Antônio teve
a ideia de pedir trabalho a Berenice, principalmente um cômodo para dormir. Ele
podia fazer limpeza na casa, dar uma ajeitada vez em quando no jardim da
frente, fazer mandado, nem ia exigir o
quanto ganharia, qualquer trocado para cigarro, para uma cachacinha.
Mentira que
ele nunca trabalhou, desde menino já enrolava a vida num colégio público onde
nem chegou a passar dois anos entre filadas e outras sem-vergonhices; nem
chegou a concluir o primário.
Filho de
um jardineiro, tinha lá algumas noções sobre rosas, orquídeas e girassóis; sobre outras plantas
de jardim. Só noções. Na unha mesmo nem arredar uma palha.
Arranhava mais
ou menos um violão pelas noites de vadiagem. “Vou falar com Berenice”. Foram
colegas no primário. Muita diferença entre os dois, a partir dos teres; ela
filha de comendador, homem rico, doutor honoris causa, dono de bom patrimônio
em imóveis e rurais. Ela perdeu o pai ainda mocinha, mas o venerava num quadro
pendurado na parede do quarto grande, com bigode de pontas curvas, respeitável;
gravata de lacinho, lenço branco bem dobrado no bolsinho de cima do jaquetão de
bom talhe. Lembrava da mãe reverenciando-o, toda boquinha da noite, com preces,
uma vela acesa. “Coitada, morreu poucos anos depois”.
Berenice envelhecia.
Sozinha, virgem, no mesmo casarão onde nascera. Oito quartos, mobiliada, cheia
de lustres, de cristais; família grande, quatro filhos, a mãe, o comendador,
agregados, parentes, visitas de amigos diariamente. O pai morreu, a mãe, também;
os irmãos se casaram e foram para longe; os agregados também sumiram.
Não apareceu
nenhum homem rico. Berenice foi ficando sozinha, nostálgica; distraía-se com o piano
que ficava na biblioteca; nem aprendera lá essas coisas de música, um pouquinho
além das notas que tivera nas aulas quando usava duas tranças caídas sobre os
ombros, anel de brilhante, pulseira de ouro, volta cravejada, relógio dourado e
uns brincos como derradeiro presente do comendador.
Nunca tivera
namorado, sempre vigiada; homem rico disponível nem havia no lugar; a mãe era
pedante, exigente, dera-lhe educação repelida, quase enclausurada; para o
colégio, para a missa, aulas de piano, acompanhada, olhares atravessados,
vigilantes.
Agora, vez
em quando, da janela, via Antônio passando de cabeça baixa, humilde, violão a
tiracolo, roupa suja, tamancos de pau. O sabia chamar-se Antônio. “De quê? Da Silva, de Souza?” Nem se lembrava, fora seu
colega no primário.
Ele fez a
proposta e ela aceitou com algumas exigências: “você só vai lá em cima se eu
chamar”. Ele concordou, com a cabeça; arriou a trouxa e sentou-se numa cadeira
a um canto do quarto meio-empoirado. Berenice deu-lhe a chave da porta e subiu
pela escada curva que tinha um corrimão preto e lustroso. Cuidou depois de
coisas de rotina, comeu e foi dar umas tecladas no piano; sentiu sono. “Será
que ele está com fome?” Panhou um pedaço de bolo, um bule com leite e desceu
pela escada; bateu na porta do quarto; “olhe, eu trouxe para você”. Antônio desenhou
um risinho acanhado e recebeu a comida.
E daí por
diante, foi assim: café pela manhã, almoço, refeição à noite. Berenice assuntava,
calada. “amanhã você vai comer lá em cima”. Ele foi continuou indo durante três
semanas. Comia, depois descia e ficava até às tantas tocando violão, quando não
saía para a rua.
Berenice sentia
quando ele saía e quando vinha voltando, pelo silêncio, pelo som do violão, longe.
“É ele”. Depois, o ruído da fechadura, os bulícios pelo quarto, o silêncio. “se
ele aparecesse agora!” Imaginou a cara de Antônio espiando pelo gradil da
porta, olhos assustados atravessando; sentia sustenidos de violão distantes,
morrendo pelo silêncio; depois parecia ouvir pisadas pela escada, degrau por
degrau, macias, cautelosas; olhava para
o retrato do comendador pendurado na parede, austero, de gravata com lacinho.
