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terça-feira, 19 de junho de 2018

A ILHA DE CÍCERO - Sherney Pereira


A ilha de Cícero


            Havia uma pequena ilha  no Rio Cachoeira, nas imediações do Salobrinho, e nela habitava um preto velho por nome de Cícero. Vivia ele na mais completa solidão, tendo apenas por companhia,  o canto dos pássaros e o ritmo das correntezas. Ali resolvera cultivar a terra fértil, plantando cana-de-açúcar, laranjeiras e abacateiros; somente ia ao povoado em caso de necessidade. Aos sábados fazia as suas compras e aproveitava para tomar alguns pileques, mas logo rumava para o seu cantinho, sempre preocupado com os vândalos, que normalmente invadiam o seu sítio para roubar.

            Muita gente temia o velho Cícero, pois se acreditava ser ele dotado de poderes sobrenaturais, e até havia quem o chamasse de feiticeiro, por causa das artimanhas que se ouvia contar a seu respeito.

            Realmente, não se sabe ao certo a respeito dos poderes mágicos daquele homem, entretanto vários fatos levaram o povo a acreditar na sua periculosidade, a exemplo da sua obstinada permanência na ilha, mesmo quando havia sérias ameaças de enchentes. Se alguém o advertia sobre as cheias ele retrucava ironicamente: “Não tenho medo, sei muito bem me defender”. Durante todo o tempo em que ali viveu alguém jamais testemunhou que ele abandonasse a sua ilha por causa das águas e, quando o Cachoeira amanhecia abarrotado, todos ironizavam: “Desta vez o velho Cícero foi pro inferno”. Quando o rio voltava ao seu curso normal, lá estava o velho são e salvo, cuidando normalmente das plantações, para a surpresa de todos.

            Os moradores mais antigos contam um episódio envolvendo Cícero e um pescador conhecido pela alcunha de “Pepita”. Como a ilha era cheia de uma variedade de árvores frutíferas, aquele lugar, efetivamente, consistia num convite irresistível aos olhos dos que por ali passavam. Apesar da rígida vigilância, os pescadores conseguiam burlar a atenção do velho, penetravam na chácara e roubavam as apetitosas laranjas, para em seguida saírem zombando, chamando-o de velho caduco.

            Foi assim que, numa certa manhã, o jovem pescador se encontrava pescando nas proximidades da ilha, talvez não resistindo à fome, invadiu os pertences de Cícero e dali levou algumas laranjas. Terminada a pescaria, o jovem ganhou o caminho de casa. Na estrada, porém, sentiu que algo estranho estava lhe acontecendo: uma sensação nervosa, aos poucos foi tomando conta do seu corpo, e a sua cabeça pôs-se a girar, a girar... Entrementes, um conhecido que também pescava por ali, o encontrou em estado lastimável. “Pepita” estava aluado: rodopiava, falava asneiras e cantava assim: “O batalhão tá me chamando/ estou aqui seu coroné”. O rapaz estava tresloucado, e muito lhe custou a recuperação. Cícero ficou sabendo do acontecido e sempre que ia ao povoado, comentava para os mais íntimos: “Bem feito!  Nunca mais ele terá a petulância de roubar as minhas laranjas”.

            O velho Cícero viveu por muitos anos naquela ilhota, “Ilha de Cícero”.


(SALOBRINHO - Encantos e Desencantos de um Povoado)
Sherney Pereira

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segunda-feira, 18 de junho de 2018

COPA DO MUNDO E CIVILIZAÇÃO CRISTÃ – Jurandir Dias


18 de junho de 2018
♦  Jurandir Dias
Estamos em época de Copa do Mundo. Desta vez ela transcorre na Rússia e servirá para romper as barreiras ideológicas e psicológicas em relação a um país do qual Nossa Senhora disse em Fátima que espalharia seus erros por toda parte. Tal previsão, contudo, já se cumpriu, pois o comunismo se encontra, de alguma forma, instaurado em todo o mundo e até dentro da Igreja.

Esse importante aspecto da realidade contemporânea fica ofuscado pela propaganda com que somos bombardeados a respeito da Copa do Mundo.

