"Notícias divulgadas pela imprensa em relação ao nosso
PLANSERV, são cada vez mais preocupantes. A última foi o pedido de exoneração
da sua coordenadora.
Tenho mais de 40 anos prestando Serviços Médicos aos
Usuários do Planserv e nunca presenciei uma crise tão grave como a de agora.
Mais de 500 Mil usuários são submetidos a um miserável regime de cotas, algo
nunca presenciado sequer na época da Revolução de 64.
É um Sistema de cotas baseado exclusivamente em um número
fixado para cada prestador, sem qualquer metodologia científica. Faz de conta
que tem e não tem. E o usuário do Planserv está de gaiato nesse navio. O SUS
pelo menos todos nós sabemos que não tem.
Não satisfeitos, entregaram a gestão ou algo semelhante para
uma empresa que dizem ser de Santa Catarina. Claro que essa empresa ganha
dinheiro provavelmente em cima de metas alcançadas, produzidas. E aí surge
outro fenômeno pior do que aquele do Sistema de Cotas: trata-se da Liberação de
tratamento solicitado pelo Médico Assistente do Usuário do Planserv.
Até recentemente tudo era feito aqui na Bahia, rapidamente.
Agora quem faz é a empresa de Santa Catarina. Além da demora para a liberação
do mesmo, eis que desponta outro mais grave: a mudança do tratamento solicitado
pelo médico Assistente. Ou seja, o Médico Auditor está contraindicando um
tratamento e o substituindo por outro. Neste caso específico, sugiro aos
Administradores do Planserv que este Médico Auditor assuma o tratamento
proposto por ele e arque com as devidas consequências.
De minha parte resta denunciar o mesmo para o Conselho
Regional de Medicina da Bahia e para o Conselho Federal de Medicina.
A nossa Classe Médica não pode ficar parada. As Entidades de
Classe devem ser mobilizadas.
Os Prestadores de Serviços Médicos ao Planserv unidos em defesa
do PLANSERV.
Vamos todos salvar o Planserv.
VAMOS NOS UNIR AOS MAIS DE 500 MIL USUÁRIOS DO PLANSERV.
Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
(Paris, 1949 – paloma)
De ministério
em ministério, de repartição em repartição, acompanho Pablo Picasso pelas ruas
de Paris, no esforço para resolver o problema da estada de Pablo Neruda na
França. Trotávamos de déu em déu, o dia é especial para o pintor: Françoise,
sua mulher, fora para o hospital com dores de parto. Ele desejava menina, se
chamaria Paloma: a Paloma da paz, desenho de Picasso, cobre os muros da cidade
na propaganda do I Congresso Mundial dos Partidários da Paz que vai se iniciar
no dia seguinte na sala Pleyel.
Neruda
desembarcara em Paris uma semana antes, habilitado com passaporte falso o que
o identificava cidadão guatemalteco don Antônio dos anzóis carapuça, de bastos
bigodes, adido cultural, qualquer coisa assim. O passaporte lhe fora fornecido
por Miguel Anjel Asturias, embaixador da Guatemala na Argentina que, ao atender
à necessidade do amigo, punha em jogo o cargo e a carreira. Não hesitara um
minuto quando Pablo, fugitivo do Chile onde havia sido expulso do Senado, lhe
colocara o problema.
A
princípio conhecida apenas por mim e por Alfredo Varela - o romancista de El Rio Oscuro, dirigente do pecê
argentino -, por Laurent Casanovaresponsável no Bureau Político do pecê
francês pelos problemas culturais e pelo movimento da paz, por Louis Aragon e
François Leclerc em cujo apartamento estava hospedado, a presença do poeta,
secretíssima, logo se tornou segredo de polichinelo. A comitiva de admiradores
engordava a cada dia com a chegada para o Congresso de intelectuais
latino-americanos: Juan Marinello, Nicholás Guillén, Miguel Otero Silva,
Alfredo Gravina, o pintor Venturelli. Passaporte ilegal, Pablo estava impedido
de participar do conclave e corria o risco de ser detido e posto fora da França
a qualquer momento.