O piano
ficava na sala vizinha onde havia uma estante cheia de livros, coleções com
lombadas cor de ouro. Olhava para o gradil da porta através de um espelho
ovalado de cornijas pretas; fecharia o gradil, mas aí lembrou que a noite
estava quente; por ele entrava um vento agradável passando pelo corredor. Os olhos
tornavam a espiar, fugindo, chegando.
Três pancadas
na porta quase imperceptíveis. Teria sido na porta os ruídos vindos da rua que era
deserta àquelas horas? Bateram novamente.
Seria ele,
ousado, desconfiado, cheio de desejo. “Se bater outra vez eu grito”. Bateu, ela
não gritou. Fez foi levantar-se, abrir a porta, um tanto apreensiva. Era ele,
pasmo, calado como estátua.
Entrou,
sentou-se na cama, pôs as mãos espalmadas sobre o rosto; depois tirou as calças
e deitou-se, como se a cama fosse dele. Ela, silenciosa, deitou-se também e
entrelaçou-se a ele, ofegante, nervosa. Passou a noite abraçada, sentindo
cheiro de sujo, um respirar quente como
fogo; unhas lhe arranhando as costas, os seios. As partes doendo. Ele repetia
toda noite, calado, gostando.
Depois de
três semanas ela mandou Antônio embora. “Você vai hoje”. Ele não disse nada e
saiu porta a fora, calado, violão a
tiracolo.
Três meses
depois Berenice estava com a barriga enorme e quando ia deitar-se parecia ouvir sustenidos de violão
perdendo-se pela noite, entrando pelo gradil do quarto onde havia o retrato do
comendador pendurado na parede. Parecia ouvir pancadas leves na porta. Três
pancadas.
Afagava a
barriga avolumada e pegava no sono, esquecendo Antônio que nem sabia se de
Souza ou da Silva.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus a seus apóstolos: “Não
tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e
nada há de escondido que não seja conhecido. O que vos digo na escuridão
dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os
telhados! Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar
a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no
inferno! Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum
deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. Quanto a vós, até os
cabelos da vossa cabeça estão contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais
do que muitos pardais. Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor
diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que
está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o
negarei diante do meu Pai que está nos céus.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Paulo
Ricardo:
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Evangelizar nossa interioridade
“Vede, eu vos envio como ovelhas para o meio dos lobos; sede
prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10,16)
Os conflitos são constantes no caminho da fidelidade ao
Evangelho: conflitos externos que surgem a partir da presença inspiradora e
provocativa dos(as) seguidores(as) de Jesus; conflitos internos que afloram
quando a mensagem evangélica ressoa na interioridade de cada um, desvelando
seus contraditórios impulsos, tendências, dinamismos, forças...
O ser humano vive tencionado entre dois polos: entre luz e
escuridão, céu e terra, fragmentação e unidade, espírito e instinto, solidão e
vida comum, medo e desejo, amor e ódio, razão e sentimento, sagrado e
profano..., enfim, entre animalidade e humanidade.
Não se trata de alimentar uma luta entre esses dois
impulsos, como um combate entre o bem e o mal; tampouco se trata de uma leitura
moralista diante da presença das chamadas “tentações”.
O combate dualístico desemboca no puritanismo, no
farisaísmo, no legalismo, no perfeccionismo, no voluntarismo..., esvaziando a
pessoa de toda densidade humana.
A questão de fundo é saber qual dos dois dinamismos nós
alimentamos; é aqui que entra a liberdade (ordenada) para deixar-nos conduzir
pelo Espírito. O centro é o Espírito. Só quando dizemos sim a esta tensão
básica de nossa vida é que conseguimos superar a divisão interna.
Viver uma “vida segundo o Espírito” significa, antes de
tudo, chegar à compreensão e integração das polarizações internas, dos
dinamismos opostos, dos movimentos contraditórios... que nos mantêm “despertos”
e que dão calor e sabor à nossa existência.
É próprio do Espírito, reunir, integrar, conciliar,
pacificar, conduzir-nos a um “lugar interior”, a um centro de calma, onde tudo
tem seu lugar, onde tudo encontra seu espaço. Sua discreta presença nos move a
acolher em nós nosso potencial de ternura, de cuidado e de resistência diante
de todas aquelas situações e forças que desintegram a vida. A atitude
fundamental é a de sermos dóceis para nos deixar conduzir pelos impulsos do
Espírito, por onde muitas vezes não entendemos e não sabemos.
