dos homens e engorda dos animais, além de madeira para cozinhar e aquecer, como se dá com os bosques de acácias e eucaliptos na Austrália e de baobás na África.

Quando os cientistas sérios se aplicam ao seu trabalho, trazem dados sensatos. Mas a agitação verde-vermelha não gosta nada disso e não toma iniciativas para esclarecer o fundo da realidade.




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NÃO É POSSÍVEL ACABAR COM CRACOLÂNDIA EM SP, AFIRMA MÉDICO DRAUZIO VARELLA

Bruno Santos/Folhapress
Drauzio Varella em seu escritório, no centro de SP
CLÁUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO
31/05/2017 

 
"Todo mundo tem que se convencer de que não é possível acabar com a cracolândia. A cracolândia não é causa de nada, é consequência de uma ordem social que deixa à margem da sociedade uma massa de meninos e meninas nas periferias."

A afirmação é do médico oncologista Drauzio Varella, 74, colunista da Folha. Ele disse que teve seu nome envolvido inadvertidamente duas vezes nas recentes discussões sobre a cracolândia.

Nesta terça (30), Drauzio se disse surpreendido com a informação de que integraria um grupo de notáveis para ajudar as gestões tucanas de Geraldo Alckmin e João Doria no combate à dependência, como divulgou o Estado.

Na semana passada, foi citado pela prefeitura em ação judicial, sem consulta, como favorável à internação compulsória –a gestão disse ter anexado reportagens completas, e não frases isoladas.

O médico diz que a taxa de sucesso da medida é pequena e ele se inclui entre os que defendem a internação à força só "como último recurso, quando há risco de morte".

Em relação ao grupo de notáveis, o secretário estadual da Saúde, David Uip, disse ter feito o convite a Drauzio e que ele aceitou. "Infelizmente soube há pouco que ele desistiu. Lamento, mas respeito sua decisão", afirmou.

Folha - O governo do Estado anunciou seu nome como parte de um grupo que vai assessorar nos programas de combate ao uso de drogas. Como vai funcionar isso?
Drauzio Varella - Isso saiu de uma conversa com o David Uip [secretário estadual da Saúde], meu amigo há 30 anos. Ele me ligou dizendo que queria conversar sobre a cracolândia, a gente marcou um café e eu disse para ele as coisas que eu pensava.
Ele falou que estava pensando em chamar a mim, o Wagner Gattaz e o Anthony Wong [professores da USP] para aconselhar a equipe, dizer como deve ser encaminhado esse problema. Eu disse que lógico, estava à disposição. E a conversa ficou desse jeito. Hoje fui surpreendido com essa história de agora fazemos parte de um comitê para analisar política de combate de dependência química. Isso em nenhum momento foi conversado. Não tenho tempo nem formação técnica para uma tarefa dessa natureza.

É a segunda vez que o seu nome é usado inadvertidamente nessa questão da cracolândia. Semana passada, a gestão João Doria citou o sr. para justificar a internação compulsória. O que pensa sobre isso?
Estou vendo ações atabalhoadas. O que aconteceu ali na cracolândia foram medidas que pareciam não obedecer a nenhum planejamento detalhado, sem organização necessária, feita às pressas.

É possível acabar com a cracolândia?
Todo mundo tem que se convencer de que não é possível acabar com a cracolândia. A cracolândia não é causa de nada, é consequência de uma ordem social que deixa à margem da sociedade uma massa de meninos e meninas nas periferias nas cidades brasileiras, sem qualquer oportunidade. Pararam de estudar com 13, 14 anos, muitas vezes não têm orientação familiar e acabam indo por esse caminho. E a gente vem querendo acabar com a cracolândia. A gente tem que ir lá atrás, impedir que as coisas cheguem a esse ponto. Isso de, de repente, ter que fazer alguma coisa, pode ficar muito pior.