De
autoridade a autoridade, Picasso encaminha a solução, eu o acompanho, sou de
pouca ajuda, mas faço-lhe companhia. De meia em meia hora entramos num bistrô,
Picasso telefona para o hospital, pede notícias da parturiente, fica sabendo que Françoise ainda não deu à luz. Numa dessas vezes, porém, a pergunta é
acolhida com hosanas: nascera a menina Paloma, a mãe passa bem, Picasso exulta.
Ora, o
problema de Neruda, àquela hora, estava praticamente resolvido, restavam
detalhes finais, deles eu poderia me encarregar sozinho. Vai ver tua filha e
tua mulher, propus, Picasso recusou: só quando terminar. O Ministério do Interior
e o Quai d’Orsay encontraram por fim a
solução: Pablo deixaria a França de carro, a polícia da fronteira estaria
avisada para não criar problema, voltaria assim que tivesse passaporte em ordem.
Na suíça,
onde La Hormiga* o aguardava, um ex-cônsul do Chile, admirador incondicional,
prolongara velho passaporte chileno que Delia trouxera de Santiago. O ex-cônsul,
aposentado, guardara os timbres e os carimbos, poderiam ser de utilidade um
dia, foram. Assim o poeta regressou a Paris não mais na pele de don Antônio dos
anzóis carapuça e, sim, na do chileno Naftali Ricardo Reyes, seu nome
verdadeiro. Ainda não oficializara o pseudônimo, o que fez quando retornou ao
Chile: nem Antônio dos bigodes, nem Naftali Reyes, para sempre Pablo Neruda,
poeta e militante.
Picasso
cuidou do caso até vê-lo completamente resolvido, me encarreguei da viagem,
designei guarda-costas, dois jovens comunas brasileiros no gozo de bolsas de estudo
em Paris, Paulo Rodrigues e Alberto Castiel, levaram o bigodudo don Antônio à Suíça,
trouxeram Delia e Pablo para a França, ele de passaporte legal e sem bigodes.
De volta
ao hotel contei a Zélia as andanças do dia, os telefonemas de Picasso para o
hospital, o nascimento de Paloma.
- Se um
dia tivermos uma filha ela se chamará Paloma - Decide Zélia, arrebatada.
O caso se
deu em 1949, nossa Paloma nasceu e 1951. Até parece de propósito, a sementinha
foi posta em Varsóvia durante o II Congresso Mundial dos Partidários da Paz, a paloma
de Picasso nos muros da cidade, inspiradora.
* La Hormiga, apelido de Delia del Carril, na época mulher
de Neruda.
(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
..................
“Nada mais
cansativo, mais estafante, mais terrível do que as reuniões ditas sociais, coquetéis,
recepções, jantares, festinhas, outras chatices semelhantes.
A
obrigação de ser inteligente, os convidados esperando as frases de efeito, a
profundeza, o brilho do escritor: é de lascar. Fico apavorado se não tenho
jeito de escapar, como ser inteligente ao fim da tarde ou na mesa de jantar de
cerimônia, com gravata e paletó? Emburreço por completo, dá-me aquela inibição,
emudeço, perco o dom da fala, ainda mais parvo do que no dia-a-dia.”
..................
JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da
ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido
pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os
Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a
Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”.
Jesus respondeu: “Homem, quem me encarregou de julgar ou
de dividir vossos bens?”
E disse-lhes: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de
ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não
consiste na abundância de bens”.
E contou-lhes uma parábola: “A terra de um homem rico deu
uma grande colheita. Ele pensava consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não
tenho onde guardar minha colheita’.
Então resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus
celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os
meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa
reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!’
Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Ainda nesta noite, pedirão de
volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?’ Assim
acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de
Deus”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger
Araújo:
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O Ego perdido nos celeiros
“Atenção! Tomai cuidado com todo tipo de ganância” Lc 12,15)
No caminho para Jerusalém, por entre incidentes, encontros e
palavras que aquecem a viagem, o evangelista Lucas aproveita dos diferentes
episódios para nos revelar como Jesus vai formando seus (suas) discípulos(as)
no verdadeiro seguimento. No domingo passado, aprendemos a orar com Jesus; no
próximo domingo, seremos motivados a alimentar uma atitude de vigilância frente
às responsabilidades que nos são confiadas; neste domingo, o evangelho ensina a
nos preservar das falsas seguranças, que consistem em acumular bens materiais
para si mesmo, em vez de compartilhá-los com os outros.