À luz do evangelho deste domingo, vamos considerar os
“conflitos internos”. E a questão primeira que surge é esta: como integrar,
pacificar, harmonizar... os “animais interiores”, para que o seguimento de
Jesus Cristo não termine num combate espiritual que desgasta, tornando pesada a
vivência cristã e levando ao sentimento de impotência e desânimo?
Sob o impulso do Espírito, somos chamados a conhecer,
reconhecer, nomear e integrar os animais que nos habitam. E caminhar
fraternalmente com eles. Cada um deles representa os instintos, impulsos,
paixões, fragilidades, sensualidade, sentimentos... que, quando não pacificados
e integrados, criam uma desarmonia interior.
Somos como a “arca de Noé”, no grande Oceano da vida,
carregando em nosso interior todos os animais, com seus instintos selvagens e
primitivos; e o maior desafio é, justamente, a harmonia e a convivência, onde
cada um deles tem sua importância, seu papel sagrado e revelador da nossa
identidade humana. São eles que nos facilitarão o acesso às nossas riquezas
interiores.
Algumas vezes agimos como uma cobra, ficamos ariscos e escondidos
como uma onça, rugimos como um leão ou atacamos como um cão feroz. Outras
vezes, até agimos igual a animais ruminantes que mastigam continuamente os
rancores e mágoas do passado.
Eles não cessam de ladrar enquanto não lhes damos atenção. É
preciso, antes de tudo, pacificar nossos animais interiores. Trata-se de
conhecê-los, aprender a linguagem deles, fazer amizade com eles para que eles
não nos destruam por dentro.
Faz parte da maturidade e crescimento pessoal encontrar e
entender, em cada um de nós, a mensagem e o desafio de animais interiores como
a pomba, o cachorro, o corvo, a serpente, a raposa, a perdiz, o lagarto, o
falcão, o lobo, o leão... Cada animal deve ser verbalizado, integrado
harmoniosamente no tempo certo e no lugar adequado. Ao fazer isso,
descobriremos as diferentes dimensões da ecologia espiritual, paradisíaca e
harmônica, para bem viver a maravilha da vida plena e em abundância.
Quando todas as energias animais são ordenadas, elas
colaboram para o conhecimento pessoal, o refinamento da identidade e a busca da
autenticidade, elas são fonte interior de sabedoria e de desfrute espiritual.
Então, os animais pacificados irão nos conduzir ao mais profundo e nos
mostrar onde o tesouro está escondido, e ajudam-nos a desenterrá-lo. Aqui está
o lado “humanizante” da vida.
Fomos forçados, durante nossa formação cristã, a viver uma
espiritualidade que nos ensinou a reprimir e a manter presos todos os
animais na gruta interior e a levantar junto dela um edifício de “grandes
ideais”. Lutar contra os animais interiores é permanecer na superfície de si
mesmo e não ter acesso às reservas de riqueza do próprio coração.
Tal vigilância e suspeita nos levaram a viver constantemente
com medo de que os animais pudessem fugir e nos devorar. Fomos obrigados a
fugir de nós mesmos, ficamos com medo de olhar para dentro de nós, pois
poderíamos correr o risco de nos deparar com os eles. Quanto mais os amarramos,
tanto mais perigosos eles se tornam; eles nos atacam por dentro, tirando a
disposição, o ânimo de viver.
Com isso nos excluímos do prazer de viver, porque tudo é
reprimido e nossa animalidade é violentada. E onde está o nosso medo pode estar
também o nosso tesouro enterrado. “Não tenhais medo deles. Não há nada de
oculto que não venha a ser revelado, e nada de escondido que não venha a ser
conhecido” (Mt 10,26).
Sem a superação cotidiana desse medo, nossa missão estará
comprometida; perderá sua força inovadora, garantida pela novidade do Projeto
de Deus. Sabemos que tudo quanto nós reprimimos nos faz falta à nossa vida. Os
“animais selvagens” tem muita força. Quando os prendemos, gera um
desgaste muito grande e fica nos faltando a sua força de que temos necessidade
para o nosso caminho para Deus, para nós mesmos e para os outros.