Entretanto, algo parece estar mudando. Apesar de todo o esforço midiático, a Copa do Mundo atrai cada vez menos público. É o que observa a professora Nardele Silva, moradora de Belo Horizonte: “Este ano está muito desanimado. Ninguém está em clima de Copa do Mundo. O Brasil está vivendo um momento muito difícil, e isso está nos levando a repensar a importância dos jogos. O Brasil é o país do futebol? Pode até ser, mas também tem que ser o país de outras coisas: o país da segurança, da educação, da saúde. Então, vejo esse desânimo, vejo as pessoas virando as costas para a Copa.”[i]

Também em Portugal, o ex-ministro Pedro Santana Lopes [foto ao lado], numa entrevista para a TV SIC, em 26 de setembro de 2007,  manifestou o seu profundo desacordo com a importância tributada pela Imprensa ao futebol em detrimento dos problemas realmente importantes da Nação.

Apenas a entrevista havia começado, a jornalista o interrompe para transmitir a chegada de José Mourinho, técnico de futebol, que acabava de desembarcar no Aeroporto da Portela.

Após o repórter falar da importância daquele técnico de futebol, a jornalista retoma a entrevista:

– Volto agora a conversar com Pedro Santana Lopes, estávamos a falar…

– Sabe aonde é que estávamos? – pergunta o entrevistado.

A jornalista apenas começa a justificar aquela abrupta interrupção, o ex-ministro a interrompe:

– E acha que isso justifica? Desculpe a pergunta.

A jornalista, mal à vontade com a reação do entrevistado, tenta se justificar novamente.

O ex-ministro reage:

– Estamos a falar da interrupção. Acha que isso justifica?

E continua, ironicamente, sem deixar a jornalista apresentar as suas escusas:

– José Mourinho é mais importante que qualquer um de nós, sem dúvida nenhuma. A chegada dele põe o país em delírio e os problemas dos partidos e do sistema política não interessam nada. Só lhe pergunto: é assim que o país anda para a frente? Os senhores me convidaram para vir aqui, para vir falar destes assuntos importantes, eu vim com sacrifício pessoal, um sacrifício pessoal, chego aqui e sou interrompido por causa da chegada de um treinador de futebol! Acho que o país está doido, desculpe dizer. Com todo o respeito, e, portanto, eu não vou continuar a entrevista. As pessoas têm que aprender, peço desculpas, mas não vou continuar, sem nenhum preciosismo. Agora, eu tenho regras e não quebro minhas regras.

Após anos de paulatina destruição dos alicerces da sociedade e de inversão de valores promovido por forças hostis à civilização cristã, as quais utilizam o futebol que privilegia os pés e não o trabalho intelectual, parece que está havendo uma sadia reação. É o que fazem transparecer as declarações da professora mineira e do ex-ministro português. Queira Deus que este estado de espírito se mantenha não só no Brasil e em Portugal, mas no mundo inteiro!
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EM ENTREVISTA, PIAZA MERIGHI APRESENTA ‘O CONTO DE Y’


 Publicado: 27 Maio 2018 
Por Shirley M. Cavalcante (SMC)

Piaza Merighi, é advogado, morador de Porciúncula, no interior do RJ (pode não parecer, mas apesar do nome, é uma cidade real), nerd assumido, leitor inveterado e agora escritor.

“Quando escrevi o final. Era exatamente o que eu queria fazer com aqueles personagens (sem spoilers!), mas materializar seus destinos finais na escrita foi mais difícil do que pensei.”
Boa leitura!


Escritor Piaza Merighi, é um prazer contarmos com a sua participação na Revista Divulga Escritor. Conte-nos, o que o inspirou a escrever “O Conto de Y”?

Piaza Merighi - Desde criança sempre gostei muito de ler, hábito que se intensificou ao longo da vida. Mas daí a decidir me arriscar como autor foi algo que levou tempo e coragem…Tenho um gosto especial pelo universo fantástico, um tipo de literatura complexo e não tão comum no Brasil, mas muito bem representada por nomes como Affonso Solano e Eduardo Spohr. Então, acabei decidindo por essa ambientação para meu primeiro livro.


Como foi a escolha do título?

Piaza Merighi - O livro narra a história de Y, um guerreiro mercenário em um reino em guerra; então, o título acabou sendo uma consequência meio lógica.


Apresente-nos a obra.