Os usuários se aglomeram agora na praça Princesa Isabel e em outros pontos do centro. O que deveria ser feito?
Não sei, ninguém sabe. A situação lá estava muito grave porque os traficantes estavam dominando o ambiente, impedindo que os usuários se aproximassem dos agentes de saúde. Esse tipo de situação não dá para aceitar. Parece que a Polícia Civil conseguiu prender traficantes, foi uma ação até que bem conduzida.
O que foi mal é o que veio depois disso. Para lidar com esse problema da cracolândia, primeiro é preciso ver quais os recursos que o Estado tem. Há pessoas que frequentam a cracolândia há muito tempo, dos projetos anteriores, que conseguem ser aceitos pela comunidade de fato. É um trabalho lento. O Estado também precisa se preparar muito bem para receber os usuários, ver quem precisa de cuidados médicos mais intensivos. Não tem solução imediata, não pode ter pressão política. Aí fica todo mundo paralisado com essa discussão de internação compulsória.

O que dizem as evidências científicas sobre internação compulsória? Qual é a taxa de sucesso?
É muito pequena. Estou entre os que sempre defenderam a internação compulsória como último recurso, quando há risco de morte. Você vê na cracolândia meninos e meninas magérrimos, encovados, em fase final de desnutrição. Não se pode largá-los morrendo nas ruas. Agora o que você faz? Entra lá com uma equipe médica e diz: 'você não está bem e vai para uma internação". Vai ser assim? A única forma de atingir essas pessoas é você atrai-los para os serviços de saúde e, para isso, têm que ter confiança de que serão ajudados, e que não vão ser punidos com internação.

Quais os pontos positivos e negativos do programa De Braços Abertos [de redução de danos, da gestão anterior], que foi extinto agora?
O programa teve méritos. Privilegiou esse contato, colocou à disposição dos usuários assistentes sociais. O que eu achei que não daria certo foi o fato de colocar os usuários naqueles hoteizinhos em volta da cracolândia. Usuário de crack, como de cocaína, não pode ver a droga. Não pode ver alguém sob o efeito da droga, não pode ver o lugar onde usava a droga. Isso é básico na dependência química.

Muitas pessoas querem se ver livres da cracolândia e apoiam a internação compulsória...
A sociedade tem uma visão míope desse tipo de problema. Você vai lá e limpa aquela sujeira e tira as pessoas de lá e parece que está resolvido o problema. Se fosse assim, seria a coisa mais fácil do mundo. O que estamos vendo? A cracolândia aumentar a cada ano. Cada intervenção sem planejamento se torna mais difícil. Tem algum sentido ter programa da prefeitura e do Estado? Tem que somar forças. O crack é um problema suprapartidário. Esses dois programas [Redenção, da prefeitura, e Recomeço, do Estado] vão trombar. E mesmo que concordem, para que dois?

O que a literatura científica mostra sobre a efetividade dos tratamentos da dependência?
No caso do crack, é tirar a pessoa fora do fluxo. Temos que nos conformar que a dependência química é uma doença crônica, recidivante, como o câncer. Temos que estar preparados para aceitar que uma pessoa que se afasta da droga meses, anos, pode recair.
O certo é se ter uma equipe que analise os resultados. A gente sabe que a estratégia de chegar lá com a polícia e jogar gás lacrimogêneo nas pessoas dá errado. É gastar dinheiro do Estado, não sai barato fazer uma coisa dessas. Mas a ignorância simplifica. Você acha que sabe resolver, e não é verdade. Os gestores não conhecem a complexidade da situação, mas se veem pressionados pela própria sociedade a fazerem alguma coisa.

Até pela urgência do crack, o país precisa rever sua política nacional de saúde mental?
Forçosamente. Saímos de um exagero, tudo se internava em hospital psiquiátrico, muitos deles depósitos de gente com transtornos, e caímos em outro, de fechar tudo, acabar com as vagas. Você caminha pelas ruas e vê esquizofrênicos em delírio, falando alto, sofrendo com alucinações. Se você trata, dá uns remedinhos, ele para de ter essas crises. Temos que ter equilíbrio para tratar dessas questões.