Nosso compromisso deveria ser a de travar um diálogo amoroso
com os animais dentro de nós. Então tornar-se-á realidade o que o profeta
Isaías prometeu: “O cordeiro e o leão andarão juntos, e a pantera se deitará
com o cabrito...” (Is. 11,6ss). O compromisso com o Reino requer de todos uma
forte dose de coragem e uma alma ágil, animada e vivificada pelo sabor da
aventura e da novidade. Vencido o medo, nós nos tornaremos autênticos,
criativos e audazes seguidores de Jesus.
Texto bíblico: Mt 10,16-33
Na oração: Na vivência cristã, o que importa é ter a coragem
de entrar na “arca interior” e dialogar amigavelmente com todos os animais.
Então eles indicarão o caminho do tesouro escondido. Este tesouro pode
ser “uma nova vitalidade e autenticidade, um sonho ousado, uma intuição,
um dom especial, o encontro com o verdadeiro eu, a imagem que Deus faz de cada
um de nós...”
“Entrar na arca” significa “buscar e encontrar a Deus”
exatamente em nossas paixões, em nossos traumas, em nossas feridas, em nossos
instintos, em nossa impotência e fragilidade... Viver uma nova espiritualidade
significa, então, não buscar “ideais de perfeição”, mas dialogar com nossas
paixões, nossas fragilidades, nossas carências...Poderíamos nos interrogar o
que é que Deus deseja nos revelar por meio delas, e como justamente através
delas Ele deseja nos conduzir ao tesouro escondido no interior de nossa
vida.
Depois dos foguetórios de hoje a noite 24/06, as esfregações
nos forrós, licores e bebidas quentes, dias adiante teremos festa similar em
homenagem ao velho Pedro, grande escudeiro de Jesus Cristo, porteiro do céu,
meio confuso operador das estações climáticas e, para coroar as suas diversas
funções, é também o maravilhoso padroeiro da viúvas!
As festas de tão parecidas que são, pode ser considerada a
festa de Pedro, como se fosse um “micareta”, pois, normalmente sendo animada,
sempre é menor que a de João, mesmo sendo ele um ministro de Deus dos mais
conceituados e eficientes! Isso é para que vejamos, nem sempre os mais
trabalhadores, são agraciados pelo povo. Mas, como a tradição da fogueira
pertence ao nascimento de João (não havia internet e as fogueiras eram sempre
os avisos entre os distantes moradores do passado), o privilégio do evento
sempre será dele, Pedro apenas pegando a rebarba!
Que todos os santos estejam abençoando os profanos devotos
que, pelas estradas a fora, estarão se dirigindo para as cidades que comemoram
com expressividade o dia do barbudo Santo, chamado e bendito Pedro!
Quanto as maravilhosas quadrilhas, essas abrangentes aos
doze meses do ano, vamos deixar para os políticos de Brasília, esperando todos
nós para ver os que vão dançar!
Se a nossa justiça for mole como canjica, tudo vai virar
“pamonha” ou a costumeira PIZZA!
Dos laranjais de Sergipe e das montanhas do Líbano
O pequeno
vapor apitou na entrada da barra.
A maré
alta já lhe permitia navegar até o cais depois de quase duas horas de espera
fundeado ao largo.
Do lado
da cidade, muita gente apinhada ao longo da ponte de madeira: eram carregadores
a espera de bagagens, comerciantes que aguardavam mercadorias encomendadas, moleques
desocupados frequentadores habituais da beira do cais, meretrizes à cata de
marinheiros, homens de diferentes condições sociais à espera de parentes ou
amigos que chegavam, ou simplesmente de notícias.
A pequena
cidade de São Jorge dos Ilhéus movimentava-se naquele momento com o seu cais,
onde desembarcava gente e de onde partiam barcaças carregadas de cacau e piaçaba,
sem falar no vai-e-vem de canoas e saveiros de pesca nas imediações.
Mas, era
no vapor que apitava e, balançando, ia se aproximando do cais, que se
concentravam todas as atenções e interesse. Era ele um dos que, de mês em mês,
chegavam a Ilhéus vindo de Salvador. A sua chegada era sempre ansiosamente
esperada por todos e pelos mais variados motivos.