Piaza Merighi - “Uma terra de monstros e magia, onde criaturas vagam atacando inocentes, e feiticeiros lidam com forças capazes de corromper o mais íntegro dos homens. É nesse cenário que Y, um aventureiro viajante, aceita uma missão supostamente simples para resgatar a filha de um líder local, mas se vê envolvido nos planos da Làithean, um grupo de druidas e magos que não hesita em assassinar cidades inteiras para atingir seu objetivo: vingar a derrota dos elfos em uma guerra ocorrida séculos atrás e garantir que a natureza se sobreponha aos humanos e demais raças.”


Quais os principais desafios encontrados para produção do enredo que compõe a obra?

Piaza Merighi - O principal desafio foi manter o foco, criando uma narrativa simples e envolvente, sem sobrecarregar com fatos ou informações que pudessem ser um obstáculo ao leitor.


Dizem que os personagens têm muito do autor. Qual dos personagens de “O Conto de Y” tem mais de você? Por quê?

Piaza Merighi - Gosto de todos os personagens, uns mais que outros, mas daí a dizer que tem algo meu… não, não é o caso.


Quais critérios foram utilizados para a escolha de nomes dos principais personagens que compõem a trama?

Piaza Merighi - O caso mais significativo é Y, o protagonista guerreiro/mercenário, com um nome inspirado no personagem de “O Castelo”, de Kafka, e na matemática. Assim como o pobre K, Y também é só isso, uma letra, nem mesmo um nome; e sendo tradicionalmente a letra “x” a designação de algo incógnito, o protagonista não chega nem mesmo a ser um X, ele é só um Y em seu conturbado mundo em guerra.


Qual o momento, enquanto escrevia a obra, que mais o marcou? Comente.

Piaza Merighi - Quando escrevi o final. Era exatamente o que eu queria fazer com aqueles personagens (sem spoilers!), mas materializar seus destinos finais na escrita foi mais difícil do que pensei.


Onde podemos comprar seu livro?

Piaza Merighi - “O Conto de Y” está disponível no site da Drago Editorial e pelo site do livro. Além disso, quem quiser conhecer mais, pode visitar a página no facebook.

https://www.livrariadragoeditorial.com/products/pre-venda-o-conto-de-y-piaza-merighi (apesar do link, não é pré-venda, mas venda oficial)

Quais os seus principais objetivos como escritor?

Piaza Merighi - Acredito que, independentemente de qualquer coisa, um bom livro é aquele que o leitor gosta, que prenda sua atenção. Se conseguir isso, já estarei satisfeito.


Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista. Muito bom conhecer melhor “O Conto de Y”, do escritor Piaza Merighi. Agradecemos sua participação na Revista Divulga Escritor. Que mensagem você deixa para nossos leitores?

Piaza Merighi - Aqui, eu gostaria de agradecer a oportunidade desse espaço; afinal, até há pouco tempo eu era só um leitor, e agora estou no meio de autores excelentes.


Divulga Escritor, unindo você ao mundo através da Literatura


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ABL: JURISTA E EDUCADOR JOAQUIM FALCÃO FALA NA ABL SOBRE CULTURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA, NA TERCEIRA PALESTRA DO CICLO ‘A CULTURA EM PROCESSO’



A Academia Brasileira de Letras prossegue com seu ciclo de conferências do mês de junho de 2018, intitulado A cultura em processo, sob coordenação do Acadêmico e professor Domício Proença Filho, com palestra do jurista e educador Joaquim Falcão (Acadêmico eleito para a Cadeira 3 da ABL, no dia 19 de abril). O tema escolhido foi Aspectos da cultura brasileira contemporânea. O evento está programado para quinta-feira, dia 21 de junho, às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.

A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado, Primeira-Secretária da ABL, é a Coordenadora-Geral dos ciclos de conferências de 2018.

Serão fornecidos certificados de frequência.

A cultura em processo terá mais uma conferência no mês de junho, na última quinta-feira do mês, no mesmo horário e local, com o seguinte palestrante e tema, respectivamente: dia 28, Acadêmico Domício Proença Filho, Língua, cultura e identidade nacional.

Joaquim Falcão adiantou, resumidamente, parte de sua palestra: “Uma interpretação descritiva de como Gilberto Freyre e seu conhecimento do social, Roberto Marinho e seu conhecimento das comunicações, e Celso Furtado e seu conhecimento da economia influenciaram e moldaram a cultura brasileira no final do século XX. E moldam ainda hoje.