A questão que nos é colocada é a seguinte: queremos nos
tornar ricos de celeiros ou de coração?
O relato tem duas partes: na primeira, Jesus se nega a ser
árbitro em um conflito de herança; na segunda, Ele nos adverte do risco de
centrar nossa vida em buscar segurança nos bens terrenos, distanciando-nos do
verdadeiro sentido de nossa existência.
Expandir a verdadeira Vida não depende de ter mais ou menos,
mas de ser.
Se o primeiro objetivo de todo ser humano é ativar ao máximo
sua humanidade e o evangelho nos diz que ter mais não nos faz mais humanos, a
conclusão é muito simples: a posse de bens de qualquer tipo, não pode ser o
objetivo último de nenhum ser humano. A armadilha de nossa sociedade de consumo
está nisso: quanto maior capacidade de satisfazer necessidades nós temos, maior
número de novas necessidades despertamos; com isso, não há possibilidade alguma
de marcar um limite. Já os antigos santos padres diziam que o objetivo da vida
não é aumentar as necessidades, mas fazer com que essas diminuam cada dia que
passa. Esse seria o sentido inspirador da vida, ou seja, vida descentrada,
oblativa, aberta...
É muito difícil manter um equilíbrio nesta matéria. Não há
nada de mal buscar nível melhor de vida. Deus nos dotou de inteligência para
que sejamos previsores. Prever o futuro é uma das qualidades próprias do ser
humano. Jesus não está criticando a previsão, nem o empenho por uma vida mais
digna. Critica, sim, que façamos isso de uma maneira egoísta, afastando-nos de
nossa verdadeira meta como seres humanos. Alimentar necessidades é estar
centrado em si mesmo, nutrindo o próprio “ego”.
A parábola deste domingo revela que a cobiça nos incapacita
para viver uma vida mais humana. Cobiçar é desejar com ânsia aquilo que dá
sensação de segurança ao nosso “ego”. O rico da parábola não se dá conta de que
vive fechado em si mesmo, prisioneiro de uma lógica que o desumaniza,
esvaziando-o de toda dignidade. Só vive para acumular, armazenar e aumentar seu
bem-estar material. Só se preocupa em encher seus celeiros e dedicar-se à boa
vida; não está no seu horizonte que os outros também precisam se alimentar. Só
vive para alimentar seu instinto de posse: “meus celeiros”, “meu trigo”, “meus
bens”. Não percebe que seu “ego” apodrece em meio aos vastos celeiros.
O homem insensato do evangelho vive para “inflar seu ego”.
Contudo, o ego não é o seu verdadeiro “eu”, não é ele. É uma falsa imagem de si
mesmo. É a ilusão de que ele é um indivíduo separado, independente, isolado e
autônomo. Seja qual for a imagem que cada um tem de si, todos, efetivamente,
fazem parte de um universo imenso, em que tudo é interdependente e tudo está
intimamente ligado entre si. Todas as divisões, conflitos e rivalidades entres
os seres humanos nascem da ilusão de um “ego” que se sente separado e
independente dos outros e da natureza.
O “eu ensimesmado” tende a ser depredador e exigente; quer
toda a realidade a seu serviço. Então, tudo fica desfocado, tudo se desvia,
tudo se perverte, porque falta aquela atitude “reverente”, ou seja, viver na
alteridade diante do Deus da Vida, das suas criaturas e diante dos outros...
O “ego inflado” se transforma em centro autônomo:
fundamento, farol e vigia de toda a realidade. Com isso, o ser humano perde a
dimensão de ser criatura. A “dependência” para com o Criador é sentida como
ameaça à capacidade de decisão sobre a própria vida. O ego não tem consistência
própria: é uma construção mental e uma identidade transitória e, portanto,
parasitária. Para subsistir – para ter uma sensação de existir -, necessita
aferrar-se a qualquer “objeto” que o alimente: tudo o que seja ter, poder ou
aparentar. Vive para ter e acumular, para conseguir poder e impor-se, para
figurar e destacar. Em tudo isso acredita encontrar segurança, estabilidade e,
em definitiva, consistência.