Colocada a
escada, depois de atracado, a descida dos passageiros era um espetáculo
especial: como sempre, mulheres amarelas de cara enjoadas e roupa amarrotada
agarradas às suas crianças, homens de todas as idades, uns vestidos
modestamente com seu baú sob o braço, outros endomingados. Os carregadores que
logo subiam a bordo, já desciam atravancados das mais variadas bagagens: malas
de couro, algumas bem apresentadas, outras amarradas de corda, baús,
espreguiçadeiras, caixotes, sacos de viagem, embrulhos e mais embrulhos.
Mas,
desses vapores desciam também senhoras elegantes, de chapéu e luvas, roupa
requintada, brincos e anéis de brilhantes, de braço dado com o marido, algum coronel
ou doutor de Ilhéus, vindos da capital, ou moços bem vestidos da cidade, que a
negócio ou estudo estavam em Salvador.
Mas, em geral, os passageiros eram na maioria pessoas
simples, vindas de Sergipe, que se destinavam a Tabocas. O novo Eldorado era
uma tentação irresistível; atraídos por ele, deixavam suas cidades e lugarejos
e partiam via Salvador para a enfadonha viagem de mar, para a mata e a lama do
arraial.
Depois de
desembarcarem em Ilhéus, tinham ainda pela frente o desconforto e peripécias de
um percurso a ser feito de canoa e outro no lombo de burro, quando não a pé, durante dois e até três dias. O Banco da
Vitória era um pouso obrigatório antes que atingissem Tabocas. Naquele lugarejo
era que se arranjava montaria ou simplesmente se descansava antes de enfrentar
a segunda etapa da viagem.
Aqueles sergipanos
desembarcados traziam, além da força de seus braços para o manejo do machado, a
vontade de prosperar, sangue bom para a
nova terra adotiva, tenacidade e, sobretudo, capacidade de trabalho. E aqui
chegando, lutavam e iam crescendo com a Itabuna que surgia. Enfrentaram a mata,
abriram picadas, expondo-se às investidas de índios e ataques das onças,
correram o perigo das cobras venenosas e da febre mortal. Enfrentando a
violência do meio, plantaram cacau. Outros, dedicando-se ao comércio, abriram
suas vendolas ou “tabocas” como eram chamadas, suas pequenas oficinas de
trabalho onde, com afinco, labutaram. Todos queriam prosperar. À nova terra iam
facilmente integrando-se e compartilhando de suas alegrias e dissabores,
dificuldades e vitórias e, acima de tudo, de suas elevadas aspirações.
Implantados
na boa terra Grapiúna, criaram raízes fortes e profundas que sustentaram com
vigor uma grande árvore que fizeram crescer.
Dos fortes
braços sergipanos, de seu trabalho inteligente e tenaz, nasceram fazendas de
cacau, empórios comerciais; foram muitos os que fizeram fortuna. Famílias
pioneiras geraram filhos e demais descendentes que são, hoje, ramos vigorosos
daqueles velhos troncos ancestrais.
Daqueles tempos
mais distantes, além dos Oliveira, dos Alves e Pinheiro, chegaram a essa terra
Ramiro Nunes de Aquino, Paulino Vieira, Tertuliano Guedes de Pinho, Rodolfo Cunha, José Lúcio da Silva, Nilo
Santana. Com o tempo vieram ainda Francisco Fontes, José Fontes Torres, Daniel
Rebouças, Francisco Benício dos Santos, Oscar Marinho Falcão, Nicodemos
Barretto, Francisco Briglia e tantos e tantos outros que lutaram no incipiente
comércio ou nas roças, com espírito forte, na perseverança de quem quer vencer.
A vida dos
pioneiros não foi fácil. Muitos homens dos que se embrenharam na mata, levaram
vida dura, muitas vezes atolados na lama, sem meios de transporte, buscando na
terra virgem a realidade com a qual sonhavam. Comiam do que plantavam ou caçavam.