O CONFERENCISTA

Jurista, educador, intelectual público, Joaquim Falcão, 74 anos, nasceu em Botafogo, no Rio, mas mantém origem e vínculos com Olinda, Pernambuco. Bacharel em Direito pela Universidade Católica do Rio de Janeiro (Summa cum Laude), é mestre em Direito na Harvard Law School, mestre em Planejamento de Educação e doutorado, na Universidade de Genebra. Foi Diretor, na década de setenta, da Faculdade de Direito da PUC-Rio. Professor Associado da Universidade Federal de Pernambuco e Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fundador e professor titular da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro.

Trabalhou diretamente com Gilberto Freyre, que o convidou para criar, na Fundação Joaquim Nabuco, o Departamento de Ciência Política. Desse período, organizou, com Rosa Maria Araújo, o livro O Imperador das Ideias, publicado em 2010 pela Topbooks, Rio, no qual analisa as disputas entre Gilberto Freyre e a USP. Foi chefe de gabinete do Ministro da Justiça Fernando Lyra e indicado pelo Presidente José Sarney para a Comissão Provisória de Estudos Constitucionais, a Comissão Afonso Arinos. Os artigos da atual Constituição sobre veto legislativo (art. 57, 3º, IV) e sobre a ampliação de patrimônio cultural, integrado por bens materiais e imateriais (art. 216), de sua inciativa, foram aceitos pela Assembleia Nacional Constituinte.

Indicado pelo Senado, foi conselheiro representante da sociedade civil na primeira gestão do Conselho Nacional de Justiça, presidido pelo Ministro Nelson Jobim. Quando então se combateu o nepotismo e os adicionais salariais dos magistrados. Trabalhou diretamente com o Ministro da Cultura Celso Furtado, que o convidou para presidir a Fundação Nacional Pró-Memória, responsável pelas principais casas de cultura do Brasil, tais como Biblioteca Nacional, Museu Nacional de Belas Artes, Museu Histórico Nacional, Cinemateca Brasileira, Museu Lasar Segall e tantas outras. Antes, tinha trabalhado com Aloísio Magalhaes e o Ministro da Educação, Cultura e Desportos, à época Eduardo Portella, na modernização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Dirigiu, a convite de Roberto Marinho, Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto, a Fundação Roberto Marinho, na década de noventa. Na época, criou o Telecurso 2000, que chegou a ter mais de dois milhões de alunos. Criou, também, o pioneiro Globo Ecologia, com Cláudio e Elza Savaget, e o Canal Futura, com Roberto de Oliveira. Ruth Cardoso o convidou para conselheiro da Comunidade Solidária, quando importantes avanços na organização e mobilização da sociedade civil foram feitos, inclusive a criação do GIF. Seu livro Democracia, Direito e Terceiro Setor, publicado pela Editora FGV – Rio de Janeiro, em 2006, reflete esta mobilização. Com um jovem grupo de professores de direito, de formação nacional e global, criou a Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas.

Na área jurídica, especializou-se no Supremo Tribunal Federal e publicou o livro O Supremo, pela Edições de Janeiro – Rio de Janeiro, em 2015. Organizou com colegas os livros Onze Supremos, publicado pela Editora Letramento – Belo Horizonte, em 2017; Impeachment de Dilma Rousseff: entre o Congresso e o Supremo, em 2017, editora Letramento – Belo Horizonte; e em breve sairá o novo livro o Supremo Criminal. Entre outros livros que escreveu estão também: Os advogados: ensino jurídico e mercado de trabalho, pela Editora Massangana, 1984; Quase Todos, em 2014, pela Editora FGV.

15/06/2018

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domingo, 17 de junho de 2018

A NEGRA FLORÊNCIA – Ariston Caldas


            A negra Florência era a pessoa mais conhecida de cidade. Era estonteante e mexia com a vida de todas as criaturas – pedia comida pelas portas, entrava pelas casas sem pedir licença e enrabava os meninos; entre outras patacoadas assustantes, como borrar o rosto com batom e mijar no meio da rua, suspendendo a saia ensebada de lodo. Com todas essas mazelas era negra bonita de corpo e de cara, com pernas robustas e bem-feitas.
                                                      
            - Se não for estudar a lição, vou chamar sinhá Florência!