Quando nos sentimos genuinamente movidos por sentimentos de
compaixão para com as pessoas necessitadas, quando ativamos o espírito
solidário, quando compartilhamos agradecidamente tudo o que somos e temos,
então é o nosso “verdadeiro eu” que está se manifestando. Quando reconhecemos
um momento de honestidade e sinceridade no nosso desejo de conhecer a verdade
acerca de nós mesmos ou do sentido de nossa vida, esse é o nosso verdadeiro eu.
Nos momentos em que agimos com uma coragem e valentia inexplicáveis e fora do
normal, isso também brota de um impulso que provém das profundezas do nosso
próprio ser.
Quando começamos a sentir uma grande gratidão pelos inúmeros
dons que a vida nos oferece, podemos ter a certeza de que isso não provém do
nosso ego. O ego é completamente incapaz de sentir gratidão. Sentir uma
gratidão imensa por todos os dons e graças que recebemos é um sentimento que
brota do mais profundo do nosso coração.
Se, alguma vez, já experimentamos a alegria tranquila de
deixar de lado nosso ego, fazendo alguma coisa pelos outros, sem receber
qualquer recompensa ou agradecimento, e sem que ninguém o saiba, então entramos
em contato com o nosso “eu mais original e divino”. E quando nos sentimos
invadidos por uma onda de assombro e deslumbramento, quer dizer que estamos
deixando o nosso verdadeiro eu se expandir.
No centro da mensagem de Jesus encontramos a revelação de
Deus como Pai e a proclamação da igualdade e da fraternidade de todos os seres
humanos. A criação de uma comunidade onde o compartilhar substitua a
acumulação, e que se apresente como alternativa àquilo que o mundo propõe,
configura-se como uma das propostas mestras na proclamação do Reino de Deus.
Contra a tendência de querer apropriar-nos de tudo como busca de segurança e
como defesa hostil diante dos outros, Jesus nos convida a viver a partilha,
como abertura aos outros e como possibilidade para a criação da “nova
comunidade”, que se constitui como alternativa frente às relações interpessoais
fundadas na acumulação e no consumismo.
Na partilha, a primitiva tendência egoísta e agressiva dá
lugar a uma atitude aberta, acolhedora e benevolente frente ao outro. Além
disso, onde há partilha, há superabundância. Dito positivamente: trata-se de um
convite a ir mais além do ego e descobrir nossa verdadeira identidade, aquela
“identidade compartilhada”, na qual o próprio Jesus se encontrava.
A verdadeira riqueza é investir numa única fortuna: a do
amor, a do favorecimento da vida, a do descentramento de si mesmo em favor do
serviço ao outro, o das obras em favor dos mais pobres e desfavorecidos. Isso é
“ser rico para Deus”.
Texto bíblico: Lc 12,13-21
Na oração:Não permaneça na superficialidade do teu
ego; desça mais ao fundo de ti mesmo e descobrirás a harmonia. Teu verdadeiro
ser é paz, é mansidão, é bondade. Vai mais além de teu falso ser!
Empenha-te em deslanchar teu verdadeiro ser: mais oblativo e
solidário.
Dentro de ti está a plenitude, está a felicidade no viver
descentrado. Descubra-a!
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(São João de Meriti, 1946 – a rede de casal)
A casa
simples e agradável, situava-se no alto de pequena colina, a chácara toda media
vinte e um mil metros quadrados cobertos por oitocentas laranjeiras. Pés de toranjas
de duas ou três variedades, limeiras, limoeiros, pés de fruta-pão,
sapotizeiros, goiabeiras, mangueiras, mamoeiros completavam o pomar. Uma louca
criação de aves – galinhas de raças, patuassus, gansos, marrecos – animava o
Peji de Oxóssi, nosso esconderijo, situado entre Caxias e São João de Meriti,
no estado do Rio. Nele Zélia e eu curtimos enfim nossa lua-de-mel.