Alguns nem podiam dispor de mão-de-obra suficiente a ajudá-los. Por isso mesmo,
muitas esposas compartilharam com o marido de todas as durezas do trabalho da
mata. De manhãzinha muito cedo, sem esperar que o sol se levantasse de todo,
ainda no lusco-fusco da madrugada, marido e mulher deixavam a casa ou o rancho
em busca do roçado. Marchavam com os pés molhados do orvalho, quando não o
corpo transido do frio da manhã úmida e chuvosa. Abnegadas mulheres, aquelas
companheiras decididas e corajosas que de volta a casa, no cair da tarde,
depois dia de labuta, ainda buscavam energia para ir ao ribeirão limpar a caça
pegada no mundéu, preparar de noite o almoço para, no outro dia, antes de
romper o sol, partir com o seu companheiro para o trabalho na mata. A caminhada
que enfrentavam todo dia era grande; por
isso o almoço já ia preparado no alforje: feijão verde, carne de caça moqueada
e farinha de mandioca ou aipim cozido. No vasto pedaço de terra já limpo, as
sementes eram plantadas. No dia seguinte, aquele trabalho se renovaria adiante,
sempre adiante em busca de uma realidade pela qual achavam válidos todos os
sacrifícios – a roça de cacau. A duras penas iam eles ampliando suas
plantações, amealhando o produto de seu trabalho para novos empreendimentos. Assim
nasceram fortunas e se fizeram grandes patrimônios que iriam, mais tarde,
enriquecer a região. Não era fácil vencer as vicissitudes do meio rude, quando
o homem dispunha unicamente de sua iniciativa e inteligência. Sem estradas, sem
eletricidade e meios de comunicação, sem transporte a não ser lerdas bestas de
carga, só a vontade de vencer podia dar força necessária para as arrancadas a
que se propuseram com destemor aqueles lutadores.
Mas, não foi só aos laranjais de Sergipe que chegou o cheiro
gostoso do cacau sulbaiano. Ele se espalhou para muito, muito mais além.
Atravessou oceanos e chegou a outros continentes. Subiu as montanhas do Líbano
e lá encantou a muitos com a sua magia. Famílias libanesas, também atraídas,
desembarcaram nas terras ricas do Sul e fizeram delas a sua terra. Rijos como
os velhos cedros de seu país de origem, esses imigrantes vindos de outra parte
do mundo também labutaram no comércio e na lavoura da nova terra, a amaram e
aqui fizerem descendência. Entre os primeiros, chegaram os Maron, os Hagge, os
Midlej, os Agle, Abdon e Habib.
Acreditavam
aqueles sírio-libaneses não só no cacau, mas no futuro de todo aquele chão que
pisavam. E, nas ruas lamacentas da nascente vila de Tabocas, abriram alguns
deles suas pequenas e sortidas lojas.
Aqueles gringos
de fala embolada e modos corteses despertavam atenção especial da parte de
muitos velhos e rudes moradores, e traziam com seu trabalho inovador, um novo
aspecto ao incipiente comércio da recém-criada vila de Itabuna. Nomes pomposos,
antes nunca vistos naquelas ruas tortuosas de casinhas modestas, apareceram
então pintados em tabuletas, como Parc Royal, Palácio Central, Empório
Americano. Acreditavam eles que nas terras enlameadas da turbulenta vila,
estava a riqueza. A prova era o ativo movimento de tropas carregadas de sacos
de cacau na época da safra a despejar fortunas nos grandes depósitos dos
armazéns, nas boiadas cada vez maiores que passavam beirando o rio para
abastecer a população crescente.
Disposição
para o trabalho não faltava àqueles imigrantes libaneses que trocaram a sombra
dos vetustos cedros e oliveiras da terra natal pelas promessas dos jovens
cacaueiros. Com otimismo aprenderam e substituir a terna carne de cabrito
montanhês pelo charque bem curtido vindo do sertão de Conquista.
As árvores
de frutos dourados plantadas pelas mãos calosas de homens destemidos, foram
regadas com suor e até com sangue. Mas cada pé foi plantado com o idealismo e
tenacidade daqueles que querem vencer e defendido com a coragem dos fortes.
Outros migrantes
vieram do próprio estado e de outros, que não plantaram cacau, mas ideias e
valores espirituais. E foi pelo trabalho, idealismo e coragem desses que aqui chegaram,
que se consolidou uma comunidade consciente de sua força, herança dos bravos
pioneiros.
A recusa pelo TSE a cassar a chapa Dilma-Temer pode ter sido
a gota d’água que transbordou o pote de mágoas dos brasileiros. Nas redes
sociais, recorrente, uma indignação sofrida.
Apesar das caras e bocas que com lábios frouxos pronunciam
com desprezo a palavra povo; da frieza com que provocam a repulsa da sociedade;
da vaidade tragicômica que atinge píncaros do ridículo; apesar de vocês, juízes
que comprometem a Justiça, há no país um genuíno desejo de decência.