            Meu primeiro encontro com ela deu-se numa tarde ensolarada, numa praça que me parecia ampla, recoberta com bancos de areia. Eu vinha do centro da cidade acompanhando minha mãe atufada de embrulhos, meio cansada e nervosa. Eu, lhe atormentando o juízo, com um choro insolente, resmungando, blasfemando o peso de um pacote de açúcar nos meus ombros esmirrados. Quanto mais eu andava mais o percurso me parecia infinito, enquanto os bancos de areia me entulhavam os passos, parecendo que meus pés não saíam do lugar ou andavam para trás. Nem vislumbrava ainda as palmeiras próximas à minha casa nem as colinas peladas para as bandas do poente. Tudo isso acentuava  minha intolerância, a vontade de fugir do areal queimando como fogo, entrando por meus chinelos de couro cru finos como folhas de papelão. Transformado nesse trambolho crescia minha revolta contra minha mãe; ela seria culpada por meu suplício aguentando no lombo um pacote de cinco quilos, embaixo de um sol quente como brasa; sobre ondas de areia movediça dificultando meus passos, enchendo meus chinelos, triturando meus pés ameaçados por cãibras. Eu não reparava que minha mãe ainda ia muito mais sacrificada. A momentos ela perdia a paciência e gritava:

            - Anda ligeiro, menino!
            As advertências me deixavam mais irritado e minhas malcriações me chegavam à garganta.

            - Não quer andar depressa, não? Olhe sinhá Florência! – Acrescentou assustada, enquanto a negra, a passos largos, aproximava-se.

            Trajava uma saia longa, rodada e florida de vermelho, e nua da cintura para cima. Os seis duros da negra pareciam dois cones de pedra e os cabelos estavam eriçados como de porco espinho. Aproximando-se, ela abriu os braços, soltou uma risada esculhambada e deu para gritar nomes indecentes. Minha mãe, assustada, agarrou-me por um braço, subiu numa calçada e invadiu uma casa, enquanto a negra riscou atrás, rindo e xigando. O pacote de açúcar espatifou-se pelo chão. Minha mãe ainda pode fechar a porta, sentando-se depois num sofá de madeira, agitada e ofegante.

            - Esta negra é pior que o diabo! Credo em cruz! – exclamou. Momentos depois pude ver, pela fresta de uma janela, a negra tumultuando no outro lado da praça, arrodeada de gente e agarrada por dois soldados de polícia, ainda nua da cintura para cima.
  
(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição 2004)
Ariston Caldas

  
Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia,  em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico Terra Nossa, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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“DIREITOS” DE RIOS E BICHOS… - Marcos Machado


14 de junho de 2018
Deus, o homem e o uso dos seres irracionais

♦  Marcos Machado

 “Direitos de rios e bichos” é o título artigo publicado por Marlen Couto no jornal “O Globo” do dia 1º do corrente mês de junho: “Um rio pode entrar na Justiça para defender-se da poluição? […] a Justiça Federal de Belo Horizonte analisa se aceita ou não uma ação movida em novembro pela ONG Pachamama em que o próprio Rio Doce pede seu reconhecimento. […] a mudança de tratamento na lei, na avaliação de seus defensores, amplia a proteção ambiental ao aproximar direitos de rios e animais, por exemplo, aos garantidos aos humanos”.

Como mineiro nascido na bacia do Rio Doce, sinto-me especialmente à vontade para tratar do tema. Caudaloso, manso e simpático, esse rio alimenta, atrai e distrai os mineiros e os capixabas, em cujo estado penetra para desaguar no Atlântico.

Na formulação da pergunta posta pela ONG Pachamama há um erro de raiz: um ser irracional não é passível de direito — a capa de um livro ou paralelepípedo da rua, por exemplo.

Rios e bichos têm direitos?

Não entro aqui na análise da questão jurídica — não sou da área — sobre se um ser irracional é passível ou não de direitos pelo nosso atual Código.

Minhas considerações são de outra natureza: a focalização correta do problema está no homem, que é, segundo as Escrituras Sagradas, o Rei de Criação: “Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a, e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu, e sobre todos os animais, que se movem sobre a terra (Gen. I, 28).