Vivíamos
juntos desde julho de 1945, mas não nos sobrava tempo para namorar tanto quanto
desejaríamos: eu dirigia o cotidiano Paulista do Partido Comunista, o Hoje, tarefa
que tomava a maior parte de meu tempo, Zélia se revelara imbatível ativista da Comissão
de Finanças. Como se fosse pouco, a campanha eleitoral começara. Candidato a
deputado federal, eu saía nos fins de tarde para comícios noturnos no interior,
chegava pela madrugada. Resolvemos transferir a lua-de-mel para depois das
eleições.
As
eleições realizaram-se em novembro, deputado eleito deixei com a direção do
partido minha carta de renúncia, partimos de viagem eu e Zélia. Viagem de
núpcias, já era tempo.
Apenas começávamos
a sentir o sabor da lua de mel, passáramos alguns dias no Rio Grande do Sul, na
chácara de Henrique Sclair, estávamos no Uruguai, devíamos ir a Buenos Aires, quando
chegou o telegrama urgente de Prestes reclamando minha presença no Rio daí a três
dias. comuna enquadrado, tomei o primeiro avião para o Brasil, Zélia comigo, ansioso
para saber o motivo da intempestiva convocação.
Outro não era que o de tomar posse da
cadeira de deputado. Ora, eu condicionara a aceitação de minha candidatura - escritor
já bastante popular, meu nome traria votos para a legenda do Partido – à garantia
de que, se eleito, renunciaria ao mandato dando lugar a convocação do suplente.
queria retornar a meu trabalho literário, já bastante comprometido pela
atividade de militante. Recordei a Prestes o compromisso assumido pela direção.
Antes de viajar entrega a Arruda Câmara o documento de renúncia. Prestes estava
a par, salientou que fora ele quem levara a direção a admitir a minha
exigência - podia um militante por
acaso fazer naquele então qualquer exigência, justa, mínima, fosse qual fosse, ao Partido? Por isso mesmo sentia-se no direito de apelar para minha consciência de
comunista responsável: que iriam dizer aqueles eleitores que tinham votado em
mim, sobretudo os não comunistas, se eu não assumisse? Iriam acusar o Partido de
ter usado meu nome para obter votos, é estratagema sujo, malandragem, os
inimigos se aproveitariam para fazer a maior exploração e por aí afora, aquela argumentação.
Propôs-me assumir o mandato por três meses e então efetivar a renúncia. Três
meses, nem um dia a mais, assegurou-me Prestes.
Resolvemos
não alugar apartamento no Rio onde certamente o Partido me sobrecarregaria de
tarefas, além das decorrentes do trabalho parlamentar, e ocuparia o tempo de
Zélia, a Comissão Nacional de Finanças ameaçava requisitá-la. Na intenção de
escrever um romance já amadurecido na cabeça, Seara Vermelha, preferi ficar o
mais longe possível do Comité Central. Assim adquirimos o sítio de Laranjeiras e
nele vivemos durante ano e meio: um caseiro bastava para cuidar das plantações e
das aves: as aves merecem capítulo à parte. Nina, sua filha, se ocupava da
casa.
O casal
húngaro que plantara o terreno e elevara a casa tinha o gosto europeu do
conforto e, ao lado da vivenda, à sombra das árvores, construíra uma espécie de
pátio, local de lazer, sítio de repouso. Enredadeiras subiam pelos pilares de
alvenaria, flores explodiam em cada recanto, mesa rústica onde pousar pratos e
copos, garrafas, sobre as lajes do chão espreguiçadeiras estendidas, penduradas
dos galhos das mangueiras redes cearenses, brancas e amplas, de varandas bordadas,
redes de casal. Assim era o Peji de Oxóssi, pequeno paraíso.
Ali
transamos, indóceis, adoidados, nossa tão adiada lua de mel. Zélia parecia uma
menina; o alemão, nosso vizinho, pensava que ela fosse minha filha, aliás passei
a vida ouvindo a mesma repetida pergunta sobre Zélia: é sua filha?