O novo Brasil que está nascendo falou, no julgamento do TSE,
pela voz do ministro Herman Benjamin, que se recusou a ser coveiro da verdade.
A verdade ficou ali, gritante, reiterada por dois ministros do STF, Luiz Fux e
Rosa Weber.
Apesar de vocês, políticos canastrões no papel de
estadistas, com seus peitos estufados, suas gravatas espaventosas, apesar dos
seus porões noturnos, seus sussurros e maquinações escabrosas, suas mesadas
milionárias, seus empresários tão amigos, apesar da venda do país e de nós
todos ao longo de décadas, todos rindo muito, trocando de cúmplices como de
sapatos, nessa omertà insultuosa aos brasileiros que lhes sustentam com seu
trabalho. Apesar de vocês, contra vocês e mais forte do que vocês, um outro
Brasil já existe como querer coletivo.
À decisão do TSE, à profunda revolta que provocou, veio se
somar, dias depois, o suicídio político do PSDB. O partido que se demarcara do
PMDB em nome da ética, contra todas as evidências de corrupção no governo decide
continuar a apoiá-lo e protege seu próprio presidente enredado em gravações
espantosas. O que põe a nu uma nova clivagem que não se pode chamar de
política, já que os partidos esvaziaram o sentido dessa palavra. Uma clivagem
que não é sequer ideológica, é moral.
A verdadeira clivagem é entre corrupção e honestidade. De um
lado, a corrupção que contamina todos os grandes partidos em um gigantesco
esquema de cumplicidade, entre si e com empresas bandidas; do outro, a
população, ofendida, para quem honestidade na vida pública é meio e fim de um
Brasil refundado. Que quer ver desaparecer da vida pública esses homens e
mulheres que já não representam posição política alguma, apenas os seus
próprios interesses de poder ou de dinheiro.
O desprezo é um sentimento quase sempre recíproco. A
população despreza quem a despreza, o que em si já é parte do novo Brasil. Os
partidos sabem disso. Daí quererem impedir candidaturas independentes,
restringindo a escolha do eleitorado ao seu círculo incestuoso, onde jogam o jogo
do toma lá dá cá, um abraço de afogados. Fingem não saber que o problema não é
mais de política, e sim de polícia. Inútil, mais cedo ou mais tarde as
sentenças virão.
A trama criminosa que se instalou no Brasil e que não tem
paralelo no mundo continua viva e atuante, tentando a todo custo neutralizar a
Lava-Jato e, se possível fosse, destruí-la. Esta persistência no crime fere a
democracia e deixa uma cicatriz. E ainda nos expõe ao risco real e iminente de
enfunar as velas de uma abominável extrema-direita pronta para aproveitar-se do
vazio de poder aberto pela derrocada do sistema político.
Para além da luta contra a corrupção, da afirmação do fato
moral, é urgente vertebrar a sociedade que queremos. Novas lideranças
conquistarão o seu lugar na medida em que apresentem ideias e propostas para
reconstruir o país, refundando a política e a democracia sobre os escombros que
herdamos.
Ponto nevrálgico desse legado maldito avulta, entre outras
misérias, a violência. A tragédia de jovens pobres e negros que se matam entre
si, sem saber quem são nem por que vivem, a quem foi negada mínima chance de
uma verdadeira escola, capacidades e valores, jogados no colo dos traficantes.
Os que não morrem adolescentes vão agonizar em prisões concentracionárias, as
mãos entre as grades em gestos de pedintes ou loucos. Políticos desonestos, que
lhes roubaram a possibilidade de outro destino, também são culpados de seus
crimes, da guerra nas ruas que está levando tanta gente a abandonar o Brasil.
Também roubaram o futuro dessas crianças transformadas em exilados. E continuam
dando a todos os jovens o pior dos exemplos, o da insensibilidade moral.
Vocês são hoje fantasmas, sentados em suas nobres cadeiras.
Seu tempo acabou. Porque se o poder vem de cima, e se negocias nos porões, a
confiança vem de baixo, e essa confiança vocês perderam.
- - - x - - -
Registro aqui minha repulsa à agressão sofrida pela
jornalista Míriam Leitão. A intolerância dos agressores atingiu não só a ela,
também à liberdade de imprensa.
O Globo, 17/06/2017
Rosiska
Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL. Eleita em 11 de
abril de 2013, é escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma
trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo
Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo, falecido em 23 de dezembro de 2012.