Criado à imagem e semelhança de Deus, o homem resume em si todo o universo criado: ele tem uma alma espiritual e um corpo material no qual existem elementos vegetais e minerais.

Por isso, a solução do problema está no modo pelo qual o homem faz uso dos seres racionais e irracionais, envolvendo, portanto, um problema moral.

Violação da ordem natural

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira explica em termos muito acessíveis a solução do problema: Deus concedeu ao homem o direito de usar das criaturas, mas não de violar a ordem natural. Portanto, poluir a seu bel-prazer o simpático Rio Doce é violar a ordem natural das coisas posta por Deus, mas não é violar um “direito do Rio Doce”, porque enquanto ente irracional ele não é passível de direitos.

Portanto, diante da destruição estúpida de seres irracionais, “uma primeira percepção, sem mais raciocínio, nos convence de que aquilo não deveria ser destruído [o Rio Doce não deveria ser desnaturado] e que uma ordem profunda de coisas fica ferida, o que torna imoral aquela ação, por algum lado, se essa ação não tiver justificação”.1

No entanto, havendo razões justas, o homem pode alterar a natureza, sobretudo para embelezá-la. Nisso erram os ecologistas fanáticos, ao endeusarem a natureza e negarem ao homem o direito — como Rei da Criação — de, por exemplo, secar pântanos, desviar cursos de água e fazer deles magníficos jardins como os de Versailles.
Aleijadinho não violou os “direitos” da pedra sabão

“Uma destruição estúpida de algo que existe, sobretudo se existe de um modo excelente, nos dá uma sensação contrária à ordem natural das coisas; uma ação contrária à ordem natural das coisas porque, em última análise, a ordem natural das coisas é a do ser. Tudo aquilo que é, é normal que seja; e que seja conforme a sua natureza; e que só seja destruído tendo uma razão de ordem superior.

“É esta noção de algo que é, e que não deve ser destruído; essa percepção de que, aquilo que é, não deve ser destruído; mas, pelo contrário, deve ser aperfeiçoado, deve ser elevado.”

É normal que a pedra sabão seja como é. Mas, o Aleijadinho não violou os “direitos” dessa pedra esculpindo, por exemplo, os magníficos Profetas de Congonhas do Campo, em Minas. É possível que os ecologistas fanáticos de hoje, se vivessem no século XVIII, fundassem alguma ONG para proteger a pedra sabão. Com isso teriam privado a Humanidade de uma das maravilhas, certamente entre as maiores, que são os mundialmente conhecidos Profetas do Aleijadinho.

 Não defendemos a destruição estúpida nem a poluição

Mostrando que os seres irracionais (entre eles os rios e os bichos) não têm direitos — porque não têm alma —, não estamos defendendo o uso indiscriminado e selvagem desses seres, o que não raramente aconteceu com a chamada Revolução Industrial e as que lhe sucederam com o culto do dinheiro e o endeusamento do progresso.

O que o Prof. Plinio põe sobretudo em evidência é a violação de um princípio moral, de uma ordem profunda de coisas posta por Deus na Criação. Aqui, sim, devemos combater o mal na sua raiz: convidar os homens para o retorno à sabedoria.

Somente sua volta e a do senso moral podem nortear o verdadeiro progresso. ONGs, ONU e “direitos de rios e bichos” seria o mesmo que cair no erro condenado no Evangelho: tentar costurar um remendo de pano cru num tecido podre; o tecido se rompe e o rasgão fica pior do que era.

Ecologia macaqueia e deforma a Quarta Via

A falsa ecologia diviniza a natureza, tem um conceito gnóstico da “mãe terra”. Divinizando a natureza ela se mostra panteísta, e ao tentar criar “direitos para rios e bichos” manifesta uma concepção gnóstica da Criação.

Na concepção católica, a natureza e, portanto, a Criação constitui um degrau para a contemplação de Deus. A natureza não é Deus, mas tem reflexos d’Ele. Contemplar os reflexos de Deus, por exemplo, no Rio Doce seria tipicamente um exercício de Quarta Via, a qual, conforme Santo Tomás de Aquino, é o conhecimento de Deus através das criaturas.

E não poderia ser diferente, porque sendo a Criação uma obra de Deus, ela teria necessariamente de refletir aspectos do Criador.