Acordava cedíssimo, trabalhava no
romance boa parte da manhã, por vezes a ele voltava à noite - ah, o bom tempo em
que varava a noite batucando na máquina cenas e capítulos. Após o almoço, às treze
horas, tomava um carro de aluguel, contratado por mês para me levar e trazer do
Peji a Caxias - os dez por cento dos
proventos de deputado que o Partido me deixava davam exatos para pagar esta
condução: eu devia viver de meus direitos autorais, segundo a direção. Em Caxias embarcava no ônibus que
me depositava na Praça Mauá, daí trotava até o Palácio Tiradentes onde
funcionava a Assembleia Nacional Constituinte formada pela Câmara e pelo Senado
reunidos. A sessão começava às quatorze horas, eu assistia, participava - extremamente
ativo na Comissão de Educação e Cultura -, quando os trabalhos se encerravam fazia
o caminho de volta, em geral chegava em casa entre sete e oito horas da noite. Por
vezes, em dias de sessão noturna, não tinha hora de chegar.
Terminado
o jantar Zélia e eu costumávamos descansar no pátio onde corria a brisa, eu lhe
contava os acontecidos do dia, ela ouvia ávida por detalhes sobre a atuação da
bancada comunista - a primeira num parlamento brasileiro. Por vezes adormecíamos
no embalo da rede. Numa daquelas redes cearenses, de casal, João Jorge foi
feito, em noite de lua cheia, a luz das estrelas e ao ruído dos grilos.
(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
..................
(Bahia, 1990 – o porquê das coisas)
“Meu neto
Jorginho, filho de Rízia,
aquela mãe!, caçula de João Jorge, às vésperas de
completar seis anos, constata a coincidência
de nomes, parece-lhe estranha, me interpela no desejo
de entender o porquê:
- Vô, você
também se chama Jorge – como eu?
......................
JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da
ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido
pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os
Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.
Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
(Bahia, 1956 – o magnífico)
Os meninos
da revistaMapa – Glauber Rocha, Fernando da Rocha Perez*, Calasans Neto, Sante
Scaldaferri, Paulo Gil Soares** - decretam e promovem guerra sem quartel a
Edgard Santos, reitor da Universidade Federal, a quem a cultura da Bahia tanto
deve.
Mapa
expressa em suas páginas as modernas tendências da arte e da literatura, a
poesia, a pintura, o cinema, a gravura, o teatro, destrói e propõe, influi mas,
ah!, corre perigo, vai deixar de aparecer, não tem anunciantes, não há dinheiro
para pagar papel e oficina, problemas que afligem e derrotam as publicações de
vanguarda.
Um lambe-botas
qualquer, é o que mais existe, vai correndo levar, a Edgard Santos o que lhe parece
ser a boa, a grata notícia: a revista da subversão não mais circulará, a
gráfica já não lhe faz crédito, menos ainda o fornecedor de papel, os ataques a
administração do Reitor estarão silenciados para sempre, viva, viva! Edgard Santos
escuta, Agradece a informação, manda pagar imediatamente o papel e a oficina, exige
apenas dos credores sigilo sobre quem está assumindo as despesas, os meninos não
devem saber: poderiam recusar, pior ainda poderiam entrar em crise de consciência
devido aos ataques ao Reitor.
Risonho, na
mesa do almoço comenta o episódio, estamos Odorico, Carlos Bastos e eu: essa revista
Mapa é o que há de melhor na Universidade, já pensaram se desaparecesse agora o
que iriam dizer de mim? Iriam me chamar de reacionário, intolerante, teriam
razão. Enquanto eu for reitor a circulação da revista está garantida, só que os
meninos não devem desconfiar.
Faz uma pausa, saboreia o acarajé, sabe da Universidade,
dos professores e dos alunos, Magnífico Reitor:
- São
meninos de talento, amanhã serão os mestres. Mas entre eles tem um moleque, um
tal de Glauber, esse é gênio, vai deslumbrar o mundo.
* Fernando da Rocha Perez, escritor.
** Paulo Gil Soares, cineasta.
(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
.............
“Sou deveras incompetente, inepto, a lista das coisas que
todo
mundo sabe fazer e eu não sei é longa. Aqui inscrevo apenas
alguns exemplos: não sei dançar, cantar, assoviar, nadar,
multiplicar, dividir por mais de dois números, empregar os verbos, pronunciar
corretamente, dirigir automóvel (mas já soube andar de bicicleta com razoável equilíbrio).