A Quarta Via é o melhor modo de combater a falsa ecologia.


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PALAVRA DA SALVAÇÃO (83)

11º Domingo do Tempo Comum – 17/06/2018


Anúncio do Evangelho (Mc 4,26-34)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Marcos.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus disse à multidão: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece. A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou”.

E Jesus continuou: “Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus? Que parábola usaremos para representá-lo? O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra. Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra”.

Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender. E só lhes falava por meio de parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do  Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM:

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O Reino é verde

“O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra;
... e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece” (Mc 4,26-27)

Todas as religiões e culturas se servem de relatos para revelar a verdade e fazer chegar até nós a sabedoria de nossos antepassados. A revelação mais antiga e universal é que a Terra e todas as suas criaturas, assim como o ar, o solo, a pedra e a água são sagrados, e que esta verdade deve refletir-se em nossas vidas.

Como cristãos, seguir Jesus Cristo hoje é adquirir conhecimento e experiência consciente desta história oculta e sagrada. Com efeito, a Terra acolheu Jesus como acolhe toda pessoa que vem a este mundo.

É a casa verdadeira, a mais básica. Jesus sentiu a companhia desta Terra que é irmã e mãe.

Os Evangelhos destacam de muitas maneiras a boa relação que Ele teve com a Terra. Desfrutou dos caminhos andados, dos campos semeados, do vento que se assemelha ao Espírito, das árvores que servirão como parábolas do Reino, das vinhas que serão símbolo de sua oferta em novidade...

Jesus experimentou a dureza da Terra, sua aspereza no deserto e o calor de seu abrigo à hora da morte; pisou o chão de terra batida, machucada, rasgada... Teve uma mentalidade inclusiva porque, no fundo, entendeu que tudo estava relacionado e que as coisas e as pessoas espreitam o mesmo horizonte.

O ritmo da natureza inspirou Jesus para anunciar que o Reino também tem seu ritmo e seu momento. Não o acelera a impaciência de uns nem o paralisa o fracasso de outros. Não somos nós que levamos o Reino em nossas mãos, mas é nossa missão ajudar a desvelá-lo (tirar o véu) na vida humana como o dinamismo mais profundo da existência. O Reino alcança a todos, ninguém fica excluído; ele não está fechado dentro dos limites de uma igreja ou das religiões.

Ninguém tem a exclusividade do Reino, e por isso mesmo devemos viver constantemente despertos para descobri-lo e acolhê-lo ali onde se faz presente, seja onde for.

Precisamos cultivar processos. O Reino tem seu tempo, o tempo de Deus, que não coincide necessária-mente com os nossos tempos, projetos e ansiedades. Saber distender-se nos processos, não querer acelerá-los pela ansiedade que nos chega de uma cultura estressante, nem nos paralisar diante de um ambiente de desencanto, é uma grande sabedoria. Atravessamos momentos favoráveis e luminosos como o dia, e momentos desfavoráveis como a noite, com sua obscuridade e seu desconcerto. Não podemos nos apoderar dos momentos luminosos, nem nos perder nas trevas obscuras e ameaçantes: “o agricultor vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo...” 

Por isso, a melhor imagem que Jesus encontrou para expressar essa “presença misteriosa” do Reino é a da semente. Na semente acha-se presente uma grande força de crescimento. A força da vida, contida na semente, envelhecerá e se apodrecerá se não houver quem confie nela, se não houver quem arrisque sua terra, seu tempo e seu trabalho. Quando a semente é enterrada na terra, ela já conhece o seu caminho; escondida ali, debaixo da terra, envolvida pelo absoluto silêncio, a semente germina e vai crescendo.

Mesmo à margem de todo e qualquer esforço que possa ser feito pelo agricultor, “a terra por si mesma produz fruto”, ultrapassando etapas precisas e bem definidas, que de modo algum podem ser modifica-das, apressadas ou suprimidas. O importante é dar frutos no seu devido tempo.

“As sementes armazenam possibilidades misteriosas e surpreendentes aos nossos olhos. Cada semente é uma fonte, um desfecho, uma pausa da eternidade. Ser semente é possuir todas as idades, todos os percursos, todas as histórias. É preciso prezar a coragem das sementes. Apodrecer para inaugurar o fruto. Cada semente, como poesia, é um bilhete para viagens” (Campos Queiroz).