Não sirvo para grande coisa.”(Jorge Amado)
..............
JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da
ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido
pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os
Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.
Lamentavelmente, estamos todos passivos do abominável
sentimento denominado “preconceito”!
Quando se fala sobre isso, vem logo na mente o mais
conhecido e, imaginável por muitos, que somente é exorbitante quando se refere
a cor. Um monstruoso e ledo engano. Esse podre sentimento é, tranquilamente,
bastante forte com a etnia negra e suas derivações, como também e fortemente,
com a classe social menos privilegiada, além dos homossexuais!
Época atrás chegava-se a dizer que os quatro Ps eram as
classes mais combatidas: “Pretos, Pobres, Putas e Pederastas”. E,
lamentavelmente, não mudou absolutamente nada!
Apenas, pela força dos desempenhos em algumas, ou todas
atividades, portas foram abertas na sociedade, principalmente pelo poderio
econômico, e com a benevolência interesseira da mídia.
Hoje, inegavelmente, com o bruto sucesso dos negros no
futebol, literatura, danças, músicas, teatro, televisão e, praticamente em
todas as modalidades esportivas, que, conhecidamente, são agraciados com
salários astronômicos, são tolerados em grandes eventos sociais públicos e
particulares! Entretanto, verdadeiramente, são tolerados porque dão “Ibope”,
mas, no íntimo, não são aceitos. Nas fotos que a “sociedade organizada” tira
com eles, são somente para aproveitar, pois, sabem que circularão em todas as
revistas. Essa é uma parte conhecida da asquerosa hipocrisia social!
Temos todos, que são conscientes e bons observadores,
segurar essa triste situação, se conformando constrangidos com as novas
nomenclatura para os quatro “Ps”, que atualmente são chamados, em função das
suas posses e famas de: Negro é “moreno escuro”, Pobre é “povo brasileiro”,
Puta é “garota de programa” e Pederasta é “gay e trans”.
Como disse acima, as tolerâncias são baseadas exclusivamente
nas famas e nas posses financeiras. Eu sou do tempo que preto era “negão”,
pobre era “coitado”, prostituta era “puta” e pederasta era “viado”. O
preconceito era muito mais acirrado. Também, essas classes, geralmente, eram de
baixa renda, a não ser a homossexual que, há milhares de anos, sempre atingiu
todas as classes sociais.
Eu, sinceramente, respeito todos eles, tenho o maior carinho
e jamais discriminei alguém, pois, para mim, somos iguais e com direito de
proceder da maneira que mais nos apraz!
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(Bahia, 1965 - O Casamenteiro)
Fomos
padrinhos, Zélia e eu, do casamento de João Gilberto com Astrud, o casal se
separou nos Estados Unidos para onde Joãozinho viajara a fim de participar de
um show, obteve tamanho sucesso que ficou por lá anos a fio.
No dia de seu
embarque, indo para o aeroporto passou por nosso apartamento para o abraço de
despedida, vestia roupa leve, própria para o verão carioca, em new York a
crueza do inverno era manchete nos jornais. Ao vê-lo tão desagasalhado retirei
do guarda-roupa um sobretudo usado: vista-o ao desembarcar do avião senão vai
morrer de frio, pegar pneumonia. Essa a minha contribuição para o êxito do
cantor nos States, o sobretudo que o salvou da pneumonia dupla.
Contribuí
também para seu casamento com Miúcha*: do primeiro matrimônio fui testemunha,
no segundo funcionei de casamenteiro. Um dia recebi na Bahia telefonema de
Joãozinho, ligava de New York, aflito como sempre, não mudara, continuava o
mesmo.
-
Jorginho, você é muito amigo de Sérgio Buarque de Holanda, não é?
- Sou,
sim, Joãozinho, por quê?