“O Reino é verde”: as parábolas do Reino nos animam a “descer” junto à natureza com um sentimento e uma visão de parentesco; todos procedemos das mesmas entranhas amorosas do Criador. As parábolas nos ajudam a desenvolver uma relação de proximidade e um conhecimento espiritual da vida, para aproximarmos da terra com espírito de gratidão, frente a uma visão de domínio e exploração; elas também nos animam a despertar em nós um espírito de solidariedade para compartilhar os bens da terra com os pobres e os marginalizados. Este equilíbrio conserva a comunidade de vida para o futuro e promove uma esperança cósmica.

A relação com a terra, pegá-la entre as mãos, espremê-la, semear e plantar, regar e ver crescer, é um exercício espiritual para o ser humano; conhecer a terra e o entorno é conhecer o que torna possível a vida. A vida depende de uma fina camada de 15 cm ao redor da terra: por que maltratá-la, desconhecê-la, ignorá-la, desprezá-la? Dizem os cientistas que em um punhado de terra há mais biodiversidade que toda aquela que até o momento conhecemos no resto do Universo. E este milagre não nos diz nada? 

Sabemos que o “novo” sempre nasce pequeno, frágil, oculto e a partir de baixo. As sementes, muito pequenas, são colocadas na terra e desaparecem. No entanto, contém uma vitalidade oculta que as leva a germinar. O fundamental não é seu tamanho senão a enorme força transformadora que contém e sua grande fecundidade.

Submergidas na terra, as sementes vivem um lento processo até poderem liberar uma vida nova e abun-dante. Mas para que isto aconteça sofrem uma certa morte: para gerar vida, entregam sua vida.

Não esqueçamos que somos terra e em terra nos converteremos.
Somos terra de Deus, alimentada pela seiva de seu Espírito. Sobre esta terra, Deus plantou a semente de seu Reino para que germine, cresça e dê frutos. O que essa semente carrega em seu interior é um novo modo de viver e conviver, em sintonia com todas as expressões de vida.

Como as sementes na terra, somos movidos a atuar a partir de dentro, transformando a realidade e mobilizando os meios mais simples, mas com criatividade e audácia.

Viver a experiência do Reino significa, portanto, “mergulhar os pés na terra” (Lev. 25,1-24). É na obscu-ridade da terra que a planta vai buscar a força que a manterá viva, que lhe dará condição de expandir sua copa em direção à imensidão do céu. As raízes mergulham na terra de modo profundo, silencioso e lento.

Na experiência espiritual nos é pedido que mergulhemos no “chão da vida”, como as raízes na obscuri-dade, na presença do silêncio.
O movimento de enterrar profundamente as raízes possibilita alcançar a seiva, o pulsar da vida e o equilíbrio.

Sentir que somos Terra faz-nos ter os pés no chão da vida e viver em comunhão com a comunidade das criaturas. Faz-se necessário lançar raízes no mais profundo do humano e despertar todas as energias criativas, todas as grandes motivações adormecidas, toda bondade aí presente, toda decisão de assumir-se como cooperador e artífice de um novo tempo.

Sentir-se Terra é perceber-se dentro de uma complexa comunidade de seres vivos. É a diversidade incontável de seres vivos, animais, pássaros e peixes, nossos companheiros dentro da unidade sagrada da vida. A Terra produz, para todos, condições de subsistência, de evolução e de alimentação, no solo, no subsolo e no ar. Terra, nossa “casa comum”!

Sentir-se Terra é mergulhar na comunidade terrenal, todos filhos e filhas da grande e gene-rosa Mãe. A hora é de somar em prol da vida e no cuidado de todos os seres da Terra.

É para Deus que tudo converge. É Ele que tudo sustenta. É Ele que, no Amor, tudo atrai.

Texto bíblico:  Mc 4,26-34

Na oração: Mobilize seus sentidos para ver, ouvir, tocar, sentir e saborear a beleza de nossa terra.

Considere sua conexão com esta beleza e como ela lhe faz perceber o amor da Trindade ao cosmos em constante evolução.

Considere o novo sentimento de maravilha que cresce em seu coração e como dá novo sentido à sua missão de ser colaborador(a) no grande jardim do Criador.

Pe. Adroaldo Palaoro sj


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