Figura das
mais fascinantes da comparsaria intelectual, Sérgio concedeu-me o privilégio de
sua intimidade, coloquei-o de personagem em “O Capitão de Longo Curso”, assim
homenageio aqueles que mais estimo e prezo, pondo-os nas páginas dos meus
romances. Juntos, durante um congresso de literatura em Recife, fundamos uma
Igreja de São Pedro dos Clérigos a Benemérita e Venerável Ordem do Hipopótamo
Azul, dedicada ao trato das donzelas, e criamos a teoria das baquianas, as
balzaquianas quando baqueiam, baseada na agitação das literatas locais que
cortejavam Eduardo Portela, o sedutor. Na época do telefonema o mestre historiador
se vangloriava de ser o pai de Chico Buarque, compositor que estourara nas
paradas de sucesso.
-
Jorginho, estou apaixonado pela filha dele, a Miúcha, irmã do Chico. Miúcha
anda por aqui, ela também gosta de mim, queremos nos casar, mas temos medo que
Sérgio se oponha, você sabe como é, deve ter ouvido horrores a meu respeito. Queria
que você falasse com ele, pedisse a mão de Miúcha em casamento, para mim. Diga
a ele que não sou tão ruim como dizem por aí.
Habituado
a me envolver com a vida de Joãozinho, prometo interferir - depressa, daqui a
uma hora telefono de novo para saber o resultado. Desligara agoniado, eu ainda
procuro o número de Sérgio no caderno de telefones, Joãozinho volta a ligar: eu
‘tava vexado que não mandei um beijo para Zelinha. Vexado, Joãozinho.
Disco o
número paulista, Amélia atende, trocamos gentileza, desejo falar com o vosso
ilustre consorte, Sérgio vem ao telefone, sabendo que sou eu, começa a imitar
sotaque holandês, é de morrer de rir, mas eu me punho sério para lhe informar:
- Te
telefonei para pedir a mão de tua filha Miúcha em casamento.
- Hem? Que
história é essa? - Abandona o acento batavo, coloca-se em posição de defesa,
que peça estou querendo lhe pregar?
- Não é
para mim, é para João Gilberto, estão apaixonados, querem se casar, ele pediu
que te dissesse que não é tão ruim assim, tão má pessoa como consta por aí, não
deves acreditar nas más línguas...
- Que me
contas? É brincadeira ou falas a sério?
Falo a
sério, relato a conversa de Joãozinho, telefonema em dólares de New York,
repetida, esquecera o beijo para Zélia. Empolga-me a paixão dos dois cantores,
coisa linda, faço o elogio do candidato a genro e o faço com amor. De Joãozinho
sei o direito e o avesso, do menino de Juazeiro nas barrancas do São Francisco
ao músico ainda desconhecido, lutando no Rio em dias de aperto, sou seu
parceiro, fiz a letra do Lamento de Marta, composto para o filme de Alberto D’Aversa**.
Quando solteiro, Joãozinho aparecia à noite no apartamento da Rodolfo Dantas,
trazia o violão, ficava até a madrugada, cantando. Acontecia que Zélia e eu,
cansados, íamos dormir, Joãozinho prosseguia em companhia de João Jorge, menino
ainda, privilegiado. João Gilberto tocava, cantava, tendo como ouvintes apenas
o moleque e o pássaro sofrê: vivia solto na sala e assobiava as músicas que
Joãozinho dedilhava ao violão.
Sérgio
escuta em silêncio minha lenga-lenga, a proclamação das virtudes de Joãozinho,
gênio musical, amigo terno, pessoa amorável. No dia seguinte toma o avião para
New York, vai estudar o assunto in locum, apaixona-se pelo candidato, só podia
acontecer.
Para
terminar, um post-scriptum: já levava João Gilberto vários anos residindo nos Estados
Unidos quando um dia me apareceu em casa um portador trazendo encomenda enviada
pelo músico: um sobretudo novo em folha, soberbo, eu o usei longo tempo, ainda
o tenho. Ou será que o dei a João Jorge, o ouvinte solitário, o privilegiado?
*Miúcha Heloísa Buarque de Holanda, cantora.
**Alberto d’Aversa, diretor de teatro de origem italiana.
(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
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“Os
radicais da negritude nacional são mulatos brasileiros, uns mais escuros,
outros mais claros, cujo único ideal na vida é serem negros norte-americanos,
de preferência ricos.”
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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da
ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido
pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.